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sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O Dobro Ou Nada


O diretor inglês Stephen Frears não resiste à tentação de registrar um microcosmo em suas camadas humanas, morais e éticas, essa é a definição para praticamente todos os trabalhos que ele realizou.
Aqui não é diferente.
Ele lança seu olhar a um só tempo divertido e antropológico aos centros de apostas onde a protagonista cai de paraquedas. Ela é Beth Raymer, que proporciona à esmerada atriz Rebecca Hall (normalmente encarregada de papéis mais sérios) uma caracterização rica em técnicas estudadas –ainda que no fundo transpareça um certo histrionismo.
Da cidade de Tallahassee, onde amargava um degradante trabalho de stripper à domicílio, Beth vai para Las Vegas tentar a sorte e consegue emprego na casa de apostas do bookmaker Dink (Bruce Willis, em sua faceta mais vulnerável). Aos poucos, Beth se adapta aos números e às circunstâncias melindrosas das apostas fazendo o lugar usufruir de lucros.
Nesse trecho, o filme de Frears engata um ritmo de comédia... romântica, inclusive, já que o flerte algo inocente entre Beth e Dink aponta nessa direção.
Porém, o diretor está apenas se valendo de uma ampla experiência com expedientes de gênero para subverter a expectativa do público: O demasiado afeto que envolve a relação de Beth com o patrão Dink incomoda a esposa deste (Catherine Zeta-Jones) levando a moça a ser despedida.
Ao lado do apaixonado Jerry (Joshua Jackson), ela vai então para Nova York, onde se junta ao apostador Rosie (Vince Vaughn, com os mesmos tiques nervosos de sempre). Contudo, como bem lhe adverte Dink –que àquela altura já tornou-se uma espécie de mentor para Beth –as apostas são ilegais no Estado de Nova York, ao contrário do que acontece em Las Vegas, e uma aposta específica, envolvendo a vultuosa quantia de 75 mil dólares, pode colocar o FBI atrás de Beth e de Jerry.
Se “O Dobro Ou Nada” não chega aos níveis de excelência que Frears obteve em outros projetos, isso provavelmente se deve pelo fato do material tê-lo encontrado num período menos inspirado: Há algo de indiferente em sua narrativa que parece negligenciar o humor para fazer dele uma comédia e a tristeza para fazer dele um drama –ou até mesmo o amor para dele fazer um romance.
O filme termina sem um gênero definido, o que também o torna assim enfadonho na indecisão por um propósito –uma pena, o trabalho bastante radiante e notável de Rebecca Hall merecia o protagonismo de um filme mais eficaz.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Os Imorais


Martin Scorsese (que também atua como produtor) surge como narrador exclusivamente na cena inicial onde são introduzidos os meandros complexos da protagonista Lilly, vivida maravilhosamente por Anjelica Huston. O expectador mal tem tempo de se adaptar ao ambiente intrincado que a cerca –no qual ela usa apostas em corridas de cavalo para lavar dinheiro sujo da máfia –e a tela se divide em três revelando, além de Lilly, os outros personagens em torno dos quais a narrativa irá circular: O filho dela, Roy (John Cusack) e a namorada dele, Myra (Annette Bening, um vulcão de sensualidade).
Todos eles, vivem e sobrevivem num mundo de negócios ilícitos.
Se Lilly age como bookmaker, equlibrando-se muito mal entre as possibilidades constantes de um belo golpe ou de um fim amargo pelas mãos de seus contratantes mafiosos, Roy tem lá sua rotina como trapaceiro prestidigitador –suas mãos rápidas são relativamente capazes de enganar um ou outro desavisado –nunca ganhando o suficiente, mas sempre conseguindo manter as aparências.
Já, Myra é menos bem sucedida nesse aspecto do que eles: Em geral, sua atividade é seduzir homens em troca de dinheiro (ou para sanar alguma dívida). Mas, Myra se recorda de uma época em que vivia como princesa, e deseja o retorno desses dias, desde que os golpes que ela sabe como aplicar sejam realizados ao lado de um parceiro. Ela deseja que Roy seja esse parceiro. O único problema é, para Roy, isso vai de encontro à primeira regra que ele aprendeu nesse, digamos, ofício: A de que não deve cultivar um parceiro; pois, tudo o que ganhar será dividido em dois.
É esse conflito entre Roy e Myra que movimenta as intrigas que o diretor Stephen Frears tratará de orquestrar tão bem em ritmo fervoroso: O desespero de Myra a leva a tramar um roubo ardiloso contra Lilly na medida em que toma consciência da estranha (e quase incestuosa) relação entre ela e Roy.
São as dinâmicas que o diretor Frears consegue enxergar, enfatizar e impulsionar como ninguém: Myra e Lilly são tão opostas quanto complementares (e a narrativa tanto as coloca como antagonistas, como também sublinha –para propósitos que se revelarão mais tarde –a enorme semelhança entre as duas); Roy e Myra se atraem pela similaridade intuitiva  que um tem do outro, mas paradoxalmente se repelem exatamente pela mesma razão; já, Roy e Lilly possuem uma vibração densa que custam a verbalizar –e que os leva a exasperos tensos –até chegar a brilhante (e à um só tempo trágica e conciliatória) cena final.
Pegando emprestado todos os códigos e a fina ironia do gênero noir, o diretor Frears (que dirigiu John Cusack num filme completamente diferente anos depois, “Alta Fidelidade”) realiza um filme sempre dentro de suas louváveis e notáveis características como contador de histórias: Absolutamente condizente com o universo de suspensa moral que ele cria e em torno do qual faz gravitar os ótimos personagens deste brilhante conto de humor negro.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Coisas Belas e Sujas


