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quarta-feira, 13 de março de 2024

Ricky Stanicky


 Os amigos Dean (Zac Efron), J.T. (Andrew Santino, de “O Artista do Desastre”) e Wes (Jermaine Fowler, de “Judas e O Messias Negro”), como qualquer ser humano, desde criança alimentaram o hábito de cometerem, vez ou outra, alguma besteira. Contudo, numa noite de Halloween, quando sem querer colocando fogo inadvertidamente na casa de um vizinho antipático, os três têm uma ideia que definiria suas vidas a partir dali: A fim de livrarem-se das consequências inevitáveis das encrencas que arrumaram, eles bolaram um amigo fictício, um certo Ricky Stanicky que, por ser um bon-vivant, adepto de viver a vida ao máximo (segundo eles, foi ao mesmo tempo viciado em drogas, viajante contumaz e ativista ecológico!), termina sendo o personagem central de todas as presepadas nas quais os três se envolviam –desde a adolescência até a vida adulta, diga-se!

Mesmo depois de casados –e com, pelo menos, um deles, T.J., se tornado pai –eles ainda recorrem à Ricky Stanicky como forma de justificar pequenas escapulidas dos compromissos e responsabilidades.

Entretanto, durante a celebração do batismo judeu do filho recém-nascido de J.T., ele, Dean e Wes são pressionados por seus cônjuges e familiares a finalmente convidar Ricky Stanick a fim de que todos os conheçam; até porque, aqui e ali, já existem alguns que começam a suspeitar, de sua real existência.

Para Dean, o principal defensor da ilusão de Ricky Stanicky, a manutenção da mentira é essencial para terem sempre uma válvula de escape para suas vidas estressantes. E com isso, os três têm a ideia de contratar Rod Rimestead (John Cena, em perfeita sintonia com o humor grosseiro do filme), um ator decadente e cheio da lábia, especializado em apresentar-se com versões humorísticas (pra não dizer vexaminosas) de músicas famosas.

Sem muita alternativa –sua vida se resume a apresentações mambembes, bebedeiras e passar a perna em terceiros para não passar fome! –Rod topa o trabalho e, no dia da celebração, sua dedicação ao papel de Ricky Stanicky se revela tão esmerada que ele não só convence a todos, como provoca um verdadeiro abalo sísmico nas vidas de Dean, J.T. e Wes.

A comédia politicamente incorreta –que praticamente desapareceu das telas de cinema nos últimos anos –havia sido uma especialidade do diretor Peter Farrelly, quando ainda dirigia em parceria com seu irmão Bobby, em décadas passadas. Após alguns filmes de menor expressão na experimentação de gêneros mais distintos e de uma inesperada vitória do Oscar (com o elogiado “Green Book-O Guia”), Peter Farrelly ensaia este retorno às raízes que, se denota uma perda até natural da desenvoltura para comédia que antes ostentava, representa, sem sombra de dúvidas, um respiro de ar fresco em meio ao circuito comercial, numa época em que o público não se surpreende com absolutamente nada e se ofende com absolutamente tudo; assim como o foi “Que Horas Eu Te Pego?” no ano passado.

“Ricky Stanicky” passa longe de ser um filme perfeito –ele não está nem mesmo entre os melhores trabalhos dos Farrelly –e a insistência de Peter em piadas referentes à pênis e a masturbação (!) é, no mínimo, incômoda, mas, a construção relativamente esmerada na estrutura de seu enredo (ainda que essa minúcia possa passar despercebida em meio ao seu intenso humor chulo) e as presenças significativas de seu elenco (Zac Efron já havia trabalho com Peter em “Operação Cerveja”, e além de John Cena, com sua persona desesperada, patética e algo comovente, o veterano William H. Macy está particularmente sensacional) apontam um diretor sempre disposto a se manter acima da média.

Ao fim, apesar da incessante inclinação ao humor inconsequente (embora as piadas não sejam tão simultâneas nem tão certeiras quanto os Farrelly fizeram ser um dia), “Ricky Stanicky” traz até algumas lições de valores: A mentira, ele reafirma, é sempre um assunto pendente que retorna para cobrar sua dívida ao mentiroso.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

The Paperboy


 “Obsessão” –título nacional genérico e preguiçoso –é uma adaptação do livro de Pete Dexter feita para acomodar-se ao estilo do diretor Lee Daniels. Leia-se: Uma exposição sistemática, simultânea e convulsiva da sordidez humana em suas expressões diversas e palpáveis. Se em “Preciosa”, Daniels foi capaz de equilibrar esse olhar ultrajante e degradante das mais denegridas mazelas sociais com coerência narrativa e solidez dramática –feito que lhe valeu várias indicações ao Oscar –em “Obsessão” (ou “The Paperboy”) esse cardápio compromete um pouco o sabor do prato, embora ele ainda faça cinema relevante e digno de nota.

