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sábado, 8 de agosto de 2026

Vivo Ou Morto - Um Mistério de Entre Facas e Segredos


 Neste “Vivo Ou Morto” já chegou-se num ponto em que o ator Daniel Craig interpreta o personagem Benôit Blanc como alguém que ele conhece e compreende integralmente (processo que ele certamente também experimentou vivenciando o agente 007), em que o roteiro e a direção de Rian Johnson já se acostumaram de tal forma a manipular o intrincados elementos do gênero policial investigativo, que sua condução é instintiva, sua descoberta das reviravoltas pontuais (e até inevitáveis) em seu plot é tão orgânica quando a capacidade de dissimulação plantada habilmente em seus personagens.

Terceira parte de uma trilogia iniciada com “Entre Facas e Segredos” e continuada com “Glass Onion” – e adquirida, do segundo exemplar em diante, pela Netflix – este “Vivo Ou Morto” traz toda a habilidade para tramas articuladas com infindável ardil por seus personagens que Johnson tão bem soube esbanjar em praticamente todas as produções que assinou, sendo superior à “Glass Onion”, porém, ainda inferior ao primeiro filme, o melhor de todos.

Antes do protagonista Benôit Blanc dar as caras, somos apresentados aos demais protagonistas desta trama – até porque, Blanc, diferente dos outros personagens, prescinde de apresentações, funcionando agora quase como um mestre de cerimônias – a começar pelo principal de todos, o padre Jud Duplenticy (o carismático Josh O’Connor, de “Dia D”), um ex-boxeador que largou os rings para dedicar-se à batina após matar um oponentes à socos. Por seu temperamento (e por saber muito bem como usar seus punhos quando provocado), Padre Jud é enviado à longínqua paróquia de Nossa Senhora da Perpétua Fortaleza, comandada pelo Monsenhor Wicks (Josh Brolin), cujos métodos de pregação, Jud vai perceber com o passar dos dias, vão muito além do meramente não ortodoxo: Wicks possui uma oratória agressiva, egocêntrica e prepotente e mantém cativo um grupo muito específico de fiéis que aliena com sua pregação raivosa. Qualquer outra pessoa da fora (e isso inclui o próprio Jud) é excluída quase que imediatamente.

Os fiéis em questão: A serviçal da igreja Martha Delacroix (Glenn Close) e seu marido, Samson Holt (Thomas Adden Church), ambos habituados a surgirem repentinamente nos momentos mais inoportunos; o médico Dr. Nat Sharp (Jeremy Renner), um poço de amargura desde o abandono da ex-esposa; o escritor fracassado Lee Ross (Andrew Scott, de “1917”); a jovem violoncelista Simone Vivane (Cailee Spaeny, de “Alien-Romulus”) presa a uma cadeira de rodas que aguarda, resignada, por um milagre; a advogada Vera Draven (Kerry Washington) obrigada pelo pai a criar um irmão adotivo com quem nunca se acertou; e o próprio irmão adotivo Cy Draven (Daryl McCormack, de “Boa Sorte, Leo Grande”), rapaz indiferente e esnobe, obcecado em fazer sucesso como influencer do youtube.

Todas pessoas ostentando neuroses que deveriam ser curadas pela fé, mas que o Monsenhor Wicks tão somente manipulou para continuarem suas fanáticas devotas. Cada um deles tinha um motivo para dar cabo do Monsenhor Wicks – principalmente após uma reunião à portas fechadas que culminou num rompimento completo entre Wicks e todos eles – e Padre Jud, mais do que todos eles, chegou a exprimir suas intenções numa confissão.

O problema é que, numa homilia matutina, o Monsenhor Wicks acaba realmente morto, esfaqueado nas costas, num recinto apertado sem espaço para uma segunda pessoa e sem quaisquer meios de ser invadido.

Como tal crime foi perpetrado? E quem está por trás dele?

A comunidade logo aponta o dedo para o novato Padre Jud que, em desespero, recorre aos conhecimentos prodigiosos de dedução e investigação do detetive Benôit Blanc chamado à cidadezinha pela xerife local, Geraldine Scott (Mila Kunis).

Tendo conferido as duas obras anteriores, é fácil para o expectador antecipar o que encontrará nesta produção aqui: Como em “Entre Facas e Segredos” e “Glass Onion”, Rian Johnson reúne, em torno de seu protagonista Blanc, um time vasto de personagens excêntricos e com motivações obscuras, interpretado por um elenco repleto de estrelas do cinema hollywoodiano. E como nos outros filmes, está aqui também o enredo muito decalcado dos clássicos intrincados de Agatha Christie, onde o crime só termina elucidado após diversas pistas se revelarem falsas e toda uma teia de segredos a interligar as mais diversas e inesperadas atitudes for revelada.

Contudo, o quê não é tão fácil assim antecipar é como Rian Johnson haverá de manejar todos esses ingredientes, sobretudo, quando e quais serão as reviravoltas surpreendentes que arremessarão os acontecimentos para rumos totalmente inesperados. Seu roteiro até mesmo brinca com essa possibilidade, sugerindo certas surpresas iminentes só para subverter algumas expectativas e seguir surpreendendo. O uso imodesto e ininterrupto de tal recurso pode soar um pouco mirabolante e improvável para o público, mas Rian Johnson o faz com tanta convicção e com tanto conhecimento de causa que o resultado mais diverte do que confunde.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Sobrevivente


 Não muito tempo depois dos cinemas terem recebido “A Longa Marcha”, adaptação da primeira obra escrita por Stephen King, as telonas ganharam então este “O Sobrevivente”, também ele adaptado de um livro de King –no qual ele também utilizou o pseudônimo Richard Bachman –contudo, “O Sobrevivente” já havia sido adaptado antes, em 1987, num filme de profusa mescla entre ficção científica e pancadaria estrelado por Arnold Schwarzenegger. Nesta nova versão, ele é substituído por Glenn Powell (mas, Schwarzenegger é lembrado com sua estampa nas notas de dinheiro comercializado naquele futuro distópico!), entretanto, quem de fato dá a tônica para este novo filme é seu diretor Edgar Wright.

Habituado a realizar filmes brilhantes em sucessão um após o outro, Wright é aquele raro tipo de autor que está num patamar elevado aos demais, um esteta capaz de forjar filmes tão comercialmente satisfatórios quanto primorosamente artísticos –essa seleta lista de diretores atualmente inclui, além dele, Denis Villeneuve, Alfonso Cuarón, Paul Thomas Anderson e... bem, já começa a ficar difícil lembrar mais alguém!

Para fugir da mera pecha de filme de ação que veio atrelada à produção de 1987 (ainda que as plateias daqueles tempos não se importassem nem um pouco com isso), Edgar Wright constrói em “O Sobrevivente” –ou “The Running Man” –um futuro assolado por versões turbinadas e anabolizadas de celeumas sociais e existenciais que nos assolam hoje, desenvolvendo dentro desse cenário uma narrativa de perseguição e suspense tão urgente quanto eletrizante.

No papel de Ben Richards, um operário do futuro com problemas até o pescoço, Glenn Powell imprime uma raiva reativa que define muito do personagem (e sedimenta muito do caminho que ele trilhará): Sua filhinha pequena está doente, e sem dinheiro para custear remédios e tratamento, ela pode não passar de alguns dias de vida!

Depois de ter negado seus pedidos para obter emprego –Ben não é bem visto pelos empregadores desde que denunciou a empresa por abuso trabalhista –ele precisa engolir o orgulho e ver a esposa Sheila (Jayme Lawson, de “Pecadores”) trabalhar numa boate/lanchonete para colher gorjetas o suficiente dos clientes pagantes. Indignado e desesperado com a situação, Ben segue para a tentacular emissora Gratui-TV, disposto à participar de alguns dos programas de auditório onde telespectadores participantes embolsam alguma grana. Porém, Ben, graças ao temperamento apropriadamente explosivo que demonstra na ocasião, acaba selecionado logo para o mais letal de todos: O reality show “The Running Man”.

