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segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

A Fuga


 Em seu livro “Especulações Cinematográficas”, Quentin Tarantino dedica um capítulo inteiro a falar de “Os Implacáveis”, dirigido por Sam Peckinpah, estrelado por Steve McQueen e Ali MacGraw, adaptado de um livro de Jim Thompson, roteirizado por Walter Hill e lançado em 1972. O mesmo filme –talvez, o último grande filme da carreira do astro McQueen –foi refilmado, nos anos 1990, neste “A Fuga” –cujo o título original é o mesmo, “The Getaway”. E talvez seja mesmo imprescindível tecer esse comentário: “A Fuga” é daquelas produções que se mostra muito mais baseada no filme anterior que adaptou a obra do que na própria obra adaptada.

Não à toa, o roteirista aqui é novamente Walter Hill (em colaboração com Amy Jones) que, na segunda metade da década de 1970 e ao longo de toda década de 1980, sagrou-se como um diretor especializado na ênfase da masculinidade e da violência, ambos elementos em constante conjugação; mais ou menos como um pupilo de Sam Peckinpah. Já o diretor deste novo “The Getaway” vem a ser Roger Donaldson (de "Sem Saída") cujo estilo característico, tão charmoso quanto presunçoso, adorna com elementos típicos dos anos 1990, a trama de tormento romântico e perseguição que se desenrola, com algumas referências, sobretudo, na primeira parte, ao requintado cinema policial de Michael Mann, especialmente o clássico “Profissão: Ladrão”.

Carter ‘Doc’ McCoy (Alec Baldwin) e Carol (Kim Basinger) são casados e apaixonados; mais que isso, são frequentemente cúmplices nas investidas criminais que executam. Uma delas (o resgate das mãos de policiais do sobrinho de um chefão fora-da-lei) dá errado: Com isso, graças à traição do muy amigo Rudy Travis (Michael Madsen), Doc amarga pouco mais de um ano atrás das grades de uma penitenciária no México. Para salvá-lo, a esposa, Carol, negocia com o empresário inescrupuloso Jack Benyon (James Woods, todo serelepe numa ponta especial) a libertação de Doc e, com isso, sua participação num grande roubo. As coisas começam a se complicar quando Doc e Carol devem aceitar como companheiros nesse roubo –basicamente, uma invasão explosiva e perigosa numa casa de apostas de corrida de cachorros –o instável Frank Hansen (Philip Seymour Hoffman, ainda bem jovem) e, mais uma vez, o traiçoeiro Rudy.

O assalto se sucede sem maiores atropelos, entretanto, tão logo os três saem com a generosa quantia de dinheiro roubado em mãos, as traições de costume começam a se suceder: Rudy fulmina Hansen à tiros e, ao tentar fazer o mesmo com Doc no ponto de encontro, é alvejado e largado ao léu no leito de um rio. Já, Benyon imaginava outra coisa: Tendo negociado com Carol a liberdade de Doc em troca de favores sexuais (e revelado isso à Doc em cima da hora), Benyon esperava que Carol traísse seu parceiro e se juntasse a ele, mas, Carol descarrega sua arma no próprio Benyon e agora, o casal fica com mais um cadáver nas mãos.

Doc e Carol têm assim, uma mala de dinheiro consigo, porém, as autoridades, os homens de Benyon (chefiados por um sibilante David Morse) e o próprio Rudy (que sobreviveu aos tiros!) para caçá-los até chegarem à fronteira do México, onde os documentos falsos de praxe possibilitarão que desapareçam do mapa. A situação, no entanto, se revela ainda mais complicada com o fato de que, agora, com as novas revelações acerca de toda a real dimensão do trato feito com Benyon, Doc e Carol não mais confiam um no outro como antes.

Ao conferir as considerações de Tarantino acerca de “Os Implacáveis”, podemos entender algumas das escolhas tomadas aqui neste filme. Em primeiro lugar, as escolhas para os antagonistas: Se no filme de 72, Benyon era vivido por um ligeiramente inadequado Ben Jonhson (velho demais e sexualmente apático demais para o papel), nesta versão, Benyon tem a maldade libidinosa de James Woods (sem dúvidas, um acerto), enquanto que em 72, tínhamos o contido e truculento Al Lettieri para o papel de Rudy, aqui temos, o nada contido e ainda mais truculento Michael Madsen, dando toda a dimensão psicopata e imprevisível que ficou faltando em Rudy no filme anterior, durante sua sórdida sub-trama na qual empreende uma perseguição ao casal Doc/Carol levando como reféns, o desafortunado veterinário Harold (James Stephens) e sua espevitada esposa Fran (Jennifer Tilly), cuja Síndrome de Estocolmo logo a leva a tornar-se amante de Rudy (!?).

Já os protagonistas de “The Getaway” são um caso curioso –e sobre muitos aspectos até de apelo junto ao público, a grande razão de ser do projeto: Casados na vida real, Kim Basinger (assombrosamente linda, e no auge de seu status de sex-simbol máximo no cinema de então) e Alec Baldwin estrelam a obra em circunstâncias até bem parecidas com as quais o público se acostumou a ver Ali MacGraw e Steve McQueen no “The Getaway” dos anos 1970 –foi durante essas filmagens, que McQueen (divorciado à pouco tempo) engatou um romance com MacGraw (então casada com o produtor Robert Evans).

Dito isso, não são as cenas de ação (executadas com minúcia e precisão técnica o suficiente para não fazer feio ante a comparação com Peckinpah) nem a trama frenética e palpitante em torno da perseguição (bem equacionada entre as manobras de roteiro e a criteriosa montagem) que representam o maior atrativo desta produção na época em que foi lançada (meados de 1994) e agora: São as tórridas cenas de sexo entre o casal Alec Baldwin/Kim Basinger (cuja primeira colaboração juntos foi a comédia “Uma Loira Em Minha Vida”). Na verdade, essas cenas por pouco não tiraram completamente a atenção sobre todo o restante do filme –não apenas pelo irresistível apelo (em plenos anos 90, época do sexploitation chic, as produções erotizadas como “Instinto Selvagem”) da nudez em cena de uma estrela como Kim Basinger, como também pela ousadia até hoje flagrante de tais sequências –ainda é possível observar nessas cenas indícios, que repercutiram desde o começo, nos quais o casal principal pode ter chegado às vias de fato durante as filmagens (!).

Portanto, “A Fuga”, embora tenha predicados técnicos e artísticos de cinema (tímidos, no fim das contas), deixa esses tais aspectos de lado, que fizeram de “Os Implacáveis” o filme sensacional de ação que ele é, para abraçar considerações mercadológicas (e, hoje, estranhas) bem particulares de sua época.

domingo, 9 de junho de 2024

Uma Secretária de Futuro


 O saudoso diretor Mike Nichols sempre teve uma versatilidade desigual, essa capacidade, somada ao talento para sintonizar as sutilezas da atuação (oriundo de sua formação teatral) ajudou a moldar inúmeros projetos singulares que compõem a sua filmografia. Nela, há de tudo um pouco. Das raras comédias a concorrer à prestigiada estatueta de Melhor Filme na cerimônia do Oscar 1989 (prática que infelizmente perdura até hoje), “Uma Secretária de Futuro” é um título que se destaca: Por sua simpatia perene junto ao público que tornou-o um sucesso de bilheteria; pela escolha espetacular, primorosa e espirituosa de intérpretes, todos perfeitos (algo no qual Nichols era craque); e pela junção adequada, funcional e certeira de elementos, tais como um bom roteiro, boas atuações e uma ótima direção.

Interpretada com fulgor fora do comum por Melanie Griffith (uma atriz com algo de alternativo que, na época, dificilmente seria uma escolha convencional para um papel como este), Tess McGill é uma das muitas assalariadas que luta por ter lugar ao sol na disputada (e machista) Nova York da década de 1980. Todos os dias, ela pega a balsa que a leva da suburbana Nova Jersey –onde tenta levar uma vida doméstica, pacata e pretensamente estabelecida ao lado do noivo (Alec Baldwin) –para a competitiva e inclemente Manhattan, onde estão os tubarões corporativistas da bolsa de valores que normalmente atuam como seus patrões; Tess é secretária.

