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domingo, 3 de março de 2024

DUNA - Segunda Parte


 Os grandes filmes, aqueles de qualidade mais inconteste são, normalmente, os mais difíceis de serem comentados. Como colocar em palavras todo o assombro proporcionado pela produção? Como honrar o mérito ímpar dos artistas envolvidos sem fazer parecer que aquilo é meramente um deslumbramento parcial? “Duna-Segunda Parte”, de Denis Villeneuve, vem confrontar críticos e expectadores com esse inusitado dilema.

Duna-Primeira Parte” foi um épico belo e avassalador e, embora tenha sido extremamente enaltecido pela crítica que atentou para as qualidades técnicas espetaculares da realização e para a bem-sucedida transposição para cinema de elementos antes tidos como intransponíveis do clássico literário de Frank Herbert, alguns chegaram a se queixar de sua narrativa dispersa, da natureza essencialmente introdutória dos arcos construídos ali e de uma esboçada complexidade que, em função de seu final em aberto, para alguns não levava à lugar nenhum. Pois, esta “Parte Dois” vem calar cada uma dessas reclamações ao compor junto com o primeiro longa-metragem uma experiência de ficção científica bela, impactante e intrincada como há muito as telas de cinema não recebiam.

Começando exatamente no ponto em que o filme anterior terminou, “Parte Dois” reencontra Paul (Timothée Chalamet) e Jessica Atreides (Rebecca Fergunson) quando acabaram de unir-se aos Fremen, os habitantes do desértico planeta Arrakis, após terem sido alvo de uma conspiração movida pelos obscuros e brutais inimigos da Casa Harkonnen, o que lhes tirou o controle outrora outorgado pelo Imperador Galáctico (Christopher Walken) de toda a manufatura de especiaria, o material mais precioso do universo, encontrado somente nas areias de Arrakis.

A traição contra os Atreides, não tardamos a descobrir, foi um golpe orquestrado nas sombras pelo próprio Imperador, disposto a por um fim à influência crescente e preocupante dos Atreides junto às poderosas casas de nobreza da galáxia. Entretanto, todos esses inimigos conspiradores têm a convicção de que agora, o problema dos Atreides foi neutralizado, crentes de que Paul e sua mãe foram mortos junto com seus aliados.

Na realidade, Paul se encontra sob a proteção do líder Fremen Stilgar (Javier Barden) que acredita fervorosamente que ele possa ser o Lisan Al Gaib, o messias das profecias de Arrakis plantadas séculos antes pelas feiticeiras Bene Gesserit que trará a liberdade ao povo Fremen e fará de Arrakis um paraíso verde. Embora disposto a integrar-se aos Fremen (tarefa que exige dele o audacioso feito de cavalgar um dos vermes na areia, os Shai-Hulud, naquela que é uma das grandes cenas do ano) e certamente interessado em aliar-se aos seus guerreiros para levar sua retaliação aos Harkonnen e ao Imperador no seu devido tempo, Paul  tem lá seus receios em aceitar em definitivo o papel messiânico no qual muitos já o enxergam, por outro lado, sua mãe, Jessica, convertida na Madre Superiora dos Fremen, tem grande interesse em alimentar esse culto e, com isso, segue rumo ao inóspito sul de Arrakis onde se escondem as tribos fundamentalistas que acatarão cegamente a concretização dessa profecia e constituirão um exército tão descomunal que prejudicará, em apoteóticas batalhas subsequentes, a exploração de especiaria a ponto de levar o Império e todas as grandes casas da galáxia à voltar suas atenções para Arrakis.

