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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Mank


 Na cerimônia do Oscar de 1942, “Cidadão Kane” levou tão somente o Oscar de Melhor Roteiro Original dentre outras nove indicações, e é, em parte, as explicações para esse prêmio que o filme de David Fincher oferece. Ele também dá ao público um panorama curioso do revelo político de uma época (e assim, uma analogia para o revelo político do tempo presente), um vislumbre cheio de propriedade do showbusiness visto por outro ângulo (o de dentro de sua engrenagem criativa) e uma reflexão a um só tempo amarga e agridoce sobre a vaidade em oposição ao talento e ao arrependimento.

Ainda no fim da década de 1930, o roteirista Herman J. Mankiewicz, também conhecido como Mank (Gary Oldman, sempre brilhante) é contratado pelo assim chamado garoto-prodígio de Nova York, Orson Welles (Tom Burke, de “Furiosa-Uma Saga Mad Max”), a fim de escrever o roteiro para sua aguardadíssima estréia cinematográfica. Mank é enviado pelo taxativo Welles para uma pousada no meio do deserto, aos cuidados da enfermeira Fräulein Frieda (Monika Gossmann), e sobretudo, da jovem secretária britânica Rita Alexander (Lilly Collins), instruída a ajudá-lo na escrita do roteiro –que ele tem menos de noventa dias para concluir! Na ocasião, Mank se vê fisicamente imobilizado na cama –resultado de um acidente automobilístico que sofrera semanas antes –mas, sua maior moléstia é o roteiro em si: Mank quer escrever uma audaciosa biografia disfarçada de William Randolph Hearst, poderoso magnata da imprensa de então, e as consequências desse ato podem ser caras tanto a ele quanto ao seu parceiro de empreitada, Orson Welles.

Tecnicamente, “Mank” é uma obra prodigiosa –Fincher filmou em preto & branco, além de utilizar enquadramentos com foco profundo no primeiro plano e na imagem de fundo simultaneamente tal e qual Welles fez em “Cidadão Kane”, na realidade, o próprio Fincher já havia demonstrado seu imenso apreço por “Kane” em referências um pouco mais sutis no brilhante “A Rede Social”, contudo, a história contada aqui é, também ela, notável –o roteirista é Jack Fincher, irmão do diretor. Nela, testemunhamos idas e vindas no tempo (flashbacks, a exemplo da estrutura narrativa do próprio clássico retratado) vamos daquele recluso hotel no deserto ao ano de 1934 quando Mank teve contato com William Randolph Hearst (Charles Dance) e forjou com ele o que parecia ser o princípio de uma genuína amizade. Willy, como era chamado, já havia consolidado seu império jornalístico na Costa Leste e começava a estender seus domínios para o cinema e os estúdios de Hollywood –ele compreendia que o futuro se encontrava nos filmes falados e que o cinema mudo tinha seus dias contados. Não lhe faltavam bajuladores (entre eles, o influente e inclemente Louis B. Meyer, chefe da MGM, vivido por Arliss Howard, de “Nascido Para Matar”), e talvez por isso, Willy dava inesperada importância aos comentários pra lá de afiados que partiam de Mank, colocando-o sempre ao seu lado durante as festas em sua mansão. É lá que Mank conhece Marion Davies (Amanda Seyfried, genial), caso amoroso de Willy, décadas mais jovem que ele e, frequentemente, favorecida entre os estúdios (Marion era atriz) por sua relação.

A amizade entre Mank e Marion é bela e verdadeira, no entanto, ela não deixa de sofrer com os contratempos que mudavam o mundo de então: De uma influência avassaladora e venal, Willy leva os estúdios da MGM a bancar a oposição contra a eleição do democrata Upton Sinclair, criando curta-metragens tendenciosos, demagógicos e numa escala inédita para a época que conseguem, em pouco tempo, mudar os rumos da campanha causando desinformação entre os eleitores. Fiel aos seus ideais, Mank se opõe à essas posturas e acaba caindo em desgraça junto ao círculo pessoal de Willy, que incluía entre outros o produtor Irvin Thalberg (Ferdinand Kingsley).

São essas experiências que levam ao roteiro não despido de rancor que ele tece naquele quarto no deserto, retratando Hearst como um homem político, populista e oportunista, reservando algumas farpas até mesmo para Marion, fazendo uma impiedosa caricatura dela e de seu relacionamento.

Espelhado no próprio “Cidadão Kane” em diversos aspectos, não apenas na forte referência visual monocromática ou no formato desafiador de seu enredo, “Mank” também constrói um personagem cheio de camadas de ambiguidade e dubiedade moral que, mesmo diante de algumas boas intenções e certamente alimentado por suas convicções políticas, urgiu uma obra a partir do ressentimento e do desdém. Uma obra que não escapou de ser um dos melhores filmes de todos os tempos.

Os percalços mais do que impressionantes do caminho de “Kane” até seu lançamento –e do embate fenomenal entre Welles e Hearst –estão muito bem registrados no brilhante documentário “A Batalha Por Cidadão Kane”, aqui, nesta produção, Fincher se concentra em outra coisa: Num personagem que influenciou Welles, e que esteve no centro de alguns acontecimentos decisivos para os rumos do cinema e da política norte-americano na primeira metade do Século XX. Não interessa à Fincher algumas obviedades como capturar bastidores já conhecidos ou repetir um possível enaltecimento à “Kane”, sua obra é inteligente e loquaz (como em “Zodíaco”, os atores têm de declamar o roteiro, em diversas cenas, com o dobro ou o triplo de agilidade para que as falas não extrapolem uma duração usual), complexa em termos emocionais e factuais, adulta e aberta a diversas reflexões.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

A Letra Escarlate


 Em tempos em que Demi Moore é sondada para a ganhar o Oscar de Melhor Atriz pelo surpreendente “A Substância”, vamos voltar numa época em que muitos acreditam que isso era algo impossível de se acontecer, mais precisamente no ano de 1995, quando do lançamento do drama “A Letra Escarlate” que veio acompanhado junto de uma campanha para levá-la ao Oscar. O que terminou resultando em ainda mais chacota em relação aos dotes dramáticos de Demi como atriz –por aqueles anos, ela viu, paralelo ao crescimento de seu status como estrela de cinema, as indicações a si mesma como Pior Atriz do Ano no Framboesa de Ouro se multiplicarem.