Um deles (Oliver Platt) não tarda a lhe preparar uma armadilha: Julgando ser uma entrevista de emprego para um cargo melhor, Tess acaba na limusine de um executivo disposto à seduzí-la –uma ponta de um ainda desconhecido Kevin Spacey, da época em que atuava mais como comediante. Como pedir demissão na situação financeira de classe média-baixa em que vive é um risco e tanto, Tess tem consciência da urgência em arrumar outro ganha-pão. E ela julga que sua sorte pode finalmente mudar quando começa a trabalhar para a empoderada e discursivamente encorajadora Katharine Parker (Sigourney Weaver, afiadíssima) –afinal, com uma mulher como chefe, imagina Tess, as chances de crescer profissionalmente se tornam reais, longe da indulgência tipicamente masculina, não é mesmo?

Contudo, não é exatamente isso que acontece: Ao sugerir uma ideia bastante original e arguta que teve para Katharine –a de investir, não em emissoras de TV, no ramo de propaganda, mas em emissoras de rádio, por conta dos valores e das complexidades de negociações serem infinitamente mais razoáveis –Tess descobre que Katharine tentou lhe passar a perna. Durante uma tumultuada semana em que Katharine sofre uma fratura andando de esqui, Tess fica sabendo que ela lhe roubou a ideia e iniciou negociações preliminares com um tal de Jack Trasker (Harrison Ford, no auge de sua fase galã). Ao aproveitar-se da ausência de Katharine para passar-se por uma das acionistas a fim de conduzir a negociação, Tess inicia uma relação profissional promissora ao lado de Jack, que acaba progredindo para uma relação mais íntima também –e em ambos os casos, Tess sabe que terá a competição acirrada e desleal de Katharine.

A narrativa que Mike Nichols constrói em “Uma Secretária de Futuro” é, até hoje, pra lá de saborosa: Não apenas ele faz uso imodesto dos elementos de comédia romântica presentes na trama (os encontros e desencontros entre Tess e Jack são simultaneamente deliciosos de se acompanhar) como também se vale de um expediente muito comum em obras graciosas dos anos 1980, onde um, ou uma, protagonista finge, por razões até que nobres, guardadas as proporções, ser aquilo que não é, e cria toda uma farsa a um só tempo divertida e tensa com data de validade para terminar (pois, mentira, apesar dos pesares, ainda tem perna curta!), premissa que funcionou para as mais diversificadas produções como “Tootsie”, “Quase Igual Aos Outros”, “Um Príncipe Em Nova York”, “Tocaia” e tantas outras, aliado a isso, ele ainda elabora uma observação contundente, envolvente e cheia de propriedade, do competitivo mercado de trabalho yuppie dos anos 1980, amparada numa personagem principal cheia de iniciativa, pioneira das personagens femininas a se posicionar com independência e auto-afirmação perante os homens em um universo predominantemente masculino.

Em tempo: Já a adentrar os anos 1990, algum executivo da NBC teve a ideia de criar uma série de TV inspirada em “Uma Secretária de Futuro” –ou “Working Girl”, seu título original –e a atriz que interpretou Tess McGill nos oito episódios que essa série pouquíssimo lembrada durou foi uma ainda desconhecida Sandra Bullock!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Conflitos Internos / Os Infiltrados


 Conflitos Internos

Extremamente prestigiado em Hong Kong, o diretor Andrew Lau é um hábil manejador de tramas prolixas, capaz de ressaltar suas arestas de originalidade em meio à gêneros e conceitos dos quais público e crítica tendem a subestimar.

Uma de suas obras mais aclamadas –pelo menos, no Oriente, onde obteve largo sucesso –“Conflitos Internos”, o qual ele co-dirigiu em colaboração com Alan Mak no ano de 2002, não somente é um brilhante thriller policial e, a sua maneira, uma evocação apaixonada dos meandros complexos e fascinantes com os quais Francis Ford Copolla forjou a mitologia de seu “O Poderoso Chefão” como também é o imprevisto estopim (até para seus realizadores!) de uma bem-sucedida trilogia.

Neste primeiro filme, testemunhamos, em meio ao submundo criminal de Hong Kong, as trajetórias de um criminoso e de um policial, interpretados por Andy Lau (não confundir com o diretor de quem ele é quase homônimo!) e Tony Leung, respectivamente, que em paralelo se infiltram entre seus próprios inimigos. Ambos acabam ganhando a confiança nas suas áreas. Ironicamente, o policial disfarçado de bandido torna-se um dos homens de confiança do chefe da quadrilha quando surge a suspeita de que há um espião entre eles. Ao mesmo tempo, o gangster infiltrado na polícia integra uma equipe justamente para descobrir quem está entregando informações aos bandidos. Pouco a pouco, os dois estão prestes a desmascarar um ao outro.

Andrew Lau e Alan Mak trabalham maravilhosamente bem a circunstância de suspense do filme, cuja impecável atmosfera nos faz desconfiar de cada movimento, de cada olhar mal-disfarçado; é um mundo de suspeitas onde ninguém pode confiar em ninguém, e cada ato parece supervisionado por inimigos ávidos por ter alguém a quem desmascarar.

Como em toda trama de intriga, Lau e Mak justapõem os antagonistas deixando bem clara a forma preocupante com que estão inseridos entre as fileiras inimigas –mas, somente isso fica cristalino; tudo o mais (alianças, motivações, lealdades) é deixado brilhantemente ambíguo, de forma a potencializar sua tensão, que acaba coroada com um final impiedoso do qual o viés shakesperiano embutido em sua premissa converge a um eco ensurdecedor.

O segundo filme da trilogia (realizado em decorrência de seu inesperado sucesso de público, visto que esta é, evidentemente, uma história planejada com começo, meio e fim) trata-se de uma espécie de prequel que esmiuça com mais detalhes o passado dos dois personagens principais, enquanto que o terceiro termina sendo, de fato, a continuação, mostrando os desdobramentos e consequências do desfecho do primeiro filme.


Os Infiltrados

Como costuma ocorrer a um filme estrangeiro de insuspeita qualidade a destacar-se entre as milhares de obras produzidas pelo mundo ano a ano, “Conflitos Internos” –ao menos, a primeira e, de certa forma, a segunda parte –acabou sendo refilmado em 2006. E não uma refilmagem qualquer: “Os Infiltrados” ganhou direção de ninguém menos que Martin Scorsese (recém-saído de seu suntuoso épico “O Aviador”) e foi estrelado por Leonardo Dicaprio ao lado de Matt Damon, o elenco conta ainda com Jack Nicholson numa de suas últimas participações num longa-metragem antes da aposentadoria.

A trama, ainda que roteirizada pelo conceituado William Monahan (de “Cruzada”), replica a de “Conflitos Internos” com constrangedora proximidade: Um policial (Dicaprio) infiltra-se na máfia de Massachussets, em Boston, enquanto paralelamente, um espião da máfia (Damon) é plantado na força policial. Os anos se passam e cada um dos respectivos infiltrados adquire confiança em sua corporação até a descoberta de que ambas as partes possuem um espião. A trama acompanha então a nervosa investigação (e consequente duelo) para que um consiga desmascarar o outro.

