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sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O Exótico Hotel Marigold 2

Reflexo condicionado da boa aceitação do primeiro filme –que encontrou seu público, adepto de comédias graciosas e inofensivas sobre as peculiaridades da meia-idade –o segundo filme, repete a fórmula de “O Exótico Hotel Marigold” dando continuidade à história de seus idosos personagens, ainda em busca do amor, da felicidade e da realização aparentemente descoberta no improvável cenário da Índia.
Todavia, a cena que abre o filme de John Madden se passa nos EUA: Nela, Sonny Kapoor (Dev Patel), o jovem proprietário do Hotel Marigold, e a Sra. Donnelly (Maggie Smith), que ao fim daquele filme tornou-se sua administradora, estão em viagem para encontrar uma junta representante de uma grande franquia de hotéis cinco estrelas –entre os quais vemos a participação especial de David Strathairn.
Tendo obtido singelo êxito com o hotel, o impulsivo e sonhador Sonny quer expandir obtendo assim uma parceria com hoteleiros de fama mundial, para construir um segundo e bem mais suntuoso Hotel Marigold.
Em regresso à Índia, e ao cenário usual do primeiro filme, ele e a Sra. Donnelly sabem que estão por receber o inspetor que avaliará se o Hotel Marigold tem condições de fazer jus à parceria –só não sabem quem esse inspetor será.
Para Sonny, não resta dúvida: Ele é certamente o escritor Guy Chambers (Richard Gere, em participação tão descontraída quanto luxuosa), e para tanto, Sonny o cobre de bajulações, embora o interesse romântico que Guy demonstre por sua mãe (Lillete Dubey) não lhe desça muito bem à garganta.
Como é significativo no formato plural do roteiro anterior, essa não é a única intriga a movimentar o filme: Além dessa questão empresarial, Sonny tem complicações com sua noiva Sunaina (Tina Desai), cujo casamento marcado para breve enfrenta alguns contratempos com a aparição de um velho amigo galante, sedutor e onipresente que lhe dá nos nervos.
E, claro, temos também o festejado elenco inglês de veteranos que, exceto por Tom Wilkinson, repetem todos os seus papéis: Evelyn (Judi Dench), que parecia ter reencontrado o amor com Douglas (Bill Nigh) no filme anterior, tem suas certezas tornadas aqui mais hesitantes e relutantes (atitude que reduz consideravelmente seu protagonismo nesta continuação), e tudo piora ainda mais quando a ex-mulher de Douglas, Jean (Penelope Wilton), retorna da Inglaterra com a filha dos dois –e um leque de histórias e conversas fiadas!
O metido a conquistador Norman (Ronaldo Pickup) encontrou na aparentemente doce Carol (Diana Hardcastle, de "Casamento de Verdade"), uma chance tardia para o amor; embora ele descubra que isso signifique submeter-se ao ônus de uma relação à dois imperfeita e inesperadamente liberal.
E, por fim, Madge (Celia Imrie) se lança à uma busca por sua cara metade; que parecem ser dois parceiros que ela persegue à bordo de um táxi, sem ter certeza de qual dos dois seguir ou  não –pela sua natureza elíptica e pouco envolvente, essa é a sub-trama mais frágil de um trabalho acometido pela complicação de sub-tramas frágeis.
Centrando muito de seu enredo desta vez no espalhafatoso Sonny –que no filme original era pouco mais que um alívio cômico –“O Exótico Hotel Marigold 2”, na tentativa de repetir o êxito até bastante inesperado do primeiro filme, retoma muitas das histórias outrora bem arrematadas dando a elas um aborrecido sabor requentado, aspecto disfarçado com a presença mais ostensiva do que pertinente de Richard Gere.
No fim das contas, uma continuação desnecessária.

domingo, 14 de junho de 2020

O Exótico Hotel Marigold

Pouco se identifica de um estilo mais marcante que relacione o oscarizado “Shakespeare Apaixonado” e o thriller “Armas Na Mesa”, embora eles tenham sido realizados pelo mesmo diretor.
Talvez, o que define o trabalho de John Madden seja afinal sua capacidade para migrar com o máximo possível de elegância aos mais diversos gêneros, embora isso acarrete uma atroz falta de profundidade a essa abordagem justamente pela fugacidade com que é feita.
“O Exótico Hotel Marigold” é um exemplo dessa desenvoltura e de como ela rende obras satisfatórias (chegou a ser indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme de Comédia ou Musical) e igualmente simplórias (pode se esquecer dele tão logo se acaba).
Sete personagens ingleses são flagrados às voltas com a rotina e os aborrecimentos da velhice: Evelyn (Judi Dench, fabulosa) cuja viuvez evidenciou ainda mais a dependência que tinha do marido; Graham (Tom Wilkinson), juiz da Suprema Corte desiludido com o marasmo de sua profissão; Douglas e Jean Ainslie (Bill Nigh e Penelope Wilton, que já formaram um casal em “Todo Mundo Quase Morto”), insatisfeitos com as circunstâncias modernas da avançada idade; Madge (Celia Imrie, de “Garotas do Calendário"), septuagenária já farta das incumbências domésticas relegadas a ela pela filha e pelo genro; Norman (Ronald Pickup, de “O Destino de Uma Nação” e “Evilenko”), um coroa ainda ávido por conquistas amorosas, cada vez mais escassas devido à sua condição; e a Sra. Donnelly (a sempre formidável Maggie Smith), senhora inglesa ranzinza e preconceituosa, confrontada com as falências do próprio corpo.
Todos eles, por razões distintas, acabam topando uma hospedagem gratuita em plena Índia oferecida gratuitamente num tal Hotel Marigold para turistas europeus –alguns com a possibilidade de lá ficar até o fim de seus dias: Evelyn porque nos quarenta anos de casada nunca fez nada sem a intervenção do marido (e agora quer se provar); Graham porque é homossexual, e numa viagem à Índia na juventude, conheceu o único homem que realmente amou (e, na intenção de encontrá-lo, convence todos os outros da viabilidade da viagem); Douglas e Jean porque uma aventura pode provar, para os outros e para si mesmos, que a idade não representa incapacidade (mesmo que tal mudança signifique perceber as fragilidades do próprio casamento); Madge porque acredita que ainda pode encontrar em algum lugar a chama do amor e do desejo (e sua intuição a leva a crer que a Índia possa ser esse lugar); Norman porque em Londres, na Inglaterra, ele praticamente já esgotou as possibilidades de se dar bem com as mulheres (e ser um inglês na Índia pode dar-lhe assim alguma vantagem); e a Sra. Donnelly porque a cirurgia de quadril que ela precisa imediatamente fazer será muito mais rápida e barata se for realizada em solo indiano (a despeito da forte discriminação que ela tem com o povo de lá, seja com seus hábitos e principalmente com sua comida).
São sete protagonistas que se dividem entre o humor, o drama, a reminiscência, o otimismo e o sarcasmo, para narrar suas distintas sub-tramas –beneficiados pela primazia particular do veterano elenco inglês –acrescidos ainda de mais outro: O jovem e irrequieto gerente do Hotel Marigold, Sonny Kapoor, vivido pelo carismático Dev Patel (de “Quem Quer Ser Um Milionário?”), que se equilibra entre a atrapalhada administração do hotel, uma herança da família, o cerco cerrado e a cobrança existencial da mãe (Lillete Dubey, de “Um Casamento À indiana”), o namoro afetuoso, porém, turbulento com a bela Sunaina (Tina Desai, da série “Sense 8”) e o trato cheio de negociações e artimanhas com os novos hóspedes.
Essa mistura obtida em “O Exótico Hotel Marigold” agrada porque a direção soube dar ao filme aquele sabor de comédia inglesa que sempre cai bem no paladar cinéfilo –e ali estão as interpretações notáveis (Maggie Smith é particularmente fenomenal) e o senso de humor auto-depreciativo característico para o deleite –embora seja mais um título que, na filmografia irregular de John Madden, mostre absoluta aleatoriedade na sua busca por histórias e personagens.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 2

