Mostrando postagens com marcador Helena Bonham Carter. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Helena Bonham Carter. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Planeta dos Macacos


 Em algum momento, no largo espaço de tempo entre os filmes iniciados pelo clássico “Planeta dos Macacos”, de 1968 (cujo último exemplar, “A Batalha do Planeta dos Macacos”, foi lançado em 1973) e a nova e aclamada trilogia ‘estrelada’ por Andy Serkis como um símio digital –cujo capítulo final foi o excelente “O Planeta dos Macacos-A Guerra” –os estúdios da Fox tentaram realizar uma refilmagem do filme que iniciou toda essa mitologia.

A verdade é que durante muito tempo a Fox acarinhou um novo projeto –datam ao longo de toda a década de 1990 relatos de um contrato envolvendo o astro Arnold Shcwarzenegger no papel que antes havia sido de Charlton Heston. Como costuma ocorrer com produções endinheiradas demais e que envolvem agendas de astros requisitados, o novo “Planeta dos Macacos” não somente sofreu inúmeros atrasos como transformou-se radicalmente a medida que se revezavam diretores e atores principais em seu comando.

O filme que por fim chegou às telas de cinema naquele já longínquo ano 2000 aparentava ser quase uma repaginação do original com Charlton Heston –onde ele vive um astronauta que cai num planeta Terra povoado por macacos evoluídos –entretanto, mudanças que dizem respeito às mentes criativas por trás do projeto, converteram a aventura espacial em outra coisa; algo que, visto hoje e desprovido de qualquer continuidade que lhe amarrasse as pontas soltas, soa ainda mais incoerente do que em sua época.

Na direção –que, por muito tempo, cogitou-se James Cameron e Oliver Stone em suas especulações –quem disse sim ao estúdio acabou sendo o esteta Tim Burton que, num lance até surpreendente, construiu um filme de aventura, convencional e genérico em suas características autorais. Este “Planeta dos Macacos” é um dos trabalhos em que menos se percebe a assinatura visual de Burton, inconfundível em projetos como “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”.

No papel protagonista do astronauta Leo Davidson, entra Mark Whalberg, uma escolha que parece absolutamente aleatória. Seguindo os passos do filme original, Davidson vive numa estação espacial em órbita de um vortex. Um dos macacos adestrados do lugar, chamado Pericles, é despachado numa nave e acidentalmente acaba sugado pelo vortex, levando Davidson à segui-lo a fim de resgatar o pobre animal, contudo, por uma série de tortuosas viagens no tempo (mais ainda tortuosas pela trama pouco convincente que originam), ele cai num planeta onde o macaco Pericles em questão caiu séculos antes dele (!), e a partir desse macaco, o patriarca, digamos assim, toda uma sociedade de macacos aflorou e se desenvolveu convertendo os humanos em seus escravos.

Uma trama muito semelhante à do primeiro filme que, no entanto, troca sua objetiva ficção científica por uma embromação pretensamente intrincada.

Ainda assim, é no planeta dos macacos, propriamente dito, que o filme de Burton revela suas duas maiores forças: A primeira –se é que depois de tanto tempo isso vem a importar –é a prodigiosa maquiagem, como tinha que ser, onde a parcela do elenco encarregada de personificar os símios tem seus rostos transformados pela autenticidade animal. Se a maquiagem já era um fator de assombro no clássico de 1968, aqui, neste filme de 2001, à cargo do mago das próteses Rick Baker (de “Um Lobisomem Americano em Londres”). ela é espantosa, convertendo rostos famosos, como Helena Bonhan Carter, Michael Clarke Duncan, Paul Giamatti, Kris Kristofferson, Cary Hiroyuki-Tagawa e até mesmo o próprio Charlton Heston (numa ponta referencial e especial) em perfeitos símios; e ainda assim, tal arrojo já soava anacrônico naquela época –naquele ano, ele perdeu o Oscar de Melhor Maquiagem (ao qual nem foi indicado!) para “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel” –justificando a mudança de ênfase, da maquiagem para os efeitos realísticos da captura de performance na tentativa seguinte, e mais bem-sucedida, de retomar a franquia.

O segundo grande trunfo do filme de Burton, termina sendo seu formidável vilão, o General Thade interpretado por Tim Roth, compreensivelmente irreconhecível debaixo de tanta maquiagem, mas cujo talento ainda foi capaz de moldar um antagonista complexo, raivoso, ameaçador e plenamente convincente na pele de um macaco autoritário, agressivo e déspota. O tirano, enfim, que captura Davidson junto dos outros humanos, sem dar-se conta de que será ele e seus conhecimentos extraordinários de humano evoluído, que iniciará uma insurreição onde os humanos tentarão escapar do jugo dos macacos.

É o General Thade, inclusive, o responsável pelo desfecho desconcertante, enigmático e francamente incompreensível do longa, elaborado claramente para competir em choque e surpresa com a revelação clássica na qual o planeta dos macacos é o Planeta Terra ao mostrar a cena desoladora da Estátua da Liberdade destroçada: Ao fim, Davidson usa de sua nave para partir desse novo planeta dos macacos (que NÃO era a Terra!) e volta ao nosso planeta, incerto quanto aos rumos que suas estripulias temporais efetuaram no futuro. Ao aterrissar, ele se depara com um mundo moderno (cai, por exemplo, em plena Washington dos dias atuais), entretanto, não são os humanos quem habitam esse mundo; são os macacos! Na última cena, pouco antes do filme de Burton nos abandonar sem quaisquer explicações plausíveis para o que aconteceu (sem nenhuma mesmo, visto que qualquer continuação que, por ventura, viesse a fornecer tal explicação jamais foi realizada), vemos a estátua de Abraham Lincoln no Lincoln Memorial, numa versão símia, e ali, quem está nela é o próprio General Thade.

Hoje, há quem aprecie o “Planeta dos Macacos” de Tim Burton –como há quem aprecie toda e qualquer obra que adquire algumas décadas de existência a medida que os expectadores aprendem, com o tempo, a focar nos seus pontos positivos que, neste caso, são as cenas de ação (elemento curioso para se destacar num filme de Burton), seu senso de aventura, suas características técnicas bem empregadas e a formidável tensão proporcionada por seu antagonista. Ainda que as analogias fornecidas pelo trabalho de Burton –e que sempre foram os objetivos subliminares desse brilhante conceito –tenham aqui soado mais caricatas do que alegóricas.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas


 O que é a memória? Certamente, no âmbito do cinema, essa pergunta encontra as mais ambíguas respostas. Para Federico Fellini, em seu antológico “Amarcord”, a memória é um filtro através do qual a nostalgia e o romantismo modificam o passado. Já, para Tim Burton, ou mais especificamente para seu protagonista em “Peixe Grande”, a memória é uma via de mão dupla por onde transcorrem verdades e mentiras a confundir até mesmo as convicções do próprio narrador. Com efeito, é em tais memórias –ou nas histórias contadas na qualidade de memórias –que “Peixe Grande” se transfigura, em termos reconhecidamente visuais, num filme de Tim Burton de fato; no mais, a narrativa discreta e austera emula, antes disso, um filme mais convencional e pé no chão, distinguindo estilisticamente o que é conto do que é fato.

Essa tentativa de separar o joio do trigo começa com o já idoso Edward Bloom (o sensacional Albert Finney), um contador de histórias nato –são notórias as narrações de suas aventuras malucas, entre as quais, aquela na qual pescou um peixe de tamanho descomunal.

Seu ouvinte mais desconfiado é e sempre foi seu filho William (Billy Crudup). Com idade adulta, William dá um basta nas historietas do pai –e na pressuposição de que, sendo elas mentiras, então ele nunca o conheceu de fato –e sai de casa.

Eles se reencontram anos depois, quando Edward fica doente, levando o filho a voltar ao convívio com o pai. Contudo, agora William quer descobrir a verdade por trás de todas aquelas histórias fantásticas. E é aí –no regresso ao passado idealizado –que “Peixe Grande” dá asas aos delírios de seu diretor.