Cheio de maneirismos narrativos que incrementam seu filme, mas que no final revelam-se vazios (como a narração em off da atriz e cantora Marcy Gray, coadjuvante do filme), a trama regressa até o ano de 1969, numa pequena cidade do sul da Flórida, imersa em racismo e violência latente, onde um xerife intolerante é assassinado dando o estopim de toda a história. O condenado foi o morador do pântano, matuto e psicótico Hillary Van Wetter (John Cusack, asqueroso) que logo começa a trocar cartas com a abilolada Charlotte Bless (Nicole Kidman, em formidável atuação).

Jovem desiludida e inadvertidamente sexy, Charlotte nutre o péssimo hábito de ser atraída por homens que representavam a escória da humanidade –e nesse sentido, Hillary era exemplar. Em suas correspondência –ele, cumprindo pena no presídio –Charlotte e Hillary marcam casamento e ela assume a missão de inocentá-lo, crente de que não cometeu o crime. Detalhe: Hillary se encontra a poucas semanas da execução na cadeira elétrica.

Eis que entram em cena, portanto, os personagens principais do filme: Os Irmãos Jansen.

Moradores do local, eles são o jornalista Ward (Matthew McConaughey) e o jovem Jack (Zac Efron). Ward regressa para a cidade-natal que havia deixado levando o escritor negro e petulante Yardley (David Oyelowo, de “Selma”) à tiracolo, para tentar desencavar a possível inocência de Hillary, e com isso, obter uma reportagem bombástica.

Jack, por sua vez, ex-universitário, ex-campeão de natação, o fracassado da família em potencial, assume a função de motorista da dupla –e no processo de ir e vir, levando Ward, Yardley e Charlotte para o presídio, em sucessivos encontros com Hillary, Jack se apaixona por ela, atraído por sua sensualidade vulgar.

Trata-se, pois, de um apanhado peculiar de personagens no limiar de existências extremas, criando assim uma série de dinâmicas que abastecem os inúmeros gêneros que Lee Daniels se propõe a trabalhar: O suspense surge da investigação caótica e problemática de Ward e Yardley –pois, as testemunhas e os depoimentos que poderiam elucidar o caso, numa direção ou noutra, veem todos de moradores locais hostis, intratáveis, traiçoeiros e ardilosos –o drama aparece no retrato corrosivo do preconceito em seus mais nocivos aspectos, e na certeza do pleno potencial para o mal existente em cada ser humano –a medida que novas informações sobre o caso são levantadas, a inocência irônica de Hillary é, sim, ventilada, mas fica também patente a crueldade hedionda que ele próprio tem e que, posto em liberdade, haverá de praticar –o romance, por sua vez, vem da figura central e essencial de Jack (único personagem inteiramente ingênuo do filme, e portanto, os olhos do público) e da forma sem preconceitos que ele enxerga o objeto de seu desejo, Charlotte –efeito que Nicole Kidman obtém emprestando encanto verdadeiro a uma personagem complexa, porém contraditória, irritante, porém tocante, histriônica, porém no fim das contas, trágica.

Há ainda a faceta de comédia –ou seria de humor negro? –com a qual Lee Daniels parece filtrar tudo o que é registrado, numa forma de não mergulhar num marasmo caudaloso de comiseração o escárnio tão tremendo embutido no caracterizado ambiente (e nos habitantes desse ambiente).

Da forma como está, o filme conduz o expectador por meio dessas sucessões de eventos ora lastimáveis, ora conflituosos, conseguindo prender a atenção na maior parte do tempo, contudo, é inevitável que em algum momento ou outro, a narrativa desande para um caminho imprevisto e lamentável. São, afinal, almas humanas destinadas a chafurdar na lama do descaso e da fatalidade, aquelas que são colocadas no centro da atenção aqui, e não há como fazer o expectador escapar da sensação amarga e inerente de seus desfechos.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

A Morte e Vida de Charlie


 Revelado no fenômeno adolescente “High School Musical”, o ator Zac Efron demonstrou capacidade em muitos projetos distintos que foram além da obra juvenil que iniciou sua carreira. Um desses projetos foi esta adaptação do best-seller de Ben Sherwood cujo objetivo, nem um pouco disfarçado, é levar a plateia às lágrimas. O resultado –de qualidade satisfatória –mostra que tal objetivo foi atingido por meio de méritos genuínos e sem abraçar obviedades na maior parte do tempo.

