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sábado, 27 de julho de 2024

Deadpool & Wolverine


 E já aviso de antemão, leitor ocasional ou não, este texto contém os famigerados spoilers, logo, se você aprecia uma experiência cinematográfica com surpresas intactas, leia depois de ter visto o filme!

Após os eventos de “Deadpool 2”, o mercenário Wade Wilson, mais conhecido como Deadpool (Ryan Reynoldos, desempenhando em estado de graça como sempre) procura por Happy Hogan (Jon Favreau) a fim de ingressar nos Vingadores –naquela época, 2018, vale lembrar, além dos acontecimentos de “Deadpool 2”, ainda estávamos às vésperas dos eventos bombásticos de “Vingadores-Guerra Infinita”. Durante a cena –que mais lembra uma mera entrevista de emprego –Happy convence Wade de que ele não necessariamente leva jeito para ser superherói (não no sentido altruísta do termo) e acaba convencendo-o a aposentar seu uniforme. De volta à sua realidade (para a qual ele pode ir e voltar graças ao aparelho fornecido por Cable em “Deadpool 2”, diga-se), Wade se torna um vendedor de carros e assim passam-se seis anos.

É no aniversário de Wade –no qual, providencialmente se reúnem os seus melhores amigos, ou seja, os coadjuvantes que estiveram ao lado dele em seus dois filmes –que o filme, agora dirigido por Shawn Levy, começa de verdade: Wade é visitado por agentes da AVT (Agência de Variância Temporal, mostrada na série “Loki”) e levado até sua sede onde recebe do funcionário Paradox (Matthew McFadyen, de "Orgulho e Preconceito") uma notícia indigesta. O seu universo (que corresponde ao universo mais ou menos bagunçado de filmes da Fox) está morrendo! Segundo Paradox, todo universo tem uma ‘âncora’, um ser tão essencial àquela realidade que sua morte pode levar à desintegração de todo o universo. A ‘âncora’ do universo de Wade morreu –no caso, Wolverine (vivido como todo mundo sabe, com excelência por Hugh Jackman, há uns vinte anos), no filme “Logan”. Dessa forma, Wade, agora uma vez mais dentro do traje de Deadpool, precisa quebrar as regras da própria AVT (que o tinha levado para lá a fim de chamá-lo a integrar a Linha Sagrada, isto é, o universo oficial do MCU) para encontrar nas infinitas realidades alternativas do multiverso, um substituto apropriado, uma ‘âncora’ que substitua aquela que seu universo perdeu –em outras palavras, um outro Wolverine!

E começam aí, então, o festival de referências que fazem de “Deadpool & Wolverine” uma obra assim tão sedutora: Nas variações de Wolverine que acompanhamos Deadpool encontrar com tanta descontração, vemos versões em live-action de segmentos que farão a felicidade dos fãs de quadrinhos como o Wolverine extraído de “A Era do Apocalypse” (na qual ele não possui uma das mãos!); a versão conhecida como ‘Caolho’; uma versão interpretada pelo ex-Superman Henry Cavill (!); uma recriação de sua primeira aparição nas HQs, quando enfrentou o Hulk; e até mesmo a recriação de uma das capas clássicas das revistas, onde foi crucificado num imenso X de madeira. Ao fim dessa busca, resta somente uma versão apropriada de Wolverine para Deadpool levar consigo, uma versão renegada (ainda que trajando, enfim, o icônico colante amarelo dos quadrinhos e das animações), junto da qual ele retorna à AVT, somente para serem enviados por Paradox ao Voidt, ou Vazio –se você assistiu a série “Loki”, então sabe que trata-se de uma dimensão onde são despejados os sobreviventes indesejados de realidades condenadas que, por algum motivo ou outro, conseguem escapar da eventual obliteração.