É verdade que o filme também não ajuda muito: A cena inicial (uma reunião de índios para uma espécie de cortejo fúnebre) já deixa bem claro as propensões do diretor Roland Joffé (que dirigiu “A Missão”, um hábil retrato do conflito indígena) para inserir mais aventura no texto todo drama e folhetim extraído do romance literário de Nathaniel Hawthorne (já adaptado para cinema, inclusive, por Win Wenders, e muito homenageado na comédia “A Mentira”). Na Nova Inglaterra, um vilarejo na América ocupado por uma comunidade de imigrantes ingleses recebe entre seus recém-chegados Esther Prynne (Demi Moore), enviada por seu marido, Roger Prynne, para que, antes de sua chegada, comece os preparativos para arrumar a casa em que irão viver.

Logo de cara, Esther demonstra iniciativa e independência que alarmam os mandatários locais, homens religiosos de rígido código moral para os quais o papel da mulher, em sociedade, deve vir cercado por regras de opressão. Com o tempo, Esther –que casou-se ainda bem nova, com um homem mais velho –torna-se amiga do pastor Arthur Dimmesdale (Gary Oldman), por quem acaba, mais tarde, se apaixonando.

Ator tão talentoso quanto generoso, Oldman já era calejado em papéis de vilão naquele período (havia feito, além de “Drácula de Bram Stoker”, também “O Profissional” e “O Quinto Elemento”), o que faz de sua escolha para o papel de galã romântico uma alternativa bastante curiosa –e um dos poucos lampejos inspirados do filme.

Enamorados um pelo outro, Arthur e Esther têm uma fortuita noite de amor quando acreditam que o marido de Esther, Roger (interpretado, à propósito, por Robert Duvall), foi morto num ataque de índios à sua embarcação. Na verdade, Roger terminou prisioneiro dos selvagens que o mantêm cativo por um tempo; quando ele, entre um e outro surto de loucura, começa a absorver alguns de seus costumes.

Quanto à Esther, ela engravida e, quando esse fato se torna óbvio para a comunidade (evidenciando também o adultério que ela cometeu), os senhores locais exigem que ela revele a identidade de seu amante, a fim de enforcá-lo. Esther guarda segredo para poupar a vida de Arthur, mas acaba vítima das consequências: Nos meses que se seguem, ela é aprisionada (acaba sendo solta apenas quando, por fim, dá à luz a uma menina, de nome Pearl), e quando ganha a autorização para voltar para casa e cuidar da filha, ela tem uma letra ‘A’ escarlate costurada às suas roupas –a indicação e a constante lembrança de que ela foi adúltera e, por isso, deve sofrer retaliação moral da comunidade, para onde quer que vá.

Ao melodrama clássico, esboçado com pompa e circunstância no livro original –e que foi relativamente assim mantido em outras adaptações mais ou menos bem sucedidas do material –o diretor Roland Joffé acrescenta doses de paranóia e suspense (quando Roger, mais vilanesco do que nunca, regressa dos mortos e, munido de outra identidade, promove uma ‘caça às bruxas’ na aldeia a fim de descobrir  quem foi o homem misterioso com quem Esther envolveu-se), além de, ao fim, até um pouco de ação (quando os índios, mostrados naquele início, decidem invadir a aldeia dando um golpe de misericórdia nas sandices generalizadas dos homens brancos)! Nada disso, porém consegue extrair seu filme de uma certa apatia –na verdade, até piora um pouco as coisas: Tantas são as desventuras a abater-se sobre sua sofrida protagonista, e tão esmerado é o esforço dos realizadores para torná-los uma penitência sem fim, que o papel de amante misterioso resguardado ao omisso Arthur termina fazendo-o parecer um tremendo idiota na maior parte do tempo –o que, claro, depõe terrivelmente contra o romance que, em inúmeras momentos (sobretudo, na inserção quase onipresente da melosa trilha sonora de John Barry), este filme parece querer ser.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Os Indicados Ao Oscar 2021


 As indicações ao Oscar 2021 apontam, acima de tudo, as predisposições atuais da Academia de Artes Cinematográficas, e duas delas se destacam com ênfase: A inclusão e representatividade cada vez mais em voga (refletida nas indicações de “Judas e o Messias Negro” e “Minari” para Melhor Filmes; e de “A Voz Suprema do Blues” em outras categorias) e o advento implacável das obras vindas das plataformas de streaming (que, em função do ano de pandemia, alcançaram números sem precedentes tanto entre os indicados como no número de indicações; sendo o recordista deste ano, “Mank”, de David Fincher, com 10 indicações, oriundo da Netflix).

Eis os indicados:

MELHOR FILME

  • Meu Pai
  • Judas e o Messias Negro
  • Mank
  • Minari
  • Nomadland
  • Bela Vingança
  • O Som do Silêncio
  • Os 7 de Chicago

MELHOR ATOR

  • Riz Ahmed - O Som do Silêncio
  • Chadwick Boseman - A Voz Suprema do Blues
  • Anthony Hopkins - Meu Pai
  • Gary Oldman - Mank
  • Steven Yeun – Minari

Tal e qual Peter Finch (ganhador em 1977), Masimo Troisi (indicado em 1996) e Heath Ledger (ganhador, como coadjuvante, em 2009), foi a vez do falecido Chadwick Boseman ganhar uma indicação póstuma de Melhor Ator, e a comoção de sua partida já o faz favorito ao prêmio, embora seu trabalho seja de fato primordial.