Atingindo picos de audiência, e capaz de proporcionar aos seus concorrentes rios de dinheiro, o “The Running Man” tem como apresentador o afiado personagem de Colman Domingo (ator indicado ao Oscar pelo filme “Rustin”) e consiste de um jogo no qual três voluntários devem tentar fugir pelas ruas da cidade (e do estado, e do país, se for o caso) por um período de trinta dias. Durante esse tempo, eles serão caçados e perseguidos por grupos de elite especializados nessas operações (instruídos a fulmina-los sem dó nem piedade), e acompanhados de drones de câmeras high-tech ao vivo.

A fim de apimentar a circunstância, a rede de TV cria narrativas mentirosas onde os sobreviventes são renegados e inescrupulosos e os caçadores, galantes agentes a serviço da justiça –o que transforma, portanto, cada pessoa da rua que o reconhecer num inimigo em potencial capaz de denunciá-lo.

Quanto mais tempo o participante conseguir ficar vivo (e poucos foram os que conseguiram passar de poucos dias; e nenhum jamais totalizou um mês!), mais dinheiro ele ganha; e quanto mais atenção o participante chama para si e para sua perseguição, maior é a audiência do programa.

Ben Richards inicia assim sua jornada tentando passar despercebido, fugindo para lugares improváveis onde crê que não será encontrado. No entanto, tão logo se torna o único a sobreviver, ele percebe a facilidade com que os caçadores se valem do sistema para rapidamente rastreá-lo –e passa então a contar com algumas poucas alianças para tentar chegar aos almejados 30 dias e, quem sabe, sobreviver e voltar para sua família, entre esses inesperados aliados estão o blogueiro e ativista Bradley Throckmorton (Daniel Ezra); seu pequeno irmão; o pinel e revolucionário Elton Parrakis (Michael Cera); e a jovem Amelia Williams (Emilia Jones, do premiado “CODA-No Ritmo do Coração”), inicialmente tomada como refém por Ben, e em princípio, crédula nas narrativas vilanescas associadas a ele, mas, aos poucos, consciente da manipulação que a Gratui-TV e seu chefão maior, o produtor Dan Killian (Josh Brolin) fazem com o público.

Com um pouco menos de ação e um pouco mais de suspense do que o filme de 1987 (ainda que, quando a ação aparece ela se dá em cenas de uma sinergia assombrosa), “O Sobrevivente” pincela o fascinante, opressor e detalhado mundo em que a trama se passa com elementos poderosos de controle midiático (inclusive com as famosas alterações de filmagens feitas com IA), de desigualdade social em níveis extremos e alarmantes e da opressão exercida pelos poderosos de formas incisivas e ultrajantes –e, apesar de tudo, nem um pouco improváveis de serem perfeitamente reais!

“O Sobrevivente”, com Arnold Schwarzenegger, é hoje um cult-movie, por sua mescla saborosa de adrenalina e futurismo (numa época em que satirizar realitys era um arrojo!), o novo filme tem até potencial para virar cult também (até porque Edgar Wright, em sua resplandecente carreira já concebeu alguns), mas sua ênfase está menos voltada para a ação e a pancadaria, e mais para a pertinente denúncia às corporações e às suas corruptíveis influências no público expectador, presente já na aflitiva obra literária de Stephen King.

domingo, 24 de maio de 2026

A Hora do Mal


 Ao lado do anterior “Noites Brutais”, este “A Hora do Mal” inscreve o diretor Zach Cregger (produtor de outro filme de terror do ano de 2025, o bom “Acompanhante Perfeita”) entre os mais geniais estetas do terror na atualidade –o que ele nos entrega aqui é uma obra que compreende as dinâmicas de uma narrativa e as emprega para contar (e muito bem) uma história construída com zelo e maneirismo, brilhantemente inclusa naquela característica categoria onde os contos assim relatados têm a peculiar capacidade para nos envolver e nos amedrontar em igual  medida.

O subúrbio de Maybrook, na Pensilvânia, viveu (como relata a pueril narração em off do início) um caso singular na misteriosa noite em que 17 crianças despareceram sem deixar vestígios. Elas apenas levantaram de suas camas às 2:17 da madrugada (como atestaram as câmeras de segurança de algumas das casas) e simplesmente saíram correndo pela noite, com os braços abertos (numa possível alusão à Kim Phuc Phan, a menina vista pelo mundo todo em filmagens dos anos 1960, ao ser uma das vítimas atingidas por napalm durante a Guerra do Vietnam), para não mais serem vistas.

O caso alarma a comunidade e intriga as autoridades, e na esteira desse mistério, o diretor Zach Cregger fragmenta seu filme em seis personagens específicos que assumem certo protagonismo (cada um nomeando um dos capítulos que compõem o filme) e cujas trajetórias particulares acabam gradualmente elucidando um mistério que em princípio aparentava ser insolúvel.

A primeira é “Justine” (interpretada por Julia Garner, a Surfista Prateada de “Quarteto Fantástico-Primeiros Passos”), obviamente, a professora dos alunos que desapareceram –sim, as 17 crianças eram todos alunos de uma mesma sala de aula! e que, por conta da mórbida coincidência, torna-se a principal suspeita do desaparecimento aos olhos da comunidade e dos pais aflitos.

Logo depois vem “Archer” (Josh Brolin, também um dos produtores executivos), pai indignado de um dos meninos desaparecidos disposto a mover uma investigação por conta própria –e passar por cima de quem for preciso para descobrir a verdade.

O terceiro é “Paul” (Alden Ehrenreich), policial do distrito outrora romanticamente envolvido com a própria Justine, agora, entretanto, casado, às voltas com seus próprios problemas e confusões: Além de ex-alcóolatra é um policial relativamente destemperado o que acirra seus ânimos perante do Chefe de Polícia (seu sogro ainda por cima!).

O quarto é “Anthony” (Austin Abrams, da série “Euphoria”, quase irreconhecível) sem-teto e viciado local, cujo hábito ilícito de invadir propriedades atrás de pequenos furtos o fará ser o primeiro a descobrir o real paradeiro das crianças, e a tentar tomar alguma atitude de olho na gorda recompensa de 50.000 dólares oferecida pelos pais.

Em quinto lugar vem “Marcus” (Benedict Wong, de “Doutor Estranho”) o diretor homossexual da escola, o primeiro a deparar-se com a grande personagem do filme, a horrivelmente peculiar e perversamente exótica Tia Gladys (vivida primorosamente pela veterana Amy Madigan, ganhadora do Oscar 2026 de Melhor Atriz Coadjuvante), que traz consigo todas as respostas (e todos os spoilers) da trama.

O sexto e último protagonista (e, logo, aquele cujo enredo preenche todas as lacunas) é “Alex” (o pequeno Cary Christopher), o 18º aluno da classe de Justine, exatamente o único que, por motivos nebulosos, não desapareceu junto com os demais.

Concebendo uma narrativa plural amparada nesses múltiplos personagens (e manipulando a tensão e o suspense justamente a partir de tudo aquilo que o público não sabe), o diretor Zach Cregger dá a oportunidade de vermos as pontas soltas do enredo irem gradualmente se amarando, com requinte inconteste, e elabora uma das obras-primas do terror dos últimos anos, oferecendo ao expectador um trabalho seguro, sólido, objetivo e feito com rara primazia dentro do gênero.

domingo, 3 de março de 2024

DUNA - Segunda Parte


 Os grandes filmes, aqueles de qualidade mais inconteste são, normalmente, os mais difíceis de serem comentados. Como colocar em palavras todo o assombro proporcionado pela produção? Como honrar o mérito ímpar dos artistas envolvidos sem fazer parecer que aquilo é meramente um deslumbramento parcial? “Duna-Segunda Parte”, de Denis Villeneuve, vem confrontar críticos e expectadores com esse inusitado dilema.