No passado, acompanhamos Edward (vivido na aventureira juventude por Ewan McGregor) em suas peripécias pelos EUA, quando era vendedor itinerante, ofício que permitiu-o viajar e descobrir preciosidades como uma cidade escondida dentro de um pântano; um circo administrado por um lobisomen (Danny De Vitto); e o amor de sua vida (vivido por Allison Lohman, quando moça, e pela bela Jessica Lange, na idade avançada).

É nessa dicotomia visual entre a história que aconteceu e a história como ela foi contada que residem não só os grandes méritos artísticos e estéticos do filme de Burton, como também suas mais profundas reflexões: O passado, transmutado por uma vasta imaginação, se torna assim um sonho; e não é o sonho, afinal, bem mais agradável que a árdua e decepcionante vida real?

É essa a pergunta que, em dado ponto, o filme de Burton parece fazer ao público: Há algum mal em temperar os acontecimentos medíocres de outrora com uma melodia e uma poesia que os converte em pura fascinação? Que crime há nisso?

A narrativa de Tim Burton desvencilha-se habilmente do fato de que enaltece o ato da mentira com um filme visualmente sedutor, e uma trama sobre o resgate da relação pai e filho cujas propriedades tem o genuíno poder de encantar o expectador.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet

Tim Burton é um autor cuja percepção de espetáculo vai na contra-mão do óbvio. Ainda que compreenda o que gere o cinema comercial –seus filmes mais acessíveis, como “Batman” ou a refilmagem de “O Planeta dos Macacos”, não se isentam de ação formulaica e formatos narrativos pré-estabelecidos –suas obras, sobretudo, as mais pessoais, trazem sempre os elementos nos quais ele enxerga particular fascínio; e que não correspondem a um paladar considerado convencional.
“Sweeney Todd” é, talvez, a obra na qual isso se percebe com mais radicalismo.
Baseado numa peça musical de autoria de Stephen Sondheim, inspirada por sua vez no livro homônimo publicado por Thomas Peckett Prest, em 1846, o filme é ambientado no Século XIX e inicia-se quando o soturno ex-barbeiro Benjamin Baker regressa à sua Londres-natal após quinze anos enclausurado na cadeia.
Baker é um personagem sombrio a quem o astro Johnny Depp (na sua quinta colaboração com o diretor) confere entusiasmo e interesse inquestionáveis –como Burton, ele é fascinado pelo bizarro, pelo tortuoso e pelo estranho, e ambos dedicaram muito de suas carreiras a perseguir personagens e histórias que refletissem essa fascinação.
Baker, descobrimos, é um alma torturada pelos rumos trágicos de seu passado: Outrora um barbeiro feliz, casado e apaixonado com esposa e filha pequena, Baker foi acusado de um crime que não cometeu e trancafiado numa prisão, apenas para que o autor de todo seu tormento, o invejoso Juiz Turpin (o saudoso Alan Rickman), pudesse desposar de sua esposa (Laura Michelle Kelly), seu objeto de desejo desde sempre.
Quinze anos depois, sua esposa está morta –envenenou-se, dizem –e sua filha, Johanna (Jayne Wisener), agora uma jovem mulher, é a protegida do Juiz, e a medida que sua formosura se consolida, torna-se também, ela própria, o novo objeto de desejo dele.
Munido assim de outra identidade –ele agora se chama Sweeney Todd –o desafortunado protagonista reabre seu salão de barbearia na miserável Rua Fleet, bem em acima da loja de tortas da Sra. Lovett (Helena Bonham Carter, esposa de Burton) que amarga a pobreza porque suas tortas não atraem freguesia.
Sweeney Todd, entretanto, não deseja meramente voltar a ser um barbeiro: Ele quer encontrar um meio para vingar-se do Juiz Turpin, e isso toma cada pensamento seu.
Esses desenlaces, explicações e motivações até ocupam certo espaço na narrativa de Burton, mas ele não lhes dá maior atenção: Todo seu empenho está dedicado nas engrenagens que transformarão Baker em Sweeney Todd, ou seja, em um autêntico arquétipo de um filme de terror: Com sua nova identidade, ele passa a assassinar sistematicamente seus clientes, cortando-lhes a garganta com suas navalhas afiadas. E a essa metamorfose, Burton não faz nem mesmo questão de acrescentar realismo –como na peça da qual se inspira, “Sweeney Todd” é, apesar de suas nada disfarçadas facetas macabras, um musical (!).
Canção após canção, “Sweeney Todd” conduz assim o público através dessa miscelânea disfuncional de gêneros: Acompanhamos um musical de fato –assolado, inclusive, pelo grande problema de muitos musicais, onde a narrativa praticamente é interrompida durante os números de música para só seguir em frente depois que eles acabam –com intervenções de uma sub-trama de romance –o jovem marinheiro Anthony (Jamie Campbell Bower) se apaixona por Johanna a ponto de querer livrá-la do juiz, seu captor –mas, o que confere textura ao filme é o sarcasmo rasgado presente nos desdobramentos que cercam Todd e a Sra. Lovett, seus personagens principais; Numa combinação que coloca claramente qualquer bom-senso de lado, o barbeiro ganha a cumplicidade de sua locatária para matar indiscriminadamente enquanto ela usa a carne fresca dos cadáveres de suas vítimas para rechear suas tortas. Condimento misterioso que transforma sua loja num súbito sucesso gastronômico.
Há esse viés de divertimento presente em toda obra de Burton, onde ele estranhamente compartilha um insuspeito prazer em acompanhar circunstâncias tão tenebrosas. E, com isso, está em jogo também o elemento mais diferencial de sua filmografia, algo que sempre impede suas obras de serem filmes de terror com todas as letras: Uma percepção artística, dotada de humor negro, pantomina, teatralidade e até certa idealização, na qual o horror, a escuridão e a morte ganham contornos quase lúdicos, como numa brincadeira infantil.
Burton é assim, a eterna criança que brinca com seus próprios pesadelos ao invés de nutrir medo deles.
É possível, no entanto, afirmar que, ao contrário de realizações singulares como “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, “Ed Wood”, “Os Fantasmas Se Divertem” e sua obra-prima “Edward-Mãos de Tesoura”, aqui Burton perdeu um pouco a mão: Os elementos violentos e sanguinolentos se intensificam tanto que é difícil afirmar a qual público “Sweeney Todd” se dirige –e tal público se torna mais difícil de ser encontrado diante do fato de que ele é também um musical.
A despeito do poder avassalador das imagens –a concepção visual é um fator no qual Burton só melhora –“Sweeney Todd” nunca tenta evitar os rumos profundamente fatalistas em sua trama que conduzem a um final amargo mesclando ironia, tragédia e esquartejamento.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 2

