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domingo, 6 de abril de 2025

A História do Cinema Negro nos EUA


 Realizado pelo crítico, radialista, diretor e roteirista Elvis Mitchell, este documentário lançado pela Netflix é um registro abrangente e ocasionalmente pessoal do surgimento da blaxploitation no cinema norte-americano, cuja produção encontrou seu apogeu durante a prolífica década de 1970.

Em sua narração em off, Mitchell avalia as décadas pregressas do cinema hollywoodiano, analisando o estranho e anacrônico tratamento dado aos negros, com os valores, às vezes até bem-intencionados, transfigurados pelo preconceito institucionalizado (caso do clássico de 1915 “O Nascimento de Uma Nação”, da superprodução de 1939 “E O Vento Levou”, apontada hoje como uma problematização da relação entre escravos e senhores, e do infame “A Canção do Sul”), e as ofensivas caracterizações sofridas por toda essa comunidade nas primeiras décadas em que o cinema existiu no Século XX (com o absurdo de atores e atrizes caucasianos pintados para ‘interpretarem’ personagens afro-descendentes em inúmeras produções). Ele cita a estóica e pioneira tentativa do astro, ator e cantor Harry Belafonte, ainda nos anos 1950, de tentar assumir uma identidade de representatividade digna para sua comunidade em diversos projetos (tais como “O Diabo, A Carne e O Mundo” e “Homens Em Fúria”) –esforço que, em grande medida emperrou sua carreira –em oposição à Sidney Poitier (o primeiro ator negro a vencer o Oscar, em 1964), e sua receptividade junto à Hollywood, muitas vezes assumindo estereótipos; ainda assim, Poitier tornou-se um astro por meio de obras como “Uma Voz Nas Sombras” (aquele que lhe premiou com o Oscar), “Adivinhe Quem Vem Para Jantar”, “Ao Mestre Com Carinho”, “No Calor da Noite” e “Acorrentados”.

Entretanto, na iminência dos anos 1970, com o enfraquecimento do Código Hays (que estabelecia censura de idade aos filmes lançados em cinemas) e o despontar de um cinema mais autoral, voltado para as mazelas de cunho social, diretores alternativos e marginalizados na indústria encontraram um meio para equiparar suas produções de baixo orçamento com o apelo popular das produções de estúdio, nascendo assim o exploitation –um subgênero que definia os filmes que lançavam mão de cenas e situações com inadvertida dose de sexo e violência que os filmes de estúdio não tinham liberdade para exibir. Ao exploitation logo seguiu-se inúmeras variações que exploravam (daí o termo!) as vulgares possibilidades de um cinema sem amarras, é no blaxploitation que o documentário de Elvis Mitchell se concentra.

Ele começa citando o seminal “A Noite dos Mortos-Vivos”, de George Romero, que em 1968, atreveu-se a lançar mão de um protagonista negro, em meio à coadjuvantes brancos, pela primeira vez impondo-se como um personagem forte, dotado de liderança, e sem qualquer vitimismo –o desfecho amargo, revoltante e absolutamente condizente com a realidade deste personagem ao final do filme deixou bem claro não apenas a visão desdenhosa dos brancos sobre os negros na sociedade, como também a indignação crescente, a exigir novas empreitadas rumo à um protagonismo negro que, só então, o cinema começava a descobrir.

O homem branco estava perdendo a transparência com a qual era visto como herói (e a sociedade, provavelmente, perdendo a ingenuidade com a qual comprava essa ideia) sendo retratado, nos filmes subsequentes, mais como um anti-herói. Dessa forma, surgiram as primeiras produções dentro do blaxploitation como o marcante “Rififi No Harlem”, de 1970, cuja inédita manobra mercadológica –de lançar a aclamada trilha sonora antes do longa-metragem –proporcionou uma insuspeita campanha de marketing que o tornou um sucesso de bilheteria. À ele seguiu-se, no ano seguinte, o ainda mais bem-sucedido “Shaft” (vencedor do Oscar de Melhor Canção Original) e o apoteótico “Sweet Sweetback Baadasssss Song”, de Melvin Van Peebles.

Estavam estabelecidas as bases que definiriam o blaxploitation pela próxima década, trazendo ao seu público, já em 1972, uma variação dos já prestigiados filmes destinados aos brancos –houveram obras como “Superfly” (uma versão de “O Poderoso Chefão”), “Blácula” (com o astro William Marshall numa versão afro do “Drácula” de Bela Lugosi) e “Um Por Deus, Outro Pelo Diabo” (uma versão de “Butch Cassidy & Sundance Kid”) que trazia uma parceria entre Harry Belafonte e Sidney Poitier, como aliás atestam o vastos depoimentos que o documentário traz, como Laurence Fishburne e Samuel L. Jackson, observando suas impressões daquele período (quando ainda eram bem jovens), e outras estrelas de ontem (como Vonetta McGee, Carol Speed e Whoopy Goldberg) e de hoje (como Zendaya), apontando a grande importância (na cerimônia do Oscar de 1973) das indicações, na categoria de Melhor Atriz, de Diana Ross (por “O Ocaso de Uma Estrela”) e de Cicely Tyson (por “Lágrimas de Esperança”), duas obras blaxploitation –a vencedora daquele ano foi Liza Minelli, por “Cabaret”.