Morador de uma cidadezinha costeira, o jovem Charlie St. Cloud (Efron) vive com sua família que restringe-se à mãe enfermeira (Kim Basinger) e ao irmão pequeno Sammy (Charlie Tahan, de “Eu Sou A Lenda”). A vida segue seu rumo normal quando Charlie, que fez fama na cidade como campeão velejador, obtém uma bolsa de estudos na Universidade de Stanford e prepara-se para deixar o lugar, para ressentimento do seu irmão mais novo, para quem Charlie é um ídolo e companheiro.

Entretanto, a trama dá uma imprevista guinada quando Charlie, numa noite em que a mãe dos dois fez plantão, envolve-se num trágico acidente automobilístico com Sammy.

Charlie é milagrosamente revivido por um paramédico (vivido por Ray Liotta), mas, para Sammy já é tarde.

Contudo, Sammy não deixa Charlie em definitivo: Honrando uma promessa que fizeram em vida –de encontrarem-se, todos os dias, ao pôr-do-sol para treinarem beisebol –Sammy retorna, ao entardecer para Charlie, e somente para ele.

Com isso, nos cinco anos seguintes, Charlie abdica da universidade, dos campeonatos marítimos e de qualquer tipo de futuro, para não ter de despedir-se de seu irmão caçula, que mesmo falecido continua a visitá-lo ao fim de todas as tardes. Trabalhando assim como zelador do cemitério local, em consequência disso, Charlie se torna o ‘esquisitão da cidade’ embora ninguém –nem mesmo ele –se dê conta do dom mediúnico que ele adquiriu naquele acidente: O fantasmo de outro amigo, falecido em exercício como cadete do exército (vivido por Dave Franco) também lhe aparece numa breve, mas significativa cena.

É a jovem Tess (Amanda Crew, de “Evocando Espíritos” e “Sex Drive-Rumo Ao Sexo”), outra jovem velejadora do lugar, quem aparecerá para tentar libertar Charlie das prisões existenciais a que ele se impôs, e que o impedem de viver plenamente e encerrar seu luto.

Dirigido com hegemonia e transparência por Burr Steers (de “Orgulho & Preconceito & Zumbis”), “A Morte e Vida de Charlie” é um drama com pitadas de romance e até de certa aventura que se encaixaria com perfeição em meio aos ‘clássicos da sessão da tarde’ tão inofensivo e abertamente emotivo ele é –trata-se exatamente de uma dessas produções hollywoodianas feita sob medida para adequar-se ao gosto do público, sem ofendê-lo e sem exacerbá-lo, veículo perfeito para um astro emergente. A diferença é que, no mais, ele acerta em tudo que deveria: O astro em questão, Zac Efron, tem talento o bastante para sair-se bem em cativar o público feminino sem irritar o público masculino, a trama –com algumas reviravoltas até bastante pontuais, inesperadas e capazes de preservar o interesse na narrativa –não é condescendente para com os expectadores e o trabalho da direção conduz o filme com bela noção de ritmo, lógica e atmosfera.

Trocando em miúdos: Não é nada fora do comum, mas funciona que é uma beleza.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Vizinhos 2


 Dois anos após “Vizinhos” ter se tornado um sucesso –sobretudo, por seu desempenho em homevideo –o ator Seth Rogen (também roteirista e produtor) e o diretor Nicholas Stoller retomaram os mesmos personagens para uma nova história. Diante do fato de que o primeiro filme quase mal se sustentava por si, a pergunta que fica é: Por que?

E “Vizinhos 2” se esforça de todas as maneiras tentando respondê-la com dignidade, reaproveitando parte do mote do filme anterior, esbanjando (em alguns momentos até demais) a inclinação de seu elenco ao improviso, e introduzindo a não tão pertinente personagem de Chloe Grace Moretz, a fim de dar um elemento representativo à trama –no caso, o respaldo feminista que faltou ao primeiro filme.

Desta vez, o casal Mac e Kelly (Seth Rogen e Rose Byrne) esperam mais um bebê. Com a segunda filha a caminho, a decisão deles é vender a casa e adquirir uma outra, melhor e mais espaçosa para o aumento da família.

