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quarta-feira, 29 de outubro de 2025

A Longa Marcha - Caminhe Ou Morra


 Stephen King escreveu “A Longa Marcha” ainda na faculdade, durante a segunda metade da década de 1960 –antes da consagração como escritor de livros de terror, o que explica também o gênero distinto do livro, ficção científica distópica –tal especificação de tempo serve para explicar muito bem a alegoria embutida no argumento: Ao moldar uma trama na qual jovens voluntários eram conduzidos à um esforço descomunal que levava a maior parte deles à morte por indiferentes senhores da guerra (militares), King fazia uma clara referência à Guerra do Vietnam que vitimizava incontáveis vidas de jovens norte-americanos num conflito que todos (exceto, os mandatários no poder) enxergavam como algo despropositado, sem sentido. Contudo, se “A Longa Marcha” foi o primeiro livro que King escreveu, ele não foi o primeiro que ele publicou: Somente após o sucesso literário de “Carrie-A Estranha” (logo seguido pela adaptação cinematográfica dirigida por Brian De Palma) que King pôde lançar, em 1979, “A Longa Marcha” –e ainda o fez sob o pseudônimo de Richard Bachman, com o qual lançou diversos outros livros.

Era irônico, portanto, que a primeira obra de Stephen King, dentre tantas que ele perpetrou e que despertaram tanto interesse nos estúdios de Hollywood, nunca tenha sido adaptada para cinema antes –até agora, com o lançamento de “A Longa Marcha-Caminhe Ou Morra”.

Dirigido por Francis Lawrence (que assinou todas as excelentes continuações de “Jogos Vorazes”), a trama de “A Longa Marcha” diz respeito a uma caminhada promovida por militares e acompanhada por todo o país. Nesse futuro, os EUA são uma nação colapsada, e a Longa Marcha é uma campanha anual que recruta voluntários para restaurar o ânimo e o orgulho do país. São cem rapazes que haverão de encarar o desafio de caminhar, num determinado ritmo, por uma estrada que atravessa cerca de cinco estados norte-americanos. Ao vitorioso é concedido um desejo (qualquer um!) a ser realizado, além da satisfação de viver bem financiado o resto da vida –uma amostra do quanto a persistência e a obstinação são recompensadas pelo governo.

Entretanto, os noventa e nove participantes restantes são impiedosamente mortos! Explica-se: Não há linha de chegada para a Longa Marcha, ganha aquele que tão somente for o último a restar em pé.

Durante toda a caminhada –que perdura por dias a fio, sem qualquer pausa para descansar, dormir, comer ou fazer necessidades fisiológicas! –os participantes devem manter um ritmo específico, a cada vez que esse ritmo se reduzir ou parar, o participante é advertido, se após três advertências o participante não conseguir retomar a marcha, pela razão que for, ele é fulminado com um tiro na cabeça!

É nessas condições atrozes que o jovem Ray Garrity (Cooper Hoffman, de “Licorice Pizza”) embarca na Longa Marcha com motivos muito pessoais (que, mais tarde, serão elucidados) para vingar-se do grande idealizador dessa disputa, o cruel e megalomaníaco Major (Mark Hammil). Durante, essa exaustiva (em todos os níveis possíveis) provação, Ray sela um pacto de amizade com Peter McVries (o ótimo David Jonsson, de “Alien-Romulus”), um órfão de ideais convictos e positivos. Outros personagens participam da maratona: Pearson (Thamela Mpumlwana) cuja ingenuidade o leva a firmar laços de amizade com todos, Stebbins (Garrett Wareing) munido de impressionante compleição física que esconde um triste e doloroso segredo, Barkovitch (Charlie Plummer, de “Todo O Dinheiro do Mundo”) cuja muralha de sarcasmo para com seus colegas não o impedirá de sucumbir ao desespero e à agonia, Olson (Ben Wang, de “Karatê Kid-Lendas”) que ingressa na disputa crente de que sua dedicação teórica irá lhe garantir a vitória, Curley (Roman Griffin Davis, o garotinho de “Jojo Rabbit”), o mais jovem de todos, que mentiu a idade para participar, e será a primeira vítima desse esquema inclemente, e muitos outros, todos eles fadados e não chegarem vivos até o final –exceto um, e é preciso sofrer até o úlimo instante para saber quem será!

