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domingo, 28 de junho de 2026

Licorice Pizza


 O termo “Licorice Pizza” – traduzido do inglês, Pizza de Alcaçuz! – é o nome de uma rede de lojas antigas que vendiam discos de vinil, em referência ao fato de que o formato do vinil, em si, lembrava uma pizza, isso lá nos EUA dos anos 1970 (época e ambientação do filme) um gatilho emocional e nostálgico para seu realizador, daí a dica: Estamos diante de um filme profundamente pessoal para seu diretor, roteirista e produtor Paul Thomas Anderson, no qual ele evoca, com irreprimível e contagiante emoção, lembranças de sua própria juventude, somadas às outras memórias, extraídas por sua vez das experiências do grande amigo Gary Goetzman, produtor de cinema e ex-ator mirim (estrelou a versão original de “Os Seus, Os Meus e Os Nossos”).

Muito tem se falado de uma vertente recente de cinema no qual grandes cineastas revisitam seu passado, como no caso de Spielberg (“Os Fabelmans”), Kenneth Branagh (“Belfast”) ou James Gray (“Armageddon Time”), no entanto, filmes de perfil autobiográfico estão aí desde os tempo de Fellini e seu “Amarcord”, vide as obras de John Boorman (“Esperança e Glória”) e Woody Allen (“A Era do Rádio”), só para citar alguns.

“Licorice Pizza” acompanha os percalços do amor experimentado por Gary Valentine (Cooper Hoffman, de “A Longa Marcha”, filho do ator Phillip Seymour Hoffman), a partir do momento em que ele avista Alana Kane (a premiada cantora Alana Haim) numa fila para fotos do anuário estudantil – Alana é uma das muitas jovens trabalhando como assistente de fotografia.

Como sempre (apesar do entusiasmo e da auto-confiança do jovem), há empecilhos para o romance: Ele tem apenas 15 anos; ela tem 25. Ele vem de uma família liberal (sua mãe aprova e incentiva muitas das ideias até mirabolantes do filho); ela vem de uma família de judeus conservadores (as irmãs e os pais de Alana Kane na vida real, inclusive, aparecem interpretando a família de sua personagem no filme).  Ele é um jovem ator numa fase incerta da carreira – as oportunidades como ator minguam à sombra de sua puberdade enquanto cresce nele uma disposição para o empreendedorismo – ela se encontra ainda na indecisão da juventude (seja essa indecisão afetiva ou profissional) e as ironias turbulentas dos anos 1970 não ajudam em nada.

Apesar disso, uma química e uma sintonia inconteste se estabelece entre os dois. Sem levar muito o garoto a sério, Alana o acompanha até Nova York, numa apresentação – onde chega a flertar com o colega um pouco mais velho Lance (Skyler Gisondo, de “Superman” e "O Dilema das Redes"). Eles passam a trabalhar juntos em projetos que o ambicioso Gary vai tocando ao sabor dos improvisos e dos acontecimentos: Ele se torna vendedor de colchões d’água; ela tenta carreira como atriz. Duas cenas notáveis: Numa, Alana e Gary fazem ciúme um no outro, enquanto ela usufrui da companhia do ator veterano Jack Holden (Sean Penn, cujo “Picardias Estudantis” foi uma inspiração declarada para este filme) e do produtor pinel vivido por Tom Waits; Na outra, Gary, Alana e uma equipe de pessoas de confiança vão instalar um colchão d’água na mansão de um alardeado produtor hollywoodiano (Bradley Cooper, fazendo uma caricatura aloprada do produtor Jon Peters), e envolvem-se numa série de confusões relacionadas ao Embargo do Petróleo, que encareceu e escasseou o combustível de veículos naqueles idos dos anos 1970.

No terço final, Alana torna-se voluntária na campanha para prefeito de Los Angeles do vereador Joel Wachs (o diretor Benny Safdie), enquanto Gary abre uma loja de fliperamas inspirado pela súbita legalização dessas máquinas no estado da Califórnia.

