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quarta-feira, 29 de julho de 2020

Highlander - O Guerreiro Imortal

Trazido da Austrália, o diretor Russel Mulcahy emprestou à bela e peculiar aventura escrita por Gregory Widen um senso de fantasia mirabolante oriundo das histórias em quadrinhos e um frenesi inquieto extraído dos videoclips. Com efeito, quando foi lançado em 1986, “Highlander-O Guerreiro Imortal” revelou-se um verdadeiro achado.
Seu início já pega de surpresa o expectador: Numa câmera nervosa que se arrisca até num audaz travelling por cima de um estágio de luta livre lotado no Maddison Square Garden, encontramos, em meio à multidão o protagonista do filme, Connor MacLeod (Christopher Lambert, dando ao personagem um inesperado adendo de bom humor, diferente dos machões carrancudos e convencionais dos filmes de ação da época).
Num encontro dentro do estacionamento subterrâneo, uma luta entre MacLeod e  um adversário se segue envolvendo espadas (!) –e, no desfecho dela, MacLeod termina podando a cabeça de seu inimigo usando a arma antiga.
Começam então a sucessão de flashbacks que irão oscilar durante toda a narrativa os quais, no passado, irão esmiuçar com precisão a origem do protagonista e sua curiosa condição de imortal e, no presente (isto é, em 1986!), irão acompanhar a relação de MacLeod com a obstinada legista policial Brenda Wyatt (Roxanne Hart), com quem travará um romance, e seu iminente e derradeiro encontro com Kruger (Clancy Brown, de “Um Sonho de Liberdade”), seu inimigo mortal.
Nascido no Século XVI, membros dos tantos clãs guerreiros da Escócia, o jovem Connor MacLeod descobre durante um doloroso e potencialmente fatal ferimento em campo de batalha que é um imortal –condição fantástica a ocupar o cerne da mitologia do filme da qual o roteiro espertamente se recusa a fornecer explicações.
Ao sobreviver, Connor é considerado uma heresia –o milagre de sua sobrevivência, deduzem os aldeões e seus faniliares, só pode ser atribuído à demônios –e assim é brutalmente expulso de sua casa.
Com o passar dos anos, ele se refugia junto da bela camponesa Heather (Beatie Edney) numa isolada e idílica casinha  entre as montanhas, nas Highlands (terras altas) –daí o termo Highlander, que o acompanha.
Logo, porém, MacLeod é visitado pelo espadachim Juan Sanchez Villa-Lobos Ramirez (Sean Connery, numa participação pomposa e egocêntrica) que lhe abre os olhos para sua condição imortal e o treina para uma série de embates que virão nos séculos seguintes: Segundo Ramirez, todos os imortais do mundo são atraídos para algo denominado Assembléia, embates mortais travados com espadas (por meio das quais lançam mão da única maneira de morrerem, separando em definitivo o corpo da cabeça), cujo objetivo é que reste, dentre todos os imortais, apenas um.
O prêmio para o vitorioso: Ser, enfim, mortal.
Uma dentre tantas obras de irresistível apelo comercial e imaginativo que o cinema de fantasia entregou na década de 1980, “Highlander-O Guerreiro Imortal” conquistou seu merecido espaço na cultura pop por uma série de qualidades impossíveis de serem ignoradas, como a direção estilosa de Russel Mulcahy, cuja abordagem do universo singular e mitológico aqui esboçado primava por um misto quase inovador de verossimilhança factual (guardadas as devidas considerações do gênero fantástico a que pertence, claro) e visual acachapante, o roteiro inteligente e sensato na união equilibrada entre ação e pormenores de sua trama e seus personagens e, sobretudo, a junção desses elementos já admiráveis com a trilha sonora à cargo do grupo musical “Queen” que, na voz de Freddy Mercury, entregou entre outras a canção “Who Wants To Live Forever” que sozinha definiu a aura lendária e dramaticamente incomum que passou a cercar este filme aos olhos de toda uma geração de fãs e apreciadores.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Robin & Marian

Das tantas versões da lenda de Robin Hood contadas pelo cinema, a do filme de Richard Lester é a única a investir por um caminho de fato desigual –a invés de ciscar em torno da sempre revisitada origem do herói (coisa que até pouco tempo, um fracasso recente de bilheteria estrelado por Taron Egerton voltou a querer fazer), ele escolhe pelo caminho oposto contemplando, num exercício de imaginação da parte do roteirista James Goldman (de “O Leão No Inverno” e “O Sol da Meia-Noite”), como seria o famoso fora-da-lei em seu crepúsculo.
Personificado pela fleuma madura e sempre impecável de Sean Connery, encontramos Robin ao lado de seu filme companheiro Little John (o ótimo Nicol Williamson), ambos servindo o Rei Ricardo Coração de Leão (Richard Harris) na cada vez mais desesperançada iniciativa das Cruzadas Santas.
Robin chegou num ponto em que seu descontentamento com a índole corrupta do rei o põe em sérios apuros –que só não se converte numa execução sumária porque o próprio rei falece antes, fulminado por um banal ferimento com flecha.
Robin e Little John assim retornam para a Inglaterra onde o reinado emergente do irmão de Ricardo, o Rei John (Ian Holm), transformou em renegados todos os indivíduos do clero devido ao rompimento político com o Vaticano.
Ele reencontra Marian (Audrey Hepburn, ainda encantadora) na função de líder de uma abadia, tendo abraçado os princípios religiosos depois da partida de Robin. É assim que, já de chegada, Robin tem de salvá-la, quando o próprio Xerife de Nothingham (Robert Shaw) aparece para prende-la cumprindo uma designação real.
Refugiados na Floresta de Sherwood, Robin, Marian e Little John reencontram, ainda escondidos por lá, alguns companheiros do passado, como Frei Tuck (Ronnie Barker) e Will (Denholm Elliot, de “Os Caçadores da Arca Perdida” e “Indiana Jones e A Última Cruzada”).
Ao mesmo tempo, esse regresso do herói reaviva a chama de esperança nos camponeses oprimidos que se juntam novamente a ele, resgatando a mesma circunstância de outrora, enquanto o próprio Robin se descobre embriagado pelo retorno do passado como ele recordava. No entanto, como a narrativa trata de lembrar paulatinamente –inclusive nos monólogos melancólicos de Marian –o tempo passou, e os heróis envelheceram.
Charmoso como filme de aventura, e executado tão somente com essa modesta pretensão pelo diretor Richard Lester (que substituiu Richard Donner em “Superman 2” e ainda realizou “Os Três Mosqueteiros” e “A Vingança de Milady”), “Robin & Marian” não se aprofunda tanto quanto poderia se imaginar nas agonias da meia-idade a se abater sobre homens lembrados por seu vigor, optando por um registro gracioso (e envolvente) na maior parte do tempo.
Seu momento mais contundente (e talvez ousado) é o desfecho que escolhe para seus heróis, longe de um maniqueísmo previsível do bem contra o mal, mas sim impondo uma amarga realidade, na qual a abnegação do momento pode soar um bocado implausível para os expectadores jovens de hoje.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Sol Nascente