Contudo, o Voidt agora está diferente: Por conta de acontecimentos bem reais (no caso, a compra dos estúdios da 20th Century Fox pela própria Walt Disney Company e, portanto, a aquisição desta de todas as propriedades intelectuais daquele estúdio), o Voidt está repleto de personagens oriundos do Universo Marvel da Fox nos cinemas, que reúne os filmes dos X-Men, (num total de onze filmes) os do Quarteto Fantástico (ambas as versões de 2005 e 2015) e os do Deadpool. E claro que, com  isso, o filme de Shawn Levy não haverá de desperdiçar a oportunidade de entregar sequências extasiantes aos expectadores, que apelam ao fã com aparições surpresas (algumas absolutamente sensacionais) capazes de despertar a mesma euforia indescritível que algumas cenas de “Vingadores-Ultimato” o fizeram há cinco anos atrás.

Embora seja uma obra longe da perfeição –e muitos críticos sisudos já correram apontar isso, destacando como exemplo a superficialidade do roteiro em inúmeros trechos, ignorando o fato de que as filmagens de “Deadpool & Wolverine” se sucederam durante a greve dos roteiristas de Hollywood em 2023, o que impediu muitas cenas de ganharem o devido polimento –o filme de Shawn Levy ainda assim tem bom senso e perspicácia o suficiente para sinalizar ao público com tudo aquilo que funcionou muito bem antes deles: O humor incontido e inconsequente de seu irreprimível protagonista (o filme tem a mais alta classificação indicativa permitida pela Marvel Studios até então); as referências inúmeras, algumas um tanto difíceis de se apanhar pelos não-iniciados nos filmes desse certamente vasto universo de heróis; e as sequências vibrantes, feitas para entregar instantes, situações e manobras muito esperadas e almejadas pelos fãs de carteirinha que provavelmente sairão acalentados e saciados do cinema, como há muito tempo não faziam, sob a alegação de que a Marvel havia perdido o jeito para agradar seu público.

“Deadpool & Wolverine” vem provar que não: Ainda há muitas emoções e surpresas a serem entregues ao público. Desde que sejam concebidas por artesões absolutamente capazes e competentes, e tão apaixonados pelo material que manejam quanto seus fiéis expectadores.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

O Demolidor


 Nas décadas recentes, surgiu uma espécie de listagem, na internet, apontando todos os tópicos em que esta ficção científica de ação lançada em 1993 conseguiu acertar acerca de como supostamente o ‘futuro’ seria. Tal precisão notável, não provém, de forma alguma, do quanto o filme se propôs sério, nem tampouco profético, mas da curiosa e inesperada predisposição para a comédia que surge quase involuntariamente no roteiro, escrito entre outros, por Daniel Waters (o mesmo do cáustico, questionador e sarcástico “Atração Mortal”) –ao dar asas à imaginação e conceber um futurismo social aludido pelas improváveis considerações de autores como Aldous Huxley (“Admirável Mundo Novo”) e George Orwell (“1984”), o roteiro de “O Demolidor” satiriza os indivíduos criados numa sociedade oriunda de regras progressivas sob um prisma politicamente correto que corresponde a muito do que se tornou corriqueiro nos dias de hoje. E isso, além do eficiente divertimento que ele promove, deu ao filme um improvável e surpreendente aspecto profético.

No ano de 1996 –três anos, portanto, afrente do ‘presente’ no qual “O Demolidor” foi lançado –o policial John Spartan (Sylvester Stallone) e o bandidão Simon Phoenix (Wesley Snipes, ótimo), ainda que inimigos mortais e de lados opostos da Lei, são sentenciados a uma mesma e inovadora pena, a Crio-Prisão –graças à uma armação de Phoenix na qual seus reféns terminam mortos e Spartan, acusado. A Crio-Prisão trata-se de uma sentença futurista na qual criminosos condenados são congelados por criogenia, até que os anos da pena acabem passando e, ao final, são libertados, descongelados, e têm implantes de memória que os fazem se integrar com mais facilidade à sociedade.