Havia uma intenção bastante específica quando foi tomada a decisão de dividir o último livro da “Saga Harry Potter” em dois filmes: Traduzir o conteúdo da história, profundamente elucidativa para com todas as pontas soltas deixadas ao longo dos outros seis livros, da forma mais completa possível –essa prática chegou até a influenciar outras sagas adolescentes posteriores oriundas da literatura como “Crepúsculo” e "Jogos Vorazes”, cujo livro final também foi dividido em filmes Parte 1 e Parte 2.
Ironicamente, é nesse aspecto que o último filme dirigido por David Yates deixa a desejar –como veremos mais a frente.
“As Relíquias da Morte-Parte 2” retoma exatamente o ponto em que a “Parte 1” abandonou o público, quando Voldemort enfim pôs as mãos na poderosa ‘varinha das varinhas’ e Harry Potter, ainda perplexo, testemunhou o nobre sacrifício do elfo Dobby.
O filme prossegue daí quando Harry, Hermione e Rony almejam agora encontrar as outras horcruxes –os artefatos de magia negra imbuídos de fragmentos da alma de Voldemort: E só para constar, até este ponto da trama, dentre todas as sete horcruxes já foram mostradas três (o diário de Tom Riddle, destruído em “A Câmara Secreta”; um anel, destruído por Dumblodore à duras penas; e o medalhão do qual Harry e Rony deram cabo no filme anterior).
As quatro que ainda faltam, de certa maneira, determinam a narrativa do filme: A quarta, uma taça enfeitiçada, guardada no Banco Gringotes, regido por desconfiados duendes –e dentro do qual os três jovens vão audaciosamente tentar entrar com o pouco confiável auxílio do duende Grampo (o sensacional Warwick Davis, de “Willow-Na Terra da Magia”). E tome mais uma cena espetacular quando os três fogem do banco sobre as costas de um dragão!
A quinta, um lendário diadema roubado da Casa de Corvinal, obriga Harry e seus amigos a voltarem para Hogwarts, onde Severo Snape prevalece como diretor impondo os desmandos do Lorde das Trevas e submetendo os alunos a um regime ditatorial –é na busca por essa horcrux que Harry se depara com o fantasma de Helena Ravenclaw, vivido por Kelly MacDonald, a estrela de “The Girl In The Café”, também dirigido por Yates.
A sexta horcrux, numa manobra até bem óbvia vem a ser a fiel e mortífera cobra Nagini, sempre próxima de Voldemort, enquanto que a sétima e última, revelada no clímax, vem a ser o próprio Harry Potter (!), que deve ser sacrificado para que o Lorde das Trevas pereça.
Na esteira dessas revelações e acontecimentos –que, por sua proximidade fidedigna ao material literário, agrega um excesso de informações que pode confundir muitos expectadores –o diretor Yates escancara suas predisposições épicas, já perceptíveis na gradual elevação de escopo em seus filmes anteriores (especificamente iniciada em “O Enigma do Príncipe”), mas abraçadas por inteiro aqui na grandiloquente batalha do bem contra o mal que toma Hogwarts como cenário na última hora de filme, quando praticamente todos os personagens (alguns interpretados por atores famosos que surgem como pontas) comparecem deste ou daquele lado.
Não há dúvida de que a possibilidade de abreviar o mínimo possível os acontecimentos do livro beneficiou o filme. Contudo, se a “Parte 1” resulta primordial e empolgante por conta disso, a “Parte 2” sofre pequenas complicações: É maravilhoso poder ver muitos trechos do livro preservados na íntegra (e uma pena constatar que isso infelizmente não ocorre com tanta frequência em adaptações cinematográficas em geral), no entanto, é estranho que justamente a sequência do livro que melhor justifica a divisão em duas partes seja exatamente a que acaba negligenciada pela narrativa –trata-se do momento em que Harry Potter contempla as memórias de Severo Snape (Alan Rickman, certamente o grande ator de toda saga), até então tratado como um dos grandes vilões da história. Por meio desse momento brilhante, Harry (e o público junto com ele) descobre as reais motivações de Snape e o porque dele ser, sem que soubéssemos, um dos grandes heróis da saga!
Um momento revelador, emocional e surpreendente que merecia no filme o mesmo zelo e cuidado demandado no livro; do jeito como ficou –numa montagem de cenas simultâneas, quase a lembrar um videoclipe –pode até suscitar algumas emoções, mas está longe do impacto que poderia ter se ganhasse a mesma atenção de algumas cenas de ação.
Claro que essas são impressões menores: Do jeito como está, “As Relíquias da Morte-Parte 2” se mantêm como um final apoteótico, arrebatador e digno para uma das sagas cinematográficas mais marcantes dos últimos tempos.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Harry Potter e O Enigma do Príncipe