Ao mesmo tempo, a acompanhar essa progressão épica de eventos em larga escala –e mostrados com um brilhantismo e uma energia com a qual nenhum filme recente se equipara –temos também a trajetória íntima de Paul Atreides, um salvador relutante, temeroso em aceitar um papel de tamanha atribulação num contexto infinitamente maior que ele próprio. Esses arcos dramáticos, conduzidos com perícia inquestionável pelo diretor Villeneuve, ressaltam não apenas a precisão e a excelência na atuação de Timothée Chalamet, talvez a melhor de sua carreira, como também a magnífica construção dos personagens que o cercam; o ceticismo raivoso de Chani (Zendaya, ótima) contrabalanceado por seu vínculo sentimental cada vez mais forte com Paul; a truculenta figura paterna de Gurney (Josh Brolin); o antagonismo psicótico e imprevisível de Feyd-Rautha Harkonnen (Austin Butler, absolutamente sensacional); as maquinações sinistras e calculistas das Bene Gesserit (entre elas Charlotte Hampling, oriunda já do primeiro filme, e Lea Seydoux); e a atenciosa avaliação da Princesa Irulan (Florence Pugh), historiadora do Império, a acompanhar com sua narração em off todos esses eventos.

Para muito além das tentativas de se adaptar com pompa e circunstância o tomo cultuado de Frank Herbert –a presepada lamentável de David Lynch e Dino De Laurentis, em 1984; e a produção megalomaníaca, porém, jamais materializada em um filme real de Alejandro Jodorowsky –o que Denis Villeneuve entregou aqui foi uma obra sublime do mais puro cinema: Compondo agora as duas partes de um todo harmonioso, exuberante e impecável, a Primeira e Segunda Partes de “Duna” formam um épico de ficção científica inigualável destinado a encantar (com seu visual arrebatador e sua narrativa hipnótica) gerações e mais gerações de cinéfilos.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Benedetta


 Filmes como “Benedetta” são um belo argumento para a existência de autores como o holandês Paul Verhoeven no panorama do cinema atual, tão prejudicado por posturas ideológicas e politicamente corretas –muitos já perceberam a ausência cada vez maior de comédias nos meios de exibição, tão temerosos os realizadores ficaram de ofender a tudo e a todos. E hoje em dia, sabe-se, as pessoas se ofendem por qualquer coisa...

Verhoeven ao que parece, e graças aos céus, não liga para nada disso. Deste seu início de carreira nos anos 1970 até os dias atuais, ele parece perseguir um entendimento humano no qual sua avaliação sobre os infindáveis contextos sobre os quais trabalhou incluem facetas que muitos realizadores (especialmente aqueles atrelados ao modo de trabalho hollywoodiano) preferem  ignorar ou omitir, sobretudo, no que tange à inescapável sexualidade.

“Benedetta” não abre mão de nada disso e ainda se atreve a abordar um tema que nove entre dez diretores tem medo de adentrar: A religião. Sua trama parte de uma história real registrada por documentos católicos datados do Século XVII, na Itália, o julgamento de Benedetta Carlini por crimes de heresia.

Mas, Verhoeven, como todo o bom diretor, começa pelo princípio: A jovem Benedetta mal tinha completado seus catorze anos quando seu pai, um abastado fidalgo da Toscana, a levou para viver em um convento como cumprimento de uma promessa feita à Deus, e na cena que abre o filme, vemos as predisposições da pequena Benedetta a relacionar acontecimentos aparentemente aleatórios favoráveis à intervenções divinas –ou seria mesmo que algo de fora do comum cerca de fato aquela menina?

Essa será a dúvida que atravessará todo o filme, persistindo mesmo nos momentos cruciais –e Paul Verhoeven parece se divertir a valer encontrando formas petulantes, pontuais, elegantes e travessas para fazer a manutenção desse questionamento.

Dezoito anos depois, e agora interpretada pela bela e interessante Virginie Efira (com quem Verhoeven já havia trabalhado em “Elle”), Benedetta é uma das irmãs da abadia comandada pela Madre Superiora Irmã Felicita (Charlotte Rampling), uma freira com sérias e reprimidas ressalvas em confiar nos desígnios de Deus. A fé de Benedetta, por outro lado, é mais que inabalável, ela é metafísica (!): A freira tem visões nas quais enxerga Jesus Cristo como um pastor de cabras humano, palpável e real, seu marido, enfim.