A escolha de Francis Lawrence para a direção é das mais acertadas: Conhecedor do material, por sua bem sucedida passagem na franquia “Jogos Vorazes”, Lawrence sabe enunciar os elementos de reflexão contidos no enredo, compor um registro claro, preciso, meticuloso e sensorial da jornada física assim retratada (com os efeitos físicos do desgaste se abatendo sobre os personagens de forma primorosamente evidente), desenvolver a empatia do público pela premissa e pelos personagens certos (o que ajuda a tornar tudo ainda mais angustiante), e ainda soube transpor habilmente a alegoria do livro original de Stephen King para a atualidade: Com a Guerra do Vietnam não mais em voga, “A Longa Marcha”, agora, parece refletir sobre a polarização política dos EUA, sobre a desumanização tóxica que influencia as gerações mais jovens internet afora, e sobre os famigerados reallity-shows, e a forma como a integridade física dos seres humanos inseridos nesses contextos termina tendo menos importância do que o registro do espetáculo.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Jogos Vorazes - A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes


 A distopia “Jogos Vorazes” criada na literatura por Suzanne Collins capitaneou um fenômeno editorial denominado Young Adults, para então ganhar vida no cinema, primeiro num filme dirigido por Gary Ross, e depois, em todo o restante da saga (que totalizou quatro longa-metragens) dirigida por Francis Lawrence –um entusiasta de futuros pós-apocalípticos desde que realizara “Eu Sou A Lenda”. Lançado alguns anos depois desse fenômeno –que, só para constar, encontrou muito de seu êxito na presença poderosa de Jennifer Lawrence interpretando a heroína Katniss Everdeen –o livro “A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes” mostrava a escritora e criadora Suzanne Collins revisitando aquele rico universo, desta vez, abordando os primórdios dos chamados Jogos Vorazes e, por consequência, uma espécie de trama de origem justamente do grande antagonista dos livros (e filmes) principais, Coriolanus Snow que, devido à trama se suceder 60 anos antes, é mostrado como um jovem no início da jornada que o transformará no grande vilão vivido por Donald Sutherland.

Embora a inevitável adaptação para cinema de “A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes” trouxesse como diretor, mais uma vez, Francis Lawrence (pois, todos concordam que ele soube dirigir os filmes com muito mais propriedade e perícia do que Gary Ross) algumas dúvidas incômodas a respeito do projeto pairavam no ar: Poderia “Jogos Vorazes” funcionar sem sua estrela principal, Jennifer Lawrence? E sem a personagem importantíssima, Katniss, que ela interpretava?

A sorte, do filme e de Suzanne Collins, é que Francis Lawrence, de fato, como diretor, compreendeu muito bem o material que manuseou, neste e nos filmes anteriores: Em suas mãos, os escritos instigantes de Collins ganham a ênfase certa, na analogia pontual que executam da atração das audiências por violência e sangue, na essência da distopia futurista em si como um espelho das mazelas morais do ser humano, e na advertência (certamente, repaginada de George Orwell e seu “1984”) de que o gênero como um todo (e este exemplar em particular) faz dos rumos políticos e apáticos da sociedade na desumanização dos oprimidos, exercida pelos opressores, donos dos meios de comunicação.

Ainda um rapaz muito jovem, e contando dez anos desde que seu país, Panem, sobreviveu aos chamados Dias Escuros (uma guerra impiedosa que opôs os doze distritos à capital), o ambicioso Coriolanus Snow (Tom Blyth, de uma energia a lembrar um jovem Rutger Hauer) vive na Capital almejando um futuro melhor para si, para sua avó (Fionnula Flanagan, de “Os Outros”) e para sua adorada prima, Tigris (Hunter Schafer, da série “Euphoria”). E tudo isso –além de prêmios, dinheiro e todo o prestígio que deseja –Snow sabe que só conseguirá obter se levar à vitória o garoto ou garota tributo que treinar nos iminentes Jogos Vorazes –uma mescla estranha e questionável entre torneio físico, chacina indiscriminada e reallity show promovido pela Capital onde os participantes descartáveis são ‘sorteados’ entre a população dos distritos –um espetáculo cuja audiência claudicante pode fazer desta décima edição (justamente aquela na qual Snow enxerga uma chance fugaz) a última.