O diretor David Yates, tendo estreado em “Harry Potter” no filme anterior, chegou mesmo para agitar as coisas: Os primeiros minutos de “O Enigma do Príncipe” já deixam bem claro que, neste ponto, a saga já não tem qualquer interesse em temas infanto-juvenis –a paleta de cores é séria, monocromática, quase evocando um preto & branco interiorizado em muitos momentos; o clima de tensão é frequente e eficaz, aproximando esta obra, muitas vezes, de um filme de terror, e além de tudo, Yates impõe uma elegância à toda prova que eleva consideravelmente as apostas deste novo filme, onde são esboçados os ganchos narrativos que enfim conduzirão a saga ao seu desfecho.
Numa escala inédita nos filmes de “Harry Potter” até então, começamos o filme testemunhando o que parecem ser ataques terroristas sistemáticos em Londres de natureza mágica. Apesar do alvo ser o Beco Diagonal (visto em “A Pedra Filosofal” e “A Câmara Secreta”), podemos vislumbrar também a destruição da Ponte Millenium, de Londres. Os Comensais da Morte, pavorosos asseclas de Lorde Voldemort, atrevem-se a atacar e dar as caras no mundo normal (o chamado ‘mundo trouxa’).
Harry aparece no momento seguinte, quando o diretor Yates se dá ao luxo de fazer uma auto-referência: Impossível não lembrar de seu elogiado “The Girl in The Cafe”, quando vemos um Harry Potter aturdido com as notícias do jornal, dar um pequeno tempo e flertar com a garota que trabalha na cafeteria.
Logo, porém, a responsabilidade chama: Alvo Dumblodore requisita a companhia de Harry numa visita a um certo Horacio Slughorn (Jim Broadbent), alguém que, por razões muito especiais, o diretor de Hogwarts deseja para ser o novo professor de Poções –o professor anterior dessa matéria, Severo Snape, finalmente conseguiu a cadeira de professor de Defesa Contra A Arte das Trevas (cujas aulas mostradas no livro são omitidas no filme).
Apaixonado pela mitologia que cerca a trama como nenhum diretor antes dele, David Yates avança seu filme saboreando a evolução circunstancial presente em cada pequeno detalhe de sua história: Harry, Rony e Hermione são agora alunos dos últimos anos, o que faz deles veteranos acostumados aos meandros estudantis acrescidos da curiosidade da magia. Já a seis anos em Hogwarts, Harry agora é o capitão do time de quadribol de Grifinória, no qual seu amigo Rony e a irmã dele, Gina (Bonnie Wright), fazem teste para poder participar da equipe. E nas salas de aula, em especial, na matéria ministrada pelo Prof. Slughorn, Harry encontra um livro carcomido cheio de anotações de um certo ‘Príncipe Mestiço’ –o mistério que batiza este capítulo distraindo a atenção dos elementos realmente relevantes –e tais anotações feitas à mão ajudam Harry a tornar-se o melhor aluno da sala (!). Também o aspecto romântico se manifesta aqui com mais intensidade: Harry se descobre cada vez mais apaixonado por Gina, que no momento se envolve casualmente com Dino (Alfie Enoch), enquanto Hermione, em sua lenta e gradual aproximação com Rony tem seus planos interrompidos pela tietagem da deslumbrada Lila Brown (Jessie Cave).
Yates usa essas eventuais intrigas amorosas como pontuais atenuantes para uma trama sombria que ele engendra com zelo e critério ao longo da narrativa, sobretudo, na condução de dois núcleos distintos: Os breves, no entanto, significativos momentos em que flagramos o jovem Draco Malfoy (Tom Felton) e sua ‘missão’ por meio da qual os Comensais da Morte almejam finalmente invadir a tão segura Hogwarts; e, claro, a trajetória de Harry que o leva até o misterioso e escorregadio Horacio Slughorn –ele trás consigo um segredo (que ele recusa-se a compartilhar até mesmo com o próprio Dumblodore) sobre as razões ligadas a magia negra que fazem Voldemort ser imortal; e que, portanto, fornecem a pista para enfim matá-lo.
Como é habitual na construção narrativa de todos os “Harry Potter”, as numerosas pontas soltas a tratar de assuntos que aparentam serem tão diversos quanto dispersos, em dado momento, se unem revelando uma conexão intrínseca que os torna fragmentos complementares de uma mesma e sólida trama bem planejada –entretanto, neste filme até mais do que em “A Ordem da Fênix”, o diretor Yates se permite ir acima e além da fidelidade ao livro (que ele transfigura com convicção impecável) acrescentando impressões aos personagens e às suas motivações que só poderiam ser mesmo capturadas em cinema: É o caso da interpretação brilhantemente moldada do Prof. Slughorn que Jim Broadbent compõe com uma compreensão desigual do fascínio parasitário despertado nele por alunos de potencial fora do comum, primeiro o Tom Riddle ‘pré-Voldemort’ (interpretado em lembranças passadas por Frank Dillane e Hero Fiennes-Tiffin, este último, sobrinho de Ralph Fiennes), e depois o próprio Harry Potter. Os trinta minutos finais também revelam um domínio prodigioso dos elementos fantásticos, aqui empregados rumo a uma atmosfera genuinamente assustadora (palmas para a magnífica cena no lago dentro da caverna!).
Ao abraçar com uma serenidade contagiante um filme com facetas tão distintas (do romance ao terror, do suspense à comédia), o aspecto mais surpreendente do trabalho de David Yates acaba sendo a espantosa harmonia com a qual ele consegue manter tudo num mesmo tom, envolvendo o expectador num ritmo preciso e absorvente até a cena final que, neste filme em particular (talvez o de execução mais desafiadora de toda a saga) não encontra um ponto derradeiro que possa ser considerado um desfecho –e ainda assim, Yates o encerra extasiando o público com o filme espetacular que concebeu.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Harry Potter e A Ordem da Fêlix