O filme pontua o sucesso dos rostos mais icônicos desse movimento, como a maravilhosa Pam Grier, estrela de aproximadamente sete filmes entre 1973 e 1975, incluindo os sucessos “Coffy”, “Foxy Brown” e “Friday Foster” (este, uma pioneira adaptação cinematográfica de histórias em quadrinhos).

Houveram ainda obras como “The Mack”, ainda em 1973 (também aproveitando a manobra de lançar antecipadamente o álbum de sua trilha sonora, aqui assinada pela lendária gravadora Motown), “Cooley High” (uma variação de “Loucuras de Verão”), em 1975, e também a corrosiva animação para adultos “Coonskin”, de Ralph Bakshi, que unia animação convencional e rotoscopia formulada para traçar um painel satírico, caricato, social e sexual da forma deturpada com que os negros eram tratados e enxergados na sociedade e na indústria.

Em 1977, quando do lançamento de “Os Embalos de Sábado À Noite”, Mitchell observa como Hollywood já havia começado à incorporar o estilo, as caracterizações, a narrativa despojada e a linguagem da blaxploitation, realizando obras dentro dessas definições voltadas para o público caucasiano e estreladas por caucasianos –o astro John Travolta que, no retrato indicado ao Oscar de seu personagem, Tony Manero, agrega vários traços e posturas difundidos exclusivamente pelos magníficos protagonistas da blaxploitation como Ron O’ Neal, Isaac Hayes, Billy Dee Williams, Jim Brown e Richard Roundtree.

Entre algumas obras ainda pertinentes e até hoje referenciadas (como o extraordinariamente influente “O Matador de Ovelhas”, de Charles Burnett), o blaxploitation encontrou seu declínio no fim dos anos 1970, mais especificamente em 1978, com a suntuosa produção de “O Mágico Inesquecível”, de Sidney Lumet, uma versão do clássico “O Mágico de Oz” que trazia em seu elenco Diana Ross, Michael Jackson, Nipsey Russell e Richard Pryor, e acabou mostrando-se incapaz de recuperar, nas bilheterias, o seu gordo orçamento de 24 milhões de dólares. A chegada dos anos 1980, trouxe de volta à Hollywood, a percepção de que seus protagonistas brancos poderiam voltar a interpretar heróis, como “Rambo” (com Sylvester Stallone), “O Céu Pode Esperar” (com Warren Beatty) ou “Hopper” (com Burt Reynolds).

Valioso registro histórico e elaborado painel de um período, o documentário de Elvis Mitchell acima de tudo ressalta a imensa importância social e cultural no movimento da Blaxploitation e de como o cinema norte-americano como um todo deve, e muito, àquelas realizações e àqueles realizadores.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

As Marvels


 Houve uma época, não muito tempo atrás, em que a Marvel Studios era um gigante das telas de cinema; filmes produzidos pelo estúdio e protagonizado por seus personagens eram estrondosos sucessos de bilheteria e, não raro, iam muito bem numa avaliação da crítica revelando uma capacidade notável para o estúdio compreender as dinâmicas de seus personagens e dar-lhes versões cinematográficas que conseguiam satisfazer em inúmeros aspectos.

Essa, porém, é uma época que ficou no passado –essa é a triste constatação a que se chega ao conferir “As Marvels”. Dono do nada honroso título de pior bilheteria do estúdio (isso dentre seus mais de vinte longa-metragens) o filme dirigido por Nia DaCosta não é exatamente uma obra ruim. Seu pecado é não atingir notas de intensidade que justifiquem qualquer entusiasmo do público, para o bem ou para o mal. Ele não consegue sequer ser um produto de opções controversas que despertam indignação apaixonada nos fãs como fez, por exemplo, “Batman Vs Superman”. Na ânsia de fazer um produto que errasse o mínimo possível, evitando ousar ou atrever-se em qualquer direção, a Marvel Studios realizou uma obra pasteurizada que perde cada uma das chances de se fazer memorável.

E essas chances, infelizmente, existiram.

