Mostrando postagens com marcador Rebecca Hall. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rebecca Hall. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Godzilla Vs Kong


 Se houve um sopro de esperança, em meio a esse mais de um ano de pandemia que foi 2020 e que está sendo 2021, este foi o desempenho pra lá de positivo de “Godzilla Vs Kong” nas bilheterias –tudo leva a crer que, depois de fracassos homéricos como “Tenet” e “Mulher Maravilha 1984”, as salas de cinemas têm a chance de recuperar seu apelo de público e levar as pessoas para assistirem filmes na tela grande outra vez.

Mas, e a produção responsável por tal feito, vale a pena?

Muito, sobretudo, porque nos aspectos que verdadeiramente importam, seus realizadores compreendem o que faz de um filme uma experiência arrebatadora aos olhos do público. Com competência e arrojo visual, “Godzilla Vs Kong” é o produto mais sincero e eficiente a aportar nos cinemas trazendo a proposta de transportar o público para um outro mundo do lado de lá das telas. Um mundo mágico, de perigos e deslumbres visuais, e cenas hipnóticas de destruição cuja ressonância dramática tem a apropriada duração de seu entretenimento. E isso tudo começou lá atrás, quando “Godzilla”, de Gareth Edwards, foi lançado.

Lá, naquele esforço (bem-sucedido) para trazer o icônico monstrengo nipônico para o contexto da cinematografia hollywoodiana, nos foi apresentada a ideia de que Godzilla era só primeiro de outros monstros que dariam as caras nas telas eventualmente –entre eles, o clássico macaco gigante, King Kong, no divertidíssimo e efusivo “Kong-A Ilha da Caveira” –e culminaria no encontro deles, aqui, em “Godzilla Vs Kong”.

Claro que haviam obstáculos a serem transpostos, e  primeiro deles, por incrível que pareça, era a própria história (!); afinal, ao mesmo tempo que um filme não pode deixar de ter uma premissa minimamente desenvolvida, era claro para qualquer um que ninguém iria assisti-lo interessado na construção do roteiro. Os expectadores iriam conferir a obra em busca do embate cinético entre dois dos monstros mais famosos das telas de cinemas –que já se encontraram em outras ocasiões, como naqueles filmes antigos japoneses, estrelados pelo Godzilla.

A surpresa é que a produção dirigida por Adam Wingard se sai magnificamente bem desse curioso paradoxo: Seu roteiro não é (e nem almeja ser) um primor de dramaturgia, e nem tampouco se preocupa muito com eventuais lapsos narrativos (os núcleos de personagens humanos, por exemplo, parecem pertencer a dois filmes distintos que mal se preocupam em conectarem-se uns aos outros), mas sua função, para justificar e qualificar o combate entre os dois monstros, cumpre seu objetivo, entrega sucessivas cenas espetaculares, e ainda fornece oportunidades para que imagens atordoantes sejam construídas em cena.

Quando reencontramos o descomunal Kong, ele já não está mais nos anos 1970, como em seu filme anterior, e de certa forma, nem em seu habitat natural, a Ilha da Caveira: Agora, ele está numa contenção de última geração, um simulacro high-tech da Ilha da Caveira, onde cientistas –entre eles a personagem de Rebecca Hall –estudam a possibilidade de usá-lo e controlá-lo quando assim for necessário. Fundamental para isso é o laço que Kong constrói com uma garotinha surda-muda.

A oportunidade, por sinal, não tarda a surgir: O lagartão Godzilla, uma vez mais, ressurge do fundo do oceano, mas, desta vez, ao contrário do que fez no filme de 2014, e em sua continuação, “Godzilla II-O Rei dos Monstros”, lançada em 2019, ele ataca os humanos ao invés de tentar protegê-los. Oriunda do filme de 2019, a jovem Maddie (a maravilhosa Millie Bobby Brown, da série “Stranger Things”) é a única que acredita que Godzilla não é uma força do mal e, se atacou instalações de pesquisa de uma empresa privada, é porque ele percebeu, antes de qualquer um, o perigo escondido para todo o planeta que reside ali.