Todos esses percalços, entretanto, não passam de idas e vindas extremamente divertidas, às vezes tocantes, entre o amor de Gary e Alana que nunca encontra meios de se expressar harmoniosamente em meio à esses contratempos.

Primoroso, como costuma ser cada trabalho na filmografia de Paul Thomas Anderson, “Licorice Pizza” é exemplar na construção inspirada de suas cenas, no desenvolvimento quase hipnótico de seus personagens e na recriação assombrosa de uma Los Angeles setentista em ebulição, seja na direção de arte (irrepreensível), nos figurinos ou na trilha sonora.

Uma jóia preciosa.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Uma Batalha Após A Outra


 Tal como “Vício Inerente”, este novo projeto do diretor Paul Thomas Anderson é baseado num livro de Thomas Pynchon, o romance “Vineland”. Se a obra anterior era voltada para uma narrativa de mistério e de idas e vindas ao sabor de muitos delírios psicodélicos, aqui reflete-se sobre a paranóia e as consequências morais de se dedicar integralmente (e cegamente) a uma causa.

A distopia na qual Anderson ambienta seu filme coloca um grupo organizado de resistência, intitulado French 75, em busca de uma revolução em plenos EUA mais xenófobos do que nunca –uma clara alusão à América de Trump ainda que o olhar de Anderson não se furte de mostrar também os revolucionários como partidários de uma causa que facilmente resvala para o terrorismo. Não interesse, deveras, ao diretor dizer quem está certo ou errado; interessa, sim, contemplar os personagens desiguais e intrigantes que desse caldo emergiram.

Entre eles, está Ghetto Pat (Leonardo Dicaprio, excelente), um especialista em explosivos e traquitanas tecnológicas que adere à causa por razões um tanto prosaicas, e por razões prosaicas haverá também de abandoná-la, mais a frente. Ele se envolve com a belíssima Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor, vibrante), uma revolucionária afro-descendente selvagem e indomada. Em algum ponto, entre as noites de atentados planejados e os discursos inflamados, Perfidia engravida –e não tarda a ressentir-se do papel convencional de mãe que a situação lhe impôs.

No entanto, Perfidia, numa manobra carregada de ambiguidade do filme, envolveu-se também com o militar Steven J. Lockjaw (Sean Penn, também excelente, como aliás estão excelentes todos os integrantes deste elenco), um violento inimigo do outro lado do conflito –e, por isso mesmo, um amante de possibilidades ainda mais excitantes e transgressoras para Perfidia.

Tanto Ghetto Pat quanto Lockjaw correm, portanto, o risco de serem pais da filha de Perfidia. Ghetto Pat a cria com amor, e não pestaneja em deixar a French 75 tão logo as circunstâncias se tornem ameaçadoras para sua família. Contudo, algo ainda pior acontece: Durante uma operação, Perfidia é capturada e, favorecida pelo amante Lockjaw por baixo dos panos, acaba delatando boa parte de seus companheiros, obrigando Ghetto Pat à fugir com sua filha, e assumir uma outra identidade.

Dezesseis anos depois, Ghetto Pat agora com o nome de Bob Fergunson cria a filha adolescente Willa (Chase Infiniti, fantástica) na cidade de Baktan Cross, uma cidade santuário que flexibiliza as leis de imigração nas proximidades da fronteira com o México. Tudo segue com tranquilidade até que Lockjaw, agora sob a patente de coronel, obtêm a sonhada chance de ingressar num restrito clube de supremacistas brancos, os Aventureiros Natalinos. No entanto, as regras do clube são severas e segregacionistas –não são toleradas interações com pessoas de outra raça.

A fim de conquistar a chance de ser um dos Aventureiros Natalinos, o Coronel Lockjaw precisa varrer para debaixo do tapete todos os indícios do caso que teve com Perfídia no passado (ela que, por sinal, fugiu do programa de proteção à testemunha e nunca mais foi vista), o que inclui a possibilidade dele ser pai de Willa.

