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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Sonhos de Trem


 Quando começamos a achar que não se faz mais cinema assim (dotado de uma percepção artística toda lenta, introspectiva, melancólica), vem a própria Netflix (a mais popular dentre todas as plataformas de streaming) e lança “Sonhos de Trem” –ou “Train Dreams” no original –adaptação de um livro escrito por Denis Johnson em 2011, e carregado com ecos do cinema de Terence Malick (“Cinzas No Paraíso”, “Além da Linha Vermelha”, “Árvore da Vida”), contemplativo, abstrato, muito mais inclinado à reflexão do que à ação.

 "Sonhos de Trem" é a história de Robert Grainier (Joel Edgerton, irrepreensível) e, desde o início, o narrador (voz do ator Will Patton) nos informa que Grainier viveu até os 80 anos.

Filhos de pais que jamais chegou a conhecer, ele chega em Bonners Ferry, estado de Idaho, ainda criança e, desde cedo, desenvolve uma personalidade calada, introvertida, sempre dedicado ao cotidiano braçal das ocupações daquele fim do Século XIX início do Século XX.

Adulto, Grainier passa a trabalhar como lenhador, derrubando árvores por todo o país, muitas vezes para a construção de estradas de ferro, situação que o deixa sempre próximo do universo ferroviário norte-americano, e em contato com outros madeireiros, operários braçais que vem e vão ao longo dos anos, também eles com suas peculiares histórias.

Desse segmento, aqueles que se sobressaem na narrativa certamente são o chinês (Alfred Hsing, de “Jogador Nº1”) abruptamente descartados dos serviços junto a ferrovia por ser um imigrante ilegal (uma visão que passa a atormentar Grainier o resto da vida); o homem religioso e falastrão (Paul Schneider, de “A Garota Ideal”) inesperadamente morto por a tiros por um homem negro em busca de uma vingança pessoal; e o operário veterano vivido por William H. Macy, um curioso contador de histórias que se torna seu amigo e que parte de forma trágica.

Há também uma expressiva participação, já na segunda metade da atriz Kerry Condon (de “Banshees de Inisherin” e “F1”).

O cerne de sua trama, contudo, é a relação com Gladys (Felicity Jones), jovem por quem ele se apaixona, com quem casa e, logo depois, decide construir uma cabana na floresta à beira de um rio. Os anos não tardam a passar. Eles têm uma filha, a pequena Kate, e para sustentar sua família, Grainier passa a trabalhar temporadas inteiras bem longe do lar, cortando madeira nos mais diferentes recôncavos do país.

Seus retornos para casa são poéticos e carregados de felicidade, mas a falta de dinheiro sempre o obriga a voltar. E é justamente num desses retornos que ele é surpreendido por um terrível incêndio acometido na floresta onde moram, fazendo com que Gladys e Kate fiquem desaparecidas.

Seus 80 anos de vida não são definidos por acontecimentos extraordinários, muito pelo contrário, Robert Grainier não poderia ser um indivíduo mais comum. Ainda assim, essa trajetória de vida assim registrada não deixa de acompanhar de perto as notáveis transformações testemunhadas por esse mesmo homem comum durante os EUA da primeira metade do Século XX: “Train Dreams” vai até a segunda metade dos anos 1960, acompanhando nesse processo a modernização do sistema de transporte ferroviário norte-americano (mostrado sem qualquer viés didático) e chegando inclusive a trazer as notícias sobre a ida do Homem ao espaço.

Lançado originalmente no Festival de Sundance de 2025, onde o trabalho do diretor Clint Bentley e a atuação de Edgerton saíram aclamados pelos críticos, “Train Dreams” é uma obra cuja narrativa definida pela contemplação mantém sempre em foco a relação do Homem com a Natureza, não à toa, suas imagens deslumbrantes desde a primeira cena são o ponto forte: A direção de fotografia, concebida na janela de aspecto 1,46:1, é assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso (de “Tungstênio” e ‘Rodantes”).