O diretor Stephen Frears sempre demonstrou particular fascínio por tribos urbanas, seja num registro mais ameno e gentil (caso dos aficcionados por música em “Alta Fidelidade”), seja numa verve inquisitiva e implacável (os bastidores de intrigas palacianas em “Ligações Perigosas” ou o mundo da criminalidade em “Os Imorais”).
A fauna de imigrantes que ele retrata aqui é, como em seus outros trabalhos, das mais interessantes, em parte graças ao excelente roteiro, ao magnífico ator Chiwetel Ejiofor, e a presença da badalada Audrey Tautou, recém-saída de "Fabuloso Destino de Amelie Poulain".
Ele acompanha o dia-a-dia de Okwe (Chiwetel, formidável antes mesmo de “12 Anos de Escravidão”), imigrante nigeriano ilegal na Inglaterra cuja rotina exaustiva e o inumano ritmo de trabalho com dois empregos o impede de ter um horário específico para dormir (ele contorna a letargia ocasional do cansaço com folhas verdes estimulantes que mastiga).
Numa das ocupações, ele é recepcionista noturno num hotel cinco estrelas, na outra, ele roda pelas ruas londrinas como taxista. Tudo para poder sustentar a filhinha que deixara em sua terra natal.
Ele divide seu precário e confinado apartamento (local que visita para troca esparsas de roupa e para guardar seus pertences) com a bela e arredia turca Senay (Tatou, numa personagem mais sombria, mas igualmente apaixonante) com quem parece ter um carinho dos mais relutantes.
A sua comunidade conta com vários intermediários e conhecidos que, como ele, também trabalham nos meandros da sociedade londrina –e há um prazer genuíno na maneira com que o diretor Frears compõe esse intrigante universo cena após cena.
A vida de Okwe se complica quando ele acha um coração humano num dos quartos do hotel. De uma hora para outra, Okwe se vê chantageado, incluído nas nebulosas circunstâncias de uma operação ilegal envolvendo tráfico de órgãos. Nessa complicação também estão envolvidas Senay (que o próprio Okwe conseguiu colocar no hotel como camareira) e uma prostituta; o preço caso consigam escapar ilesos é a legalidade de sua condição na Inglaterra, mas a pior alternativa pode não ser nem a cadeia, mas a provável inclemência dos criminosos.
Amparado num belo roteiro que jamais se acomoda num gênero específico –mas, que passeia com desenvoltura e charme por vários deles –o filme de Frears prende a atenção acima de tudo pela inusitada abordagem de uma série de tópicos reais do submundo, e pelo talento com que tudo é conduzido e realizado.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Philomena