Sob muitos aspectos, o estrelato do qual Sean Connery usufruía nos anos 1990 define muito o tipo de filme que “Sol Nascente” é.
Certamente, trata-se de uma produção caprichada, uma adaptação digna e empolgante de um livro de Michael Crichton (cujo “Jurassic Park” bombou nas bilheterias naquele mesmo ano) e um trabalho ao qual o diretor Philip Kaufman confere todas as características autorais às quais era associado –o erotismo algo elegante de “A Insustentável Leveza do Ser” e “Henry & June”, e a narrativa cheia de charme de “Os Eleitos” –entretanto, é a presença de Connery (inclusive como produtor) que determina o ritmo e a condução (sempre centralizando seu marrento personagem) e os rumos da trama (cujos subterfúgios soam imprevisíveis a todos, menos à ele).
Connery reserva para si o papel de John Connor (não confundir com o salvador da humanidade da saga “Exterminador do Futuro”), uma espécie de mentor que guiará o detetive Web Smith (Wesley Snipes, em ótima química com Connery) num intrincado caso de homicídio.
A vítima, uma mulher, foi morta por sufocamento durante o ato sexual sob a mesa da diretoria de uma empresa japonesa durante a noite em uma festa de comemoração a um importante negócio. É necessário diplomacia da parte dos policiais americanos para contornar os inflexíveis códigos de conduta japoneses, sobretudo, porque a principal suspeita recai sobre um playboy nipônico o hedonista Eddie Sakamura (Cary-Hiroyuki Tagawa). E Philip Kaufman –seja na direção, seja no roteiro –incrementa ao máximo seu filme para que a cadência labiríntica de seu enredo se mostre instigante o suficiente.
É curioso, no entanto, que seu apelo mais incomum –aquele que serve para diferencia-lo de tantos outros exemplares idênticos dentro do gênero –é fonte de suas maiores ressalvas: Ao observar, como fonte de curiosidade (de exotismo, até!) a dinâmica corporativa entre japoneses e americanos, seja ele nos níveis políticos, morais, comportamentais e sexuais, o filme não evita de soar xenófobo em sua proposta e em suas motivações.
Os americanos, incluindo seus artesãos de cinema, são hábeis em mascarar a realidade com um verniz de sedutora ficção (o que este filme é com todos os seus méritos), mas deixam transparecer, de modo quase subconsciente, as facetas arrogantes de seu preconceito.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Zardoz

No seu desvario de ficção científica, metalinguagem e alegoria, “Zardoz” lembra um pouco o incompleto “Globo dePrata”, de Andrzej Zulawski, ao agregar elementos do período (década de 1970) que fazem uma fantasia livre e imprevisível.
O filme de John Boorman começa com uma cabeça flutuante (!) que se auto-intitula Zardoz e se mostra um prévio narrador do filme. Ele também se revela auto-consciente: Nesse estranho monólogo inicial faz inclusive referências ao fato de que sabe tratar-se tudo de um filme de Hollywood.
Contrariando uma série de funções narrativas –e no fim das contas usando tudo para gerar uma sensação de estranheza –o diretor inicia de fato seu filme com outro Zardoz (!) já contrariando a cena anterior: Ele é agora uma gigantesca cabeça de pedra a flutuar sobre seus fiéis como uma nave.
O ano é 2293 e Zardoz é uma divindade que prega a guerra, incentivando a aniquilação do ser humano por meio de justificativas existenciais (a raça humana seria a praga do planeta) e distribuindo armas de fogo.
Entre seus bizarros fiéis –que usam um figurino esquisito de máscaras, pantalonas e cuecas vermelhas –está Zed (Sean Connery) que, por razões mantidas em mistério, entra na enorme cabeça de pedra flutuante e lá encontra corpos nus e plastificados, aparentemente mortos.
Após matar um profeta (vivido pelo mesmo ator que se dizia Zardoz no início), Zed aterrisa numa espécie de santuário conhecido como Vórtice onde uma sociedade de seres humanos evoluídos e imortais convive com o próprio tédio.
Lá, ele se torna um prisioneiro, intrigando os habitantes de lá com suas características físicas primitivas, Zed se equilibra entre o fascínio mal disfarçado de May (Sara Kestelman), que demonstra interesse em sua espécie, e a intolerância contraditória de Consuella (Charlotte Rampling, linda) que busca reprimir a atração pelo indivíduo desconhecido incitando sua destruição.
Pouco a pouco, Zed se dá conta da circunstância mirabolante em que esse imponderável futuro conduziu a raça humana: De um lado, sujeitos à todas as atrocidades bárbaras, estão os denominados Brutos e seus algozes, os Exterminadores (dos quais Zed faz parte) que são incitados pela divindade Zardoz (um embaste) para que se matem numa série de conflitos sem fim. Do outro, protegidos numa idílica região cercada por um campo de força, estão esses seres supostamente evoluídos (que, numa manobra hoje completamente datada, são caracterizados e retratados como decadentes hippies futuristas), cuja boa-venturança de excluir a morte, a dor e o sexo de sua existência legou a eles uma vida interminável de debates sem sentido e de hedonismo.
É Zed, entretanto, quem irá percorrer os caudalosos caminhos que permitirão a derrocada dessa estranha ordem vigente –e tão delirantes são esses percalços que o filme de Boorman com freqüência flerta com o incompreensível, com o kistch e com o mau gosto propriamente dito, perdendo, em diversos momentos, o foco do quê, de fato, quer dizer ao expectador.
Uma idéia absurda comprada com muita boa vontade pelo estúdio (a Twentieth Century Fox), o elenco (sobretudo, o astro Sean Connery) e a equipe técnica, “Zardoz” é, entre outras coisas, um reflexo das noções lisérgicas da contracultura e da liberdade criativa da Nova Hollywood.