Assim, Maddie, ao lado do hacker Bernie (Brian Tyree Henry) e do nerd Josh (Julian Dennison, de “Deadpool 2”), seguem uma pista que os leva até Hong Kong, onde o verdadeiro vilão do filme espera o momento de atacar –e não estou falando do personagem manipulador de Demián Bichir.

Paralelo a isso –lembra quando eu falei de dois filmes que parecem nunca se encontrar? –Kong é conduzido por outros protagonistas humanos (como o personagem de Alexander Skasgaard, de "A Lenda de Tarzan") para além do mar, e seu encontro com Godzilla. Depois disso, essa trama imbrica por alguns outros mistérios nunca relevantes o suficientes (porque, no final, tudo o que queremos são sequências de luta entre os dois monstros!) que levam até o Centro da Terra (numa belíssima referência visual e narrativa ao clássico de Jules Verne) e consequentemente à batalha-clímax, ocorrida no centro de uma metrópole, e que conta com a aparição-surpresa uma terceira (e bastante famosa) criatura.

Saído das fileiras de filmes de terror, o diretor Adam Wingard soube observar, na narrativa desse espetáculo um tanto desafiador, as engrenagens que acessam o interesse do público, bem como os fatores que diferenciam meras cenas de destruição (algo que este filme tem em profusão) das imagens antológicas de fato: A incontornável condição humana.

As câmeras prodigiosas de Wingard assumem pontos de vista tão improváveis quanto privilegiados, mas um dos aspectos mais inspirados de sua realização é compreender (e acrescentar isso ao seu espetáculo) que a circunstância humana é cheia de limitações. Como as câmeras (ou o olho humano) não podem enxergar num ângulo de 360°, os movimentos que o enquadramento realiza são insanos (chegam a ficar de ponta cabeça), isso sem falar dos solavancos, da poeira e dos detritos que parecem ser jogados em nossa cara. Essa percepção, somada aos efeitos visuais cheios de propriedade, oferecem uma formidável sensação de imersão nas cenas apoteóticas de confronto. Tudo num nível de primazia, que sinceramente, poucos esperavam.

De repente, está aí o segredo do sucesso de “Godzilla Vs Kong”: Ser tão incrivelmente surpreendente em seus acertos a ponto de atingir um nível, como cinema, que poucos realmente nutriam em suas expectativas.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O Grande Truque


 Projeto do diretor Christopher Nolan ensanduichado entre “Batman Begins” e “Batman-O Cavaleiro das Trevas”, este “O Grande Truque” pode ter sido encarado por ele como um respiro da imersão no universo de histórias em quadrinhos, imergindo, em contrapartida, nos meandros nebulosos e enigmáticos do mundo dos ilusionistas.

Curiosamente, na mesma época, outro trabalho brilhante, “O Ilusionista”, de Neil Burger, com Edward Norton, também dividiu com ele o mesmo tema, os louros da crítica e algum sucesso de bilheteria. Na comparação com a aventura mais singela estrelada por Edward Norton, “O Grande Truque” é logística e narrativamente ambicioso lançando mão de muitas aspirações cerebrais que Nolan só iria amplificar em obras futuras, transformando em seu grande diferencial, como realizador, esse esforço em conciliar, em blockbusters nada discretos, essa predisposição autoral e até intelectual com narrativas escapistas para as massas.

Muitos podem dizer que “O Grande Truque” é desafiador até demais para as percepções do público: Pra começar, há um esforço claro de Nolan e dos atores Hugh Jackman e Christian Bale em tornar ambígua a disputa implacável e incessante entre os mágicos ilusionistas Robert Angier e Alfred Borden. À despeito dessa disputa –mote central do filme –envolver os atores que viviam então Wolverine e Batman nas telas (e de ser esse embate uma clara referência aos olhos do público), não há distinção de bem e mal esboçada nas caracterizações; um elemento corajoso, mas que pode desanimar uma parte considerável da audiência.