Sob esses pretextos um tanto torpes –e justificados oficialmente por outros mais torpes ainda! –o Coronel move um destacamento de soldados de elite para Baktan Cross, a fim de matar Bob Fergunson e capturar Willa tão logo obtêm a informação do paradeiro deles e da identidade que assumiram.

O que se segue, na sequência, é um filme brilhante, magistralmente equilibrado entre um fino senso de humor (repare na sensacional trilha sonora, a cargo de Jonny Greenwood, do “Radiohead”, que comenta ora com sarcasmo, ora com urgência cada uma das cenas), um afiado drama humano sobre os desdobramentos práticos de uma oposição ao sistema e uma costura fina da trajetória de personagens construídos e interpretados com primazia, uma produção digna de um dos mais habilidosos diretores da atualidade.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Algumas Previsões Para O Oscar 2026

 


Die, My Love

O filme que reúne os astros Jennifer Lawrence e Robert Pattinson encontra-os num momento bastante aclamado de suas carreiras; diferente de quando foram lançados ao estrelato (ela, com “Jogos Vorazes”; ele, com “Crepúsculo”), e dirigidos pela sempre autoral Lynne Ramsay. “Die, My Love” chega com chances fortíssimas de emplacar mais uma indicação de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence e possibilitar a melhor recepção da Academia de Artes Cinematográficas, até então, para um filme de Ramsay.


O Agente Secreto

Desde antes de sua estréia, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, vinha sendo cotado para repetir com pompa e circunstância a mesma campanha belíssima feita pelo premiado “Ainda Estou Aqui” no ano passado, agora, com indições para Wagner Moura, de Melhor Ator, e novamente Melhor Filme Internacional, e até quem sabe algumas outras categorias: Muitos são os críticos apontando este como o melhor trabalho de Mendonça Filho, o quê, vindo do realizador de “Bacurau”, não é pouco!


Avatar-Fogo e Cinzas

O primeiro “Avatar”, lá de 2009, é visto hoje como um divisor de águas no cinema hollywoodiano; sua continuação, “O Caminho da Água”, pode até não ter repetido a mesma extensão de êxito, mas foi um fenômeno de bilheteria, concorreu ao Oscar de Melhor Filme e ainda saiu da cerimônia com o prêmio de Melhores Efeitos Visuais. O trailer (empolgante, diga-se) desta terceira parte promete, no mínimo, uma produção superior ao último filme.


Frankenstein

Contando pouco tempo de seu lançamento em cinema e streaming (o filme é da Netflix), a nova e suntuosa versão do diretor Guilhermo Del Toro para a obra imortal de Mary Shelley está perfeitamente posicionada para ser lembrada na cerimônia do Oscar no ano que vem. E muitos têm sido aqueles que enalteceram a realização de Del Toro como a melhor adaptação do clássico literário até hoje! –lembrando que, entre outras versões, houve até uma de Kenneth Branagh com Robert De Niro.


Pecadores

Talvez, a grande obra-prima entre os exemplares da nova vertente do terror norte-americano, “Pecadores”, de Ryan Coogler, surpreendeu o público e a crítica com uma trama que, enquanto capturava uma apaixonada referência à “Um Drink No Inferno”, de Robert Rodriguez, abordava a questão racial e a influência poderosa da música negra num espetáculo cinematográfico belo, impressionante e sangrento.


F1-O Filme

O excelente filme com Brad Pitt e dirigido por Joseph Kosinski chegou até mesmo a ser relançado nos cinemas no segundo semestre deste ano visando uma chance entre os indicados ao Oscar. As possibilidades entre as categorias principais estão diminuindo (à medida que concorrentes mais fortes e substanciais começam a ser lançados no circuito), mas a esperança ainda paira no ar –e a presença em muitas categorias técnicas é quase uma barbada visto sua incontestável competência.