Havia uma intenção bastante específica quando foi tomada a decisão de dividir o último livro da “Saga Harry Potter” em dois filmes: Traduzir o conteúdo da história, profundamente elucidativa para com todas as pontas soltas deixadas ao longo dos outros seis livros, da forma mais completa possível –essa prática chegou até a influenciar outras sagas adolescentes posteriores oriundas da literatura como “Crepúsculo” e "Jogos Vorazes”, cujo livro final também foi dividido em filmes Parte 1 e Parte 2.
Ironicamente, é nesse aspecto que o último filme dirigido por David Yates deixa a desejar –como veremos mais a frente.
“As Relíquias da Morte-Parte 2” retoma exatamente o ponto em que a “Parte 1” abandonou o público, quando Voldemort enfim pôs as mãos na poderosa ‘varinha das varinhas’ e Harry Potter, ainda perplexo, testemunhou o nobre sacrifício do elfo Dobby.
O filme prossegue daí quando Harry, Hermione e Rony almejam agora encontrar as outras horcruxes –os artefatos de magia negra imbuídos de fragmentos da alma de Voldemort: E só para constar, até este ponto da trama, dentre todas as sete horcruxes já foram mostradas três (o diário de Tom Riddle, destruído em “A Câmara Secreta”; um anel, destruído por Dumblodore à duras penas; e o medalhão do qual Harry e Rony deram cabo no filme anterior).
As quatro que ainda faltam, de certa maneira, determinam a narrativa do filme: A quarta, uma taça enfeitiçada, guardada no Banco Gringotes, regido por desconfiados duendes –e dentro do qual os três jovens vão audaciosamente tentar entrar com o pouco confiável auxílio do duende Grampo (o sensacional Warwick Davis, de “Willow-Na Terra da Magia”). E tome mais uma cena espetacular quando os três fogem do banco sobre as costas de um dragão!
A quinta, um lendário diadema roubado da Casa de Corvinal, obriga Harry e seus amigos a voltarem para Hogwarts, onde Severo Snape prevalece como diretor impondo os desmandos do Lorde das Trevas e submetendo os alunos a um regime ditatorial –é na busca por essa horcrux que Harry se depara com o fantasma de Helena Ravenclaw, vivido por Kelly MacDonald, a estrela de “The Girl In The Café”, também dirigido por Yates.
A sexta horcrux, numa manobra até bem óbvia vem a ser a fiel e mortífera cobra Nagini, sempre próxima de Voldemort, enquanto que a sétima e última, revelada no clímax, vem a ser o próprio Harry Potter (!), que deve ser sacrificado para que o Lorde das Trevas pereça.
Na esteira dessas revelações e acontecimentos –que, por sua proximidade fidedigna ao material literário, agrega um excesso de informações que pode confundir muitos expectadores –o diretor Yates escancara suas predisposições épicas, já perceptíveis na gradual elevação de escopo em seus filmes anteriores (especificamente iniciada em “O Enigma do Príncipe”), mas abraçadas por inteiro aqui na grandiloquente batalha do bem contra o mal que toma Hogwarts como cenário na última hora de filme, quando praticamente todos os personagens (alguns interpretados por atores famosos que surgem como pontas) comparecem deste ou daquele lado.
Não há dúvida de que a possibilidade de abreviar o mínimo possível os acontecimentos do livro beneficiou o filme. Contudo, se a “Parte 1” resulta primordial e empolgante por conta disso, a “Parte 2” sofre pequenas complicações: É maravilhoso poder ver muitos trechos do livro preservados na íntegra (e uma pena constatar que isso infelizmente não ocorre com tanta frequência em adaptações cinematográficas em geral), no entanto, é estranho que justamente a sequência do livro que melhor justifica a divisão em duas partes seja exatamente a que acaba negligenciada pela narrativa –trata-se do momento em que Harry Potter contempla as memórias de Severo Snape (Alan Rickman, certamente o grande ator de toda saga), até então tratado como um dos grandes vilões da história. Por meio desse momento brilhante, Harry (e o público junto com ele) descobre as reais motivações de Snape e o porque dele ser, sem que soubéssemos, um dos grandes heróis da saga!
Um momento revelador, emocional e surpreendente que merecia no filme o mesmo zelo e cuidado demandado no livro; do jeito como ficou –numa montagem de cenas simultâneas, quase a lembrar um videoclipe –pode até suscitar algumas emoções, mas está longe do impacto que poderia ter se ganhasse a mesma atenção de algumas cenas de ação.
Claro que essas são impressões menores: Do jeito como está, “As Relíquias da Morte-Parte 2” se mantêm como um final apoteótico, arrebatador e digno para uma das sagas cinematográficas mais marcantes dos últimos tempos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 1

O começo do fim. Desde os eventos irreversíveis do desfecho de “O Enigma do Príncipe” –isto é, a morte de Dumblodore e a opção definitiva (ou não) de Severo Snape em aliar-se ao mal –o clima obtido para este derradeiro filme era de urgência com uma notável atmosfera de inevitabilidade.
Ainda assim, os produtores não deixaram de fazer das suas para ficar um tempo a mais com a galinha dos ovos de ouro em mãos: Ao adaptar o último livro da saga, optou-se pela decisão de realizar não um, mas dois filmes extraídos do livro, com a desculpa (bastante razoável e bastante significativa para ambos os filmes) de que o máximo do material literário poderia ser mantido na adaptação.
Portanto, esta primeira parte de “As Relíquias da Morte” abrange cerca de 60% do livro, reservando os desenlaces mais contundentes para a segunda parte, o quê não impede este de ser, também ele, um trabalho muito bom.
Harry Potter está prestes a completar dezessete anos, e com isso, o feitiço de proteção que o mantinha a salvo na casa de seus tios irá se acabar. A fim de salvá-lo e levá-lo a um lugar seguro, já no início do filme, vários personagens (muitos introduzidos ao longo dos diversos filmes anteriores) unem-se para despistar os terríveis Comensais da Morte –e já nessa cena eletrizante, o diretor David Yates mostra que não está para brincadeiras. Ele exibe a escala de cenas de ação ampliada desde o memorável filme anterior, ostenta um domínio vertiginoso de narrativa que, mesmo sendo este seu terceiro filme na franquia, continua a surpreender, e não poupa o expectador e seus personagens de apuros ameaçadores de verdade; o conto de fadas pueril vislumbrado em “A Pedra Filosofal” há tempos não existe mais.
Após a breve e alentadora cena de casamento entre Gui (Doomhaal Gleeson), irmão de Rony, e Fleur (de “O Cálice de Fogo”) as circunstâncias imediatamente se complicam: O Ministério de Magia é invadido e dominado pelos Comensais da Morte. O Lorde das Trevas, Voldemort, passa a comandar então o mundo bruxo.
Harry, Rony e Hermione fogem e, ao longo de meses absolutamente angustiantes, passam a viver de maneira nômade, tentando encontrar uma forma de dar prosseguimento ao plano de Dumblodore –de achar as ‘horcruxes’, que contêm fragmentos da alma de Voldemort, para que possam assim matá-lo –sem, no entanto, nenhum recurso, nenhum auxílio e nenhuma informação.
E é a partir daí que Hermione tem a oportunidade de brilhar como nunca o fez antes, tanto pela imensa funcionalidade da personagem, como pelo talento e carisma da atriz que a interpreta, a bela Emma Watson.
Enquanto isso, e de maneira narrativamente sucinta (ainda que perspicaz), o filme mostra a extensão do mal no mundo bruxo, com Hogwarts sendo dominada por Comensais da Morte (Severo Snape é nomeado seu novo diretor), o Ministério da Magia trabalhando em função da obliteração de pessoas normais, destituídas de magia, e o nome de Harry Potter difundido como o “Indesejável Nº 1”.
São todas informações que ratificam a sensação de desamparo experimentada pelos jovens protagonistas, e que este filme é imensamente feliz em compartilhar com o público –em grande parte, auxiliado pela fácil identificação do expectador com personagens que ele já conhece há anos; e que, em muitos casos da plateia, cresceram junto com os próprios atores principais.
Como numa espécie de tradição que a série passou a adotar desde “O Cálice de Fogo”, os realizadores escolheram, como ponto de ruptura na narrativa do livro, a sequência fatídica e consternadora da morte de um querido personagem para encerrar este filme –uma jogada inteligente que dá a um filme originalmente concebido para prescindir de um desfecho um desenlace amargo, porém válido e certamente impactante.
Ao final desta “Parte 1”, as apostas na luta do bem contra o mal estão altas e o público, ávido para conferir das emoções derradeiras reservadas pela “Parte 2”.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Harry Potter e O Enigma do Príncipe