Temos como exemplo disso o aguardado desenlace da relação entre Carol Danvers (Brie Larson) e Monica Rambeau (a belíssima Teyonah Parris), conduzido desde “Capitã Marvel”, na qual Monica se tornou adulta enquanto esperava pela concretização da promessa da ‘Tia Carol’, de voltar à Terra para rever ela e a mãe, Maria Rambeau (Lashana Lynch). Aconteceu que Carol, ocupada demais com as atribulações pesadíssimas de uma superheroína de nível cósmico por todo o universo afora, não foi capaz de regressar à Terra antes de Maria morrer de câncer e Monica acabar ganhando, também ela, poderes inusitados (explicações para isso, na série “WandaVision”) –em “As Marvels”, o momento em que enfim Monica e Carol se reencontram e têm a oportunidade para esclarecer sua relação afetiva é tão negligenciado, tratado de maneira tão desdenhosa e com tamanha falta de profundidade que dá até pra imaginar o misto de injúria e inconformismo que despertou em todos os fãs.

E essa sensação de descontentamento diante do que podia ter sido e não foi é, lamento dizer, uma constante em “As Marvels”.

Na trama, Monica e Carol têm seus poderes entrelaçados com os da terceira protagonista do filme, Khamala Khan (Iman Vellani, da série “Miss Marvel”, de longe, a melhor coisa do filme todo): Toda a vez que elas usam seus poderes em conjunto, estejam em qualquer lugar do universo que estiverem, as três trocam de lugar –o que prontamente explicada a misteriosa cena pós-créditos no final da série “Miss Marvel”...

Esse curioso efeito acaba tornando-as uma espécie de equipe involuntária, unidas contra a vilã da vez, a implacável Dar-Benn (Zawe Ashton, esposa de Tom Hiddleston, o “Loki”), uma Acusadora do antigo Império Kree (mesmo posto de Ronan, o vilão de “Guardiões da Galáxia”) cujo objetivo é juntar os dois lendários e poderosos braceletes quânticos –um dos quais, responsável pelo despertar dos poderes de Khamala –e usá-los para extrair o poder do sol, ou alguma coisa assim...

Em algum momento dessas idas e vindas, o roteiro deixa entrever numa ou noutra motivação injustificada, o crescente desprezo que os realizadores parecem sentir pelo material com o qual estão trabalhando: Não apenas as predisposições para estabelecer propósitos em seus personagens vai minguando (chegando ao cúmulo de uma constrangedora cena musical ganhar mais importância na trama do que muitas explicações plausíveis), como também inúmeras cenas que deveriam esclarecer alguns pontos de seu enredo acabam completamente ignoradas, talvez, deixadas de lado de forma displicente numa sala de edição, como a aparição sem sentido de Carol Canvers na primeira cena em que as Marvels se veem todas juntas; o destino dado ao planeta Aladna que teve todo seu oceano sugado para outro lugar; o portal que drenava a energia do sol; o destino final dos braceletes (no desfecho, só um deles é visto com Khamala) e muitos outros momentos.

É como se toda aquela minúcia e atenção dedicada aos detalhes que fazia de “Vingadores-Ultimato” uma obra tão brilhante e notável já não fosse qualquer prioridade aqui.

domingo, 31 de dezembro de 2023

Tempo de Matar


 Em meados de 1996, o diretor Joel Schumacher, por incrível que possa parecer, se encontrava em destaque em Hollywood. Responsável por isso foi a dobradinha de filmes que ele lançou no período, sendo um deles a sua primeira incursão no universo do Homem-Morcego a substituir Tim Burton, “Batman Eternamente” (que embora tenha conquistado o descontentamento da crítica teve boa bilheteria, fracasso foi, de fato, o filme seguinte, “Batman & Robin”), e o outro, este mezzo suspense, mezzo filme de tribunal, “Tempo de Matar”, adaptado da obra de John Grisham (autor que estava em alta naqueles tempos tendo diversas produções adaptadas de seus livros).

É possível notar, através desse exemplo, que o fracasso, às vezes, ensina muito mais que o sucesso: Embora nunca tenha sido um grande diretor, foi depois desta produção relativamente aclamada que Schumacher perpetrou sua mais infame bizarrice cinematográfica, entretanto, foi logo depois do vexame incalculável de “Batman & Robin” que ele teve o bom senso de conduzir a carreira por meio de realizações menores, nas quais o controle do diretor era mais garantido, e o resultado qualitativo, mais certo de ser obtido. Mas, “Tempo de Matar” vale assim esse alarde que, à época, suscitou? Nem tanto.

No sempre segregado e sempre em polvorosa, Mississipi, no sul dos EUA, uma garotinha da comunidade negra é agredida e estuprada por dois rapazes brancos racistas que vão imediatamente à julgamento, sob a quase certeza de absolvição diante das impunes legislações sulistas. No entanto, o indignado pai da criança, Carl Lee Hailey (Samuel L. Jackson), se antecipa à qualquer sentença e metralha os dois criminosos dentro do tribunal, fazendo justiça com as próprias mãos.