Uma Batalha Após A Outra

Paul Thomas Anderson recrutou Leonardo Dicaprio para realizar um dos filmes mais ágeis e dinâmicos de sua consagrada carreira. Adaptado de um livro de Thomas Pinchon (assim como foi “Vício Inerente”), Anderson entrega uma produção sofisticada, carregada de reflexões pertinentes e atuais, concebida com apuro visual e narrativo à toda prova e adornada de brilhantes atuações. O olhar dos críticos, do público e da Academia repousa, atento, sobre ele.


Wicked-Parte 2

A “Parte 1” encantou público e crítica, chegando na última cerimônia do Oscar (de onde saiu com duas estatuetas) exigindo respeito. Esta segunda e última parte (sobretudo, depois do lançamento de seu trailer apoteótico) eleva ainda mais as apostas. Agora, retornamos ao mundo de “O Mágico de Oz” pouco antes dos eventos narrados no clássico; contudo, desta vez, a trajetória dúbia e intrigante de Elphaba e Glinda vai adentrar os acontecimentos do filme de 1939 e, por fim, se encerrar.


Bugonia

O diretor grego Yorgos Lanthimos, a despeito de seu estilo corrosivo, único e pouco usual, parece ter caído nas graças de Academia que terminou indicando (e, em alguns casos, até premiando!) a maioria de seus últimos trabalhos em categorias bastante expressivas. Sua nova audácia “Bugonia”, já desponta como um dos favoritos à estatueta dourada e à outros prêmios da temporada com a atenção voltada, especialmente, para as atuações de Emma Stone e Jesse Plemmons, intérpretes prediletos de Lanthimos.


Coração de Lutador

Dwayne ‘The Rock’ Johnson concorrendo ao Oscar de Melhor Ator? É o que muitos estão se perguntando e contemplando a possibilidade de se tornar verdade. Dirigido por Ben Safdie (diretor de “Jóias Brutas” e ator em “Oppenheimer”) e baseado na vida do lendário lutador Mark Kerr, o filme parece uma tentativa de The Rock em dar um novo rumo à sua carreira já pontuada por vários sucessos de bilheteria. Para alguns especialistas a bilheteria abaixo do esperado pode ter esfriado suas chances, mas, para outros, o filme ainda tem possibilidades reais de chegar aos indicados principais.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