Angier é frívolo, amargurado e rancoroso. Borden é arrogante, presunçoso e esnobe. São personagens construídos não para cativar de pronto o público, mas para enfatizar a ele suas características humanas e, não raro, reprováveis: Em ambos jaz uma obsessão injustificada de superar as realizações do outro.

Para cada truque de mágica que Angier elabora, Borden já tem um novo para arrebatar o público e lhe roubar alguns expectadores em plena Londres do Século XIX. Entretanto, sabemos que algo deu tremendamente errado: O filme já se inicia com Borden na cadeia por um crime estarrecedor. Os propósitos que levaram a esse crime são então esmiuçados num flashback –recurso que a narrativa de Nolan usa até levar o público a perder o fio da meada –e dizem respeito aos truques de mágica que, encenados noite após noite nos palcos londrinos, serviram de duelo entre dois homens dispostos a serem insuperáveis em seu ofício.

Levando o conceito de disputa às últimas consequências, Nolan arremessa seus protagonistas num empate que ganha circunstâncias cada vez mais fantasiosas e imprevisíveis –e, portanto, trágicas.

Há, no cinema de Christopher Nolan, esse inusitado resgate de temas masculinos por meio de um prisma onde gêneros improváveis são investigados. Disso se alimenta sua filmografia, incluindo a aclamada “Trilogia do Cavaleiro das Trevas”: Temos o temor do esquecimento (“Amnésia”), ou da dissolução do legado (“Interestelar”) e da imponderabilidade dos anseios (“A Origem”); em “O Grande Truque” está em pauta o medo da derrota perante um adversário, a tornar bastante humana a percepção de um filme todo incomum.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

O Presente

Nesta sua incursão na direção, o ator Joel Edgerton não esconde o apreço por Roman Polanski de quem pega emprestados estilos, características e premissa para o curioso conto de suspense que desenvolve –além de uma percepção bastante comum aos atores que se aventuram da direção de moldar uma narrativa cem por cento dependente da energia dos (bons) atores em cena.
“O Presente” tem início quando o casal Simon e Robyn (Jason Bateman e Rebecca Hall) volta a morar na mesma cidade em que ele cresceu.
Simon é ambicioso e tudo no qual consegue pensar é na disputa por um cargo elevado na empresa em que trabalha.
À Robyn, resta cuidar da nova casa e amargar a tristeza de uma gravidez que não se concluiu –ao mesmo tempo em que enxerga com melancolia as poucas chances de engravidar de novo.
Casualmente, eles se encontram com Gordon (Joel Edgerton) com quem Simon estudou no passado. As tentativas um tanto insistentes de Gordon em tornar-se amigo do casal –inclusive com inapropriados presentes deixados na porta da casa –encontram por sua vez uma hostilidade excessiva da parte de Simon.
Aos poucos, Robyn compreende que houve algo no passado dois. Algo que parece alimentar o estranho comportamento de Gordon, e do qual Simon se esquiva de falar de todas as maneiras.
Gradativamente, “O Presente” ensaia assim uma subversão daquilo que inicialmente propunha: Construía-se o palco para um daqueles típicos suspenses em que o psicopata desajustado começa a cercar e a assediar a família feliz norte-americana –algo potencializado na escolha dos atores; Jason Bateman que funciona tanto em comédias como em filmes sérios como este daqui, e Rebecca Hall, inglesa que cai como luva em papéis de boa moça –no entanto, com a chegada de novas informações do passado, Simon e Gordon vão revelando outras facetas que acabam invertendo a equação; e quem antes parecia ser o perigo em potencial pode vir a ser a vítima.
A condução bastante interessante de Joel Edgerton explora inúmeras oportunidades para criar circunstâncias e situações quase sempre notáveis do ponto de vista interpretativo. O seu manejo cuidadoso com as reviravoltas do material, porém, acaba levando-o a aliviar a mão na questão da atmosfera tensa: Com o zelo com que é levado, “O Presente” se mostra sutil demais para alarmar o expectador, objetivo principal de um filme de suspense.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Circuito Fechado