O diretor David Yates, tendo estreado em “Harry Potter” no filme anterior, chegou mesmo para agitar as coisas: Os primeiros minutos de “O Enigma do Príncipe” já deixam bem claro que, neste ponto, a saga já não tem qualquer interesse em temas infanto-juvenis –a paleta de cores é séria, monocromática, quase evocando um preto & branco interiorizado em muitos momentos; o clima de tensão é frequente e eficaz, aproximando esta obra, muitas vezes, de um filme de terror, e além de tudo, Yates impõe uma elegância à toda prova que eleva consideravelmente as apostas deste novo filme, onde são esboçados os ganchos narrativos que enfim conduzirão a saga ao seu desfecho.
Numa escala inédita nos filmes de “Harry Potter” até então, começamos o filme testemunhando o que parecem ser ataques terroristas sistemáticos em Londres de natureza mágica. Apesar do alvo ser o Beco Diagonal (visto em “A Pedra Filosofal” e “A Câmara Secreta”), podemos vislumbrar também a destruição da Ponte Millenium, de Londres. Os Comensais da Morte, pavorosos asseclas de Lorde Voldemort, atrevem-se a atacar e dar as caras no mundo normal (o chamado ‘mundo trouxa’).
Harry aparece no momento seguinte, quando o diretor Yates se dá ao luxo de fazer uma auto-referência: Impossível não lembrar de seu elogiado “The Girl in The Cafe”, quando vemos um Harry Potter aturdido com as notícias do jornal, dar um pequeno tempo e flertar com a garota que trabalha na cafeteria.
Logo, porém, a responsabilidade chama: Alvo Dumblodore requisita a companhia de Harry numa visita a um certo Horacio Slughorn (Jim Broadbent), alguém que, por razões muito especiais, o diretor de Hogwarts deseja para ser o novo professor de Poções –o professor anterior dessa matéria, Severo Snape, finalmente conseguiu a cadeira de professor de Defesa Contra A Arte das Trevas (cujas aulas mostradas no livro são omitidas no filme).
Apaixonado pela mitologia que cerca a trama como nenhum diretor antes dele, David Yates avança seu filme saboreando a evolução circunstancial presente em cada pequeno detalhe de sua história: Harry, Rony e Hermione são agora alunos dos últimos anos, o que faz deles veteranos acostumados aos meandros estudantis acrescidos da curiosidade da magia. Já a seis anos em Hogwarts, Harry agora é o capitão do time de quadribol de Grifinória, no qual seu amigo Rony e a irmã dele, Gina (Bonnie Wright), fazem teste para poder participar da equipe. E nas salas de aula, em especial, na matéria ministrada pelo Prof. Slughorn, Harry encontra um livro carcomido cheio de anotações de um certo ‘Príncipe Mestiço’ –o mistério que batiza este capítulo distraindo a atenção dos elementos realmente relevantes –e tais anotações feitas à mão ajudam Harry a tornar-se o melhor aluno da sala (!). Também o aspecto romântico se manifesta aqui com mais intensidade: Harry se descobre cada vez mais apaixonado por Gina, que no momento se envolve casualmente com Dino (Alfie Enoch), enquanto Hermione, em sua lenta e gradual aproximação com Rony tem seus planos interrompidos pela tietagem da deslumbrada Lila Brown (Jessie Cave).
Yates usa essas eventuais intrigas amorosas como pontuais atenuantes para uma trama sombria que ele engendra com zelo e critério ao longo da narrativa, sobretudo, na condução de dois núcleos distintos: Os breves, no entanto, significativos momentos em que flagramos o jovem Draco Malfoy (Tom Felton) e sua ‘missão’ por meio da qual os Comensais da Morte almejam finalmente invadir a tão segura Hogwarts; e, claro, a trajetória de Harry que o leva até o misterioso e escorregadio Horacio Slughorn –ele trás consigo um segredo (que ele recusa-se a compartilhar até mesmo com o próprio Dumblodore) sobre as razões ligadas a magia negra que fazem Voldemort ser imortal; e que, portanto, fornecem a pista para enfim matá-lo.
Como é habitual na construção narrativa de todos os “Harry Potter”, as numerosas pontas soltas a tratar de assuntos que aparentam serem tão diversos quanto dispersos, em dado momento, se unem revelando uma conexão intrínseca que os torna fragmentos complementares de uma mesma e sólida trama bem planejada –entretanto, neste filme até mais do que em “A Ordem da Fênix”, o diretor Yates se permite ir acima e além da fidelidade ao livro (que ele transfigura com convicção impecável) acrescentando impressões aos personagens e às suas motivações que só poderiam ser mesmo capturadas em cinema: É o caso da interpretação brilhantemente moldada do Prof. Slughorn que Jim Broadbent compõe com uma compreensão desigual do fascínio parasitário despertado nele por alunos de potencial fora do comum, primeiro o Tom Riddle ‘pré-Voldemort’ (interpretado em lembranças passadas por Frank Dillane e Hero Fiennes-Tiffin, este último, sobrinho de Ralph Fiennes), e depois o próprio Harry Potter. Os trinta minutos finais também revelam um domínio prodigioso dos elementos fantásticos, aqui empregados rumo a uma atmosfera genuinamente assustadora (palmas para a magnífica cena no lago dentro da caverna!).
Ao abraçar com uma serenidade contagiante um filme com facetas tão distintas (do romance ao terror, do suspense à comédia), o aspecto mais surpreendente do trabalho de David Yates acaba sendo a espantosa harmonia com a qual ele consegue manter tudo num mesmo tom, envolvendo o expectador num ritmo preciso e absorvente até a cena final que, neste filme em particular (talvez o de execução mais desafiadora de toda a saga) não encontra um ponto derradeiro que possa ser considerado um desfecho –e ainda assim, Yates o encerra extasiando o público com o filme espetacular que concebeu.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Harry Potter e A Ordem da Fêlix