O Mestre

Dos poucos realizadores consagrados norte-americanos a evocar a escola de Stanley Kubrick –onde estão em pauta filmes corrosivos construídos em torno de análises inquietantes e antropológicas da condição humana –Paul Thomas Anderson realizou este “O Mestre” na sequência de um de seus mais louvados trabalhos, o épico “Sangue Negro”.
Algo aproxima os dois: Se “Boogie Nights” e “Magnólia” eram registros pulsantes e abrangentes de microcosmos definidos por suas peculiaridades, “Sangue Negro” e “O Mestre” são tratados de observação moral dedicados a trajetória de um único protagonista –o filme que relaciona essas duas fases criativas distintas é “Embriagado de Amor”, com Adam Sandler.
Assim, a incorporar as questões levantadas neste filme, temos Joaquin Phoenix interpretando Freddie Quell, rapaz combatente na marinha da Segunda Guerra Mundial.
Incapaz de se adequar ao mundo à sua volta –antes mesmo dos traumas de guerra que o deixaram ainda mais instável –Freddie passa a singrar algumas cidades americanas colecionando encrencas e confusões; e a fim de materializar o estado à beira do esquizofrênico de seu protagonista, o filme de Anderson vai e vem em eventos atuais e pregressos sem maiores avisos, confundindo a percepção do público.
Em algum momento, Freddie acaba parando no navio de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman) à caminho de Nova York.
Se Freddie Quell é a figura subjetiva a narrativa, então Lancaster Dodd é seu elemento central: Envolvente e carismático, ele revela-se o guia de um culto intrigante e metodicamente mirabolante e, em última instância, perigoso –e o filme de Anderson até no improvável que registra nunca se afasta demais da realidade: “O Mestre” é, pois, fortemente baseado na figura de L. Ron Hubbard, o guru por trás da Cientologia, uma religião alternativa que tornou-se moda entre celebridades norte-americanas a partir dos anos 1990.
Dodd abraça Freddie como seu protegido, e assim, as características em torno do movimento religioso chamado “A Causa” –nome do primeiro livro escrito e publicado por Dodd –se descortinam para ele.
Dodd crê na conexão com vidas passadas, e na possibilidade da mente acessar tais ligações através de sessões que misturam elementos de hipnose, sugestão e psicanálise superficial. Ao lado de Freddie, um seguidor prontamente ferrenho, Dodd e sua esposa (Amy Adams) vão arrebanhando novos e engajados adeptos, como Clark (Rami Malek), casado com a filha de Dodd, e Helen (Laura Dern), nova-iorquina em cuja mansão Dodd e seus seguidores se instalam indefinidamente.
Eventuais vozes dissonantes do movimento são caladas com grosseria, truculência e exclusão, como é o caso do jornalista que aborda Dodd com perguntas constrangedoras e mais tarde recebe uma violenta visita em seu apartamento de Freddie e Clark, ou da própria Helen que identifica um erro contraditório no segundo livro de Dodd e acaba enxergando uma faceta intolerante e irascível que ele normalmente esconde de todos.
“O Mestre”, contudo, se dedica mesmo ao mergulho algo psicodélico no conceito montado por Lancaster Dodd, que inclui seus jogos mentais de manipulação, e na relação quase simbiótica deste com Freddie que nele enxerga uma figura paterna que jamais teve (outro tema que transcende toda a filmografia de Anderson), enquanto que Dodd o vê, em suas rachaduras psicológicas inapeláveis, uma cobaia perfeita para suas experiências de controle psíquico.
Nesse delírio coletivo capitaneado por tal mente cheia de segundas intenções, Anderson termina por realizar algo próximo do que fez em seu celebrado “Sangue Negro”: Um retrato distinto, moralmente circunspecto e cheio de maestria de uma mentalidade específica a aparecer no seio da América numa determinada hora e lugar –no caso, os EUA da década de 1950 –e um estudo cheio de propriedade e maneirismos humanos da maldade, da violência e da sordidez em gestação, por meio de ideologias atrativas aos corações atormentados como o de Freddie Quell, que termina o filme do mesmo jeito que começou: Errante num caminho que o devolve sempre às angústias de seu passado.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Trama Fantasma