Entretanto, no ano de 2032, quando uma fusão entre duas metrópoles cria a pacífica e utópica San Angeles –na qual o crime inexiste e, portanto, as forças policiais já não têm ideia de como lidar com ele! –o perigoso Simon Phoenix é tirado de sua animação suspensa e, dotado da fúria psicótica com a qual ficou conhecido, passa a promover um terror injustificado na pacata cidade. A saída para os perplexos e ineficientes policiais do futuro é descongelar o único homem que foi capaz de detê-lo no passado, o também condenado policial John Spartan.

Embora o filme dirigido pelo diretor Marco Brambilla não fique a dever aos fãs de Stallone no quesito cenas de ação, é na sua gaiata e divertida tentativa de adaptação àquele bizarro mundo futurista que a trama de “O Demolidor” mais parece se concentrar, e é nesses momentos que encontra um êxito mais nítido –a interação dele com a policial Lenina Huxley (a sempre maravilhosa Sandra Bullock, ainda desconhecida, numa personagem que leva o sobrenome de Aldous Huxley e o nome da protagonista de “Admirável Mundo Novo”, Lenina Crowne) é hilariamente deliciosa justamente pelo choque e contraste de comportamentos entre o jeito despachado, inofensivo e asséptico dela e das pessoas de 2032, e a atitude brucutu, mal-humorada e indignada de Spartan, absolutamente inconformado com os rumos tomados pelo futuro, no qual as pessoas são multadas automaticamente por falar palavrões (!), a comida se converteu numa dieta saudável, alienada e irredutível (alguém lembrou do movimento vegano?) e as maneiras minimamente ríspidas (que o diga a agressividade propriamente dita) foram abolidas.

Digno de encabeçar com facilidade qualquer lista dos melhores filmes de Stallone na década de 1990, “O Demolidor” oferece aos fãs tudo o que se pode esperar de um filme de Sylvester Stallone –ação bem conduzida e bem realizada, pancadaria e um enredo nítido e bem delineado da Lei contra o crime, o bem contra o mal –contudo, seu grande diferencial e a surpresa com a qual acometeu expectadores daqueles tempos vem do delicioso desmazelo de seu humor futurista e suas piadas que, por mais que pudessem soar fantasiosas até mesmo aos realizadores na época, terminaram antecipando alguns elementos hoje bem reais. Logo abaixo, uma singela lista de alguns tópicos que “O Demolidor” acertou em cheio na sua despreocupada sátira futurista:

-Pessoas buscando auto-estima (e outras soluções práticas da vida) nos recursos digitais.

-Reuniões virtuais feitas por home-office.

-A carreira política de Arnold Schwarzenegger (!).

-Comando ativado por voz em residências.

-Moeda digital.

-Comprimidos substituindo a alimentação comum.

-Telefones portáteis que acessam a internet.

-Carros elétricos autônomos.

-Leis antifumo.

-Polícia de pensamento (ou Patrulha Ideológica).

-Germafobia (ou o medo patológico de germes, a hipocondria crônica).

-Controle de armamento.