Sejam surtos delirantes, sejam visões celestiais, os delírios de Benedetta a levam à uma condição que as religiosas em geral não são capazes de entender ou explicar –muito menos a Madre Superiora, francamente inclinada a tomar tudo como loucura: Em seus pulsos e tornozelos surgem chagas semelhantes aos estigmas de Cristo. A situação de Benedetta,contudo, leva ela a ganhar uma espécie de cuidadora nas formas da Irmã Bartolomea (Daphné Patakia, sensacional), uma jovem recolhida nas dependências do convento dias antes e que fora estuprada pelo pai e pelos irmãos.

A intimidade resultante entre Benedetta e Bartolomea leva as duas a uma tensão sexual e, logo mais, a um interlúdio lésbico de fato (filmado com a perícia artística e a desenvoltura visual impecáveis que sempre caracterizaram Paul Verhoeven), enquanto que paralelamente, novas visões de Benedetta convencem de tal maneira o reverendo da abadia que ele termina nomeando Benedetta a nova abadessa, removendo o título da Irmã Felicita.

Esse equilíbrio de poder se mostra tênue quando Felicita –impelida pelo trágico suicídio da filha, também ela uma das freiras do convento –foge para Florença e lá alerta o Nuncio Alfonso Giglioli (Lambert Wilson, pernicioso feito uma serpente) sobre os milagres atribuídos à Benedetta e a corrosiva possibilidade de que tudo seja uma encenação. Instalam-se então as circunstâncias para um julgamento onde já não estão mais em jogo os conceitos de verdade ou mentira, mas sim as importâncias políticas que serão mais convenientes à preservação do poder da Igreja.

É bastante irônico, e até admirável, que, ao moldar uma obra com todas as características do violento, tenso e sanguinário subgênero da Inquisição, Paul Verhoeven, sem fazer concessão alguma e sem jamais abrir mão das inquietações tão caras ao seu cinema, tenha conseguido urgir um filme até que leve e agradável de ser acompanhado. Claro que todos os elementos que definem Verhoeven enquanto realizador comparecem –sua ousadia, sua salutar provocação às definições morais, sua empatia pelos corruptos sinceros mais que pelos dissimulados moralistas, e sua disposição em converter sexo e nudez na mais espontânea das ferramentas narrativas –entretanto, ele parece valer-se de “Benedetta” e da formidável história que ela conta para levar uma interessante posição reflexiva ao expectador: A de que, por mais suscetíveis à cada uma das tentações e fraquezas da carne, o ser humano pode, sim, almejar uma proximidade com o Divino, e Dele esperar Sua benção.

domingo, 24 de outubro de 2021

DUNA - Primeira Parte


 In Denis Villeneuve we trust

Já era lendária a afirmação de que “Duna”, a obra-prima literária de Frank Herbert, tratava-se de um trabalho impossível de ser adaptado. As tentativas anteriores de transpô-lo para a linguagem cinematográfica (o filme de 1984 de David Lynch, a minissérie do ano 2000, além do projeto jamais concretizado por Alejandro Jodorowsky) soavam mais como confirmações da inviabilidade do material em ser vertido para outra narrativa do que realizações bem-sucedidas de fato.

Todavia, o canadense Denis Villeneuve, que desde sua estréia só fez brilhar em aclamadas produções, tomou para si a responsabilidade de fazer o impossível, depois de sagrar-se com duas espetaculares obras de ficção científica –o magistralmente intimista “A Chegada”, e a continuação audaciosamente superior ao cultuado original “Blade Runner 2049”. Para esta nova e, espera-se, definitiva versão, Villeneuve tomou emprestadas ideias mercadologicamente surgidas a partir da adaptação de “O Senhor dos Anéis”, por Peter Jackson, em 2001: Dividiu o tomo gigantesco de Frank Herbert em dois longa-metragens de generosa duração –a realização da Segunda Parte depende, portanto, do bom desemprenho de público e crítica da Primeira Parte.