Como costuma acometer nas refilmagens promovidas pelos norte-americanos, a despeito da qualidade um tanto desafiadora do material que tentam refilmar, os realizadores se esforçam bastante para incrementar os elementos já presentes no filme original; e aqui, o roteiro de William Monahan é desonestamente astuto ao aproveitar muito da trama, não apenas do primeiro, como também do segundo filme: Ao valer-se do original e de sua prequel, os realizadores de “Infiltrados” têm a chance de moldar uma obra mais robusta, com mais elementos dramáticos a oferecer diante do enxuto “Conflitos Internos” –além da presença inédita do personagem de Mark Whalberg, inexistente no original, que acrescenta um elemento mais contundente ao desfecho, ainda que algo questionável –e, embora este seja de fato um filme menor dentro de sua formidável filmografia, um filme dirigido por Martin Scorsese ainda É dirigido por Martin Scorsese: A mitologia de toda a criminalidade de Boston concebida para o filme é rica e notável em seu detalhamento, e o diretor não somente equilibra atuações de forma a todos soarem impecáveis (Jack Nicholson, nitidamente substituindo uma presença que seria regularmente de Robert De Niro, não acaba roubando a cena de ninguém como inicialmente poderíamos presumir) como também evoca um sem-fim de referências cinematográficas vastas –que vão de cortes abruptos e imprevisíveis decalcados de Glauber Rocha à sutis manobras narrativas extraídas de antigos filmes noir –regendo o que pode ser chamada de uma sinfonia de violência e psicologia.

Ainda que tímido diante de tantas obras maiúsculas que Scorsese entregou antes e depois (e certamente inferior, mesmo que com todos os seus esforços, à produção original na qual foi inspirado) coube a este pequeno épico policial a honra de ser a produção pela qual Martin Scorsese finalmente recebeu seu Oscar de Melhor Diretor. Ele traz a fúria narrativa e a costumeira maestria que um mestre como Scorsese consegue criar, mas, não tenha dúvidas, é bastante simplório na comparação com muitos de seus trabalhos.

Em tempo, no ano de 2009, houve mais uma refilmagem de “Confiltos Internos”, desta vez, realizada na Coréia do Sul (uma indústria cinematográfica a qual nunca se deve subestimar), com o título inglês de “City of Dammation”, dirigida por Dong Won Kim e concebida numa variação –pasmém –de comédia!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Verdades Que Matam


 “Verdades Que Matam”, na realidade, foi o título nacional com o qual “Talk Radio” foi lançado em VHS pela VTI Home Video no Brasil, no final da década de 1980, durante a época das videolocadoras de fitas de videocassete. Realizado em 1988, “Talk Radio” foi dirigido e co-escrito por Oliver Stone depois de “Wall Street-Poder e Cobiça” (sua inquisitiva e elegante alfinetada na ausência de escrúpulos dos corretores da bolsa) e antes de “Nascido Em 4 de Julho” (a segunda de suas impactantes reflexões sobre o Vietnam; a primeira foi o premiado “Platoon”), ou seja, Stone, como diretor, há muito já havia definido seu estilo voltado para um sensacionalismo documental. A despeito da descoberta gradual que seu diretor teve de sua própria tendência autoral –descoberta esta certamente mais distinguível nos primeiros títulos de sua filmografia –é curioso notarmos que a personalidade a prevalecer nesta obra seja nem tanto a de Stone, como a de seu protagonista e co-roteirista Eric Bogosian, por sua vez, autor (junto de Ted Savinar) da peça teatral a partir da qual este longa-metragem foi construído, valendo-se também de forte inspiração na trama real de Alan Berg, radialista a frente de um programa de radio especializado em relatos controversos e polêmicos, tema que espelhava seu próprio apresentador.

Stone lutou para ter Bogosian tanto afrente como atrás das câmeras; o estúdio e outros diretores que passaram antes pelo projeto eram todos inclinados à presença de um ator protagonista mais famoso. Como resultado, “Talk Radio” é uma produção de baixo-orçamento, o que só salienta suas características de teatro filmado –é praticamente (salvo uma e outra cena, além de um trecho em flashback) ambientado num único cenário, os estúdios da radio KGBA, onde o programa se sucede. A direção de Oliver Stone, sempre tensa e intensa, se sente absolutamente à vontade com o material febril e envolvente, o que só torna o filme ainda mais notável e impactante. O radialista Barry Champlain (Eric Bogosian, no mal-disfarçado personagem inspirado em Alan Berg) comanda um talk show noturno que alcança altos índices de audiência nas radios de Dallas. Nele, ouvintes desequilibrados (alguns, num nível alarmante) telefonam em busca de conselhos ou de uma oportunidade para conversar sobre os mais diversos assuntos. Entretanto, Champlain é controverso, agressivo e neurótico, e sua interação com seus instáveis interlocutores é quase sempre perigosa, não raro desembocando em ameaças de morte. No entanto, o programa, com seu teor polêmico, faz imenso sucesso e seu produtor, Dan (Alec Baldwin, jovem mas já demonstrando potencial), negociou com investidores a possibilidade de ser lançado em cadeia nacional, o que traz para os estúdios a presença do executivo corporativista Dietz (John Pankow, de “Fome de Viver”), mandado para avaliar o show e dar seu aval a respeito da atração. Isso e mais uma série de problemas pessoais (a relação já turbulenta com a namorada e produtora do programa, vivida por Leslie Hope, da série “24 Horas”, e as idas e vindas nada harmoniosas de sua ligação com a ex-esposa, interpretada por Ellen Greene, de “A Pequena Loja dos Horrores”) interferem diretamente no desempenho de Champlain no programa, amplificando a tensão e transformando seu show numa maratona indigesta de degradação tragicômica.

Não costumam haver amenidades no cinema de Oliver Stone –pelo menos, não no cinema que ele exerceu nos anos 1980 e 90, época de sua fase mais prolífica –e “Talk Radio” é um belo exemplo de sua condução inspirada, da ótica sempre acurada para as celeumas mais torpes do ser humano, e da capacidade para moldar atuações de altíssima voltagem em sintonia com suas inquietações, para muito além de suas obras bem mais conhecidas. Aqui, ele conta com um texto afiado, loquaz e astuto da parte de Bogosian, onde ambos compartilham um desdém resfolegante para com a morbidez e o fascínio quase amoral da sociedade americana por tragédia e violência, e com isso constroem uma crítica incisiva, inteligente e provocante.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Por Trás Daquele Beijo

 


Devido à sua fama de ‘rainha das comédias românticas’, sobretudo durante a década de 1990, a presença de Meg Ryan em inúmeros projetos ao longo de sua carreira costumava enganar os expectadores, levando-os a crer que a produção na qual ela comparecia se tratava sempre de um filme romântico agridoce com altas doses de humor, sentimentalismo e previsibilidade –e a própria Meg contribuía com isso fazendo filmes e mais filmes sem parar dentro desse sub-gênero.

“Por Trás Daquele Beijo” até guarda elementos que poderiam aproximá-lo de uma comédia romântica, embora já em sua campanha de marketing, lá pelos idos de 1992, tenha ficado claro tratar-se de algo diferenciado, instigante até. Adaptado de uma peça teatral de Craig Lucas, roteirizado por ele próprio (o que garante ao filme similaridades criativas incontestes com sua versão original), o filme dirigido por Norman René (realizador do célebre drama homossexual “Meu Querido Companheiro”, também escrito por Lucas) tem lá sua parcela de sacarose, sobretudo no clima de romance que prevalece no primeiro ato, mas possui propósitos bastante sólidos para as escolhas que toma e, se não chega a ser um grande filme, tem pelo menos o mérito de, ao lado do excelente “Cidade dos Anjos”, ser um título desigual e notável na filmografia de Meg Ryan.

Repetindo o mesmo papel que interpretou (e muito bem) nos palcos, Alec Baldwin vive Peter, jovem editor que, numa noite qualquer, conhece a garçonete Rita, personagem de Meg. Insone, beberrona, algo niilista, mas certamente encantadora, ela se revela fascinante o bastante para que ele a procure nos dias seguintes. Logo, eles engatam um namoro sério. Ele conhece os pais dela (vividos por Ned Beatty e Patty Duke), e marcam casamento.

A despeito desse trecho inicial enfadonho e longo –ainda que preenchido de informações que serão relevantes ao plot mais tarde –é durante o casamento de Peter e Rita que “Por Trás Daquele Beijo” oferece sua grande guinada: Durante a cerimônia, um velho penetra aparece (vivido por Sydney Walker). Ninguém o conhece e, antes de ser expulso da festa, ele pede apenas oportunidade de dar um beijo na noiva.

