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terça-feira, 7 de julho de 2026

A Coisa Certa


 Este “The Sure Thing” pode perfeitamente ser enxergado como uma espécie de esboço que o diretor Rob Reiner realizou antes de conceber o clássico “Harry & Sally-Feitos Um Para O Outro”, considerado a fórmula perfeita para uma comédia romântica – e, sim, o gênero comédia romântica, em si, é basicamente uma fórmula.

Em “The Sure Thing”, os ingredientes são manuseados com alguma competência, um certo senso de experimentação e, no fim, alguns resultados até que positivos: Lá está o casal protagonista, pelo menos um deles interpretado por um ator bastante visado (ou que ainda seria muito visado) dentro do gênero – John Cusack, aqui; Meg Ryan em “Harry & Sally” – lá também estão as circunstâncias que justapõem as índoles tão opostas desse casal prestes a descobrir o amor em colisão de conceitos e de personalidades – Rob Reiner gosta, pelo jeito, de criar situações de diálogos dentro de veículos e que se desdobram, de preferência, em longas viagens.

John Cusack é Walter ‘Gib’ Gibson, jovem universitário que até não corresponde totalmente àquele arquétipo do nerd fracassado no colegial, mas que certamente não vê sua vida universitária tomar o rumo de sucesso (e de satisfação sexual!) que ele imaginava. Ele estuda Inglês em uma faculdade na Costa Leste enquanto seu amigo Lance (Anthony Edwards, de “Top Gun”) aproveita as escolas hedonistas da ensolarada Califórnia. Mas, Lance é um bom amigo: Durante as férias de fim de ano, ele prepara uma festa de arromba durante a qual planeja apresentar ao amigo uma mulher espetacular (vivida pela estreante Nicollette Sheridan) que, nas suas palavras, é ‘the sure thing’ – ou também, uma ‘garota sinal verde’, numa tradução que também serviu de título nacional secundário que o filme também recebeu aqui no Brasil.

A fim de concluir a jornada até a Califórnia e até a garota dos sonhos, Gib precisa viajar de carona, e o carro que ele toma tem, como outra carona, a CDF Alison Bradbury (Daphne Zuniga, de “Garotas Modernas”) disposta a também ir para Califórnia encontrar o noivo almofadinha, à frente do carro, e cedendo essa carona, estão o casal Gary Cooper – sim, este é o nome do personagem (!) – e Mary Ann (vividos por um Tim Robbins, ainda bem jovem e por Jane Persky). Contudo, Gib e Alison não se bicam – eles mal se suportam nas aulas em que, apesar dos pesares, têm que sentar lado a lado.

Essa animosidade, no entanto, fará Gary e Mary Ann desistir da carona que ofereceram e deixa-los na estrada para juntos ter de traçar um meio para chegar ao seu destino.

“The Sure Thing” é, pois, um road movie onde acompanhamos o casal que vive às turras avançar as etapas na sua viagem através das estradas norte-americanas, pegando ônibus, carros, caminhões e outros meios para tentar chegar onde acreditam ser seu destino sentimental – o rapaz, na garota que promete ser a mulher que ele sempre quis; a moça, no jovem que ele está convencida de que é seu parceiro ideal – obedecendo, porém, aquela máxima de que o segredo está na jornada e não no seu final, Rob Reiner deixa bem claro (na verdade, claro até demais!) que Gib e Alison se amam, e que haverão de dar-se conta disso, em meio à discussões, à brigas e reconciliações que mostrarão que, mesmo diante de suas diferenças, eles podem ser complementares num nível muito mais significativo do que os outros pares que haviam elegido.