“Duna” se passa no ano de 10161. O espaço é um palco de interesses políticos regidos por casas que disputam o poder tal e qual o mais brutal dos sistemas feudais. E o centro da maioria das disputas vem a ser o planeta Arrakis, lugar desértico que gera o produto conhecido como ‘especiaria’ –um pó obtido entre as areias de seus intermináveis desertos, com o qual as viagens interestelares se tornam possíveis.

Por décadas, o domínio e a extração da ‘especiaria’, bem como os atritos selvagens contra os habitantes de Arrakis, o povo do deserto conhecido como os Fremen, ficaram à cargo da Casa Harkonnen, comandada pelo hediondo, grotesco e pernicioso Barão Vladimir Harkonnen (Stellan Skarsgaard) e seu sobrinho Glossu Raban (Dave Bautista, no personagem que foi de Paul L. Smith na versão de David Lynch).

Numa decisão delegada pelo Imperador Galáctico –esta obra, como pode-se notar, foi uma das inspirações de George Lucas para “Star Wars” –o comando de Arrakis passa da Casa Harkonnen para a Casa Atreides.

É aí que entram em cena os protagonistas da trama: O Duque Leto Atreides (Oscar Isaacs), sua esposa Jessica (a maravilhosa Rebecca Fergunson) e, sobretudo, seu filho, Paul (Timothée Chamalet). Sendo Jessica uma integrante das Bene Gesserit, uma casta de feiticeiras imbuídas do dom da premonição, ela e seus pares acreditam que Paul, por sua procedência e por outros indícios que se sucedem (como sonhos nos quais ele vislumbra um futuro bem provável e perigoso), possa ser um messias, esperado há tempos para mudar irreversivelmente a escala de poder.

Dentro do que se propôs, o diretor Villeneuve, só pra variar, realizou um trabalho simplesmente brilhante: Não apenas seu “Duna” ostenta qualidades cinematográficas inquestionáveis em sua grandiosidade (é recomendado que seja visto na maior tela possível tamanho é o deslumbre de seu escopo épico), como também é primorosamente minimalista em seus pequenos detalhes (como os olhos azuis dos Fremen, adquiridos através da exposição à ‘especiaria’) e hiperlativo nas influências que adota: “Duna” é, pois, tão sólido e imponente quanto “Lawrence da Arábia”, tão contundente e estilizado quanto “Kagemusha”, tão antológico e singular quanto “2001-Uma Odisséia No Espaço”.

Esta Primeira Parte fala sobre os fardos da predestinação, sobre os revezes imprevisíveis da ganância e as armadilhas cruéis do idealismo: Uma vez em Arrakis, O Duque Leto Atreides almeja o que seus antecessores jamais cogitaram; uma trégua de convívio e co-existência pacífica com os Fremen. E será justamente por suas nobres intenções que engrenagens insidiosas irão mover uma conspiração capitaneada pelos Harkonnen, algo que proporciona, já na segunda metade deste filme, cenas estupendas de batalha, filmadas por Villeneuve com uma sinergia e um senso de realismo que há algum tempo não surgia em uma obra de fantasia nas telas de cinema. Quem conhece remotamente a trama, seja pelo filme incoerente e corrido de David Lynch, seja pelo conhecimento do enredo do livro de Herbert, perceberá que Villeneuve encerra a narrativa quando a história se encontra na sua metade –ele aproveita esse tempo de tela para fazer tudo o que o filme de Lynch não conseguiu fazê-lo, seja estabelecer a profundidade das inúmeras motivações, seja para compor cenas inteiras do livro com o ritmo e atmosfera corretos assim definidos por Herbert. O resultado não somente é de um assombro que raras produções foram capazes de atingir nos últimos anos, como leva o público a um final em aberto tão instigante, empolgante e magnífico quanto foi o de “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel” e “O Império Contra-Ataca”.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