Contudo, o destino parece oferecer alguma oportunidade de sucesso à Snow: Embora a garota-tributo delegada para ser treinada por ele, pelo rancoroso Highbottom (Peter Dinkagle), seja do Distrito 12, o mais pobre (o que significa que ela é desnutrida, fraca e a candidata nº 1 a morrer por primeiro na arena), ela é também a exótica e inusitada Lucy Gray Bird (a maravilhosa Rachel Zegler, revelada por Spielberg em “Amor Sublime Amor”) que, já de início, chama a atenção do público com inesperados dotes de cantora (talento que a versátil Rachel possui de fato na vida real) e mostra-se mais selvagem e menos indefesa do que seu aspecto pode denunciar –durante a colheita, ela coloca uma serpente verdadeira dentro do vestido de um de seus desafetos (!).

Por instinto, Snow compreende que tem ali uma participante capaz de monopolizar as atenções dos patrocinadores, desde que consiga, trabalhando furtivamente nos bastidores, mantê-la viva –e para tanto, ele sabe que deve, além de tudo, conter o ímpeto quase homicida existente nas ideias sempre mortais engendradas pela idealizadora dos jogos, Dra. Volumnia Gaul (Viola Davis, mais sinistra do que nunca).

Assim, “A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes”, o livro, e agora o filme que dele resultou, encontram um diferencial interessante justamente ao abordarem os mesmos “Jogos Vorazes” mostrados antes –aqui porém com um viés mais arcaico, mais similar à brutalidade dos gladiadores romanos –só que valendo-se, também, do ponto de vista de um protagonista posicionado, não no centro dos enfrentamentos caóticos, como Katniss, mas do outro lado dos acontecimentos, por trás das câmeras, testemunhando as equipes de bastidores em suas deliberações e manipulações; e não raro, participando delas, também.

Ao contrário do que poderíamos supor, Coriolanus Snow é, sim, um personagem bastante interessante, por razões inesperadas que os realizadores souberam preservar com nitidez: Porque no início de sua história, ele ainda tem intenções ambíguas o bastante para afastar-se da pecha desagradável de vilão; porque a química (e o passível romance) com Lucy Gray Bird funciona às mil maravilhas (e ela própria se revela uma personagem tão forte e carismática quanto Katniss); porque Tom Blyth entrega uma atuação suficientemente profunda, habilidosa e identificável para se impor como um ótimo protagonista durante todo o (longo) filme; e finalmente, porque o diretor Francis Lawrence soube reconhecer todos esses elementos e enfatizou-os em sua narrativa, contando a história da maneira como ela necessitava ser contada.

“A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes”, é bem verdade, padece de uma forte subtração de ritmo em seu terço final, quando a trama vai além do conflito na arena e se mostra mais prolongada do que poderia ter sido –e esse é, deveras, um lapso que também o filme acaba herdando do livro –contudo, há tanta convicção no trabalho belíssimo de Francis Lawrence, tantos instantes de brilhantismo a serem apreciados em seu talentoso elenco, e tanto fulgor na possibilidade do roteiro se debruçar sobre características não tão exploradas na mitologia de “Jogos Vorazes” que as possíveis ressalvas sobre esta obra se revelam pálidas diante de suas radiantes qualidades finais.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Eu Sou A Lenda

