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quinta-feira, 11 de abril de 2024

O Casamento do Meu Melhor Amigo


 Ainda na década de 1990, a carreira da estrela Julia Roberts, então a rainha das comédias românticas da época, havia estagnado –filmes insossos e repetitivos, e tentativas pouco eficazes de fazer cinema sério, começavam a fazer o público se cansar de sua bela imagem. Foi então que o diretor australiano P.J. Hogan (realizador da pérola “O Casamento de Muriel”) conseguiu revitalizar seu estrelado ao escalar Julia para o papel principal neste pequeno conto de comicidade e engenhosidade onde –pasmem –ela faz o papel de vilã (!). O roteiro, assinado por Ronald Bass (roteirista de “O Clube da Felicidade e da Sorte” e “Rain Man”), é segundo ele próprio inspirado numa ideia que teve ao presenciar uma linda e espetacular cerimônia de casamento de amigos pessoais: Ele imaginou uma personagem disposta a estragar todo aquele evento estupendo!

Para que tal premissa, a um só tempo graciosa e ferina, funcionasse, o diretor Hogan lançou mão de elementos notáveis e surpreendentes que fogem do conceito de uma mera comédia romântica (embora, em sua simplicidade, esta produção seja uma) e agregam características de cinema de verdade –e a primeira delas é seu elenco: Na personagem de Julianne Potter, uma crítica gastronômica ciente de que está numa idade onde já deveria ter achado o homem de sua vida, Julia Roberts revela-se perfeita, engraçada e vulnerável; um equilíbrio preciso entre a ternura de outras personagens que ela já interpretou e uma predisposição para cometer estratagemas e intrigas mesquinhos que, por incrível que pareça, não fazem o público detestá-la. Também está perfeito Dermot Mulroney como Michael, o melhor amigo de Julianne e aquele a quem ela começa a enxerga, um pouco tardiamente, como a pessoa que pode, sim, ser o homem de sua vida. Tardiamente, porque Michael entra em contato com ela justamente para que seja madrinha de seu casamento iminente com a doce Kimberly (a maravilhosa Cameron Diaz, ainda uma revelação no cinema tendo feito “O Máskara” três anos antes).  Contudo, ninguém desse pessoal rouba mais a cena deste filme do que George, o charmoso, sensato e ocasionalmente perplexo amigo homossexual de Julianne (interpretado de maneira sensacional por Rupert Everett) que, lá pelas tantas, acaba tendo que fingir ser namorado dela (!). Afinal, Julianne aceita o convite do casamento entre Michael e Kimberly disposta a estar por perto durante todos os eventos que antecedem as celebrações e aproveitar a oportunidade para elaborar todos os planos possíveis para acabar com a cerimônia, certa de que é ela quem pode fazer Michael feliz.

A fim de adornar com um certo alto-astral a vilania que pontua muita da narrativa e das ações tomadas pela protagonista, o diretor Hogan se vale de um repertório esfuziante de músicas de Dionne Warwick (em especial, “I Say A Little Prayer” cantada numa cena antológica) tal e qual ele fez em “O Casamento de Muriel”, com músicas do ABBA.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Os Indicados Ao Oscar 2024


 Já estão entre nós, desde a manhã desta terça-feira, 23 de janeiro, os indicados pela Academia de Artes Cinematográfica ao grande prêmio do cinema. Algumas certezas seguem se confirmando (como o favoritismo de “Oppenheimer”, com 13 indicações) enquanto vez ou outra aparece uma surpresa inesperada (como a ausência de “Barbie”, com 8 indicações, nas categorias de Melhor Direção e Atriz). No mais, os indicados são figurinhas que têm se repetido em todas as premiações. Vamos à lista:

MELHOR FILME

American Fiction

Anatomia de uma Queda

Barbie

Os Rejeitados

Assassinos da Lua das Flores

Maestro

Oppenheimer

Vidas Passadas

Pobres Criaturas

Zona de Interesse

MELHOR DIREÇÃO

Justine Triet, por Anatomia de uma Queda

Martin Scorsese, por Assassinos da Lua das Flores

Christopher Nolan, por Oppenheimer

Yorgos Lanthimos, por Pobres Criaturas

Jonathan Glazer, por Zona de Interesse

Este parece ser o ano de Christopher Nolan, se nenhum imprevisto ocorrer (como um súbito fortalecimento de “Assassinos da Lua das Flores”, de Scorsese, com 10 indicações ou do estranho “Pobres Criaturas”, com 11, seus únicos concorrentes aparentemente mais sólidos), os fãs do realizador de “A Origem” e “Interestelar”, e autor de uma das mais aclamadas versões do Cavaleiro das Trevas poderão comemorar o premio nas mãos de seu diretor favorito. Ainda na categoria de Direção, foi inesperada (ainda que merecida) a inclusão de Jonathan Glazer e da francesa Justine Triet ocupando o lugar que muitos davam como certo para Greta Gerwig.