Eis que ao beijá-la, o velho troca de mente com Rita, que vai parar no corpo do idoso. Agora, a mente do homem velho habita o corpo da garota jovem e recém-casada com lua-de-mel marcada para a Jamaica. Entretanto, ao longo dos dias, Peter vai percebendo que a pessoa que está agora casada com ele, não é a mesma que ele namorou esse tempo todo: Rita não bebe mais, não tem mais problemas para dormir, agora quer ter filhos quando antes não queria, não possui mais as mesmas inclinações socialistas de antes, nem fala e age da forma como fazia (!). Embora o corpo ainda seja o mesmo, é outra pessoa quem agora o habita.

Um elemento curioso do roteiro é justamente não entregar isso de imediato, deixando que o expectador acompanhe a gradual e perplexa constatação do mesmo ponto de vista de Peter –o que desde já torna a minúcia desta resenha um emaranhado de spoilers; ainda que o filme já seja bastante antigo. O roteiro de Craig Lucas, com essa opção, valoriza assim os pequenos detalhes, as peculiaridades dos diálogos e a capacidade de seus intérpretes, como é usual numa peça de teatro.

Se há algo de sublime no fato do diretor René optar por uma narrativa menos cômica e mais dramática, por outro lado, o filme padece de uma preocupante lentidão, acarretada devido à expansão da trama em cenas que se alternam em diferentes ambientes a fim de agregar uma mobilidade cinematográfica à narrativa e não engessar a história nas restrições inerentes ao formato teatral.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Infiltrado Na Klan

O mais festejado trabalho do diretor Spike Lee dos últimos tempos é uma daquelas obras baseadas em fatos reais que nos impressiona a todo o instante tamanho o volume de situações inacreditáveis e circunstâncias assombrosas que as cercam –e ao testemunhá-las, como expectadores, só nos resta a admiração por uma história tão extraordinária ter encontrado meios de ser mais uma vez contada em filme.
“Infiltrado Na Klan” inicia-se com um dos takes mais famosos do clássico imortal “E O Vento Levou”; filme que (à exemplo do infinitamente mais controverso “O Nascimento de Uma Nação”, de D.W. Griffith, de 1915, que também aparecerá numa das cenas mais tensas) faz um retrato discutível da condição dos negros no sul dos EUA. Em seguida, temos uma filmagem documental onde um Alec Baldwin inspiradíssimo faz as vezes de um líder de congregação sulista em um discurso de ódio insuflado; suas hilárias tentativas de corrigir a própria entonação e veemência tornam tudo ainda mais especialmente ridículo.
E Spike Lee vai deixando bem claro que é só o começo de muitos absurdos.
São meados da década de 1970 quando, na cidade de Colorado Springs, o jovem negro Ron Stallworth (John David Washington, filho do astro Denzel Washington) consegue uma vaga no Departamento de Polícia local. Da frustrante ocupação nos arquivos, ele consegue uma promoção ao aceitar uma inevitável missão como infiltrado. Ele deve acompanhar de perto uma reunião dos Panteras Negras. É lá que ele conhece a idealista e ativista Patrice (Laura Harrier, de “Homem-Aranha De Volta Ao Lar”) com quem inicia um relacionamento todo relutante pelo fato de Ron ter de esconder que é policial.
Não é o único segredo que ele tem de manter: Trabalhando na Inteligência, Ron entra em contato com uma célula da Ku Klux Klan de Colorado Springs por telefone, e consegue estabelecer afinidade o suficiente para ser convidado para suas restritas reuniões.
Para tanto, ele precisa estabelecer uma sintonia impecável com o detetive judeu Flip Zimmerman (Adam Driver) que, por razões óbvias, deve se passar por Ron de corpo presente –ao incorporar (um ao telefone, o outro em presença física) um personagem infiltrado, eles precisam descobrir a gravidade e exatidão de um ataque terrorista planejado pela Klan dentro em breve; e que pode ter como alvo a própria Patrice!
Spike Lee se despe consideravelmente de firulas neste ótimo trabalho, ciente do início ao fim do teor sensacional da trama que tem em mãos –e do fato de que, por isso mesmo, ela fala por si; não à toa, “Infiltrado Na Klan” levou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado.
Estão lá as observações onipresentes de Lee acerca da pouco mutável situação dos negros americanos –e que, na narrativa poderosa e implacável, levam a uma sensação de indignação do expectador –assim como também estão as concepções bem sedimentadas de realidade, de espaço e tempo bem definidos, e que conectam (de forma explícita no seu final) o tema do filme com eventos urgentes e atuais que não podem ser ignorados.
“Infiltrado Na Klan” é, pois, Spike Lee em toda a sua fúria e primor.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Missão Impossível - Efeito Fallout


Houve um tempo em que “Missão Impossível” era associado a uma conhecida série de TV. Esse tempo se acabou.
Desde 1999, o conceito da série –assim, como elementos que a tornavam clássica, como a icônica trilha sonora de Lalo Schifrin –migrou para o cinema e, se no início a sombra do programa televisivo oprimia um pouco do resultado, pelo menos os últimos quatro longa-metragens se desvencilharam completamente dessas amarras.
“Missão Impossível” é, agora e para toda uma nova geração de expectadores, cinema.
E essa convicção se ampara no protagonista Ethan Hunt –sintomaticamente um personagem feito especialmente para cinema –interpretado pelo produtor de cada um dos filmes, Tom Cruise.
Ele quem fez da série algo seu; tornou seu nome, hoje, indivisível do título “Missão Impossível” e transformou Ethan Hunt, filme a filme, num dos grandes agentes secretos do cinema ombreando James Bond e Jason Bourne.
Como ele o fez?
Conferindo qualidade indiscutível ao material.
O filme anterior, “Missão Impossível-NaçãoSecreta” já havia sido agraciado como o melhor da franquia até então graças ao roteiro meticuloso e à direção refinada de Christopher McQuarrie, e como produtor, Cruise garantiu que esse talento se mantivesse neste novo “Efeito Fallout” –a primeira vez, portanto, em que um diretor assume dois filmes na franquia.
Tudo começa com a habitual incumbência de uma missão “Sua missão, caso aceite, será...”, culminando no clássico “esta mensagem se auto-destruirá em cinco segundos”.
Basicamente, Hunt deve adquirir três cargas de urânio antes que um grupo terrorista denominado “Os Apóstolos” o façam. Durante a negociação, porém, seus inimigos se revelam mais ladinos que o esperado e Hunt, ao optar por salvar a vida do amigo Luther (Ving Rhames) coloca o sucesso da missão em risco, o tal do “efeito fallout”.
Quando o filme se inicia de fato, Hunt tem a própria CIA em seu pescoço, acompanhando cada passo que sua equipe dá a fim de remediar o ocorrido –e o representante da CIA para tal tarefa vem a ser o beligerante e nada sutil August Walker (Henry Cavill, o único membro falho do elenco), um assassino nato com toda propensão para deixar os colegas de lado que Hunt não tem. Eles devem estabelecer um contato com a vendedora de armas conhecida como Viúva Branca (Vanessa Kirby, um charme só), ao mesmo tempo em que simulam a identidade do negociador que pode estar por trás de tudo, o misterioso agente duplo John Lark –cuja identidade é a única reviravolta fácil de prever do filme.
Todas as complicações levam à libertação do perigoso e psicótico Solomon Lane (Sean Harris, o notável vilão derrotado e capturado em “Nação Secreta”), e com isso, entra em cena mais uma vez a maravilhosa Agente Ilsa (Rebecca Ferguson, tão sensacional e surpreendente quanto no filme anterior), cujo MI-6 (o Serviço Secreto Inglês), para quem trabalha, lhe cobra uma prova de lealdade matando Lane –o quê a coloca, desta vez, em rota de colisão com Hunt e sua equipe.
Avançando por caminhos sempre intrincados, este magistral filme de espionagem não nega o fato de seu realizador ter sido premiado pelo rocambolesco “Os Suspeitos”: McQuarrie tece uma trama brilhante e bem amarrada onde cada índole, cada decisão humana e tática, cada pormenor conduz a uma guinada em seus acontecimentos, enfileirando, como conseqüência disso, uma cena de ação atrás da outra; todas concebidas com um entusiasmo e um rigor que imediatamente eleva “Efeito Fallout” ao status de Melhor Filme de Ação do Ano: O salto arrepiante de um avião em grande altitude (proeza executada de fato pelo astro Tom Cruise); a luta brutal dentro de um banheiro público; uma perseguição pelas ruas de Paris; uma outra perseguição (desta vez, a pé) pelos telhados de Londres; e uma assombrosa seqüência final envolvendo helicópteros –em todas elas, fica evidente a entrega absurdamente audaz de Tom Cruise.
Assim, como cinema, “Missão Impossível” chega neste sexto e magnífico filme, também ele, ostentando suas próprias características das quais se faz indivisível (o personagem de Cruise, ação desenfreada, trama intrincada, ameaças mirabolantes, produção requintada, a trilha sonora inconfundível).
Em “Efeito Fallout”, o diretor e roteirista McQuarrie, contudo, se dá o luxo de inserir um novo elemento: O dilema moral que acomete mesmo o mais implacável dos agentes quando cada ínfima decisão que toma pode levar ao salvamento (ou à perda) de milhões de vidas.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A Fera do Rock