sábado, 24 de março de 2018

Os Vencedores do Oscar 1988

Talvez, esta tenha sido a cerimônia na década de 1980 em que a Academia de Artes Cinematográficas manteve-se mais diversificada, afinal, entre os indicados a Melhor Diretor estavam um italiano (Bernardo Bertolucci, por “O Último Imperador”, o grande vencedor da noite), dois ingleses (John Boorman, por “Esperança e Glória” e Adrian Lyne, por “Atração Fatal”), um sueco (Lasse Hallstrom, por “Minha Vida de Cachorro”) e um canadense (Norman Jewinson, por “Feitiço da Lua”) –não havendo nenhum norte-americano.
Não que isso tenha se repetido entre os intérpretes: Michael Douglas ganhou como Melhor Ator no icônico papel de Gordon Gekko, em “Wall Street-Poder e Cobiça” (papel que ele reprisou 13 anos depois), e a cantora Cher enfim viabilizou sua carreira como atriz ao conquistar o prêmio demonstrando garra em “Feitiço da Lua”.
A veterana Olympia Dukakis, pelo mesmo filme também conquistou o prêmio de Atriz Coadjuvante.
E, por “Os Intocáveis”, o escocês Sean Connery recebeu a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante que, apesar de ser um belo trabalho num grande filme, ficou parecendo um prêmio como reconhecimento por sua carreira.

MELHOR FILME
"O Último Imperador"

MELHOR DIREÇÃO
"O Último Imperador", Bernardo Bertolucci

MELHOR ATRIZ
Cher, "Feitiço da Lua"

MELHOR ATOR
Michael Douglas, "Wall Street-Poder e Cobiça"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Olympia Dukakis, "Feitiço da Lua"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Sean Connery, "Os Intocáveis"

MELHOR FOTOGRAFIA
"O Último Imperador"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"A Festa de Babette" (Dinamarca)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"Robocop-O Policial do Futuro"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Viagem Insólita"

MELHOR MAQUIAGEM
"Um Hóspede do Barulho"

MELHOR FIGURINO
"O Último Imperador"

MELHOR SOM
"O Último Imperador"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"O Último Imperador"

MELHOR TRILHA SONORA
"O Último Imperador"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"The Time of My Life", de "Dirty Dancing-Ritmo Quente"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Feitiço da Lua"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Último Imperador"

MELHOR MONTAGEM
"O Último Imperador"

quinta-feira, 22 de março de 2018

Os Intocáveis

Diante do status indissolúvel de clássico moderno que esta obra de Brian De Palma adquiriu com o tempo fica um pouco difícil observa que ela era, primeiramente, uma adaptação cinematográfica de uma série de TV, nos moldes do que, anos depois foi feito em “Missão Impossível” (dirigido pelo próprio De Palma) e “As Panteras” –por mais díspare que seja essa comparação.
Ainda assim, a direção refinada de De Palma, o roteiro brilhante e intenso de David Mamet, a música antológica de Ennio Morricone e o espetacular elenco reunido fazem desta uma obra inteiramente cinematográfica.
O período da Lei Seca vigora em Chicago. É o auge do controle do poder gangster e, portanto, terreno fértil para que o mafioso Al Capone (Robert De Niro) possa prosperar a frente de um império.
Sem maiores recursos e sem muita chance de sucesso, o agente federal Elliot Ness (Kevin Costner), cerca-se de policiais incorruptíveis –o veterano e experiente guarda das ruas Malone (Sean Connery, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), o íntegro promotor Oscar Wallace (Charles Martin Smith) e o jovem e habilidoso cadete George Stone (Andy Garcia) –para levar a cabo sua cruzada de finalmente por na cadeia esse chefão do crime organizado de Chicago.
Tão magistral é o trabalho de Brian De Palma (amparado nas estupendas atuações de todo o elenco, em especial o magnífico Sean Connerry e Robert De Niro, sensacional como Al Capone) que o resultado alcançado aqui se lança num patamar além das brilhantes obras referenciais que ele entregou no passado (e que tinham, também elas, um valor artístico próprio e insuspeito) incorporando uma sucessão de cenas fabulosas cujo impacto supera e mera homenagem, a melhor delas: Um tenso e brilhantemente montado tiroteio no qual um carrinho de bebê desce as escadarias em câmera lenta numa esplêndida referência à "Encouraçado Potenkin" –mas, realizada com um primor tal que, hoje, a própria cena em si é lembrada como uma das grandes seqüências do cinema.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Caçada Ao Outubro Vermelho

Embora tenha sofrido diversas tentativas constantes de reformulações no cinema ao longo das décadas desde que virou um sucesso literário, o personagem Jack Ryan, do escritor Tom Clancy, provavelmente não encontrou melhor tradução do que nesta produção conduzida pelo especialista em filmes de ação, John McTiernam –se bem que, em 2002 tivemos “A Soma de Todos Os Medos”, com Ben Affleck, que é um filmaço, mas essa história fica para outra hora...
Embora não tão eficiente quanto em seus dois cultuadíssimos trabalhos dos anos 1980 (os fabulosos “Duro de Matar” e “O Predador”), McTiernam soube imprimir ritmo, fôlego e tensão a esta primeira aventura cinematográfica do jovem analista da CIA, aqui vivido por Alec Baldwin e freqüentemente relegado à condição de coadjuvante do personagem mais imponente do filme, o capitão russo Mark Ramius interpretado por Sean Connery com aquela fleuma que os produtores de Hollywood tanto gostavam de ver nele.
Recrutado subitamente por James Greer (James Earl Jones), diretor da CIA, o analista Jack Ryan tenta entender as intenções nebulosas do capitão Ramius, que simplesmente fugiu de seu país junto de toda sua tripulação, a bordo de um submarino que dizem, é a última palavra em tecnologia bélica naval: o Outubro Vermelho.
Uma trama de espionagem possivelmente elaborada mais para funcionar como livro do que como filme, a história oriunda das páginas do best-seller de Tom Clancy perde um pouco da importância devido ao excesso de verborragia e complicações políticas que remetem às circunstâncias da Guerra Fria, tornando a obra rapidamente anacrônica para os dias de hoje.
Embora quase sempre à sombra de Sean Connery –e isso é mais devido às imposições do roteiro que ao seu trabalho –Alec Baldwin entrega uma atuação bastante satisfatória como Jack Ryan: Quando o estúdio começou os planos para uma continuação, ele recusou voltar ao papel que foi assumido assim por Harrison Ford –protagonizando assim “Jogos Patrióticos” e “Perigo Real e Imediato” –anos mais tarde, eles reiniciaram Jack Ryan com “A Soma de Todos Os Medos”, que acabou não ganhando qualquer seqüência, e em 2014 foi a vez de Kenneth Brannagh tentar um recomeço em “Operação Sombra-Jack Ryan”, com Chris Pine.
Todos eles, como dito no início deste texto, absolutamente inferiores a este “Caçada Ao Outubro Vermelho” –com a honrosa exceção de “A Soma...” –talvez porque aqui, a despeito da trama deliberadamente rocambolesca, o que conta mesmo, é o suspense, o senso de urgência e o tenso embate naval orquestrado pelo diretor John McTiernam (o clímax final, que acompanha duas seqüências simultâneas –a batalha do Outubro Vermelho contra um submarino adversário e uma perseguição a um traidor dentro do próprio submarino –é eletrizante) ainda que isso demore um pouco a engrenar.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Assassinato No Expresso Oriente