Em outras circunstâncias haveriam chances reais para o surpreendente desempenho de Riz Ahmed (possivelmente o mais impactante dos cinco). No caso de “Mank”, seja o filme como um todo, seja o formidável trabalho de Gary Oldman, a opinião dos críticos tem se dividido, reduzindo suas chances ao mero reconhecimento respeitoso da indicação. Há quem diga que Anthony Hopkins ocupa a vaga que poderia ter sido de Delroy Lindo (por “Destacamento Blood”), agora, espantoso mesmo é ver Steven Yeun (mais conhecido pela série “The Walking Dead”) concorrendo ao prêmio.

MELHOR ATRIZ

  • Viola Davis - A Voz Suprema do Blues
  • Andra Day - The United States vs. Billie Holiday
  • Vanessa Kirby - Pieces of a Woman
  • Frances McDormand - Nomadland
  • Carey Mulligan - Bela Vingança

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

  • Maria Bakalova - Borat 2
  • Glenn Close - Era uma Vez um Sonho
  • Olivia Colman - Meu Pai
  • Amanda Seyfried - Mank
  • Yuh-Jung Youn – Minari

As duas categorias de atrizes devem movimentar as casas de apostas: Por hora, na categoria principal, tudo está bastante concorrido; Viola Davis se tornou, oficialmente, a atriz negra com mais indicações ao Oscar na história do cinema, mas são as outras quatro que disputam a tapa a estatueta; Frances McDormand é forte e tem o respaldo dos críticos (e do Festival de Veneza), no entanto, vem de uma premiação relativamente recente (em 2018, por “Três Anúncios Para Um Crime”), aumentando as chances das promissoras e fantásticas Vanessa Kirby e Carey Mulligan (a primeira é protagonista de uma obra contundente, dramática e desafiadora, e é dona de minha torcida; a segunda estrela um brilhante conto moral sobre retaliação e emancipação), no caminho das duas, a pouco conhecida Audra Day que traz consigo nada menos que o Globo de Ouro de Melhor Atriz.

Entre as coadjuvantes, chama a atenção a ausência de Jodie Foster, ganhadora do Globo de Ouro da categoria, fortalecendo as chances de Amanda Seyfried ver seu magnífico trabalho em “Mank” ser reconhecido, a despeito das surpresas de Glenn Close (num filme que os críticos não aprovaram com unanimidade) e de Maria Bakalova (com justiça, a grande surpresa da continuação de “Borat”).

MELHOR ATOR COADJUVANTE

  • Sacha Baron Cohen - Os 7 de Chicago
  • Daniel Kaluuya - Judas e o Messias Negro
  • Leslie Odom Jr. - Uma Noite em Miami
  • Paul Raci - O Som do Silêncio
  • Lakeith Stanfield - Judas e o Messias Negro

Curiosa a inclusão de Sacha Baron Cohen e Leslie Odom Jr. entre os coadjuvantes, eles que são praticamente os protagonistas de seus próprios filmes (Baron Cohen chegou a ganhar o Globo de Ouro de Melhor Ator).

Apesar de tudo, parece um caminho tranquilo para Daniel Kaluuya chegar à vitória, ele que compete com o próprio colega de elenco, Lakeith Stanfield.

MELHOR FOTOGRAFIA

  • Judas e o Messias Negro
  • Mank
  • Relatos do Mundo
  • Nomadland
  • Os 7 de Chicago

MELHOR FIGURINO

  • Emma
  • A Voz Suprema do Blues
  • Mank
  • Mulan
  • Pinóquio

MELHOR DIREÇÃO

  • Thomas Vinterberg - Another Round
  • David Fincher - Mank
  • Lee Isaac Chung - Minari
  • Chloé Zhao- Nomadland
  • Emerald Fennell - Bela Vingança

A Academia sinaliza novos paradigmas ao indicar, pela primeira vez, duas mulheres ao prêmio de Melhor Direção, sem falar que uma delas, Chloe Zhao, desponta como favorita.

Seus mais fortes competidores ao longo da tempora de prêmios estão lá –David Fincher e Emerald Fennell –mas a grande (e feliz) surpresa dessa categoria é a inclusão do dinamarquês Thomas Vinterberg.

MELHOR DOCUMENTÁRIO

  • Collective
  • Crip Camp
  • The Mole Agent
  • Professor Polvo
  • Time

MELHOR DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM

  • Collete
  • A Concerto is a Conversation
  • Do Not Split
  • Hunger Ward
  • A Love Song for Latasha

MELHOR MONTAGEM

  • Meu Pai
  • Nomadland
  • Bela Vingança
  • O Som do Silêncio
  • Os 7 de Chicago

MELHOR FILME INTERNACIONAL

  • Another Round (Dinamarca)
  • Better Days (Hong Kong)
  • Collective (Romênia)
  • The Man Who Sold His Skin (Tunísia)
  • Quo Vadis, Aida? (Bósnia)

MELHOR ANIMAÇÃO

  • Dois Irmãos
  • A Caminho da Lua
  • Shaun, o Carneiro, o Filme-A Fazenda Contra-Ataca
  • Soul
  • Wolfwalkers

Não era muito difícil prever quais seriam as melhores animações do ano, e não é tão difícil prever que deve ser a vencedora: Até aqui, há poucas chances do Oscar negar a vitória ao belo e emocionante “Soul”, da Pixar, apesar dos honoráveis esforços de “Dois Irmãos” (também ele, da Pixar), de “A Caminho da Lua”, da Netflix (que apesar do capricho talvez seja o mais burocrático dos cinco) e dos inteligentes e criativos “Shaun, o Carneiro, o Filme-A Fazenda Contra-Ataca” e “Wolfwalkers” (surpresa mesmo seria a vitória –merecida –de um desses dois!).