sábado, 11 de abril de 2020

O Rei de Nova York

O diretor Abel Ferrara conta que uma das inspirações para um de seus mais famosos filmes partiu de –pasmem! –“O Exterminador do Futuro” (!). De alguma forma, Ferrara foi capturado pelo fascínio por personagens que eram capazes de sair atirando a esmo em um ambiente urbano e social; uma violência que ignorava quaisquer convenções.
Todavia, acabam aí as similaridades –o cinema de Abel Ferrara sempre esteve mais para Martin Scorsese do que para James Cameron.
Assim, na fantasia crua e violenta concebida pelas mentes de Ferrara e de seu roteirista de confiança, Nicholas St. John, o personagem que surge para tumultuar a normalidade não é um andróide vindo do futuro, mas um gangster vindo de um longo período na cadeia: Frank White (o personagem de Christopher Walken) é menos inspirado na ficção científica e mais no mafioso nova-iorquino verídico John Gotti.
Ferrara é categórico em afirmar que “O Rei de Nova York” é calcado em elementos fantasiosos –embora, muitos expectadores considerem seu excesso de violência, sua tensão exasperante e seu aprofundamento em meandros políticos como reflexos de realidade.
No decurso da jornada que aparenta ter planejado para si desde o início, Frank já pisa nas ruas de Nova York com seu plano em progresso.
Ele almeja descartar os chefes de gangues anteriores a ele –os italianos, os latinos e os chineses –para assumir o controle total das ruas e do tráfico de drogas com o auxílio dos negros; entre eles, seu fiel capanga, Jump, vivido por Laurence Fishburne. Para tanto, Ferrara não economiza na violência, mostrada em sua obra, como um mal que contamina a tudo.
Se há um esboço de luta de classes na premissa onde ele enxerga os policiais proletariados (David Caruso e Wesley Snipes, liderados por Victor Argo) contra o emergente grã-fino Frank White cuja riqueza provém do crime, essa analogia logo se desvanece quando os próprios policiais sucumbem ao instinto homicida convertendo-se em vigilantes inconsequentes num dos mais desconcertantes momentos do filme.
Esses personagens, por sinal, demonstram uma indignação tão rasteira perante a impunidade de Frank (sobretudo, David Caruso, bem mais afetado que os outros) que não tarda a irritar o expectador: Eles não conseguem materializar um antagonismo sustentável o bastante para o protagonista.
Curiosamente, porém, esses eventuais lapsos não prejudicam o desempenho primoroso da direção em conduzir um filme sobre a deterioração criminal e moral.
Assim, a construção de cenas de Ferrara, ora caótica, ora minimalista, obedece a uma percepção intuitiva para com a narrativa. As considerações do diretor são tão sólidas que muitas vezes parecem surgirem inconscientemente em suas realizações –Frank White, por exemplo, busca inadvertidamente uma espécie de redenção católica na tentativa de construir um hospital mesmo sem jamais abandonar a violência até a última cena.
Muito comparado ao diretor alemão F.W. Murnau por seu uso dos enquadramentos de câmeras e iluminação, Ferrara explicita esse paradoxo ao mostrar seus personagens assistindo ao próprio “Nosferatu” –e as menções ao conceito de ‘vampiro’ são feitas constantemente pelos personagens e pela narrativa, predominantemente noturna.
É perfeitamente defensável o argumento de que o filme termina literalmente por falta de personagens, tamanho é o volume e a intensidade de mortes ocasionadas pelos atos violentos que se deflagram. Nesse fetiche ensandecido e superficial pela sanguinolência, Ferrara retorna à sua inspiração original, abraçando o cinema comercial em suas facetas mais torpes. Tal e qual, Martin Scorsese, entretanto, Abel Ferrara vislumbra em seu trabalho as causas e efeitos existenciais, inerentes a sua natureza católica, oferecendo vasto material para a reflexão.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Trilogia Os Mercenários