O diretor Paul Thomas Anderson e o astro Daniel Day-Lewis contavam que tinham em mente uma trama que explorava os tormentos românticos nascidos de uma relação de simbiose artística no mundo da confecção vestuária, porém, esbarraram em um problema: Ambos não sabiam coisa alguma do ofício ou de moda.
É um comentário simpático que mascara o teor corrosivo do trabalho que fizeram.
Thomas Anderson é um diretor que, nos moldes de Stanley Kubrick, realiza filmes para desestabilizar, às vezes sufocar, ou até desconcertar o expectador.
O protagonista de “Trama Fantasma” –que Daniel Day-Lewis constrói de modo tão preciso e impecável quanto em “Sangue Negro” –é Reynolds Woodcock, um estilista de moda renomado, requisitado pelos membros mais altos da aristocracia e da realeza.
Para atingir um grau tão elevado de excelência e inspiração, Reynolds construiu com afinco um sistema de regras e comportamentos em torno de si que jamais tolera interrupções ou tentativas de mudança, cujas origens podem se encontrar na fixação soturna bela figura de sua mãe já falecida.
Agente poderosa da manutenção desse sistema, a Sra. Cyril (Leslie Manville, magistral) é uma espécie de braço-direito que a segue feito uma entidade; é o anjo que enaltece seus valores, o demônio que incentiva seus caprichos.
Contudo, é inevitável –em um âmbito predominantemente artístico –a presença de elemento tão humano quanto instável: E Reynolds depende de uma modelo para incorporar suas criações.
No início, a narrativa de Thomas Anderson registra o fim de uma relação nestes moldes. Reynolds e sua modelo vivem um silêncio desconfortável que ela já não suporta.
Ele conhece então, num café campestre, uma jovem que reacende seus instintos criativos, a garçonete Alma (Vicky Krieps). Um diamante bruto no sentido de que tem genuinamente todas as qualidades que Reynolds procura, Alma se apaixona por ele e, de imediato, estabelece o tipo de relação que Reynolds mantém com todos: Ela cede tudo aquilo que ele quer (sua disponibilidade, seu amor e sua reverência) em troca da vaidade de ser sua musa, de respirar o ar que ele respira e de absorver sua essência.
Desde o princípio, de forma hipnótica, Thomas Anderson mostra que o mundo de Reynolds gira em torno dele. Daí é natural que Alma, ao almejar um relacionamento normal com suas trocas e vicissitudes, acabe se ressentindo com Reynolds.
Como o grande diretor que é, Thomas Anderson vai muito além do que o expectador pode supor nessa sua observação dos indícios irracionais de uma dependência mútua.
Reynolds precisa de Alma porque ela personifica seu ímpeto de criar. Alma precisa de Reynolds porque ele fez com que ela o amasse.
E Alma compreende que, nessa circunstância, a dependência de Reynolds por ela pode ser momentânea e, amargurada pela possibilidade de afastamento, arquiteta um meio de fazê-lo perceber que sua necessidade dela vai além da importância artística –e tal meio não inclui escrúpulos.
Ao moldar uma relação obsessiva, materializada num mundo à parte (e, para tanto, são fundamentais as decisões de não especificar nem a época nem o lugar em que tudo se passa), Thomas Anderson levanta pouco a pouco uma névoa de incredulidade e até de absurdo em torno dos paradigmas com os quais Reynolds e Alma trabalham seu relacionamento, e com eles intriga e instiga o público: Até que ponto Reynolds compreende a ameaça que Alma oferece a ele? Até que ponto –ou até quando –ele de fato a ama até mantê-la em seu mundo sistemático como uma mera presença?
A julgar pelo desfecho ainda assim enigmático, a relação de amor e ódio que eles construíram ao longo do filme adquiriu uma simbiose que flerta com a morte. Um comentário curioso e significativo de Thomas Anderson e Day-Lewis sobre talento, legado e mortalidade, reforçado pelo fato pertinente de ser este o último filme de Day-Lewis antes de sua anunciada aposentadoria.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Boogie Nights - Prazer Sem Limites

Em seus três primeiros filmes, Paul Thomas Anderson criou distorções perturbadoras de um mesmo tema: Um grupo de marginais, ora em atrito, ora em paralelo com o difícil fato de existir no contexto em que estão inseridos.
Se em seu primeiro trabalho, “Hard Eight”, seus personagens eram a fauna de caóticos habitantes de um cassino, e em seu terceiro, “Magnólia”, eles eram seres peculiares arremessados num pesadelo urbano da vida real, em seu segundo trabalho –aquele no qual a indústria e a crítica especializada começou a reparar nele –o exuberante “Boogie Nights-Prazer Sem Limites”, esses personagens eram personificações de bizarros seres humanos que vivem no universo do cinema pornô.
Apesar do grande número de personagens (característica em muitos dos filmes de Anderson), o centro do filme é o jovem aspirante a ator, Eddie Adams que, ao adotar o pseudônimo artístico de Dirk Diggler (Mark Whalberg, numa das primeiras chances em sua carreira de demonstrar talento real) mostra-se inicialmente deslumbrado com o fato de se tornar um astro pornô: Ele é apadrinhado pelo diretor Jack Horner (vivido com euforia renovada e genuína pelo veterano Burt Reynolds) que graças ao seu pênis descomunal (!) o coloca como astros em uma profusão de produções feitas por sua equipe que, ao lado do elenco regular de beldades (que inclui Julianne Moore e Heather Graham) e outras pessoas formavam todos uma espécie de família.
Aos poucos, Diggler se deixa levar pelos excessos daquele período, inclusive pelas drogas, numa clara referência ao ator John Holmes, ícone do gênero falecido na década de 1980, vítima da AIDS.