Já na primeira cena de “A Força do Amor”, de 1983 –a até que notável refilmagem do “Acossado”, de Godard –o diretor Jim McBride já deixava bem clara, numa forte referência, sua apreciação pelo trabalho do incompreendido músico Jerry Lee Lewis; de quebra, McBride também deu uma dica (proposital ou não) de um de seus futuros projetos: A biografia transfigurada por liberdade poéticas do próprio Lewis, “A Fera do Rock”, de 1989 –no original, “Great Balls Of Fire!”, um de seus grandes sucessos.
Jerry Lee Lewis, de fato, reunia uma série de características que o irrequieto diretor Jim McBride tanto aprecia num protagonista: Uma petulância saudável e uma constate atmosfera de desafio e atrevimento à sua volta –todos predicados aos quais a alucinada interpretação de Dennis Quaid faz jus.
Vindo de uma família tradicionalmente religiosa (o pastor Jimmy Swaggart, vivido por Alec Baldwin, era seu primo), Lewis almejou ascender na música por caminhos tortuosos: Enveredou pelo gênero musical do momento, o rock’n roll, tocando não guitarras ou violões tal qual ídolos habituais (como Elvis Presley, de quem foi rival assumido), mas dedilhando de forma selvagem as teclas de seu piano.
Todavia, o que escandalizou o mundo não foi isso; foi, na verdade, seu casamento –o terceiro de Lewis –com a própria prima (Winona Ryder), de catorze anos, bem quando estava prestes a atingir o auge de seu estrelato, amargando, em vez disso, o ostracismo.
Empregando o mesmo vigor e ritmo com os quais desbravou outros gêneros, McBride criou um musical pulsante e palpitante cuja euforia contaginate da narrativa reflete magnificamente bem o estado de espírito constantemente pirado de seu personagem principal.
Dito isto, é sintomática a falta de compromisso de seu trabalho para com um realismo imparcial e sério: Seu filme ironiza os detalhes folhetinescos de sua trajetória, as relações (e reações) exacerbadas quanto à percepção da fama, e observa (não destituído de uma pontinha de cumplicidade) o oportunismo com o qual Lewis torcia as noções morais a seu favor –outra característica constante nos protagonistas de McBride –nunca deixando de lado um perene senso de humor.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Paris Pode Esperar

Eleanor Coppola é mais conhecida pelo espetacular documentário “Apocalypse de Um Cineasta” no qual acompanha as agruras épicas experimentadas por seu marido, Francis Ford Coppola, na realização de “Apocalypse Now”. Agora, ela resolveu seguir os passos dele e de sua filha, Sofia Coppola, e arriscar-se como diretora numa obra de ficção.
Uma ficção que flerta com inesperados lampejos do que poderia ser a realidade, a exemplo do que a própria Sofia às vezes faz em seus projetos.
O filme inicia-se em Cannes, acompanhando a estadia na França do produtor Michael Lockwood (Alec Baldwin, num personagem que leva o mesmo sobrenome do protagonista de “Cantando Na Chuva”) e sua esposa Anne (Diane Lane, uma atriz bastante familiar aos Coppola tendo sido dirigida por Francis Ford em três ocasiões, “Cotton Club”, “O Selvagem da Motocicleta” e “Jack”).
Já na cena inicial somos induzidos a perceber que há muito de Eleanor em Anne: Além da rotina simbiótica entre a arte cinematográfica e seu matrimônio, ela registra com fotos toda a rotina doméstica junto de Michael, fotografando até mesmo o café da manhã –documentando toda a realidade que transcorre ao lado do marido, como a própria Eleanor fez em seu documentário.
Todavia, é por caminhos austeros e relaxantes que seu filme seguirá: Pouco sintonizada com a rotina estafante de Michael, Anne aceita uma carona oferecida por seu sócio francês, Jacques (Arnaud Viard), para ir de carro até Paris, enquanto ele cuida de uma produção em Budapeste.
No percurso, Jacques se revela um francês com todas as características melindrosas com as quais eles são conhecidos: Ostenta uma irresistível aura de bon vivant, faz desvios constantes para apreciar paisagens turísticas (das quais possui conhecimento enciclopédico), e sempre sabe de algum lugar onde se pode desfrutar da melhor comida.
Isso estende a viagem de carro –que em princípio, parecia ser breve e instantânea –e leva Anne a passar alguns dias ao lado de Jacques, tornando-os pouco a pouco confidentes um do outro.
Quase todo o filme se desenvolve ao redor de uma mesa. “Paris Pode Esperar”, dessa forma, acaba sendo, mais que um filme de cartão-postal, uma daquelas produções gastronômicas que não economizam nos closes em pratos e iguarias fotogenicamente preparados, e a presença de Diane Lane (conduzindo com carisma e graciosidade um filme que corria o risco de entediar o expectador) faz muito lembrar o seu belíssimo “Sob O Sol da Toscana”.
A narrativa propositadamente serena de Eleanor Coppola pega emprestada algumas características do estilo de Sofia: Como em “Encontros e Desencontros” ou “Um Lugar Qualquer”, não falta a “Paris Pode Esperar” cenas de contemplação, onde o filme convida o expectador a vislumbrar a beleza e o ritmo particulares dos locais visitados.
Essa percepção, somada ao desnudar emotivo e emocional de Anne, fazem do filme uma observação sutil, ainda que tímida, das incertezas de uma mulher madura e moderna acerca de sua postura no casamento, na vida profissional (ou na isenção dela) e na maternidade.
Em algum momento, Eleanor acaba tendo de dar um respaldo nas provocações que ela tanto prorroga –ou seja, deve responder ou não, se entre Anne e Jacques haverá algum romance. E ela o faz de modo sutil e elegante, sem exageros e contando com muito da excelência de seu par central: O desfecho, por isso mesmo, opta por uma dubiedade descontraída e graciosa que faz dele uma versão de “Antes do Amanhecer” na meia-idade.
Não há em Eleanor Coppola qualquer traço da exuberância narrativa de seu marido, mas ela soube –com a imprescindível ajuda de Diane Lane –realizar uma obra bastante agradável.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Os Fantasmas Se Divertem