MELHOR CABELO E MAQUIAGEM

  • Emma
  • Era uma Vez um Sonho
  • A Voz Suprema do Blues
  • Mank
  • Pinóquio

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

  • Terence Blanchard - Destacamento Blood
  • Trent Reznor e Atticus Ross - Mank
  • Emile Mosseri - Minari
  • James Newton Howard - Relatos do Mundo
  • Trent Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste - Soul

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

  • “Fight for You” - Judas e o Messias Negro
  • “Hear my Voice” - Os 7 de Chicago
  • “Husavik” - Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars
  • “Io Sí” - Rosa e Momo
  • “Speak Now” - Uma Noite em Miami

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

  • Meu Pai
  • A Voz Suprema do Blues
  • Mank
  • Relatos do Mundo
  • Tenet

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO

  • Burrow
  • Genius Loci
  • If Anything Happens I Love You
  • Opera
  • Yes-People

MELHOR CURTA-METRAGEM

  • Feeling Through
  • The Letter Room
  • The Present
  • Two Distant Strangers
  • White Eye

MELHOR SOM

  • Greyound
  • Mank
  • Relatos do Mundo
  • Soul
  • O Som do Silêncio

MELHORES EFEITOS VISUAIS

  • Amor e Monstros
  • O Céu da Meia-Noite
  • Mulan
  • O Grande Ivan
  • Tenet

"Tenet", a polêmica obra de Christopher Nolan que ousou desafiar em vão a pandemia, surge na categoria de Efeitos Visuais com uma de suas duas únicas indicações –prova de que o estilo de Nolan já não seduz, nem público, nem crítica como antigamente.

Foram lembradas produções inesperadas como o ótimo “Amor e Monstros”, com Dylan O’Brien (minha aposta!), o pouco acessível “O Céu da Meia-Noite”, de George Clooney, e duas produções da Disney, o claudicante “Mulan” e  o ecológico “O Grande Ivan”.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

  • Borat 2
    Meu Pai
    Nomadland
    Uma Noite em Miami
    O Tigre Branco

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

  • Judas e o Messias Negro
  • Minari
  • Bela Vingança
  • Som do Silêncio
  • Os 7 de Chicago

Os vencedores serão anunciados na noite de 25 de abril, numa cerimônia a ser realizada em circunstâncias bastante similares às do último Globo de Ouro: Onde vários procedimentos diferenciados visam contornar os complicações das normas de pandemia e afastamento social.

Será, no mínimo, curioso de acompanhar.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Alma Perdida


 Assim como “O Invisível”, “Blade Trinity” e um ou outro trabalho, o terror “Alma Perdida” é exemplar em mostrar o quanto David Goyer é um roteirista habilidoso em justaposição a um medíocre diretor.

O conceito é, no mínimo, instigante: Embora haja uma visível referência à “O Exorcista”, o roteiro de Goyer passeia com uma bem construída escalada de sustos por outras inspirações do gênero –como casas mal-assombradas e afins –e elabora detalhes interessantes de sua trama, sempre com impecável consciência de ritmo e clímax. Entretanto, em cada cena pulsa uma incômoda incapacidade para extrair do elenco a emoção adequada (apesar da presença de talentos inquestionáveis como Gary Oldman e Idris Elba), e uma ocasional evidência na qual se percebe que ele não sabe o que fazer com uma produção tão endinheirada; em suma, uma direção cheia de limitações.

Acompanhamos assim a jovem Casey (Odette Yustman, de “Cloverfield-Monstro”) que descobre-se, de repente, perseguida por uma assombração: Um garotinho tenebroso –aparentemente denominado Jumby –que lhe prega sobressaltos nas mais inesperadas situações; e nesse sentido, o filme não consegue definir a sensação de medo ao expectador, exceto pelos habituais jumpscares (os sustos súbitos e abruptos que acometem a todo e qualquer terror genérico).

Investigando a fonte de seus tormentos, Casey descobre que teve um irmão gêmeo, morto enquanto ainda estava na barriga da mãe, e que, de uma certa forma, é esse espírito, imbuído de maldade, que agora quer atormentá-la, procurando um meio de passar do mundo dos mortos para os vivos.

Para o filme que é, e que vemos durante toda a duração –com seus prós e contras bem estabelecidos –“Alma Perdida” poderia perfeitamente contentar-se com essa descrição, visto que jamais consegue ir além do comum em sua capacidade de assustar, mas o roteiro de Goyer insiste em introduzir novos elementos que vão desde reminiscências históricas que remetem ao Holocausto, detalhes que mesclam assombrações relativamente católicas às crenças judaicas, e sutis indícios de um mal de proporções cósmicas.

Essa curiosa megalomania conceitual –que em nada ajuda o filme a engrandecer –leva ao ritual de exorcismo do terço final que, embora adornado de detalhes inventivos e diferenciados, nada pode fazer contra a mesmice resfolegante que predomina.