Um novo filme. Uma nova troca de diretor. Todavia, este “A Ordem da Fênix” recebeu aquele que viria a ser o diretor fixo e definitivo da série até seu desfecho: O inglês David Yates, ironicamente reconhecido por trabalhos austeros, realistas e politizados feitos para a TV, como o filme “The Girl In The Café” e a minissérie (mais tarde convertida em filme) “Intrigas de Estado”.
Apesar de nada em sua filmografia pregressa sinalizar isso, Yates mostrou um fascínio inesgotável pelo material, um manuseio prodigioso dos elementos que configuravam a fantasia (como os onipresentes efeitos visuais), e um fôlego louvável que –ao contrário de Chris Columbus, cujo cansaço já se expressava no segundo filme –o levou a ostentar a mesma empolgação, o mesmo zelo para com o ritmo e a caracterização, e o mesmo patamar considerável de qualidade que ele conseguiu manter daqui até o último filme; totalizando quatro longa-metragens sob sua assinatura.
O começo de “A Ordem da Fênix” é brilhante e essencialmente cinematográfico –fruto, na opinião de muitos, do fato de ser o primeiro livro da saga escrito depois que ela já havia começado a ser adaptada para cinema. Nele, Harry surge num parquinho suburbano, contemplando memórias já distantes de infância e outras memórias, não tão distantes, mas terríveis, de quando testemunhou a morte de Cedrico no filme anterior.
Ao lado de seu primo Duda, agora à beira da deliquência, Harry é surpreendido pela aparição de dois Dementadores –numa sequência maravilhosa que deixa explícita a homenagem à “Alien”.
Por conta de usar o feitiço ‘patronum’ para proteger-se e a seu primo nesse prólogo, Harry corre assim o risco de ser expulso de Hogwarts –é sumariamente proibido que alunos pratiquem magia fora da escola.
Segue-se, logo depois, uma cena no até então muito falado, mas pouco mostrado, Ministério da Magia. Lá, o Ministro da Magia em pessoa, Cornélio Fudge (Robert Hardy), se revela hostil à Harry Potter e avesso à alegação dele e de Dumblodore de que Lorde Voldemort finalmente retornou.
E aí estão, pois, as características politizadas que justificam a escolha de David Yates como diretor –e que só se intensificarão daqui para frente –há todo um conflito de interesses ideológicos a incrementar as considerações acerca do conflito básico do bem contra o mal; para o Ministro Fudge, refutar a volta de Voldemort significa mais opor-se a Dumblodore como seu adversário político do que reconhecer o regresso do mal –e nessa teimosia, ele abre amplo espaço para a paranóia que, neste filme, contamina todo o mundo bruxo.
Isso, claro, se reflete na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts: A nova professora de Defesa Contra a Arte das Trevas, a insidiosa Dolores Humbridge (Imelda Stanton, compondo com primor a grande vilã do filme), é uma ferrenha apoiadora das facetas mais rígidas e autoritárias do governo de Fudge, e com essa postura, ela aproveita-se da ausência eventual de Dumblodore para dominar gradualmente toda a escola: Começa impondo a regra de que alunos não devem praticar magia –apenas inteirar-se da teoria –fazendo-os indefesos e deixando a capacidade para se defender reservada às forças do ministério; logo, ela se vale da proximidade com o ministro para colocar-se no direito de vetar aulas que julga desnecessárias (como as de clarividência); impõe normas de conduta abusivas e, com o tempo, táticas de punição ainda mais intoleráveis, chegando a arregimentar os alunos mais suscetíveis e corruptíveis (como Draco Malfoy) para a chamada Ordem Inquisitória destinada a policiar e denunciar as menores contravenções.
É natural que, em um ambiente assim tão repressivo, os esforços revolucionários acabem insurgindo: Dispostos a garantir um conhecimento contra as forças das trevas que se ensaiam no horizonte, Harry, Rony, Hermione e seus outros amigos –como Gina (Bonnie Wright), Chang (Katie Leung) ou Luna Lovegood (a sensacional Evanna Lynch) –resolvem integrar um grupo que reedita a Ordem da Fênix –outrora formada por seus pais, Sirius Black e outros quando jovens –e criam assim a Armada Dumblodore, para treinar às escondidas feitiços de proteção.
É impressionante perceber, por meio dessa premissa e do modo com que ela é tratada, o quanto a saga “Harry Potter” evoluiu: De aventuras infanto-juvenis investigativas, a série passou para uma contundente e eficiente alegoria sobre os excessos perniciosos do poder e da autocracia, mais próximo dos formidáveis “V de Vingança” e “1984 de Orwell” que de “Scooby-Doo”. Essa impressão é reforçada pelo evidente e notável amadurecimento do elenco, sobretudo, os protagonistas, Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson que cresceram literalmente em frente às câmeras.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Os Miseráveis

Apesar de Anne Hathaway ter levado (com méritos) o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2013 pela sua poderosa presença como a trágica Fantine na primeira parte da trama (e ela de fato interpreta com esforço e primazia), o prêmio mais merecido para o filme de Tom Hooper foi mesmo o Oscar de Melhor Mixagem de Som.
Explica-se: “Os Miseráveis” é uma espécie muito incomum de musical; ele foi rodado com gravação sincrônica dos atores cantando para a câmera, a exemplo de muitas outras obras pregressas, no entanto, num escopo técnico antes tido por inimaginável, daí ser extraordinariamente notável a capacidade dos técnicos em capturar as vozes dos atores, filtrá-las de toda infinidade de sons poluentes e eventuais da cena e emoldurá-las com a melodia da trilha sonora para dali obter as músicas que compõem e ajudam sistematicamente a contar a história antes imaginada pelo escritor Victor Hugo no romance literário, e depois adaptada por Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, na versão teatral e musical que tanto sucesso fez nos palcos para então aqui ser vertida para o cinema.
O ano é 1817. Conhecemos o protagonista, Jean Valjean (Hugh Jackman, maravilhoso) um francês condenado à escravidão por ceder à fome; roubou um pedaço de pão para si a para a própria irmã. Durante sua liberdade condicional (que chega depois de 19 longos anos), Valjean aproveita e foge. Logo ele descobre que precisa abandonar sua identidade se tiver alguma intenção de prosperar naquela França do Século XIX: A discriminação para com ex-prisioneiros, como é o caso dele, chega a ser intolerável.
Descobre outra coisa também: O valor da solidariedade e do apego à Deus.
Cerca de oito anos se passam, e então Valjean (chamado agora pela nobre alcunha de Monsieur Prefeito!) é um homem rico, dono de uma tecelagem. É lá que trabalha Fantine (Anne), moça virtuosa (busca sempre fugir do assédio insidioso do contramestre) que não tarda a ter sua própria cota de drama: Mandada embora do emprego graças às crueldades perpetradas por suas colegas, Fantine não tem dinheiro para sustentar sua filhinha Cosette, e por conta disso, vende seus cabelos, depois seus dentes e, por fim, sua honra (se prostitui) para então perecer. Em seu leito de morte, Valjean –que sente-se culpado por não ter tido a oportunidade de ampará-la –lhe promete que será um pai para Cosette dali para frente, e a tira de seus insensíveis e inescrupulosos tutores, o casal Thénardier (interpretado com histrionismo por Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter).
Os anos tornam a se passar com Valjean sempre sob a sombra da rancorosa perseguição do obstinado Inspetor Javert (Russell Crowe, equilibrando a truculência do personagem com uma inesperada desenvoltura como cantor).
Então vivida por Amanda Seyfried, Cosette se apaixona por Marius (Eddie Redmayne), um jovem abastado que engrossa as fileiras da Revolução Francesa na luta pelos direitos do povo oprimido. Cosette e Marius formam com a filha dos Thénardier, Eponine (Samantha Banks, única oriunda da montagem teatral), um triângulo amoroso a movimentar a trama.
Neste ponto, Valjean se vê num dilema entre tornar a fugir (e recomeçar a vida), mais uma vez longe do encalço de Javert, ou finalmente separar-se Cosette, que ele ama como filha, deixando-a tentar a felicidade ao lado de Marius.
Não faltam tristezas em profusão a se abater sobre os personagens neste trabalho de Tom Hooper no qual o expectador deve saber, de antemão, que todos os diálogos são cantados ao invés de declamados –com isso, “Os Miseráveis” é uma sucessão de canções ocasionalmente antológicas, tão famosas que muitos talvez nem saibam que provêem desta obra, como é o caso da sofrida e ritmada “Look Down”, da célebre e visceral “I Dreamed A Dream”, da envolvente “My Life, A Heart Full Of Love”, e de várias outras.
Nesse sentido, o trabalho do diretor Hooper (que antes havia levado o Oscar de Melhor Filme por “O Discurso do Rei”) não prima por modéstia: Em sua exuberância rasgada e seu romantismo intoxicante, ele por vezes pode exaurir o expectador. Entretanto, para aqueles dentre o público que forem capazes de lhe fazer a travessia, “Os Miseráveis” reserva uma experiência de arrebatamento insuspeito e emoção irrestrita.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

