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quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Resistência


 Responsável pelo aclamado “Rogue One”, o diretor Garreth Edwards realizou este épico de ficção científica que, por sua vez, em muito lembra as obras de Neil Bloomkamp (como “Distrito 9”), nas quais o futurismo inerente ao gênero serve como um estudo das complexidades humanas. Centralizando um tema muito em pauta nas discussões atuais, “Resistência” esboça um mundo onde a Inteligência Artificial evoluiu exponencialmente, a ponto de fazer frente, como espécie, à própria raça humana; nesse mundo concebido por Edwards e por seu co-roteirista, o também diretor Chris Weitz, as máquinas podem sentir (são os chamados ‘simuladores’ tão incrivelmente similares aos humanos que com eles se confundem) e, na medida do possível, podem também lutar por seus direitos –nas imagens de arquivos graduais que abrem o filme, somos inteirados da história que colocou humanos e máquinas uns contra os outros, e de como os primeiros perderiam a batalha para os segundos não fosse uma nave colossal de guerra intitulada “Nomad”, capaz de dizimar cidades inteiras escaneando seus alvos de altitudes quase orbitais.

É curioso, portanto, que uma vez tendo contextualizado esse mundo incrível (e, ainda assim, adornado de ponta a ponta com elementos palpitantes de realidade) o diretor foca sua trama num cerne assim tão intimista: O calejado soldado Joshua (John David Washington, filho de Denzel Washington e protagonista de “Tenet”), no decurso de uma missão na qual deveria rastrear a misteriosa Nirmata (uma entidade ou alguém que controla todas as estratégias adotadas pelas máquinas), acaba perdendo seu grande amor, Maya (Gemma Chan, de “Eternos”) em meio à um pesado ataque em ilhas isoladas do continente outrora conhecido como Ásia onde as máquinas criaram um reduto no qual embrenham-se e misturam-se robôs, ‘simuladores’ e humanos simpatizantes.

Cinco anos depois, Joshua é chamado para uma nova missão: A Coronel Howell (Alisson Janney) requer os resquícios de memória dele, de quando lá esteve infiltrado, para voltar à Nova Ásia e por lá encontrar o que parece ser uma espécie de arma elaborada pela resistência a favor das máquinas. Tal arma, Joshua descobre, é a garotinha Alphie (Madeleine Yuna Voyles), um ‘simulador’ de tamanha perfeição que replica involuntariamente o comportamento de uma criança, e como tal, aprende, cresce e evolui dia-a-dia. Alphie também tem poderes –pode controlar remotamente algumas máquinas próximas –que irão evoluir junto como ela, até que seja capaz de controlar a própria “Nomad” e destruí-la.

A missão da ensandecida Coronel Howell (como são ensandecidos todos os militares deste filme, inclusive seu vilão-mor, interpretado pelo ótimo Ralph Ineson) é, assim, eliminar Alphie, entretanto, Joshua é, ao mesmo tempo, aquele que pode levá-la até ela, e aquele que não a deixará eliminá-la: Alphie pode ou não ter sido criada com base na filha que ele perdeu no mesmo ataque em que Maya, ainda grávida, foi morta (!). Mais; talvez, a própria Maya possa ainda estar viva (pois há uma chance de que fosse ela a misteriosa Nirmata, esse tempo todo) e somente Alphie é capaz de levá-lo até onde ela está.

Construído com tanta ação quanto reflexão, o filme de Edwards não esconde que seu diretor ainda trabalha sobre a sombra da mitologia “Star Wars” –como lá, a premissa, no fim das contas, continua sendo a de rebeldes envoltos em surpreendente tecnologia tentando minar o poder destrutivo de uma Estrela da Morte –porém, ele o faz com uma obra de qualidade insuspeita. Mais do que qualquer outro filme já feito sobre o tema da Inteligência Artificial e seu eterno embate contra os nossos conceitos e preconceitos, “Resistência” apaga as linhas divisórias entre o que é humano e o que é mecânico –mais até do que obras que foram audaciosamente nessa direção como “Blade Runner” e “Blade Runner 2049”, “A.I.Inteligência Artificial”, “Ex-Machina” e o reflexivo “Ghost In The Shell” –criando personagens, ambientes e cenários que levantam a perturbadora discussão: Qual é, afinal, a virtude dos seres de carne e osso se eles ostentam tanta ou até mais predisposição à destruição e à auto-destruição do que os seres sintéticos?

Num emprego absurdamente inteligente e hábil dos efeitos visuais (merecedores de ganhar um certo careca dourado...), o mundo concebido em “Resistência” nos entrega cenas espantosas de um ambiente palpável, orgânico, não despido de tradição, empatia e texturas infindas para mostrar um cenário onde máquinas se integraram de tal forma ao ser humano que se tornaram quase simbióticas em relação à coisas que, presumia-se, eram tão intrinsecamente humanas como sua ancestralidade, seu exotismo e suas crenças.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

O Escândalo


 Se em princípio Jay Roach foi um realizador de comédias compromissadas tão somente com o objetivo de fazer rir (como atestam os hilariamente ácidos exemplares da série “Entrando Numa Fria”), aos poucos, filme após filme, ele conseguiu migrar para o cinema uma capacidade que já demonstrava em obras televisivas: Uma percepção desigual e afiada para registrar com urgência sublime e relevância maiúscula as arestas sociais e comportamentais de certos aspectos da modernidade na política norte-americana, como atestam os formidáveis “Virada de Jogo” (feito para TV) e “Trumbo” (lançado em cinema). Neste magnífico “Bombshell”, Roach mantêm suas câmeras aguçadas no panorama político da América (sua trama abrange o período das eleições presidenciais norte-americanas de 2015-16), ao mesmo tempo que joga luz sobre um tema cada vez mais necessário: A cultura do assédio.