Baseado em uma história real, “Philomena” foi um dos filmes indicados ao Oscar 2014 de Melhor Filme, ano que teve como vencedor “12 Anos de Escravidão”. Trata-se de um dos grandes trabalhos do diretor Stephen Frears e um dos três que ele realizou com a grande dama Judi Dench (os outros foram o divertido “Sra. Henderson Apresenta” e o mais recente “Victoria e Abdul”).
A trama se debruça sobre a dramática trajetória da irlandesa Philomena Lee (amparada numa interpretação primordial de Judi Dench), mas se descortina de fato por meio do personagem Martin Sixsmith, vivido pelo comediante Steve Coogan (que também trabalha como roteirista).
Um ex-jornalista desacreditado e desiludido por recentes complicações profissionais, Sixsmith recebe uma pouca lisonjeira proposta para tentar se manter relevante: Escrever uma história de “interesse humano” –nas palavras da voraz editora que o aborda (Michelle Fairley, a Catelin da série “Game of Thrones”).
A história que vem até ele –quase que por acaso –vem a ser de uma senhora chamada Philomena Lee (vivida quando moça pela jovem Sophie Kennedy Clark), cuja juventude foi marcada por um sofrimento desigual: Antes de completar 18 anos, ela foi seduzida por um namoradinho que a engravidou, e assim enviada à um convento onde, após dar a luz (num parto doloroso onde lhe foi negado o direito à anestesia), ela e outras jovens mães solteiras recebiam um tratamento desumano. Eram mantidas afastadas dos filhos (que aguardavam adoções eventuais) enquanto trabalhavam em regime escravo para as inclementes freiras do lugar.
Perdendo qualquer contato com seu filho, Anthony, quando ele ainda contava apenas dois anos de idade, após ser adotado por um casal norte-americano, Philomena passou cinqüenta anos sem ter qualquer idéia de seu destino, até Martin Sixsmith cruzar seu caminho.
Inicialmente a contragosto, ele vai guiando Philomena pelos caminhos obscuros de uma investigação que, em sua simplicidade, ela não era capaz de fazer sozinha. Sixsmith se dá conta assim da reprovável postura que as freiras adotavam para com aquelas jovens renegadas pelas famílias, e constata, atônito, os muitos atos lúgubres e ultrajantes acobertados até hoje na Igreja Católica.
Seguindo para os EUA, ele e Philomena buscam seguir a pista para encontrar o filho dela, o quê os leva para Washington onde descobrem quem ele se tornou –as discriminações e os aspectos da vida que viveu.
Experiente e perspicaz como poucos, o diretor Frears faz da narrativa de “Philomena” uma sucessão de contrapontos: Ele justapõe o sofrimento da protagonista ao seu comportamento benevolente e misericordioso (inclusive para com suas algozes); justapõe a denúncia que esse fato real se presta a fazer (e que abrange tantas outras pessoas que também sofreram) à jornada íntima da personagem principal; a própria Igreja –personifica nas freiras francamente arrogantes e detestáveis –e a condição de drama humano gerada por seus procedimentos passados; e, sobretudo, justapõe Sixsmith e a própria Philomena, na forma como cada um lida com as revelações que vão surgindo, em especial no desfecho, quando uma curiosa guinada parece exigir de Sixsmith (um homem ateu, plenamente culto e consciente de seu poder de entendimento) o perdão que sua indignação para com as injustiças o torna incapaz de conceder, enquanto que a velha Philomena (uma mulher idosa, não raro, mostrada pelo roteiro como alguém simples, ignorante e de conclusões freqüentemente obtusas) o faz com uma serenidade tal que a eleva.
“Philomena”, no fim das contas, é sobre isso: Os percalços imprevisíveis e odiosos da vida e do mundo que vêm para testar nossa capacidade de perdoar.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Sra. Henderson Apresenta