A escritora Agatha Christie viveu para conferir a primeira adaptação de um de seus mais famosos livros, lançada em 1974. Sua primeira observação acerca do material? O bigode de Albert Finney, no papel do famoso detetive Hercule Poirot, que não correspondia à peculiar descrição do livro.
Além desse detalhe, nada determinante para o resultado final enquanto filme, a atuação calculada e minimalista de Albert Finney, bastante atenta a um excesso de trejeitos e inflexões vocais, parece ser, em princípio, mais a de um coadjuvante bem elaborado que de um protagonista proeminente –problema que poderia se tornar nítido num elenco que conta com participações cheias de magnetismo e autoridade como Sean Connery e Michael York (de “Cabaret”) –contudo, o personagem de Poirot, como um bom vinho, é servido ao expectador em pequenas doses: No início, ele passa exatamente essa impressão, a de ser mais um espécime naquela fauna distinta, meticulosa e melindrosa elabora pela escritora. Aos poucos, porém, a astuta composição de Finney começa a se destacar em meio a tantos notáveis coadjuvantes –e os monólogos que o ator tira de letra são sensacionais contribuições para isso –impondo-se como uma das grandes atuações do filme (e ele tem várias).
O elenco, por sinal, reunido pelo diretor Sidney Lumet é um dos atrativos do filme –e no modo como a trama se construía, cheia de pormenores coletivos, essa era também uma oportunidade que um diretor com perspicácia dificilmente deixaria passar: No início da década de 1930, em Istambul, um grupo eclético e diverso de passageiros toma o trem do chamado Expresso Oriente com destino à Europa, inclusive o renomado inspetor belga Hercule Poirot, em regresso de um serviço prestado às autoridades policiais daquele país, e que, na qualidade de amigo pessoal o chefe da linha ferroviária (Martin Balsam), consegue um ingresso ao expresso, que se encontra lotado.
Lá há de tudo um pouco: O casal formado pelo garboso e arrogante cavalheiro inglês (Connery) e a charmosa e formidável aristocrata britânica (Vanesse Redgrave); a autoritária e petulante senhora da alta sociedade (Lauren Bacall) a sempre lembrar para todos os dois ex-maridos que tivera; a errádica e suspeita missionária, passageira de classe média (Ingrid Bergman, já passada do auge, porém, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante); a dama inglesa de sangue azul e nobreza a toda prova (Wendy Hiller); sua empregada pessoal severa a impassível (Rachel Roberts); o casal atraente, evasivo e pouco interativo composto por nobres europeus (York e a belíssima Jacqueline Bisset); o homem de negócios cercado de temores acarretados por sua própria fortuna (Richard Widmark); seu hesitante e sôfrego empregado (Anthony Perkins, de “Psicose”); o mordomo de instruções particulares (John Gielgud), além do empregado a serviço no próprio expresso (Jean Pierre Cassel, um bocado mais jovem do que pedia o personagem), e de um chofer italiano aparentemente alheio a tudo (George Coulouris).
A história vislumbrada por Agatha Christie se inicia de fato quando o tal homem de negócios, Sr. Ratchett, surge morto em seu vagão.
Com o trem praticamente isolado em uma região tomada por neve –e que ainda por cima atrasa o avanço na direção de seu destino –não existem chances do culpado ser outro senão uma das pessoas a bordo. Isso logo aciona os instintos detetivescos de Poirot. Há, afinal, um prazo para se descobrir o assassino: Quando o Expresso Oriente chegar à sua estação, os passageiros seguirão cada um para seu próprio canto, incluindo aí o culpado se ele não for descoberto antes. Ao longo dessa investigação, entretanto, Poirot descobre que o caminho até a elucidação da identidade do assassino não será nada simples: Todos ali têm um segredo a esconder, até mesmo o morto, diretamente envolvido no famoso seqüestro e assassinato do bebê dos Lindbergh, ocorrido a cinco anos atrás –e cujo registro em tom jornalístico abre o filme.
Munido de produção refinada, o diretor Lumet não consegue escapar de algumas expressões teatrais que acometem o filme –inerentes à sua formação e até à proposta da história –mas, obtém um resultado envolvente e interessante, onde explora de modo competente a claustrofobia sugerida pela premissa e enfatizada nos detalhes cenográficos (taças, copos, candelabros e toda sorte de ornamentos cercam os personagens dando a entender que um simples gesto brusco pode derrubar tudo ao chão).

Até mesmo pela qualidade questionável dos demais títulos que o sucederam (incluindo uma espécie de continuação, “Morte Sobre O Rio Nilo”, com Peter Ustinov mostrando-se inadequado como Poirot), “O Assassinato No Expresso Oriente” é tido como uma das melhores adaptações de Agatha Christie para o cinema; agora resta conferir se a nova versão de Kenneth Brannagh lhe faz jus.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

007 - A Fase Sean Connery

Por qual razão deixei o período de Sean Connery como James Bond (justamente o primeiro!) por último? Talvez, por que envolve mais filmes do que os demais... se incluirmos aí o imbróglio que foi a tentativa dos produtores de substituí-lo por um outro ator visivelmente mal escolhido (o pouco carismático George Lazenby, sobre quem falaremos um pouco mais a frente), o quê levou-os a trazer Connery de volta, mas, acima de tudo, a razão para isso deve ser o quão absolutamente icônico Connery é nesse papel, e o quanto imprescindíveis para a cultura pop os seus filmes como James Bond são.
Ele foi o primeiro dentre todos a viver James Bond. E ele é (a despeito da aceitação inquestionável da qual Daniel Graig goza hoje) a pedra fundamental a partir da qual todos os intérpretes seguintes sofrem a comparação.

