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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Inimigo do Estado

Thrillers de espionagem são, em geral, uma faca de dois gumes: Exigem, no mínimo, diretores hábeis e experientes capazes de administrar com eficiência os expedientes requeridos pela narrativa. No entanto, com frequência, acabam rendendo produções charmosas e sedutoras que, em sua condução envolvente, costumam ostentar o melhor do gênero suspense.
Falta pouco para “Inimigo do Estado” atingir esse objetivo.
Um diretor com experiência, ele tem. O falecido Tony Scott, afinal, fez de quase tudo: Um dos mais emblemáticos sucessos comerciais dos anos 1980 (“Top Gun”, cujo astro, Tom Cruise, era a escolha inicial para este projeto, terminando substituído por Will Smith); um dos mais formidáveis e originais filmes de vampiros da mesma década (“Fome de Viver”); uma longa parceria com Denzel Washington (“Maré Vermelha”, “Chamas da Vingança” e tantos outros) –mas, nunca escapou de ser lembrado mesmo como o irmão mais novo de Ridley Scott.
Se não chega a ter estatura de obra-prima, “Inimigo do Estado” prova, ao menos, a capacidade de seu diretor para compor um belo e envolvente trabalho.
Tomando por base uma das realizações fundamentais desse sub-gênero –o brilhante “A Conversação”, de Francis Ford Coppola –o filme de Tony Scott faz dignamente o que poderia se esperar dele: Contextualiza o conceito da espionagem para os novos e modernosos tempos, imprime ação vertiginosa em suas cenas e tecnologia de ponta em seu argumento (não deixando de lado um molho sócio-político para valorizá-lo), e ainda se sai com uma vistosa participação especial de Gene Hackman, astro daquele filme.
Numa ponta ilustre que não vai além do prólogo, o grande Jason Robards é um senador prestes a vetar um lei que libera a vigilância eletrônica, postura que o leva a ser assassinado a mando de Reynolds (Jon Voight), um figurão da Agência de Segurança Nacional.
O assassinato ocorre em um parque bucólico, casualmente em frente a uma câmera programada para captar a migração de pássaros. O dono da câmera (Jason Lee, também ele numa breve ponta) não tarda a ser perseguido pelos homens de Reynolds e, antes de sua trágica morte, deixa uma cópia do flagrante em meio aos pertencentes de um conhecido que encontrou por puro acaso, o advogado Robert Clayton Dean (Will Smith, numa presença tão cuidadosamente descuidada na trama quanto costumam ser os protagonistas de ação).
Sem saber o que tem em mãos, Dean tem sua vida virada de pernas para ar pelos recursos tentaculares da Agência: Eles plantam escutas em suas roupas e em toda sua casa; o levam a ser demitido da firma em que trabalha; anulam todos os seus cartões de crédito e fecham o cerco em torno dele. Tudo para fazê-lo recorrer à quem eles imaginam que possa estar por trás disso tudo, o ex-agente Brill (Gene Hackman, sempre ótimo), que cai de para-quedas no meio da trama tanto quanto Dean.
Brill, cujo background lembra, não por acaso, o personagem do mesmo Gene Hackman em “A Conversação”, já trabalhou com a Agência no passado, e por isso, tem pleno conhecimento da extensão de seus recursos –e representa, para Dean, a única alternativa de como transitar por esse novo e traiçoeiro mundo da espionagem, e nele encontrar um meio de revidar.
Nessa trama recheada de reviravoltas até bem pontuadas, o diretor Scott se esbalda nas situações que se constroem às vezes num ritmo mais frenético do que o adequado. Como é comum em suas obras, o caprichado visual publicitário se revela um empecilho para que sua premissa seja por inteiro levada a sério, mas ele tem experiência o suficiente para administrar ação e suspense em quantidades necessárias que o façam envolvente até o apoteótico final: Um tiroteio orquestrado com sinergia, sangue e alta voltagem.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Deserto Em Flor