“Boogie Nights” é então um mosaico colorido e disforme, riquíssimo em dramaturgia e observação, um retrato meio cômico meio dramático da indústria pornô dos anos 1970 (trecho mais radiante e animado do flme) e início dos anos 1980 (sua parte mais sombria) quando a transição para as novas mídias de então (o Betamax e o VHS) trouxe a decadência aos astros daquele gênero.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Vício Inerente

Não é fácil encarar uma obra de Paul Thomas Anderson. Filmes como “Sangue Negro” ou “O Mestre” são herdeiros diretos da filosofia de Stanley Kubrick na qual os enredos corrosivos servem à uma sondagem impiedosa do homem e de suas pulsões.
Desde “Jogada de Risco”, Anderson dedica o olhar de sua câmera à essa dramaturgia tão particular, por meio da qual resgata valores e códigos para estudá-los até que ponto são capazes de definir seus personagens.
Para Anderson as influências mais positivas têm, ainda sim, um poder de corrupção.
Vejamos, por exemplo, o protagonista de “Vício Inerente”, o detetive particular (e maconheiro incorrigível nas horas vagas) Larry ‘Doc’ Sportello, vivido por Joaquim Phoenix. Passando mais tempo sobre o efeito do êxtase da maconha do que lúcido, Sportello se incumbe de uma investigação toda ela pontuada por princípios pessoais: A mulher que ele ama, Shasta (Katherine Waterston, vista este ano em “Animais Fantásticos e Onde Habitam”) desapareceu quase que de forma mirabolante, e esse mistério vem cercado por ocorrência nebulosas e fatos suspeitos que ligam Sportello à um violento policial com tendências homossexuais (Josh Brolin) e ao amante da jovem (Eric Roberts), um ricaço por quem ela o trocou.
Durante boa parte da lisérgica e confusa trajetória à procura de respostas –na qual, paradoxalmente, são as perguntas que mais se multiplicam –Sportello se defronta com inúmeros outros personagens bastante indicativos não só do gênero noir com o qual o filme –e certamente o dificílimo livro de Thomas Pinchon, no qual se baseou –busca uma irmanação e também uma revisão, mas também da época à qual pertencem, anos 1970, suas inusitadas posturas intelectuais e ideologias, e do estilo sempre rocambolesco, denso, desconcertante e humano imposto por seu diretor. Para tanto –e para que tal trajetória tenha um mínimo de empuxo no que concerne à narrativa –Anderson transforma as breves aparições de Katherine Waterston em instantes tão belos e surreais, quanto sensuais, quase tem-se a impressão –e Anderson é bom nisso! –que a cena seguinte ao surgimento dela será o despertar de algum sonho do protagonista.
O elenco de rostos tão talentosos quanto conhecidos que Anderson reúne para ilustrar essa via crusis onde a necessidade de inteligibilidade e dedução se colide com a indiferença e a ausência de austeridade que caracterizou aqueles tempos é de fazer inveja à qualquer superprodução: Benicio Del Toro como um advogado cheio das manias; Reese Whiterspoon como uma procuradora sujeita à algumas ‘fraquezas da carne’; Owen Wilson como um homem desaparecido que aparece em todo lugar (!); Martin Short como um dentista amoral e pernicioso.
Tudo isso molda um filme muito estranho, primoroso na forma com que seu diretor registra o drama humano que transcorre na tela, mas absolutamente disperso, perdido e tortuoso na definição do quê, afinal de contas, esse drama humano está a relatar.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Magnólia