Duna-Primeira Parte” foi um épico belo e avassalador e, embora tenha sido extremamente enaltecido pela crítica que atentou para as qualidades técnicas espetaculares da realização e para a bem-sucedida transposição para cinema de elementos antes tidos como intransponíveis do clássico literário de Frank Herbert, alguns chegaram a se queixar de sua narrativa dispersa, da natureza essencialmente introdutória dos arcos construídos ali e de uma esboçada complexidade que, em função de seu final em aberto, para alguns não levava à lugar nenhum. Pois, esta “Parte Dois” vem calar cada uma dessas reclamações ao compor junto com o primeiro longa-metragem uma experiência de ficção científica bela, impactante e intrincada como há muito as telas de cinema não recebiam.

Começando exatamente no ponto em que o filme anterior terminou, “Parte Dois” reencontra Paul (Timothée Chalamet) e Jessica Atreides (Rebecca Fergunson) quando acabaram de unir-se aos Fremen, os habitantes do desértico planeta Arrakis, após terem sido alvo de uma conspiração movida pelos obscuros e brutais inimigos da Casa Harkonnen, o que lhes tirou o controle outrora outorgado pelo Imperador Galáctico (Christopher Walken) de toda a manufatura de especiaria, o material mais precioso do universo, encontrado somente nas areias de Arrakis.

A traição contra os Atreides, não tardamos a descobrir, foi um golpe orquestrado nas sombras pelo próprio Imperador, disposto a por um fim à influência crescente e preocupante dos Atreides junto às poderosas casas de nobreza da galáxia. Entretanto, todos esses inimigos conspiradores têm a convicção de que agora, o problema dos Atreides foi neutralizado, crentes de que Paul e sua mãe foram mortos junto com seus aliados.

Na realidade, Paul se encontra sob a proteção do líder Fremen Stilgar (Javier Barden) que acredita fervorosamente que ele possa ser o Lisan Al Gaib, o messias das profecias de Arrakis plantadas séculos antes pelas feiticeiras Bene Gesserit que trará a liberdade ao povo Fremen e fará de Arrakis um paraíso verde. Embora disposto a integrar-se aos Fremen (tarefa que exige dele o audacioso feito de cavalgar um dos vermes na areia, os Shai-Hulud, naquela que é uma das grandes cenas do ano) e certamente interessado em aliar-se aos seus guerreiros para levar sua retaliação aos Harkonnen e ao Imperador no seu devido tempo, Paul  tem lá seus receios em aceitar em definitivo o papel messiânico no qual muitos já o enxergam, por outro lado, sua mãe, Jessica, convertida na Madre Superiora dos Fremen, tem grande interesse em alimentar esse culto e, com isso, segue rumo ao inóspito sul de Arrakis onde se escondem as tribos fundamentalistas que acatarão cegamente a concretização dessa profecia e constituirão um exército tão descomunal que prejudicará, em apoteóticas batalhas subsequentes, a exploração de especiaria a ponto de levar o Império e todas as grandes casas da galáxia à voltar suas atenções para Arrakis.

Ao mesmo tempo, a acompanhar essa progressão épica de eventos em larga escala –e mostrados com um brilhantismo e uma energia com a qual nenhum filme recente se equipara –temos também a trajetória íntima de Paul Atreides, um salvador relutante, temeroso em aceitar um papel de tamanha atribulação num contexto infinitamente maior que ele próprio. Esses arcos dramáticos, conduzidos com perícia inquestionável pelo diretor Villeneuve, ressaltam não apenas a precisão e a excelência na atuação de Timothée Chalamet, talvez a melhor de sua carreira, como também a magnífica construção dos personagens que o cercam; o ceticismo raivoso de Chani (Zendaya, ótima) contrabalanceado por seu vínculo sentimental cada vez mais forte com Paul; a truculenta figura paterna de Gurney (Josh Brolin); o antagonismo psicótico e imprevisível de Feyd-Rautha Harkonnen (Austin Butler, absolutamente sensacional); as maquinações sinistras e calculistas das Bene Gesserit (entre elas Charlotte Hampling, oriunda já do primeiro filme, e Lea Seydoux); e a atenciosa avaliação da Princesa Irulan (Florence Pugh), historiadora do Império, a acompanhar com sua narração em off todos esses eventos.

Para muito além das tentativas de se adaptar com pompa e circunstância o tomo cultuado de Frank Herbert –a presepada lamentável de David Lynch e Dino De Laurentis, em 1984; e a produção megalomaníaca, porém, jamais materializada em um filme real de Alejandro Jodorowsky –o que Denis Villeneuve entregou aqui foi uma obra sublime do mais puro cinema: Compondo agora as duas partes de um todo harmonioso, exuberante e impecável, a Primeira e Segunda Partes de “Duna” formam um épico de ficção científica inigualável destinado a encantar (com seu visual arrebatador e sua narrativa hipnótica) gerações e mais gerações de cinéfilos.

domingo, 24 de outubro de 2021

DUNA - Primeira Parte


 In Denis Villeneuve we trust

Já era lendária a afirmação de que “Duna”, a obra-prima literária de Frank Herbert, tratava-se de um trabalho impossível de ser adaptado. As tentativas anteriores de transpô-lo para a linguagem cinematográfica (o filme de 1984 de David Lynch, a minissérie do ano 2000, além do projeto jamais concretizado por Alejandro Jodorowsky) soavam mais como confirmações da inviabilidade do material em ser vertido para outra narrativa do que realizações bem-sucedidas de fato.

Todavia, o canadense Denis Villeneuve, que desde sua estréia só fez brilhar em aclamadas produções, tomou para si a responsabilidade de fazer o impossível, depois de sagrar-se com duas espetaculares obras de ficção científica –o magistralmente intimista “A Chegada”, e a continuação audaciosamente superior ao cultuado original “Blade Runner 2049”. Para esta nova e, espera-se, definitiva versão, Villeneuve tomou emprestadas ideias mercadologicamente surgidas a partir da adaptação de “O Senhor dos Anéis”, por Peter Jackson, em 2001: Dividiu o tomo gigantesco de Frank Herbert em dois longa-metragens de generosa duração –a realização da Segunda Parte depende, portanto, do bom desemprenho de público e crítica da Primeira Parte.

“Duna” se passa no ano de 10161. O espaço é um palco de interesses políticos regidos por casas que disputam o poder tal e qual o mais brutal dos sistemas feudais. E o centro da maioria das disputas vem a ser o planeta Arrakis, lugar desértico que gera o produto conhecido como ‘especiaria’ –um pó obtido entre as areias de seus intermináveis desertos, com o qual as viagens interestelares se tornam possíveis.

Por décadas, o domínio e a extração da ‘especiaria’, bem como os atritos selvagens contra os habitantes de Arrakis, o povo do deserto conhecido como os Fremen, ficaram à cargo da Casa Harkonnen, comandada pelo hediondo, grotesco e pernicioso Barão Vladimir Harkonnen (Stellan Skarsgaard) e seu sobrinho Glossu Raban (Dave Bautista, no personagem que foi de Paul L. Smith na versão de David Lynch).

Numa decisão delegada pelo Imperador Galáctico –esta obra, como pode-se notar, foi uma das inspirações de George Lucas para “Star Wars” –o comando de Arrakis passa da Casa Harkonnen para a Casa Atreides.

É aí que entram em cena os protagonistas da trama: O Duque Leto Atreides (Oscar Isaacs), sua esposa Jessica (a maravilhosa Rebecca Fergunson) e, sobretudo, seu filho, Paul (Timothée Chamalet). Sendo Jessica uma integrante das Bene Gesserit, uma casta de feiticeiras imbuídas do dom da premonição, ela e seus pares acreditam que Paul, por sua procedência e por outros indícios que se sucedem (como sonhos nos quais ele vislumbra um futuro bem provável e perigoso), possa ser um messias, esperado há tempos para mudar irreversivelmente a escala de poder.