Como muitos dos chamados ‘clássicos da sessão da tarde’ dos anos 1980, “The Sure Thing” não é nem de longe tão perfeito quanto a memória afetiva que o envolve pode levar alguns a acreditar. É uma comédia com momentos forçados (Daphne Zuniga, particularmente, padece de qualquer falta de timing cômico), com um roteiro cheio de redundâncias e de tempos mortos (nesse sentido e amparado em argumento quase idêntico, John Hugues fez um trabalho muitíssimo melhor com o sensacional “Antes Só Do Que Mal Acompanhado”). John Cusack, com o passar dos anos e com o acúmulo de experiência se tornaria um ator muito melhor, e Rob Reiner, bem, ele entregaria uma das melhores comédias românticas de todos os tempos, como foi falado, o que realmente parece converter este insípido romance juvenil num esboço, um ensaio básico para a futura realização de algo melhor.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

The Paperboy


 “Obsessão” –título nacional genérico e preguiçoso –é uma adaptação do livro de Pete Dexter feita para acomodar-se ao estilo do diretor Lee Daniels. Leia-se: Uma exposição sistemática, simultânea e convulsiva da sordidez humana em suas expressões diversas e palpáveis. Se em “Preciosa”, Daniels foi capaz de equilibrar esse olhar ultrajante e degradante das mais denegridas mazelas sociais com coerência narrativa e solidez dramática –feito que lhe valeu várias indicações ao Oscar –em “Obsessão” (ou “The Paperboy”) esse cardápio compromete um pouco o sabor do prato, embora ele ainda faça cinema relevante e digno de nota.

Cheio de maneirismos narrativos que incrementam seu filme, mas que no final revelam-se vazios (como a narração em off da atriz e cantora Marcy Gray, coadjuvante do filme), a trama regressa até o ano de 1969, numa pequena cidade do sul da Flórida, imersa em racismo e violência latente, onde um xerife intolerante é assassinado dando o estopim de toda a história. O condenado foi o morador do pântano, matuto e psicótico Hillary Van Wetter (John Cusack, asqueroso) que logo começa a trocar cartas com a abilolada Charlotte Bless (Nicole Kidman, em formidável atuação).

Jovem desiludida e inadvertidamente sexy, Charlotte nutre o péssimo hábito de ser atraída por homens que representavam a escória da humanidade –e nesse sentido, Hillary era exemplar. Em suas correspondência –ele, cumprindo pena no presídio –Charlotte e Hillary marcam casamento e ela assume a missão de inocentá-lo, crente de que não cometeu o crime. Detalhe: Hillary se encontra a poucas semanas da execução na cadeira elétrica.

Eis que entram em cena, portanto, os personagens principais do filme: Os Irmãos Jansen.

Moradores do local, eles são o jornalista Ward (Matthew McConaughey) e o jovem Jack (Zac Efron). Ward regressa para a cidade-natal que havia deixado levando o escritor negro e petulante Yardley (David Oyelowo, de “Selma”) à tiracolo, para tentar desencavar a possível inocência de Hillary, e com isso, obter uma reportagem bombástica.

Jack, por sua vez, ex-universitário, ex-campeão de natação, o fracassado da família em potencial, assume a função de motorista da dupla –e no processo de ir e vir, levando Ward, Yardley e Charlotte para o presídio, em sucessivos encontros com Hillary, Jack se apaixona por ela, atraído por sua sensualidade vulgar.

Trata-se, pois, de um apanhado peculiar de personagens no limiar de existências extremas, criando assim uma série de dinâmicas que abastecem os inúmeros gêneros que Lee Daniels se propõe a trabalhar: O suspense surge da investigação caótica e problemática de Ward e Yardley –pois, as testemunhas e os depoimentos que poderiam elucidar o caso, numa direção ou noutra, veem todos de moradores locais hostis, intratáveis, traiçoeiros e ardilosos –o drama aparece no retrato corrosivo do preconceito em seus mais nocivos aspectos, e na certeza do pleno potencial para o mal existente em cada ser humano –a medida que novas informações sobre o caso são levantadas, a inocência irônica de Hillary é, sim, ventilada, mas fica também patente a crueldade hedionda que ele próprio tem e que, posto em liberdade, haverá de praticar –o romance, por sua vez, vem da figura central e essencial de Jack (único personagem inteiramente ingênuo do filme, e portanto, os olhos do público) e da forma sem preconceitos que ele enxerga o objeto de seu desejo, Charlotte –efeito que Nicole Kidman obtém emprestando encanto verdadeiro a uma personagem complexa, porém contraditória, irritante, porém tocante, histriônica, porém no fim das contas, trágica.