Em uma determinada cena deste filme, todos os personagens, nos mais diversos lugares, param o que estão fazendo para (veja só) cantar! Um momento inebriante.
Ponto para o diretor Paul Thomas Anderson que criou um filme repleto de cenas mágicas, inusitadas e inesperadas que, ao longo de suas três horas de duração tem como tema... a rotina.
“Magnólia” é uma ciranda de dramas humanos que se revezam perante o olhar do expectador, com suas qualidades intrigantes muitas vezes ressaltadas pela observação essencialmente cinematográfica de seu diretor. Todas elas transcorrem na cidade de Los Angeles, e todas têm como elemento intrínseco uma espécie de absurdo que parece perseguir os percalços dos personagens, seja em sua comédia ou em sua tragédia.
Como não poderia deixar de ser, seu elenco é espetacular. Há o grande Jason Robards, como um milionário em seus momentos finais –e durante os quais se dá conta das verdadeiras importâncias de sua vida –acompanhado e auxiliado por seu solícito enfermeiro (Phillip Seymour Hoffman). Ele se esforça para tentar realizar um desejo de seu paciente: Reencontrar o filho com quem não mais tem contato (personagem, no caso, de Tom Cruise, que surge aqui com uma interpretação fantástica). Paralelamente, a atual esposa do milionário (Julianne Moore), que devido à diferença de idade fica claro que casou-se por dinheiro, dá-se conta, só então, que ama de fato seu marido.
A medida que “Magnólia” avança outras tramas vão surgindo e se ramificando: John C. Reilly aparece como um policial solitário lidando com sua insegurança; William H. Macy interpreta um homem assolado por uma poderosa crise de identidade; e muitos outros mais.
Anderson usa cada um desses expedientes para a construção de cenas memoráveis, mas, perto do final, ele entrega uma sequência que desperta, até hoje, a dúvida de seus fãs: Afinal, o quê ele quis dizer com aquela surreal chuva de sapos?!
Uma metáfora da ausência de sentido de muitas das trajetórias humanas? Um comentário em tom de sarcasmo da banalidade que nos cerca? Um atrevimento autoral feito com o único propósito de surpreender? Um lampejo de realismo mágico a brotar em um filme pretensamente realista?

O diretor, evasivo, nunca chegou a dar uma resposta e, talvez, a beleza dessa cena (e de todo o filme) esteja em não sabê-lo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Sangue Negro

Os filmes de Paul Thomas Anderson jamais são fáceis. Corrosivos, densos, pesados até. Sua técnica em muito deve aos trabalhos magistrais de Stanley Kubrick: Lá está aquela sondagem irrestrita da condição humana, emoldurada por cenas de um perfeccionismo técnico que chegam às raias do desconcertante.
"Sangue Negro" é sobre a desumanização cuja ignição é, quase sempre, a cobiça. E se existia algo movimentado pela cobiça eram os primórdios da exploração e extração do petróleo, transcorridos no século XIX, em pleno solo americano.
É lá que um homem rude e determinado inicia sua ardua jornada como perfurador de terras nos Estados Unidos de então.
Anderson começa sua jornada com cerca de vinte minutos de silêncio, onde sequer os personagens expressam grunhidos em resposta ao que lhes acontece, tamanha é a brutalização que, desde já, seu diretor lhes inflige. Inicialmente sozinho na vastidão dos desertos americanos, o personagem de Daniel Day-Lewis (abusando de sua técnica primorosa de atuação) logo prospera e adquire uma equipe de trabalhores, um dos quais inclusive morre em acidente lhe deixando um bebê para cuidar. Os anos vão se passando registrando sua eventual contribuição para o crescimento e formação de toda uma nação enquanto simples homem de negócios, ao mesmo tempo que é mostrada a sua deterioração de caráter, ressaltada no seu relacionamento cada vez pior com o filho adotivo que fica surdo em um acidente,e sobretudo na relação de dependência social e inimizade profunda que nutre com um jovem pastor religioso.
O distanciamento formal que as cenas impõe é de tal forma preciso que nos sentimos esmagados ante a narrativa impiedosa da vida desse personagem, e como ela, ele também se tornará impiedoso, a ponto de praticar atos cada vez mais cruéis.
O plano final de câmera de Anderson (carregado cinismo e de ironia em igual medida) é uma constatação da metamorfose à que o protagonista foi submetido desde o momentos iniciais.