Ainda no ano de 2015, a âncora Megyn Kelly (Charlize Theron, espetacular) foi escolhida pelo canal de notícias Fox News para mediar os debates presidenciais entre os pré-candidatos republicanos, entre eles, aquele que terminaria ganhando a preferência –e, no ano seguinte, as próprias eleições –Donald Trump. Embora ferrenha defensora dos ideais ultra-conservadores de direita, Megyn foi fiel ao perfil combativo com o qual era vista na mídia e confrontou Trump com perguntas incisivas sobre sua alardeada misoginia.

O episódio gerou um impasse delicado na Fox News: Ao mesmo tempo em que a rede jornalística representava um dos maiores apoios à candidatura republicana –e Megyn beneficiava-se de relativa confiança do todo-poderoso presidente do canal Roger Ailes (John Lithgow, sordidamente convertido por quilos de maquiagem) –a jornalista comprou uma briga informal contra o candidato que passou a retuitar em mídia nacional várias ofensas contra ela.

Essa transformação forçada de paradigmas de Megyn coincidiu com outro acontecimento, também ressonante, nos corredores da Fox News; transferida de um programa do horário nobre para outro na ingrata programação da tarde (por não suportar o sexismo predominante de seus colegas de cena), a apresentadora Gretchen Carlson (Nicole Kidman, ótima) abriu um processo por antigos abusos sexuais contra o próprio Roger Ailes tão logo é, por fim, demitida.

Hábil e astuta, Gretchen tinha algumas cartas na manga, como a previsível atitude de sua demissão por parte de seu patrão manipulador, mas contava com a aparição, logo após sua iniciativa, de outras mulheres que também foram assediadas. É Megyn, inesperadamente, uma delas, entretanto, ela estava longe de ser a única: Também ganha bastante espaço na narrativa a circunstância de Kayla Pospisil (Margot Robbie, em corajosa e brilhante atuação), jovem produtora em ascensão profissional dentro da Fox News que é coagida, naquela que é de longe a cena mais aflitiva de todo o filme, por Roger Ailes em pessoa à levantar sua saia até que sua calcinha fique visível. Dentre todas essas personagens, somente  a de Kayla não é precisamente real –trata-se de um amálgama de pelo menos duas dezenas de mulheres que prestaram depoimento ao roteirista do filme, Charles Randolph (de “A Grande Aposta”).

Impressionante, entre outras coisas, é também o retrato que o filme de Roach faz do clima que surge, logo em seguida, nos corredores da Fox News: Com seu presidente sendo acoado por questões imprevistas de natureza procedural, a rede move seus recursos tentando provar o contrário, que Ailes era respeitador e inofensivo (funcionárias são obrigadas a vestir uma camisa em apoio ao chefe processado e depoimentos positivos são exigidos de praticamente todas as mulheres da empresa), que provas para quaisquer acusações eram inexistentes (uma severa operação de pente-fino, inclusive com o uso de escutas telefônicas, é adotada), e que a ex-contratada do canal, Gretchen Carlson, não era alguém confiável (todo o arsenal midiático da Fox News é subitamente voltado contra a reputação pessoal e profissional dela).

Contudo, as trajetórias íntimas de cada uma dessas três protagonistas, Megyn, Kayla e Gretchen, haverá de expor os caminhos tortuosos por meio dos quais, felizmente, a verdade se fez prevalecer, levando Ailes, após uma avalanche repentina de inúmeras acusações de assédio, a ser demitido pelo próprio dono da corporação, o magnata Rupert Murdoch (uma ponta de Malcolm McDowell).

Realizado com um brilhantismo à toda prova, “Bombshell” parece confrontar o expectador com uma difícil questão: Por meio de quais engrenagens nocivas, uma série de mulheres empoderadas, em plena década de 2010, são levadas à compactuar com o abuso sexual? Parte efetiva e crucial de um movimento que chegou até tardiamente ao entretenimento (o de obras que registram e confrontam esse comportamento tóxico), o filme de Jay Roach oferece um panorama primorosamente cristalino e bem construído dessas circunstâncias, para deixar que a conclusão fique inteiramente à cargo do público.

segunda-feira, 14 de março de 2022

10 Coisas Que Eu Odeio Em Você


 "A Megera Domada" de William Shakespeare já rendera uma série de curiosas adaptações –como o faroeste “Quando Um Homem É Homem”, ou a telenovela brasileira “O Cravo e A Rosa” (!) –o que só corrobora a incrível contemporaneidade e relevância na obra do bardo. Nos primórdios da década de 2000, a peça –que, vale lembrar,  já guardava traços, digamos, juvenis –ganhou uma descontraída versão adolescente que, indicativo do material hábil e volátil de Shakespeare e da sua compreensão dos relacionamentos e da dualidade humana, encaixava-se à perfeição ao manancial de comédias românticas predominantes da época. No fim da década de 1990 e início da década seguinte, os gênero de consumo para o público jovem de então basicamente resumiam-se a filmes de terror ao estilo “Pânico” e comédias românticas adolescentes –não por acaso, jovens astros e estrelas do período podiam ser encontrados em projetos de ambas as categorias.