Não espere sair feliz e saltitante do filme: É um trabalho que foca em agruras íntimas, em tristezas inapeláveis de uma vida árdua, fadada a não encontrar quaisquer outras alternativas para que árdua deixe de ser. Expectadores adeptos de narrativas comerciais certamente vão se ressentir dessa lentidão e dessa desesperança, no entanto, em muitos momentos a realização de Bentley revela-se uma obra sublime.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Jane Got A Gun

Uma mescla hesitante de faroeste e manifesto feminista, este projeto estrelado por Natalie Portman (também produtora) renderia uma obra certamente diferente se fosse mantida a diretora original, Lynne Ramsay de “O Romance de Movern Callar” e “Precisamos Falar Sobre OKevin”.
Ela foi substituída na última hora por Gavin O’ Connor (de “Guerreiro”, também com Joel Edgerton no elenco) e o resultado de seu trabalho –em parte pelo pouco propício fato de assumir uma realização às pressas e já em andamento –padece de originalidade, ainda que o roteiro, em sua versão básica, tenha circulado por anos em Hollywood como um dos seus grandes scripts jamais filmados.
Jane Ballard, a protagonista vivida por Natalie, é uma mulher sofrida, como normalmente o são as mulheres fadadas a viver e sobreviver no Velho Oeste. Seu marido é um certo Bill Hammond (Noah Emmerich, de “O Show de Truman”) que, já na cena inicial, chega ao seu longínquo rancho ferido por tiros de bala. Ele teve um encontro com o famigerado John Bishop (Ewan McGregor, fazendo mais uma vez um bom vilão depois do ótimo “Haywire”), cujo bando numeroso e perigoso (e que inclui participações de Rodrigo Santoro e Boyd Hoolbrook) virá logo em seu encalço.
Jane precisa, portanto, se preparar.
Ela busca auxílio com Dan Frost (Joel Edgerton, também um dos roteiristas do filme) que, de início reluta, ressentido por algo do qual ainda não temos informação, terminando mais tarde por concordar em proteger Jane.
Durante os preparativos para o conflito iminente e a consequente tensão da espera pela chegada desse momento, a narrativa é ocasionada por flashbacks designados para esclarecer os pormenores mais pessoais dessa história –e do porque Jane é central à ela: A dívida de vida e de gratidão que ela tem por Bill e que se estende para além de seu matrimônio; a intervenção sórdida e tentacular do inescrupuloso e ambicioso Bishop em seu passado;e a relação inicialmente amorosa, porém desafortunada que ela teve com Dan e que reserva, da parte de ambos, dolorosas revelações.
Há algo bastante interessante na estrutura com a qual a trama que envolve os personagens se apresenta ao expectador, com idas e vindas no tempo substituindo a linearidade tediosa por uma sucessiva e revitalizadora entrega de novas informações (incluindo uma ligeira reviravolta final), e certamente é muito curioso o manejo espirituoso do protagonismo de Jane Ballard em meio à uma trama definida por ombridade masculina e duelos irreversíveis, tal e qual clássicos insuspeitos do gênero como “Johnny Guitar” e “Era Uma Vez No Oeste”.
O grande problema de “Jane Got A Gun” –que aqui no Brasil, seguindo a orientação convencional que o filme acabou adquirindo, recebeu o título genérico de “Em Busca de Justiça” –é justamente a direção de Gavin O’ Connor, tão hábil em filmes de drama e outros gêneros, entretanto, mostrando-se aqui limitada ao absorver os códigos e as linguagens específicas do faroeste que rendeu obras notáveis nas mãos de artesões brilhantes como Quentin Tarantino (“Django Livre” e “Os Oito Odiados”) e os Irmãos Coen (“Bravura Indômita” e “A Balada de Buster Scruggs”) mas, que entregue a um talentoso operário padrão terminou um pouco aquém de sua promessa.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Êxodo - Deuses e Reis