Dentro do que se propôs, o diretor Villeneuve, só pra variar, realizou um trabalho simplesmente brilhante: Não apenas seu “Duna” ostenta qualidades cinematográficas inquestionáveis em sua grandiosidade (é recomendado que seja visto na maior tela possível tamanho é o deslumbre de seu escopo épico), como também é primorosamente minimalista em seus pequenos detalhes (como os olhos azuis dos Fremen, adquiridos através da exposição à ‘especiaria’) e hiperlativo nas influências que adota: “Duna” é, pois, tão sólido e imponente quanto “Lawrence da Arábia”, tão contundente e estilizado quanto “Kagemusha”, tão antológico e singular quanto “2001-Uma Odisséia No Espaço”.

Esta Primeira Parte fala sobre os fardos da predestinação, sobre os revezes imprevisíveis da ganância e as armadilhas cruéis do idealismo: Uma vez em Arrakis, O Duque Leto Atreides almeja o que seus antecessores jamais cogitaram; uma trégua de convívio e co-existência pacífica com os Fremen. E será justamente por suas nobres intenções que engrenagens insidiosas irão mover uma conspiração capitaneada pelos Harkonnen, algo que proporciona, já na segunda metade deste filme, cenas estupendas de batalha, filmadas por Villeneuve com uma sinergia e um senso de realismo que há algum tempo não surgia em uma obra de fantasia nas telas de cinema. Quem conhece remotamente a trama, seja pelo filme incoerente e corrido de David Lynch, seja pelo conhecimento do enredo do livro de Herbert, perceberá que Villeneuve encerra a narrativa quando a história se encontra na sua metade –ele aproveita esse tempo de tela para fazer tudo o que o filme de Lynch não conseguiu fazê-lo, seja estabelecer a profundidade das inúmeras motivações, seja para compor cenas inteiras do livro com o ritmo e atmosfera corretos assim definidos por Herbert. O resultado não somente é de um assombro que raras produções foram capazes de atingir nos últimos anos, como leva o público a um final em aberto tão instigante, empolgante e magnífico quanto foi o de “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel” e “O Império Contra-Ataca”.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Refém da Paixão

Uma história simples engrandecida pelo talento dos envolvidos. Esta certamente é uma forma honesta de se resumir em linhas gerais o filme de Jason Reitman.
“Refém da Paixão” é sobre uma situação modificada pelas impressões: Narrado em off pelo ator Tobey Maguire, acompanhamos a rotina um tanto melancólica do menino Henry (Gattlin Griffith) em plenos anos 1980. Separada de seu pai (com quem Henry se encontra nos fins de semana), sua mãe, Adele (Kate Winslet, maravilhosa) se encontra num manancial de amargura. Henry até tenta, em sua ingenuidade e boa vontade, preencher o que supõe ser um vazio na vida da mãe, mas a lacuna incomodamente vaga de uma figura masculina requer que anseios mais específicos sejam atendidos.
É dessa forma que, numa ida casual à um mercado, Henry e Adele são interpelados pelo fugitivo Frank Chambers (Josh Brolin sempre excelente). Ferido, Chambers coage mãe e filho para que o levem de carro para sua casa.
Tem-se a impressão que lá ele irá mantê-los como reféns... mas, não! Desconcertando as expectativas pessimistas de Adele, Frank se revela atencioso, educado e até prestativo: Ao longo dos dias em que se esconde naquela residência livre de suspeitas, ele conserta avarias da casa, eventualmente surgidas pela ausência de um marido; demonstra desenvoltura na cozinha (chegando a preparar uma emblemática e apetitosa torta de pêssego!); e mostra-se uma pontual e eficaz figura paterna para Henry.
Tantos predicados começam a abalar o coração carente de Adele e assim, a circunstância que era para ser um seqüestro se torna o improvável esboço de uma família: O injustiçado foragido de bom coração acaba sendo a peça que faltava para que Adele e Henry voltassem a experimentar uma sensação de viver em família outra vez.
Em meio à essa disfuncional convivência, o diretor Reitman lança mão de ocasionais lampejos de suspense a quebrar a tranqüilidade –porque, a despeito da tensão, ele parece achar isso muito divertido, e porque em sua destreza narrativa ele não quer que o expectador perca a perspectiva da situação como ela é.
Em meio à essa distorção da ‘Síndrome de Estocolmo’, o diretor insere, aqui e ali, flashbacks em princípio pouco ou nada elucidativos (imprecisos até mesmo na incerteza de serem flashbacks!), mas que, ao se somarem gradativamente vão esclarecendo melhor as razões que conduziram Frank à condenação por assassinato e Adele ao profundo desamparo.
Assim, o filme, em algum momento, parece mudar de foco e de rumo, estabilizando sua narrativa com novos propósitos; deixada em evidência a boa índole de Frank, a fonte de suspense agora vem a ser os planos dele, de Adele e de Henry, em constante ameaça por elementos vindos de fora, como o vizinho (J.K. Simmons) que despreocupadamente bate à porta sem saber a comoção de dúvida e perplexidade que despertou dentro da casa, ou o jovem policial (James Van Der Beek) que, ao impor sua disponibilidade à mãe e ao filho aparentemente sozinhos em casa, deixa todos com os nervos à flor da pele.
E deveras, se Jason Reitman, em outras obras, havia mostrado brilho inconteste na concepção de ironia (“Obrigado Por Fumar”), no manejo do humor (“Juno”) ou na arquitetura do drama (“Amor Sem Escalas”), aqui, com a ajuda de intérpretes primorosos, ele demonstra competência em frentes diversas –seja na construção improvável do romance, seja na prodigiosa elaboração de uma atmosfera de suspense –tudo isso trabalhando as inúmeras nuances de uma situação que poderia resultar até mesmo teatral nas mãos de um diretor menos perspicaz.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Vingadores - Ultimato