O Cavaleiro Solitário

A paixão pelo faroeste já aparecia em inúmeros trabalhos anteriores do diretor Gore Verbinski –no tratamento dado a algumas cenas muito referenciais em “Piratas do Caribe”, ou na animação “Rango” –todavia, foi aqui, nesta imodesta adaptação de um herói já famoso no rádio, em seriados de matinê e desenhos animados (e frequentemente confundido com o “Zorro”), que Verbinski pôde escancarar sua predileção realizando um faroeste legítimo.
De quebra, levou o astro Johnny Depp para incorporar o papel do índio Tonto –escalação que converteu o que seria apenas o ‘parceiro do herói’ num protagonista de tanto peso (ou até mais!) quanto o personagem-título.
E é Johnny Depp, ou melhor, Tonto quem de fato começa o filme, mostrado numa São Francisco dos anos 1930 –quando ainda era possível se cruzar, em pleno Século XX, com alguém que testemunhou os eventos do Velho Oeste. É isso que experimenta um garotinho ao deparar-se com um Tonto todo envelhecido –numa homenagem clara à “Pequeno Grande Homem” –que relata a ele o início de sua lendária parceria com o Cavaleiro Solitário.
Ou seria melhor dizer, John Reid (vivido com bastante competência e noção de seu papel secundário por Armie Hammer), um advogado que regressa para a Califórnia onde se estabeleceu seu irmão Dan Reid (James Bagde Dale) com quem pretende se juntar.
Dan é casado com a bela Rebecca (Ruth Wilson), que nutre uma paixão secreta por John (e que nutre uma paixão secreta por ela também), e eis aí outra homenagem de Verbinski: Ao clássico “Rastros de Ódio” cuja premissa é engatilhada também por um caso de amor não correspondido entre o protagonista e sua cunhada.
Assaltado o trem onde estão John e o índio Tonto –aprisionado pelos homens brancos –o homem da lei Dan, no encalço de criminosos de intenções ainda nebulosas acaba morrendo vítima de uma cilada.
A mesma cilada da qual John escapa com vida quase que por um milagre –na verdade, Tonto crê que foi um milagre mesmo, executado pelo lendário ‘Cavalo Espiritual’ que teria escolhido John para traze-lo de volta dos mortos e torna-lo seu justiceiro, ou algo assim...
A parceria (hesitante como rege a cartilha das produções hollywoodianas) é assim estabelecida e o filme de Verbinski segue, manhoso, por sua trama rocambolesca: Embora no final das contas sua estrutura seja definida pela luta básica do bem contra o mal, o roteiro (escrito por Ted Elliott e Terry Rossio, os mesmos de “Piratas do Caribe”) é tão cheio de desvios e ganchos subentendidos que as motivações e propósitos nele embutidos quase se perdem –especialmente devido à decisão bastante dispersa de desenvolver a trama a partir de dois núcleos diferentes de vilões.
Não ajuda também o fato das intenções do filme se mostrarem indecisas entre a racionalidade de uma crítica social histórica (com uma tentativa de denúncia da barbárie contra os indígenas em cenas mais violentas do que se poderia esperar) e o apelo comercial de uma produção escapista (onde entram, por sua vez, humor pastelão, piadinhas corriqueiras, sequências mirabolantes e aventura de desenho animado).
A arrematar essa mescla desigual temos o primor visual característico de Gore Verbinski (no qual ele é reconhecidamente craque) e duas espetaculares cenas de ação envolvendo trens –uma no começo, outra no final –tradição da Velha Hollywood que Verbinski faz questão de retomar com todos os efeitos especiais de última geração a que se tem direito.
Ao tentar mirar num sucesso de proporção e estilo similar ao seu “Piratas do Caribe”, Gore Verbinski e seu astro Johnny Depp fazem demais com seu faroeste referencial, deixando-o com uma identidade indefinida e um resultado incompleto ainda que tenha lá a sua diversão.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Oito Mulheres e Um Segredo

Amigo de longa data de Steve Sodenbergh, o diretor Gary Ross (de “Seabiscuit” e “Jogos Vorazes”), não pestanejou quando surgiu-lhe a oportunidade de reverenciar a mais lucrativa e bem-sucedida realização dele: O formidável filme de assalto “Onze Homens e Um Segredo” que refilmava com pompa e circunstância um filme estrelado por Frank Sinatra e rendeu toda uma trilogia de relativo sucesso.
A nova versão de Ross pega carona num esforço artístico em Hollywood em enaltecer protagonistas femininas, e é a partir desse ímpeto que chegamos à personagem de Debbie Ocean (Sandra Bullock), não só irmã do protagonista Danny Ocean vivido por George Clooney, mas também introduzida de modo muito semelhante a ele próprio no primeiro filme.
Debbie sai da cadeia após uma pena de cinco anos. E sai com um plano meticulosamente arquitetado. Ainda nebuloso (embora maiores informações não tardem a chegar), o plano de Debbie não deixa imediatamente claro os detalhes de sua execução e nem, no fim das contas, os objetivos verdadeiros por trás dele.
É no andamento característico de um filme clássico de assalto –e que Sodenbergh soube executar como ninguém –que o diretor Ross demonstra estar se esbaldando: Ele saboreia cada etapa, desde o recrutamento das aliadas até o planejamento do golpe e, por fim, sua tensa e inquieta realização.
Na primeira dessas etapas, ele introduz o elenco notável que conseguiu arranjar: Além de Bullock (cuja excessiva sisudez da protagonista atrapalha suas chances de revelar-se simpática), há também Cate Blanchett como Lou, a aliada N° 1 de Debbie; a divertida Helena Bonham-Carter como a estilista Rose Weil; a prestidigitadora Constance (Awkwafina), capaz de roubar um relógio de pulso debaixo do nariz do dono; a hábil hacker Bola 9 (a cantora Rihanna); a especialista em jóias Amita (Mindy Kaling) e a comparsa Tammy (Sarah Paulson).
A intenção é roubar um colar de diamantes de valor vultuoso durante as festividades do Baile Met Gala, em Nova York, repleto de celebridades.
Uma dessas celebridades vem a ser Daphne Kluger (Anne Hathaway, a mais sensual, mas também a mais histriônica do elenco) que o grupo reunido em torno de Debbie irá tramar para que seja a pessoa a usar o colar naquela noite. Trajada num vestido desenhado por Rose Weil, observada de perto pela infiltrada Tammy, e vigiada de perto pelas tecnologias de segurança que Bola 9 tratará de burlar, ela será, no momento certo, um alvo fácil para as mãos ágeis de Constance que irá tirar-lhe o colar e passa-lo à Amita (instruída a desmontá-lo) e à Lou.
Na referência clara e nada disfarçada que concebe, Gary Ross se coloca, de livre e espontânea vontade, numa espécie de armadilha: Pelo mesmo formato narrativo que adota, o clima, o ritmo e a atmosfera similares que evoca, e até por algumas bem-vindas participações especiais (Elliot Gould e Qin Shaobo marcam presença, e bem que George Clooney podia ter aparecido também...), tudo em seu filme faz lembrar “Onze Homens...” e, por consequência, com ele ser comparado –e por esse prisma, o filme de Ross, ainda que simpático e gracioso, não chega aos pés da excelência da obra de Steve Sodendbergh.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Ao Vivo de Bagdá