MELHOR ATOR

Bradley Cooper, por Maestro

Colman Domingo, por Rustin

Paul Giamatti, por Os Rejeitados

Cillian Murphy, por Oppenheimer

Jeffrey Wright, por American Fiction

MELHOR ATRIZ

Annette Bening, por NYAD

Lily Gladstone, por Assassinos da Lua das Flores

Sandra Hüller, por Anatomia de uma Queda

Carey Mulligan, por Maestro

Emma Stone, por Pobres Criaturas

A disputa de ator está se afunilando entre a precisão louvável de Cillian Murphy e a competência à toda prova de Paul Giamatti –com ligeira preferência da crítica, por enquanto, para esse último –já entre as atrizes, boa parte do público ainda está tentando digerir a ausência de Margot Robbie (que, por “Barbie”, ainda concorre ao Oscar, sim, mas como produtora, na categoria principal), assim, a competição fica entre a composição austera da sensacional Lilly Gladstone e o festejado trabalho de Emma Stone que, por sua absoluta entrega, parece ganhar certa preferência. Eu ainda torço para Lilly Gladstone, uma vez que Emma Stone (de quem eu gosto muito) já tem o seu Oscar (por “La La Land”)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Sterling K. Brown, por American Fiction

Robert De Niro, por Assassinos da Lua das Flores

Robert Downey Jr., por Oppenheimer

Ryan Gosling, por Barbie

Mark Ruffalo, por Pobres Criaturas

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Emily Blunt, por Oppenheimer

Danielle Brooks, por A Cor Púrpura

America Ferrera, por Barbie

Jodie Foster, por NYAD

Da'Vine Joy Randolph, por Os Rejeitados

Os fãs não vão deixar de notar que o Homem-de-Ferro (Robert Downey Jr.) concorre na mesma categoria que o Hulk (Mark Ruffalo), ambos por filmes bem diferentes; mas, Downey Jr. goza de um prestígio junto às premiações que só está fazendo aumentar –é provável que seu único oponente de peso seja Robert De Niro. A categoria das Atrizes Coadjuvantes trouxe uma das maiores surpresas dentre os indicados que foi a inclusão de America Ferrera –ela que se manteve ausente na maior parte das premiações anteriores. Talvez, uma compensação pela quantidade relativamente tímida de indicações de “Barbie”. Nessa categoria, no entanto, Da’Vine Joy Randolhp segue muito forte.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Justine Triet & Arthur Harari, por Anatomia de uma Queda

David Hemingson, por Os Rejeitados

Bradley Cooper & Josh Singer, por Maestro

Sammy Burch, por Segredos de um Escândalo

Celine Song, por Vidas Passadas

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Cord Jefferson, por American Fiction

Greta Gerwig & Noah Baumbach, por Barbie

Christopher Nolan, por Oppenheimer

Tony McNamara, por Pobres Criaturas

Jonathan Glazer, por Zona de Interesse

Após a surpreendente vitória no Globo de Ouro, “Anatomia de Uma Queda” desponta como inesperado favorito na categoria de Roteiro Original, embora “Os Rejeitados”, de Alexander Payne, ameace sua supremacia (os trabalhos de Payne costumam sempre ganhar esse prêmio); em Roteiro Adaptado, a forte concorrência de “Oppenheimer” bate de frente com a exaltada excelência de “American Fiction”; com o abalizamento de público de “Barbie” e certamente com a competência a exigir respeito de “Zona de Interesse”; por alguma razão, ainda não consigo simpatizar com “Pobres Criaturas” –efeito que quase todos os trabalhos de Yorgos Lanthimos têm sobre mim –mas, isso não o impede de crescer cada vez mais entre os votantes.