Entretanto, a venda será sob o sistema de caução, ou seja, seus compradores têm trinta dias para avaliar o lugar e mudar de ideia até que o acordo seja fechado. No mesmo período, uma celeuma inesperada ocupa a casa ao lado, que no filme anterior abrigou as festas de arromba da fraternidade Delta Psi: Agora, tal casa será ocupada pela fraternidade Kappa Nu, presidida pela jovem Shelby (Chloe Grace Moretz), desejosa de criar sua própria fraternidade ao descobrir que as confrarias femininas, diferente das masculinas, não podem dar festas.

Para Shelby, é uma questão de honra que garotas tenham tanto direito de festejar quanto garotos –e de promover as festas que quiserem em seus próprios termos, sem sexualização.

O problema é que, apesar das boas intenções, Shelby e suas amigas não fazem ideia de como administrar uma fraternidade. Entra em cena então o garotão Teddy Sanders (Zac Efron) que, como referendaram os acontecimentos mostrados no primeiro filme, não evoluiu muito: Enquanto seus amigos se formaram e arrumaram empregos adultos, Teddy –cuja aptidão eram mesmo as festas espetaculares –seguiu em sub-empregos, sem muito lugar onde morar (era hóspede do amigo gay vivido por Dave Franco), numa espécie de crise de meia idade prematura. Quando seu amigo resolve se casar com o namorado, Teddy recebe um ultimato: Procurar outro lugar para morar. E é assim que seu caminho se cruza com o das garotas Kappa Nu.

Agora, como ‘consultor administrativo’ das garotas, Teddy retoma a mesma dinâmica do filme original, em que elaborava festas e mais festas de um lado, enquanto de outro, Mac e Kelly bolavam suas abiloladas sabotagens.

Tudo neste segundo filme é mais idiota, mais raso e mais irritante que no filme anterior –síndrome de sequência da qual este filme mais padece.

E todas as ideias (até que promissoras) para torná-lo melhor não encontram um resultado à altura: Caso do, digamos, idealismo igualitário da personagem de Chloe Grace Moretz, um discurso muito bonito no papel e que, em teoria, engrandeceria o filme, mas, cujo roteiro é incapaz de aprofundar essa circunstância, e a personagem Shelby, que poderia acrescentar camadas ao filme, acaba completamente desperdiçada.

O mesmo vale para a repentina homossexualidade do personagem de Dave Franco (condição inexistente no filme anterior e que aqui soa arbitrária e nada relevante) e para a discussão em torno da eterna imaturidade de Teddy, seu grande elemento de vulnerabilidade do filme anterior (e também lá um pouco negligenciado) que afasta-o do papel óbvio de vilão para lhe conferir uma química inesperada e válida com o personagem de Seth Rogen –se no primeiro filme a sensação de desperdício para com essa possibilidade interessante já assombrava o trabalho dos atores que o diga neste daqui, mais interessado nas gags sucessivas, de humor ocasionalmente grosseiro, que fracassam justamente naquilo que uma comédia não deveria fracassar: Ter graça.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Vizinhos