A Duquesa


A atriz Keira Knightley se tornou assídua em filmes de época, provavelmente devido ao positivo êxito de “Orgulho e Preconceito” –pelo qual ela até foi indicada ao Oscar.
Pois, aqui está ela de novo, contribuindo com seu carisma (inabalável), sua beleza (inconteste) e seu talento dramático (claudicante...) para mais uma produção desse gênero.
Keira é Georgiana, garota que, como muitas das jovens nos idos de 1774, foi negociada pela família em casamento. Mas, não um casamento comum –ela casou-se com a Majestade da Inglaterra, o Duque de Devonshire em pessoa (vivido com a perícia habitual por Ralph Fiennes).
Como de praxe, a função primordial de Georgiana é gerar um herdeiro homem para o Duque, o quê, nos anos que se seguem, não vem a acontecer: Georgiana dá à luz apenas a meninas.
As ocasionais escapadas extra-conjugais do Duque também não ajudam em nada à situação de Goergiana. É quando então ela encontra na aristocrata Bess Foster (Hayley Atwell, de “Capitão América”) a amizade e o apoio para superar seu dia-a-dia. Todavia, Bess torna-se, também ela, amante do rei –e, sendo mãe de três meninos negligenciados pelo pai, lhe toma boa parte da importância doméstica no palácio.
Na frustração da aridez afetiva que encontrou no casamento ou  na quase circunstância de aprisionamento que descobriu em sua condição de realeza, o filme do diretor Saul Dibb não disfarça a mais evidente de todas as analogias que quer estabelecer: Na dicotomia central em que observa Georgiana como uma aristocrata amada pelo povo (tratada inclusive como celebridade, tendo a capacidade de lançar moda entre seus súditos) e repudiada por sua classe (e especial o marido que dedica a ela –e a quase tudo o mais –uma indiferença lancinante), o paralelo com a trajetória e os percalços da Princesa Diana é mais do que claro.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Operação Red Sparrow


Quando foi lançado nos cinemas, “Operação Red Sparrow” sofreu inevitáveis comparações com “Atômica”, mas, embora a premissa de espionagem européia centrada numa notável protagonista tenha similaridades, as suas diferenças são mais contundentes –sobretudo, na postura da direção que em “Atômica” aponta para um filme de ação e em “Red Sparrow” para um suspense erótico.
A trama, sobre uma jovem engolida por um mundo de segredos e meias-verdades, tem mais relação com “Nikita”, de Luc Besson, e o recente (e brilhante) “A Vilã”.
Dominika Egorova (Jennifer Lawrence, sem qual o filme não seria nem uma sombra do que é) tem seus sonhos como bailarina prestigiada do Balé Bolshoi destruídos num acidente que lhe quebra a perna, deixando-a incapaz de cuidar da mãe debilitada (Joely Richardson).
Seu tio, membro do Departamento de Defesa Russo (Matthias Schoenaerts, de “Ferrugem & Osso”) surge com uma insidiosa alternativa: Participar de uma operação que culmina na morte de um traidor do governo russo.
Sem opção –já que testemunhou uma ação da mais alta confidenciabilidade –Dominika tem de integrar um pesado treinamento de agentes russos conhecidos como sparrows: Jovens treinados para seduzir com sua beleza, e desestabilizar psicologicamente com sua astúcia os alvos escolhidos.
Dominika se destaca no treinamento a ponto de ser recrutada para uma invasão de suma importância: Seduzir o agente americano Nate Nash (Joel Edgerton) e obter dele a identidade do misterioso Mable, o informante soviético que tem fornecido segredos aos EUA.
Bastante feliz em recriar o clima de ambiguidade moral que cercas as ações da heroína presente no livro de Jason Matthews, o filme é realizado pelo mesmo Francis Lawrence que dirigiu Jennifer nas três ótimas sequências de “Jogos Vorazes”. É muito impressionante da parte dela, enquanto estrela famosa e premiada, o quanto ela continua ousando na escolha de seus projetos; intercalando o magnífico e polêmico “Mãe!” com este thriller de espionagem que, se não atinge os mesmos picos de qualidade cinematográfica, exige dela as cenas de nudez e sexo mais ousadas e intensas de sua carreira até então.
Haverá quem diga que, em sua linguagem convencional, seu drama bucólico e sua tensão genérica, “Operação red Sparrow” vale exclusivamente por causa disso.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Zardoz