MELHOR ANIMAÇÃO

O Menino e a Garça

Elementos

Nimona

Meu Amigo Robô

Homem-Aranha Através do Aranhaverso

MELHOR FILME INTERNACIONAL

Io Capitano (Itália)

Dias Perfeitos (Japão)

A Sociedade da Neve (Espanha)

The Teacher's Lounge (Alemanha)

Zona de Interesse (Reino Unido)

O prêmio de Melhor Animação está, e sempre esteve, entre “O Menino e A Garça” e “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” –resta descobrirmos se a Academia irá preferir ovacionar o retorno da aposentadoria em grande estilo de Hayao Myazaki (como fez o Globo de Ouro), ou honrar a qualidade inconteste da continuação de “Homem-Aranha no Aranhaverso”.

Em Filme Internacional, surpreendeu a ausência do francês “Anatomia de Uma Queda”, que está indicado na categoria principal, o que aumenta as chances do magistral “A Sociedade da Neve” e, sobretudo, de “Zona de Interesse” –este também indicado à Melhor Filme.

MELHOR DOCUMENTÁRIO

Bobi Wine: O Presidente do povo

A Memória Infinita

As 4 filhas de Olga

To Kill a Tiger

20 Dias em Mariupol

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

O ABC da Proibição de Livros

The Barber of Little Rock

Island in Between

A Última Loja de Consertos

Nai Nai & Wai Po

MELHOR CURTA-METRAGEM

E Depois?

Invincible

Knight of Fortune

Red, White & Blue

A Incrível História Henry Sugar

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

Carta a um porco

95 Senses

Our Uniform

Pachyderme

War is Over (inspirado na musica de John & Yoko)

MELHOR TRILHA SONORA

American Fiction

Indiana Jones e a Relíquia do Destino

Assassinos da Lua das Flores

Oppenheimer

Pobres Criaturas

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"The Fire Inside" (Flamin' Hot-O Sabor Que Mudou A História)

"I'm Just Ken" (Barbie)

"It Never Went Away" (American Symphony)

"Wahzhazhe (A Song for My People)" (Assassinos da Lua das Flores)

"What Was I Made For?" (Barbie)

“Barbie” concorre consigo mesmo na categoria de Canção Original, a única em que aparentemente ele desponta como favorito –embora ele possa surpreender nas categorias técnicas, ainda que “Oppenheimer” seja onipresente –difícil vai ser prever qual das duas canções vai ganhar, a de Billie Eilish (ganhadora do Globo de Ouro, e minha aposta) ou a de Ryan Gosling (ganhadora do Critic’s Choice)?

MELHOR SOM

Resistência

Maestro

Missão Impossível - Acerto de Contas

Oppenheimer

Zona de Interesse

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

Barbie

Assassinos da Lua das Flores

Napoleão

Oppenheimer

Pobres Criaturas

MELHOR FOTOGRAFIA

O Conde

Assassinos da Lua das Flores

Maestro

Oppenheimer

Pobres Criaturas

MELHOR CABELO E MAQUIAGEM

Golda-A Mulher de Uma Nação

Maestro

Oppenheimer

Pobres Criaturas

A Sociedade da Neve

MELHOR FIGURINO

Jacqueline Durran, por Barbie

Jacqueline West, por Assassinos da Lua das Flores

Janty Yates, por Napoleão

Ellen Mirojnick, por Oppenheimer

Holly Waddington, por Pobres Criaturas

MELHOR MONTAGEM

Anatomia de uma Queda

Os Rejeitados

Assassinos da Lua das Flores

Oppenheimer

Pobres Criaturas

MELHORES EFEITOS VISUAIS

Resistência

Godzilla Minus One

Guardiões da Galáxia Vol. 3

Missão Impossível - Acerto de Contas

Napoleão

Os grandes blockbusters do ano surgem em peso nas categorias técnicas (em alguns casos, como franco favoritos!), como “Missão Impossível-Acerto de Contas”, ou até mesmo o esnobado “Napoleão” que só obteve reconhecimento mesmo por seus valores de produção; na categoria de Efeitos Visuais, por enquanto, é um consenso o brilhantismo de “Resistência”, embora minha torcida vá para o fabuloso “Godzilla Minus One”.