Em sua estreia no cinema, o diretor Eugene Carr esbanja sensibilidade na analogia que estabelece entre o desabrochar palpitante e irreprimível de todas as descobertas adolescentes –em especial, aquelas de natureza mais intimista –e a manifestação da bomba atômica como arma de lamentável destruição e, paradoxalmente, de indiscutível beleza cinematográfica; daí a cena que dá nome ao filme, onde vemos o exuberante cogumelo propagado pela detonação nuclear simbolizando tanto o viés incontrolável dos desejos e anseios juvenis quanto da própria arma que os seres humanos conceberam.
É, portanto, presumível que a trama se ambiente assim nos EUA dos anos 1950. Em Las Vegas, no Deserto de Nevada, onde os testes nucleares estão em afoito andamento, se desenrola uma trama, por sua vez, mais distinta, mundana e pessoal.
É a história da jovem Rose Chismore (Annabeth Gish) sob a ótica da qual veremos os aspectos disfuncionais de todos os membros de sua família: O padrasto (Jon Voight), vitimado por stress pós-traumático devido à guerra da Coréia, e resignado no alcoolismo, o quê só o torna ainda mais problemático; a mãe (JoBeth Williams) indiferente e alienada; o jovem que converteu-se em seu primeiro amor; e a tia (Ellen Barkin) vivaz, melindrosa e espalhafatosa que, por algum tempo, representa um oásis de diversão em meio ao tétrico caos familiar –até ela própria representar também ser um elemento desestabilizador para a harmonia do lar.
Das primeiras realizações à aproveitar financiamento do Sundance Institute –que o astro Robert Redford fundou para viabilizar projetos de novos talentos –em meados dos anos 1980, esta é uma realização independente que se beneficia da autonomia que a originou. Pode assim se dar ao luxo de ser um drama intrincado (quando qualquer obra partida de tal tema se obrigaria a ser forçosamente simplória para se manter comercial), de abordar assuntos com seriedade mais palatável do que melodramática (não só as angustias da juventude e as mazelas de núcleos familiares de classe média-baixa, como também as repercussões e desdobramentos do momento histórico notavelmente reconstituído e retratado) e de oferecer desafios reais à bons atores normalmente atrelados a um arquétipo quando se trata de suas participações no cinemão comercial –ainda que, no fim das contas, Jon Voight continue confortável no papel de neurótico ameaçador e Ellen Barkin (de “Vítimas de Uma Paixão”) no de mulher sensual.
O desfecho, que se pretende impactante, é ligeiramente comprometido pelo ritmo deliberadamente lento e contemplativo, mas isso não tiro o brilho desta obra reminiscente, sensível e adulta –e infelizmente, bastante desconhecida do grande público.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Perdidos Na Noite


Filme seminal e representativo do fim da década de 1960, início da de 70, quando o cinema norte-americano realizou obras de ousadia temática em função de uma recém instaurada independência dos grandes estúdios, “Perdidos Na Noite” perpetrou sua mais audaciosa ousadia –das muitas que o filme pratica com coragem e destreza –ganhando o Oscar de Melhor Filme em 1970.
Pela primeira vez um filme de alta censura, tão dedicado à temática das ruas e à uma abordagem despojada adquiria o reconhecimento extremo a que uma obra de cinema pode almejar, o quê igualava em padrões de excelência todo esse novo esforço cinematográfico emergente e comprometido com o realismo ao classicismo já amplamente consagrado dos estúdios da Velha Hollywood.
Dramaticamente, “Perdidos Na Noite” faz sua lição de casa, revelando-se um trabalho primordial e acertado: Joe Buck (Jon Voight se fazendo perfeito no papel), cowboy fascinado com a cidade grande chega à Nova York vindo do interior com a clara intenção de ganhar a vida como gigolô de mulheres, autoconfiante de seu porte físico. Entretanto, na miséria e na exclusão com que se depara, ele encontra companheirismo em Ratso Rizzo (Dustin Hoffman empregando um repertório esplêndido de tiques e cacoetes ao personagem), malandro desleixado cheio de vícios e golpes oriundos de uma difícil vivência na metrópole.
Buck é para Rizzo uma genuína esperança de obter dinheiro, e quem sabe, realizar um velho sonho de conhecer a ensolarada Flórida.
Nessa ciranda de dependências (Buck depende da experiência de Rizzo para que seus objetivos não tropecem em seu excesso de ingenuidade; e Rizzo precisa de Buck para fazer o que suas feições repulsivas e seu físico debilitado são incapazes de fazer), os dois personagens protagonizam diversas desventuras ao longo de sua tentativa de sobrevivência na cidade à medida que esses eventos vão progredindo do divertidamente irônico ao espiritualmente comovente, aspecto que a apurada e habilidosa direção de John Schlesinger trata de moldar em paralelo com a crescente empatia do expectador com os personagens. Para tanto, prevalecem neste belo trabalho o roteiro coeso e firme, e as belas atuações da afiada dupla central.