Um novo filme. Uma nova troca de diretor. Todavia, este “A Ordem da Fênix” recebeu aquele que viria a ser o diretor fixo e definitivo da série até seu desfecho: O inglês David Yates, ironicamente reconhecido por trabalhos austeros, realistas e politizados feitos para a TV, como o filme “The Girl In The Café” e a minissérie (mais tarde convertida em filme) “Intrigas de Estado”.
Apesar de nada em sua filmografia pregressa sinalizar isso, Yates mostrou um fascínio inesgotável pelo material, um manuseio prodigioso dos elementos que configuravam a fantasia (como os onipresentes efeitos visuais), e um fôlego louvável que –ao contrário de Chris Columbus, cujo cansaço já se expressava no segundo filme –o levou a ostentar a mesma empolgação, o mesmo zelo para com o ritmo e a caracterização, e o mesmo patamar considerável de qualidade que ele conseguiu manter daqui até o último filme; totalizando quatro longa-metragens sob sua assinatura.
O começo de “A Ordem da Fênix” é brilhante e essencialmente cinematográfico –fruto, na opinião de muitos, do fato de ser o primeiro livro da saga escrito depois que ela já havia começado a ser adaptada para cinema. Nele, Harry surge num parquinho suburbano, contemplando memórias já distantes de infância e outras memórias, não tão distantes, mas terríveis, de quando testemunhou a morte de Cedrico no filme anterior.
Ao lado de seu primo Duda, agora à beira da deliquência, Harry é surpreendido pela aparição de dois Dementadores –numa sequência maravilhosa que deixa explícita a homenagem à “Alien”.
Por conta de usar o feitiço ‘patronum’ para proteger-se e a seu primo nesse prólogo, Harry corre assim o risco de ser expulso de Hogwarts –é sumariamente proibido que alunos pratiquem magia fora da escola.
Segue-se, logo depois, uma cena no até então muito falado, mas pouco mostrado, Ministério da Magia. Lá, o Ministro da Magia em pessoa, Cornélio Fudge (Robert Hardy), se revela hostil à Harry Potter e avesso à alegação dele e de Dumblodore de que Lorde Voldemort finalmente retornou.
E aí estão, pois, as características politizadas que justificam a escolha de David Yates como diretor –e que só se intensificarão daqui para frente –há todo um conflito de interesses ideológicos a incrementar as considerações acerca do conflito básico do bem contra o mal; para o Ministro Fudge, refutar a volta de Voldemort significa mais opor-se a Dumblodore como seu adversário político do que reconhecer o regresso do mal –e nessa teimosia, ele abre amplo espaço para a paranóia que, neste filme, contamina todo o mundo bruxo.
Isso, claro, se reflete na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts: A nova professora de Defesa Contra a Arte das Trevas, a insidiosa Dolores Humbridge (Imelda Stanton, compondo com primor a grande vilã do filme), é uma ferrenha apoiadora das facetas mais rígidas e autoritárias do governo de Fudge, e com essa postura, ela aproveita-se da ausência eventual de Dumblodore para dominar gradualmente toda a escola: Começa impondo a regra de que alunos não devem praticar magia –apenas inteirar-se da teoria –fazendo-os indefesos e deixando a capacidade para se defender reservada às forças do ministério; logo, ela se vale da proximidade com o ministro para colocar-se no direito de vetar aulas que julga desnecessárias (como as de clarividência); impõe normas de conduta abusivas e, com o tempo, táticas de punição ainda mais intoleráveis, chegando a arregimentar os alunos mais suscetíveis e corruptíveis (como Draco Malfoy) para a chamada Ordem Inquisitória destinada a policiar e denunciar as menores contravenções.
É natural que, em um ambiente assim tão repressivo, os esforços revolucionários acabem insurgindo: Dispostos a garantir um conhecimento contra as forças das trevas que se ensaiam no horizonte, Harry, Rony, Hermione e seus outros amigos –como Gina (Bonnie Wright), Chang (Katie Leung) ou Luna Lovegood (a sensacional Evanna Lynch) –resolvem integrar um grupo que reedita a Ordem da Fênix –outrora formada por seus pais, Sirius Black e outros quando jovens –e criam assim a Armada Dumblodore, para treinar às escondidas feitiços de proteção.
É impressionante perceber, por meio dessa premissa e do modo com que ela é tratada, o quanto a saga “Harry Potter” evoluiu: De aventuras infanto-juvenis investigativas, a série passou para uma contundente e eficiente alegoria sobre os excessos perniciosos do poder e da autocracia, mais próximo dos formidáveis “V de Vingança” e “1984 de Orwell” que de “Scooby-Doo”. Essa impressão é reforçada pelo evidente e notável amadurecimento do elenco, sobretudo, os protagonistas, Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson que cresceram literalmente em frente às câmeras.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Harry Potter e O Cálice de Fogo

Para o quarto filme de saga, o diretor do ótimo trabalho anterior, Alfonso Cuarón, recusou a oferta para retornar à direção. Foi chamado então o realizador Mike Newell, de “Quatro Casamentos e Um Funeral” –o primeiro inglês, por sinal, a assumir o comando da saga –o quê proporcionou aos filmes da série uma chance do público experimentar as obras que se sucediam acrescidas das sensibilidades particulares de diferentes cineastas. Chris Columbus deu aos dois primeiros um viés envolvente de aventura juvenil; Cuarón agregou ao terceiro valores cinematográficos e artísticos mais sólidos; enquanto que Newell, valendo-se da ampla experiência nos distintos gêneros que trabalhou, contribuiu com o bombástico humor inglês ao que a saga tinha de comédia, e uma refinada depuração entre o drama e o suspense para o que ela tinha de tragédia.
O resultado é que “O Cálice de Fogo” disputa, com qualquer um dos outros títulos, o posto de melhor filme de toda a saga.
No quarto ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry Potter já não é mais tão perplexo ao mundo mágico que o cerca. Suas inseguranças são agora angústias inerentes a um adolescente quase normal, que tem a peculiaridade de viver num ambiente regido por magia. Toda Hogwarts se encontra, nesse ano, em polvorosa: A escola será sede de um Torneio Tribruxo –onde Hogwarts e duas outras escolas de magia disputarão a almejada Taça dos Campeões.
Tais campeões serão selecionados pelo poderoso Cálice de Fogo cuja magia impede bruxos menores de dezessete anos de participar. Ou seja, Harry, Rony e Hermione –do alto de seus catorze anos –não podem competir. Contudo, no dia em que os competidores são anunciados, junto do nome dos usuais representantes de cada escola –Viktor Krum (Stanislav Ianevski) a representar o Instituto Durmstrang; Fleur Delacour (Clémence Poésy, de “127 Horas”) representando a Academia de Magia Beauxbatons; e Cedrico Diggory (Robert Pattinson, revelado aqui antes da “Saga Crepúsculo”) como representante de Hogwarts –o Cálice de Fogo cospe também o nome de Harry Potter (!).
Ele é aceito como competidor já que, segundo as regras do Torneio Tribruxo, os desígnios do Cálice de Fogo são onipotentes –o que significa que, na qualidade de perdedor certo, Harry terá alunos de magia mais velhos como adversários, em provas perigosas que podem perfeitamente lhe representar perigo mortal.
Ciente de que tem material de sobra para trabalhar –o livro que é aqui adaptado é um dos mais ricos e extensos de toda série –o diretor Mike Newell é admiravelmente criterioso na seleção dos momentos vultuosos e intensos que são aproveitados: Apenas aqueles que levam a história a avançar. O que sobra em “O Cálice de Fogo” é a aventura mais perfeitamente ajustada, até aqui, nas idas e vindas aflitivas de seu protagonista, absolutamente afiada nos meandros que conduzem, sem que fique claro até o instante fatídico, ao acontecimento divisor de águas para com toda a saga –é aqui, em “O Cálice de Fogo” que testemunhamos o retorno tão alardeado de Lorde Voldemort em toda sua ameaça; e ao interpretá-lo, na intensa cena do cemitério, Ralph Fiennes entrega um dos mais hipnóticos vilões dos últimos tempos, numa atuação raivosa e eletrizante que consegue fazer jus a toda preparação para sua chegada feita pelos filmes anteriores.
Por tudo isso, “Harry Potter e O Cálice de Fogo” marca uma contundente transformação na saga: A partir daqui, nada no mundo de Harry Potter será como antes –e trazer como clímax a primeira e verdadeiramente dolorosa morte de um personagem é só uma faceta dessa constatação –isso é inclusive sentido pelos próprios protagonistas na agridoce e reflexiva cena final, um sutil indício de tudo que está por vir nos excelentes filmes vindouros.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Harry Potter e O Prisioneiro de Askaban