A entrega dos prêmios se dará no domingo, dia 10 de março.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Os Vencedores do Globo de Ouro 2024


 Neste domingo, dia 7 de janeiro de 2024, tivemos a entrega dos Golden Globe, dando o ponta-pé inicial na sempre aguardada temporada de premiações. Vamos então aos agraciados nas categorias de cinema:

MELHOR FILME DE DRAMA

Oppenheimer

MELHOR DIREÇÃO

Christopher Nolan (Oppenheimer)

MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA

Cillian Murphy (Oppenheimer)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Robert Downey Jr (Oppenheimer)

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

Ludwig Göransson (Oppenheimer)

O épico político, cerebral e autoral de Christoper Nolan sobre o Pai da Bomba Atômica sagrou-se como o grande vencedor da noite. Certamente, um filme com tais características (roteiro extremamente denso, formato narrativo desafiador e mais de três horas de duração) e que ainda conseguiu –graças a uma campanha viral (o “Barbieheimer”) bastante bem-sucedida –ultrapassar um bilhão nas bilheterias haveria de ser reconhecido e enaltecido. Nessa conjuntura, os fãs podem começar a ficar ávidos para verem a possível consagração de Nolan (podendo enfim levar um Oscar por uma obra que atende as demandas convencionais da Academia) e o reconhecimento de Robert Downey Jr, como ator coadjuvante.

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA

Lily Gladstone (Assassinos da Lua das Flores)

MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Paul Giamatti (The Holdovers)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Da'vine Joy Randolph (The Holdovers)

Ao que parece, o reconhecimento ao grande trabalho de Martin Scorsese vai se restringir às indicações e à premiação de Lilly Gladstone –uma pena, embora a premiação tenha mirado mesmo num dos mais inabaláveis quesitos do filme; a interpretação dela é, de fato, estupenda!

Surgindo como um inesperado azarão, “The Holdovers” –ou “Os Rejeitados” –de Alexander Payne levou os prêmios de Melhor Ator Cômico (para um simpaticíssimo Paul Giamati, colaborador de Payne em “Sideways-Entre Umas e Outras”) e Melhor Atriz Coadjuvante para a ótima Da’Vine Joy Randolph. Se e temporada de prêmios não trouxer nenhuma outra surpresa, dá pra ver todos chegando com certa tranquilidade ao Oscar (e, pelo menos Lilly e Da’Vine, como favoritas!).

MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Emma Stone (Pobres Criaturas)

MELHOR FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Pobres Criaturas

Também o Golden Globe confirmou um favoritismo que vinha se reforçando nas últimas semanas, a da sempre querida Emma Stone como Melhor Atriz Cômica, o que auxiliou o próprio filme onde ela está, o convicto e estranho “Pobres Criaturas”, ainda inédito no Brasil, a ganhar o prêmio de Melhor Filme de Comédia. Não é certeza que esse favoritismo de Emma se mantenha nos próximos prêmios –ao contrário do Golden Globe, ela disputará diretamente com as fortes candidatas em Atriz Dramática também, o que torna as coisas mais difíceis –mas, não há dúvidas de que o filme de Yorgos Lanthimos se beneficia de um burburinho crescente.

MELHOR ANIMAÇÃO EM LONGA-METRAGEM

The Boy and The Heron

MELHOR ROTEIRO

Justine Triet & Arthur Harari (Anatomia de uma Queda)

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA

Anatomia de uma Queda (França)

Também inesperadas foram as vitórias de Haya Miyazaki e seu “The Boy and The Heron” –ao que tudo indica, aqui no Brasil “O Menino e A Garça” –quando todos imaginavam que o prêmio iria para “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” (será que o Miyazaki ganhará mais um Oscar, depois de vinte anos? É a pergunta que não quer calar) e Justine Triet e seu “Anatomia de Uma Queda” levando os prêmios de Roteiro e Filme em Língua Não Inglesa, embora sejam essas mesmas duas categorias aquelas que menos costumam se repetir no Oscar. Ainda assim, uma obra que acaba de ganhar novas atenções de público e crítica.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"What Was I Made For", Billie Eilish O'Connell, Finneas O'Connell (Barbie)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA

Barbie

Houveram os que comemoraram (rejeitando a coragem questionadora do projeto), e os que lamentaram (grande parte do público que o fez a grande bilheteria de 2023) o fato das 9 indicações de “Barbie” converterem-se em tão somente dois prêmios (o merecido Canção Original e o novo Conquista Cinematográfica e de Bilheteria, que ficou com a maior cara de prêmio de consolação). No entanto, a obra de Greta Gerwig não deve ser, deveras, subestimada nesta temporada; o Oscar virá, com suas categorias técnicas para referendá-lo –e os prêmios de Melhor Direção de Arte e Melhor Figurinos parecem ser quase certos!