domingo, 30 de agosto de 2020

O Quinto Elemento

Apesar do grande filme que é, pode-se dizer que “O Profissional” foi uma estréia discreta para o francês Luc Besson no cinema norte-americano; ambição mesmo, ele veio a demonstrar no seu projeto seguinte, a amalucada ficção científica “O Quinto Elemento”.
Oriundo de uma ideia que Besson teve ainda na adolescência, o roteiro (ignorante de vários conceitos científicos e históricos que já propunham a existência de um ‘quinto elemento’) se irmana ao primeiro longa-metragem de Besson, “O Último Combate”, devido à sua estética profundamente influenciada por quadrinhos europeus, como ficará perceptível mais à frente, com nítidas referências ao estilo dos artistas Moebius (um dos desenhistas de produção) e Enki Bilal.
O roteiro de Besson, travesso e inconsequente, começa no ano de 1914, quando arqueólogos  estudando uma pirâmide egípcia (um deles sendo Luke Perry, da série “Barrados No Baile”) têm um estranho contato imediato com seres alienígenas; tais seres, os Mondoshawans, advertem o padre ali presente de que, dentro de 300 anos, um mal iminente surgirá para destruir a vida, e o templo contêm instruções para preparar a arma  que irá rechaçá-lo, na qual os quatro elementos essenciais à vida (o ar, a água, o fogo e a terra), representados por pedras sagradas que eles levam embora por não confiarem nos humanos, devem ser depositados ao redor de um quinto (e desconhecido) elemento. Todas as perguntas, eles prometem responder quando a hora chegar.
Deveras, a narrativa avança 300 anos no tempo, quando naves espaciais humanas registram de fato a aproximação do que parece ser um planeta incandescente com rota fixada de colisão contra a terra. Ataques contra esse planeta só o fazem crescer ainda mais. Então, o Padre Vito Cornelius (Ian Holm) surge contando a história acerca da profecia extraterrestre –que lhe foi passada através de outros guardiões desse segredo.
Os Mondoshawans até tentam contato com a humanidade, mas são destruídos num atentado de autoria do perverso Zorg (Gary Oldman), o vilão da vez, cujos motivos jamais são realmente esclarecidos.
Apenas um membro é recuperado dos alienígenas benevolentes e, ao tentar restaurá-lo a partir da avançada engenharia genética, os cientistas terrestres criam a personagem de Milla Jovovich, Leeloo, uma criatura segundo eles perfeita, que em nada lembra os alienígenas jocosos e nada humanos a partir dos quais foi criada.
Ela vem a ser o ‘quinto elemento’.
Por qual razão? Ela tem poderes? Então, um dos alienígenas era outrora o ‘quinto elemento’ também? Nada disso fica muito claro, e provavelmente, Luc Besson concebeu essa premissa sem preocupar-se em se aprofundar em questionamentos plausíveis como esses...
Os poderes de Leeloo oscilam conforme o momento –numa hora tem força e agilidade sobrehumanas, em outro, quando é conveniente que seja a mocinha em perigo, não tem mais... –assim sendo, sem também ter muita explicação, ela resolve fugir do laboratório onde foi criada e, do lado exterior do belo mundo futurista executado por Besson e sua equipe, Leeloo acaba caindo dentro do táxi dirigido pelo protagonista da história, Korben Dallas (Bruce Willis, num personagem sem sombra de dúvidas inspirado em Harry Canyon, personagem de um dos primeiros episódios da animação “Heavy Metal-Universo Em Fantasia”).
Este, por sinal, é um protagonista inserido da forma mais paradoxalmente aleatória e arbitrária já vista em uma produção comercial –os caminhos dele e de Leeloo se cruzam por pura conveniência do roteiro, sem qualquer disfarce ou subterfúgio, e para tornar a coisa ainda mais incômoda, isso ocorre duas vezes (!).
Sim, pois, Leeloo –que inicialmente não fala a língua humana –é, afinal, levada por Korben ao padre Cornelius a fim de darem continuidade à sua missão. E então... a utilidade do personagem de Willis se acaba! Sobretudo, porque, como todo protagonista de ação descolado, ele não faz muita questão de ajudar os que precisam de ajuda.
Assim, ele volta para sua casa e, pela segunda vez, é inserido na mesma trama de forma completamente arbitrária –num dos inúmeros lapsos do roteiro que tornam duvidosos os esforços em convencer o público –quando ele é requisitado por militares (ele era um ex-operativo de Forças Especiais, trabalhando de taxista...) para encontrar as tais pedras, aquelas que representavam os quatro elementos e que foram perdidas.
As pedras, na verdade, foram confiadas a uma artista-cantora alienígena chamada Plavalaguna (Maïwenn Le Besco), cuja concorrida apresentação se dará no planeta Fhloston –quando então entregará as pedras aos humanos. Os militares providenciam assim uma passagem para Korben, que acaba entrando na mira de Zorg, desejoso de obter a passagem para si; de Leeloo e do padre Cornelius, que desejam dele extrair a passagem também; e da raça extraterrestre dos Mangalores, guerreiros, brutamontes e ineptos que também querem se apropriar das pedras (e, ao que parece, todos os personagens do filme concluem que a única maneira de ir à Fhloston é roubando as passagens de Korben!).
Após as confusões, que transformam por um tempo “O Quinto Elemento” numa comédia de erros ao invés da aventura de ficção científica que aparentava ser, Korben e Leeloo seguem para Fhloston, onde encontram Plavalaguna –numa inusitada cena musical que acrescenta doses de estranheza ao culto do filme –e o personagem de um bizarro e andrógeno radialista extraterreno vivido por Chris Tucker. Os núcleos tumultuados de antagonistas e protagonistas convergem para o tal Paraíso Fhloston, uma espécie de hotel espacial, onde se sucede a apresentação de Plavalaguna e a primeira cena de ação de fato de “O Quinto Elemento” –isso quando o filme já adentra sua reta final!
A verdade é que essa impressão algo equivocada, de que “O Quinto Elemento” seja um ficção científica de ação (erro que alguns expectadores cometem até hoje) se dá pela presença de Bruce Willis –um dos astros de então que foi imposto ao diretor Besson pelo estúdio da Columbia Pictures sob condição de financiarem seu filme.
“O Quinto Elemento” é, sim, uma fantasia de orientações desconcertantes, desafiadoras para qualquer paradigma de gênero, com elementos bastante comuns aos filmes europeus que Besson concebeu na década anterior, a de 1980. Aqueles que se ancorarem numa pressuposta coerência em sua história ou no encadeamento de seus acontecimentos correm o risco de ficarem um bocado irritados. Para apreciá-lo, deve-se focar nos aspectos que realmente o transformaram num cult-movie: No visual incomum (de um “Blade Runner” à luz do dia, ou de uma história em quadrinhos européia), cortesia do bom trabalho do diretor de fotografia Thierry Arbogast, em sintonia com as inquietações estéticas muito singulares de Luc Besson; na trama tão juvenil quanto abilolada (e ainda assim pretensamente intrincada) onde só importa uma certa diversão; e na presença refrescante da estreante (e belíssima) Milla Jovovich que, se por um lado incumbe-se de uma personagem que se equilibra no abismo da inverossimilhança injustificada, por outro, brinda o filme de ponta a ponta com seu carisma e seu encanto, num reflexo do que Natalie Portman também já fazia em “O Profissional”.