Quando lançou este brilhante telefilme em 2003, a HBO provou-se tão ou mais audaciosa que as produções cinematográficas ao dedicar toda a atenção deste longa-metragem a uma impressionante história absolutamente digna de ganhar o conhecimento do público.
Interpretado com um brilho e uma inteligência que o ator Michael Keaton só expressou em obras cinematográficas a partir da década seguinte, o protagonista Robert Wiener é um irrequieto produtor de reportagens para a CNN que, no início da década de 1990, era uma pequena rede de noticiários para a TV 24 horas por dia.
Wiener fareja uma grande reportagem quando o Iraque de Saddam Hussein invade o pequeno estado do Kuwait, acirrando os nervos para um grave conflito.
Junto de sua equipe de reportagem –na qual está sua produtora de confiança, Ingrid Formanek (Helena Boham Carter) –eles partem para Bagdá, dispostos e registrar o estado das coisas, os ânimos inevitavelmente acirrados da população e, com sorte, capturar algum grande furo.
Contra eles, há toda sorte de disputa –velada ou declarada –com os repórteres de redes rivais (algumas com recursos muito mais vastos) e ainda o feroz patrulhamento dos políticos e militares locais que não permitem o registro de imagens ofensivas ao seu país.
Usando de toda a desenvoltura que pode, Wiener conquista a amizade do Ministro de Informação (David Suchet) tentando negociar com ele uma entrevista com o próprio Saddam Hussein, enquanto sofre derrota atrás de derrota pelos outros canais jornalísticos em busca de reportagens especiais.
A entrevista, após uma penosa deliberação, acontece –dirigida com um primor que a faz uma cena antológica pelo diretor Mick Jackson –conduzida pelo apresentador Bernard Shaw (Robert Wisdom), trazido especialmente dos EUA, dos estúdios da CNN para isso.
Mas, o grande momento de Wiener ainda estava por vir: Quando a data-limite decretada pelo então presidente americano George H.W. Bush para as tropas iraquianas abandonar o Kuwait começa a se aproximar (sem que haja qualquer sinal de negociação da parte de Hussein), fica claro que quando a guerra eclodir, Bagdá não será um lugar seguro para ninguém.
Se os correspondentes americanos já passavam apreensão –retratada em diversas sequências primorosas –a partir daí seu medo é de uma profundidade inapelável: Todos sabem que a única alternativa racional é deixar Bagdá.
Todavia, enquanto os outros se enfileiram nos aeroportos para partir, Wiener sofre um dilema: Deixar o país em segurança e voltar para sua família, ou ficar e registrar em primeira mão um acontecimento histórico sem precedentes na conjuntura sócio-política mundial?
Pelo menos dois de seus companheiros estavam certos de ficar, John Holliman (John Carroll Lynch) e o corajosamente insano Peter Arnett (Bruce McGill). É ao lado deles e de Bernard Shaw que Wiener, na madrugada de 16 de janeiro de 1991 se torna parte da única equipe de reportagem (todas as outras deixaram Bagdá) a cobrir em tempo real o início da Guerra do Golfo diretamente da janela de seu hotel de onde eles testemunharam as horripilantes cenas da batalha aérea entre as Forças de Coalizão e a infantaria antiaérea do Iraque.
Um feito que fez da CNN uma verdadeira lenda entre as emissoras jornalísticas.
Diretor de filmes cheios de energia, porém superficialmente comerciais (suas obras mais famosas até então eram a comédia “L.A. Story”, “O Guarda-Costas” e “Volcano-A Fúria”), Mick Jackson imprime à narrativa toda a urgência de que ela precisa, exibindo um equilíbrio magnífico entre a atenção aos vastos e pertinentes detalhes e o impecável cuidado na construção de um todo espetacular, no qual entrega uma lição de história moderna e uma aula de jornalismo destemido, além, claro de um dos grandes filmes da década de 2000.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Asas do Amor

O cineasta inglês Ian Softley tinha um estilo imediatamente identificável: Seus trabalhos partilhavam de uma mesma vibração frenética e febril, e seus protagonistas eram impelidos pela intensidade do êxtase –na precipitação da juventude, eles primeiro agiam (e reagiam) para depois avaliar as conseqüências de suas ações.
Mão obstante esse padrão, ele passeou por diversos gêneros e trabalhou os mais diferenciados temas.
“Os Cinco Rapazes de Liverpool” (uma audaciosa reconstituição de uma história não contada dos Beatles), “Hackers-Piratas de Computador” (dos primeiros filmes a tratar sobre o tema da informática e a trazer em seu elenco uma ainda jovem e estreante Angelina Jolie) e “As Asas do Amor” (adaptação de um romance de Henry James) são suas obras mais conhecidas, com considerável ênfase no reconhecimento da crítica desse último.
Ele unia –mal comparando –o dinamismo inconformista de Danny Boyle com o atrevido despojamento de Ken Russell. Na teoria pode parecer promissor –e foi isso que ele conseguiu ser em seus melhores momentos –mas, na prática, a verdade é que como autor cinematográfico, Ian Softley foi uma chama fugaz.
Em “Asas do Amor” esse seu inconformismo já fica bem claro na inesperada escalação da atriz Helena Bonham Carter para o papel principal: Ela que o público dificilmente veria como uma mulher audaz, sensual e encantadora surpreendeu (e ganhou uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz!) justamente por injetar audácia, sensualidade e encanto à aristocrática Kate, uma moça que, na primeira década do século XX, vê os excessos do próprio pai (Michael Gambon) esgotarem os recursos financeiros da família. Ela vai morar com uma tia rude e autoritária (Charlotte Rampling) junto de quem encontra duas alternativas: Um casamento devidamente arranjado por ela com algum ricaço que não ama; ou contrariá-la e casar-se com o apaixonado Merton (Linus Roache), por quem Kate é apaixonada também, mas quem ela sabe não ter onde cair morto –e isso, para a ambiciosa Kate é algo inadmissível.
Ironicamente, o destino sinaliza para ela com uma terceira alternativa: Eis que ela conhece a luminosa Millie (Alison Elliott), uma jovem americana rica em visita à Inglaterra.
Millie se interessa por Merton, sem ter a menor idéia de que Kate, sua nova melhor amiga, tem com ele um profundo relacionamento.
E, nos planos de Kate, assim continuará sendo: Ela descobre que Millie tem uma doença que logo irá levá-la, e fazer de Merton um iminente viúvo rico é, para ela, uma oportunidade perfeita para unir o útil (preservar as posses financeiras de sua classe) ao agradável (ficar com o homem que ama).
Na equação de Kate só não entra, porém, o ciúme esmagador ao qual esse arranjo irá submetê-la.
É extremamente interessante –e fonte da curiosidade maior deste filme –o fato de vermos um diretor de orientações tão contemporâneas quanto Ian Softley trabalhar a narrativa de uma produção de época (com toda atenção habitual ao figurino e à direção de arte) e assim mesmo fazer dele algo tão próximo de seu estilo; para tanto, ele abre mão da densidade e do rigor formal que normalmente acompanham o texto nas obras literárias de Henry James fazendo deste um filme palatável, dinâmico e, por que não, jovem.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A Saga Exterminador do Futuro

O Exterminador do Futuro
Foi com este projeto que James Cameron saiu no início da década de 1980 do gueto precário e restritivo dos filmes de baixo orçamento –onde Roger Corman ainda reinava –e foi direto para as mega-produções que, nas décadas que se seguiram, ele próprio ajudou a definir.
Como trata-se da revelação do grande diretor James Cameron, ele consequentemente trabalha aqui com um orçamento muito mais barato do que aqueles com os quais ele se acostumaria. Vale lembrar que este filme também lançou o ator Arnold Schwarznegger, perfeito no papel de andróide do futuro.
Curioso notar que, mesmo em seus primórdios como realizador, Cameron manteve um estilo e uma estrutura artística que se revelam coesos em toda sua filmografia.
Em “Exterminador do Futuro”, ele vislumbra um mundo em larga escala, mais por meio da sugestão que do fato, suas inquietações, no entanto, estão todas lá: A via de mão dupla que representa a tecnologia; a mulher assumindo um papel proeminente no processo de sobrevivência; e um certo ciclo, tão lógico quanto inclemente, a impor um destino específico aos personagens.
Bem mais marcante que o herói perplexo e oscilante vivido por Michael Bein é, de fato, o andróide vindo do futuro, e com aparência humana, personificado de maneira memorável por Schwarzenegger –a sua compleição física truculenta, seu porte avantajado e sólido, sua fisionomia de traços fortes e quadrados, além da inflexão na voz (que ele sempre atribuiu ao sotaque austríaco) deram a ele uma forte e diferenciada presença de cena.
Denominado T-800, ele aparece em plena Los Angeles do ano de 1984 para dar cabo de uma jovem específica: Sarah Connor (Linda Hamilton, que depois casou-se com o diretor) futuramente será a mãe do homem predestinado a ser o líder dos humanos numa guerra apocalíptica contra as máquinas. No futuro de onde vem o T-800, tal guerra já se encontra praticamente ganha pela humanidade –daí o envio do T-800 ao passado representa assim o último recurso das máquinas para obter vitória. Para proteger Sarah, vem também do futuro, um jovem soldado humano, Kyle Reese (Michael Bein), oficial da mais extrema confiança de John Connor, o filho salvador que ela terá –e o nome desse personagem (que aqui nunca aparece) não só leva as sugestivas iniciais de Jesus Cristo, como também as do próprio James Cameron.
O embate entre o andróide assassino e o humano enviado para detê-lo é também a batalha que, por assim dizer, definirá o conflito.
Não é só em suas habilidosas cenas de ação que este cultuado filme dos anos 1980 se mostra um produto desigual: Ele o faz também com elementos de forte apelo mítico em sua premissa originalíssima para o então emergente cinema de ação; o lance mais notável talvez seja o enlace que confere simetria ao melindroso enredo de viagem no tempo –Kyle Reese, descobrimos, acaba sendo o próprio pai de John Connor, ao engravidar Sarah numa breve noite de amor antes do embate final com o andróide.
Esse peculiar detalhe acerca da inevitabilidade das trajetórias e tragédias humanas acrescenta um valor perene que eleva “Exterminador do Futuro” num outro patamar.