sábado, 2 de junho de 2018

Os Vencedores do Oscar 1979


A Guerra do Vietnam estava em pauta na cerimônia do Oscar de 1979, ou essa é a impressão que a Academia queria passar ao premiar nas principais categorias os dramaticamente densos e politicamente engajados “O Franco Atirador” (Melhor Filme e Diretor, entre outras) e “Amargo Regresso” (Melhor Ator, Melhor Atriz, e Roteiro Original).
Embora não abordassem esse tema, os demais concorrentes também eles pareciam refletir essa perda da inocência: O brutal “OExpresso da Meia-Noite” (que deu a Oliver Stone, o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado) e o socialmente relevante “Uma Mulher Descasada”.
O único indicado a sinalizar um cinema mais leve era mesmo “O Céu Pode Esperar”, a refilmagem de “Que Espere O Céu” (hoje bem mais conhecido que o original), dirigida pelo então galã Warren Beatty.

MELHOR FILME
"O Franco Atirador"

MELHOR DIREÇÃO
"O Franco Atirador", Michael Cimino

MELHOR ATRIZ
Jane Fonda, "Amargo Regresso"

MELHOR ATOR
Jon Voight, "Amargo Regresso"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Maggie Smith, "Califórnia Suíte"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christopher Walken, "O Franco Atirador"

MELHOR FOTOGRAFIA

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Prépare Vous Mouchoirs" (França)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS

MELHOR FIGURINO
"Morte Sobre O Nilo"

MELHOR SOM
"O Franco Atirador"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"O Céu Pode Esperar"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“O Expresso da Meia-Noite"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
“The Buddy Holly Story"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Last Dance", de "Até Que Enfim É Sexta-Feira"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Amargo Regresso"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Expresso da Meia-Noite"

MELHOR MONTAGEM
"O Franco Atirador"

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Missão Impossível

Após uma carreira de inquestionável sucesso como um dos maiores astros de Hollywood, Tom Cruise enveredou pela carreira de produtor –e nessa, até hoje continua meio claudicante –seu projeto de estréia, cuidadosamente bem escolhido, foi esta bela e vistosa adaptação cinematográfica da famosa série de TV.
Cruise cercou-se de expressivos (e ostensivos) realizadores para incrementar a produção: O diretor Brian De Palma (naquele que deve ser seu trabalho menos autoral), o lendário e oscarizado roteirista Robert Towne (de “Chinatown") –além de vários outros que trabalharam nas versões anteriores do roteiro como Steven Zaillian e David Koepp –e, no elenco, é obvio, Tom Cruise reservou para si mesmo o papel principal, o do agente Ethan Hunt que, a medida que a narrativa segue torna-se de fato o centro da trama, em detrimento de Jim Phelps, verdadeiro oriundo da série (e interpretado por Jon Voight, outra escolha ostensiva).
Outras participações: A linda francesa Emmanuelle Beart (cuja pouca sintonia com Cruise em cena deu à sua personagem um rumo que evidentemente não estava planejado no roteiro), a inglesa Kristin Scott-Thomas (antes do reconhecimento por “O Paciente Inglês”), o francês Jean Reno, e os chapas de Cruise, Emilio Estevez e Ving Rhames (no único personagem além de Cruise que persiste em todos os filmes). Além das breves e requintadas aparições de Vanessa Redgrave e Henry Czerny.
A história já ensaia uma reformulação do conceito da série, deixando bem claro os novos caminhos almejados pela nova versão: Recrutados pelo veterano Jim Phelps (Voight), um grupo de agentes peritos em infiltração do credenciado departamento "missão impossível", entre os quais o agente de campo Ethan Hunt (Cruise), cai no que parece ser uma cilada, e tornam-se todos (os que não morreram, pelo menos) fugitivos caçados pelo Serviço Secreto, por traição –nessa primeira pretensa reviravolta do roteiro, a metade dos atores mencionados acima são já descartados.
Cabe ao próprio Ethan assim reunir um novo time, capaz de descobrir a complexa conspiração de que foram vítimas e revelar a identidade dos verdadeiros culpados –e como todo o roteiro escrito e reescrito por várias mãos (especialmente pertencentes a contadores melindrosos de histórias rocambolescas), “Missão Impossível” tem uma premissa complicada que se ramifica em várias situações que exigem atenção do expectador. Nos filmes posteriores, essa tendência foi se suavizando em prol de obras de ação mais acessíveis.
O diretor Brian De Palma confere ao filme um charmoso e sofisticado ar de thriller de espionagem europeu, graças inclusive ao seu elenco internacional, e embora obtenha um resultado plenamente satisfatório, fica muito aquém da qualidade intrínseca e sólida de “O Fugitivo”, lançado poucos anos antes, também ele adaptado de uma famosa série de TV e nitidamente a base referencial pela qual este trabalho se inspira: A condução de Brian De Palma, por incrível que possa parecer, lembra mais a do diretor Andrew Davis (realizador daquele filme) do que a sua própria.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Pearl Harbor