O anúncio do afastamento do diretor Chris Columbus em meio aos preparativos para este terceiro filme da saga pegou muitos de surpresa –ainda que ele tenha permanecido próximo como produtor.
Corria o boato de que Columbus dava brecha para que fosse assim contratado Steven Spielberg, que antes do lançamento de “Harry Potter e A Pedra Filosofal” já manifestava sua intenção de dirigir a produção (e americanizar o material). Os produtores, no entanto, foram sensatos optando por uma escolha inusitada que revelou-se certeira: O magistral e premiado diretor mexicano Alfonso Cuarón, até então conhecido apenas pelos prodigiosos “A Princesinha” e “E Sua Mãe Também” –ao adaptar aquele que muitos consideravam o melhor livro de toda a saga, Cuaron estabeleceu um diálogo autoral com suas duas belíssimas obras pregressas; do primeiro, ele extrai um enternecedor senso de fábula, uma paleta de cores sedutora (com predominância do elegante verde-musgo) e uma audaz capacidade de conjurar os elementos infantis oriundos dos filmes anteriores com uma aura transgressiva, sombria e que jamais subestima seu público; do segundo, ele aproveita o retrato honesto, orgânico e incomum dos humores inconstantes da juventude, obtendo do jovem elenco suas melhores interpretações até então.
De quebra, sua habilidade cinematográfica molda uma cena memorável atrás da outra. A começar por aquela que abre o filme, como sempre, com Harry às voltas com a tirania doméstica de seus tios –mais até: Desta vez, uma intratável irmã de tio Vernon que Harry, sem querer, transforma em balão (!). Essa cena já deixa bem claro que Harry Potter está crescendo: Ele já não se mostra tão passivo e intimidado quanto outrora e ensaia até uma espécie de fuga de casa, indo parar num tal hotel ‘Caldeirão Furado’.
É lá, antes mesmo de ir para Hogwarts, que Harry descobre que um prisioneiro escapou de Askaban, a famosa prisão dos bruxos –trata-se de Sirius Black (o sempre sensacional Gary Oldman) considerado o traidor que entregou seus pais ao próprio Voldemort. Por conta disso, muitos são os que acreditam que o alvo de Sirius, agora, é o próprio Harry Potter, o quê leva Dumblodore a requisitar para a Escola de Magia e seus alunos a ambígua proteção dos Dementadores –criaturas sobrenaturais capazes de sugar a energia, a felicidade e a vida das pessoas e que em sua periculosidade não distinguem aqueles que deveriam defender dos que deveriam atacar.
Entre outras sacadas geniais da parte de Cuarón enquanto contador de histórias –e nos inúmeros detalhes que ele consegue acrescentar em relação ao livro –algo que pode passar despercebido aos expectadores mais jovens é o quanto foi inspirada a escalação do ótimo Gary Oldman para viver Sirius Black –Oldman vinha de uma série de filmes (sobretudo, nos anos 1990) em que havia se popularizado em Hollywood como um dos mais assíduos vilões do cinema comercial, em obras como “O Profissional”, “O Quinto Elemento” e “Força Aérea Um” (estereótipo ao qual, pelo menos até aquele período, ele parecia estar restrito). Os rumos presentes na trama de “O Prisioneiro de Askaban” terminam por subverter completamente essa expectativa, mas apenas porque o ator escolhido conduz o público a essa surpresa.
Por falar em atores, “O Prisioneiro de Askaban” marca a estréia de Michael Gambon no papel de Dumblodore, em substituição ao falecido Richard Harris –um trabalho tão acertado e digno que pode passar despercebido dos expectadores que não tiverem essa informação.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Harry Potter e A Câmara Secreta