À época da realização deste filme, Tim Burton ainda não havia experimentado o auge mercadológico da indústria (como em “Batman”), o ápice criativo de seu estilo (como em “Edward-Mãos de Tesoura” ou “Ed Wood”), e nem adquirido qualquer experiência como cineasta que, para o bem e para o mal, converteu seu estilo também numa espécie de fórmula (como em “Sombras da Noite” ou “O Lar das Crianças Peculiares”).
Em “Os Fantasmas Se Divertem” temos, portanto, um Tim Burton em estado puro no que tange à sua conexão com o moleque de 12 anos fascinados por monstros e filmes de terror que ele declaradamente sempre usou como inspiração.
Neste filme podemos conferir Burton tateando a narrativa em busca de uma voz, e por isso ele tenta de tudo (e exagera em tudo): Quando precisa de comédia, ele elabora cenas rasgantes de tão hilárias –a seqüência do jantar musical é, por isso mesmo, inesquecível! –quando precisa do tom macabro e cartunesco que ele tanto adora, ele entrega momentos de um absurdo inacreditável, muitos deles a cargo de um irrequieto e incontrolável Michael Keaton no papel do vilão-título Beetlejuice (nem dá para acreditar ser este o mesmo ator que apenas um ano depois o próprio Burton chamaria para viver o sisudo e elegante herói de “Batman”).
Beetlejuice é, por assim dizer, uma espécie de assombração de aluguel; ele dispõe seus serviços tenebrosos aos fantasmas inexperientes que desejam enxotar os vivos de suas antigas residências.
É o caso de Barbara e Adam Maitland (Geena Davis e Alec Baldwin), um jovem e adorável casal que, por ironia do destino, veio a sofrer um acidente de carro em uma ponte (ao qual Burton dá todas as características de um acidente de desenho animado) e, falecidos, se tornaram fantasmas da casa que antes moravam.
Um ano depois, a casa recebe novos moradores, os Deetz, e Beetlejuice surge assim como uma opção para que possam aterrorizá-los e ficar com a casa novamente para eles.
Mas, o casal Deetz (interpretado por Catherine O’ Hara, de “Esqueceram de Mim” e Jeffrey Jones, de “Curtindo A Vida Adoidado” e “Amadeus”) tem uma filha, a desajustada, gótica, porém, encantadora Lydia (Winona Ryder, num papel que, a despeito de ser feminino, remete ao próprio Burton), que termina se afeiçoando aos dois fantasmas –talvez, justamente por sua pouca adequação com os vivos.
Se existe a possibilidade dessa premissa soar dramática e sombria, isso ocorre apenas na teoria: “Os Fantasmas Se Divertem” mesmo que abraçando por completo todas as suas nuances macabras é uma comédia assumida e deslavada, onde seu realizador nitidamente se sente plenamente a vontade na retratação do fantasioso e original mundo dos mortos e algo deslocado quando registra o mundo dos vivos –e por isso mesmo, recebe dele tão pouca atenção.
Em meados dos anos 1980, tão inovadora deve ter sido essa postura enquanto gênero e enquanto cinema que muitos não souberam o que achar do filme –e como costuma ocorrer em casos peculiares assim, ele logo virou um cult.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Caçada Ao Outubro Vermelho

Embora tenha sofrido diversas tentativas constantes de reformulações no cinema ao longo das décadas desde que virou um sucesso literário, o personagem Jack Ryan, do escritor Tom Clancy, provavelmente não encontrou melhor tradução do que nesta produção conduzida pelo especialista em filmes de ação, John McTiernam –se bem que, em 2002 tivemos “A Soma de Todos Os Medos”, com Ben Affleck, que é um filmaço, mas essa história fica para outra hora...
Embora não tão eficiente quanto em seus dois cultuadíssimos trabalhos dos anos 1980 (os fabulosos “Duro de Matar” e “O Predador”), McTiernam soube imprimir ritmo, fôlego e tensão a esta primeira aventura cinematográfica do jovem analista da CIA, aqui vivido por Alec Baldwin e freqüentemente relegado à condição de coadjuvante do personagem mais imponente do filme, o capitão russo Mark Ramius interpretado por Sean Connery com aquela fleuma que os produtores de Hollywood tanto gostavam de ver nele.
Recrutado subitamente por James Greer (James Earl Jones), diretor da CIA, o analista Jack Ryan tenta entender as intenções nebulosas do capitão Ramius, que simplesmente fugiu de seu país junto de toda sua tripulação, a bordo de um submarino que dizem, é a última palavra em tecnologia bélica naval: o Outubro Vermelho.
Uma trama de espionagem possivelmente elaborada mais para funcionar como livro do que como filme, a história oriunda das páginas do best-seller de Tom Clancy perde um pouco da importância devido ao excesso de verborragia e complicações políticas que remetem às circunstâncias da Guerra Fria, tornando a obra rapidamente anacrônica para os dias de hoje.
Embora quase sempre à sombra de Sean Connery –e isso é mais devido às imposições do roteiro que ao seu trabalho –Alec Baldwin entrega uma atuação bastante satisfatória como Jack Ryan: Quando o estúdio começou os planos para uma continuação, ele recusou voltar ao papel que foi assumido assim por Harrison Ford –protagonizando assim “Jogos Patrióticos” e “Perigo Real e Imediato” –anos mais tarde, eles reiniciaram Jack Ryan com “A Soma de Todos Os Medos”, que acabou não ganhando qualquer seqüência, e em 2014 foi a vez de Kenneth Brannagh tentar um recomeço em “Operação Sombra-Jack Ryan”, com Chris Pine.
Todos eles, como dito no início deste texto, absolutamente inferiores a este “Caçada Ao Outubro Vermelho” –com a honrosa exceção de “A Soma...” –talvez porque aqui, a despeito da trama deliberadamente rocambolesca, o que conta mesmo, é o suspense, o senso de urgência e o tenso embate naval orquestrado pelo diretor John McTiernam (o clímax final, que acompanha duas seqüências simultâneas –a batalha do Outubro Vermelho contra um submarino adversário e uma perseguição a um traidor dentro do próprio submarino –é eletrizante) ainda que isso demore um pouco a engrenar.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O Aviador

Dentre as colaborações entre o diretor Martin Scorsese e o astro Leonardo Dicaprio, os melhores trabalhos são certamente “O Lobo de Wall Street” e este “O Aviador”, a despeito de Scorsese ter levado o Oscar por “Os Infiltrados”.
Durante muito tempo, o cinema americano cortejou uma biografia do multi-milionário Howard Hughes (ele apareceu em especialíssimas participações em “Melvin & Howard”, vivido por Jason Robards, em “Tucker-Um Homem e Seu Sonho”, de Francis Ford Coppola, interpretado por Dean Stockwell, e até mesmo na fantasia “Rocketeer”, vivido por Terry O’ Quinn, o Locke da série “Lost”): Houveram projetos acalentados por cineastas como Bryan Singer e Christopher Nolan e a presença de astros como Jim Carrey, além do diretor Michael Mann que quase dirigiu este filme (aqui ele é produtor), mas quis o destino que fosse mesmo Scorsese quem viesse a materializar tal história.
Herdeiro de uma fortuna milionária cujas lendas em torno de seu nome giravam tanto sobre seu pioneirismo quanto suas excentricidades, o jovem Howard (Dicaprio, realmente primoroso) dedicou boa parte de sua fortuna na criação de aeronaves primorosas, e namorou várias estrelas de cinema incluindo Katherine Hepburn.
Dessa forma, Scorsese muito sabiamente dedica uma abordagem narrativa distinta para cada etapa da vida de Hugues.
No princípio, ele é uma celebridade. Sua aproximação com o cinema (quando produziu filmes como "Hell's Angels" e "O Proscrito") quase coloca-o como uma espécie de Orson Welles, na incontingência de seu ímpeto criativo.
A medida que o filme avança, novas facetas se revelam e “O Aviador” muda, também ele, de gênero: O romance cheio de intransigência e graça com Katherine Hepburn (a espetacular Cate Blanchett), onde flagramos atores famosos da época vividos por atores famosos da atualidade –Jude Law como Eroll Flynn, Gwen Stefani como  Jean Harlow, Kate Beckinsale como Ava Gardner, etc; as peripécias conspiratórias travadas com políticos perniciosos do congresso (representados pelo personagem de Alec Baldwin); e as experiências cada vez mais audaciosas com suas máquinas voadoras, o quê o leva à um acidente terrível (registrado com fulgor cinematográfico ímpar). Após esse trecho, Scorsese dedica-se à transformação de Hugues no ser recluso e misterioso que fomentou a maior parte de sua lenda –uma caricatura de si mesmo com absurdo comportamento hipocondríaco e uma série de transtornos obsessivos compulsivos.
Há, por isso mesmo, um grande mérito na atuação de Leonardo Dicario e na maneira coerente com que ele consegue pairar por todas as fases radicais –e que renderiam, não tenha dúvida, pelos menos um filme cada! –nesta superprodução de alto nível viabilizada certamente não somente pelo nome de Scorsese, mas pela presença do próprio Dicaprio.
“O Aviador” surgiu como um franco favorito no Oscar 2004 (cujas principais estatuetas ele perdeu para o magnífico "Menina de Ouro"), entretanto, apesar da inquestionável qualidade com que tudo é realizado, falta nele aquela euforia artística que caracteriza algumas das melhores obras de Scorsese.
Antes que me esqueça: Assim como Dicaprio, Cate Blanchet entrega uma interpretação de meticulosa precisão no papel complicado e desafiador da estrela Katherine Heburn –uma tarefa que a atriz australiana encara com competência e exuberância, reconhecida com o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Um Lugar Chamado Notting Hill