É Carl Lee quem agora está no banco dos réus, prestes a ser condenado por homicídio. Sua defesa é assumida pelo jovem e idealista advogado Jake Brigance (Matthew McConaughey, no papel que o revelou à Hollywood após várias participações menores em produções pequenas) que não faz ideia –mas, fará! –de todas as imbricações e desdobramentos que acarretará sua decisão de defender um acusado negro numa comunidade como a do Condado de Canton.

Com a cidade em iminência de virar um barril de pólvora –de um lado os manifestantes negros exigindo veementemente absolvição, de outro, os asseclas da Ku Klux Klan, restaurada no lugar pelos esforços do vingativo irmão de um dos assassinados, vivido por Khiefer Sutherland –Brigance deve enfrentar, nos tribunais, a voracidade inescrupulosa do procurador Rufus Buckley (Kevin Spacey), a desvantajosa antipatia do Juiz Omar Noose (Patrick McGoohan, de “Coração Valente”) e a real ameaça que toda essa circunstância representa a ele e à sua família. Para auxiliá-lo, Brigance conta com o apoio do mentor Lucien Wilbanks (Donald Sutherland), do amigo e parceiro em advocacia Harry Rex Vonner (o histriônico Oliver Platt) e com a inteligência aguçada da jovem estudante Ellen Roark (Sandra Bullock, mais coadjuvante do que protagonista, embora tenha o nome em primeiro nos créditos).

É certamente uma trama urgida com a eficiência e a competência de quem compreendia esse gênero como ninguém –e provavelmente, ela deve funcionar melhor no livro original –ainda assim, apesar de seus bons momentos, o filme é pedante, dirigido com pieguice. Ficam patentes o descontrole de Schumacher para com emoções que deveriam ser mais contidas e a incapacidade dele em extrair atuações bem calibradas de seu elenco vasto e estelar: Em geral, bons atores, Sandra Bullock e Matthew McConaughey se contentam em ter suas belezas evidenciadas e seus egos massageados; quem salva a pátria, no fim das contas, é o sempre ótimo Samuel L. Jackson –grande ator, sua carreira merecia muito mais do que a única indicação ao Oscar (Melhor Coadjuvante por “Pulp Fiction”) que até hoje ele recebeu.

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Invasão Secreta


 Há uma quebra de paradigma promovida pela Marvel Studios na minissérie “Invasão Secreta” –uma pena que essa quebra não tivesse se refletido em aumento de qualidade para o material: Adaptado de um aclamado arco em forma de saga nos quadrinhos, “Invasão Secreta” prometia emoções impactantes aos fãs. Como nas HQs, a Terra seria palco de uma silenciosa infiltração dos alienígenas transmorfos skrulls cujo plano seria o de usarem de suas habilidades para assumir, sem que os personagens principais (e o próprio público) soubessem, o lugar de algumas figuras conhecidas da Marvel, alguns deles, ocupando importante papel de influência junto ao governo norte-americano, promovendo assim uma série de mau-entendidos diplomáticos e conflitos governamentais que levariam à guerra e à extinção da Humanidade. Também, finalmente veríamos o magnífico Samuel L. Jackson e seu personagem, o agente Nick Fury, assumindo um papel protagonista que ele andava merecendo desde, pelo menos, sua aparição em “Vingadores”.

Ao menos, uma dessas promessas se cumpriu: De fato, é Nick Fury o grande personagem principal aqui, infelizmente, ele surge combalido, desanimado, desmotivado e, durante muito tempo, incapaz de se equiparar ao grande espião que havia sido antes, fruto das desilusões experimentadas pelos revezes das últimas décadas, incluindo o ‘Blip’ promovido por Thanos em “Vingadores-Guerra Infinita” –os realizadores, devem ter julgado que seria um diferencial interessante explorar uma faceta mais decadente de um personagem conhecido por sua astúcia, entretanto, do modo como é mostrado insistentemente na série, esse aspecto do personagem nunca soa válido dentro da narrativa servindo mais para engessá-la do que para torná-la melhor. Nesse sentido, é infinitamente mais vibrante prestar atenção na personagem de Olivia Colman, Sonya Falsworth, que surpreende o expectador e alguns dos personagens ao seu redor sempre que aparece, ao mostrar-se um passo afrente de todos os demais –uma característica que outrora pertenceu à Nick Fury.