Se o segundo filme de saga é, com frequência, apontado por público e crítica como um dos mais desinteressantes da série, ele é também um dos que mais cresce numa revisão.
O primeiro dos filmes a experimentar a consequência notável de como a série registrou, entre outras coisas, o efeito do tempo sobre seu elenco jovem –o ano que separa este de “A Pedra Filosofal” já é perceptível no amadurecimento das crianças –“A Câmara Secreta” dá início ao processo no qual a narrativa lúdica na história de Harry Potter agrega mais e mais elementos sombrios e, por que não, adultos, à sua trama, embora se note que Chris Columbus não pareça muito à vontade com esse teor do material. Ainda assim, ele realiza um belo trabalho valendo-se de diversas cenas (sobretudo de enquadramentos nos diálogos) onde procura empregar de um desigual prologamento de tempo, muito parecido com o usado por Peter Jackson um ano antes em “OSenhor dos Anéis-A Sociedade do Anel”.
Ávido por iniciar seu segundo ano escolar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry amarga uma angústia ocasionada pelas últimas férias –durante todo o verão, não recebeu uma única carta de seus amigos, Rony e Hermione. Esse é um dos mistérios –dentre os muitos que aqui se somam –que logo ganha uma explicação: Doby, um elfo doméstico dotado de poderes mágicos (e concebido por meio de um primoroso processo de computação gráfica) cismou que Harry não deve, de forma alguma voltar para Hogwarts, caso contrário, coisas terríveis acontecerão.
Assim, Doby dá o estopim a muitas confusões que definem “A Câmara Secreta”: Deixa Harry em maus lençóis com seus tios, o que lhe acarreta um castigo, trancado dentro de seu quarto; em seu resgate vem Rony e seus irmãos que, à bordo de um carro voador, o levam na calada da noite. É Doby também que frustra os planos de Harry e Rony em pegar o Expresso Para Hogwarts –obrigando os dois a lançar mão, mais uma vez, do carro voador –numa das sequências mais sensacionais do filme.
Finalmente na escola, Harry, a medida que o tempo desse segundo ano passa, eventualmente descobre as razões dos temores do elfo: Uma pixação numa das paredes do lugar evidencia a ameaça –“A câmara secreta foi aberta... inimigos do herdeiro, preparem-se!”
Na esteira desse mistério, personagens começam a aparecer petrificados (primeiro a gata do zelador Filty, depois alguns dos alunos), indicando que um terrível monstro –até então preso na tal câmara –está agora à solta em Hogwarts.
Além disso, Harry descobre que seu poder de comunicar-se com cobras (como foi visto numa das primeiras cenas de “A Pedra Filosofal”) não é algo comum aos bruxos; na verdade, é uma particularidade atribuída quase exclusivamente ao tenebroso Lorde Voldemort.
Todos esses fatores têm o mérito de parecer aleatórios num primeiro momento, mas vão se unindo aos poucos, como pontas soltas numa bem elaborada e detalhada costura.
Seguindo uma fórmula similar ao do filme anterior –fato que incomoda, inclusive, porque a direção de Columbus se revela bastante exaurida em muitos momentos –este segundo filme deixa enfatizado, acima de tudo, que Hogwarts não é um local tão seguro quanto se presumia; tudo o mais que ele poderia fazer, deixa em aberto para os filmes vindouros, estes sim, responsáveis por iniciar a trama propriamente dita do embate das forças do bem contra o mal.
“Harry Potter e A Câmara Secreta” marca também a despedida do saudoso Richard Harris no papel de Alvo Dumblodore, personagem que, neste filme, ele fez questão de interpretar até o fim, em algumas cenas, necessitando de aparelhos para se manter em pé e respirando –nada disso se percebe em cena, claro, resultado da competência da equipe técnica e da brilhante tenacidade desse grande ator.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Harry Potter e A Pedra Filosofal

Um fenômeno literário, a série “Harry Potter” conseguiu o feito de repetir tal fenômeno ao ser vertido para cinema, graças à excelência de sua realização (que materializou com propriedade as inúmeras facetas do mundo mágico imaginado pela escritora J.K. Rowling), ao carisma de seu elenco escolhido com perfeição, e ao talento de seus distintos diretores que se alternaram nos filmes que se seguiram.
Para o primeiro deles, “A Pedra Filosofal” a escolha dos produtores recaiu sobre o americano Chris Columbus.
Um diretor essencialmente comercial, acostumado a moldar sucessos obtidos em parcerias (roteirizou para Steven Spielberg “Os Gremlins”, “Os Goonies” e “O Enigma da Pirâmide” e dirigiu “Esqueceram de Mim”, produzido por John Hugues) ou individualmente (“Uma Noite de Aventuras” e “Uma Babá Quase Perfeita”), Columbus fez o que poderia, afinal, dele se esperar: Narrou com noção criteriosa de ritmo (e auxiliado de maneira inestimável pela trilha sonora de John Williams) a história do jovem Harry (Daniel Radcliffe, ótima escolha), orfão inglês maltratado desde sempre pelos tios Vernon e Petûnia (Richard Griffiths e Fiona Shaw, ela de “Meu Pé Esquerdo”) e pelo mimado primo Duda (Harry Melling) com quem morou a vida toda.
No entanto, nas vésperas do décimo primeiro aniversário de Harry, coisas estranhas começam a acontecer: Corujas sobrevoam sua casa trazendo cartas que seu tio se esforça em esconder dele. Além disso, um mirabolante incidente no zoológico com uma cobra deixa Harry intrigado.
Quando o gigante Hagrid (Robbie Coltrane) apresenta-se a ele, Harry descobre a verdade: Que ele é um bruxo, parte de um mundo que vive oculto através de várias regras dos olhos de pessoas normais –e os meios pelos quais esse mundo se esconde é um dos aspectos fascinantes vistos neste primeiro filme.
Harry, na realidade, é uma celebridade no mundo bruxo: Há muitos anos, na noite fatídica em que perdeu o pai e a mãe, ele, ainda bebê, deu cabo, de alguma forma, do famoso e maldoso bruxo Voldemort (o grande vilão da saga) ganhando a cicatriz em forma de raio que tem na testa –e se tornando orfão no processo.
Com seus onze anos completos, é hora, portanto, de Harry ingressar na conceituada Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts: E assim, “Harry Potter e A Pedra Filosofal” se ocupa de definir algumas características do mundo mágico, mostrar algumas regras que devem serem seguidas (ou não) conforme testemunhamos o emprego da magia recém-descoberta pelo protagonista e apresentar os demais personagens (todos numerosos) que participarão da trama –alguns, de suma importância, aparecem neste capítulo inaugural em uma única cena como é o caso da Sra, Weasley (Julie Walters).
Este primeiro filme gira em torno de um trama, que ganha até mesmo ares secundários, a respeito da mítica pedra filosofal –cuja importância só começa a ser trabalhada de fato quase a partir da sua metade –e de sua possível capacidade de trazer Voldemort de volta à vida, entretanto, o que parece contar de fato para a narrativa é a moldura onde todos os elementos do mundo da bruxaria (ou, ao menos, da Escola de Bruxaria) são evidenciados em ricos detalhes, sobretudo, da radiante introdução de personagens como Rony Weasley (Rupert Grint, fantástico), Hermione Granger (a maravilhosa Emma Watson), o diretor Alvo Dumblodore (Richard Harris), os professores Minerva (Maggie Smith) e Severo Snape (Alan Rickman, fabuloso) e tantos outros.
Embora desfrute de imodestos cento e cinquenta e dois minutos de duração, “Harry Potter e A Pedra Filosofal” é, no frigir dos ovos, um prólogo, um história de tom deliberadamente infantil que apresenta com transparência e puerícia esse complexo contexto dentro do qual os filmes seguintes irão se passar.