À exemplo de “Contágio”, este é outro filme que reflete muitas características dos tempos atuais de coronavírus. O diretor Francis Lawrence –hoje conhecido pelas formidáveis continuações de “Jogos Vorazes” –já havia feito um belo trabalho em “Constantine”, com Keanu Reeves, mas foi uma realização e tanto conceder (nesta austera refilmagem de “A Última Esperança da Terra”, com Charlton Heston, de 1971) as imagens um tanto impressionantes de uma Nova York desabitada, abandonada e já em vias de ser tomada pela vegetação e pelos animais selvagens.
Nem tanto a narrativa de Lawrence se empolga com sua trama quanto com o mundo de absurdo apelo visual que compôs para ambientá-la: Único ser humano a perambular por uma vasta e evacuada Nova York, o tenente coronel Robert Neville (Will Smith) passa os dias tentando encontrar uma cura para o vírus que converteu o mundo naquela desolação.
Os dias, é preciso ressaltar –pois às noites, o resultado ocasionado nos seres humanos pelo contágio de tal vírus dá as caras: Os humanos praticamente se tornaram espécies de zumbis, irracionais e violentos que se escondem na escuridão do subsolo. A luz solar lhes infligem queimaduras quase fatais e por isso eles saem para caçar somente quando o sol se põe. E, por isso, Neville e sua cachorra Sam precisam estar atentos às horas para sempre voltar à sua residência, convertida num misto de mansão, fortaleza e laboratório, antes que as coisas fiquem perigosas.
Ocasionalmente, o filme mostra flashbacks que mostram os eventos determinantes para a situação de Neville –nos quais podemos ver o início da evacuação de Manhattan, numa cena à época alardeada como a mais cara de toda a história do cinema.
À medida que o roteiro avança, entretanto, fica cada vez mais difícil de disfarçar um certo desprezo da direção em relação aos tópicos do filme que, de fato, não lhe interessam: A partir do momento em que Neville ganha novas companhias humanas –a brasileira Alice Braga e o garotinho Charlie Tahan –o ritmo do filme engata uma marcha notadamente mais desanimada em contraste com a primeira parte, tão empolgante, fascinante e envolvente, onde a direção se esbalda com tomadas de cenários como a Times Square, o Central Park ou a Ponte do Brooklyn mostrados vazios, desertos, destruídos até, tomados de mato alto e já sem qualquer sinal de atividade humana (você irá se perguntar inúmeras vezes como foram feitas várias dessas cenas). Essa é, de fato, a grande proposta da produção (ambientar um futuro alternativo distópico num cenário plenamente reconhecível por meio ferramentas visuais e ostensivas que só o cinema hollywoodiano seria capaz de empregar), e ao concentrar-se nela, não sobram muitos cuidados dirigidos à outras facetas, sobretudo, aos monstros antagonistas, os infectados.
Embora Francis Lawrence construa um clima admirável na expectativa pela aparição das criaturas que Neville tanto teme encontrar, quando elas por fim aparecem, o resultado é decepcionante: Os mortos-vivos são versões digitalizadas. E, qualquer expectador de filmes de terror sabe que ao remover o elemento humano de um antagonista, remove-se também grande parte de sua capacidade para refletir nele o temor genuíno no público.
Em sua concepção cinematográfica, existem várias influências diretas e indiretas em “I Am A Legend” que vão além do filme com Charlton Heston (e do livro de Richard Matheson que o inspirou): A escalação de Will Smith remete imediatamente o protagonista de “O Diabo, A Carne e O Mundo”, vivido com brilho por Harry Belafonte; além disso, a narrativa de Francis Lawrence, na primeira metade do filme (o trecho da obra na qual se percebe, de fato, a satisfação do diretor) evoca as mais variadas experiências cinematográficas sobre a solidão –como “Terra Tranquila” ou “Náufrago” –amparando muito desse conceito na espetacular presença, tão carismática quanto competente, de Will Smith.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Operação Red Sparrow


Quando foi lançado nos cinemas, “Operação Red Sparrow” sofreu inevitáveis comparações com “Atômica”, mas, embora a premissa de espionagem européia centrada numa notável protagonista tenha similaridades, as suas diferenças são mais contundentes –sobretudo, na postura da direção que em “Atômica” aponta para um filme de ação e em “Red Sparrow” para um suspense erótico.
A trama, sobre uma jovem engolida por um mundo de segredos e meias-verdades, tem mais relação com “Nikita”, de Luc Besson, e o recente (e brilhante) “A Vilã”.
Dominika Egorova (Jennifer Lawrence, sem qual o filme não seria nem uma sombra do que é) tem seus sonhos como bailarina prestigiada do Balé Bolshoi destruídos num acidente que lhe quebra a perna, deixando-a incapaz de cuidar da mãe debilitada (Joely Richardson).
Seu tio, membro do Departamento de Defesa Russo (Matthias Schoenaerts, de “Ferrugem & Osso”) surge com uma insidiosa alternativa: Participar de uma operação que culmina na morte de um traidor do governo russo.
Sem opção –já que testemunhou uma ação da mais alta confidenciabilidade –Dominika tem de integrar um pesado treinamento de agentes russos conhecidos como sparrows: Jovens treinados para seduzir com sua beleza, e desestabilizar psicologicamente com sua astúcia os alvos escolhidos.
Dominika se destaca no treinamento a ponto de ser recrutada para uma invasão de suma importância: Seduzir o agente americano Nate Nash (Joel Edgerton) e obter dele a identidade do misterioso Mable, o informante soviético que tem fornecido segredos aos EUA.
Bastante feliz em recriar o clima de ambiguidade moral que cercas as ações da heroína presente no livro de Jason Matthews, o filme é realizado pelo mesmo Francis Lawrence que dirigiu Jennifer nas três ótimas sequências de “Jogos Vorazes”. É muito impressionante da parte dela, enquanto estrela famosa e premiada, o quanto ela continua ousando na escolha de seus projetos; intercalando o magnífico e polêmico “Mãe!” com este thriller de espionagem que, se não atinge os mesmos picos de qualidade cinematográfica, exige dela as cenas de nudez e sexo mais ousadas e intensas de sua carreira até então.
Haverá quem diga que, em sua linguagem convencional, seu drama bucólico e sua tensão genérica, “Operação red Sparrow” vale exclusivamente por causa disso.