Uma coisa é querer igualar o resultado de uma produção como “Titanic”, outra, bem diferente é obter sucesso com essa meta. E as pretensões de Michael Bay em “Pearl Harbor” iam até para além disso! Ele vislumbrava uma reedição do épico de James Cameron e, ao mesmo tempo, uma mescla com o mesmo cinema bélico com o qual Steven Spielberg tinha moldado seu “O Resgate do Soldado Ryan”.
Seu projeto, a partir do roteiro de Randall Wallace (de “Coração Valente”) almejava uma espécie de junção entre esses dois fenômenos cinematográficos.
Obedecendo as demarcações de um cinema à moda antiga –mesmo aquelas que a modernidade permitiu superar –o filme de Bay acompanha, antes de tudo, a amizade indissolúvel entre Rafe McCawley (Ben Affleck) e Danny Walker (Josh Hartnett). Amigos criados juntos. Irmãos na afinidade pelo fascínio de voar. A narrativa salta de uma fase para outra (infância numa fazenda, a juventude em meio ao sonho de ser piloto, a vida adulta) sem sutileza –ele o faz apenas porque milhões de filmes antes dele também o fizeram. Logo, os dois amigos estão servindo na Base Aérea de Pearl Harbor, no Hawaí.
Rafe se engraça com Evelyn (Kate Beckinsale), uma das enfermeiras locais, e Bay entrega cenas açucaradas o bastante para sabermos que esse romance será o pivô de toda a trama do filme –interessante notar também o quanto Bay confunde profundidade dramática com ênfase cômica (quando seu filme não é estupidamente romântico ou solenemente épico, ele adquire ares de comédia!).
Rafe é dado como morto durante um vôo à serviço dos ingleses.
Danny, que já tinha lá sua queda por Evelyn lhe presta mais do que apenas consolo.
E eis que, quando Evelyn se descobre grávida de Danny, vem a revelação de que Rafe não morreu –numa guinada digna de novela das oito! Quando o filme já está por atingir suas três horas de duração e Michael Bay introduziu o que ele supõe ser o grande conflito dramático do filme –não é, pois isso nunca chega a ser um triângulo amoroso, ficando claro desde o começo que Rafe e Evelyn serão o ‘casalzinho do filme’ –ele entrega então a grande vedete da produção: A seqüência extensa, ininterrupta e barulhenta do ataque japonês à Pearl Harbor, que ingressou em definitivo os EUA na Segunda Guerra Mundial –há até uma participação desnecessário e vexaminosa de Jon Voight como o presidente Theodore Roosevelt.
Até que chegar nesse ponto, o filme de Michael Bay já deixou bem claro o tipo de filme que quer ser –e também o tipo de filme que ele não consegue ser!
As cenas do ataque são bem editadas, frenéticas e envolventes o suficiente para justificar o interesse do expectador até ali, mas mesmo elas não vão além de um espetáculo filmado com o esmero técnico de sempre pelo cinema hollywodiano –se “Titanic” e “Soldado Ryan” eram as aspirações de Bay para seu projeto, então faltou ao realizador compreender que Cameron e Spielberg não amparavam suas grandes obras em meras exibições de pirotecnia: Seus trabalhos elevavam a sinergia da ação à uma arte maior pelo simples fato de forçarem os limites do que já foi feito em busca de ineditismo.
E não há qualquer ineditismo em “Pearl Harbor”, pelo contrário, há nele um esforço contumaz para se emular um cinema conservador, tradicional e, quem sabe, que viesse a falar junto à mentalidade da Academia de Artes Cinematográficas...
Mais do que um épico histórico sobre o episódio abordado, mais do que um romance hollywodiano com intenções suntuosas, porém, “Pearl Harbor” termina sendo mesmo um indicativo de todas as abissais deficiências de Michael Bay como diretor.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Transformers