Com efeito, no caso deste “10 Coisas Que Eu Odeio Em Você”, grande parte da descontração e do divertimento do filme podem ser atribuídos ao elenco jovem, com alguns dos atores e atrizes mais talentosos dessa nova geração, como Joseph Gordon-Levitch (“500 Dias Com Ela”), no papel do jovem Cameron, apaixonado pela menina mais linda e graciosa da escola, Bianca (Larissa Oleynik). A saída para Cameron finalmente ganhar uma chance com sua amada será atacar de cupido: O pai dela, antiquado, decidiu que ela só poderia namorar depois de sua irmã mais velha, Katherine (Julia Stiles, de “AIdentidade Bourne”), garota geniosa de quem todo mundo foge.

O recurso é Cameron "contratar" então o único garoto da escola que toparia encarar essa fera: Patrick, o rapaz com fama de desajustado, interpretado com bela presença de cena pelo falecido Heath Ledger (o Coringa de “Batman-O Cavaleiro das Trevas”). Ironicamente, de briga em briga, de conflito em conflito, Patrick começa a se apaixonar de verdade pela moça.

Simples –e eficaz justamente por conta disso –esbanjando simpatia, e feito claramente sem pretensões além de simplesmente divertir, “10 Coisas Que Eu Odeio Em Você” preserva, ainda hoje, sua capacidade para agradar o público justamente pela postura do diretor Gil Junger, em identificar as qualidades em sua produção –resumidas à ótima química de seu elenco –e ao enfatizar a força perene presente na simplicidade da premissa afiada e enxuta, bolada por Shakespeare a pelo menos dois séculos antes e, mesmo todo esse tempo depois, ainda capaz de capturar, em minúcia e perfeição, os altos e baixos do relacionamento amoroso.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Eu, Tonya