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2024


 Mal nos acostumamos com a ideia de que o frenesi de 2023 entrou em sua reta final, e já temos entre nós a lista dos indicados ao Globo de Ouro do ano que vem! O que já confirma algumas previsões para uma certa estatueta dourada; e aponta para algumas surpresas também. Eis, portanto, os indicados nas categorias de cinema:

MELHOR ANIMAÇÃO EM LONGA-METRAGEM

The Boy and The Heron

Elementos

Homem-Aranha Através do Aranhaverso

Super Mario Bros

Suzume

Wish

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA

Anatomia de uma Queda (França)

Folhas de Outono (Finlândia)

Io Capitano (Itália)

Vidas Passadas (Estados Unidos)

Society of the Snow (Espanha)

Zona de Interesse (Reino Unido/Estados Unidos)

MELHOR FILME DE DRAMA

Anatomia de Uma Queda

Assassinos da Lua das Flores

Maestro

Oppenheimer

Vidas Passadas

Zona de Interesse

MELHOR FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Air

American Fiction

Barbie

The Holdovers

Segredos de um Escândalo

Pobres Criaturas

A categoria de animação tem, em “Homem-Aranha Através do Aranhaverso”, seu maior favorito, com a boa repercussão de “Super Mario Bros” e o fascínio recente provocado por “Suzume” colocando-os logo atrás. Na categoria dos estrangeiros, curiosamente, dois filmes produzidos (e, portanto, representando) os EUA concorrem a Melhor Filme em Língua Não Inglesa, tratam-se de “Vidas Passadas”, produzido pela A4 e falado, em sua maior parte no idioma sul-coreano, e o britânico “Zona de Interesse”, dirigido por Jonathan Glazer (de “Sob A Pele”), cuja trama é toda falada em alemão. Além disso, esses dois e mais o francês “Anatomia de Uma Queda” concorrem também na categoria maior de Melhor Filme de Drama. Contudo, nessas categorias principais, apesar da presença intimidadora da grande obra de Scorsese, “Assassinos da Lua das Flores”, quem reina supremo são “Oppenheimer” (em Drama, com 8 indicações) e “Barbie” (em Comédia e Musical, com 9, o recordista!), mostrando que a dobradinha nos cinemas ocorrida no meio do ano ainda está a fascinar público e crítica. Interessante será vermos para qual deles a predileção do Oscar irá pender, uma que vez que lá os filmes concorrerão todos numa só categoria.

MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA

Bradley Cooper (Maestro)

Leonardo DiCaprio (Assassinos da Lua das Flores)

Colman Domingo (Rustin)

Barry Keoghan (Saltburn)

Cillian Murphy (Oppenheimer)

Andrew Scott (Todos Nós Desconhecidos)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA

Annette Bening (NYAD)

Lily Gladstone (Assassinos da Lua das Flores)

Sandra Hüller (Anatomia de uma Queda)

Greta Lee (Vidas Passadas)

Carey Mulligan (Maestro)

Cailee Spaeny (Priscilla)

MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Nicolas Cage (Dream Scenario)

Timothée Chalamet (Wonka)

Matt Damon (Air)

Paul Giamatti (The Holdovers)

Joaquin Phoenix (Beau Tem Medo)

Jeffrey Wright (American Fiction)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Fantasia Barrino (A Cor Púrpura)

Jennifer Lawrence (Que Horas Eu Te Pego?)

Natalie Portman (Segredos de um Escândalo)

Alma Pöysti (Folhas de Outono)

Margot Robbie (Barbie)

Emma Stone (Pobres Criaturas)

Entre os atores, até agora ninguém parece mais relacionado ao prêmio do que o irlandês Cillian Murphy, embora Cooper e Dicaprio tenham chances de crescer ao longo da temporada. Na categoria de intérprete cômico, em meio à nomes de grande estatura como o sempre amado pelo público Nicolas Cage, o ótimo Timothée Chalamet e os sempre competentes Paul Giamatti e Matt Damon, além de Joaquim Phoenix, surpreendentemente indicado pelo terror “Beau Tem Medo” (há quem lamente ele não concorrer em Ator Dramático por “Napoleão”, eu certamente não sou uma dessas pessoas), o favoritismo acabou indo para Jeffrey Wright por seu trabalho em “American Fiction”, premiado no Festival de Toronto e, recentemente, no People’s Choice Awards.