Mescla de filme de espionagem e filme de tribunal, este ‘Circuito Fechado” é uma produção britânica em toda sua pompa e circunstância; beneficia-se, particularmente, da austeridade a toda prova de um elenco hábil –inclusive, pontuais presenças coadjuvantes –que conferem sólida credibilidade a uma premissa que, se fosse encenada por histriônicos intérpretes norte-americanos, poderia resvalar no mirabolante e no improvável.
Seu protagonista é o advogado Martin Rose, vivido pelo competente australiano Eric Bana.
Rose se vê no centro das atenções ao ser escolhido como advogado num processo judicial que monopoliza a opinião pública: O julgamento de um forte suspeito terrorista, acusado de um atentado –revela brilhante e subjetivamente na cena de abertura –no centro de Londres.
Rose, contudo, não era a primeira opção: O advogado anterior suicidou-se.
Ao longo do processo, no qual assume a defesa do réu, Rose terá de lidar com a tensão mal-resolvida entre ele e Claudia Simmons-Howe (Rebecca Hall, sempre bela e focada), um relacionamento do passado que, por ventura, é também nomeada para a equipe de defesa.
É ao aprofundar-se nos detalhes do processo que o caso revela à Rose e à Claudia seus detalhes mais nebulosos e desconcertantes: A quantidade exacerbada de informação omitida, os protocolos excessivamente rígidos e confidenciais e os indícios cada vez mais alarmantes de que são espionados em todos os passos que dão, leva Rose e Claudia a constatar que existem mais segredos nesse processo do que lhes é permitido descobrir; e foi a proximidade deles que levou o advogado anterior à morte (que, para todos os efeitos, tornou-se suicídio na versão oficial).
Dirigido por John Crowley (de “Brooklyn”) que realiza uma saudável opção pelo clima bem construído em detrimento de ação constante, “Circuito Fechado” é primoroso na criação de uma atmosfera na qual se parece estar sendo vigiado o tempo todo, e onde não se pode confiar em ninguém.
O expediente de um passado amoroso entre Rose e Claudia pode parecer obviedade no início, mas ele se torna o único propósito para que ambos confiem um no outro a partir de um determinado momento da trama.
É esse viés, entretanto, de solitários protagonistas íntegros contra todo um sistema corrupto que enfraquece ligeiramente o filme, sobretudo, quando ele atinge um clímax onde o roteiro entrega um desfecho algo redundante.
Todavia, em sua admirável execução técnica, “Circuito Fechado” ombreia alguns dos grandes trabalhos no gênero thriller de espionagem que busca homenagear –e tendo Julia Stiles no elenco, e a inevitável recordação da magnífica “Trilogia Bourne” que sua presença suscita, esse mérito não é vazio.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O Dobro Ou Nada