Durante boa parte dos anos 1980 e 90, os fãs de filmes descerebrados de ação cultivaram a ideia de ver reunidos em cena alguns de seus heróis prediletos do período, sendo estes os mais requisitados Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger.
Isso não ocorreu naquelas décadas –inclusive porque, durante algum tempo, os dois alimentaram uma espécie de rivalidade antes de virarem bosn amigos e se tornarem sócios da cadeia de restaurantes Planet Hollywood –entretanto, os aficcionados tiveram a oportunidade de ver isso acontecer primeiramente em “Os Mercenários”, que reuniu os dois e mais um punhado considerável de  marombados daquela época, como Bruce Willis e Dolph Lundgreen.
Dirigido pelo próprio Stallone, o primeiro “Os Mercenários” não fazia maior esforço além de incitar o público com esse apelo –o de reunir em primeira mão os astros da pancadaria do passado, no que pode ser visto como uma das primeiras produções a se valer de um certo saudosismo dos anos 1980 que desde então dominou inúmeras obras.
Assim, Stallone é Barney Ross, líder de um grupo de mercenários de aluguel composto por Lee Christmas (Jason Statham, talvez o único verdadeiro astro de ação da atualidade), Toll Road (Randy Culture), Gunnar Jens (Lundgreen, que curiosamente se destaca no elenco), Hale Caesar (Terry Crews) e o ágil Yin Yang (o chinês Jet Li) –além deles, há também a ponta ilustre de Mickey Rourke como um barman cheio de histórias para contar.
Como era ainda governador da Califórnia na época do filme, Schwarzenegger não faz mais do que uma participação especial ao lado de Bruce Willis, numa cena em que encontram Barney em uma igreja –momento breve que, porém, foi o bastante para fazer a alegria dos apreciadores de filmes de ação protagonizados pelos três.
Na trama absurdamente genérica, o grupo de mercenários liderado por Barney deve completar uma missão numa republiqueta sul-americana. Entretanto, em algum momento a ombridade típica de herói de ação em Barney e Christmas irá falar mais alto, e eles decidirão destituir o impiedoso ditador do lugar, vivido com canastrice premeditada por Eric Roberts, convencidos pela candura da mocinha indefesa da vez, interpretada –veja só –pela atriz brasileira Gisele Itié.
Embora essa receita soasse infalível, o tratamento narrativo dado por Stallone –talvez, por essa mesma excessiva confiança –foi tão genérico e impessoal que quase o filme não passa do ponto de corte: “Os Mercenários”, ainda que com uma razoável bilheteria, concorreu ao Framboesa de Ouro de Pior Diretor (!), o que levou os produtores a tomarem um cuidado maior na continuação.

Em “Os Mercenários 2”, o diretor escolhido foi Simon West que, tendo no currículo “Con Air-A Rota da Fuga” e o primeiro “Tomb Raider”, com Angelina Jolie, ostentava vasta experiência e conhecimento no gênero. De fato, ele contribui com um ritmo vertiginoso, um humor revigorante e um tremendo entendimento sobre os aspectos que tornam esse tipo de filme empolgante aos olhos de seus apreciadores –“Os Mercenários 2” é, sem sombra de dúvida, a produção que, dentre toda a trilogia, tira melhor proveito dos elementos que usa como chamariz.
Sobretudo no que diz respeito às participações de astros famosos e veteranos da ação: Além de todos os integrantes do primeiro filme (à exceção de Mickey Rourke que não voltou), aparecem também Jean Claude Van Damme, no papel do vilão Jean Vilain (!?!), o lendário Chuck Norris (que recebe da narrativa um tratamento que faz jus à sua lenda!) e participações mais estendidas e suculentas de Schwarzenegger e Bruce Willis (com direito à infindáveis referências aos seus grandes sucessos); de lambuja, ainda temos a presença do jovem Liam Hemsworth, de “Jogos Vorazes”.
É ele quem, de certa maneira, dá a ignição à trama, quando um encontro com o perverso Jean Vilain (Van Damme sempre interpreta vilões num divertido tom canastrão e provocativo) termina mal para o rapaz, por quem Barney estava se apegando –reza a lenda que originalmente este seria o destino reservado ao personagem de Mickey Rourke.
Barney e sua equipe, com o auxílio de Trench Mauser (Schwarzenegger) o rival salvo na cena inicial convertido em aliado, seguem assim numa missão mais pessoal com o intuito de frustrar os planos inescapavelmente malignos de Vilain e vingar a morte do jovem..
Aqui, os heróis ouvem a todo o instante que já estão velhos e obsoletos para seu ofício. Nada mais que provocação: “Os Mercenários 2” é um dos melhores e mais divertidos filmes de ação dos últimos tempos e seus protagonistas, astros inquestionáveis do gênero.