Diretor cuja carreira é indissociavelmente atrelada aos filmes de ação (e dos mais descerebrados possíveis!), Michael Bay ganhou uma franquia à qual relacionar seu nome quando aceitou o convite do produtor Steven Spielberg para comandar a primeira adaptação cinematográfica dos famosos brinquedos de Hasbro (e que renderam uma bem-sucedida série de desenhos animados a partir dos anos 1980): Transformers, os robôs que viravam carros.
Spielberg demonstrou, com essa escolha, apurado faro mercadológico; ele percebeu que Bay, com seu estilo de filmar a ação, obcecado com o visual publicitário, daria a roupagem adequada ao filme –de fato, a maneira com que o diretor consegue fetichizar as máquinas já é meio caminho andado, dando aos robôs gigantes uma identificação humana que os formidáveis efeitos visuais só tratam de potencializar.
Ainda assim, o fio narrativo de Bay, por mais frágil que seja, necessita de uma contraparte humana de fato, que vem a ser Sam Witchwyck (personagem que Shia LaBeouf interpretada com improviso desesperado), um adolescente com uma única coisa em mente: Convencer seu pai a lhe comprar um carro e obter meios para assim impressionar a garota mais bela da escola, Michaela (a espetacular Megan Fox).
O carro em questão, porém, não é bem um carro: Trata-se de um robô alienígena (!), Bublebee, vindo do planeta Cybertron, consumido por uma guerra intergaláctica entre os honrados Autobots (dos quais Bublebee faz parte, assim como seu líder, Optimus Prime, e seus demais companheiros) e os perversos Decepticons (liderados pelo cruel Megatron). As duas facções de robôs gigantes trazem sua guerra para a Terra à procura de um artefato denominado “Allspark”, um cubo dotado do poder de atribuir vida às máquinas –ou algo assim...
E o quê um mero adolescente americano com hormônios em fúria tem a ver com um conflito que ameaça todo o planeta? Como é habitual aos filmes de Bay, tais amarras menos relevantes (!) o filme trata de realizar da forma mais rudimentar possível (e esse é o mesmo tratamento dado à dezena de outros personagens que surgem de forma um pouco aleatória na trama); o que interessa ao seu diretor é a ação ininterrupta –cujo elevado volume suplanta qualquer atenção à história, às motivações ou à dramaturgia –as imagens exuberantes captadas em filtros de câmera estilosos e, no caso deste filme em especial, prestar homenagem ao seu produtor, Spielberg, por meio de uma série de pequenas referências: A relação de amizade entre Sam e Bublebee remete (ou, pelo menos tenta remeter) ao afeto entre Elliot e o alienígena em “E.T. O Extraterrestre”; o caminhão no qual Optimus Prime se transforma faz alusão ao modelo usado no suspense “Encurralado”; o diminuto decepticon que cria um tumulto à bordo do Força Aérea Um parece uma referência aos “Gremlins”; e assim por diante.
Tremendo sucesso de bilheteria, “Transformers” foi o primeiro exemplar de uma franquia cujos títulos seguintes foram minguando no fato –óbvio desde o início –de que os filmes não tinham nada de novo a oferecer. Uma parcela do público, contudo, não se incomoda com isso, e a franquia “Transformers” goza de contínuas bilheterias rentáveis, apesar de contínua também ser sua queda de qualidade.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Fogo Contra Fogo