Há ainda a faceta de comédia –ou seria de humor negro? –com a qual Lee Daniels parece filtrar tudo o que é registrado, numa forma de não mergulhar num marasmo caudaloso de comiseração o escárnio tão tremendo embutido no caracterizado ambiente (e nos habitantes desse ambiente).

Da forma como está, o filme conduz o expectador por meio dessas sucessões de eventos ora lastimáveis, ora conflituosos, conseguindo prender a atenção na maior parte do tempo, contudo, é inevitável que em algum momento ou outro, a narrativa desande para um caminho imprevisto e lamentável. São, afinal, almas humanas destinadas a chafurdar na lama do descaso e da fatalidade, aquelas que são colocadas no centro da atenção aqui, e não há como fazer o expectador escapar da sensação amarga e inerente de seus desfechos.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Quero Ser John Malkovich

O diretor Spike Jonze criou uma curiosa fábula sobre os meandros da metalinguagem a que se dispõe o cinema, e os percalços da fascinação da fama. Tudo isso numa história mirabolante que convida a refletir sobre uma questão pragmática: Qual é o prazer de experimentar o ponto de vista de uma celebridade?
Na trama mirabolante que ele dá vida com a contribuição do roteirista Charlie Kaufman (de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”), o ator John Cusack é Craig Schwartz, um especialista em marionetes amargando uma mediocridade que se estende aos outros âmbitos de sua vida.
Craig tem um emprego insatisfatório, uma esposa à qual trata (e é tratado) com indiferença, Lotte (Cameron Diaz, fazendo papel de feia!), e nenhuma perspectiva de que as coisas venham a melhorar.
Entretanto, quando ele começa a trabalhar num estranho escritório –localizado num meio andar de um prédio (!) –duas coisas vêm a acontecer: Primeiro, ele conhece e se apaixona por sua radiante colega de escritório, Maxine (Catherine Keener, ótima), efeito que ela desperta em Lotte também (!); e depois, ele encontra no mesmo escritório uma pequena porta que conduz por um corredor e que, ao adentrá-lo, permite acesso momentâneo à mente do ator John Malkovich (!).
E, claro, o próprio John Malkovich comparece fazendo o papel de si mesmo –e, inclusive, mostrando bastante audácia em suas escolhas visto que os rumos que a trama vai tomando revelam-se tão mais absurdos quanto também perturbadores.
Comprometido, talvez, por uma acidez melancólica que o faz de difícil digestão para o público –e aprofundando ainda mais isso ao colocar o simpático John Cusack num papel apático, quase antagônico –o filme de Spike Jonze, embora hábil, se excede nos caminhos surreais que toma, ocasionando também uma avalanche de questionamentos sobre a modernidade.
A nossa identidade é, afinal, determinante naquilo que seremos? Há uma diferença imprevisível entre aquilo que somos e o que permitimos aos olhos dos outros que sejamos?
Como o diretor espirituoso que é, Jonze não dá uma resposta. Ele discorre em cima de uma dúvida coletiva num misto de angústia e irreverência levando seu tema às últimas conseqüências, deixando o expectador num impasse surreal.
Levar um tema às últimas conseqüências, por sinal, parece ser especialidade dele, já que são de sua autoria o insano programa televisivo “Jackass” e, no cinema, os desiguais “Adaptação” (um exercício dissertativo sobre as infinitas inseguranças da criação cinematográfica), “Onde Vivem Os Monstros” (uma visão lúdica e pessoal sobre os desdobramentos ambíguos da pureza e da crueldade infantil) e “Ela” (um conto estilizado que contrapõe as facetas prodigiosas da tecnologia às inadequações afetivas do ser humano).