Eis um filme delicioso que o cinema inglês, em sua mescla incomum de fina ironia e sagaz seriedade, consegue nos entregar.
Na Inglaterra do final da década de 1930, a milionária Laura Henderson (a sempre impecável Judi Dench) fica viúva aos 70 anos de idade. Ela não encontra qualquer adequação em bordados ou em reuniões de grupos assistenciais, atividades normalmente esperadas por uma viúva, em vez disso, ela compra o depauperado teatro municipal e o reconstrói.
Como produtor de shows, ela contrata o gabaritado Vivian Van Damm (o saudoso Bob Hoskins em sua última grande atuação) que sugere uma iniciativa arrojada: Apresentações contínuas, ao longo de todo o dia.
O sucesso imediato logo dá lugar ao fracasso quando todas as outras companhias teatrais aderem à mesma tática.
A Sra. Henderson, com quem Vivian nutria uma relação das mais intensas e turbulentas, dá então uma idéia audaciosa: Introduzir nudez nos espetáculos!
O governo, enxergando uma proximidade entre a transgressão tentada no palco e a arte como era vista nos quadros dos museus –onde a nudez, afinal, era permitida e aceita –estabelece que as modelos que tirarem a roupa devem ficar efetivamente imóveis. Várias são então contratadas: Sendo aquela que mais ocupa o tempo da narrativa, a loira Maureen, interpretada pela lindíssima Kelly Reilly.
O diretor Stephen Frears opta por um caminho distinto dos filmes baseados em fatos reais ao atribuir pouco interesse nos meandros historicamente solenes do teatro, ou dos personagens que o conduziram, ou mesmo das atitudes pioneiras que eles tomaram. Sua atenção está na condução de suas tramas de natureza mais íntima que inclui, além da relação entre Vivian e a Sra. Henderson temperada com irritabilidade e afeição, porém essencialmente platônica e adequadamente britânica, os diversos humores dos integrantes do espetáculo como a dinâmica velada entre as artistas que se apresentavam de fato (cantavam e dançavam) e as modelos que precisavam ficar imóveis (às vezes, por horas) a expor sua nudez para o público.
Algum tempo depois, vem então a Segunda Guerra Mundial para complicar a vida desses artistas com outros contratempos como os bombardeios à cidade –que insistiam em ocorrer durante o show! –e a própria ameaça do governo de interdição –sob pretexto de que o sucesso do teatro ocasionava muita aglomeração!
Todos esses fatores são tratados com grande habilidade na mescla de humor e drama por Stephen Frears que entrega aqui uma obra divertida, ousada na medida em que se presta a ser –a nudez não é somente sugerida, mas ao mesmo tempo não predomina em cena –e profundamente atenta ao detalhe do significado da arte em tempos de dificuldade: A meia hora final, onde os aspectos musicais do filme crescem a olhos vistos, é um testemunho da necessidade humana de descontração e alegria trazidas em meio ao caos que as formas de arte como a  música, o teatro e certamente o cinema são capazes de levar às almas aflitas.

Despido de cinismo e imbuído de um bocado de ingenuidade, Frears concebeu, ainda assim, o que quase pode ser enxergada como um “Cabaret” dos novos tempos.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A Rainha

Há um certo espaçamento temporal através do qual o cinema (ou mais precisamente seus realizadores) adquire autonomia emocional (e, por que não, moral) para lidar com determinados acontecimentos históricos e melhor vislumbrar os desdobramentos que os anteciparam e os sucederam. Aconteceu, por exemplo, com o 11 de Setembro, cujas primeiras obras cinematográficas a abordá-lo surgiram em 2006, com “Vôo United 93”, de Paul Greenglass, e “As Torres Gêmeas”, de Oliver Stone.
No mesmo ano, foi lançado também um filme que fazia uma espécie de expiação da parte do cinema britânico acerca da morte da Princesa Diana, ocorrida num acidente em 1997.
Abstendo-se a abordar os detalhes do acidente em si (isso a mídia fez bastante) ou do período turbulento que a vida de Diana passava na época (isso, por sua vez, quem fez foi a irregular produção “Diana”, de 2014, estrelada por Naomi Watts), o filme dirigido com economia emocional até excessiva por Stephen Frears observa as conseqüências mais íntimas acarretadas pela tragédia no seio da família real, e na maneira curiosa com que a sociedade inglesa reagiu à morte da “princesa do povo” e ao aparente descaso com que tentaram tratar o fato.
O roteiro árido e objetivo de Peter Morgan opta como ponto de partida, a Rainha Elizabeth e o início de sua conflituosa relação com o Primeiro Ministro eleito Tony Blair.
Será o próprio Tony Blair quem precisará, um pouco mais tarde, apelar de certa forma ao bom senso da monarca quando começar a ficar óbvia a indignação popular crescente, em meio à comoção mundial causada pela morte da Princesa Diana num acidente automobilístico, relacionada à tentativa da família real em não expressar qualquer manifestação de pesar. O quê, ele percebe, leva o povo inglês à uma inédita tentativa de questionar a própria monarquia.
O trabalho de Frears, assim, lança um sutil olhar sobre as delicadas questões familiares que pesaram naquele momento, justapostas à uma diferenciada reação coletiva. A monarquia vista de dentro em uma perspectiva familiar de sua obrigação para com os anseios (ainda que existenciais) de seu povo.
Vencedora do Oscar de Melhor Atriz, Helen Mirren, como Elizabeth, paira pelo filme com sua magnífica presença muito bem coadjuvada pelo excelente Michael Sheen (no papel de Tony Blair). O filme só encontra certo problema no estilo excessivamente britânico, comedido e distanciado, com que o diretor Stephen Frears aborda o tema, levando este trabalho no que parece ser uma deliberada isenção de empatia.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Herói Por Acidente