O Satânico Dr. No
Pragmático, denso, rocambolesco. O roteiro do primeiro filme realizado de James Bond chama a atenção por trazer elementos que destoam das aventuras mirabolantes que se tornaram paradigma da série: Ainda tentando encontrar o tom apropriado das aventuras de 007 para as telas de cinema, os realizadores constroem aqui um filme de espionagem de fato, onde o protagonista James Bond é um detalhe em meio a uma trama construída de diversos pormenores, levando o assim chamado agente 007, do Serviço Secreto Britânico a investigar estranhos acontecimentos na Jamaica.
A despeito da atuação bastante característica do ator Joseph Wiseman como o vilão-título, Dr. Julius No, a grande presença do filme é mesmo a da deslumbrante sueca Ursula Andress, inaugurando o hall das bondgirls e já estabelecendo um elevadíssimo patamar de beleza: Ela não somente foi a primeira como até hoje é uma das parceiras do herói preferida pelos fãs.

Moscou Contra 007
Herdando uma certa percepção do filme anterior –onde a trama mais complexa e suas elucubrações tinham uma característica divergente das fórmulas que a série passou a adotar –a história deste filme gira em torno dos planos fatais da organização S.P.E.C.T.R.E. para com o eficaz James Bond, um agente britânico que, eles sabiam, começava a dar-lhes dor de cabeça.
Dessa maneira, é despachada uma espécie de “distração” para nosso herói, uma à qual ele não seria capaz de resistir dado seu histórico mulherengo, nas curvas realmente esculturais de Tatiana Romanova (Daniela Bianchi, deliciosa).
Os produtores mantiveram o competente diretor do filme anterior, Terence Young, que aqui demonstrou mais tranqüilidade com o material fazendo um filme mais dinâmico e muito mais bem equilibrado entre as facetas técnicas de uma produção cheia de efeitos especiais e as exigências comerciais de um filme que oscila entre a aventura, a ação e um bem administrado senso de humor.

007 Contra Goldfinger
Sai Terence Young, entra Guy Hamilton como diretor, neste que, para muitos, é o filme que estabeleceu o padrão, a fórmula por meio da qual um típico filme de James Bond é construído. E isso até é verdade, embora a questão dele ser ou não o melhor filme de 007 seja relativa e pessoal –eu mesmo considero “Moscou Contra 007” infinitamente superior a este daqui.
A trama introduz um vilão bem característico dos antagonistas que Bond teve, com a diferença de que o maquiavélico Goldfinger (Gert Froebe, numa composição pouco usual) é, em geral, mais lembrado pela natureza memorável com que este filme o apresenta.
Seu plano –que James Bond tem por missão impedir –é contaminar toda a reserva de ouro do governo dos EUA depositada em Fort Knox.

007 Contra A Chantagem Atômica
No quarto filme da série a fórmula estava estabelecida e funcionava como uma máquina bem azeitada, os mesmos ingredientes se sucediam de maneira competente, bem administrados mais uma vez pelo diretor Terence Young: Movimentadas perseguições, um desfile de beldades no elenco feminino, um tempero de humor característico e sofisticado (cortesia do refinamento na composição proporcionada por Connery) e a execução de notáveis seqüências submarinas de ação.
Desta vez, James Bond deve impedir que a organização criminosa S.P.E.C.T.R.E. cumpra uma terrível ameaça: Destruir uma série de mísseis nucleares se os governos do mundo não lhes fornecer a soma de cem milhões de dólares em diamantes.
Foi este filme –premiado com o Oscar de Melhores Efeitos Especiais –que serviu de pivô para um processo judicial movido pelo co-produtor Kevin McClory que estendeu-se por décadas e culminou na inusitada realização de “Nunca Mais Outra Vez”, do qual logo falaremos...

Com 007 Só Se Vive Duas Vezes
A ambientação da nova aventura de 007 foi modificada a fim de inserir novidades sistemáticas à série: Aqui, Bond visita o Japão com direito a duas bondgirls japonesas (Akiko Wakabayashi e Mie Hama) –que, por sua vez, destoam ligeiramente do padrão de beleza das mulheres vistas até então na série.
Satélites e artefatos espaciais dos EUA e da União Soviética são misteriosamente roubados e, na tensão política proporcionada pela Corrida Espacial de então e pela Guerra Fria (mote do qual a Fase Sean Connery usou e abusou), essas duas superpotências se vêem à beira de um conflito.
O agente 007, designado devido às circunstâncias neutras do Serviço Secreto de Inteligência Britânica, segue a única pista para elucidar a identidade do arquivilão responsável por tudo, o quê o leva a uma aldeia japonesa.
Cinco filmes. A sucessão de trabalhos que o atrelavam a um mesmo personagem começava a cansar o ator Sean Connery, que nutria outros planos para sua carreira.

007 À Serviço Secreto de Sua Majestade (com George Lazenby)
A primeira tentativa real de substituição do ator de 007 se deu neste filme. O grande problema enfrentado pelo australiano George Lazenby foi não apenas a incrível adequação que Sean Connery teve com o personagem, como também a larga aceitação de público para sua caracterização; e o fato da estatura avantajada de Lazenby lhe dar um aspecto ligeiramente desengonçado (pouco condizente com o charme à toda prova de Bond) não ajudou muito –para os fãs, a ironia requintada imposta por Connery não encontrou um substituto à altura, por mais que a produção fosse caprichada, dinâmica e, dentre os filmes da franquia, fosse um dos que trabalhava com mais refinamento a dicotomia entre a estética rica e detalhada, a execução fluída e envolvente, e as cenas de ação.
A missão deste novo Bond é assim deter o chefe da S.P.E.C.T.R.E., Blofeld (interpretado por Telly Savalas), cujos planos visam contaminar o mundo com um vírus fatal.
Uma boa aventura, pena que seus méritos passaram despercebidos pela platéia e pelos críticos completamente atentos à inadequação do ator principal.

007-Os Diamantes São Eternos
Dessa maneira, foi necessário que Albert Broccoli e seus sócios desembolsassem uma grana considerável para trazer Sean Connery de volta.
E não é que “Os Diamantes São Eternos”, dirigido pelo mesmo Guy Hamilton de “Goldfinger”, figura mesmo entre uma das mais sensacionais aventuras do agente secreto?
Aqui, Blofeld (agora vivido por Charles Gray) organiza uma rede internacional de ladrões especializados em roubar um tipo muito particular de diamante, restando a James Bond a tarefa de deter o plano de seu inimigo.
Embora bem-sucedida –em muitos aspectos devido ao retorno de Sean Connery –era óbvio que os produtores teriam de seguir em frente sem o astro a partir daqui: Até pela fortuna que pagaram para tê-lo de volta, Connery havia se tornado uma opção cara demais para uma série que almejava produções com um intervalo de dois anos entre um filme e outro.
Foi aqui que os produtores começaram a notar no protagonista de uma série inglesa de nome, “O Santo”, um tal de Roger Moore...
Contudo, James Bond e Sean Connery ainda voltariam a ter seus caminhos cruzados.