Al Pacino e Robert De Niro chegaram a participar do mesmo elenco em “O Poderoso Chefão-Parte 2”, mas as diferentes cronologias de seus personagens (De Niro viveu Vito Corleone na juventude, enquanto Pacino interpretou Michael, seu filho, já adulto) impediu o encontro dos dois em cena.
Pois foi exatamente esse o mote pelo qual este épico policial de Michael Mann foi vendido em seu lançamento em 1996: O do encontro inédito de dois monstros sagrados do cinema norte-americano.
E a narrativa de Michael Mann –trabalhando o gênero policial com a perícia e o conhecimento que lhe são inerentes –deu aos seus respectivos personagens um realce de superioridade que tornava espontânea essa aura mítica que envolvia as duas presenças; tantos dos personagens como de seus intérpretes.
Al Pacino surgia, assim, como Vincent Hanna, detetive veterano da Polícia de São Francisco encabeçando a investigação a uma quadrilha especializada cujos assaltos se mostram num nível extraordinário de audácia. Tal quadrilha é liderada por Neil McCauley, personagem de Robert De Niro, um ladrão expert e inteligente a ponto de tratar esse ofício como uma forma de arte.
Contudo, tal e qual a grande galeria de protagonistas da filmografia de Mann, Neil compreende o perigo que essa vida oferece aos que se deixam seduzir por ela, e por isso sonha em logo se aposentar e viver tranqüilo.
Mais do que um duelo físico –pois, de fato, os momentos em que De Niro e Pacino ficam frente a frente são breves e fugazes –o diretor Mann constrói um duelo existencial: Policial e bandido são, em diversas instâncias, equivalentes e ao mesmo tempo opostos, antagônicos e também complementares. Man, com a ajuda dessa dupla espetacular de protagonistas, foge da obviedade em tornar Neil o vilão e Vincent o herói. De Niro compõe um tipo charmoso, sedutor em sua sólida convicção e em sua postura de irrestrita disciplina, trabalhando com características que o próprio Mann lançou mão com habilidade em outros personagens no passado (“Profissão:Ladrão”) e que ainda iria lançar no futuro (“Inimigos Públicos”); já, Pacino constrói um homem da lei amargurado em sua ideologia, transfigurado pelo convívio constante com o pior da raça humana, e crédulo de que a única maneira de justificar a brutalização irreversível que esse meio de vida infligiu nele é jamais deixar de persistir no esforço para colocar todos atrás das grades (ou a sete palmos debaixo do chão).
O jogo de gato e rato que ambos travam vai aos poucos ganhando contornos de um duelo mortal, que acaba engolindo a vida pessoal dos dois e, como numa tragédia de proporções míticas, Mann leva seus antagonistas a enxergar um no outro sua única razão de ser.
É claro que o diretor também faz sua parte: A condução e o ritmo de “Fogo Contra Fogo” são elementos brilhantes que preservam o impacto perene deste épico vigoroso, no qual ele ainda cerca De Niro e Pacino com um elenco estelar que vai de Val Kilmer à uma Natalie Portman recém-saída de “O Profissional”.
Muitos anos depois, De Niro e Pacino protagonizaram outro filme (talvez, uma resposta tardia aos fãs que por ventura se ressentiram do pouco tempo de cenas juntos que eles dividem nas quase três horas deste épico), e fizeram “As Duas Faces da Lei”, onde passam praticamente todo o filme juntos. Contudo, é este trabalho, “Fogo Contra Fogo”, que reflete magnificamente bem a magia cinematográfica incategorizável que é juntar duas forças da natureza em seu auge.