Tonya Harding, pivô de um famoso escândalo envolvendo o ataque a uma de suas concorrentes nas disputadas Olimpíadas de Inverno durante os anos 1990, era uma personagem difícil, hostil, anti-social e osso duro de roer –à essas características muito humanas, o diretor Craig Gillespie acrescenta outra: Incompreendida.
Munido do formidável roteiro de Steven Rogers e produzido pela estrela Margot Robbie (que também interpreta Tonya), Gillespie consegue encontrar, num inesperado ponto de vista desta história difundida pela imprensa de então como um conto de fadas disfuncional, um relato aflitivo, ora engraçado, ora entristecedor, sobre os papéis ingratos que a vida, o ambiente nocivo que nos cerca e as redundâncias da mídia podem nos reservar.
Por meio de depoimentos alternados (e engraçadíssimos no esmero de suas caracterizações) somos apresentados aos recortes narrativos habilmente justapostos da vida de Tonya Harding (à quem Margot Robbie empresta brilho genuíno e um encanto incomum que vem dela própria) nascida na cidade de Oregon, em Portland, que, desde muito pequena, sofreu na mão da mãe autoritária, insensível e controladora, LaVona (Allison Janney, fabulosa no papel que lhe deu o Oscar 2018 de Melhor Atriz Coadjuvante).
Embora a filha tivesse uma habilidade realmente singular para a patinação no gelo, LaVona não a incentivava da maneira certa. Em vez disso, LaVona fazia cobranças desmedidas, recriminava a filha, ainda com pouca idade, pelo dinheiro que era obrigada a gastar nos treinamentos, e impunha um controle sobre a vida dela que frequentemente se convertia em abuso.
Essa criação levou Tonya a crescer grosseira, ressentida, rancorosa e beligerante.
Quando Tonya atinge a idade adulta e conhece Jeff Gilloly (Sebastian Stan) que vem a se tornar seu marido, levando-a a sair de casa e das opressões praticadas pela mãe, ela apenas troca um abusador por outro: Instável, iletrado e ignorante, Jeff tinha brigas domésticas homéricas com Tonya (que também não era alguém fácil de lidar) que sempre culminavam em agressão.
A essa vida de infortúnios, sempre com a constante ameaça da pobreza da classe baixa americana, e a discriminação por seu estatuto social proletariado, a patinação no gelo surge como uma promessa de um amanhã melhor para a tão maltratada protagonista (vale lembrar que, embora muitas cenas sejam feitas por dublês, Margot Robbie realmente treinou arduamente para executar muitas das manobras sobre patins que vemos).
Contudo, a biografia minuciosa e bem elaborada que toma conta da primeira parte do filme serve só para contextualizá-la. A parte que interessa ao público –como a própria Tonya, em dado momento, observa sarcasticamente –vem a ser a controversa participação de Tonya nas Olimpíadas de 1994, num episódio que curiosamente ficou no subconsciente do público como se tivesse sido a própria Tonya Harding quem tivesse golpeado e quebrado o joelho da competidora Nancy Kerrigan.
E muitos são os que, estranhamente, lembram do incidente dessa maneira.
Segundo o filme, não foi assim que aconteceu.
Durante as idas e vindas na relação com Jeff, Tonya se dedicava às Olimpíadas de Inverno que tinha disputado dois anos antes, e lutava para se aperfeiçoar e recuperar a forma com a qual tinha sido capaz de executar o dificílimo Salto Axel Triplo (ela foi a única patinadora americana a realizar tal feito) ganhando o Campeonato de Patinação no Gelo do Reino Unido.
Sua meta era obter a tão sonhada medalha olímpica.
Contudo, ameaças de morte acirraram os nervos de Tonya tornando a fragilidade psicológica mais um dos obstáculos que ela teria de enfrentar ainda durante o Campeonato Regional do Noroeste do Pacífico. Jeff, seu marido, numa amostra de burrice profunda, tem a ‘brilhante’ ideia de enviar cartas ameaçando de morte também a competidora de Tonya, Nancy Kerrigan (Caitlin Carver, de “Cidades de Papel”), para, na opinião dele, “igualar o jogo” –nessa empreitada estúpida, ele tem o auxílio e o incentivo do mais estúpido ainda Shawn (Paul Walter Hauser, de “O Caso Richard Jewell” e “Infiltrado Na Klan”), que afirmava atuar como guarda-costas de Tonya, quando na verdade não trabalhava com coisa alguma, enquanto morava com sua mãe e dizia para todo mundo que era perito em Contra-Espionagem e Contra-Terrorismo –é um daqueles personagens tão absurdos e non-sense que só é crível por tratar-se de um ser oriundo da vida real mesmo!
Nesse ponto do filme, por sinal, a quantidade de personagens absurdos e non-sense aumenta quando entram em cena os dois estabanados comparsas que deveriam entregar a carta de ameaça à Nancy, mas, em vez disso, são instruídos por Shawn a invadir sorrateiramente o ginásio de treinamento e quebrar-lhe a perna (!). Ocorrência que põe o FBI atrás de todos.
Para tentar elucidar uma circunstância cheia de meandros confusos –e que, à época confundiu a opinião pública –Gillespie lança mão de uma série de subterfúgios, de depoimentos subjetivos  de revelações e informações, em meio aos quais deixa claro o papel nada inocente, mas definitivamente, longe de ser o principal culpado de Tonya Harding naquilo tudo. Infelizmente, o que ocorreu, no fim das contas, é inversamente oposto: Embora Jeff e Shawn tenham sido sentenciados, Tonya foi afastada em definitivo da patinação artística a única aptidão que possuía e amava (tocante a cena –fictícia –em que ela implora ao juíz, ainda no tribunal, que não lhe tire a única coisa que sabe fazer na vida); no subconsciente do público, sua punição foi ainda mais injusta: Ela passou a ser lembrada, julgada e taxada como a grande vilã de uma história na qual entrou quase de gaiato empurrada pela má fé de outrem, pelas próprias escolhas infelizes e pelo meio tóxico em que foi criada e no qual aprendeu a viver.
É, pois, uma espécie de justiça poética que vem a lhe proporcionar este magnífico filme realizado por Graig Gillespie (uma ficção amparada em fatos reais, é sempre bom lembrar), na atuação espantosa e rica em maneirismos nada óbvios da sensacional Margot Robbie, e na tardia conscientização que provoca no público de que os EUA em particular, e o ser humano em geral, procuram, mesmo nos complicados dramas humanos como este, os estereótipos básicos e simplificados através dos quais possam amar e, sobretudo, odiar, sem maiores entendimentos.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A Enfermeira Betty


Indissociavelmente relacionado às suas obras agressivas sobre a oposição dos sexos –e, não raro, acusado de misoginia –o diretor Neil LaButte, ao adentrar os anos 2000 buscou livrar-se desse rótulo em algumas obras de apelo e temática inesperada, esforçando-se, contudo, em manter um discurso que soasse relevante.
“A Enfermeira Betty” padece dessa incongruência na qual um diretor de perspicácia cultural, intelectual e artística parece usar de uma premissa algo absurda para jogar conversa fora.
Empregando alguns maneirismos que, mais tarde, ela adotaria para compor Bridget Jones, a ótima Renee Zellwegger une graciosidade e um contundente senso de imersão para viver a sonhadora Betty, uma jovem garçonete casada com o rude, infiel e detestável Del (Aaron Eckhart, ator-fetiche de LaButte). Betty é fã incondicional de uma novela chamada “Razões Para Amar” –que ela assiste para alimentar sua obsessão pelo protagonista Dr. David Ravell (Gregg Kinnear).
A guinada na vida de Betty ocorre quando seu marido realiza transações ilegais envolvendo drogas e acaba sendo visitado por dois assassinos de aluguel, vividos de forma nada convencional por Morgan Freeman e Chris Rock.
Sem que eles percebam, Betty testemunha o assassinato do próprio marido, mas não é pânico a sua reação: Numa explicação não muito convincente, Betty ‘apaga’ o ocorrido de sua mente e passa a viver dentro da realidade da novela que assistia –e isso a leva a pegar a estrada em direção à Los Angeles, onde planeja encontrar-se com o próprio Dr. Ravell; que ela agora acredita ser não somente um personagem real, como também seu ex-noivo (!).
Em seu encalço, estão os dois assassinos contratados, já que a droga que justificou toda a confusão está dentro do carro de Betty –contudo, ao longo dessa perseguição, o assassino de aluguel mais velho, Charlie (personagem de Morgan Freeman) passa a alimentar certo fascínio por ela.
Frouxo no gênero ao qual prentende pertencer (ostenta seriedade demais para uma comédia; cinismo demais para um romance; galhofa demais para um drama) e algo suficiente nos expedientes psicológico que se mete a adotar. “A Enfermeira Betty” se faz memorável única e exclusivamente graças à magnífica presença de Renée Zellwegger: Antes de ganhar este inesperado papel protagonista onde encara grandes atores como Morgan Freeman e Gregg Kinnear, ela só havia aparecido como mais uma mocinha romântica em “Jerry Maguire-A Grande Virada”.
Aqui sua atuação é um achado do início ao film, equilibrando nuances delicadas de uma personagem difícil, nada inteligível e ainda assim desafiadora, a qual ela consegue tirar de letra e ainda trazer para si a simpatia do expectador.
Pena o filme a que ela pertence não estar à altura de sua atriz principal.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Histórias de Amor