O roteiro de David Webb Peoples (o mesmo de “Blade Runner” e “Os Imperdoáveis”) investiga os desdobramentos morais, mais do que o escrutínio da mídia, afastando-se assim com elegância do sub-gênero do qual parecia não ser capaz de se esquivar: O retrato quase necrófilo da mídia, a exemplo de “A Montanha dos Sete Abutres”.
Antes de expor essa denúncia, o filme do diretor inglês Stephen Frears quer refletir acerca de quem são os seres humanos envolvidos, aproximando-se um pouco mais –e promovendo a mais notável das desconstruções –do estilo de comédia que antigamente fazia Frank Capra (embora não lhe falte um elemento corrosivo e auto-depreciativo tipicamente britânico) e aproveita esse gancho para moldar uma das mais interessantes e inventivas comédias dos anos 1990.
Durante uma terrível queda de avião, a única testemunha próxima do local, o vigarista Bernie LaPlante (Dustin Hoffman, numa interpretação graciosa e minuciosa), muito a contragosto tornar-se um herói que salva –de maneira relutante, é bem verdade –a vida de dezenas de pessoas.
Uma delas é a repórter Gale Gayley (Geena Davis, recém-saída do sucesso de “Thelma & Louise”), que deseja a todo custo encontrar seu “salvador misterioso” –por conta de seus problemas com a polícia, Bernie sumiu do local do acidente assim que viu as sirenes.
Numa reviravolta notável, quem se apresenta como herói vem a ser o sem-teto John Bubber (Andy Garcia, uma boa presença) justamente enquanto Bernie amarga um breve período na cadeia. O pulo do gato do roteiro, e do próprio filme em si, é a brilhante ironia na qual, ao demonstrar insuspeito bom coração e uma vocação nata para servir de exemplo para todos, John revela-se muito mais apropriado à figura de herói do que Bernie, embora, na realidade, não o seja.

Espetacularmente beneficiado por esse prodígio de roteiro, este filme –a um só tempo um dos mais saborosos e menos lembrados daquela década –vem também abrilhantado por um exemplo ilustrativo da capacidade estóica que o ator Dustin Hoffman possui para compor personagens de características memoráveis.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Alta Fidelidade

"O quê veio primeiro, a música ou a infelicidade?"
A frase inicial de "Alta Fidelidade" pronunciada pelo melancólico protagonista já dá um tom preciso do filme: Um trabalho afiado, na medida entre o triste e o bem-humorado, onde as angústias do comportamento -sobretudo o masculino -são avaliadas com minúcias, propriedade e insuspeito carinho.
A reunião de talentos foi das mais felizes. Diretor de bons e ocasionalmente aclamados filmes britânicos, Stephen Frears soube transpor a ação do livro de Nick Hornby (um escritor cuja verve pop e espirituosa especializou-se na análise graciosa das tristezas e alegrias de sua geração) para a Chicago -quando originalmente era em Londres. O ator John Cusack, presente em algumas das mais notáveis comédias românticas dos anos 1980, revela uma atuação objetiva e sensata de um jovem adulto dos anos 1990, às voltas com as reflexões daqueles que, segundo ele, foram os "piores foras de sua vida", provocados pelo fora que levou, à pouco, de sua namorada. Essas divagações são temperadas, ampliadas, acrescidas e transfiguradas pelo acréscimo das músicas pop que possuem relação com esta ou aquela emoção suscitada e o filme explora isso magnificamente.
Genial, no seu humor e no seu drama, esse grupo consegue criar um dos mais embriagadores filmes sobre as reflexões doloridas e até patéticas do amor, com um cativante protagonista e sua mania compulsiva de fazer lista, inclusive de músicas. Como compete à uma comédia romântica que se preze, esta tem um final feliz -e ele é luminoso a ponto de deixar qualquer um com um sorriso no rosto -mas, há uma cena a mais, um instante inesperado no fim, onde o personagem de John Cusack vislumbra um possível momento de tristeza no futuro (eles são, afinal, inevitáveis)e prepara, veja só, mais uma lista de músicas para quando esse momento chegar. E o filme acaba deixando o expectador só, reflexivo, e de bem com a vida.