“Invasão Secreta” tem início quando alguns agentes aleatórios da CIA conseguem identificar um skrull infiltrado entre agentes de campo que deveriam ser supostamente bem informados: Morto por Maria Hill (Colbie Smulders) e pelo skrull aliado Talos (Ben Mendhelson), o skrull espião havia assumido a identidade do Ag. Everett Ross (Martin Freeman) –a última vez em que vimos o que seria o verdadeiro Ross, ele estava, na verdade, refugiado em Wakanda, após os eventos de “Pantera Negra-Wakanda Para Sempre”. Isso traz Nick Fury de volta à Terra, interrompendo um auto-exílio que, sabemos, já ocorreu há anos –pois, pelo menos, o Nick Fury de “Homem-Aranha Longe de Casa” sabemos ter sido ‘personificado’ por Talos. Esses agentes identificaram um problema preocupante: Os skrulls, agora não mais liderados por Talos, mas por um jovem líder extremista chamado Gravik (Kingsley Ben-Adir, de “Barbie”) desejam usar de operativos disfarçados em cargos fundamentais nos governos dos EUA e do Reino Unido para fomentar uma série de ataques que levarão os Estados Unidos e a Rússia à Terceira Guerra Mundial, aniquilando a Humanidade e deixando o planeta livre para a ocupação skrull. Não somente isso, mas, como logo fica evidente em episódios posteriores, Gravik também quer garantir-se quanto à eventual interferência dos grandes super-heróis do panteão da Marvel –embora estranhamente nenhum deles jamais dê as caras nesta minissérie... –adquirindo vestígios genéticos de alguns vingadores e levando seus soldados à ganhar seus poderes, convertendo-os em superskrulls!

Dirigida por Ali Selim com uma deliberada (e equivocada) predisposição para a lentidão em detrimento da ação (normalmente uma especialidade da Marvel) e em prol de um suposto suspense (uma promessa de tensão que jamais se concretiza de fato), “Invasão Secreta” avança ao longo de seus seis episódios numa atmosfera e num ritmo que, estranhamente, sugerem, o tempo todo, a chegada iminente de um clímax que justifique todo o investimento do público em sua premissa titubeante, em seus personagens pouco envolventes e em suas soluções de roteiro nada originais –não lembra nem um pouco o sopro renovado de entusiasmo narrativo presente nas obras dos dez primeiros anos da Marvel Studios –mas, termina realmente se revelando burocrático, genérico, redundante e trivial. É de se lamentar quando uma minissérie –especialmente uma cercada de tantas possibilidades promissoras como esta –tem, como elemento que mais despertou interesse de discussão nos expectadores, a sua aflitiva abertura feita por Inteligência Artificial.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Um Príncipe Em Nova York


 Talvez seja redundante comentar, mas na década de 1980, havia uma premissa básica (na verdade, haviam várias!) na qual um príncipe disfarçado procurava na plebe um amor que não tivesse interesse por sua fortuna e realeza; essa premissa apareceu em vários desenhos animados e séries descompromissadas daquele período, mas foi realmente aproveitada pelo astro Eddie Murphy para construir um dos grandes sucessos de sua carreira.

Com efeito, é de se concluir que o amplo êxito de “Um Príncipe Em Nova York” se deve pela experiência em comédia do diretor John Landis (que fez com Murphy o hilariante “Trocando As Bolas”), e certamente pela versatilidade extraordinária (aliada a um inquestionável carisma) de Eddie Murphy que aproveita o filme para incorporar não só o protagonista, mas um sem-fim de personagens aleatórios que surgem em cena –recurso que muitos expectadores sequer devem ter notado tal é a perícia com que ele emprega seu brilhantismo de caracterização –algo que ele tornou constante em muitos de seus filmes. Mas, já chegamos lá...

Príncipe adorado, paparicado e, em grande medida, sufocado (!), do reino africano de Zamunda, Akeen (Eddie Murphy) dá um basta às circunstâncias autômatas de sua vida doméstica –ele nem mesmo escova os dentes ou amarra os próprios cadarços, tarefas designadas integralmente ao batalhão de serviçais que lhe cercam –às vésperas de seu casamento, cuja noiva, para variar, é uma jovem treinada e orientada, desde pequena, a lhe servir e... paparicar.

Akeen, indo na contramão dos anseios de seu pai, o rei (vivido pelo de fato majestoso James Earl Jones), quer usufruir do mundo e da vida sem o filtro de regalias que veem com a realeza, e quer, acima de tudo, encontrar em sua cara-metade, uma mulher que se imponha como sua igual, que o ame por aquilo que ele é –e à qual ele experimente algum esforço em conquistar.

Para tanto, Akeen segue para os EUA, Nova York, onde o nome de um bairro específico (Queens, no inglês, “Rainhas”!) lhe inspira possibilidades auspiciosas.

Lá, Akeen se disfarça de plebeu –para desespero de seu acompanhante Semmi (Arsenio Hall, hilário) que se ressente de não mais viver no luxo –e arruma emprego no restaurante do materialista Sr. McDowell (e não McDonalds!) interpretado pelo veterano John Amos, de “Sweet Sweetback Badasssss Song”. É pela filha dele, a idealista e verdadeiramente cativante Lisa (Shari Hadley, de “O Rei da Paquera”), quem Akeen irá cair de amores. O que, em outras palavras, significa: Não revelar, de forma alguma para ela, que trata-se de um príncipe, e sim, conquistá-la valendo-se de seu charme e suas boas intenções.