sábado, 4 de agosto de 2018

Os Vencedores do Oscar 1970


Hollywood sofria grandes mudanças (e outras grandes mudanças ainda iria sofrer) na transição da década de 1960 para 70, e muito disso se registra na tentativa de conciliação da cerimônia de 1970, onde a Academia buscou honrar a Antiga Hollywood que ainda persistia em trabalhos de estúdio (sobretudo, nas três estatuetas conquistadas pelo musical “Alô, Dolly!” –aquele filme visto na animação “Wall-E” –apesar de seu fracasso de bilheteria) e a nova realidade que já moldava um novo tipo de cinema; e nesse sentido, a vitória do magnífico e ousado “Perdidos Na Noite” foi emblemática.
Se por um lado o Oscar enfim reconheceu John Wayne com um prêmio já tardio de Melhor Ator (por “Bravura Indômita” que em 2011 foi refilmado pelos Irmãos Coen), por outro, eles agraciaram com o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante a promissora Goldie Hawn (por “Flor de Cacto”, um filme que hoje ninguém lembra; na verdade, ninguém lembra que ela GANHOU um Oscar!).
Vencendo por “A Primavera de Uma Solteirona”, a Melhor Atriz do ano foi a grande Maggie Smith, que hoje todo mundo conhece pela saga “Harry Potter” e pela série “Downton Abbey”, e o Melhor Ator Coadjuvante foi para Gig Young, infelizmente a única estatueta conferida ao fenomenal “ANoite dos Desesperados”.
Pouco a pouco, a Academia ia absorvendo as irreversíveis transformações daqueles novos tempos.
P/S: Na categoria de Filme Estrangeiro, um raro caso de empate.

MELHOR FILME
"Perdidos Na Noite"

MELHOR DIREÇÃO
"Perdidos Na Noite", John Schlesinger

MELHOR ATRIZ
Maggie Smith, "Primavera de Uma Solteirona"

MELHOR ATOR
John Wayne, "Bravura Indômita"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Goldie Hawn, "Flor de Cacto"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Gig Young, "A Noite dos Desesperados"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Butch Cassidy"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Z" (Argélia) e "Os Irmãos Karamazov" (U.R.S.S.)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Sem Rumo No Espaço"

MELHOR FIGURINO
"Ana dos Mil Dias"

MELHOR SOM
"Alô, Dolly!"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Alô, Dolly!"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“Butch Cassidy"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
"Alô, Dolly!"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Raindrops Keep Fallin’ On My Head", de "Butch Cassidy"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Butch Cassidy"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Perdidos Na Noite"

MELHOR MONTAGEM
"Z"

terça-feira, 31 de julho de 2018

A Primavera de Uma Solteirona


Certamente mais conhecida do público por sua participação na série “Downton Abbey” e na saga “Harry Potter” –onde fez o papel da Prof. Minerva –a grande atriz Maggie Smith chegou, em 1970, a conquistar um Oscar de Melhor Atriz por um filme do qual muitos já não lembram tanto quanto esses trabalhos mais recentes.
Se o título nacional (que distorce o sentido de “The Prime Of Miss Jean Brodie”) sugere uma comédia e as primeiras impressões sugerem um drama, o filme do diretor Ronald Neame (de “O Destino do Poseidon”) se desvencilha com propriedade de qualquer um desses rótulos graças, sobretudo, ao grande trabalho do elenco inglês.
A trama gira em torno da relação entre uma professora de idéias tidas por inapropriadas para aqueles tempos do início da década de 1930 e seu grupo de alunas. Embora tenham havido comparações com o bem-sucedido “Sociedade dos Poetas Mortos”, de 1989 –e, em princípio, ele realmente aparente ser um precursor em versão feminina daquele trabalho –“A Primavera de Uma Solteirona” não tarda a revelar aspectos questionadores de inúmeras vias.
A Professora Jean Brodie (a quem Maggie Smith, com méritos, oferece uma caracterização completa e incondicional) leciona na Escola Márcia Blaine Para Garotas em Edimburgo, na Escósia.
Carismática, altiva e veemente, ela regressa de suas férias na Itália com uma série de idéias pré-concebidas a respeito da arte, da cultura e da política (leia-se, o fascismo) descobertas por lá que, aos poucos, começa a transferir para suas alunas, à revelia do aval da diretora (Celia Johnson, de “Desencanto”) e ignorando as orientações do currículo escolar.
O fato de sermos expectadores ambientados no presente –e de sabermos, portanto, que os anos 1930, antecederiam a Segunda Guerra Mundial e a perigosa ascensão do nazismo, incluindo o regime de ‘Il Dulce’, Mussoline, que a protagonista tanto admira –nos torna cientes da ambigüidade presente na empolgação da Prof. Brodie com tais novidades.
Impressionadas com essa postura questionadora dela, algumas de suas alunas reagem com o assombro da descoberta, embora cada uma delas tenha uma postura ligeiramente diferente: A influenciável Mary MacGregor (Jane Carr), a quase indiferente Jenny (Diane Grayson) e a observadora e atenta Sandy (Pamela Franklyn, dona de uma cena de nudez certamente audaciosa para a época).
Não obstante esse fato, a Prof. Brodie de certa maneira também envolve essas alunas em pequenos jogos de relacionamento que parece travar com dois professores, o gentil e ingênuo Sr. Lowther (Gordon Jackson), e o artístico e ocasionalmente passional Sr. Loyd (Robert Stephens) –de um ela parece extrair favores dissimulando afeto, do outro se satisfaz ao fazer-se o centro de sua obsessão (e lhe torturando de ciúmes); e todas as suas fiéis alunas têm papéis específicos nessas intrigas.
É Sandy quem, pouco depois de virar amante do Sr. Loyd (!), percebe que falta à Srta. Brodie capacidade para enxergar as extensões perigosas de seu poder de manipular.
Está aí, portanto, a grande diferença entre “A Primavera de Uma Solteirona” e “Sociedade dos Poetas Mortos”: Aqui, a influência exercida pelo mestre sobre os alunos não é tratada com indefectível benevolência, tornando o sistema escolar autoritário e opressor em contraponto; há, sim, um perigo em potencial nas idéias que a Prof. Brodie incute por conta própria em suas alunas –e esse perigo vai da alienação política, passando pela corrupção sexual até chegar na ameaça extrema do risco de morte.
Há outra diferença também: São de grandezas absolutamente distintas os trabalhos dos diretores na condução destas obras; a perspicácia e a sensibilidade à toda prova de Peter Weir em “Sociedade...”, e a abordagem incomodamente seletiva (priorizando alguns aspectos, aprofundando outros, e mantendo certos elementos numa prejudicial superficialidade) de Ronald Neame.
Seu grande trunfo é, de fato, Maggie Smith que, com uma interpretação absolutamente espetacular, humaniza uma personagem cujo roteiro e a condução narrativa tinham tudo para transformar na mera vilã da história.