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Anastasia


Logo de início um dos aspectos mais surpreendentes na animação do especialista Don Bluth (de “Fievel-Um Conto Americano” e “em Busca do Vale Encantado”) –é o fato de que ela NÃO vem dos Estúdios Disney.
Isso porque “Anastasia” obedece a todos os paradigmas tornados clássicos pela fórmula Disney de se construir uma animação; sejam aquelas que ao longo dos anos se mostraram infalíveis, ou até mesmo as que foram apontadas como suas fraquezas.
Com efeito, “Anastasia” trata de uma princesa (com o inusitado pedigree de ser extraída de um acontecimento real!), tem romantismo e animais fofinhos, sequências animadas com ostensiva excelência técnica, e números musicais que se revelam obrigatórias a cada quinze minutos –e não raro testam a paciência do expectador.
A trama gira em torno da lendária princesa, filha do Czar Russo dada como desaparecida numa noite de dezembro de 1917, quando revoltosos invadiram o palácio real.
Durante essa noite trágica, a imperatriz escapa para a França, não sem antes perder sua neta mais jovem, a princesa Anastasia Romanov cuja desaparecimento, passados dez anos, ainda se encontra envolto em mistério. Teria a princesa russa morrido? Ou ela ainda estava viva em algum lugar?
Como a imperatriz havia prometido uma recompensa a quem lhe trouxesse sua neta desaparecida, muitos foram os aproveitadores que apareceram com sósias de Anastasia dispostos a faturar a gorda fortuna.
Não deixa de ser um desses aproveitadores o jovem Dimitri –que, por sinal, foi quem ajudou a verdadeira Anastasia e sua avó a escapar do palácio naquela noite –ele, ao lado de seu Tio Vlad almejam treinar uma sósia de Anastasia de modo tão impecável que ela convenceria até mesmo a já saturada imperatriz.
Entretanto, o roteiro não deixa quaisquer dúvidas de que a moça que a eles se apresenta, a órfã Ania, é a própria Anastasia; tanto que seu encontro com Dimitri e Vlad traz de volta das profundezas o demoníaco monge Rasputin –também ele um personagem que existiu de fato convertido aqui num vilão sobrenatural com trejeitos ora amedrontadores, ora histriônicos.
Roteirizado de forma pedante e acometido por toda sorte de clichês que definem as obra do sub-gênero ‘filme de princesas’, “Anastasia” supera todas as suas limitações graças ao talento de Don Bluth: Um animador ‘das antigas’, ele intercala experimentalismos em computação gráfica, bastante eficientes e interessantes nos detalhes, com o processo hoje datado da rotoscopia formulada, onde a autenticidade e a fluidez dos movimentos na animação são obtidos desenhando sobre uma filmagem feita previamente com atores reais –técnica esta que a própria Disney havia superado uma década antes.
Financiado pelos estúdios da Fox, “Anastasia” foi uma válida tentativa, nos anos 1990, em peitar a soberania longeva e inquestionável da Disney nesse terreno. Não foi de todo mal-sucedido (“Anastasia”, afinal, é uma louvável realização), mas também não se pode dizer que atingiu algum êxito: Poucos anos depois, a Disney tratou de estabelecer sua primazia técnica e artística em animação de forma indiscutível ao lançar a obra-prima “Tarzan”.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Os Imorais


