sexta-feira, 28 de agosto de 2026

The Rainbow


 “The Rainbow” é um prelúdio de “Mulheres Apaixonadas” – haja visto seu expositivo título aqui no Brasil, “O Despertar de Uma Mulher Apaixonada” – o que denota as intenções do diretor Ken Russell em regressar ao seu primeiro trabalho, o único pelo qual, em toda sua carreira, ele foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor. A verdade é que, quando surgiu, “Mulheres Apaixonadas” foi um estrondo no âmbito cinematográfico. Adaptado de um clássico literário escrito por D.H. Lawrence, o filme ousava materializar cenas a envolver nudez e sexo para transpor para as telas uma obra literária de refinado valor acadêmico e artístico. Era uma ousadia em voga, que refletia um cinema que aparentemente vinha para ficar – naquele mesmo ano concorria na categoria de diretor, com Russell, Robert Altman e sua sátira demolidora da guerra em “M.A.S.H.”, e disputando o prêmio de Melhor Filme estava “Cada Um Vive Como Quer”; um ano antes havia levado o prêmio o transgressor e audacioso “Perdidos Na Noite”, e na disputa de várias categorias estava o inquisitivo “A Noite dos Desesperados”! – moldada por toda uma nova geração de técnicos, artistas e atores alimentados pelo inconformismo.

Ou seja, entre 1969 e 1970, Ken Russell era um entre diversos novos nomes habilidosos que surgiam no panorama cinematográfico mundial dispostos a trazer uma mudança irreversível ao status quo. A diferença entre muitos de seus pares é que, sobre muitos aspectos, a maioria deles sossegou em suas ousadias a medida que consolidavam a carreira como estetas de cinema, enquanto que Russell só fez se tornar ainda mais contundente!

Na esteira de “Mulheres Apaixonadas”, em 1971, ele entregou dois projetos de vibração quase oposta, arriscados em sua intenção, provocativos em seu objetivo: O ferino, ácido e irônico “The Boyfriend-O Namoradinho”, e o avassalador, profano, ultrajante e perturbador “Os Demônios”.

Ficou claro, a partir dali (e os projetos seguintes só trataram de cristalizar isso), que Russell era uma fera indomada e indomável.

No entanto, talvez, lá no fundo, sua vaidade quisesse buscar a possibilidade de fazer as pazes com os prêmios em geral, e com o Oscar em particular, que lá naquele início de carreira ele foi capaz de obter. Daí a realização do prequel “The Rainbow”, em 1989.

Curioso notar que tais filmes – o original e este prequel – encontram Russell em estágios absolutamente distintos da carreira; e isso terá influência direta no resultado final de ambos. “The Rainbow” trazia Russell recém-saído de “A Maldição da Serpente” e “A Última Dança de Salomé”, ambos realizados no ano anterior, 1988, sendo que seu projeto seguinte seria o corrosivo “A Prostituta”.

A trama, curiosamente, não foca em Gudrun a protagonista de “Mulheres Apaixonadas”, mas em sua irmã mais velha, Ursula Brangwen, interpretada, aqui, por Sammi Davis, e no filme de 1969, por Jennie Linden (Sammi, por sinal, conseguiu o papel graças ao seu ótimo desempenho em “A Maldição da Serpente”).

A primeira dos inúmeros filhos do casal Brangwen (Glenda Jackson, que no outro filme ganhou o Oscar de Melhor Atriz vivendo Gudrun, aqui, interpreta a mãe delas), Ursula cresce e, com o aflorar de sua sexualidade, encontra inesperados meios para dar vazão à sua libido durante os últimos anos da Inglaterra Vitoriana, por volta de 1899.

Ela faz amizade com sua professora de natação, Winifred Inger (Amanda Donohoe, também ela presente em “A Maldição da Serpente” e em “Inferno Ou Paraíso”) com quem experimenta seu primeiro interlúdio sexual; com o aspirante a cadete do exército, Anton Skrebensky (Paul McGann, de “Matadores de Vampiras Lésbicas”), ela tem também sua primeira experiência heterossexual!

Ainda confusa com os sentimentos de lubricidade e apego entre Winifred e Anton, Ursula acaba, de certa forma, abandonada pelos dois – Winifred se casa com o irmão do próprio pai por conveniência apesar do inconformismo de suas atitudes; e Anton tão logo se forma parte para lutar nas guerras colonialistas na África do Sul – e decide partir para Londres lecionar numa escola primária na área pobre de East End.

Lá, Ursula se equilibra entre as esquivas do assédio sexual do diretor escolar e os transtornos corriqueiros do desrespeito dos alunos mais abusados. Ursula termina pedindo a demissão quando ambas as circunstâncias começam a se tornarem insustentáveis.

Retornando para a fazenda da família, quando o filme sugere que alguns anos podem ter passado, Ursula reencontra Winifred, e mais tarde, Anton, em situações distintas, longe das pessoas sonhadoras, irreprimíveis e supinas que um dia haviam sido.

Embora essa trajetória de uma mulher buscando sua identidade e sua voz numa sociedade pontuada de armadilhas morais seja consideravelmente mais ameno do que muitos trabalhos que Ken Russell já chegou a entregar, ainda assim,  “The Rainbow” vem carregado de reflexos naturais de suas narrativas audaciosas – o filme não se furta de comentar abertamente sobre questões diretamente sexual a envolver seus personagens e momentos potencialmente violentos e certamente politicamente incorreto não são, de forma alguma evitados.

Contudo, o que persiste é um trabalho feito com paixão e fulgor, um tratado cinematográfico onde a dedicação de um realizador está totalmente empregada do exercício de sua arte a ignorar códigos de conduta e hipocrisias pontuais de sua época ou da época ali retratada – um efetivo que sempre definiu minha particular admiração por Ken Russell.

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