O diretor inglês Stephen Frears não resiste à tentação de registrar um microcosmo em suas camadas humanas, morais e éticas, essa é a definição para praticamente todos os trabalhos que ele realizou.
Aqui não é diferente.
Ele lança seu olhar a um só tempo divertido e antropológico aos centros de apostas onde a protagonista cai de paraquedas. Ela é Beth Raymer, que proporciona à esmerada atriz Rebecca Hall (normalmente encarregada de papéis mais sérios) uma caracterização rica em técnicas estudadas –ainda que no fundo transpareça um certo histrionismo.
Da cidade de Tallahassee, onde amargava um degradante trabalho de stripper à domicílio, Beth vai para Las Vegas tentar a sorte e consegue emprego na casa de apostas do bookmaker Dink (Bruce Willis, em sua faceta mais vulnerável). Aos poucos, Beth se adapta aos números e às circunstâncias melindrosas das apostas fazendo o lugar usufruir de lucros.
Nesse trecho, o filme de Frears engata um ritmo de comédia... romântica, inclusive, já que o flerte algo inocente entre Beth e Dink aponta nessa direção.
Porém, o diretor está apenas se valendo de uma ampla experiência com expedientes de gênero para subverter a expectativa do público: O demasiado afeto que envolve a relação de Beth com o patrão Dink incomoda a esposa deste (Catherine Zeta-Jones) levando a moça a ser despedida.
Ao lado do apaixonado Jerry (Joshua Jackson), ela vai então para Nova York, onde se junta ao apostador Rosie (Vince Vaughn, com os mesmos tiques nervosos de sempre). Contudo, como bem lhe adverte Dink –que àquela altura já tornou-se uma espécie de mentor para Beth –as apostas são ilegais no Estado de Nova York, ao contrário do que acontece em Las Vegas, e uma aposta específica, envolvendo a vultuosa quantia de 75 mil dólares, pode colocar o FBI atrás de Beth e de Jerry.
Se “O Dobro Ou Nada” não chega aos níveis de excelência que Frears obteve em outros projetos, isso provavelmente se deve pelo fato do material tê-lo encontrado num período menos inspirado: Há algo de indiferente em sua narrativa que parece negligenciar o humor para fazer dele uma comédia e a tristeza para fazer dele um drama –ou até mesmo o amor para dele fazer um romance.
O filme termina sem um gênero definido, o que também o torna assim enfadonho na indecisão por um propósito –uma pena, o trabalho bastante radiante e notável de Rebecca Hall merecia o protagonismo de um filme mais eficaz.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

O Bom Gigante Amigo


A primeira colaboração direta de Steven Spielberg com os Estúdios Disney (se não incluirmos a participação da Touchstone Pictures na distribuição de “Cavalo de Guerra”) se esforça para unir os valores familiares e infantis das obras conhecidas do estúdio com a habilidade notória do realizador em conceber grandes obras de fantasia –nesse sentido, a sensação de manter uma tradição é mais forte do que qualquer experimentação autoral.
Até mesmo Melissa Mathison (a roteirista de “E.T.”) foi trazida à equipe na intenção de proporcionar à obra –que adapta uma obra de Roald Dahl –o verniz das icônicas fantasias do diretor.
Num clima que une habilmente a percepção de tempo e lugar presente nos trabalhos de Dahl, a atmosfera (bem como a técnica magistral) de Spielberg e o manejo emocional e lúdico de Melissa Mathison, nos é mostrada a rotina um tanto estranha da órfã Sophie (Ruby Barnhill, uma pequena prova viva da habilidade de Spielberg em arrancar magníficas interpretações de crianças): Sem qualquer compatibilidade com as outras crianças do orfanato londrino onde mora, a menina –que sofre de insônia –troca o dia pela noite, zanzando de madrugada.
Não demora muito para, nessas condições, ela fazer uma descoberta: Da janela do orfanato, ela avista uma figura improvável esgueirando-se pelas ruas iluminadas de Londres, um gigante (vivido, num delicado trabalho de captura de performance por Mark Rylance, ator que, desde “Ponte dos Espiões”, tem marcado presença constante nos filmes de Spielberg).
Testemunha involuntária da existência dele, Sophie é capturada e levada por ele até a longínqua Terra dos Gigantes, onde mora.
Entretanto, o gigante se revela bondoso –ao contrário dos demais de sua espécie, todos maiores que ele, malvados de verdade e que inclusive gostam de raptar crianças para devorá-las! –criando, com Sophie, um belo laço de amizade; ela passa a chama-lo de BGA, sigla de Bom Gigante Amigo.
Vegetariano (ele só come ‘chuchubobrinha’ um vegetal da Terra dos Gigantes, o quê lhe conferiu a estatura menor que a dos outros gigantes cuja dieta consiste de carne), a ocupação maior de BGA é a de colher os sonhos das crianças –era isso que ele fazia em Londres quando Sophie o surpreendeu –e, por vezes, manipulá-los; transformando, por exemplo, pesadelos em sonhos bons (a materialização de tais cenas é um atestado da perícia e da sensibilidade de Spielberg na lida com efeitos visuais).
A partir daí, Sophie e BGA unem-se na tentativa de advertir a rainha da Inglaterra do grande e desconhecido perigo representado pelos gigantes. E a cena, quando por fim BGA conhece a rainha (Penelope Wilton, da série “Downton Abbey”) e junto dela tem uma engraçada e protocolar sessão de chá, é divertidíssima na sátira inocente que tece do comportamento inglês.
Longe de almejar qualquer conflito mais acentuado –o quê na opinião de alguns representa seu ‘calcanhar de Aquiles’ –“O Bom Gigante Amigo” é um título deliberadamente mais humilde, mais pueril e mais ingênuo em meio à exuberante filmografia de Spielberg, que a cada ano consegue agregar novas e impressionantes obras.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Vicky Cristina Barcelona