Martin Scorsese (que também atua como produtor) surge como narrador exclusivamente na cena inicial onde são introduzidos os meandros complexos da protagonista Lilly, vivida maravilhosamente por Anjelica Huston. O expectador mal tem tempo de se adaptar ao ambiente intrincado que a cerca –no qual ela usa apostas em corridas de cavalo para lavar dinheiro sujo da máfia –e a tela se divide em três revelando, além de Lilly, os outros personagens em torno dos quais a narrativa irá circular: O filho dela, Roy (John Cusack) e a namorada dele, Myra (Annette Bening, um vulcão de sensualidade).
Todos eles, vivem e sobrevivem num mundo de negócios ilícitos.
Se Lilly age como bookmaker, equlibrando-se muito mal entre as possibilidades constantes de um belo golpe ou de um fim amargo pelas mãos de seus contratantes mafiosos, Roy tem lá sua rotina como trapaceiro prestidigitador –suas mãos rápidas são relativamente capazes de enganar um ou outro desavisado –nunca ganhando o suficiente, mas sempre conseguindo manter as aparências.
Já, Myra é menos bem sucedida nesse aspecto do que eles: Em geral, sua atividade é seduzir homens em troca de dinheiro (ou para sanar alguma dívida). Mas, Myra se recorda de uma época em que vivia como princesa, e deseja o retorno desses dias, desde que os golpes que ela sabe como aplicar sejam realizados ao lado de um parceiro. Ela deseja que Roy seja esse parceiro. O único problema é, para Roy, isso vai de encontro à primeira regra que ele aprendeu nesse, digamos, ofício: A de que não deve cultivar um parceiro; pois, tudo o que ganhar será dividido em dois.
É esse conflito entre Roy e Myra que movimenta as intrigas que o diretor Stephen Frears tratará de orquestrar tão bem em ritmo fervoroso: O desespero de Myra a leva a tramar um roubo ardiloso contra Lilly na medida em que toma consciência da estranha (e quase incestuosa) relação entre ela e Roy.
São as dinâmicas que o diretor Frears consegue enxergar, enfatizar e impulsionar como ninguém: Myra e Lilly são tão opostas quanto complementares (e a narrativa tanto as coloca como antagonistas, como também sublinha –para propósitos que se revelarão mais tarde –a enorme semelhança entre as duas); Roy e Myra se atraem pela similaridade intuitiva  que um tem do outro, mas paradoxalmente se repelem exatamente pela mesma razão; já, Roy e Lilly possuem uma vibração densa que custam a verbalizar –e que os leva a exasperos tensos –até chegar a brilhante (e à um só tempo trágica e conciliatória) cena final.
Pegando emprestado todos os códigos e a fina ironia do gênero noir, o diretor Frears (que dirigiu John Cusack num filme completamente diferente anos depois, “Alta Fidelidade”) realiza um filme sempre dentro de suas louváveis e notáveis características como contador de histórias: Absolutamente condizente com o universo de suspensa moral que ele cria e em torno do qual faz gravitar os ótimos personagens deste brilhante conto de humor negro.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Procura-Se Um Amor Que Goste de Cachorros

Um dos inúmeros filmes que a deliciosa Diane Lane fez após obter uma espécie de status tardio de estrela com sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz por “Infidelidade”, esta simpática comédia romântica segue à risca todos os ingredientes inerentes ao gênero –para o bem e para o mal.
Lá está o improvável casal romântico interpretado por Diane, sua beleza madura (e nem por isso menos jovial e encantadora) e seu domínio descontraído de cena, e por John Cusack, também ele muito simpático, transparecendo uma maneira algo desleixada de envelhecer.
Lá está também a premissa que os une de modo providencialmente improvável e que efetivamente os fará se apaixonar: As duas irmãs de Sarah (Diane), convictas de que os oito meses que contam de sua separação já extrapolaram sua duração (até mesmo seu pai, vivido pelo fabuloso Christopher Plummer já se virou nesse ínterim), resolvem fazer um perfil falso para ela em um site de encontros, o quê a leva ao casual Jake (Cusack), também ele preocupado com a solteirice crônica que parece estar definindo sua vida.
Jake, porém, tem parâmetros difíceis de serem alcançados por sua “mulher ideal” –um deles, gostar (ou no mínimo conhecer) o filme “Doutor Jivago”! –além disso, o primeiro encontro com Sarah não foi dos mais promissores. E ela tem outro pretendente em vista, o charmoso e disponível Bob (Dermot Mulroney), pai de uma de suas alunas (Sarah é professora pré-escolar).
De situação em situação (algumas menos engraçadas do que seus realizadores gostariam que fossem) o roteiro escrito pelo diretor Gary David Goldberg oscila entre as evidências claras e pontuais de que Sarah e Jake foram feitos um para o outro, e as circunstâncias mundanas e eventuais que os afastam –como numa típica comédia romântica...
Tão natural e deliberada é essa imbricação despretensiosa ao gênero que ele realiza, na cara de pau, a mais manjada das referências: O depoimento ao final, extraído de “Harry &Sally-Feitos Um Para O Outro”, onde o casal apaixonado esmiúça os detalhes de como se conheceram.