No seu desvario de ficção científica, metalinguagem e alegoria, “Zardoz” lembra um pouco o incompleto “Globo dePrata”, de Andrzej Zulawski, ao agregar elementos do período (década de 1970) que fazem uma fantasia livre e imprevisível.
O filme de John Boorman começa com uma cabeça flutuante (!) que se auto-intitula Zardoz e se mostra um prévio narrador do filme. Ele também se revela auto-consciente: Nesse estranho monólogo inicial faz inclusive referências ao fato de que sabe tratar-se tudo de um filme de Hollywood.
Contrariando uma série de funções narrativas –e no fim das contas usando tudo para gerar uma sensação de estranheza –o diretor inicia de fato seu filme com outro Zardoz (!) já contrariando a cena anterior: Ele é agora uma gigantesca cabeça de pedra a flutuar sobre seus fiéis como uma nave.
O ano é 2293 e Zardoz é uma divindade que prega a guerra, incentivando a aniquilação do ser humano por meio de justificativas existenciais (a raça humana seria a praga do planeta) e distribuindo armas de fogo.
Entre seus bizarros fiéis –que usam um figurino esquisito de máscaras, pantalonas e cuecas vermelhas –está Zed (Sean Connery) que, por razões mantidas em mistério, entra na enorme cabeça de pedra flutuante e lá encontra corpos nus e plastificados, aparentemente mortos.
Após matar um profeta (vivido pelo mesmo ator que se dizia Zardoz no início), Zed aterrisa numa espécie de santuário conhecido como Vórtice onde uma sociedade de seres humanos evoluídos e imortais convive com o próprio tédio.
Lá, ele se torna um prisioneiro, intrigando os habitantes de lá com suas características físicas primitivas, Zed se equilibra entre o fascínio mal disfarçado de May (Sara Kestelman), que demonstra interesse em sua espécie, e a intolerância contraditória de Consuella (Charlotte Rampling, linda) que busca reprimir a atração pelo indivíduo desconhecido incitando sua destruição.
Pouco a pouco, Zed se dá conta da circunstância mirabolante em que esse imponderável futuro conduziu a raça humana: De um lado, sujeitos à todas as atrocidades bárbaras, estão os denominados Brutos e seus algozes, os Exterminadores (dos quais Zed faz parte) que são incitados pela divindade Zardoz (um embaste) para que se matem numa série de conflitos sem fim. Do outro, protegidos numa idílica região cercada por um campo de força, estão esses seres supostamente evoluídos (que, numa manobra hoje completamente datada, são caracterizados e retratados como decadentes hippies futuristas), cuja boa-venturança de excluir a morte, a dor e o sexo de sua existência legou a eles uma vida interminável de debates sem sentido e de hedonismo.
É Zed, entretanto, quem irá percorrer os caudalosos caminhos que permitirão a derrocada dessa estranha ordem vigente –e tão delirantes são esses percalços que o filme de Boorman com freqüência flerta com o incompreensível, com o kistch e com o mau gosto propriamente dito, perdendo, em diversos momentos, o foco do quê, de fato, quer dizer ao expectador.
Uma idéia absurda comprada com muita boa vontade pelo estúdio (a Twentieth Century Fox), o elenco (sobretudo, o astro Sean Connery) e a equipe técnica, “Zardoz” é, entre outras coisas, um reflexo das noções lisérgicas da contracultura e da liberdade criativa da Nova Hollywood.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Asas do Amor