Quando o ator principal assume também a função de diretor –e nelas embute, conjugadas, todo seu repertório profissional na ênfase da atuação –as comparações com Woody Allen já se fazem inevitáveis; quando a trama então dá margem à especulação dos conflitos de um relacionamento, fica indisfarçável.
É um pouco esta a situação de Josh Radnor (um dos atores da série “How I Meet Your Mother”) nesta obra: O fato dele querer brincar de Woody Allen e dá arriscada comparação a que ele e seu filme se submetem.
Entretanto, ele se sai até que bem ao realizar uma obra sensível e de luz própria.
Jesse, seu personagem, é um nova-iorquino de trinta anos imerso nas reflexões usuais trazidas pela vida: Olha para trás com nostalgia pela juventude que passou, e sente, à frente, uma insegurança algo infantil pelo seu futuro, ou sua velhice.
Sua crise existencial se aprofunda um pouco mais quando Peter (Richard Jenkins), um de seus mais estimados ex-professores, o convida para participar da cerimônia de aposentadoria na mesma universidade onde estudou nos anos 1990.
Os novos ares embriagam Jesse. E ele conhece novos personagens que proporcionam uma avaliação em relevo de sua vida: Há Zibby (Elizabeth Olsen, mais maravilhosa impossível), uma jovem aluna cuja compatibilidade afetiva e cultural chega a atemorizar o próprio Jesse (devido à diferença de idade entre os dois); Dean (John Magaro) um jovem sensível e inteligente, cujas aptidões intelectuais o estão conduzindo para regiões negras da própria personalidade; Nat (Zac Efron), um maluco beleza –e o personagem mais divertido do filme –que aparece nos momentos mais inusitados, sempre com um mantra filosófico na ponta da língua; e a Prof. Fairfield (Alisson Janney, charmosíssima) que, em suas aulas sobre Literatura Romântica alimentou tanto essa verve esperançosa de Jesse no passado, mas que agora não tem outra coisa a lhe oferecer senão cinismo.
Radnor faz com que todos esses personagens e suas considerações pairem ao redor do protagonista como observações pertinentes sobre as variações da vida: Todos eles são fragmentos emocionais e racionais do próprio Josh Radnor e, nesse sentido, sua narrativa assume um ritmo apropriadamente sereno para acompanhar essa trajetória, onde o protagonista caminha titubeante em direção a sua concepção de amadurecimento.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Os Vencedores do Oscar 2018

A cerimônia que comemorou os noventa anos da maior premiação do cinema foi marcada pela celebração das mudanças proporcionadas pelas denúncias de assédio que afloraram ano passado, e pela exigência de uma indústria mais saudável e justa.
As gafes históricas transcorridas no ano anterior também pareceram assombrar a cerimônia, lembradas pelo apresentador Jimmy Kimmell com algumas piadas nervosas, e com um zelo redobrado no anúncio da categoria principal; realizado pela mesma dupla do ano passado, Warren Beatty e Faye Dunaway.
Talvez um reflexo disso, a entrega dos prêmios se mostrou mais inesperada e sensata do que o normal.
Houve mais democracia –quase todos os indicados levaram uma ou outra estatueta –e algumas surpresas bem-vindas, como o Oscar de Melhor Roteiro Original para “Corra!”.
A divisão de opiniões que tomou os críticos nas últimas semanas afetou o desempenho do até então favorito “Três Anúncios Para Um Crime” que acabou ficando com os prêmios de Melhor Ator Coadjuvante, para Sam Rockwell, e de Melhor Atriz, para Frances McDormand –dona do discurso mais poderoso e arrebatador da noite!
Com isso, “A Forma de Água”, de Guillermo Del Toro, se tornou o primeiro filme de fantasia a levar os Oscars principais (Melhor Filme e Melhor Diretor) desde “O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei”. Aliás, desde 2012, a Academia não premiava um mesmo filme com esses dois Oscars.
Além do absoluto e merecido reconhecimento à Gary Oldman (Melhor Ator por “O Destino de Uma Nação”) sobrou espaço para conferir três estatuetas à “Dunkirk” e duas para “Blade Runner 2049” –incluindo a de Melhor Fotografia, a primeira conquistada pelo veterano Roger Deakins.