domingo, 30 de abril de 2017

A Última Esperança da Terra / Eu Sou A Lenda

Embora a primeira adaptação do livro de Richard Matheson seja “Mortos Que Matam”, de 1964, com Vincent Price, estas outras duas, e mais recentes, versões possuem uma relevância muito maior no que diz respeito à analogia para com a realidade a que se prestam os contos de ficção científica em comparação ao datado e ingênuo filme antigo, além de um lugar especial, sobretudo o filme de 1971, na memória afetiva do público.
A rigor, a trama é a mesma: Cientista do governo, o coronel Robert Neville (Charlton Heston na versão dos anos 1970; Will Smith, na de 2007) tem uma rotina desigual em um futuro próximo: As ruas completamente desertas de Nova York pertencem exclusivamente a ele!
Um surto que converteu a maior parte da humanidade em criaturas mutantes –e extremamente sensíveis à luz solar –foi provocado por um vírus ao qual Neville é imune.
Como último ser humano a caminhar sobre os escombros da civilização (pelo menos até a narrativa, em algum momento, decidir revelar outros mais) ele busca, dia a dia, um meio de anular o efeito do vírus e sobreviver às noites de perigo em que as criaturas estão à solta.
Ambos os filmes se valem da imagem quase icônica, de solidão e estoicismo, onde o protagonista é mostrado sozinho numa grande e espantosamente desabitada metrópole.
E para a produção de 1971, “A Última Esperança da Terra”, dirigida por Boris Sagal, é então sintomático que esse personagem seja desempenhado por Charlton Heston, que á foi Ben-Hur e Moisés, e ao qual a imagem de herói altivo e romantizado em seu idealismo bruto cai tão bem.
Mas, o filme de 1971 tem também sua parcela de transgressões –embora, também elas, sejam o elemento que lhe trás anacronismo: As tais criaturas, nas quais os humanos se tornaram, parecem mais membros de uma espécie de seita. Albinos, vestidos sempre de túnicas pretas, com óculos escuros, e cheios de cenas de diálogos entre si (sim, eles conversam!), parecem mais baseados nos seguidores psicóticos de Charles Mason, em contraponto aos mortos-vivos bestiais (e digitais) de “Eu Sou A Lenda”.
Mais a frente, quando a participação dessas criaturas começa a se intensificar em “Última Esperança...” pode-se notar também que foram vagamente inspirados em vampiros.
Nos anos 1970, com o Vietnam e as militâncias políticas de toda uma geração, o mote do vírus que se espalha na Terra –como veremos em flashbacks –é a guerra; em “Eu Sou A Lenda”, num recurso mais atual, é uma tentativa de criar uma cura para o câncer que sai terrivelmente errado (há aí, só para constar uma ponta sensacional de Emma Thompson).