É nesse sentido –no do segundo exemplar ter resultado tão memorável –que o terceiro filme acaba sendo uma curva descendente.
Os produtores julgaram que chamando um diretor mais jovem –Patrick Hughes, da comédia adolescente “Imaginem Só” e o faroeste contemporâneo “Busca Sangrenta” –a energia e o frescor da produção se manteria. Contudo, “Os Mercenários 3”, se não chega a ser de qualidade duvidosa como o primeiro filme (que beneficiou-se, sobretudo, da novidade) também passa longe do equilíbrio e do ajuste acertado do segundo.
Os acréscimos ao elenco (fatores que passaram assim a definir a série) foram Wesley Snipes (chapa de Stallone desde que fizeram “O Demolidor”), Antonio Banderas (chapa de Stallone desde que fizeram “Assassinos”), Kelsey Grammer (o Fera de “X-Men O Confronto Final”), novo gerente de missões e Harrison Ford, além do vilão interpretado com fleuma e vigor por Mel Gibson. Por outro lado, o filme não conta com Terry Crews (reduzido à uma participação ínfima), Chuck Norris e Bruce Willis (esses nem sequer aparecem).
Há também outro grupo, de integrantes jovens que estão lá mais para atender aos propósitos da trama.
No encalço de Conrad Stonebanks (Gibson), um adversário que ajudou a fundar o grupo dos ‘expendables’, Barney se depara com a necessidade de recrutar integrantes mais novos diante da ineficácia de seus velhos companheiros. Esses novos mercenários são John Smilee (Kellan Lutz), Thorn (Glen Powell, de “Estrelas Além do Tempo”), Marte (Victor Ortiz) e a durona Luna (Ronda Rousey, ex-lutadora de MMA), além do personagem de Banderas, um histriônico alívio cômico.
É previsível ao extremo o fato de que o jovem grupo falhará miseravelmente, virando reféns do próprio vilão, fazendo com que o grupo da velha guarda retorne para salvar a situação –e nisso a direção de Patrick Hughes encontra suas grandes fraquezas. Ele simplesmente não se satisfaz em realizar um filme digno de ação amparado nas presenças icônicas de que dispõe. Quer porque quer preencher suas entrelinhas de significado e com isso espalha sequências vazias e desanimadoras por todo o filme; como por exemplo o aproveitamento nada criativo do personagem de Schwarzenegger convertido numa espécie de ‘voz da consciência’ do personagem Barney, de Stallone, aparecendo em momentos pontuais sem nunca ter relevância de fato, e esse problema se estende tanto ao personagem de Harrison Ford (um coadjuvante sem o brilho e sem a razão de ser que um astro merecia) quanto ao de Wesley Snipes (que, salvo a cena de abre o filme, passa todo o resto da trama sem qualquer serventia).
Composta por dois filmes medianos e apenas um verdadeiramente empolgante, a “Trilogia dos Mercenários” ocupa um lugar especial na memória afetiva de seus fãs mais pelo apelo no conceito em ver reunidos em cena diversos ícones vivos do gênero pancadaria, do que por sua execução final.
E tal é o seu apreço que até hoje alimentam expectativas para uma vindoura “Parte 4”.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Sol Nascente