Apesar da lembrança ainda poderosa do épico clássico de Cecil B. De Mille, o diretor Ridley Scott arriscou em 2014, uma nova versão de “Os Dez Mandamentos”.
Vindo de uma tentativa controversa de retomar a série “Alien” (“Prometheus”), Scott moldou um projeto com deliberada aparência de Oscar: História mítica e grandiosa; diretor e equipe técnica renomados; elenco de astros talentosos; até mesmo a data de lançamento nos cinemas era estrategicamente propícia –meados de dezembro, fácil, portanto, de ser lembrado pelos votantes da Academia.
Deveras, Scott também tinha um objetivo bem claro em relação a essa nova repaginação: Abordar a jornada de Moisés (Christian Bale), o filho adotivo do Faraó que descobre ser o prometido libertador do povo hebreu, com um realismo táctil e desmistificador que ia de encontro aos tratamentos anteriores dados à história.
É razoável então que o retrato de Moisés, aqui, seja tão distinto da famosa personificação messiânica de Charlton Heston –Moisés quase ganha um viés de líder terrorista, enfatizado nas manifestações alucinatórias que ele alegadamente tem de Deus (que, na narrativa de Scott, adquirem a possibilidade de ser um mero surto).
E, dessa forma, são também abordados os outros momentos vultuosos da trama: As sete pragas do Egito (cujo respaldo científico de cada uma delas fornecido pelo roteiro faz lembrar o terror “A Colheita do Mal”, lançado pouco antes); a travessia do Mar Vermelho (da qual é removido o teor milagroso de que o mar se abriu, substituído por uma alternação ocasionada por maré alta e maré baixa); a concepção dos 10 mandamentos (mostrados como tendo sido esculpidos pelo próprio Moisés).
No raciocínio dos realizadores, essa é uma ideia que agrega audácia e originalidade à produção (e ainda uma chance de dar à história de Moisés toda uma reflexão ambígua), mas, no final das contas, isso resulta, em grande parte, frustrante.
Há, por exemplo, um premeditado clima de preparação quando o filme adentra seu último terço, no qual se cria expectativa para uma inédita batalha entre os oprimidos hebreus e os opressores egípcios.
Nada, porém, acontece: Scottt, apesar dos lampejos pouco contundentes de subverter a história conhecida, termina por segui-la com proximidade.
“Êxodo” é assim uma superprodução indefinida entre a intenção reverente de manter-se algo fiel ao filme clássico (almejando com alguma pretensão o reconhecimento que ele desfruta) e o ímpeto transgressivo (mais na teoria que na prática...) de oferecer um viés inesperado do famoso episódio bíblico.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Boy Erased - Uma Verdade Anulada

A segunda incursão do ator Joel Edgerton na direção depois do suspense “O Presente” tem uma inclinação muito mais drástica ao drama.
Australiano, Edgerton trouxe para seu filme as presenças dos astros Nicole Kidman e Russel Crowe, também eles australianos, promovendo assim o primeiro encontro deles na tela.
Contudo, é o jovem Lucas Hedges (de “Lady Bird” e “Manchester À Beira-Mar”) que protagoniza o filme. Ele vive o jovem Jared Eamons, filho de pais fervorosamente religiosos (o casal formado por Nicole e Crowe).
Quando as tendências homossexuais de Jared começam a ficar mais evidentes após sua ida para a faculdade, o pai –que era pastor religioso –toma uma atitude radical, aconselhado pelos anciões de sua congregação: Interna Jared numa instituição que alardeia uma espécie de “cura gay”.
A ida para lá –aos cuidados do pregador Victor Sykes, vivido pelo próprio Joel Edgerton –e a rotina esmagadora da qual vai gradativamente se conscientizando é o cerne dramático em torno do qual o filme gira.
Não totalmente desprendido dos expedientes de gênero de seu trabalho anterior, Joel Edgerton ainda faz de seu filme, em alguns aspectos, um suspense: Ele lança mão de flashbacks, artimanhas e da construção de clima para tentar capturar a atenção do expectador.
Entre o talento genuíno do elenco notável que conseguiu reunir, o drama humano bastante válido ao qual tenta dar voz e sua tendência inconsciente de inclinar-se ao enfadonho, “Boy Erased” atinge um resultado dúbio: Quer ser contundente na medida em que quer ser também pretensamente comercial –duas facetas que se neutralizam o tempo todo –terminando nem muito lá, nem cá; seu retrato dos percalços angustiantes de aceitação do homossexualismo tem em Lucas Hedges um intérprete capaz e perspicaz, mas perde disparado, no todo, para as grandes obras que já versaram sobre esse mesmo tema.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