A década de 1980 em geral –e certas facetas de seu cinema em particular –municiava-se desse conceito plenamente identificável: O protagonista que é mais que aparenta, mas deve esconder essas vantagens de seu objeto do desejo enquanto vê mentirosos, dissimulados e aproveitadores fazerem exatamente o oposto –aqui, esse tipo de antagonista surge vivido por Eriq La Salle, da série “Plantão Médico”.

É daí, desse conceito, que o filme hábil de Landis extrai tanto seu atrativo quanto seu humor, centrado quase que exclusivamente em Eddie Murphy. Ou talvez não: Na persona sólida, bem-intencionada e lívida de Akeen, Murphy se permite ser um protagonista nos moldes de um Charles Chaplin: Um afigura icônica em torno da qual as confusões acontecem, não necessariamente deflagradas por ele.

Assim o pulo do gato de Murphy é demonstrar seu talento incorporando (junto do próprio Arsenio Hall, também ele um comediante genial) vários outros personagens: Repare nas cenas ocorridas na barbearia –o truque da alternância dos ângulos de câmera permite que Arsenio e Murphy se multipliquem em quatro ou cinco personagens completamente diferentes na mesma cena –ou na igreja –onde Arsenio é um pastor assolado por um entusiasmo incabível e Murphy faz um cantor gospel ligeiramente libidinoso. São momentos que denunciam a insuspeita versatilidade e o fulgurante talento interpretativo de Murphy –qualidades que, como tantos outros astros atrelados a um desempenho específico, a sua carreira de sucesso permitiu que poucas vezes ele pudesse demonstrar.

“Um Príncipe em Nova York” é um dos mais bem-sucedidos contos românticos e cômicos dos anos 1980 na sua perfeita mistura de encanto e humor com a qual narrou sua trama pontuada de improbabilidades farsescas típicas da época a que pertence.