sábado, 25 de março de 2017

Conspiração Xangai

Este filme dificilmente chamaria a minha atenção não fosse a presença da deslumbrante Gong Li.
E realmente, exceto por ela, sobra pouca coisa relevante de fato nesta obra a moda antiga, cujos produtores parecem contentar-se com um clima charmoso para atrair algum público. O quê a pouca expressiva bilheteria, e o fato de o filme ser tão pouco lembrado mostra que não foi o suficiente.
Shangai. Com a Segunda Guerra Mundial em curso (e ainda sem a intervenção dos EUA), um agente norte-americano disfarçado de jornalista (John Cusack, num papel não muito adequado à suas capacidades como ator) chega à única cidade não ocupada da China, a fim de solucionar o mistério do assassinato de seu melhor amigo (Jeffrey Dean Morgan, em uma breve e excelente participação). As pistas o levam a um casal de aristocratas chineses (Gong Li e o sempre eficiente Chow Yun Fat) que mantém conexões com os japoneses e alemães.
Ele torna-se amigo do marido e inicia um envolvimento com a mulher que, suspeita ele, guarda muitos segredos.
Embora a narrativa almeje emular o charme dos grandes títulos deste gênero, os realizadores parecem ignorar que a grande revelação ocorrida mais ou menos na meia hora final (e que trata-se do então iminente ataque japonês planejado contra a base americana de Pearl Harbor, no Hawaí) pode ser facilmente adivinhada muito antes desse momento chegar.
Uma falha grave num filme que acerta em outros tantos quesitos: E eles respondem, sobretudo, às questões técnicas que recriam a época e a ambientação com esmero –embora esse tipo de elogio, à uma superprodução norte-americana não seja exatamente um mérito, afinal, são gastos milhões em orçamento e equipe técnica de ponta para que tais filmes realmente tenham uma qualidade visual inquestionável.
O diretor Michael Hafstrom (de filmes de terror oscilantes e irregulares como “1408” e “O Ritual”) envereda por uma produção que busca agregar um requinte maior à sua filmografia, bebendo de vastas influências cinematográficas do passado (“Casablanca”, uma das mais evidentes, embora os trabalhos de Alfred Hitchcock também tenham um ressonância talvez ainda mais poderosa) para compor esta mescla de noir e filme de espionagem que não escapa de um certo deslumbramento formal, apesar de ter Gong Li, talvez a única atriz chinesa capaz de interpretar uma femme fatale.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Além da Linha Vermelha