O Presente

Nesta sua incursão na direção, o ator Joel Edgerton não esconde o apreço por Roman Polanski de quem pega emprestados estilos, características e premissa para o curioso conto de suspense que desenvolve –além de uma percepção bastante comum aos atores que se aventuram da direção de moldar uma narrativa cem por cento dependente da energia dos (bons) atores em cena.
“O Presente” tem início quando o casal Simon e Robyn (Jason Bateman e Rebecca Hall) volta a morar na mesma cidade em que ele cresceu.
Simon é ambicioso e tudo no qual consegue pensar é na disputa por um cargo elevado na empresa em que trabalha.
À Robyn, resta cuidar da nova casa e amargar a tristeza de uma gravidez que não se concluiu –ao mesmo tempo em que enxerga com melancolia as poucas chances de engravidar de novo.
Casualmente, eles se encontram com Gordon (Joel Edgerton) com quem Simon estudou no passado. As tentativas um tanto insistentes de Gordon em tornar-se amigo do casal –inclusive com inapropriados presentes deixados na porta da casa –encontram por sua vez uma hostilidade excessiva da parte de Simon.
Aos poucos, Robyn compreende que houve algo no passado dois. Algo que parece alimentar o estranho comportamento de Gordon, e do qual Simon se esquiva de falar de todas as maneiras.
Gradativamente, “O Presente” ensaia assim uma subversão daquilo que inicialmente propunha: Construía-se o palco para um daqueles típicos suspenses em que o psicopata desajustado começa a cercar e a assediar a família feliz norte-americana –algo potencializado na escolha dos atores; Jason Bateman que funciona tanto em comédias como em filmes sérios como este daqui, e Rebecca Hall, inglesa que cai como luva em papéis de boa moça –no entanto, com a chegada de novas informações do passado, Simon e Gordon vão revelando outras facetas que acabam invertendo a equação; e quem antes parecia ser o perigo em potencial pode vir a ser a vítima.
A condução bastante interessante de Joel Edgerton explora inúmeras oportunidades para criar circunstâncias e situações quase sempre notáveis do ponto de vista interpretativo. O seu manejo cuidadoso com as reviravoltas do material, porém, acaba levando-o a aliviar a mão na questão da atmosfera tensa: Com o zelo com que é levado, “O Presente” se mostra sutil demais para alarmar o expectador, objetivo principal de um filme de suspense.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Guerreiro


Neste admirável trabalho do diretor Gavin O' Connor (talvez, sua melhor realização) nunca fica determinado de fato os motivos que levaram a família dos dois irmãos Tommy (Tom Hardy) e Brendan (Joel Edgerton) ao afastamento: Em meio às ocasionais e pesarosas reaproximações que se esboçam fica implícito como agravante para isso, quando muito, o alcoolismo do pai (Nick Nolte). Há anos separados e sem se verem, Tommy e Brendan afinal se reencontram, quando o primeiro regressa de uma atribulada experiência como combatente no Oriente Médio e o segundo, que trabalha como professor, enfrenta um duro desafio familiar: Ambos estão, cada um por seu motivo particular numa disputa pelo prêmio da final de um torneio de MMA (aptidão que ambos dominam graças à influência paterna); e os rumos dramáticos tomados pelo filme não deixam dúvidas de que disputarão um contra o outro.
O tema do filme, assim talvez, careça de sutileza e originalidade, contudo, o diretor O’ Connor compensa essa obviedade com uma construção exemplar da dramaturgia, além de um requinte insuspeito na forma com que a violência e a brutalidade, quando precisam ser mostradas, revelam-se registradas magnificamente.
Nesse sentido –no do grande filme que ele consegue ser –é no elenco que seus maiores superlativos aparecem: O veterano Nick Nolte surge com uma de suas mais emocionantes atuações nos últimos anos no papel do alcoólatra assombrado pela culpa e pelo vício –grande cena é aquela em que ele recita “Moby Dick”! Joe Edgerton oferece uma belíssima interpretação com a qual conquista de pronto o público no papel do pai de família que, por necessidade, regressa às lutas de vale-tudo, mesmo que sob a condição de perder a própria vida. Mas, é no papel e na atuação de Tom Hardy que repousam os méritos mais singulares de todo o filme; um ator capaz de fazer jus ao interesse que desperta e um personagem que, a despeito do comportamento impassível e implacável, conduz o expectador com intensidade e desenvoltura à luta final, uma das mais arrebatadoras e comoventes seqüências do cinema esportivo.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Operação Red Sparrow