Nunca Mais Outra vez
Um caso totalmente à parte na franquia 007, mas tão curioso e intrigante que não poderia ter ficado de fora, o projeto de “Nunca Mais Outra Vez” só viu a luz do dia graças à uma complicação judicial envolvendo os direitos autorais de um dos livros de Ian Fleming, o já adaptado “007 Contra a Chantagem Atômica”, nos anos 1960: A insatisfação do co-produtor daquele filme, Kevin McClory, fez com que uma disputa judicial pelos direitos desta obra específica fosse a julgamento, sob a alegação de que McClory desejava refilmar o resultado que o frustrou, possibilitando a ele usar a mesma trama e os personagens nela citados numa filme, digamos, bastardo... de James Bond.
O andamento caracteristicamente lento desse processo judicial levou duas décadas, fazendo com que “Nunca Mais Outra Vez” terminasse produzido e lançado em 1983, mesmo ano em que foi também lançado “007 Contra Octopussy”, com Roger Moore.
Espertamente, o produtor Kevin McClory não poupou despesas e providenciou a escalação de Sean Connery (já um tanto envelhecido, mas ainda espetacular no papel) e o cercou com um elenco de apoio sensacional (Edward Fox como M, Alec McCowen como Q, Max Von Sydow como o vilão Blofeld, chefe da S.P.E.C.T.R.E., e uma Kim Basinger recém-saída da carreira de modelo como a bondgirl da vez). A trama parte do inteligente princípio de que apenas os filmes estrelados por Connery contam em sua pressuposta cronologia, fazendo deste aqui uma espécie de encerramento –são constantes as menções e afirmações do herói acerca de sua iminente aposentadoria –justificando plenamente o título recebido.
Para comandar a aventura, um nome aparentemente interessante: Irving Keshner, então em alta com público e crítica por ter entregado aquele que é tido até hoje como o melhor de todos os “Star Wars”, “O Império Contra-Ataca”.

Visto hoje, “Nunca Mais Outra Vez” não resistiu tão bem ao tempo como muitos dos títulos oficiais protagonizados por Sean Connery, e até mesmo alguns que já contavam com Roger Moore.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Indiana Jones e A Última Cruzada

A primeira trilogia de filmes de Indiana Jones é de um primor raro de ser igualado no cinema –por isso mesmo, não incluo nesse comentário o quarto filme, realizado muitos anos depois...
Isso se deve porque Steven Spielberg foi extremamente cuidadoso na realização do terceiro filme: Ao mesmo tempo em que ele enxergava com singular admiração o resultado obtido pelo primeiro filme, “Caçadores da Arca Perdida”, no panorama de sua filmografia, ele também lamentava sua insatisfação pessoal para com o resultado final do segundo filme, “Indiana Jones e o Templo da Perdição” (embora muitos fãs também o apreciem).
Assim sendo, quando iniciou, em 1988, os preparativos para a realização do terceiro filme estrelado pelo arqueólogo aventureiro, Spielberg não poupou esforços para aproximar-se mais do tom, ritmo e atmosfera do primeiro filme, evitando ao máximo o clima sombrio e pesado do segundo: Retornou o personagem de Denholm Elliot, aqui quase um alívio cômico, e retornaram também os nazistas como vilões principais, entre outras similaridades.
O prólogo do novo filme também trazia o esboço de uma “origem do herói” e, a partir disso, uma melhor ilustração de sua vida familiar (mais precisamente o pai de Indiana Jones), o que abriu espaço para a referência primordial de Spielberg: O pai de Indiana, Prof. Henry Jones, foi interpretado por Sean Connery, primeiro intérprete de James Bond, justamente a reconhecida inspiração de Spielberg para criar o arqueólogo.
Sean Connery vive assim o pai de Indiana Jones tanto em termos figurativos como em termos literais.
O começo de “A Última Cruzada” é delicioso, quando vemos um Indiana ainda adolescente (e escoteiro!) dando os primeiros passos em direção ao aventureiro que viria a ser –e, neste trecho, magnificamente interpretado pelo saudoso River Phoenix, que viveu o filho de Harrison Ford em “A Costa do Mosquito”.
Esse início, diga-se, serviu de inspiração para que o produtor George Lucas fizesse uma experiência televisiva com a série “O Jovem Indiana Jones” –que não chegou a vingar.
Passado esse sensacional prólogo, a narrativa salta para o ano de 1938. O arqueólogo Dr. Henry Jones Jr. (mais uma vez Harrison Ford), conhecido como Indiana Jones, auxiliado pela bela e misteriosa Dra. Elsa Schneider (Alison Doody, uma beldade e que –veja só –foi bondgirl em “007-Na Mira dos Assassinos”!) e pelo velho colega Prof. Marcus Brody (Denholm Elliot), parte em busca do Santo Graal –um novo ‘mcguffin’ que não consegue ser tão preciso quanto a Arca da Aliança, mas cumpre seu objetivo.
Primeiro, contudo, Indiana tem que resgatar seu pai, o Prof. Henry Jones (Sean Connery, divertidíssimo em sua fleuma britânica) das mãos dos nazistas, também sequiosos pelo mítico objeto, pois, na condição de respeitado estudioso da época medieval (desempenho que por vezes levou-o a negligenciar seu filho  na infância), ele possui os instintos mais capazes para levá-los até os indícios sobre o paradeiro do cálice sagrado.
E pronto: Como tornou-se habitual nesta trilogia, Spielberg elabora sucessivas cenas magistrais onde entrega uma combinação rara de ação bem conduzida e bem filmada, registro cinematográfico de caráter artístico e espetáculo carismático –a seqüência em que Jones, pai e filho, fogem em disparada de soldados alemães montados numa moto; a perseguição insana de Indiana e seu pai pelos nazistas, começando num dirigível, indo para um aviãozinho b-17, e terminando nas rodovias européias a bordo de um conversível (!); a espetacular cena sobre um tanque alemão que atravessa todo o deserto; e, por fim, a genial resolução dos três desafios que Indiana Jones deve encarar para obter o Santo Graal, todas elas de uma criatividade incomum no cinema comercial norte-americano.
“A Última Cruzada” foi claramente concebido como uma despedida do personagem (não foi, como muitos anos depois pudemos conferir...), e coroou a “Trilogia Indiana Jones” com mais um exemplo impecável de filme de aventura.