Sob muitos aspectos, o estrelato do qual Sean Connery usufruía nos anos 1990 define muito o tipo de filme que “Sol Nascente” é.
Certamente, trata-se de uma produção caprichada, uma adaptação digna e empolgante de um livro de Michael Crichton (cujo “Jurassic Park” bombou nas bilheterias naquele mesmo ano) e um trabalho ao qual o diretor Philip Kaufman confere todas as características autorais às quais era associado –o erotismo algo elegante de “A Insustentável Leveza do Ser” e “Henry & June”, e a narrativa cheia de charme de “Os Eleitos” –entretanto, é a presença de Connery (inclusive como produtor) que determina o ritmo e a condução (sempre centralizando seu marrento personagem) e os rumos da trama (cujos subterfúgios soam imprevisíveis a todos, menos à ele).
Connery reserva para si o papel de John Connor (não confundir com o salvador da humanidade da saga “Exterminador do Futuro”), uma espécie de mentor que guiará o detetive Web Smith (Wesley Snipes, em ótima química com Connery) num intrincado caso de homicídio.
A vítima, uma mulher, foi morta por sufocamento durante o ato sexual sob a mesa da diretoria de uma empresa japonesa durante a noite em uma festa de comemoração a um importante negócio. É necessário diplomacia da parte dos policiais americanos para contornar os inflexíveis códigos de conduta japoneses, sobretudo, porque a principal suspeita recai sobre um playboy nipônico o hedonista Eddie Sakamura (Cary-Hiroyuki Tagawa). E Philip Kaufman –seja na direção, seja no roteiro –incrementa ao máximo seu filme para que a cadência labiríntica de seu enredo se mostre instigante o suficiente.
É curioso, no entanto, que seu apelo mais incomum –aquele que serve para diferencia-lo de tantos outros exemplares idênticos dentro do gênero –é fonte de suas maiores ressalvas: Ao observar, como fonte de curiosidade (de exotismo, até!) a dinâmica corporativa entre japoneses e americanos, seja ele nos níveis políticos, morais, comportamentais e sexuais, o filme não evita de soar xenófobo em sua proposta e em suas motivações.
Os americanos, incluindo seus artesãos de cinema, são hábeis em mascarar a realidade com um verniz de sedutora ficção (o que este filme é com todos os seus méritos), mas deixam transparecer, de modo quase subconsciente, as facetas arrogantes de seu preconceito.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Uma Gatinha Boa de Bola


Pode até se divertir o expectador que passar pela verdadeira muralha de conceitos pré-estabelecidos que constituem este filme –é um filme desportivo, ao mesmo tempo em que serve de veículo para o estrelato de Goldie Hawn (o projeto em si segue a mesma conjugação de obras como “A Recruta Benjamin” ou “Protocolo”) e ainda por cima sua premissa básica é a mesma de um sem fim de outros filmes, desde “Ao Mestre, Com Carinho” até o mediano “Mentes Perigosas”.
Molly McGrath (Goldie), embora feminina, tem uma característica peculiar: É aficionada por futebol americano.
Seu sonho é ser treinadora de um time e, na busca por ele, requisita uma chance para treinar uma subdivisão com o pouco esportivo treinador Darwell (Bruce McGill). Ele, entretanto, numa forma de escancarar a galhofa no fato de uma mulher querer ser treinadora a indica para o posto de treinadora oficial de um time que ninguém deseja treina: Os jogadores da Central de Detroit, um time despreparado e desacreditado do subúrbio, constituído de jovens com um pé plantado na vida marginal.
Como toca a cartilha de diversos filmes que vieram antes e depois desse, o processo de aceitação e superação de Molly em sua empreitada passa por vários estágios bastante óbvios: A dificuldade extrema em conquistar a confiança do desleixado e grosseiro grupo de rapazes (entre os quais se nota, ainda bem jovens, Wesley Snipes e Woody Harrelson); o complicado processo para inteirar os jovens jogadores nos meandros sérios do esporte; as escorregadias negociações para este ou aquele jogador enfim conciliar o talento que pode demonstrar dentro de campo com as atividades inusitadas fora dele; a colisão inevitável (e francamente previsível) entre a dedicação profissional e os problemas pessoais que surgem estrategicamente para dar conflito à narrativa; e o disputado embate final que poderá vir a coroar todos os esforços mostrados ao longo da trama.
Mas, como este é um filme dos anos 1980, há um verniz de diversão que não se vê em qualquer produção –até inesperadas cenas de nudez de Goldie Hawn, acredite se quiser, podem ser flagradas aqui!