O celebrado autor de cinema Woody Allen vinha de uma seqüência pouco frutífera de filmes realmente memoráveis na década de 1990 –e que adentrou alguns anos na década de 2000 –quando a maré começou a mudar e seu ímpeto criativo voltou com trágico suspense, carregado de aspectos de Dostoievski, “Match Point”, ambientado em Londres.
Ao mesmo tempo, parecia que ele havia descoberto uma nova musa: A formidável Scarlett Johansson, com quem depois fez o gracioso “Scoop-O Grande Furo” e este “Vicky Cristina Barcelona” –entre esses dois últimos ele ainda entregou o pouco conhecido suspense “O Sonho de Cassandra”.
Numa de suas premissas mais leves e descontraídas nos últimos tempos, Allen acompanha duas amigas norte-americanas de personalidades e temperamentos opostos que vão passar suas férias em Barcelona, na Espanha (e parecia ser também uma espécie de novo método criativo de Allen,na época, eleger cidades específicas como cenário de seus novos filmes, afastando-se –apenas por algum tempo –de sua tão adorada Nova York).
Vicky (Scarlett Johansson, perfeita e sensual como sempre, em sua terceira colaboração com o diretor) enxerga a viagem como uma forma de aproveitar a vida em toda sua plenitude, o quê inclui a possibilidade de alguns excessos. Já, Cristina (Rebecca Hall, atriz mais conhecida em teatro, que revela-se uma grata surpresa) sob o pretexto de acompanhar a amiga em seus percalços, evita as vicissitudes como forma de enfatizar sua virtude, lembrando o tempo todo que está noiva e de casamento marcado.
As duas acabam por se envolver com um sedutor artista plástico (o ótimo Javier Barden, recém-saído do oscarizado “Onde Os Fracos Não Têm Vez”) e seus sucessivos contratempos com sua tempestuosa ex-esposa (Penélope Cruz, nunca menos que sensacional no filme que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante).
Woody Allen entrega mais uma de suas teses do relacionamento de homens e mulheres, recheadas de sarcasmo e observações espirituosas. Ele utiliza os expedientes de sempre para o seu filme mais gracioso e simpático desde "Desconstruindo Harry" (pelos menos até realizar, alguns anos mais tarde, o maravilhoso “Meia Noite em Paris”), amparado, como de hábito, na maestria de um elenco brilhante.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Homem de Ferro 3