O cineasta inglês Ian Softley tinha um estilo imediatamente identificável: Seus trabalhos partilhavam de uma mesma vibração frenética e febril, e seus protagonistas eram impelidos pela intensidade do êxtase –na precipitação da juventude, eles primeiro agiam (e reagiam) para depois avaliar as conseqüências de suas ações.
Mão obstante esse padrão, ele passeou por diversos gêneros e trabalhou os mais diferenciados temas.
“Os Cinco Rapazes de Liverpool” (uma audaciosa reconstituição de uma história não contada dos Beatles), “Hackers-Piratas de Computador” (dos primeiros filmes a tratar sobre o tema da informática e a trazer em seu elenco uma ainda jovem e estreante Angelina Jolie) e “As Asas do Amor” (adaptação de um romance de Henry James) são suas obras mais conhecidas, com considerável ênfase no reconhecimento da crítica desse último.
Ele unia –mal comparando –o dinamismo inconformista de Danny Boyle com o atrevido despojamento de Ken Russell. Na teoria pode parecer promissor –e foi isso que ele conseguiu ser em seus melhores momentos –mas, na prática, a verdade é que como autor cinematográfico, Ian Softley foi uma chama fugaz.
Em “Asas do Amor” esse seu inconformismo já fica bem claro na inesperada escalação da atriz Helena Bonham Carter para o papel principal: Ela que o público dificilmente veria como uma mulher audaz, sensual e encantadora surpreendeu (e ganhou uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz!) justamente por injetar audácia, sensualidade e encanto à aristocrática Kate, uma moça que, na primeira década do século XX, vê os excessos do próprio pai (Michael Gambon) esgotarem os recursos financeiros da família. Ela vai morar com uma tia rude e autoritária (Charlotte Rampling) junto de quem encontra duas alternativas: Um casamento devidamente arranjado por ela com algum ricaço que não ama; ou contrariá-la e casar-se com o apaixonado Merton (Linus Roache), por quem Kate é apaixonada também, mas quem ela sabe não ter onde cair morto –e isso, para a ambiciosa Kate é algo inadmissível.
Ironicamente, o destino sinaliza para ela com uma terceira alternativa: Eis que ela conhece a luminosa Millie (Alison Elliott), uma jovem americana rica em visita à Inglaterra.
Millie se interessa por Merton, sem ter a menor idéia de que Kate, sua nova melhor amiga, tem com ele um profundo relacionamento.
E, nos planos de Kate, assim continuará sendo: Ela descobre que Millie tem uma doença que logo irá levá-la, e fazer de Merton um iminente viúvo rico é, para ela, uma oportunidade perfeita para unir o útil (preservar as posses financeiras de sua classe) ao agradável (ficar com o homem que ama).
Na equação de Kate só não entra, porém, o ciúme esmagador ao qual esse arranjo irá submetê-la.
É extremamente interessante –e fonte da curiosidade maior deste filme –o fato de vermos um diretor de orientações tão contemporâneas quanto Ian Softley trabalhar a narrativa de uma produção de época (com toda atenção habitual ao figurino e à direção de arte) e assim mesmo fazer dele algo tão próximo de seu estilo; para tanto, ele abre mão da densidade e do rigor formal que normalmente acompanham o texto nas obras literárias de Henry James fazendo deste um filme palatável, dinâmico e, por que não, jovem.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Swimming Pool - À Beira da Piscina