sábado, 18 de julho de 2020

Amor À Queima-Roupa

“True Romance” é aquele tipo de filme que conquistou com honras o direito de ser chamado cult movie: Reúne características intrínsecas do cinema (e de toda cultura pop, por que não) realizado nos anos 1990 (e, com isso, evoca também algo dos anos 1980...), traz uma sucessão de maravilhosos achados em suas sequências, em sua trama e em seu elenco, reúne duas forças criativas atrás das câmeras que numa primeira impressão parecem incompatíveis (o aqui roteirista Quentin Tarantino e o diretor Tony Scott) e, além de saboroso e envolvente consegue, com frequência, ser memorável.
Em meados de 1993, Tarantino ainda estava prestes a se sagrar como um dos grandes abalos sísmicos do cinema; embora “Cães de Aluguel” já estivesse causando burburinho, “Pulp Fiction” só seria lançado no ano seguinte, e a fama de Tarantino, em Hollywood, corria mais como a de um roteirista tremendamente descolado e talentoso –muito se falava de seu controverso roteiro para “Assassinos Por Natureza”, de Oliver Stone.
Foi então que o diretor Tony Scott, um artesão que sempre cultivou o hábito de oscilar entre o cinema indiscutivelmente comercial de estúdio (“Top Gun”) e as audazes experimentações possibilitadas por um cinema mais autoral (“Fome de Viver”), resolveu dirigir um roteiro que Tarantino havia escrito na época em que ainda trabalhava de balconista numa videolocadora e nele derramou todo seu apreço por filmes de gangster, linguagem cinematográfico, referências culturais, diálogos afiados e altas doses de violência urbana.
Sua trama é algo formidável que se constrói alimentada por clichês (eu diria até por improbabilidades típicas da ficção!), mas cuja esperta percepção do roteirista consegue enxergar os meandros por meio dos quais esses clichês podem ajudar a trama, bem como o momento de subvertê-los para que não a prejudiquem.
Tomemos por exemplo o início, onde vemos o protagonista, Clarence Worley (Christian Slater) num cinema furreca vendo filmes de Sonny Chiba –uma lenda com quem Tarantino trabalhou em “Kill Bill” –e é subitamente abordado pela linda e maravilhosa Alabama (Patricia Arquette, um espetáculo!). Tudo soa tão improvável quanto um garoto que imagina uma fantasia erótica e o roteiro de Tarantino faz disso a grande brincadeira no ponto de partida: Ela (deliciosa que só) puxa conversa. Os dois descobrem afinidades. Resolvem sair juntos para um lanchonete. E logo estão na cama para os finalmentes (!).
Aí então que, acometida de uma espécie de pesar de consciência, Alabama confessa a Clarence que é garota de programa (!) e que foi paga por amigos seus para lhe proporcionar uma noite dos sonhos. Entretanto, agora, Alabama e Clarence estão apaixonados.
E seu amor é, por assim dizer, o estopim que coloca fogo no filme inteiro!
Instigado pelo espírito de Elvis Presley, com quem volta e meia conversa (uma ponta algo ostensiva de Val Kilmer, cujo rosto nunca aparece diretamente), o quê já indica que não é lá muito bom da cabeça, Clarence vai até o cafetão de Alabama para negociar a saída dela daquela vida. Tal cafetão (uma ponta efusiva e eletrizante de Gary Oldman), envolvido até o pescoço com crime e tráfico de drogas, não recebe a notícia com passividade e tudo descamba para a violência, que termina com Clarence fazendo uma chacina no lugar.
A surpresa fica por conta dele, sem querer, levar para casa um mala cheia de cocaína (ao invés de uma mala com as roupas dela!), justamente o que estavam ali negociando.
Clarence e Alabama têm assim um plano: Partir da cinzenta Detroit onde estão para a radiante Los Angeles e lá vender a droga que lhes caiu em cima do colo para com ela financiar sua lua-de-mel e, se possível, viver de brisa para o resto da vida.
Contudo, Clarence não contava com o fato do gangster dono da droga (Christopher Walken) estar em seu encalço e num breve diálogo com seu pai (Dennis Hopper) acabar descobrindo seu paradeiro –a cena do diálogo entre Walken e Hopper é um daqueles momentos antológicos que somente o cinema consegue entregar, graças à atores em ponto de bala como os dois que duelam aqui.
Em Los Angeles, Clarence entra em contato com o amigo Dick Ritchie (Michael Rapaport, de “Poderosa Afrodite”), cujo apartamento ele divide com o maconheiro Floyd (Brad Pitt; já deu para perceber o elenco absurdamente estelar que foi reunido para este filme, não?!).
Dick consegue negociar a droga em posse de Clarence com um figurão de Hollywood (vivido por Saul Rubinek, de “Os Imperdoáveis”), mas, então tudo começa a dar tremendamente errado: Os mafiosos (encabeçados por James Gandolfini e por Victor Argo) chegam à cidade atrás deles; o próprio contato de Dick acaba sendo preso, e entrega para dois policiais (interpretados por Chris Penn, de “Os Chefões” e Tom Sizemore, de “Falcão Negro Em Perigo”) a hora e o local da transação e todos eles –bandidos violentos e vingativos, policiais truculentos e sem noção –se encontram debaixo do mesmo e instável teto, quando Clarence e Alabama tentam vender a mala de drogas, naquele que é um dos desfechos mais apoteóticos do cinema nos anos 1990.
Há fortes momentos que registram o estilo publicitário do diretor Tony Scott em ação (a iluminação estourada na luz difusa; os enquadramentos refinados; o tratamento dramático, quase lírico, dado às cenas), contudo, tão marcante é a personalidade de Quentin Tarantino e seu gosto apurado de cinema que, apesar da função de roteirista, é seu estilo que acaba pesando muito mais em “True Romance”: A verborragia inteligente e minimalista nos diálogos, as guinadas irônicas e auto-conscientes da trama, os embates físicos que fazem referências, ora a Sam Peckinpah (a cena em que Patricia Arquette é atacada por James Gandolfini no motel), ora à John Woo (certamente o grande homenageado no tiroteio final), e a habilidade singular para amarrar todos esses elementos aparentemente tão improváveis e inusitados num todo harmonioso, equilibrado e eficaz.
E, neste caso em questão, vibrante como pouquíssimos filmes da década de 1990 foram capaz de ser.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