sábado, 18 de julho de 2020

Amor À Queima-Roupa

“True Romance” é aquele tipo de filme que conquistou com honras o direito de ser chamado cult movie: Reúne características intrínsecas do cinema (e de toda cultura pop, por que não) realizado nos anos 1990 (e, com isso, evoca também algo dos anos 1980...), traz uma sucessão de maravilhosos achados em suas sequências, em sua trama e em seu elenco, reúne duas forças criativas atrás das câmeras que numa primeira impressão parecem incompatíveis (o aqui roteirista Quentin Tarantino e o diretor Tony Scott) e, além de saboroso e envolvente consegue, com frequência, ser memorável.
Em meados de 1993, Tarantino ainda estava prestes a se sagrar como um dos grandes abalos sísmicos do cinema; embora “Cães de Aluguel” já estivesse causando burburinho, “Pulp Fiction” só seria lançado no ano seguinte, e a fama de Tarantino, em Hollywood, corria mais como a de um roteirista tremendamente descolado e talentoso –muito se falava de seu controverso roteiro para “Assassinos Por Natureza”, de Oliver Stone.
Foi então que o diretor Tony Scott, um artesão que sempre cultivou o hábito de oscilar entre o cinema indiscutivelmente comercial de estúdio (“Top Gun”) e as audazes experimentações possibilitadas por um cinema mais autoral (“Fome de Viver”), resolveu dirigir um roteiro que Tarantino havia escrito na época em que ainda trabalhava de balconista numa videolocadora e nele derramou todo seu apreço por filmes de gangster, linguagem cinematográfico, referências culturais, diálogos afiados e altas doses de violência urbana.
Sua trama é algo formidável que se constrói alimentada por clichês (eu diria até por improbabilidades típicas da ficção!), mas cuja esperta percepção do roteirista consegue enxergar os meandros por meio dos quais esses clichês podem ajudar a trama, bem como o momento de subvertê-los para que não a prejudiquem.
Tomemos por exemplo o início, onde vemos o protagonista, Clarence Worley (Christian Slater) num cinema furreca vendo filmes de Sonny Chiba –uma lenda com quem Tarantino trabalhou em “Kill Bill” –e é subitamente abordado pela linda e maravilhosa Alabama (Patricia Arquette, um espetáculo!). Tudo soa tão improvável quanto um garoto que imagina uma fantasia erótica e o roteiro de Tarantino faz disso a grande brincadeira no ponto de partida: Ela (deliciosa que só) puxa conversa. Os dois descobrem afinidades. Resolvem sair juntos para um lanchonete. E logo estão na cama para os finalmentes (!).
Aí então que, acometida de uma espécie de pesar de consciência, Alabama confessa a Clarence que é garota de programa (!) e que foi paga por amigos seus para lhe proporcionar uma noite dos sonhos. Entretanto, agora, Alabama e Clarence estão apaixonados.
E seu amor é, por assim dizer, o estopim que coloca fogo no filme inteiro!
Instigado pelo espírito de Elvis Presley, com quem volta e meia conversa (uma ponta algo ostensiva de Val Kilmer, cujo rosto nunca aparece diretamente), o quê já indica que não é lá muito bom da cabeça, Clarence vai até o cafetão de Alabama para negociar a saída dela daquela vida. Tal cafetão (uma ponta efusiva e eletrizante de Gary Oldman), envolvido até o pescoço com crime e tráfico de drogas, não recebe a notícia com passividade e tudo descamba para a violência, que termina com Clarence fazendo uma chacina no lugar.
A surpresa fica por conta dele, sem querer, levar para casa um mala cheia de cocaína (ao invés de uma mala com as roupas dela!), justamente o que estavam ali negociando.
Clarence e Alabama têm assim um plano: Partir da cinzenta Detroit onde estão para a radiante Los Angeles e lá vender a droga que lhes caiu em cima do colo para com ela financiar sua lua-de-mel e, se possível, viver de brisa para o resto da vida.
Contudo, Clarence não contava com o fato do gangster dono da droga (Christopher Walken) estar em seu encalço e num breve diálogo com seu pai (Dennis Hopper) acabar descobrindo seu paradeiro –a cena do diálogo entre Walken e Hopper é um daqueles momentos antológicos que somente o cinema consegue entregar, graças à atores em ponto de bala como os dois que duelam aqui.
Em Los Angeles, Clarence entra em contato com o amigo Dick Ritchie (Michael Rapaport, de “Poderosa Afrodite”), cujo apartamento ele divide com o maconheiro Floyd (Brad Pitt; já deu para perceber o elenco absurdamente estelar que foi reunido para este filme, não?!).
Dick consegue negociar a droga em posse de Clarence com um figurão de Hollywood (vivido por Saul Rubinek, de “Os Imperdoáveis”), mas, então tudo começa a dar tremendamente errado: Os mafiosos (encabeçados por James Gandolfini e por Victor Argo) chegam à cidade atrás deles; o próprio contato de Dick acaba sendo preso, e entrega para dois policiais (interpretados por Chris Penn, de “Os Chefões” e Tom Sizemore, de “Falcão Negro Em Perigo”) a hora e o local da transação e todos eles –bandidos violentos e vingativos, policiais truculentos e sem noção –se encontram debaixo do mesmo e instável teto, quando Clarence e Alabama tentam vender a mala de drogas, naquele que é um dos desfechos mais apoteóticos do cinema nos anos 1990.
Há fortes momentos que registram o estilo publicitário do diretor Tony Scott em ação (a iluminação estourada na luz difusa; os enquadramentos refinados; o tratamento dramático, quase lírico, dado às cenas), contudo, tão marcante é a personalidade de Quentin Tarantino e seu gosto apurado de cinema que, apesar da função de roteirista, é seu estilo que acaba pesando muito mais em “True Romance”: A verborragia inteligente e minimalista nos diálogos, as guinadas irônicas e auto-conscientes da trama, os embates físicos que fazem referências, ora a Sam Peckinpah (a cena em que Patricia Arquette é atacada por James Gandolfini no motel), ora à John Woo (certamente o grande homenageado no tiroteio final), e a habilidade singular para amarrar todos esses elementos aparentemente tão improváveis e inusitados num todo harmonioso, equilibrado e eficaz.
E, neste caso em questão, vibrante como pouquíssimos filmes da década de 1990 foram capaz de ser.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Violação de Conduta