Jon Favreau, o diretor dos dois primeiros filmes do Homem de Ferro sentia-se esgotado em lidar por tanto tempo com aquele mesmo material –e seu cansaço na condução de “Homem de Ferro 2” é particularmente visível.
Tendo ele então recusado a direção do terceiro filme de Tony Stark, e antes disso, também recusado a direção do filmes dos Vingadores, a Marvel Studios foi em busca de um novo diretor (essa prática passou a ser bastante benéfica para o estúdio e suas produções, não deixando que um mesmo diretor se sobrecarregasse com sucessivos filmes).
Foi o astro Robert Downey Jr. quem interveio, sugerindo para o cargo seu grande amigo Shane Black, realizador do ótimo “Beijos e Tiros”, provavelmente a obra inicial do retorno de Downey Jr. ao estrelato.
Também ator (participou de “O Predador”), além de conceituado roteirista (criou a premissa e escreveu o roteiro dos dois primeiros filmes da série “Máquina Mortífera”), Shane Black contribuiu com seu senso de espetáculo, seu humor pontual e seu gosto por ramificações rocambolescas na trama, proporcionando ao personagem de Tony Stark um filme interessante que dá continuidade aos eventos de "Os Vingadores", mas que gerou uma controvérsia entre o público. Certamente, a maior dentre todos os filmes da Marvel: Os expectadores basicamente se dividem entre aqueles que o consideraram ótimo, tão bom quando os filmes anteriores, e aqueles que repudiaram completamente as escolhas (polêmicas é bem verdade) da história, cujas reviravoltas mostram-se desafiadoras no que tange a alguns elementos canônicos dos quadrinhos, além do humor afiado, incisivo e constante que fizeram muitos imaginar que este era um filme que não se levava a sério –e isso é tema para infindáveis debates.
Quando “Homem de Ferro 3” começa, portanto, Tony Stark (Downey Jr como sempre dando o seu melhor), o Homem de Ferro em pessoa, goza de seu status de celebridade na Costa Oeste após a Batalha de Nova York –ocorrida na segunda metade de “Vingadores” –torná-lo  famoso no mundo inteiro, junto com os outros heróis. Enquanto mantém um relacionamento relativamente sólido com Peper Potts (Gwyneth Paltrow), Tony lida, ao seu jeito, com o stress pós-traumático provocado por aquele conflito: Constrói novas armaduras sem parar!
Já, seu melhor amigo, James Rhodes (o ótimo Don Cheadle), que em “Homem de Ferro 2” assumiu a alcunha de Máquina de Combate, segue atuando agora como Patriota de Ferro. Entretanto, quando um certo Aldrich Killian (Guy Pearce) aparece, Tony começa a suspeitar de seu envolvimento em uma série de atentados relacionados a uma droga experimental, a Extremis, e que levam diretamente a um terrorista disposto a ameaçar a vida do próprio presidente dos EUA: o misterioso Mandarim (Ben Kingsley, numa atuação soberba).
Gozando do privilégio de ser o primeiro filme a iniciar a "fase 2" da Marvel Studios, ou seja, todos os planos envolvendo o Universo Marvel após o estrondoso filme dos Vingadores, “Homem de Ferro 3” foi audacioso nos rumos inventivos que buscou dar para personagens já estabelecidos –ao mesmo tempo que ele reinventou por completo o celebradíssimo arco “Extremis”, dos quadrinhos, o roteiro não se intimidou de subverter a lógica e a origem do vilão Mandarim (um personagem muito aguardado pelos fãs), dando a ele um background metalingüístico inesperado (para não dizer desconcertante!) que chocou o público, frustrando alguns expectadores e surpreendendo outros tantos.
O filme de Shane Black também mostra audácia na maneira com que amarra pontas soltas dos filmes anteriores do Homem de Ferro, firmando-se como um “final de trilogia” –ainda que todos sabiam, a trajetória de Tony Stark não tenha se acabado.
O mais controverso filme da Marvel Studios, o sarcástico e espetacular “Homem de Ferro 3” mostrou, pelo menos, que o estúdio tinha muita lenha pra queimar, mesmo depois de “Vingadores”.