A Conspiração

Numa comparação que não chega a dizer muita coisa, o ex-crítico de cinema Rob Lurie estréia auspiciosamente na direção tal e qual muitos críticos do ‘Cariers de Cinema’ –Jean Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette –o fizeram nos anos 1960, originando a nouvelle vague francesa.
As orientações de Lurie, contudo, são muito diferentes do que essa analogia leva a supor: Seu filme é um raro espécime dos thrillers políticos, obras que se dedicam à reconstituição de intrigas de gabinete, plenos de verborragia, vocabulário pouco usual e detalhes que ao mesmo tempo soam elitistas ao público e parecem sugerir todo um clima dentro da proposta.
Após um estranho imbróglio seguido de um atentado, o Vice-Presidente dos EUA, tirado de ação é substituído.
O próprio Presidente (Jeff Bridges) indica seu favorito ao cargo: Uma séria e competente senadora (a formidável Joan Allen repetindo a parceria em cena com Bridges e com o coadjuvante Christian Slater depois de “Tucker-Um Homem e Seu Sonho”, nos anos 1980).
Mas, às vésperas da posse ocorrer com tranquilidade, surge um escândalo envolvendo a senadora num sex-tape durante sua juventude, o que é declarado aos quatro ventos por um ardiloso senador (Gary Oldman), particularmente interessado em desacreditá-la e minar a decisão do Presidente.
A batalha jurídica que se segue envolve liberdade de expressão, direitos individuais do cidadão, feminismo e integridade.
Se termina aparentando firme indiferença quanto ao desinteresse que seu tema excessivamente político pode gerar, se demonstra inquietação quanto ao desenvolvimento de sua premissa, e na chance de que o conceito moral em torno do qual trabalha possa despertar certo tédio no expectador, o diretor Lurie compensa essas intransigências com atores extraordinários dirigidos com excelência (em especial Joan Allen) e uma condução sempre absorvente que, embora se desdobre em cenas de paladar desafiador, nunca deixa de soar notável.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Harry Potter e A Ordem da Fêlix

Um novo filme. Uma nova troca de diretor. Todavia, este “A Ordem da Fênix” recebeu aquele que viria a ser o diretor fixo e definitivo da série até seu desfecho: O inglês David Yates, ironicamente reconhecido por trabalhos austeros, realistas e politizados feitos para a TV, como o filme “The Girl In The Café” e a minissérie (mais tarde convertida em filme) “Intrigas de Estado”.
Apesar de nada em sua filmografia pregressa sinalizar isso, Yates mostrou um fascínio inesgotável pelo material, um manuseio prodigioso dos elementos que configuravam a fantasia (como os onipresentes efeitos visuais), e um fôlego louvável que –ao contrário de Chris Columbus, cujo cansaço já se expressava no segundo filme –o levou a ostentar a mesma empolgação, o mesmo zelo para com o ritmo e a caracterização, e o mesmo patamar considerável de qualidade que ele conseguiu manter daqui até o último filme; totalizando quatro longa-metragens sob sua assinatura.
O começo de “A Ordem da Fênix” é brilhante e essencialmente cinematográfico –fruto, na opinião de muitos, do fato de ser o primeiro livro da saga escrito depois que ela já havia começado a ser adaptada para cinema. Nele, Harry surge num parquinho suburbano, contemplando memórias já distantes de infância e outras memórias, não tão distantes, mas terríveis, de quando testemunhou a morte de Cedrico no filme anterior.
Ao lado de seu primo Duda, agora à beira da deliquência, Harry é surpreendido pela aparição de dois Dementadores –numa sequência maravilhosa que deixa explícita a homenagem à “Alien”.
Por conta de usar o feitiço ‘patronum’ para proteger-se e a seu primo nesse prólogo, Harry corre assim o risco de ser expulso de Hogwarts –é sumariamente proibido que alunos pratiquem magia fora da escola.
Segue-se, logo depois, uma cena no até então muito falado, mas pouco mostrado, Ministério da Magia. Lá, o Ministro da Magia em pessoa, Cornélio Fudge (Robert Hardy), se revela hostil à Harry Potter e avesso à alegação dele e de Dumblodore de que Lorde Voldemort finalmente retornou.
E aí estão, pois, as características politizadas que justificam a escolha de David Yates como diretor –e que só se intensificarão daqui para frente –há todo um conflito de interesses ideológicos a incrementar as considerações acerca do conflito básico do bem contra o mal; para o Ministro Fudge, refutar a volta de Voldemort significa mais opor-se a Dumblodore como seu adversário político do que reconhecer o regresso do mal –e nessa teimosia, ele abre amplo espaço para a paranóia que, neste filme, contamina todo o mundo bruxo.
Isso, claro, se reflete na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts: A nova professora de Defesa Contra a Arte das Trevas, a insidiosa Dolores Humbridge (Imelda Stanton, compondo com primor a grande vilã do filme), é uma ferrenha apoiadora das facetas mais rígidas e autoritárias do governo de Fudge, e com essa postura, ela aproveita-se da ausência eventual de Dumblodore para dominar gradualmente toda a escola: Começa impondo a regra de que alunos não devem praticar magia –apenas inteirar-se da teoria –fazendo-os indefesos e deixando a capacidade para se defender reservada às forças do ministério; logo, ela se vale da proximidade com o ministro para colocar-se no direito de vetar aulas que julga desnecessárias (como as de clarividência); impõe normas de conduta abusivas e, com o tempo, táticas de punição ainda mais intoleráveis, chegando a arregimentar os alunos mais suscetíveis e corruptíveis (como Draco Malfoy) para a chamada Ordem Inquisitória destinada a policiar e denunciar as menores contravenções.
É natural que, em um ambiente assim tão repressivo, os esforços revolucionários acabem insurgindo: Dispostos a garantir um conhecimento contra as forças das trevas que se ensaiam no horizonte, Harry, Rony, Hermione e seus outros amigos –como Gina (Bonnie Wright), Chang (Katie Leung) ou Luna Lovegood (a sensacional Evanna Lynch) –resolvem integrar um grupo que reedita a Ordem da Fênix –outrora formada por seus pais, Sirius Black e outros quando jovens –e criam assim a Armada Dumblodore, para treinar às escondidas feitiços de proteção.
É impressionante perceber, por meio dessa premissa e do modo com que ela é tratada, o quanto a saga “Harry Potter” evoluiu: De aventuras infanto-juvenis investigativas, a série passou para uma contundente e eficiente alegoria sobre os excessos perniciosos do poder e da autocracia, mais próximo dos formidáveis “V de Vingança” e “1984 de Orwell” que de “Scooby-Doo”. Essa impressão é reforçada pelo evidente e notável amadurecimento do elenco, sobretudo, os protagonistas, Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson que cresceram literalmente em frente às câmeras.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Harry Potter e O Prisioneiro de Askaban