O cinema de François Ozon é quase sempre um cinema de oposições que se revelam complementares, de ambientes inertes transformados pelo ímpeto e de personalidades insondáveis com motivações ambíguas.
Este brilhante “Swimming Pool” é seu primeiro trabalho em língua inglesa, o quê pouco, no final das contas quer dizer: Não significa que Ozon, cedeu aos caprichos do cinema norte-americano, nem que foi filmar em Hollywood, e nem tampouco que abandonou seus temas autorais e abstratos.
Mas, que filmaço de suspense ele fez!
A magnífica Charlotte Rampling é Sarah Morton, escritora inglesa de livros policiais de sucesso. Ávido pelo próximo romance, John seu editor (Charles Dance) lhe empresta sua casa de veraneio, localizada no sul da França, para que lá Sarah tenha tranqüilidade o suficiente para terminar o novo livro.
Sarah não contava, porém, com a chegada de Julie (Ludivine Sagnier, jovem, linda e insinuante, um contraponto interessante à beleza madura de Charlotte), a filha rebelde de John.
As duas têm, em princípio, uma indisposição que se alastra ao longo dos dias, reforçada pelo desleixo e promiscuidade da jovem –ela trás, praticamente, um novo parceiro por noite para sua cama!
Aos poucos, porém, uma empatia vai surgindo, estreitada, sobretudo, por um segredo fatídico que irá uni-las.
Grande diretor que é, a condução de Ozon prima por uma noção apurado de ritmo e atmosfera –como toca a muitos diretores franceses, o suspense surge em cena com tal sutileza que os consumidores de filmes americanos devem estranhar essa suavidade, entretanto, este é um filme brilhantemente bem arranjado e saboroso de se acompanhar, com duas atrizes que são, cada uma a seu modo, um deleite para o expectador.
A bela Ludivine Sagnier ostenta a impetuosidade e a imprevisibilidade necessária para os rumos que a trama toma, e seu corpo nu –a exemplo do que Ozon fez, anos depois, com Marine Vacth em “Jovem & Bela” –é um fetiche a mais para as câmeras: Pode-se dizer que, de uma certa maneira subversiva, ela é a femme fatale do filme.
Já, a grande Charlotte Rampling mostra a esplêndida e destemida atriz que é, num papel que exige auto-controle, competência e desenvoltura –todas características que ela tem de sobra.
Um filme brilhante, de um grande diretor, agraciado com a presença de duas belas e maravilhosas atrizes, com um desfecho inusitado que –como alguns dos grandes suspenses do cinema –o fará rever o filme inteiro na memória (ou até assisti-lo novamente), na tentativa de encontrar a resposta para um enigma que só no final descobrimos que estava lá.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Coração Satânico

A lista dos filmes genuinamente assustadores do gênero terror é limitada. Quando perguntamos a alguém quais os mais assustadores filmes de todos os tempos, os títulos tendem a ser os mesmos: “O Exorcista”, “O Iluminado”, talvez “O Bebê de Rosemary” se a pessoa tiver boa memória, talvez “A Profecia”, conforme o gosto pessoal.
Alguns de paladar mais específicos irão lembrar de filmes mais cults e obscuros, como “Evil Dead” ou “Hellraiser”. É curioso que, dentre todos esses filmes, seja pouco lembrado sensacional e francamente amedrontador “Coração Satânico”.
Uma prova de que o diretor Alan Parker foi capaz de passear por inúmeros gêneros, e dentro deles, urgir obras sempre pertinentes –ainda que, hoje em dia, ele não entregue nada relevante a algum tempo.
O filme acompanha a via-crusis de um detetive, Harry Angel, interpretado por Mickey Rourke, então no auge do sucesso que seu talento e boa pinta lhe proporcionou nos anos 1980. Ele recebe um caso no qual tem de encontrar o paradeiro de um certo Johnny Favorite, um ex-combatente da guerra que simplesmente evaporou.
Seu cliente é alguém ardiloso e cheio de segundas intenções, Louis Cypher (personificado com prontidão maligna por Robert De Niro) por meio de quem, dependendo da atenção do expectador, é até possível antecipar a grande revelação-surpresa da trama.
Mas, não o seu impacto.
Isso porque a investigação levada por Angel, e conduzida pela narrativa poderosa, esmagadoramente expressionista e inquietante de Alan Parker, tem até alguns elementos do film noir, mas se ampara quase que totalmente nas características do mais alarmante dos filmes de terror: A medida que vai descobrindo os passos do homem desaparecido, o detetive adentra um mundo perturbador de rituais macabros, seres sinistros e sombras preocupantes, enquanto novos crimes começam a se suceder, e ele é confrontado com visões enigmáticas que aos poucos vão revelando uma verdade horripilante.
Tudo culmina no terrível instante final do filme, quando as inúmeras pontas soltas do roteiro (e que aparentavam ser apenas isso, pontas soltas!) convergem numa solução das mais corajosas para um filme produzido pelo cinema norte-americano e o diretor Parker nos deixa com um último e memorável take, tão aterrorizante que dificilmente tal imagem sairá de nossa memória.