Entre as atrizes, muitos torcem por uma vitória da excelente Lily Gladstone na categoria de drama, ela que é uma das forças maiores do filme de Scorsese, a despeito da forte concorrência de Annette Bening; na categoria de comédia, podemos perceber que Jennifer Lawrence, nem fazendo uma comédia chula e vulgar consegue perder a predileção do público e da crítica (embora o seu filme também seja realmente bom), mas ela tem de enfrentar a franca favorita ao prêmio, Margot Robbie, a Barbie em pessoa!

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Willem Dafoe (Pobres Criaturas)

Robert de Niro (Assassinos da Lua das Flores)

Robert Downey Jr (Oppenheimer)

Ryan Gosling (Barbie)

Charles Melton (Segredos de um Escândalo)

Mark Ruffalo (Pobres Criaturas)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Emily Blunt (Oppenheimer)

Danielle Brooks (A Cor Púrpura)

Jodie Foster (NYAD)

Julianne Moore (Segredos de um Escândalo)

Rosamund Pike (Saltburn)

Da'vine Joy Randolph (The Holdovers)

MELHOR DIREÇÃO

Bradley Cooper (Maestro)

Greta Gerwig (Barbie)

Yorgos Lanthimos (Pobres Criaturas)

Christopher Nolan (Oppenheimer)

Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)

Celine Song (Vidas Passadas)

MELHOR ROTEIRO

Greta Gerwig & Noah Baumbach (Barbie)

Tony McNamara (Pobres Criaturas)

Christopher Nolan (Oppenheimer)

Eric Roth & Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)

Celine Song (Vidas Passadas)

Justine Triet & Arthur Harari (Anatomia de uma Queda)

Seria esta a grande chance de Robert Downey Jr. (inclusive para chegar ao Oscar como forte favorito)? É o que, até aqui, está parecendo. Entre as coadjuvantes mulheres, Jodie Foster parece destacar-se soberana, entretanto, os trabalhos de Julianne Moore e Da’Vine Joy Randolph (de “Cidade Perdida”) têm tempo para crescerem até a premiação.

Na categoria de diretores, temos a disputa que parece monopolizar as atenções entre Christopher Nolan e Greta Gerwig (com ligeira vantagem para Nolan em vista da natureza mais séria de seu filme), com Martin Scorsese correndo, por enquanto, por fora. É de se supor que a Imprensa Estrangeira compense, entre Nolan e Gerwig, aquele que perder em Direção com o prêmio de Roteiro.

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

Jerskin Fendrix (Pobres Criaturas)

Ludwig Göransson (Oppenheimer)

Joe Hisaishi (The Boy and The Heron)

Mica Levi (Zona de Interesse)

Daniel Pemberton (Homem-Aranha Através do Aranhaverso)

Robbie Robertson (Assassinos da Lua das Flores)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"Addicted to Romance, Bruce Springsteen (She Came to Me)

"Dance the Night", Mark Ronson, Andrew Wyatt, Dua Lipa, Caroline Ailin (Barbie)

"I'm Just Ken", Mark Ronson, Andrew Wyatt (Barbie)

"Peaches", Jack Black, Aaron Horvath, Michael Jelenic, Eric Osmond, John Spiker (Super Mario Bros)

"Road to Freedom", Lenny Kravitz (Rustin)

"What Was I Made For", Billie Eilish O'Connell, Finneas O'Connell (Barbie)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA

Barbie

Guardiões da Galáxia Vol. 3

John Wick 4

Missão Impossível - Acerto de Contas Parte 1

Oppenheimer

Homem-Aranha Através do Aranhaverso

Super Mario Bros

Taylor Swift: The Eras Tour

A categoria Conquista Cinematográfica e de Bilheteria é uma das duas novas categorias criadas pelo Globo de Ouro para esta nova edição –e franca favorita para deixar de existir já no ano que vem... –aparentemente feita para premiar o desempenho na bilheteria de projetos que levam o público às salas nesses tempos de streaming (o que justifica a presença, entre os indicados, do show de Taylor Swift). Nesse sentido, nenhum deles merece mais a ovação do que “Barbie”, a grande bilheteria de 2023.