Tímido bibliotecário inglês, um belo dia vê entrar por sua loja de livros uma moça bonita que lhe parece estranhamente familiar.
Muito da impressão subliminar graciosa desse momento responde pelo charme contagiante deste filme dirigido por Roger Michell, mas definido, de fato, pelo estilo inescapavelmente romântico do roteirista Richard Curtis –que escreveu “Quatro Casamentos e Um Funeral”, também protagonizado por Hugh Grant.
No princípio, ele (Hugh Grant) é o único que não se dá conta, que ela (Julia Roberts) é Anna Scott, a maior estrela do cinema da atualidade. Contra todas as probabilidades, ela interessa-se por ele e por seu ar inglês, naturalmente desligado, e de cena em cena, de situação em situação, eles buscam construir uma relação a partir de uma singela e inebriante vontade de se ver e se conhecer.
Essa evolução natural de um relacionamento vem espertamente acrescida dos contratempos complicados, inerentes ao fato de se tentar manter um romance entre a mais conhecida atriz do mundo, e o mais simples dos britânicos –e responde, justamente por isso, o grande charme do filme que, tal e qual outros trabalhos escritos por Curtis, leva uma ligeira inovação ao gênero: As incertezas e fragilidades exploradas de forma tão romanceada e idealizada nas comédias românticas ganham uma ênfase masculina.
Há algo de arriscado em escalar Julia Roberts e Hugh Grant para interpretar uma estrela de cinema e um inglês tímido e hesitante (basicamente, eles mesmos); o registro dos personagens poderia cair no caricato, no banal ou no repetitivo, entretanto, graças à condução absolutamente segura e ponderada de Michell, esta divertida comédia não padece desses prejuízos, e ainda brinda o público com um arranjo fenomenal da clássica canção “She”, cortesia de Elvis Costello, no início e no final do filme (esse último, um dos grandes momentos das comédias românticas no cinema).

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Pearl Harbor

Uma coisa é querer igualar o resultado de uma produção como “Titanic”, outra, bem diferente é obter sucesso com essa meta. E as pretensões de Michael Bay em “Pearl Harbor” iam até para além disso! Ele vislumbrava uma reedição do épico de James Cameron e, ao mesmo tempo, uma mescla com o mesmo cinema bélico com o qual Steven Spielberg tinha moldado seu “O Resgate do Soldado Ryan”.
Seu projeto, a partir do roteiro de Randall Wallace (de “Coração Valente”) almejava uma espécie de junção entre esses dois fenômenos cinematográficos.
Obedecendo as demarcações de um cinema à moda antiga –mesmo aquelas que a modernidade permitiu superar –o filme de Bay acompanha, antes de tudo, a amizade indissolúvel entre Rafe McCawley (Ben Affleck) e Danny Walker (Josh Hartnett). Amigos criados juntos. Irmãos na afinidade pelo fascínio de voar. A narrativa salta de uma fase para outra (infância numa fazenda, a juventude em meio ao sonho de ser piloto, a vida adulta) sem sutileza –ele o faz apenas porque milhões de filmes antes dele também o fizeram. Logo, os dois amigos estão servindo na Base Aérea de Pearl Harbor, no Hawaí.
Rafe se engraça com Evelyn (Kate Beckinsale), uma das enfermeiras locais, e Bay entrega cenas açucaradas o bastante para sabermos que esse romance será o pivô de toda a trama do filme –interessante notar também o quanto Bay confunde profundidade dramática com ênfase cômica (quando seu filme não é estupidamente romântico ou solenemente épico, ele adquire ares de comédia!).
Rafe é dado como morto durante um vôo à serviço dos ingleses.
Danny, que já tinha lá sua queda por Evelyn lhe presta mais do que apenas consolo.
E eis que, quando Evelyn se descobre grávida de Danny, vem a revelação de que Rafe não morreu –numa guinada digna de novela das oito! Quando o filme já está por atingir suas três horas de duração e Michael Bay introduziu o que ele supõe ser o grande conflito dramático do filme –não é, pois isso nunca chega a ser um triângulo amoroso, ficando claro desde o começo que Rafe e Evelyn serão o ‘casalzinho do filme’ –ele entrega então a grande vedete da produção: A seqüência extensa, ininterrupta e barulhenta do ataque japonês à Pearl Harbor, que ingressou em definitivo os EUA na Segunda Guerra Mundial –há até uma participação desnecessário e vexaminosa de Jon Voight como o presidente Theodore Roosevelt.
Até que chegar nesse ponto, o filme de Michael Bay já deixou bem claro o tipo de filme que quer ser –e também o tipo de filme que ele não consegue ser!
As cenas do ataque são bem editadas, frenéticas e envolventes o suficiente para justificar o interesse do expectador até ali, mas mesmo elas não vão além de um espetáculo filmado com o esmero técnico de sempre pelo cinema hollywodiano –se “Titanic” e “Soldado Ryan” eram as aspirações de Bay para seu projeto, então faltou ao realizador compreender que Cameron e Spielberg não amparavam suas grandes obras em meras exibições de pirotecnia: Seus trabalhos elevavam a sinergia da ação à uma arte maior pelo simples fato de forçarem os limites do que já foi feito em busca de ineditismo.
E não há qualquer ineditismo em “Pearl Harbor”, pelo contrário, há nele um esforço contumaz para se emular um cinema conservador, tradicional e, quem sabe, que viesse a falar junto à mentalidade da Academia de Artes Cinematográficas...
Mais do que um épico histórico sobre o episódio abordado, mais do que um romance hollywodiano com intenções suntuosas, porém, “Pearl Harbor” termina sendo mesmo um indicativo de todas as abissais deficiências de Michael Bay como diretor.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Tudo Acontece Em Elizabethtown