MELHOR FILME
"A Forma da Água"

MELHOR DIREÇÃO
"A Forma da Água", Guillermo Del Toro

MELHOR ATRIZ
Frances McDormand, "Três Anúncios Para Um Crime"

MELHOR ATOR
Gary Oldman, "O Destino de Uma Nação"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Allison Janney, "Eu, Tonya"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Sam Rockwell, "Três Anúncios Para Um Crime"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Blade Runner 2049"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Icarus"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Heaven Is A Traffic Jam On The 405"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Uma Mulher Fantástica" (Chile)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"Dunkirk"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"Blade Runner 2049"

MELHOR MAQUIAGEM
"O Destino de Uma Nação"

MELHOR FIGURINO
"Trama Fantasma"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Dunkirk"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"A Forma da Água"

MELHOR TRILHA SONORA
“A Forma da Água"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Remember Me", de "Viva-A Vida É Uma Festa"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Corra!"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Me Chame Pelo Seu Nome"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Viva-A Vida É Uma Festa"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Dear Basketball"

MELHOR EDIÇÃO
"Dunkirk"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"The Silent Child”

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

As Horas

Adaptação de uma obra literária do escritor Michael Cunningham, ganhador do prêmio Pulitzer, este “As Horas” pode não ser meramente acessível a quem não tem idéia do exercício narrativo proposto naquele livro –e, por conseqüência, neste filme, dirigido com eficácia e alguma frieza por Stephen Daldry (do ótimo “Billy Elliot”).
Cunningham parte de uma dissertação na forma de três histórias complementares uma à outra que versam sobre a premissa embutida no livro “Mrs. Dolloway”, de Virginia Woolf (onde são relatadas as 24 horas de sua protagonista, uma organizadora de festas às voltas as obrigações detalhistas de seu trabalho e o pungente fantasma da depressão) –“As Horas” é, por sinal, o título que a escritora inicialmente almejou para sua obra.
Em Los Angeles nos anos 1940, a dona de casa depressiva Laura Brown (Julianne Moore, impecável), não por acaso, uma leitora do livro "Mrs. Dolloway", ao mesmo tempo que é negligenciada pelo marido obtuso e relapso (John C. Reilly) passa toda uma tarde considerando a idéia de suicídio, para a aflição de seu filho pequeno que aos poucos vai se dando conta da infelicidade inominável da mãe.
Já, em Nova York nos anos 1990, a metódica Clarissa Vaughan (Meryl Streep, em sua excelência de sempre) por sua vez a própria personificação da personagem do livro (ela também é organizadora de festas), prepara o evento do aniversário de seu melhor amigo, um artista plástico homossexual (vivido por Ed Harris) cuja saúde se acha deteriorada pela AIDS.
Enquanto que, numa afastada mansão da Londres dos anos 1920, a própria Virginia Woolf (Nicole Kidman, irreconhecível e vencedora do Oscar de Melhor Atriz), às voltas com o ainda manuscrito do próprio "Mrs. Dolloway" questiona suas orientações como escritora e como mulher.
O resultado desse empenhado esforço em depositar a relevância literária numa narrativa cinematográfica que agregasse também seu valor artístico, acabou rendendo um filme denso e difícil, debruçado sobre a irreprimível depressão de suas personagens. Nada, nem mesmo as ocasionais e espirituosas transições de uma trama para outra, são capazes de amenizar a carga dramática que ele emana, fazendo deste um trabalho um tanto quanto inacessível e desgastante.
Toda essa austeridade e compromisso fizeram uma bela campanha na temporada de premiações e no Oscar 2002 (ainda que o prêmio de Melhor Atriz para Nicole tenha sido a única honraria que de fato recebeu).
Em tempo: Foi realizada em 1997, uma adaptação do próprio “Mrs. Dolloway”, estrelada por Vanessa Redgrave e dirigida por Marleen Gorris (de “A Excêntrica Família de Antonia”).

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2018

Saíram o nome de todos os indicados ao Globo de Ouro, um dos prêmios mais importantes da temporada que pavimenta o caminho para o prêmio maior, o Oscar.
Vamos às indicações e às considerações (lembrando que aqui só serão mencionados os indicados de cinema):

Melhor filme dramático
"Me chame pelo seu nome"
"Dunkirk"
"The post"
"A forma da água"
"Três anúncios para um crime"

De imediato já se lamenta a ausência de Denis Villeneuve e seu primordial “Blade Runner 2049”. Mas os cinco indicados até que resumem bem o supra-sumo qualitativo do ano, com o elogiado filme de Guillermo Del Toro surpreendentemente superando em indicações os trabalhos de Nolan e Spielberg.

Melhor ator em filme dramático
Timothée Chalamet, "Me chame pelo seu nome"
Daniel Day Lewis, "Trama fantasma"
Tom Hanks, "The post: A guerra secreta"
Gary Oldman, "O destino de uma nação"
Denzel Washington, "Roman J. Israel, Esq."

Com a exceção do jovem Timothée Chalamet por "Me Chame Pelo Seu Nome", esta categoria vem dominada por veteranos: Daniel Day Lewis, no seu alardeado último filme da carreira, Tom Hanks, no que parece ser mais uma colaboração vencedora com Steven Spielberg, Denzel Washington, em mais uma costumeira amostra de seu brilhantismo. Todos já possuem mais de um Globo de Ouro debaixo do braço, o único que jamais conquistou o prêmio é Gary Oldman, espero que este seja o seu ano.