sábado, 2 de junho de 2018

Os Vencedores do Oscar 1979


A Guerra do Vietnam estava em pauta na cerimônia do Oscar de 1979, ou essa é a impressão que a Academia queria passar ao premiar nas principais categorias os dramaticamente densos e politicamente engajados “O Franco Atirador” (Melhor Filme e Diretor, entre outras) e “Amargo Regresso” (Melhor Ator, Melhor Atriz, e Roteiro Original).
Embora não abordassem esse tema, os demais concorrentes também eles pareciam refletir essa perda da inocência: O brutal “OExpresso da Meia-Noite” (que deu a Oliver Stone, o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado) e o socialmente relevante “Uma Mulher Descasada”.
O único indicado a sinalizar um cinema mais leve era mesmo “O Céu Pode Esperar”, a refilmagem de “Que Espere O Céu” (hoje bem mais conhecido que o original), dirigida pelo então galã Warren Beatty.

MELHOR FILME
"O Franco Atirador"

MELHOR DIREÇÃO
"O Franco Atirador", Michael Cimino

MELHOR ATRIZ
Jane Fonda, "Amargo Regresso"

MELHOR ATOR
Jon Voight, "Amargo Regresso"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Maggie Smith, "Califórnia Suíte"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christopher Walken, "O Franco Atirador"

MELHOR FOTOGRAFIA

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Prépare Vous Mouchoirs" (França)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS

MELHOR FIGURINO
"Morte Sobre O Nilo"

MELHOR SOM
"O Franco Atirador"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"O Céu Pode Esperar"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“O Expresso da Meia-Noite"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
“The Buddy Holly Story"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Last Dance", de "Até Que Enfim É Sexta-Feira"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Amargo Regresso"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Expresso da Meia-Noite"

MELHOR MONTAGEM
"O Franco Atirador"

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A Saga Harry Potter - O Começo


Harry Potter e A Pedra Filosofal
   Esta saga marcou toda uma geração que cresceu assistindo seus oito capítulos no cinema ao longo de uma década, ou mesmo conferindo-os em DVD.
   Se ela será, ou não, lembrada nos próximos anos por vir, isso ainda é uma incógnita, mas parece bem provável que sim, especialmente ao contemplarmos a fascinante elevação de qualidade que ela apresenta a partir do terceiro filme.
   O início da saga, capitaneado pelo irregular diretor Chris Columbus, resultou num filme bastante lúdico e infantil, refletindo até certo ponto, o espírito do primeiro livro.
   Os valores de produção logo deixavam evidente a confiança dos produtores no material, que trouxeram o compositor John Willians para a trilha sonora (icônica, e uma das grandes forças narrativas deste primeiro filme), mas o verdadeiro acerto foi a escolha do elenco, onde não só garantiram a longevidade da série com os três intérpretes infantis principais, como também rechearam o vasto elenco com alguns dos nomes mais significativos da escola inglesa de interpretação.
   Embora tenha estreado nos cinemas (em um já longínquo final de 2001) praticamente junto com o implacável “Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel”, o filme fez uma bilheteria impressionante o suficiente para garantir a realização da saga inteira.
   Aqui descobrimos que o jovem Harry (o apropriado, e melhor a cada capítulo, Daniel Radcliffe) cresceu na casa dos tios, sempre mal-tratado por eles e por seu primo Duda. Mas, tudo muda no seu aniversário de 11 anos, quando um gigante entra porta adentro e lhe faz a revelação que mudará sua vida: ele, Harry, é um bruxo e pertence a um mundo oculto dos olhos normais. Nesse mundo inclusive ele é uma lenda exatamente por ter matado o temido Lorde Voldemort, na mesma noite em que ele matou os pais do próprio Harry. Mas o mundo da magia não é totalmente seguro, pois a sombra de Voldemort ainda assombra muitos que crêem em seu retorno. Na escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry descobrirá que esse retorno pode estar relacionado com a mítica pedra filosofal.


Harry Potter e A Câmara Secreta
   Em seu segundo ano na escola de Hogwarts, Harry Potter descobre que os rumores sobre uma misteriosa câmara aberta em um local que ninguém sabe, podem ser mais perigosos do que parece. Alunos, um a um começam a surgirem petrificados pelos cantos, e a razão disso pode estar relacionada ao grande inimigo de Harry, Lorde Voldemort.
   Realizado de forma praticamente simultânea com o primeiro filme, este segundo exemplar –também ele dirigido por Chris Columbus –já ensaiava uma tentativa de amadurecimento da saga, mostrando-se mais sombrio que o anterior. Mas, a pressão e o desgaste de Columbus ao encarar duas superproduções consecutivas se refletem na narrativa, tornando este segundo o mais enfadonho e cansativo dentre todos os filmes.

   Mesmo assim, alguns méritos se sobressaem, sendo os mais lembrados, a aparição de um notável e expressivo personagem digital (Toby, o elfo, meses antes da revolucionária atuação digital de Andy Serkis, como Gollum, em “Senhor dos Anéis-As Duas Torres” pegar o mundo inteiro de assalto!), e a interpretação exuberante e cômica de Kenneth Brannagh, no papel do novo professor em Defesa Contra a Arte das Trevas, o celebrado Gilderoy Lockhart.