Não há como comparar o trabalho de ação, requintado e brilhante, realizado pelo filme de 2007 (cujo diretor de fotografia é o mesmo Andrew Lesnie que concebeu as imagens espantosas da trilogia “O Senhor dos Anéis”) ao filme de 1971.
Entretanto, no filme setentista, o herói Neville cita de cor as falas do documentário cult “Woodstock-Onde Tudo Começou”; no filme de 2007, ele cita –pasmem! –a animação “Shrek” (!).
No filme de 1971, como começava a se tornar convulsivo em algumas produções mais audazes, o herói, caucasiano, acaba encontrando um par romântico de outra etnia, a bela afro-descendente Rosalind Cash, que tem até cenas de nudez (embora ela nem se compare, em formosura, à esplêndida Pam Grier, que ficou famosa na mesma época)!
No filme mais novo, o diretor Francis Lawrence tornou obsoleto e irrelevante qualquer discurso sobre diversidade e representatividade ao escalar Will Smith para o papel principal –quem mais chegar perto de ser algo como um par romântico para ele, neste filme é a brasileira Alice Braga.
Em ambos os casos, os filmes se apóiam quase que exclusivamente nos ombros do carisma de seus protagonistas, e nos dois filmes, isso se prova uma decisão certeira: Tanto Heston quanto Smith não só são atores talentosíssimos, como também esbanjam simpatia, sendo aquele tipo raro de intérprete (assim como Tom Hanks em “Náufrago”) que a platéia consegue acompanhar por um longo tempo sozinho em cena sem se cansar ou se aborrecer.

No fim das contas, duas ótimas adaptações, onde cada uma soube aproveitar as elementos de seu próprio tempo para se fazer um entretenimento memorável.

domingo, 22 de novembro de 2015

Jogos Vorazes - A Esperança Parte Final

E então chegou a hora. Chegou da hora de descobrir qual será o desenlace da guerra que irá transformar Panem para sempre.
Chegou a hora de sabermos para qual lado penderá o coração de Katniss: se para o lado de Peeta, o garoto com quem ela sobreviveu aos Jogos Vorazes no primeiro filme, e ao Massacre Quaternário, no segundo, e que no terceiro viu ser transformado numa arma para matá-la; ou se para o lado de Gale, o seu melhor amigo, com quem ela aprendeu a caçar para alimentar a mãe e a irmã, e que era a única pessoa em quem ela confiava, pelo menos, até ser levada para os Jogos, e tudo então se transformar.
Chegou, afinal, a hora de acompanharmos esses personagens, e cada um de seus percalços nos últimos passos de sua trajetória.
Tantas são as tramas, tantas são as emoções herdadas de todos os filmes anteriores, que é quase impossível este aqui não ter uma atmosfera toda especial, e o diretor Francis Lawrence parece ter completa consciência disso: Cada enquadramento, cada cena é um esforço de pura minúcia em fazer desta uma obra condizente com sua fonte literária: Os livros escritos por Suzanne Collins, relatando a saga da menina Katniss Everdeen, com emoções vivazes, uma conscientização inédita de seu público em relação às mazelas do mundo ao seu redor, e uma dedicação rigorosa ao critério da necessidade: Tudo, absolutamente tudo está ali a serviço da história, e Suzanne Collins não tem dó de sacrificar seus personagens (mesmo os mais queridos), nem as emoções do público, em nome desse princípio.
Nos vinte minutos finais, o filme parece nos lembrar (em pequenos e preciosos detalhes) que “Jogos Vorazes” está chegando ao seu fim: Não mais veremos Katniss outra vez (e na interpretação cheia de força e de vida de Jennifer Lawrence, essa constatação ganha ainda mais tristeza); não mais veremos Josh Hutcherson interpretar Peeta Melark (e, talvez, por perceber isso, aqui, o ator finalmente dá ao personagem toda a energia que ele merecia). Este filme, é portanto, a despedida de todos eles. Gale Hawthorne, Effie Trinket, Haymitch, Prim, Finnick. Todos aqueles cujos destinos acompanhamos no coração dessa revolução.
A câmera de Francis Lawrence enlaça seus personagens, num ritmo todo particular, como se o diretor fosse incapaz de deixá-los partir para sempre.
Ao fim, após tantas cenas poderosamente tensas, de perigos desconcertantes, e sensações atrozes, ele escolhe encerrar seu filme em família, lembrando-nos aquilo que é mais precioso.