O anúncio do afastamento do diretor Chris Columbus em meio aos preparativos para este terceiro filme da saga pegou muitos de surpresa –ainda que ele tenha permanecido próximo como produtor.
Corria o boato de que Columbus dava brecha para que fosse assim contratado Steven Spielberg, que antes do lançamento de “Harry Potter e A Pedra Filosofal” já manifestava sua intenção de dirigir a produção (e americanizar o material). Os produtores, no entanto, foram sensatos optando por uma escolha inusitada que revelou-se certeira: O magistral e premiado diretor mexicano Alfonso Cuarón, até então conhecido apenas pelos prodigiosos “A Princesinha” e “E Sua Mãe Também” –ao adaptar aquele que muitos consideravam o melhor livro de toda a saga, Cuaron estabeleceu um diálogo autoral com suas duas belíssimas obras pregressas; do primeiro, ele extrai um enternecedor senso de fábula, uma paleta de cores sedutora (com predominância do elegante verde-musgo) e uma audaz capacidade de conjurar os elementos infantis oriundos dos filmes anteriores com uma aura transgressiva, sombria e que jamais subestima seu público; do segundo, ele aproveita o retrato honesto, orgânico e incomum dos humores inconstantes da juventude, obtendo do jovem elenco suas melhores interpretações até então.
De quebra, sua habilidade cinematográfica molda uma cena memorável atrás da outra. A começar por aquela que abre o filme, como sempre, com Harry às voltas com a tirania doméstica de seus tios –mais até: Desta vez, uma intratável irmã de tio Vernon que Harry, sem querer, transforma em balão (!). Essa cena já deixa bem claro que Harry Potter está crescendo: Ele já não se mostra tão passivo e intimidado quanto outrora e ensaia até uma espécie de fuga de casa, indo parar num tal hotel ‘Caldeirão Furado’.
É lá, antes mesmo de ir para Hogwarts, que Harry descobre que um prisioneiro escapou de Askaban, a famosa prisão dos bruxos –trata-se de Sirius Black (o sempre sensacional Gary Oldman) considerado o traidor que entregou seus pais ao próprio Voldemort. Por conta disso, muitos são os que acreditam que o alvo de Sirius, agora, é o próprio Harry Potter, o quê leva Dumblodore a requisitar para a Escola de Magia e seus alunos a ambígua proteção dos Dementadores –criaturas sobrenaturais capazes de sugar a energia, a felicidade e a vida das pessoas e que em sua periculosidade não distinguem aqueles que deveriam defender dos que deveriam atacar.
Entre outras sacadas geniais da parte de Cuarón enquanto contador de histórias –e nos inúmeros detalhes que ele consegue acrescentar em relação ao livro –algo que pode passar despercebido aos expectadores mais jovens é o quanto foi inspirada a escalação do ótimo Gary Oldman para viver Sirius Black –Oldman vinha de uma série de filmes (sobretudo, nos anos 1990) em que havia se popularizado em Hollywood como um dos mais assíduos vilões do cinema comercial, em obras como “O Profissional”, “O Quinto Elemento” e “Força Aérea Um” (estereótipo ao qual, pelo menos até aquele período, ele parecia estar restrito). Os rumos presentes na trama de “O Prisioneiro de Askaban” terminam por subverter completamente essa expectativa, mas apenas porque o ator escolhido conduz o público a essa surpresa.
Por falar em atores, “O Prisioneiro de Askaban” marca a estréia de Michael Gambon no papel de Dumblodore, em substituição ao falecido Richard Harris –um trabalho tão acertado e digno que pode passar despercebido dos expectadores que não tiverem essa informação.