sábado, 1 de abril de 2017

Robin Hood no cinema



Os mais distintos personagens e personalidades já povoaram as obras de cinema desde que a sétima arte foi concebida e adquiriu seu status de entretenimento popular. Drácula. Sherlock Holmes. Jesus Cristo. Entre eles, certamente está também o galante fora-da-lei que vive para atazanar a vida do xerife de Nothingham e maneja arco e flecha como ninguém.
As diferentes personificações de suas aventuras vão do humor assumido à mais comercial das aventuras, da descontração ao compromisso sério e respeitoso com a lenda, passando por reinvenções que visitam os mais diferentes gêneros e propostas.
Aqui, alguns deles:
As Aventuras de Robin Hood (1938)
Inicialmente dirigido por Willian Keighley, mas depois substituído por Michael Curtiz (de “Casablanca”) sob pretexto de que as cenas de ação, sem um realizador experiente, careciam de brilho, este clássico do capa & espada conta a história do fora-da-lei Robin de Locsley (um vistoso e fotogênico Errol Flynn, por muito tempo o grande astro desse gênero) que, escondido na floresta de Sherwood, roubava dos ricos para dar aos pobres desafiando assim o xerife de Nothingham, e ajudando os oprimidos camponeses, durante um período de opressão em que o perverso Rei João substituiu Ricardo Coração de Leão quando este havia partido para lutar nas Cruzadas em Jerusalém.
O conto de Walter Scott ganha aquela que, na opinião de muitos puristas, é sua versão definitiva, ganhadora do Oscar de Melhor Trilha Sonora.

Robin Hood-O Invencível (1960)
Longe de seu habitat natural –os filmes de terror dos estúdios Hammer –o diretor Terence Fisher trouxe a tiracolo um de seus astros recorrentes (Peter Cushing), e fez uma versão muita particular da lenda, concebendo uma trama que desvia-se dos acontecimentos mais conhecidos que cercam os personagens.
Nesta produção curiosa, Robin é interpretado com uma ponta de astúcia e ambigüidade –oriundas da formação artística do diretor Fisher, certamente –por Richard Greene, e trás consigo uma Lady Marian surpreendente num registro muito mais sensual do que pudico, personificada por Sarah Branch.

Robin Hood (1973)
Durante muito tempo tido como uma das referências da clássica história, o desenho da Disney –no qual Robin Hood ganha as formas e expressões ladinas de uma raposa –pode até frustrar quem espera por uma animação no patamar de qualidade do estúdio: A Disney enfrentava na época um período de reestruturação interna que prejudicou bastante o resultado final.
Robin Hood é um fora-da-lei que vive a perturbar as autoridades de Nothingham, sobretudo seu xerife, em função de sua luta para "roubar os ricos e dar aos pobres". Seu charme ousado e galante conquista inclusive o coração de Lady Marion, e a ira do Rei João. Lembrado sempre como um dos mais insatisfatórios desenhos da Disney, provavelmente por ter sido produzido num período em que os estúdios passavam por uma transformação profissional, logística e conceitual, é de fato, equivocado, na decisão de transformar a história de Robin Hood num emaranhado de cenas cômicas e dispersas que não dão unidade alguma à história e, sobretudo, ao colocar animais interpretando personagens humanos.

Robin Hood-O Trapalhão da Floresta (1974)
Pouco depois à animação da Disney, foi a vez dos Trapalhões lançarem a sua própria versão da lenda. No entanto, os Trapalhões, como eles passaram a ser conhecidos, não haviam sido formados ainda naquele ano de 1974 –os integrantes que vemos aqui se resumem a Didi (Renato Aragão, que neste filme leva o nome de Zé Grilo) e Dedé Santana (chamado aqui de Willian), e próprio humor feito por eles aqui não é tão inofensivo e dirigido às crianças como, aos poucos passou a ser feito, mas a história, em sua tentativa algo satírica de transpor a lenda de Robin Hood para o contexto brasileiro –inclusive com um sutil subtexto a falar sobre os latifundiários e sua opressão ao proletariado –revela-se tão notável quanto curiosa, responsabilidade certamente da condução do diretor J.B. Tanko, realizador dos melhores filmes dos Trapalhões.
Na trama, Rei João é João Climério e Ricardo Coração de Leão é seu meio-irmão Ricardo que vai fazer um safári na África (!), deixando sua fazenda à mercê dos ditames tirânicos do vilão.
O grupo de foras-da-lei é, assim, um bando de aldeões que resolve perturbar o fazendeiro e seus capangas, lembrando um pouco o movimento sem terra –ainda que muito de suas caracterizações pareçam remeter à Revolta dos Farroupilhas.
Robin Hood (interpretado pelo galã Mário Cardoso que também participou de “Os Saltimbancos Trapalhões”) sofre um ferimento e, enquanto se recupera, é substituído em suas peripécias –no melhor estilo “Kagemusha”, de Akira Kurosawa!! –pelo personagem de Renato Aragão que, como sempre, apronta poucas e boas.
Décadas mais tarde, em 1990, Renato Aragão e seus companheiros (já compondo o grupo consagrado dos Trapalhões) voltaram a trabalhar numa nova trama envolvendo o personagem em “O Mistério de Robin Hood”, mas sem qualquer relação de história ou de essência com a lenda clássica –sem falar que era uma porcaria!

Robin & Marian (1976)
Eis que o diretor Richard Lester –normalmente um operário padrão dos estúdios tendo entregado ao longo da carreira inúmeras obras de encomenda, ainda que de qualidade, como “A Vingança de Milady”, “Viagem Fantástica” e até mesmo “Superman 3” –realiza um de seus melhores trabalhos.
Sua visão sobre a lenda ousa imaginar Robin Hood e sua trupe de coadjuvantes, não no início, como normalmente o cinema faz, enaltecendo a juventude, mas no seu apogeu.
Quando a história começa, já contam duas décadas dos famosos feitos de Robin, agora tornado um valoroso guerreiro de confiança de Ricardo Coração de Leão –e, por conta de qual mérito, todo esse tempo transcorrido, ele passou lutando nas Cruzadas (o quê a história contada fez parecer ser uma obsessão para Coração de Leão).
Com a morte do Rei Ricardo, Robin regressa para a Inglaterra almejando enfim uma vida de paz, mas as intrigas de seus arquiinimigos, o Xerife de Nothingham e o Rei João, não cessaram, e ele se vê obrigado a reunir o antigo bando de foras-da-lei em Sherwood, bem como retomar a relação com Lady Marian, que ficou todo esse tempo em um convento.
Veteranos de talento a toda à prova surgem assim interpretando os personagens já num momento crepuscular como Sean Connery (Robin Hood), Audrey Hepburn (Lady Marian), Nicol Willianson (Pequeno John), Ronnie Barker (Frei Tuck), Robert Shaw (o xerife de Nothinghan), Ian Holm (Rei João) e Richard Harris (Ricardo Coração de Leão), contribuindo para fazer desta uma das mais desiguais e primorosas versões do conto de Walter Scott.

Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões (1991)
Talvez o mais famoso dentre todos os filmes, muito por conta do enorme prestígio junto ao público que o astro Kevin Costner (recém-saído do oscarizado “Dança Com Lobos”) gozava à época. Ele e o diretor Kevin Reynolds tiveram uma longa e oscilante colaboração ao longo dos anos entregando trabalhos como o juvenil e divertido “Fandango”, o catastrófico “Waterworld-O Segredo das Águas” e a aclamada minissérie “Hatfields & McCoys”.
A trama vivenciada por Robin Hood aqui já era um indicativo das reinvenções nem sempre inspiradas que histórias clássicas como esta viriam a sofrer no futuro, nas mãos de produtores de Hollywood.
Neste filme, por exemplo, Robin Hood encontra os foras-da-lei de Sherwood já como um bando completo –nas outras versões, é o próprio Robin quem monta o grupo –o romance com Lady Marian (Mary Elizabeth Mastrantonio, uma das jovens atrizes em alta na época) tem elementos modernos de implicância, relutância e sensualidade; o vilão (Alan Rickman, divertido e caricato) não poderia ser mais pueril; o personagem inédito de Morgan Freeman (um mouro), de suma importância à trama, foi introduzido como forma de ilustrar esse objetivo de reinvenção (além de antecipar um processo de representatividade que hoje é via de regra entre filmes de estúdio); e as cenas com arco e flecha são turbinadas por efeitos visuais que especulam enquadramentos antes impossíveis.
Curiosidade: Sean Connery aparece aqui (numa ponta ao final) como Ricardo Coração de Leão, pelo que, à época, foi um cachê recorde por uma participação tão pequena.

Robin Hood-O Herói dos Ladrões (1991)
Este filme muito mais obscuro, além de ter a má sorte de ser lançado no mesmo ano do retumbante sucesso estrelado por Kevin Costner, também era prejudicado pelo fato de trazer uma série de escolhas equivocadas, a começar pela presença de Patrick Bergin como o Robin Hood mais desprovido de carisma da história (seu filme mais famoso é “Dormindo Com O Inimigo” onde ele faz o marido violento de Julia Roberts, e ele de fato serve mais para fazer vilões mesmo...).
Como se não bastasse, o diretor John Irvin se mostra pouco empolgado nas cenas de ação que quando não se desenrolam de maneira formulaica e mecânica apresentam uma sucessão de incoerências. Se há algum detalhe digno realmente de nota é uma jovem e sensual Uma Thurman interpretando uma Lady Marian carregada de presença e magnetismo.

A Louca! Louca História de Robin Hood (1993)
Inevitavelmente uma paródia. Entretanto, assinada por um dos grandes comediantes americanos dos anos 1970 e 80, o veterano Mel Brooks, mas que já mostrava sinais de cansaço nos anos 1990.
O galã Cary Elwes (de “Tempo de Glória” e que fez algum sucesso como uma versão moderna de Errol Flynn na fantasia “A Princesa Prometida”) é o Robin Hood nesta reencenação cômica e musical (!) da lenda –certamente, pegando carona do imenso êxito da produção com Kevin Costner, lançada anos antes –onde pouco se consegue achar de relevância: Mesmo as piadas parecem não ter maiores propósitos junto à narrativa, o quê é no mínimo frustrante quando se pensa que este é um filme do cara que fez “Banzé No Oeste” ou “Primavera Para Hitler”.
Para se ter uma idéia, este Robin Hood cômico é tão insípido que fica a dever (e muito!) à versão debochada e maliciosa do personagem que aparece, por brevíssimos minutos, na animação “Shrek”, de 2001.

Robin Hood (2009)
Já quase no fim da década de 2000, o diretor Ridley Scott e o astro Russell Crowe, vindos de uma longa e produtiva parceria (mas, cujo maior êxito foi indiscutivelmente “Gladiador”) resolveram revisitar a lenda a fim de conceber um projeto que, em suas tintas épicas e em sua ambientação medieval, resgatasse as mesmas características de seu grande sucesso.
O resultado foi uma reinterpretação bastante audaciosa da lenda que, além de tudo, almejava não apenas dar um inédito subtexto de realismo histórico, mas que também nascia com um esqueleto de saga: Este teria sido só o primeiro capítulo, firmando-se como uma espécie de “origem” de Robin Hood e não uma versão moderna de suas famosas aventuras –essas teriam vindo numa eventual continuação, se o filme tivesse feito sucesso suficiente de público.
Não fez.
Durante a incursão do Rei Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra, em Jerusalém, no Século 12, um grupo de seus arqueiros, liderados por Robin Longstride (Crowe, já um bocado velho para interpretar um herói no princípio de sua jornada), abandona as trincheiras na França, para retornar a sua terra natal. No caminho, Ricardo é morto, e os arqueiros se vêem no meio de uma conspiração para minar a coroa inglesa, agora sob o comando do irascível Rei João (Oscar Isaacs, muito mais jovem do que as versões anteriores). Levado pelas circunstâncias, Robin assume a identidade do cavaleiro morto, Robert Loxley, e assim apresenta-se no palácio real e, mais tarde, ao pai e à esposa do verdadeiro Loxley, em Notthinghan, onde vai a fim de devolver a espada do filho ao pai –neste filme, Lady Marian (interpretada pela sempre eficiente Cate Blanchett) não é filha do Rei João, numa das inúmeras licenças poéticas que se acotovelam no roteiro excessivamente rocambolesco e cheio de desdobramentos de Brian Helgeland (co-roteirista de “Los Angeles-Cidade Proibida”).
Mas o Rei João, em parte influenciado pelo traiçoeiro Godfrey (Mark Strong), colocará toda a Inglaterra ante uma invasão de tropas francesas, obrigando Robin a tornar-se líder de um bando de foras-da-lei.