Numa das cenas que abrem esta continuação praticamente direta de “Vingadores-Guerra Infinita”, vemos Tony Stark gravar um melancólico monólogo diante do capacete da armadura com a qual ele foi o Homem de Ferro –cena esta vista e revista em diversos trailers.
A referência à Hamlet, de Shakespeare, é clara, bem como também é clara a similaridade entre a ambientação soturna da nave –Stark está à deriva no espaço –com a caverna onde ele construiu sua primeira armadura, dando o primeiro passo para o surgimento do que é hoje conhecido como o Universo Marvel dos cinemas.
A cena mostra assim os dois elementos primordiais que os diretores Anthony e Joe Russo tratarão de manter impecáveis ao longo das avassaladoras três horas de duração de “Vingadores-Ultimato”: A referência do mais altíssimo nível a que se pode chegar –em termos técnicos, dramáticos e artísticos, inclusive –e uma compreensão insolúvel de que o passado embutido em toda a cronologia cinematográfica da Marvel Studios deve não só ser recordado, mas também, levado em consideração, apreciado e, no fim, louvado.
Ao dar continuidade aos eventos arrebatadores de “Guerra Infinita”, “Ultimato” imbrica por um caminho que a Marvel e nenhum outro estúdio encontrou meios até então de trilhar: O de um legado composto ao longo de 11 anos de produções cinematográficas, em meio aos quais ele corajosamente percebe a importância de encontrar um fim.
Sim, porque, preservadas as surpresas que a obra reserva –e, meu Deus, elas são muitas! –“Ultimato” é, antes de mais nada, um encerramento. Um desfecho de uma história que num único empuxo narrativo se iniciou com o astro Robert Downey Jr. e seu encaixe absurdo com o personagem de Tony Stark/Homem de Ferro no primeiro filme do estúdio, e prosseguiu num expansão sem precedentes dessa mitologia nos filmes “Thor”, “Capitão América-O Primeiro Vingador” e, na junção audaciosa e vibrante dessas linhas narrativas em “Vingadores”; que, em sua cena pós-crédito, introduzia pela primeira vez o grande vilão Thanos, interpretado aqui com eficiência incontestável e empatia amedrontadora pelo ótimo Josh Brolin.
Foi em torno da promessa da vinda de Thanos que a Marvel Studios construiu assim o fio condutor a unir todos os trabalhos que se seguiram –e que oscilavam entre excelente entretenimento e diversão descompromissada –em meios aos quais não tardaram a destacar-se as obras assinadas pelos Irmãos Russo.
Pelas mãos deles, o Capitão América logo assumiu uma posição existencialmente central nesse Universo Marvel, no magnífico “Soldado Invernal” e depois no brilhante “Guerra Civil”.
A demonstração de habilidade incomum dos Russo prosseguiu com o espetacular “Guerra Infinita” e, por fim, a revelação de Thanos como o mais complexo vilão já concebido pelo estúdio. O que nos leva a este “Ultimato”.
Incapazes de lidar com o fato de que o vilão os derrotou e sobrepujou –agonia que os fãs também experimentaram durante o ano inteiro que separam estes dois filmes –os Vingadores remanescentes (e que correspondem, por sua vez, à formação original vista no primeiro filme) unem-se num plano derradeiro para tentar um contra-ataque; estimulados pela aquisição da poderosa Capitã Marvel (Brie Larson).
Este é o ponto de partida do filme e corresponde a tudo que dele se pode falar sem entrar no terreno pantanoso e arriscado das surpresas, pois sua trama é repleta de reviravoltas inesperadas, e ramificações que se mostram mais complexas do que poderia se supor num filme de orientação tão comercial, conduzindo o expectador a uma meia hora final que está entre os mais assombrosos e embasbacantes momentos do cinema comercial de todos os tempos.
O que importa, porém, é que por trás da expectativa absurda que a Marvel conseguiu gerar no público –e do filme emocionante e arrebatador que criou para correspondê-lo –“Ultimato” é, no fundo no fundo, uma declaração de amor.
Ao legado extraído de décadas de quadrinhos e transposto com apaixonada propriedade para a tela de cinema. Aos fãs, que converteram as produções da Marvel em sucessos simultâneos de bilheteria (e que certamente transformarão este num novo fenômeno). Aos personagens e seus intérpretes que se revelaram, em sua esmagadora maioria, de um acerto fenomenal –e aqui, apesar de todas as presenças esplêndidas que se seguem (com destaque para Chris Evans e Jeremy Renner) não dá para não chamar Robert Downey Jr. à frente.
Ele é o princípio de tudo. O marco zero. E é nele, mais uma vez, que se ampara a escolha para encerrar esta jornada de 22 filmes. Ele foi (e sempre será) Tony Stark, o personagem que acendeu o estopim para um legado sem precedentes no cinema comercial, e ele é aqui aquele que, num dos momentos mais superlativos e emocionantes, executa enfim sua manobra final.
“Ultimato” é cinema como aquilo que ele deveria ser: Emocional, visceral, divertido (mágico, até!), arrebatador e espantoso em níveis que a indústria (e a própria Marvel Studios) encontrarão dificuldades de igualar nestes anos por vir.
Tê-lo nas salas de cinema é um privilégio.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Sicario - O Dia do Soldado


O diretor Stefano Sollima segue uma estrutura parecida com a do grande filme de Dennis Villeneuve do qual é continuação, embora, no final das contas, este acabe sendo um filme bastante diferente.
Agora sem a personagem de Emily Blunt –uma espécie de bússola moral no filme –o roteiro também de Taylor Sheridan se concentra nos personagens um tanto ambíguos de Josh Brolin e Benicio Del Toro, permitindo ao filme um mergulho sem ressalvas nos meandros mais sórdidos da politicagem que norteia as decisões a pairar nas operações militares da fronteira EUA/México. Este certamente era um dos propósitos do filme anterior e, se era também aqui, ele se dilui um pouco na intenção de moldar, antes de tudo, um grande filme de ação.
O agente federal Matt Graver (Josh Brolin) tem como missão incumbida diretamente pelo novo ministro de defesa norte-americano (Matthew Modine) deter os ataques terrorista –com o emprego de homens-bomba e tudo –que veem se deflagrando na fronteira, a exemplo das ocorrências mais relacionadas ao Oriente Médio.
A solução de Graver espelha em muito a política usada pelos EUA lá: Incitar uma guerra entre os cartéis para que não haja hegemonia e nem união. Graver conta então com seu homem de confiança, Alejandro (Benicio Del Toro) que, desde que obteve parte de sua vingança no filme anterior tornou-se uma espécie de agente infiltrado, para sequestrar a filha do líder traficante Carlos Eyes, a jovem Isabela (Isabela Moner), e plantar indícios de que fora o cartel rival.
Entretanto, contratempos acontecem: Eles encenam o resgate dela de um cativeiro e quando tentam negociar sua devolução acabam atacados por policiais mexicanos corruptos, o quê acrescenta caos e imprevisibilidade ao plano.
Isabela se perde no deserto, enquanto Alejandro assume a tarefa de encontra-lo e tentar devolvê-la ao lar (ou ao lugar onde estiver mais segura). Nesse interim, a representante do governo dentro da malfadada missão (Catherine Keener) exige uma queima de arquivo, desejosa de apagar a relação do governo com uma missão tão controversa que encerrou-se catastroficamente –e isso significa colocar Graver diante do dilema de neutralizar Alejandro em definitivo.
Paralelamente a esses percalços cada vez mais aflitivos, a narrativa acompanha a vagarosa inclusão de um jovem latino de classe baixa no mundo do tráfico; caminho este que será cruzado com o de Alejandro e Isabela nos palpitantes quarenta minutos finais de filme.
Em meio à crítica nada disfarçada da postura prepotente do governo dos EUA em relação aos imigrantes, o filme realiza uma bela execução técnica de suas sequências de ação e suspense construindo, neste segundo filme, uma estrutura narrativa que demanda um terceiro episódio, sinalizado de maneira explícita em seu final aberto e algo inconcluso.
A despeito de suas imperfeições é uma produção que se eleva muito acima da média do gênero.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O Homem Sem Sombra


Kevin Bacon não tinha noção de encrenca em que se meteu ao aceitar protagonizar este projeto que atualizava os conceitos de “O Homem Invisível” de H.G. Wells.
Em princípio, era de se imaginar que a equipe de efeitos especiais se encarregaria de tudo, entretanto, o que o diretor Paul Verhoeven tinha em mente era uma aplicação inédita e arrojada de efeitos visuais que tornassem invisíveis um ser humano em cena.
Para tanto, a presença física e o tempo todo palpável de Kevin Bacon, embora sempre em cena é apagada através de truques digitais inéditos (que só não levaram o Oscar de Efeitos Visuais na cerimônia de 2001 porque a Academia tinha em mais alta conta a reconstituição visual do Coliseu realizada em “Gladiador”): Para que isso fosse possível o ator precisou submeter-se a uma das mais dolorosas experiências de sua carreira, onde teve o corpo nu (pois era assim que ele precisava estar em cena) todo pintado de azul ou verde (cores que poderiam ser apagadas no kroma-key) inclusive seus orgãos genitais e seus olhos que eram cobertos por imensas lentes de contato.
Como resultado desse esforço, o filme de Verhoeven revela-se sensacional.
Arrogante e presunçoso, o cientista Sebastian Caine (Kevin Bacon, que ainda por cima entrega uma atuação formidável) lidera uma equipe de técnicos empenhados em buscar o segredo da invisibilidade: Numa das primeiras cenas vemos a surpreendente experiência ser submetida num gorila.
Uma série de incertezas científicas emperra o projeto, mas Sebastian está convicto de que um teste em seres humanos deve ser feito. Desejoso do reconhecimento, o egocêntrico Sebastian decide ser, ele próprio, cobaia da própria experiência e sujeita-se a ser o primeiro ser humano tornado virtualmente invisível –e a sequência em que a invisibilidade se torna possível, onde testemunhamos o corpo do protagonista desaparecer, camada após camada, é digna de palmas!
Contudo, efeitos colaterais inesperados acontecem (e se intensificam quando o procedimento se revela irreversível): A solidão completamente de sua condição, bem como as inúmeras posssibilidades morais e imorais à sua disposição levam Sebastian a abandonar seus escrúpulos –o que não se vê, afinal, não convém à punição –e ele gradativamente se torna mais perigoso, traiçoeiro e implacável.
E certamente isso se mostra particular arriscado para sua ex-namorada Linda McKay (Elisabeth Shue), membro de sua própria equipe, que agora namora às escondidas, o pesquisador e amigo de Sebastian, Dr. Matthew Kensington (Josh Brolin).
A despeito dos efeitos especiais inquestionavelmente espetaculares e da fantástica presença de Kevin Bacon, “O Homem Sem Sombra”, ainda assim, se torna o filme memorável que é graças ao tom de imprevisibilidade conferido pela narrativa de Paul Verhoeven que corajosamente agrega à premissa deste filme comercial elementos como violência, nudez e sexo (comuns à sua filmografia, mas certamente transgressivos em uma obra hollywoodiana como esta). E olha que os produtores ainda pressionaram para que fosse deletada uma infame cena de estupro que faria parte essencial do roteiro.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Deadpool 2