Mais um exemplar do humor particular e idiossincrático de Seth Rogen –que atua como produtor –“Vizinhos” é uma de suas empreitadas mais bem-sucedidas, dirigido por Nicholas Stoller que também realizou “Ressaca de Amor” e “Sim, Senhor”, com Jim Carrey.
Seu tema gira em torno das lendárias festas das irmandades universitárias norte-americanas que também serviam ao mote de “Dias Incríveis” e de incontáveis comédias adolescentes dos anos 1980, como “A Vingança dos Nerds” e afins.
Seth Rogen interpreta Mac, um cidadão comum que ao lado da esposa Kelly (a bela Rose Byrne) busca convencer a si mesmo que é um homem realizado e feliz, naquele discurso motivacional de reafirmação que os americanos empurram goela abaixo uns dos outros.
A crise de meia-idade de Mac –e a nostalgia natural dos tempos de farra –ganham, dessa forma, uma personificação viva quando muda-se para a casa ao lado uma irmandade universitária presidida pelo jovem Teddy (Zac Efron), um líder atlético, carismático, descontraído e festeiro –tudo o que Mac não é, ou em última instância, o que ele reprimiu dentro de si em prol da vida adulta.
Entretanto, a reflexão no filme de Stoller não se estende para tanto: O que Teddy proporciona aos seus vizinhos (após o trivial período da adaptação onde tentativas de conciliação são tentadas e superadas) são noites mal dormidas e aborrecimentos com o som alto que logo progridem para incômodos ainda mais diretos.
De sua parte, o casal de adultos não se esforça para ser mais responsável: Mac e Kelly inventam os planos mais mirabolantes para minar a credibilidade de Teddy, inclusive, uma tentativa de fazê-lo romper os laços com seu braço direito e melhor amigo, Pete (Dave Franco).
É quando o filme revela uma imprevista compreensão de seus personagens: Se a primeira parte explorava as incongruências crescentes entre os jovens e os (um pouco) mais velhos, sob o prisma de uma sufocada crise de meia idade, na segunda, são as inseguranças de Teddy que ganham expressão na narrativa, ao descobrirmos que, em sua inaptidão intelectual, ela busca se fazer imprescindível através das festas de arromba que promove, enquanto é obrigado a ver, um amigo seguido do outro, se afastar rumo a uma vida adulta que para ele parece inacessível.
O lapso neste filme, contudo, é possuir esse detalhe sempre proeminente em sua premissa (o de uma profundidade inesperada em seus personagens assim revelada), mas nunca dele tirar o devido proveito.
O diretor Stoller –que, em “Ressaca de Amor” soube tão bem trabalhar as inseguranças masculinas com seriedade e ternura em contraste com um humor beirando ao chulo –aqui parece se contentar com as gafes e confusões eventuais de estratagemas sucessivos engendrados por meros antagonistas declarados. Acaba que até mesmo a química e a camaradagem genuína que se percebe entre os personagens de Rogen e Efron –que leva o expectador a deduzir que eventualmente ficarão amigos –não se mostra devidamente explorada na trama, que segue por um desfecho abrupto, banal e pouco memorável.
Ainda assim, “Vizinhos” fez lá seu sucesso graças aos improvisos constantes –uma característica de Seth Rogen e sua turma –que nele geraram um humor desigual e as impagáveis situações construídas nas tais festas universitárias que o cinema americano sempre soube mostrar num viés folclórico que certamente não corresponde à realidade.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Histórias de Amor


Quando o ator principal assume também a função de diretor –e nelas embute, conjugadas, todo seu repertório profissional na ênfase da atuação –as comparações com Woody Allen já se fazem inevitáveis; quando a trama então dá margem à especulação dos conflitos de um relacionamento, fica indisfarçável.
É um pouco esta a situação de Josh Radnor (um dos atores da série “How I Meet Your Mother”) nesta obra: O fato dele querer brincar de Woody Allen e dá arriscada comparação a que ele e seu filme se submetem.
Entretanto, ele se sai até que bem ao realizar uma obra sensível e de luz própria.
Jesse, seu personagem, é um nova-iorquino de trinta anos imerso nas reflexões usuais trazidas pela vida: Olha para trás com nostalgia pela juventude que passou, e sente, à frente, uma insegurança algo infantil pelo seu futuro, ou sua velhice.
Sua crise existencial se aprofunda um pouco mais quando Peter (Richard Jenkins), um de seus mais estimados ex-professores, o convida para participar da cerimônia de aposentadoria na mesma universidade onde estudou nos anos 1990.
Os novos ares embriagam Jesse. E ele conhece novos personagens que proporcionam uma avaliação em relevo de sua vida: Há Zibby (Elizabeth Olsen, mais maravilhosa impossível), uma jovem aluna cuja compatibilidade afetiva e cultural chega a atemorizar o próprio Jesse (devido à diferença de idade entre os dois); Dean (John Magaro) um jovem sensível e inteligente, cujas aptidões intelectuais o estão conduzindo para regiões negras da própria personalidade; Nat (Zac Efron), um maluco beleza –e o personagem mais divertido do filme –que aparece nos momentos mais inusitados, sempre com um mantra filosófico na ponta da língua; e a Prof. Fairfield (Alisson Janney, charmosíssima) que, em suas aulas sobre Literatura Romântica alimentou tanto essa verve esperançosa de Jesse no passado, mas que agora não tem outra coisa a lhe oferecer senão cinismo.
Radnor faz com que todos esses personagens e suas considerações pairem ao redor do protagonista como observações pertinentes sobre as variações da vida: Todos eles são fragmentos emocionais e racionais do próprio Josh Radnor e, nesse sentido, sua narrativa assume um ritmo apropriadamente sereno para acompanhar essa trajetória, onde o protagonista caminha titubeante em direção a sua concepção de amadurecimento.