O Exterminador do Futuro 2-O Julgamento Final
Quando arregaçou as mangas para realizar uma continuação de seu sucesso de 1984, James Cameron já não era mais um jovem artesão tentando se provar aos olhos da indústria. Entre o primeiro e este segundo filme, ele provou que era capaz de dar continuidade em igual medida de qualidade à uma saga tida por genial, com “Aliens-O Resgate”, e ainda deu início a um hábito que se tornou freqüente, de embarcar em projetos que almejavam sucessivas inovações técnicas, com “O Segredo do Abismo”.
Em “Exterminador 2”, Cameron, portanto, tinha cacife, recursos e disposição para realizar o filme da maneira como sempre quis: Uma ficção científica de ação, onde os abalos sísmicos provocados pela alteração da viagem no tempo são tão demolidores quanto a destruição de fato que testemunhamos em cena.
A trama, passada agora no início dos anos 1990, finalmente coloca Jonh Connor em cena (bem interpretado pelo jovem Edward Furlong), e desta vez, os enviados do futuro são agora um robô avançadíssimo composto por metal líquido (da parte das máquinas), e um andróide tal e qual o do primeiro filme (desta vez, do lado dos humanos), para perseguir o agora adolescente John Connor, que no futuro –é sempre bom lembrar –será o líder dos humanos na guerra contra as máquinas.
Entretanto, o astro Schwarzenegger também já não era nenhum estreante quando deste segundo filme: Não havia muito sentido em colocar um dos mais populares astros do cinema atual como o vilão novamente, assim optou-se por uma inversão. Agora, um andróide T-800 (mesmo modelo do primeiro filme) foi programado para proteção e não para extermínio, restando ao excelente Robert Patrick, como T-1000 (notável em sua atuação gélida) a função de antagonista.
Todavia, Patrick tem um trunfo e tanto ao seu lado: Os 100 milhões de dólares em orçamento que James Cameron torrou (e que fizeram deste filme, à época, a mais cara produção da história) surgem em cenas de assombrosos efeitos especiais que reproduzem as mutações do T-1000 em um ser de metal líquido, um efeito fascinante.
James Cameron manipula com maestria os elementos que ele mesmo havia criado no primeiro filme para fazer desta seqüência um filme nunca menos que sensacional.

O Exterminador do Futuro 3-A Rebelião das Máquinas
A empresa que detinha os direitos da franquia do “Exterminador do Futuro”, a Carolco, veio à falência em algum momento dos anos 1990, levando à compra dos direitos de filmagens por outros produtores. O quê culminou, em 2003, com a realização de um terceiro filme da saga, desta vez, sem a intervenção de James Cameron, o quê deixo muitos fãs preocupados.
Contudo, a saída do diretor e criador da saga só não afetou a qualidade do filme por que ele foi substituído pelo competente Jonathan Mostow (dos ótimos “U-571-A Batalha do Atlântico” e “Break Down-Implacável Perseguição”). Hábil e visivelmente respeitoso com o material original, Mostow criou um desfecho brilhante que fechava as três produções em forma de trilogia, e apesar de contar com a ilustre (e necessária) presença de Arnold Schwarzenegger, foi sensato ao finalmente dar o protagonismo da história a John Connor (vivido com tamanho empenho por Nick Stahl que chega a deixar Edward Furlong no chinelo!): Quase dez anos depois dos eventos relatados no segundo filme, o jovem John Connor, já sem a companhia de sua mãe, Sarah, vive pelo mundo sem raízes e sem documentos que o tornem rastreável. Do futuro então, as máquinas enviam uma andróide avançadíssima –uma mescla dos inimigos dos dois filmes anteriores; um esqueleto robótico (como o T-800) revestido de metal líquido (como o T-1000) –interpretada pela bela e eficiente Kristanna Loken.
Sua missão: Exterminar jovens que serão oficiais de confiança do próprio John Connor, enquanto que a resistência envia um andróide modelo T-800 (Schwarzenegger novamente) para tentar protegê-lo.
Entretanto (e essa é, talvez, a grande sacada de gênio do roteiro deste terceiro filme), a batalha fatídica da humanidade contra as máquinas, na qual John Connor irá liderar os humanos, está próxima, muito próxima de se concretizar.

O Exterminador do Futuro-A Salvação
Ao mesmo tempo em que os direitos autorais da saga “Exterminador do Futuro” foram passando por diversos estúdios diferentes nas décadas de 1990 e 2000, a série também foi se tornando um ícone indissociável da cultura pop.
A quarta parte da série, agora sob o controle da Sony Pictures chegou aos cinemas polarizada entre esses dois extremos: De um lado, uma alteração radical das mentes e opiniões criativas no controle da produção, de outro, uma obra dona de uma legião de fãs cada vez maior e que gerava imensa expectativa em torno de sua realização –e pensar que o primeiro filme era uma obra de baixo orçamento...
Sem Schwarzenegger, que na época ainda era governador da Califórnia e não fazia mais cinema (embora tenha sido “homenageado” numa breve cena que o reproduz por computador), e sem qualquer contribuição de James Cameron (que só voltou a ter os direitos da saga em 2014 e produziu o péssimo “O Exterminador do Futuro-Gênesis”), a realização do filme foi confiada ao diretor McG (de “As Panteras”) que apressou-se em afirmar que o novo “Exterminador” não seria nada parecido com seu filme anterior.
De fato, este novo filme busca uma abordagem de ação sem firulas e sem humor, onde se nota um cuidado redobrado para preservar uma visão aproximada com a de James Cameron. O problema era que McG não via o terceiro filme com bons olhos, e deu à este quarto uma orientação que o levava a um outro rumo: A guerra contra as máquinas, incessantemente citada nos três filmes anteriores, torna-se aqui realidade. O ano é 2018 e os humanos sobrevivem como fugitivos nas cidades destruídas, perseguidos por uma infindável variedade de máquinas exterminadoras –e essa premissa da maneira como é trabalhada aproxima este quarto filme também de outro clássico dos anos 1980, o futurista e distópico “Mad Max”.
Nesse mundo desolado, alguns soldados ao redor do planeta compõem a "resistência", que visa derrotar as máquinas. Em meio a isso tudo, John Connor (Christian Bale, pouco a vontade no papel) desponta como um líder quase profético. Ele busca pelo jovem Kyle Reese (vivido pelo saudoso Anton Yelchin), consciente de que este será seu pai quando enviado para o passado.
Durante todos esses eventos, surge o misterioso Marcus Wright (Sam Worthinton, de “Avatar”, o verdadeiro herói deste filme), que guarda um desconcertante segredo e pode ser a resposta para algumas perguntas não respondidas desta saga.

Ainda que cheio de boas intenções, “A Salvação” é facilmente o filme mais problemático dentre os quatro primeiros –nem dá para comparar com a catástrofe que é “Gênesis”! –sendo que a direção de McG e sua incapacidade de dirigir atores a contento (algo que Cameron fazia muito bem) desequilibram por completo a dinâmica entre a condução da trama e as cenas de ação.