Por mais interessante, inovador e divertido que fosse “Deadpool” ele ainda se prestava a melhoramentos, já que os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick contentaram-se com um filme de origem, assumiram uma produção de baixo-orçamento (junto da qual vinha mais liberdade autoral e a possibilidade de uma censura alta) e abraçaram um caráter, digamos, ‘vira-lata’ para o filme.
Com a saída do diretor Tim Miller, devido à diferenças criativas com o astro Ryan Reynolds, e a entrada do ótimo David Leitch (co-diretor de “John Wick” e diretor de “Atômica”), “Deadpool 2” evolui assim para uma produção classe A, com um orçamento generoso condizente com a bilheteria e a repercussão positiva que o trabalho anterior obteve.
Com o seu status-quo de anti-herói estabelecido desde o final do primeiro filme, e ao lado do amor de sua vida, Vanessa (a brasileira Morena Baccarin), Wade Wilson, o assim chamado Deadpool (interpretado por Ryan Reynolds com uma compreensão singular do personagem) dá início à uma varredura inconsequente da bandidagem –e as cenas que se seguem, além de unir a galhofa deliciosa e politicamente incorreta que fez o sucesso do outro filme, traz também a excelência técnica no registro da ação que o diretor Leitch ostentou em suas obras anteriores.
Ainda que bastante previsível, o roteiro tece uma tragédia que dá um novo rumo à trajetória de Deadpool enquanto anti-herói a caminho de ser herói.
Ele vai parar na Mansão X, onde o mutante Colossus, desde o filme anterior, tenta convencê-lo a juntar-se aos X-Men.
Pouco a pouco, a trama de Deadpool –que só não resvala no tédio graças à presença extraordinária de Reynolds e ao bem calibrado humor sarcástico –vai colidir com outra trama: A de Cable (Josh Brolin, arrasando num personagem que foi disputado a tapa por muitos atores em Hollywood).
Vindo do futuro (no melhor estilo “Exterminador do Futuro” cuja menção, inclusive, é feita), Cable irá valer-se de seus poderes high-tech e seu braço biônico para mudar a história na qual um vilão homicida extermina sua família. No presente, tal vilão não passa de uma criança, o carismático orfão Russel (Julian Dennison) que sofre maus-tratos na impiedosa instituição em que foi jogado.
Para Cable, neutralizar aquele que um dia será o destruidor de sua família é uma missão para a qual ele se faz implacável.
Para Deadpool, espiritualmente mais inclinado à redenção do que outrora, o garoto merece a chance de tornar-se alguém melhor, entretanto, diante do colosso que representa Cable, ele conclui que não pode fazê-lo sozinho –neste ponto, Colossus e os X-Men se injuriaram novamente com suas atitudes e o deixaram –e, portanto, resolve montar um grupo, o X-Force!
A seleção e apresentação dos membros de tal grupo é praticamente um show cômico à parte, mas, o que realmente importa é uma única personagem: A sensacional Dominó, vivida pela fulgurante Zazie Beetz, cujos superpoderes –sorte em um nível absurdo –são empregados numa sucessão espetacular de cenas tão engraçadas quanto bem orquestradas.
Repleto de trocadilhos e farpas rápidas, além de referências ainda mais infindáveis do que no primeiro filme –detalhes que tornam prazerosas inclusive as inúmeras revisões –“Deadpool 2” tem o mérito de acrescentar à receita renovadora de humor auto-consciente a percepção singular do diretor Leitch para com as cenas de pancadaria e perseguição –dificil dizer qual das tantas é a mais primorosa!

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Vingadores - Guerra Infinita

A Marvel Studios tinha um plano. Ele começou, mais ou menos em 2012, quando o vilão Thanos fez sua primeira e breve aparição na cena pós-créditos de "Vingadores".
Imaginou-se, na época, que aquele seria o gancho para uma continuação (que veio três anos depois, “A Era de Ultron”), mas o plano da Marvel Studios –e de seu competente presidente, Kevin Feigi –revelou-se muito mais complexo e ambicioso: Com o tempo e os inúmeros filmes que vieram depois (que variavam entre o divertido e o excelente), a Marvel construiu todo um universo de personagens e narrativas compartilhadas no cinema, repetindo uma linguagem que predominava nos quadrinhos originais, cujas direções apontavam para um único desenlace; a chegada de Thanos e sua conseqüente reunião das seis jóias do infinito.
Quem leu os quadrinhos sabe do quê se trata. As Jóias do Infinito são poderosas gemas de poder cósmico que reunidas proporcionam a onipotência. São elas, a jóia do espaço (o Tesseract visto em “Capitão América-O Primeiro Vingador” e em “Vingadores), da realidade (o Aether, mostrado em “Thor-O Mundo Sombrio”), do poder (o Orbe revelado no primeiro “Guardiões da Galáxia”), da mente (a jóia que terminou constituindo parte do andróide Visão em “A Era de Ultron”), do tempo (o Olho de Agamoto, em “Doutor Estranho”) e da alma (jamais revelada até então, mas que ocupa uma parte essencial da trama neste filme).
Não é a toa, também que por meio deste filme, então, a Marvel Studios sinalize um desfecho para muitas das premissas que ela mesma iniciou nesses últimos dez anos.
Claro que ninguém é ingênuo de achar que eles deixarão de investir em seus filmes e em seus heróis, mas o trabalho dos Irmãos Russo (diretores primorosos de “Capitão América-Soldado Invernal” e “Capitão América-Guerra Civil”) é tão contundente e corajoso que o filme consegue passar uma amarga impressão oposta –independente do rumo que seja tomado em outros filmes vindouros (e, sim, eles virão) a sensação que “Guerra Infinita” nos passa é, de fato, a de um encerramento.
A medida que Thanos (numa trabalho brilhante de Josh Brolin em captura de performance) vai tentando reunir as seis jóias, a história se reveza em três eletrizantes linhas narrativas: Na primeira (e que já havia sido devidamente esboçada no final de “Thor-Ragnarok”) acompanhamos o Deus do Trovão que, destituído de seu martelo, sua nave e seu povo, encontra os Guardiões da Galáxia –ao lado dos quais tentará obter um novo martelo para ter uma chance de se equiparar a Thanos na batalha final. Na segunda linha, vemos Tony Stark, o Homem de Ferro, unir-se ao mago Doutor Estranho e ao jovem Homem-Aranha para ainda no espaço sideral tentar deter a ameaça de Thanos. Na terceira linha, somos testemunhas dos esforços do Capitão América e seu grupo, Viúva Negra. Falcão, Feiticeira Escarlate e Visão, aliados ao Pantera Negra para tentar impedir uma invasão alienígena à Terra, na preparação para uma das mais espetaculares e gigantescas batalhas que o cinema já viu.
Três linhas narrativas. E nas três, a Marvel cuidou para que os protagonistas de cada um dos núcleos fossem os membros de sua Trindade Principal: Homem de Ferro, Capitão América e Thor que, vividos respectivamente por Robert Downey Jr., Chris Evans e Chris Hemsworth, são assim as mais perfeitas traduções cinematográficas desses personagens.
É a Thanos, contudo, que “Guerra Infinita” de fato pertence.
Indo de encontro a uma das críticas mais contumazes de seus filmes (de que seus vilões são genéricos), a Marvel Studios faz de Thanos o grande protagonista de seu filme –e isso significa que suas motivações são esboçadas com um brilho e um zelo que ultrapassa o registro dos quadrinhos.
Significa outra coisa também: Não há nenhum personagem mais implacável que Thanos, e em seu propósito não entram as predileções do público –um dos assuntos mais discutidos pelos expectadores antes da estréia era quem morre ou não em “Guerra Infinita”, e dá pra dizer (sem entregar surpresas) que os Irmãos Russos foram inclementes: personagens absolutamente queridos e inesperados (e num número muito maior do que se pode supor) ganham um fim trágico em inúmeros momentos deste filme, o quê torna seu encerramento –o primeiro da Marvel a ter um aspecto de ‘final’ de fato –um tanto amargo.
Uma junção habilidosa e singular entre o escopo narrativo de “OSenhor dos Anéis-O Retorno do Rei” e o impacto emocional de “StarWars-O Império Contra-Ataca”.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Sin City - A Dama Fatal