Logo após a realização de seu elogiado “Cinzas do Paraíso” –também conhecido como “Dias de Paraíso” –o diretor Terence Malick, realizador excêntrico e dono de uma filmografia pequena e personalíssima, entrou em um auto-exílio que durou vinte anos sem filmar absolutamente nada, por razões que jamais vieram à público (como é normal à tudo que é ligado à sua enigmática persona). Esse lapso durou até 1999, quando Malick ressurgiu para realizar este incomum épico de guerra, tão inusitado quanto intimista.
Na trama que busca adaptar sem fidelidade estrutural, mas com fidelidade ‘espiritual’ o romance poético de James Jones, um desertor do exercito norte-americano (Jim Caviezel, que posteriormente estrelaria "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson) é recrutado por seu amigo e oficial (Sean Penn) para lutar na ofensiva americana na Ásia, em Guadalcanal, na Segunda Guerra Mundial. O pelotão todo é composto (dos soldados aos oficiais) por homens divididos por seus próprios conceitos éticos e dilemas existenciais acerca da guerra, e essa angustia se manifesta em monólogos declamados em off que aclimatizam as cenas com uma sensação original (ainda que nem sempre agradável) de estranhamento –e Malick parece valer-se do mito que esses vinte anos de reclusão criaram ao seu redor para atrair para esses papéis um dos mais assombrosos elencos masculinos do cinema norte-americano: Surgem em participações ora relevantes, ora completamente corriqueiras, rostos famosos como John Travolta, Nick Nolte, George Clooney, John Cusack, Woody Harrelson, Adrien Brody, Jared Leto e muitos outros.
Muito longe de ser o filme deste diretor que mais me agradou, este “Além da Linha Vermelha” é ilustrativo do quanto o estilo contemplativo de Malick contrasta brutalmente com o de filmes como "O Resgate do Soldado Ryan" (lançado naquele mesmo ano) que abordam o conflito a partir de uma reconstituição minuciosa das cenas de guerra. Malick está mais interessado em dar voz às angústias pessoais de seus personagens, num ritmo e num tom muito particulares -ainda que seja esta uma de suas obras de aparato técnico mais vasto e meticuloso.
Se suas produções adquirem com isso uma personalidade diferencial –sempre ela inerente ao seu realizador –ao mesmo tempo isso lhes atribui um caráter de difícil acessibilidade, que o expectador menos engajado não consegue assimilar.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Alta Fidelidade

"O quê veio primeiro, a música ou a infelicidade?"
A frase inicial de "Alta Fidelidade" pronunciada pelo melancólico protagonista já dá um tom preciso do filme: Um trabalho afiado, na medida entre o triste e o bem-humorado, onde as angústias do comportamento -sobretudo o masculino -são avaliadas com minúcias, propriedade e insuspeito carinho.
A reunião de talentos foi das mais felizes. Diretor de bons e ocasionalmente aclamados filmes britânicos, Stephen Frears soube transpor a ação do livro de Nick Hornby (um escritor cuja verve pop e espirituosa especializou-se na análise graciosa das tristezas e alegrias de sua geração) para a Chicago -quando originalmente era em Londres. O ator John Cusack, presente em algumas das mais notáveis comédias românticas dos anos 1980, revela uma atuação objetiva e sensata de um jovem adulto dos anos 1990, às voltas com as reflexões daqueles que, segundo ele, foram os "piores foras de sua vida", provocados pelo fora que levou, à pouco, de sua namorada. Essas divagações são temperadas, ampliadas, acrescidas e transfiguradas pelo acréscimo das músicas pop que possuem relação com esta ou aquela emoção suscitada e o filme explora isso magnificamente.
Genial, no seu humor e no seu drama, esse grupo consegue criar um dos mais embriagadores filmes sobre as reflexões doloridas e até patéticas do amor, com um cativante protagonista e sua mania compulsiva de fazer lista, inclusive de músicas. Como compete à uma comédia romântica que se preze, esta tem um final feliz -e ele é luminoso a ponto de deixar qualquer um com um sorriso no rosto -mas, há uma cena a mais, um instante inesperado no fim, onde o personagem de John Cusack vislumbra um possível momento de tristeza no futuro (eles são, afinal, inevitáveis)e prepara, veja só, mais uma lista de músicas para quando esse momento chegar. E o filme acaba deixando o expectador só, reflexivo, e de bem com a vida.