Não poderia ser melhor.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Jogos Vorazes - A Esperança Parte 1

Os Jogos Vorazes ficaram para trás. Katniss Everdeen sobreviveu à brutal arena do filme anterior às custas de sua quase morte. Retomando de onde a história foi interrompida, o filme mostra as repercussões do ataque da Capital sofridas sobretudo no Distrito 12. 
Panem agora está em guerra. De um lado, estão os rebeldes, liderados pela presidente Coin do até então extinto Distrito 13, que têm em Katniss, o seu grande símbolo. Do outro, a Capital, controlada pela mão de ferro do presidente Snow, que irá valer-se do precioso prisioneiro Peeta, para tentar desacreditar a rebelião e desestabilizar Katniss. Mas ela precisa assumir seu papel no confronto, caso contrário o futuro de todos aqueles que ama pode acabar condenado. 
Terceira parte da famosa saga juvenil, já preparando o terreno para seu grande desfecho. 
O roteiro de Danny Strong apresenta maturidade e austeridade notáveis para um filme de apelo jovem, e o artifício de repartir o último livro em dois filmes (a exemplo de “Harry Potter” e “Crepúsculo”) deu autonomia para trabalhar de forma detalhista cada meandro da trama, sem pressa nem omissões. O resultado é dos mais interessantes. 
Nesse sentido, o bom trabalho do diretor Francis Lawrence (que mostrou-se excelente no filme anterior) consegue finalmente ir além do livro, dando realce narrativo, puramente cinematográfico, à cenas que poderiam ser banais ou sub-aproveitadas: E o exemplo mais perfeito talvez seja a arrepiante cena em que a música “A Árvore-Forca” é cantada. 
Neste terceiro e vigoroso episódio, a série enfim engloba elementos que vinha ensaiando desde seu início, com certa timidez. Mas agora, as sequências podem emular cenas que vão de influências tão distintas e viscerais quanto “Falcão Negro Em Perigo” (as cenas de batalha são de um requinte criterioso) à “1984 de Orwell” (a opressão do estado, e  poder da mídia da manutenção dessa mesma ordem), o quê é um feito e tanto quando lembramos que esta é, em princípio e em essência, uma saga para jovens. 
E a atriz Jennifer Lawrence continua surpreendendo com seu imenso talento.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Jogos Vorazes - Em Chamas

Seis meses após ter vencido os Jogos Vorazes, Katniss Everdeen tem um novo desafio pela frente: encarar o "tour da vitória" que a levará pelos distritos de Panem, e durante o qual ela terá de encenar o romance fictício que tinha iniciado em plena arena com o jovem Peeta para que saissem vivos. Para o maquiavélico Presidente Snow tal encenação é fundamental: a própria Katniss é um símbolo vivo da iminente revolução que se desenha em Panem, e provar, em frente às câmeras que ela é subserviente à Capital, tornou-se uma necessidade urgente. Caso contrário, ele precisará livrar-se dela, valendo-se do vindouro Massacre Quaternário. 
A continuação primorosa de “Jogos Vorazes” beneficiou-se, e muito, da troca de diretores: Saiu o realizador do primeiro filme, o razoável Gary Ross, e entrou Francis Lawrence, de filmes como “Eu Sou A Lenda”, “Constantine” e “Água Para Elefantes”. Apesar de seu currículo ainda modesto, bastante inclinado para filmes comerciais pouco memoráveis, ele trouxe uma noção de ritmo mais apurada para a saga, tendo a sensatez de reproduzir a identidade visual que Ross imprimiu ao primeiro filme, deixando claro que são, a rigor, um só filme dividido em capítulos, e acrescentou um acabamento visual mais elaborado, ressaltando tudo o quê funcionou no primeiro (muita coisa) e deixando de lado aquilo que não deu certo (pouquíssimas coisas). 
A reunião de talentos para trabalhar no roteiro também foi particularmente feliz neste episódio: Os produtores chamaram dos roteiristas prestigiados e oscarizados: Simon Beaufoy (de “Quem Quer Ser Um Milionário?”), e Michael Abndt (de “Pequena Miss Sunshine”, usando aqui o pseudônimo de Michael DeBruyn). E eles souberam capturar magnificamente as importâncias de determinados momentos da narrativa, enfatizá-las e dispô-las ao longo do filme, dando um andamento primoroso (o mais bem acertado da saga até agora), o que pode ser visto como um milagre em se tratando do fato de que este é o capítulo do meio, ou seja, sem um prólogo e sem um desfecho. 
Todo esse esforço serviu para moldar um dos melhores filmes adolescentes dos últimos anos, uma saga juvenil com pinceladas de inteligência política abrilhantada pela magnífica presença da estrela Jennifer Lawrence.