Quando foi lançado nos cinemas, “Operação Red Sparrow” sofreu inevitáveis comparações com “Atômica”, mas, embora a premissa de espionagem européia centrada numa notável protagonista tenha similaridades, as suas diferenças são mais contundentes –sobretudo, na postura da direção que em “Atômica” aponta para um filme de ação e em “Red Sparrow” para um suspense erótico.
A trama, sobre uma jovem engolida por um mundo de segredos e meias-verdades, tem mais relação com “Nikita”, de Luc Besson, e o recente (e brilhante) “A Vilã”.
Dominika Egorova (Jennifer Lawrence, sem qual o filme não seria nem uma sombra do que é) tem seus sonhos como bailarina prestigiada do Balé Bolshoi destruídos num acidente que lhe quebra a perna, deixando-a incapaz de cuidar da mãe debilitada (Joely Richardson).
Seu tio, membro do Departamento de Defesa Russo (Matthias Schoenaerts, de “Ferrugem & Osso”) surge com uma insidiosa alternativa: Participar de uma operação que culmina na morte de um traidor do governo russo.
Sem opção –já que testemunhou uma ação da mais alta confidenciabilidade –Dominika tem de integrar um pesado treinamento de agentes russos conhecidos como sparrows: Jovens treinados para seduzir com sua beleza, e desestabilizar psicologicamente com sua astúcia os alvos escolhidos.
Dominika se destaca no treinamento a ponto de ser recrutada para uma invasão de suma importância: Seduzir o agente americano Nate Nash (Joel Edgerton) e obter dele a identidade do misterioso Mable, o informante soviético que tem fornecido segredos aos EUA.
Bastante feliz em recriar o clima de ambiguidade moral que cercas as ações da heroína presente no livro de Jason Matthews, o filme é realizado pelo mesmo Francis Lawrence que dirigiu Jennifer nas três ótimas sequências de “Jogos Vorazes”. É muito impressionante da parte dela, enquanto estrela famosa e premiada, o quanto ela continua ousando na escolha de seus projetos; intercalando o magnífico e polêmico “Mãe!” com este thriller de espionagem que, se não atinge os mesmos picos de qualidade cinematográfica, exige dela as cenas de nudez e sexo mais ousadas e intensas de sua carreira até então.
Haverá quem diga que, em sua linguagem convencional, seu drama bucólico e sua tensão genérica, “Operação red Sparrow” vale exclusivamente por causa disso.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Hora Mais Escura

“Kill Bin Laden” era um projeto iniciado pela diretora Kathryn Bigelow quando o famigerado terrorista ainda era um alvo escorregadio para o FBI. Recém-saída da consagração de “Guerra Ao Terror”, ela retomava a parceria com o premiado roteirista Mark Boal para lançar um olhar algo irônico sobre uma missão fracassada que visava a morte do procurado terrorista.
O elenco contava com Joel Edgerton e Chris Pratt –uns anos antes de virar astro com “Guardiões da Galáxia” e “Jurassic World” –e deveria ter uma pegada muito parecida com “Guerra Ao Terror” onde as relações entre os soldados eram esmiuçadas em meio à cenas de ação e de tensão.
Em algum momento durante a gestação do projeto porém, um lance inesperado do destino interveio: A Casa Branca anunciou a morte de Osama Bin Laden pelas mãos do Team 6 numa bem-sucedida incursão em uma residência do Paquistão.
De uma hora para outra, o filme de Bigelow se tornava inesperadamente datado. A saída: Valer-se do orçamento, das cenas já filmadas, do trabalho de pré-produção em andamento e criar um filme praticamente novo, desta vez, bem mais ambicioso (como toca a uma diretora ganhadora do Oscar), que envolvia a caçada à Bin Laden e culminava em sua morte ocorrida em maio de 2011.
Dessa forma, “Zero Dark Thirty” –o novo título da produção –deixa de lado os soldados liderados por Edgerton e Pratt (eles agora interpretam o Team 6 e aparecem apenas na explosiva meia hora final do filme) e se concentra numa das analistas recrutadas pela CIA, a jovem agente Maya –vivida com espetacular vigor por Jessica Chastain –que, após os estarrecedores atentados de 11 de setembro de 2001, e o início da árdua operação de rastrear e eliminar o autor dos ataques, o líder terrorista Osama Bin Laden, toma para si a missão de encontrá-lo custe o que custar.
Ao longo de uma década, a obstinação dela, somado aos esforços de outros personagens que vão e vêm com o passar dos anos (e que expõe o sensacional elenco que Bigelow conseguiu atrair para sua produção, como Jason Clarke, Mark Strong, Jennifer Ehle, Edgar Ramirez, Kyle Chandler, Frank Grillo e James Gandolfini), vão levar as tensas investigações à uma casa no centro de Abbottabad, no Paquistão onde o terrorista finalmente é morto.
O roteiro de Boal surpreende por manter a excelência mesmo em face da alteração de sua proposta e, mais ainda, pela magnífica maneira com que parece abordar de forma precisa e minuciosa os fatos supostamente reais –que, mesmo correspondentes à realidade jamais poderiam ser comprovados pelo governo –onde executa uma reconstituição primorosa e vigorosa da extensiva caçada a Bin Laden, pontuada por riquíssimos detalhes logísticos, técnicos, circunstanciais e humanos.
Apagando quaisquer dúvidas acerca de seu talento, a diretora Kathryn Bigelow sobe um degrau além de seu "Guerra Ao Terror" entregando um trabalho ainda mais adulto e austero, orquestrado com perícia e precisão insuspeitas.
E abrilhantado, ainda por cima, por uma forte e convicta atuação de Jessica Chastain: Só Deus sabe o que levou-a a perder o Oscar de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence em seu “O Lado Bom da Vida”!