Durante muito tempo o público se perguntou quando o diretor Robert Rodrigues iria enfim revisitar o mundo noir criado por Frank Miller nos quadrinhos e vertido por ele num belíssimo filme, visual e narrativamente falando, que pegou muita gente desprevenida em um já longínquo 2005.
A resposta, um bocado tardia, veio em 2014 com o lançamento de “Sin City-A Dama Fatal”. Mais do que perder o timing de uma continuação que todos aguardavam, o filme pareceu ter perdido o brilho que a primeira produção ostentava com tanto fulgor. Uma das razões era possivelmente o fato de Rodrigues deixar que Frank Miller produzisse material original para o novo filme. Se na obra anterior, Rodrigues foi cirúrgico na seleção de contos dispersos nos quadrinhos que representavam o melhor de toda a criação de Miller, neste ele contentou-se com uma das grandes histórias do selo “Sin City” –no caso, “A Dama Fatal” que dá nome ao filme –(e mesmo assim realizada com pouco empenho) e dois outros contos menores, nitidamente concebidos por um Frank Miller já distante de seu auge criativo.
Na primeira história, o ex-detetive Dwight (vivido por Clive Owen no filme anterior e por Josh Brolin, neste daqui) se vê enredado numa trama de traição e morte elaborada por uma autêntica femme fatalle: A irresistível e sensual Ava (a francesa Eva Green, ocasionalmente nua num papel durante muito tempo relacionado à Angelina Jolie) que, ao seduzi-lo, o conduzirá ao assassinato de seu marido, colocando-o da mira da polícia.
O problema do filme de Rodrigues já começa quando percebemos que nem mesmo a história principal consegue funcionar a contento como nas HQs: As frases feitas, costumeiras nos roteiros de Miller, se sucedem com exagero e desleixo e as cenas transcorrem repetitivas e sem inspiração.
Já não há muito ânimo, portanto, quando chegamos na segunda história, e passamos a acompanhar as desventuras de um jovem golpista (Joseph Gordon-Levitt, que até se esforça, mas não tem um personagem bom o suficiente) tentando acertar as contas com seu verdadeiro pai, o corrupto e amoral senador Roark (Powers Booth, oriundo do filme original).
O pior de tudo, porém, é quando finalmente chegamos na terceira trama e o novo filme de Rodrigues e Miller vai além do simples pecado de ser um filme ruim e consegue realizar algo imperdoável: Manchar o ótimo filme original!
O mesmo senador Roark, na última parte, é alvo da vingança da bela stripper Nancy (Jessica Alba, bela e fraquinha como sempre), que não consegue se esquecer dos desdobramentos ocorridos no ótimo episódio do filme anterior no qual ela era uma das protagonistas, e que graças a Roark, levaram a morte do homem que ela amava, o ex-policial Harttigan (Bruce Willis, reaparecendo aqui numa patética versão “Gasparzinho-O Fantasminha Camarada” de seu personagem).
Nada em “Sin City-A Dama Fatal” remete ao ímpeto inventivo que definia “Sin City-A Cidade do Pecado”, nem mesmo o irrelevante reaproveitamento do personagem Marv (vivido por Mickey Rourke) que aqui se oferece como ajudante, de forma banal, para os protagonistas de cada um dos episódios, ou as substituições por outros intérpretes de personagens que funcionaram muito bem antes e aqui soam tediosos e desinteressantes –além de Brolin substituindo Owen, no papel do capanga Mamute, antes do saudoso e fantástico Michael Clarke Duncan, entrou o pouco carismático Dennis Haysbert (das primeiras temporadas da série “24 Horas”), e tomando o lugar de Devon Aoki como a hábil assassina Miho, ficou a mais bela, porém menos adequada Jamie Chung (de “Sucker Punch-Mundo Surreal”).
O visual acachapante em preto & branco e as intenções do primeiro filme continuavam lá, mas faltou brilhantismo narrativo para equiparar sua audaz qualidade cinematográfica.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Old Boy - Dias de Vingança

Era inevitável que, em algum momento, o cinema comercial norte-americano olhasse em direção à indústria de cinema da Coréia do Sul em busca de material para ser refilmado. Eis que o escolhido terminou sendo um dos clássicos modernos de Chan Wook Park, o primoroso "Old Boy", ainda que os realizadores americanos tenham deixado de lado o fato de que o filme era o capítulo do meio da sua celebrada "Trilogia da Vingança".
Incumbido de tal audácia, o diretor Spike Lee realizou um filme peculiar se analisarmos suas características como contador de histórias: Veterano diretor de obras no geral independentes como “Faça A Coisa Certa”, “Malcolm X” e “Febre da Selva”, Lee, junto de seus engajados discursos raciais promove normalmente um contexto firmemente definido em seus filmes, sejam eles baseados em histórias reais ou não. Percebe-se com exatidão e insistência em que lugar e em qual época se dão as premissas que Lee narra.
Com “Old Boy”, ele fez diferente.
Não há uma definição muito clara no roteiro escrito por Mark Protosevich (de “Doutor Estranho” e “Eu Sou A Lenda”) a respeito da cidade onde os acontecimentos se passam: Poderia ser qualquer lugar, em qualquer canto do mundo. É curiosa (e rara, em sua carreira) a forma com que Lee aborda o material –como uma fábula!
Os esforços de sua direção, assim como do astro Josh Brolin são visíveis, entretanto, o terreno que eles adentram continua sendo pantanoso: "Old Boy" não era apenas uma grande história narrada com correção; o diretor Chan Wook Park lapidou seu filme até chegar à perfeição em termos de ritmo e atmosfera.
Daí, ser uma tarefa impossível tentar igualar a excelência com que é contada a história de Joe Doucet (Josh Brolin, fazendo o possível), um larápio e mau-caráter que é misteriosamente capturado em meados de 1989, e preso em um quarto de hotel, dentro do qual ficará nas próximas duas décadas.
Talvez, ciente do patamar inalcançável estabelecido pelo filme original, o diretor Spike Lee tenha abordado o enredo de outra forma. O quê explica melhor algumas mudanças.
Após quase vinte anos, Joe Doucet é libertado do quarto onde ficou sob a vigilância de Chaney (Samuel L. Jackson, num personagem quase imperceptível no filme original). E será a partir do próprio Chaney que ele iniciará sua árdua investigação para tentar descobrir as razões do homem que o prendeu, contando com a ajuda de uma jovem e bela enfermeira (a linda Elizabeth Olsen, protagonista de "Martha Marcy May Marlene" e a Feiticeira Escarlate de "Capitão América-Guerra Civil", que brinda o filme com uma belíssima cena de nudez).
Como no filme original sul-coreano, a grande questão será justamente as razões pelas quais se deu o seu confinamento, e com qual propósito seu nêmesis (Sharlto Copley, num personagem completamente bizarro) fez isso.
E cadê a temática normalmente inflamada de cunho social e racial que Spike Lee pontua seus filmes? Cadê o seu estilo ácido e pessoal? Aonde está, afinal, a razão de ser deste projeto e (mais do que isso) a razão de haver um diretor como Spike Lee (e não qualquer outro) em seu comando?
Na maneira destituída de alicerces de realidade com que Lee concebe seu filme, “Old Boy” é uma analogia e ao mesmo tempo uma parábola. Fala, sobretudo, das paranóias presumivelmente vazias que o homem branco alimenta sem necessidade: Para Spike Lee, os brancos não têm qualquer razão do que reclamar (e este filme trás o que provavelmente é o elenco mais numerosamente caucasiano já reunido por Lee), e quando o fazem são por razões ilusórias, perplexidades fantasiosas que estão apenas em suas mentes. São os negros que têm problemas de fato –e, aqui, eles são representados pelo personagem de Samuel L. Jackson, Chaney, um operativo do submundo cuja função é manter as engrenagens do mundo, seja esse mundo qual for, girando; não é à toa que, ao desfecho onde entrega a estarrecedora reviravolta final (que o filme sul-coreano já tratou de tornar lendária), Spike Lee acrescenta um breve e complacente epílogo, no qual o protagonista regressa para o mesmo quarto, sob pleno consentimento de Chaney de que lá deve ficar, a remoer seu tormento.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Os Goonies