Melhor atriz de filme dramático
Jessica Chastain, "A grande jogada"
Sally Hawkins, "A forma da água"
Frances McDormand, "Três anúncios para um crime"
Meryl Streep, "The post: A guerra secreta"
Michelle Williams, "Todo o dinheiro do mundo"

Os rumores apontam um possível domínio de Frances McDormand nesta temporada: Ao que parece, seu trabalho em “Três Anúncios Para Um Crime” iguala sua premiada atuação em “Fargo”. Mas, ainda dá para torcer por Jessica Chastain, impecável como sempre no primeiro filme dirigido pelo prestigiado roteirista Aaron Sorkin, por Sally Hawkins, maravilhosa interpretando uma surda-muda na bizarra história de amor de Del Toro e até por Michelle Williams no filme de Ridley Scott.
Em meio à todas, ela, sempre ela, Meryl Streep, desta vez sob a direção de ninguém menos que Steven Spielberg, o quê deve pesar e muito na decisão de quem premiar...

Melhor diretor
Guillermo del Toro, "A forma da água"
Martin McDonagh, "Três anúncios para um crime"
Christopher Nolan, "Dunkirk"
Ridley Scott, "Todo o dinheiro do mundo"
Steven Spielberg, "The Post"

Por alguma estranha razão, as premiações revelam-se rabugentas com as obras de Christopher Nolan nesta categoria –ele aparece aqui, com a esperança de um reconhecimento pairando no ar, mas certamente terá de superar a elogiada produção de Spielberg e mais ainda, o favoritismo que parece estar se construindo em torno de Del Toro.
Curiosa também a lembrança de Ridley Scott por um filme que está sendo mais falado pelo fato de terem removido a participação de Kevin Spacey –trocado por Christopher Plummer –já durante a pós-produção, em razão de denúncias de assédio sexual.

Melhor filme de comédia ou musical
"O artista do desastre"
"Corra!"
"O rei do show"
"I, Tonya"
"Lady Bird: é hora de voar"

Uma vez que relevamos o detalhe ridículo de terem indicado numa categoria reservada para filmes de comédia uma obra de terror (o ótimo “Corra!”), dá para dizer que os filmes indicados aqui até superam os da categoria de drama.
Ao menos no fator curiosidade: Quer algo mais interessante que um filme elogiadíssimo inspirado nos bastidores do pior filme de todos os tempos (o infame “The Room”, de Tommy Wiseau), uma traquinagem notável cortesia do ator James Franco.
A cotação dos demais, “O Rei do Show”, “I, Tonya” e “Lady Bird” não poderia ser melhor.
Resta saber qual deles irá despontar como favorito. Por ora, muito se fala de “O Rei do Show”, mas minha aposta vai para James Franco e seu “O Artista do Desastre”.

Melhor atriz em filme de comédia ou musica
Judi Dench, "Victoria e Abdul: o confidente da rainha"
Helen Mirren, "The Leisure Seeker"
Margot Robbie, "I, Tonya"
Saoirse Ronan, "Lady Bird"
Emma Stone, "A guerra dos sexos"

A ganhadora do ano passado, Emma Stone surpreendeu emplacando mais uma indicação, agora por um filme muito bem avaliado dos mesmos diretores de “Pequena Miss Sunshine”. Aparentemente, suas maiores concorrentes são a linda Margot Robbie, que surpreendeu meio mundo com a força de sua atuação em “I, Tonya” e a sensacional dama inglesa Judi Dench por “Victoria e Abdul”.
Emma e Margot que me perdoem, mas minha torcida é dela!

Melhor ator em filme de comédia ou musical
Steve Carell, "A guerra dos sexos"
Ansel Elgort, "Em ritmo de fuga"
James Franco, "O artista do desastre"
Hugh Jackman, "O rei do show"
Daniel Kaluuya, "Corra!"

Adorei a indicação de Ansel Elgort –esse garoto vai longe! –como também a do sempre carismático Hugh Jackman (num papel que tem bem a cara dele, de ‘showman’) e, vá lá, a do talentoso Daniel Kaluuya (embora eu insista: O filme dele não é comédia!!!).
No entanto, por uma série de razões é James Franco, pelo já memorável “O Artista do Desastre” quem merecia a supremacia nesta temporada de prêmios.

Melhor atriz coadjuvante
Mary J. Blige, "Mudbound"
Hong Chou, "Pequena grande vila"
Allison Janney, "I, Tonya"
Laurie Metcalf, "Lady Bird: É hora de voar"
Octavia Spencer, "A forma da água"

Melhor ator coadjuvante
Willem Dafoe, "Projeto Flórida"
Armie Hammer, "Me chame pelo seu nome"
Richard Jenkins, "A forma da água"
Christopher Plummer, "Todo o dinheiro do mundo"
Sam Rockwell, "Três anúncios para um crime"

Há um comentário subliminar na indicação de Christopher Plummer por um filme no qual ele entrou aos quarenta e cinco do segundo tempo, substituindo o ator original Kevin Spacey. Mas, Plummer é um ator fenomenal e não tenho dúvidas de que merece a lembrança.
No mais há uma certa tendência em reconhecer o trabalho de Willem Dafoe que pode se sair bem na temporada de premiações, seu maior concorrente é, sem duvidas, Armie Hammer.

