domingo, 28 de junho de 2026

Licorice Pizza


 O termo “Licorice Pizza” – traduzido do inglês, Pizza de Alcaçuz! – é o nome de uma rede de lojas antigas que vendiam discos de vinil, em referência ao fato de que o formato do vinil, em si, lembrava uma pizza, isso lá nos EUA dos anos 1970 (época e ambientação do filme) um gatilho emocional e nostálgico para seu realizador, daí a dica: Estamos diante de um filme profundamente pessoal para seu diretor, roteirista e produtor Paul Thomas Anderson, no qual ele evoca, com irreprimível e contagiante emoção, lembranças de sua própria juventude, somadas às outras memórias, extraídas por sua vez das experiências do grande amigo Gary Goetzman, produtor de cinema e ex-ator mirim (estrelou a versão original de “Os Seus, Os Meus e Os Nossos”).

Muito tem se falado de uma vertente recente de cinema no qual grandes cineastas revisitam seu passado, como no caso de Spielberg (“Os Fabelmans”), Kenneth Branagh (“Belfast”) ou James Gray (“Armageddon Time”), no entanto, filmes de perfil autobiográfico estão aí desde os tempo de Fellini e seu “Amarcord”, vide as obras de John Boorman (“Esperança e Glória”) e Woody Allen (“A Era do Rádio”), só para citar alguns.

“Licorice Pizza” acompanha os percalços do amor experimentado por Gary Valentine (Cooper Hoffman, de “A Longa Marcha”, filho do ator Phillip Seymour Hoffman), a partir do momento em que ele avista Alana Kane (a premiada cantora Alana Haim) numa fila para fotos do anuário estudantil – Alana é uma das muitas jovens trabalhando como assistente de fotografia.

Como sempre (apesar do entusiasmo e da auto-confiança do jovem), há empecilhos para o romance: Ele tem apenas 15 anos; ela tem 25. Ele vem de uma família liberal (sua mãe aprova e incentiva muitas das ideias até mirabolantes do filho); ela vem de uma família de judeus conservadores (as irmãs e os pais de Alana Kane na vida real, inclusive, aparecem interpretando a família de sua personagem no filme).  Ele é um jovem ator numa fase incerta da carreira – as oportunidades como ator minguam à sombra de sua puberdade enquanto cresce nele uma disposição para o empreendedorismo – ela se encontra ainda na indecisão da juventude (seja essa indecisão afetiva ou profissional) e as ironias turbulentas dos anos 1970 não ajudam em nada.

Apesar disso, uma química e uma sintonia inconteste se estabelece entre os dois. Sem levar muito o garoto a sério, Alana o acompanha até Nova York, numa apresentação – onde chega a flertar com o colega um pouco mais velho Lance (Skyler Gisondo, de “Superman” e "O Dilema das Redes"). Eles passam a trabalhar juntos em projetos que o ambicioso Gary vai tocando ao sabor dos improvisos e dos acontecimentos: Ele se torna vendedor de colchões d’água; ela tenta carreira como atriz. Duas cenas notáveis: Numa, Alana e Gary fazem ciúme um no outro, enquanto ela usufrui da companhia do ator veterano Jack Holden (Sean Penn, cujo “Picardias Estudantis” foi uma inspiração declarada para este filme) e do produtor pinel vivido por Tom Waits; Na outra, Gary, Alana e uma equipe de pessoas de confiança vão instalar um colchão d’água na mansão de um alardeado produtor hollywoodiano (Bradley Cooper, fazendo uma caricatura aloprada do produtor Jon Peters), e envolvem-se numa série de confusões relacionadas ao Embargo do Petróleo, que encareceu e escasseou o combustível de veículos naqueles idos dos anos 1970.

No terço final, Alana torna-se voluntária na campanha para prefeito de Los Angeles do vereador Joel Wachs (o diretor Benny Safdie), enquanto Gary abre uma loja de fliperamas inspirado pela súbita legalização dessas máquinas no estado da Califórnia.

Todos esses percalços, entretanto, não passam de idas e vindas extremamente divertidas, às vezes tocantes, entre o amor de Gary e Alana que nunca encontra meios de se expressar harmoniosamente em meio à esses contratempos.

Primoroso, como costuma ser cada trabalho na filmografia de Paul Thomas Anderson, “Licorice Pizza” é exemplar na construção inspirada de suas cenas, no desenvolvimento quase hipnótico de seus personagens e na recriação assombrosa de uma Los Angeles setentista em ebulição, seja na direção de arte (irrepreensível), nos figurinos ou na trilha sonora.

Uma jóia preciosa.

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