As crianças que protagonizam este filme experimentam de uma disponibilidade para a aventura que as novas gerações não vão compreender: O ímpeto de sair porta afora e percorrer campos e matos (e cavernas, no caso deste filme) em busca de diversão –algo que as gerações atuais, quando muito, encontram somente em frente aos computadores, nos celulares ou nos jogos de videogame.
“Os Goonies” é, por isso mesmo, um filme inevitavelmente datado.
Mikey (a presença do ator que o interpreta, Sean Astin, em “O Senhor dos Anéis” é só mais uma das referências de Peter Jackson a esta produção), Dado (Ke Huy Quan, de “Indiana Jones e O Templo da Perdição” e da série “O Pequeno Mestre”), Bocão (Corey Feldman, ator assíduo em filmes infanto-juvenis dos anos 1980 como este “Conta Comigo” e “Os Garotos Perdidos”) e Bolão (Jeff Cohen) são os principais integrantes do grupinho que dá título ao filme. Amigos de infância, moram todos numa mesma localidade cujas moradias serão compradas por uma subsidiária. Em busca de um meio para deter esse avanço corporativo, eles seguem meio na brincadeira um mapa achado por acaso, e que teoricamente leva à trilha de um tesouro, escondido séculos atrás por um famigerado pirata, Willy, o Caolho.
A pista os leva até um galão onde uma impagável quadrinha de bandidos (composta pela matriarca Anne Ramsey, de “Jogue A Mamãe do Trem”, e seus filhos, Joe Pantoliano, de “Matrix” e Robert Davi), os Fratelli, que se esconderam após a audaciosa fuga da cadeia deste último.
Aos garotos, logo se junta o irmão mais velho de Mikey, Brand (Josh Brolin, antes de virar um ator respeitado), a líder de torcida Andy (Kerry Green) e sua melhor amiga Stef (Martha Plimpton).
A odisséia dos Goonies através do túneis e cavernas repletos de mirabolantes armadilhas –todas construídas com a peculiar percepção vertiginosa de montanha-russa dos filmes do produtor Steven Spielberg –é uma das seqüências de aventura mais antológicas do cinema.
Perseguidos pelos Fratelli e, a partir de um determinado ponto, auxiliados pelo desgarrado e excepcional irmão Fratelli, Sloth (John Matuszak, um personagem muito parecido com o protagonista de um clássico trash daquele período, o divertidíssimo “The Toxic Avenger”), eles enfrentam armadilhas que espelham as peripécias de Indiana Jones, até por fim, chegar ao maravilhoso tesouro guardado por Willy, o Caolho.
Se não é de uma maestria equivalente à de Spielberg, a direção de Richard Donner assimila ao máximo tudo o que ele ensinou (a trilha sonora de Dave Grusin replica primorosamente as características de John Williams), lançando mão de um bom humor constante –inclusive, na engraçada auto-referência, ao final, quando Sloth aparece usando uma camisa do “Superman”!
Um dos detalhes mais legais é perceber o quanto “Os Goonies”, sobretudo, visto hoje, é despido de inibições que saturam os filmes comerciais da atualidade; as crianças, no decurso de sua aventura, não são poupadas de violência, tensão e toda a sorte de intensidade que as situações podem proporcionar.
Um filme que divertiu toda uma geração.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Bravura Indômita

O cinema da Era de Ouro de Hollywood exerce um encanto fenomenal nos Irmãos Coen. Para tanto, eles criaram alguns de seus mais notáveis trabalhos debruçando-se sobre os valores, as circunstâncias e a mentalidade daquela época e como esses fatores foram, em grande medida, decisivos na concepção de obras fundamentais à sétima arte.
É um pouco desse fascínio que eles parecem resgatar nesta maravilhosa adaptação do livro de Charles Portis, e que, em sua recriação cheia de talento e personalidade, não faz nada feio se comparado com o clássico de 1970, estrelado por John Wayne –o único filme, diga-se, que chegou a dar, à essa lenda do cinema, a chance que concorrer e ganhar o Oscar de Melhor Ator.
A versão dos Coen não tem pretensão de substituir, no imaginário do público, o filme clássico, mas sim de oferecer uma visão diferenciada sobre o mesmo argumento; em muitos aspectos os Coen tornam este um filme bastante diferente, infundindo nele suas percepções mais atualizadas, uma espécie de ambigüidade moral na caracterização dos personagens e do ambiente, e um nível de detalhamento que escapava às produções antigas.
Velho Oeste. Ao chegar num típico vilarejo ao Norte dos EUA, a jovem Mattie Ross (Hailee Stanfield, fabulosa) tem um único objetivo: mobilizar uma caçada implacável ao homem vil (Josh Brolin) que matou seu pai.
Aos seus 14 anos, porém, Mattie, mesmo que obstinada e astuta, obtém pouco crédito das autoridades locais, que invariavelmente ignoram seus apelos. A única ajuda que ela consegue é o beberrão, mal-humorado e caolho Rooster Cogburn (Jeff Bridges, numa atuação brilhante em postura e observação), junto do relutante oficial LaBoeuf (Matt Damon, também ele muito bem aproveitado).
Juntos, muitíssimo à contra-gosto, essas três pessoas de irredutível caráter, mas, completamente incompatíveis entre si empreenderão a tal caçada humana pelas longínquas e inóspitas pradarias americanas.
Absolutamente livres de auto-censura e de qualquer necessidade politicamente correta, os Coen, astuciosos, pontuam seu filme com observações que jamais surgiriam em uma produção dos tempos da Velha Hollywood, em especial o tratamento indigno e cruel reservado aos índios pelo homem branco.
Eles homenageiam o passado com a auto-consciência crítica de quem sabe pertencer ao futuro.
Nem por isso, contudo, os Coen enaltecem atos de anti-heroísmo da parte de seus personagens tão humanos e idiossicráticos: Espirituosos, os Coen expõe as facetas dúbias, emocionais e irreversíveis de sua jornada até o seu desolado fim, permitindo, por meio de intérpretes de grandeza maior, que o público se enamora de todos eles apesar de tudo, e compartilhe uma pontinha de lamento quando chega a hora da despedida.