domingo, 26 de março de 2017

Reviravolta

De vez em quando, o diretor Oliver Stone gosta de dar um tempo nas pretensas especulações políticas e históricas de suas produções e fazer um filme só para se divertir. Em 2012, quando isso lhe ocorreu, o resultado foi o mediano “Selvagens”, anos antes, em 1997, um rompante parecido com esse aconteceu, e ele realizou este um pouco esquecido “Reviravolta”.
Num ímpeto de irmanar-se ao cinema comercial norte-americano a que pertence, Stone criou uma narrativa nos moldes do film noir que sua geração apreciou, mais embutiu nele seu gosto pessoal por texturas despojadas e mundanos, seu senso de urgência e realismo, sua visão particular do próprio cinema –refletidos nas mesmas convulsões de câmera que testemunhamos no esquizofrênico “Assassinos Por Natureza”.
Diretor renomado que é, Stone atraiu um elenco dos mais notáveis para seu projeto: Billy Bob Thornton, Jon Voight, Joaquim Phoenix, Claire Danes, Nick Nolte, Jennifer Lopez, Sean Penn.
É esse último que responde pelo protagonista, um trambiqueiro que transporta uma fortuna por uma estrada poeirenta da fronteira entre os EUA e o México, a mando de algum chefão do crime.
Ele pára numa cidadezinha desolada para consertar o carro e, quando o dinheiro lhe é roubado, seus problemas começam a se acumular um a um, em ritmo e lógica quase desafiadores.
O estilo noir até que cai bem em Oliver Stone nos melhores momentos deste filme –ele se vale de sua irrestrita predileção por motivações ambíguas para narrar viradas pontuais na trama com naturalidade, sem no entanto, privar o expectador do espanto (e isso se percebe, sobretudo, na personagem de Jennifer Lopez, esposa do milionário interpretado por Nolte, que se revela a “femme fatale latina” deste filme, em sua segunda metade) –nos piores momentos, porém, tudo o que faz de Stone um diretor insuportável se faz presente em seu filme: Os atores, ainda que bem dirigidos, reagem com cacoetes desagradáveis e degradantes, característicos da visão excessivamente mundana que ele impõe aos personagens. Sua vontade de chocar o expectador e oferecer um sopro de renovação por meio do mais árido dos registros não raro exagera no teor, resultando questionável.
Tornados amantes pelas circunstâncias, mas impossibilitados de confiar um no outro pelos detalhes, os personagens de Penn e Lopez fogem com o dinheiro no desfecho do filme, mas terminam vítimas da própria tendência em querer estar em vantagem sobre o outro. Stone mescla tragédia e comédia nesse desenlace, assim busca mesclar seu cinema peculiar e ácido com um cinema de orientação mais comercial numa obra onde essas duas metades nem sempre se harmonizam –ainda que a montagem, a fotografia e a trilha sonora (de Ennio Morricone) sejam exemplares.

Como diz o personagem de Jon Voight em um determinado momento:
“Suas mentiras são velhas. Mas, você as conta muito bem.”

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Amargo Pesadelo

Quatro amigos, homens essencialmente urbanizados, resolvem aventurar-se nas corredeiras de um rio numa aventura de fim de semana. O rio em questão será represado em alguns meses e desaparecerá, provavelmente junto com toda a comunidade que surgiu às suas margens. Ao descer seus quilômetros de corredeiras usando botes, eles encontram alguns mal-intencionados indivíduos dessa comunidade, que os confrontam com uma violência inesperada e desconcertante.
Uma das três indiscutíveis obras-primas realizadas pelo diretor John Boorman (ao lado de “Esperança e Glória” e “Excalibur”), este brilhante trabalho guarda elementos marcantes e memoráveis do início ao fim, mas é necessário chamar a atenção para o minimalismo da direção de Boorman: Abrindo mão de qualquer segmento de trilha sonora (com exceção de uma lendária cena onde ocorre um duelo de banjos), a narrativa vale-se dos silêncios e da pulsante sensação de que algo muito terrível está prestes a acontecer.
Aclamado na época (a década de 1970 foi o auge de seu estrelato) o ator Jon Voight tem um desempenho certeiro como se esperava dele, mas as surpresas são por conta do surpreendente Burt Reynolds, entregando fúria e vulnerabilidade em medidas iguais e desconcertantes, e da corajosa presença de Ned Beaty, mostrando ser mais que um alívio cômico, mas o elemento pivotal do drama que engatilha a própria tragédia.

Membro respeitável da Nova Hollywood, contribuindo com uma subversão dramática e atordoante dos conceitos de ação e suspense nesse movimento, “Amargo Pesadelo” triunfa como uma grande experiência cinematográfica.