A entrega dos prêmios e revelação dos ganhadores será realizada no domingo, dia 7 de janeiro de 2024.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

Donnie Brasco


 O filme “Donnie Brasco” foi indicado ao Oscar 1998 de Melhor Roteiro Adaptado, o qual ele perdeu para “Los Angeles-Cidade Proibida”. É bastante incisiva e elegante a forma com que o roteirista Paul Attanasio expõe os meandros e códigos de conduta mafiosos a medida que vai revelando motivações e temperamentos e seus personagens nesta adaptação de um famoso livro escrito por um ex-agente do FBI que trabalhou por anos infiltrado na Máfia de Nova York,

É final da década de 1970 quando o gangster Lefty Ruggiero (Al Pacino) acolhe o jovem joalheiro Donnie Brasco (Johnny Depp) em meio às fileiras de seu clã mafioso. Lefty, porém, a despeito de ser veterano e de gozar de relativo respeito entre os gangsters, não chega nem perto de ser um dos cabeças da Família Bonanno, que exerce poderoso controle sobre o crime organizado do Brooklyn. Ao receber Donnie e responsabilizar-se por ele, Lefty arrisca sua própria pele diante dos inclementes chefões. No entanto, Donnie Brasco é também o agente federal Joe Pistone, perito em infiltração cujo objetivo é reunir o máximo possível de provas judiciais contra a Máfia.

Enquanto ocupa seu lugar na quadrilha e ganha cada vez mais a confiança (e a amizade) de Lefty, Donnie testemunha a ascensão do violento Sonny Black (Michael Madsen) que galga meteoricamente os degraus da hierarquia rumo ao comando após a morte de um dos chefes. O trabalho, perigoso por si só, compromete o casamento do agente federal com Maggie (Anne Heche), assim como sua cada vez maior dificuldade em manter duas vidas paralelas (a de agente infiltrado e a de pai de família) sem colidirem-se. Além disso, a amizade genuína que acaba nutrindo por Lefty lhe coloca um dilema nas mãos; abandonar em definitivo seu disfarce entre os mafiosos significaria colocar deliberadamente a vida de Lefty em perigo.

Construído com austeridade à toda prova pelo diretor inglês Mike Newell –e excedendo-se justamente nessa seriedade ao fazer um filme não tão atrativo assim enquanto entretenimento –o filme não consegue fugir das comparações óbvias (e aqui até inevitáveis) com “O Poderoso Chefão” até mesmo pela reluzente presença de Al Pacino em seu elenco. Há, entretanto, que se reconhecer o belo desempenho de Pacino na composição desse personagem, longe de ser um ‘chefão’ como em seu trabalho mais icônico dentro do sub-gênero gangster, mas sim um subalterno do qual roteiro e direção têm notável inspiração em ressaltar as fragilidades e vulnerabilidades de sua ingrata posição. Ele e o jovem Johnny Depp compensam as poucas novidades que o filme de Newell oferece enquanto cinema, proporcionando um duelo de interpretações afiado no encontro de dois grandes intérpretes cinematográficos vindos de diferentes gerações.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Planeta dos Macacos


 Em algum momento, no largo espaço de tempo entre os filmes iniciados pelo clássico “Planeta dos Macacos”, de 1968 (cujo último exemplar, “A Batalha do Planeta dos Macacos”, foi lançado em 1973) e a nova e aclamada trilogia ‘estrelada’ por Andy Serkis como um símio digital –cujo capítulo final foi o excelente “O Planeta dos Macacos-A Guerra” –os estúdios da Fox tentaram realizar uma refilmagem do filme que iniciou toda essa mitologia.

A verdade é que durante muito tempo a Fox acarinhou um novo projeto –datam ao longo de toda a década de 1990 relatos de um contrato envolvendo o astro Arnold Shcwarzenegger no papel que antes havia sido de Charlton Heston. Como costuma ocorrer com produções endinheiradas demais e que envolvem agendas de astros requisitados, o novo “Planeta dos Macacos” não somente sofreu inúmeros atrasos como transformou-se radicalmente a medida que se revezavam diretores e atores principais em seu comando.

O filme que por fim chegou às telas de cinema naquele já longínquo ano 2000 aparentava ser quase uma repaginação do original com Charlton Heston –onde ele vive um astronauta que cai num planeta Terra povoado por macacos evoluídos –entretanto, mudanças que dizem respeito às mentes criativas por trás do projeto, converteram a aventura espacial em outra coisa; algo que, visto hoje e desprovido de qualquer continuidade que lhe amarrasse as pontas soltas, soa ainda mais incoerente do que em sua época.

Na direção –que, por muito tempo, cogitou-se James Cameron e Oliver Stone em suas especulações –quem disse sim ao estúdio acabou sendo o esteta Tim Burton que, num lance até surpreendente, construiu um filme de aventura, convencional e genérico em suas características autorais. Este “Planeta dos Macacos” é um dos trabalhos em que menos se percebe a assinatura visual de Burton, inconfundível em projetos como “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”.