Melhor animação
"O Poderoso Chefinho"
"The Breadwinner"
"Viva: A vida é uma festa"
"O touro Ferdinando"
"Com amor, Van Gogh"

“Viva-A Vida É Uma Festa”, da Pixar, ainda não estreou aqui no Brasil, mas vem arrebatando público e crítica mundo afora, como é habitual do estúdio, o que já fez dele o favorito da categoria contra obras curiosas como o lírico “Com Amor, Van Gogh” ou a recriação nos tempo de hoje (leia-se, em computação gráfica) do cultuado curta animado “O Touro Ferdinando”, pelo brasileiro Carlos Saldanha.

Melhor canção original
"Home", "O touro Ferdinando"
"River", "Mudbound"
"Viva: a vida é uma festa"
"The star", "The star"
"This is me", "O rei do show"

Melhor trilha sonora
Carter Burwell, "Três anúncios para um crime"
Alexander Desplat, "A forma da água"
Johnny Greenwood, "Trama fantasma"
Hans Zimmer, "Dunkirk"
John Williams, "The post: a guerra secreta"

Melhor filme estrangeiro
"Uma mulher fantástica" (Chile)
"First they killed my father" (Camboja)
"In the fade" (Alemanha)
"Loveless" (Rússia)
"The square" (Suécia)

Por aqui, pelo menos, nada do nosso “Bingo-O Rei das Manhãs”... Dentre estes cinco, os mais falados e comentados são “First They Killed My Father”, dirigido por Angelina Jolie e com todo o engajamento que se espera dela, e “The Square”, o filme sueco estrelado por Elizabeth Moss (da série “Mad Men”) e vencedor da Palma de Ouro no último festival de Cannes.

Melhor roteiro
"A forma da água"
"Lady Bird"
"The Post: a guerra secreta"
"Três anúncios para um crime"
"A grande jogada"

Agora é só esperar e especular. Os vencedores serão anunciados na cerimônia do dia 7 de janeiro.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A Garota No Trem

É muito legal ver a iniciativa do diretor Tate Taylor em manter-se variado ao assumir esta adaptação do best-seller, “A Garota No Trem”, de Paula Hawkins, ainda que o resultado não iguale seu até então melhor filme, “Histórias Cruzadas”.
É por sinal, possível enxergar similaridades entre os dois projetos, especialmente, na atenção e no carinho que o diretor dedica às personagens femininas.
E também no primor com que escolhe as atrizes para interpretá-las.
Falta, contudo, certa experiência para Tate Taylor saber enfatizar as grandes interpretações que surgem em cena –talvez, por se arriscar num gênero como o suspense, no qual a abordagem do drama não é o objetivo em si, mas a moldura para transposição da trama para o público, ele demonstrou menos serenidade aqui do que em outros de seus trabalhos.
De qualquer forma, há algo de irrepreensível na atuação de Emily Blunt, que interpreta Rachel, uma alcoólatra que passa de trem diariamente em frente á duas residências vizinhas. Numa, mora a mulher que vive a vida que antes era sua –ela casou-se com o ex-marido de Rachel e agora está na casa que era dela. Na outra, mora a jovem que vive a vida idealizada que Rachel gostaria de viver –ela e seu jovem e vigoroso marido estão visivelmente apaixonados.
Mas, nem tudo é como a mente fragilizada de Rachel pensa: a jovem, de nome Megan, interpretada pela linda Haley Bennett (de “Sete Homens e Um Destino”) com olhos de ressaca tal e qual a intrigante Capitu de Machado de Assis, trabalha como babá na casa de Anna (Rebecca Fergunson, de “Missão Impossível-Nação Secreta”), a atual esposa do ex de Rachel.
A narrativa alterna os pontos de vista dessas três protagonistas –não raro enfatizando o antagonismo entre elas –e alternando também a cronologia a fim de revelar gradativamente a trama sórdida que involuntariamente as une.
Até que Megan desaparece, e os indícios logo começam a apontar para uma tragédia.
Rachel que, em sua atroz instabilidade psicológica surge como uma das possíveis suspeitas do crime, acredita que viu algo revelador da janela do trem em suas sucessivas passagens pela frente da casa.
Esmiuçar tais lembranças escorregadias que insistem em se dissolver em sua mente para elucidar esse mistério passa então a ser uma espécie de objetivo na vida de Rachel, quando aparentemente ela não tinha mais nenhum. Entretanto, não apenas esses segredos haverão de esclarecer o que aconteceu com Megan, como também farão Rachel e Anna descobrirem a real verdade acerca do próprio passado.
Livro e filme, portanto, não economizam na dramaticidade que permeia a vidas dessas três protagonistas. Se o livro vale-se de inúmeros lances tipicamente literários para tornar a trama envolvente, o filme –na falta de um meio para recorrer às mesmas manobras –busca por artifícios mais cinematográficos e termina tropeçando em alguns deles.
É mencionado no making of que “A Garota No Trem” é “Janela Indiscreta” em movimento, e a referência ao mestre Hitchcock até poderia engrandecer ainda mais o trabalho de Tate Taylor, mas ao contrário do mestre, Taylor deixa de lado a sugestão implícita no promissor ponto de vista expressado no primeiro (e melhor) terço da obra para sustentar-se, a partir da metade, no folhetim básico, o quê torna seu filme redundante.