sexta-feira, 18 de março de 2016

O Grande Gatsby

A suntuosa versão do diretor de “Moulin Rouge” para o clássico de F. Scott Fitzgerald foi um dos filmes mais aguardados de 2013. Seu forte, não há dúvidas, são os quesitos técnicos (sobretudo fotografia, figurino e direção de arte) que, de início, já dão um banho na versão setentista estrelada por Robert Redford e Mia Farrow. Aqui, Baz Luhrman foi felicíssimo na escolha do elenco: Seu chapa, Leonardo Dicaprio, está perfeito como Gatsby, dosando magnificamente o mistério com o necessário carisma do personagem. O mesmo vale para o sumido Tobey Maguire e para a ótima Carey Muligan, ambos se encaixam com tal perfeição em seus personagens que é preciso dar certo crédito à Luhrman.
 Aspirante a escritor, Nick Carraway (Maguire) instala-se nos arredores mais elitistas de Nova York, ao lado da propriedade de um certo Jay Gatsby, cujas festas que promove ganham repercussão por todo o lugar. Quando Nick finalmente o conhece, surpreende-se com a pessoa prestativa, afável e calorosa que conhece, e logo torna-se cumplice dele, em suas tentativas quase desesperadas de encontrar-se com a prima casada do próprio Nick, Daisy (Muligan). O quê leva Nick a suspeitar que ela e Gatsby tiveram algum envolvimento no passado.
É verdade que Baz Luhrman continua com seus excessos visuais e festivos que por vezes poluem a produção, beirando uma certa histeria, fatores que minaram o resultado final de seu último trabalho o épico ambicioso e profundamente falho “Austrália”.
Aqui, entretanto, esses deslumbres e extravagâncias estão a serviço de uma trama densa e poderosa, que acaba valorizando e compensando tal esforço.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Star Wars - Episódio 3 - A Vingança dos Sith