No papel protagonista do astronauta Leo Davidson, entra Mark Whalberg, uma escolha que parece absolutamente aleatória. Seguindo os passos do filme original, Davidson vive numa estação espacial em órbita de um vortex. Um dos macacos adestrados do lugar, chamado Pericles, é despachado numa nave e acidentalmente acaba sugado pelo vortex, levando Davidson à segui-lo a fim de resgatar o pobre animal, contudo, por uma série de tortuosas viagens no tempo (mais ainda tortuosas pela trama pouco convincente que originam), ele cai num planeta onde o macaco Pericles em questão caiu séculos antes dele (!), e a partir desse macaco, o patriarca, digamos assim, toda uma sociedade de macacos aflorou e se desenvolveu convertendo os humanos em seus escravos.

Uma trama muito semelhante à do primeiro filme que, no entanto, troca sua objetiva ficção científica por uma embromação pretensamente intrincada.

Ainda assim, é no planeta dos macacos, propriamente dito, que o filme de Burton revela suas duas maiores forças: A primeira –se é que depois de tanto tempo isso vem a importar –é a prodigiosa maquiagem, como tinha que ser, onde a parcela do elenco encarregada de personificar os símios tem seus rostos transformados pela autenticidade animal. Se a maquiagem já era um fator de assombro no clássico de 1968, aqui, neste filme de 2001, à cargo do mago das próteses Rick Baker (de “Um Lobisomem Americano em Londres”). ela é espantosa, convertendo rostos famosos, como Helena Bonhan Carter, Michael Clarke Duncan, Paul Giamatti, Kris Kristofferson, Cary Hiroyuki-Tagawa e até mesmo o próprio Charlton Heston (numa ponta referencial e especial) em perfeitos símios; e ainda assim, tal arrojo já soava anacrônico naquela época –naquele ano, ele perdeu o Oscar de Melhor Maquiagem (ao qual nem foi indicado!) para “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel” –justificando a mudança de ênfase, da maquiagem para os efeitos realísticos da captura de performance na tentativa seguinte, e mais bem-sucedida, de retomar a franquia.

O segundo grande trunfo do filme de Burton, termina sendo seu formidável vilão, o General Thade interpretado por Tim Roth, compreensivelmente irreconhecível debaixo de tanta maquiagem, mas cujo talento ainda foi capaz de moldar um antagonista complexo, raivoso, ameaçador e plenamente convincente na pele de um macaco autoritário, agressivo e déspota. O tirano, enfim, que captura Davidson junto dos outros humanos, sem dar-se conta de que será ele e seus conhecimentos extraordinários de humano evoluído, que iniciará uma insurreição onde os humanos tentarão escapar do jugo dos macacos.

É o General Thade, inclusive, o responsável pelo desfecho desconcertante, enigmático e francamente incompreensível do longa, elaborado claramente para competir em choque e surpresa com a revelação clássica na qual o planeta dos macacos é o Planeta Terra ao mostrar a cena desoladora da Estátua da Liberdade destroçada: Ao fim, Davidson usa de sua nave para partir desse novo planeta dos macacos (que NÃO era a Terra!) e volta ao nosso planeta, incerto quanto aos rumos que suas estripulias temporais efetuaram no futuro. Ao aterrissar, ele se depara com um mundo moderno (cai, por exemplo, em plena Washington dos dias atuais), entretanto, não são os humanos quem habitam esse mundo; são os macacos! Na última cena, pouco antes do filme de Burton nos abandonar sem quaisquer explicações plausíveis para o que aconteceu (sem nenhuma mesmo, visto que qualquer continuação que, por ventura, viesse a fornecer tal explicação jamais foi realizada), vemos a estátua de Abraham Lincoln no Lincoln Memorial, numa versão símia, e ali, quem está nela é o próprio General Thade.

Hoje, há quem aprecie o “Planeta dos Macacos” de Tim Burton –como há quem aprecie toda e qualquer obra que adquire algumas décadas de existência a medida que os expectadores aprendem, com o tempo, a focar nos seus pontos positivos que, neste caso, são as cenas de ação (elemento curioso para se destacar num filme de Burton), seu senso de aventura, suas características técnicas bem empregadas e a formidável tensão proporcionada por seu antagonista. Ainda que as analogias fornecidas pelo trabalho de Burton –e que sempre foram os objetivos subliminares desse brilhante conceito –tenham aqui soado mais caricatas do que alegóricas.