No filme que possibilitou ao ator Orlando Bloom um protagonismo que fosse além do celebrado Legolas de “O Senhor dos Anéis”, o diretor Cameron Crowe retoma temas caros à sua irregular (ora brilhante, ora claudicante) carreira: Estão aqui as lembranças dolorosas ainda que bem humoradas do passado ("Quase Famosos"), as cenas quase lisérgicas que representam o estado de espírito dos protagonistas ("Vanilla Sky"), a habilidade com a qual seu texto discorre realidade, romantismo e observação através dos relacionamentos (“Vida de Solteiro” e “Jerry Maguire-A Grande Virada”), e o emprego de emotiva função narrativa dado à música (“Digam O Quê Quiserem”).
Esses elementos enchem de estilo e de peculiaridade a história do jovem executivo (Orlando Bloom) que, após um negócio extremamente mal-sucedido, recebe um telefonema lhe avisando do falecimento do pai que há tempos não via. Ele desiste da tentativa de suicídio e resolve voltar para a insólita cidadezinha onde nasceu, Elizabethtown, a fim de participar de todas as cerimônias de despedida do pai falecido, e no processo, reencontrar lá uma coleção de figuras estranhas e diferentes que lhe resgatam uma certa nostalgia. Em algum momento de sua trajetória, ele conhecerá uma jovem aeromoça (Kirsten Dunst, de “Homem-Aranha”), que irá lhe abrir os olhos para outros e melhores aspectos da vida.
Depois de sua obra-prima, “Quase Famosos”, parece inerente ao cinema de Cameron Crowe a celebração de uma filosofia particular de vida onde os prazeres materiais da vida confortável, quando muito, são banalidades que tiram a atenção da real felicidade. Sob esse ponto de vista, ele moldou os roteiros de “Vanilla Sky” (que, apesar de baseado no filme “Abra Los Ojos”, de Alejandro Amenabar, ganhou de Crowe uma roupagem e uma abordagem toda própria) e do irregular “Compramos Um Zoológico”, onde se podia notar uma outra inclinação: Consagrado e com um Oscar de Melhor Roteiro Original debaixo do braço (conquistado por “Quase Famosos”), Crowe foi elevado à categoria de autor, e como tal, não tinha mais restrições em seus rompantes românticos –como aconteceu em “Quase Famosos” e “Jerry Maguire”, seus melhores trabalhos, talvez por conta desse equilíbrio.
Como é visível neste “Elizabethtown”, os delírios autorais de Crowe às vezes saem do controle para além da medida do que é suportável ao expectador, fazendo seu filme soar exagerado, açucarado e afetado –prova disso, o ponto baixo do filme, é o constrangedor discurso da mãe do protagonista (a bela Suzan Sarandon) durante o funeral do marido. Essas decisões tomadas sem uma rédea mais firme comprometem até mesmo a mais bonita seqüência do filme: Quando ao final, o personagem de Bloom faz uma espécie de tour, ao lado das cinzas do pai –um relacionamento que ele não soube fortalecer quando este era vivo –intercalada por uma infinidade de cenas que registram o íntimo informativo e emocional do personagem.
Teria sido um lindo filme se Crowe conseguisse conter um pouquinho mais a sua contagiante predisposição ao romantismo.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O Sucesso A Qualquer Preço

A origem teatral do projeto é imposta poderosamente na direção de James Foley que engessa a narrativa o tempo todo em um único ambiente. Existem, quando muito, pequenos lapsos do roteiro de David Mamet que esboçam situações em outros lugares, mas o cenário é essencialmente o escritório de vendas aonde a tensão vai ganhando corpo graças principalmente ao majestoso elenco masculino.
Glengarry Glen Ross é a firma de vendas imobiliárias em Chicago que se beneficia, sobretudo, da lábia tarimbada de seus corretores: O calejado Shelley (Jack Lemmon); o irascível Dave (Ed Harris); o titubeante George (Alan Arkin); além do gerente tentacular e impiedoso Williamson (Kevin Spacey) e do representante da empresa titular, Blake (Alec Baldwin).
Homens endividados de classe média nos idos dos anos 1990, eles precisam ofertar, enaltecer e vender seu produto de porta em porta. A comissão garante que o sucesso de suas vendas seja proporcional ao lucro que obtêm. Todavia, nenhum deles se mostra satisfeito com tal sistema, ao contrário, muitos deles vêem, desesperados, clientes que lhes consomem tempo precioso de conversa e terminam não comprando nada.
A única exceção é Ricky Roma (Al Pacino, formidável), o campeão de vendas absoluto do escritório.
A fim de incentivar o mesmo ímpeto nos outros desanimados vendedores, a empresa disponibiliza certos bônus que vão além da comissão, em troca de um aumento quase inumano no índice de vendas. Para pressioná-los, o fantasma da demissão paira sobre todos.
É quando alguns deles começam a elaborar planos mais ilícitos.
O ambiente parece uma panela de pressão onde os ânimos e os propósitos vão se somando até a tensão chegar a níveis notáveis. A direção de Foley e o roteiro de Mamet são perspicazes ao trabalhar um conto enxuto (menos de uma hora e meia de duração), objetivo e incisivo sobre as desesperanças da agitada vida moderna, a analogia implacável da seleção natural, as ironias do drama e a máxima de que nada é fácil para ninguém.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Uma Secretária de Futuro

Recordar é viver, não é? E hoje em dia, os filmes dos anos 1980 têm um sabor de nostalgia que, ouso dizer, época alguma é capaz de igualar.
São clássicos distintos. Há coisas boas e ruins daquele período, claro, mas a década de 1980 tem uma série de características (e não apenas no cinema, diga-se) que a fazem única.
Dito isso, vamos à história do filme:
Tess McGill (uma apaixonante e despojada Melanie Griffith) é uma obstinada moça de classe média norte-americana com ambições profissionais bem sólidas. Ela consegue emprego como secretária numa empresa gigantesca, e a chefe de seu departamento (Sigourney Weaver, ardilosa com seu humor peculiar) mostra-se receptiva, disposta a permitir que cresça profissionalmente, e até encoraja suas ideias, que vão além do âmbito que sua posição trabalhista poderia restringir.
Mas, por acaso, Tess descobre que as ideias que ela compartilha com tanta expectativa com sua chefe, estão sendo usadas por ela, para benefício próprio.
Assim, a secretária vale-se de uma semana na qual a chefe se obrigará a fazer uma ausência forçada do trabalho (ela quebrou a perna andando de esqui...), para de certa forma assumir seu lugar, passando-se por uma das executivas da empresa, e no processo obtendo a parceria e admiração (e até algo mais!) de um dos acionistas, Jack Trasker (interpretado com o charme de sempre por Harrison Ford, ainda que ocasionalmente ele pareça imprensado entre esses dois vulcões interpretativos).
Porém, como toda a farsa, a de Tess uma hora ou outra irá colidir com a verdade.
Lançado nos cinemas em 1988, e logo obtendo sucesso de público e crítica "Uma Secretária de Futuro" garantiu sua presença entre os indicados ao Oscar daquele período, concorrendo não só a Melhor Filme, como também à Melhor Atriz (para Melanie Griffith) e Melhor Atriz Coadjuvante (para Sigourney Weaver).
Melanie era uma escolha curiosa; já não era assim tão jovem para o papel, mas combinou como uma luva com a personagem: Sua presença no filme era desigual, e ela interpretava com notável desenvoltura e experiência, é o primeiro papel de sua carreira que ela encarava aproveitando o acúmulo de uma certa bagagem profissional e emocional. Prova de que o falecido diretor Mike Nichols soube usar isso maravilhosamente bem, é que ela nunca repetiu o mesmo êxito depois.
Sigourney Weaver também estava em estado de graça: Indicada no mesmo ano por sua performance espetacular em "Nas Montanhas dos Gorilas" (trabalho que considero um dos mais exemplares do cinema) ela mostrou, neste filme, todo seu timing cômico ao interpretar a vilã.
Outro que surpreende é Harrison Ford no papel do galã Jack Trasker: mostra o quanto poderia ter sido interessante se Ford tivesse investido mais em comédias em sua carreira.
Mas, de um modo geral, e não somente me atendo às qualidades do elenco (e num filme de Mike Nichols é preciso sempre fazer ressalvas quando ao elenco!), "Uma Secretária de Futuro" permanece como uma das mais deliciosas e inteligentes comédias dos anos 1980. Que não merece ser esquecida.
E como o público de hoje tem uma facilidade enorme para ir esquecendo os filmes lançados a mais de quinze anos atrás, fica aqui a minha dica, meu lembrete e minha recomendação.