Foi em 2005 que George Lucas lançou o Episódio 3, que amarrou em definitivo as pontas soltas de toda a saga concebida por ele, e que, por conta disso, foi o mais esperado de todos. Muitos eram os que tinham esperanças de que fosse, dentre os capítulos da nova trilogia, aquele que mais se aproximasse da “trilogia clássica”. 
Em parte, alguns foram recompensados: Este é, provavelmente, o melhor filme da nova trilogia. 
Outros, porém, não: Ele ainda padece de muitos problemas que acometeram os capítulos anteriores. 
As Guerras Clônicas transcorrem deixando profundas marcas em toda a galáxia. Os Jedi, numa manobra quase desesperada, estão prestes a encerrá-la ao caçar universo afora o hediondo e cibernético General Graivius. 
Mas a mente por trás de tudo,o Chanceler Palpatine, identidade do lorde de Sith, Darth Tyrannus, já tem outros planos: valer-se da fragilidade e desequilíbrio emocional do recém-consagrado jedi Anakin Skywalker, e convertê-lo para o lado negro da força. Feito isso, Palpatine terá nele um novo e poderosíssimo aprendiz, Darth Vader, que lhe proporcionará seu intento; converter a República Galáctica em seu Império. Único obstáculo no caminho de Palpatine e Darth Vader, os cavaleiros Jedi devem então ser eliminados, o que leva Vader e seu ex-mestre, Obi-Wan Kenobi, a um duelo devastador e que definirá os rumos da história.
Não há dúvida de que as tramas convergem para este derradeiro (e bastante sombrio) capítulo, e ele alcança relativo sucesso em amarrá-las, tornando coesa a trama de toda a saga como um todo. O grande problema é o gosto amargo que fica na boca ao pensarmos que quase toda uma trilogia de filmes foi desperdiçada, com argumentos bastante pífios, para concretizar esse objetivo.
George Lucas emoldurou seus novos "Star Wars" com toda a parafernália que  fazia o figurino de seus filmes inaugurais: E que passaram a definí-los desde então -a tecnologia de ponta com a qual se materializou imagens inacreditáveis de uma galáxia muito distante, seus personagens alienígenas e seus vastos e diversos lugares. Mas o mesmo George Lucas cometeu o erro de achar que esse era o cerne de "Star Wars" quando na verdade não passa de sua moldura. A trilogia terminou ausente de empatia com seu personagem principal -Anakin Skywalker -e desprovida da identificação poderosa que a "trilogia clássica" obteve em todos os âmbitos de seu tempo.
Uma lição preciosa que o diretor J.J. Abrahams, felizmente, soube aplicar com bom senso e primor irrestrito no fabuloso Episódio 7.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Star Wars - Episódio 2 - O Ataque dos Clones

Depois da estréia de “A Ameaça Fantasma”, pode-se dizer que as expectativas para o Episódio 2 foram bastante reduzidas. Como no filme anterior, George Lucas voltava à direção o quê não pode-se chamar de uma notícia necessariamente boa. 
Todavia, as críticas negativas do Episódio 1 foram assimiladas e ele promoveu mudanças neste segundo filme: Para evitar o roteiro fraco e sem polimento do anterior, ele contratou um roteirista para trabalhar as cenas, o resultado foram diálogo mais extensivos e minuciosos, desprovidos de brilho, mas desta vez, ausentes de constrangimento; o inexpressivo garoto Jake Loyd, como Anakin dá lugar ao mais velho e mais esforçado (ainda que pouco carismático) Hayden Christensen; as cenas de ação são consideravelmente amplificadas; e o irritante Jar Jar Binks é reduzido a uma única cena (!). 
Tudo isso, contudo, não apaga um sabor um pouco desagradável que o filme deixa: George Lucas buscou fazer seu dever de casa, sim, mas ele preocupou-se em demasia com a forma de sua obra, ignorando sua essência. Há muito pouco da magia e do encanto da “trilogia clássica” nessa retomada de “Star Wars”. E olha que ele já estava no segundo filme: Restava somente mais um para acertar... 
Dez anos após os eventos do filme anterior, a República Galáctica enfrenta severos problemas quando forças separatistas, representadas por um certo Conde Dukhan, insurgem em revoltas por toda galáxia. Os combalidos Jedi precisam de uma urgente medida pacífica, mas a senadora mais capacitada para isso, Padme, corre risco de vida. São escolhidos como guarda-costas dela dois cavaleiros Jedi: o apaixonado (e instável) Anakin Skywalker, e seu mestre Obi-Wan Kenobi. Uma vez reunidos, eles seguirão rumos diferentes que levarão Obi-Wan a descobrir uma preocupante conspiração por trás de um misterioso exército de clones; enquanto que Anakin, enamorado pela bela Padme arriscará seu equilíbrio interior de cavaleiro Jedi, tornando-se sucetível ao Lado Sombrio da Força. 
Aos poucos as pontas soltas referentes à muitas questões pertinentes da saga vão se juntando (o quê era, afinal, o objetivo desta trilogia prequel desde o começo): Como e porque se deu a conversão de Anakin para o Lado Sombrio? De que forma concretizou-se a conspiração de Palpatine que expurgou os Jedi e transformou ele no Imperador Galáctico?