Tão bons atores eles são que esquecemos o fato de John Travolta e Samuel L. Jackson terem antes dividido a cena no altamente consagrado “Pulp Fiction-Tempo de Violência”, de Quentin Tarantino, inclusive também porque eram personagens completamente diferentes dos que eles vivem aqui, neste suspense particularmente eficiente e atrativamente enigmático do diretor John McTiernam. Ainda que os dois astros quase não dividam a cena juntos.
Samuel L. Jackson vive o Sargento West, um treinador linha-dura numa base norte-americana do Panamá –ambiente peculiar introduzido no prólogo da narrativa ao som irônico do “Bolero de Ravel”.
West parte com seis recrutas armados de munição real para um exercício militar debaixo de uma forte chuva torrencial na tarde do dia 1º de novembro.
No dia 2 de novembro, cerca de dezessete horas depois, algo terrível acontece e a capitã Osborne (Connie Nielsen) é designada para elucidar o caso: Durante o resgate de helicóptero dos soldados, apenas dois deles voltaram vivos –um alvejado a tiros, o outro ainda tendo conseguido matar um terceiro com o qual trocava tiros! –e o Sgt. West foi morto.
Como, ainda ninguém sabe.
O Coronel Styles (Tim Daily, de “O Ano do Cometa”), antes que o caso extremamente complicado escape de suas mãos, requisita a ajuda de um ex-integrante da mesma base –e que teve, também ele, instruções com o severo West –o melhor interrogador que ele já conheceu: O atual agente do DEA, o Departamente Anti-Drogas dos EUA, Tom Hardy (John Travolta).
As circunstâncias são desfavoráveis, a tarefa que ele e Osborne precisam executar é árdua e extraoficial, e as testemunhas sobreviventes, os recrutas Dunbar (Brian Van Holt, de “Falcão Negro em Perigo” e “Livre”) e Kendall (Giovanni Ribisi, de “O Resgate do Soldado Ryan” e “Encontros e Desencontros”), aquele que foi alvejado, não colaboram.
Pior que isso: Quando o talento verdadeiramente prodigioso de Hardy para extrair de seus interrogados a verdade finalmente os leva a falar, seus depoimentos são incompatíveis, revelando versões completamente distintas da mesma ocasião –num lance onde o roteiro de James Vanderbilt aproveita para evocar com modernismos de filme de ação as facetas dúbias da narrativa subjetiva proposta em “Rashomon”, do mestre Akira Kurosawa.
West partiu para a selva com seis recrutas –além de Dunbar e Kendall, haviam Pike (Taye Diggs, de “Chicago”), a única mulher Nunez (Roselyn Sánchez, quase uma duplicata de Sandra Bullock), Castro (Cristián de La Fuente) e Mueller (Dash Mihok, de “O Sono da Morte” e “Além da Linha Vermelha”) –em algum momento, quando o exercício é comprometido pela transformação da tempestade em um furacão, o grupo testemunha uma explosão, provavelmente deflagrada pela granada de um deles. O Sgt. West aparece morto, e enquanto se refugiam numa casamata, os seis, segundo os relatos, lidam de diferentes formas com o corrido: Para Dunbar, o culpado era Pike, o mais maltratado pelo Sgt. West dos recrutas, e o que tinha mais motivos para matá-lo.
Para Kendall, o culpado foi o próprio Dunbar –que em sua versão surge taciturno e implacável.
Paralelo a esses flashbacks, os interrogadores, Hardy e Osborne tentam usar de diferentes estratégias e de certa malandragem (característica que John Travolta sempre soube expressar muito bem em seus personagens) para tentar descobrir a verdade por trás de tudo isso –o que pode acabar esbarrando em atividades ilícitas que vão muito além de uma mera vingança em campo aberto e podem comprometer alguns figurões da base militar.
Já foi dito que o diretor John McTiernam é brilhante quando ele tem todos os elementos a seu favor –um roteiro bem esculpido, um elenco capaz e inspirado, um orçamento condizente com os recursos exigidos pela história –e aqui ele dá uma bela prova desse argumento. O roteiro de Vanderbilt frequentemente abusa de suas guinadas e reviravoltas pontuais, mas o diretor harmoniza a narrativa tornando-a urgente e febril tanto nos aflitivos momentos na selva (onde o trabalho de câmera lembra o mesmo resultado obtido por McTiernam em “O Predador”, só que à noite e sob chuva) quanto nos tensos embates verbais durante os sucessivos interrogatórios.
O filme exige certa boa vontade do expectador no seu desfecho quando se sai com uma reviravolta derradeira tão mirabolante que quase soa implausível, entretanto, tal manobra corresponde à nota de ironia com a qual McTiernam começou e com a qual também quer terminar este seu entusiasmado conto investigativo de múltiplos pontos de vista; e também ela, veja só, vem ao som de “Bolero de Ravel”.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Irresistível Paixão

Muito aclamada devido ao sucesso de público e crítica de “Onze Homens e Um Segredo” e suas continuações, a parceria entre o diretor Steve Sodenbergh e o astro George Clooney começou, de fato, neste sensacional “Irresistível Paixão”.
Aliás, astro pode ser termo, à época, precipitado para atrelar à George Clooney: Tendo deixado a série “Plantão Médico” para protagonizar o frustrante “Batman & Robin” –a mais catastrófica versão do Homem-Morcego para os cinemas –Clooney ainda não era um dos grandes nomes de Hollywood, mas, havia ganho tanto dinheiro para estrelar o mal-fadado filme que, na sequência, descobriu ter o privilégio de escolher a dedo seus projetos seguintes: Se colocar dinheiro no bolso já não era mais prioridade, ele podia passar a almejar a qualidade.
Foi assim que Clooney envolveu-se em trabalhos prestigiados como a aventura marinha “Mar Em Fúria”, o drama de guerra “Três Reis” e esta notável adaptação de Elmore Leonard, uma trama intrincada (bem ao gosto do autor) que, lá no fundo, versava sobre um caso de amor improvável entre um ladrão de bancos e uma oficial de justiça.
Clooney é Jack Foley, cujo orgulho é ter assaltado quase duzentos bancos sem jamais precisar sacar uma arma, em vez disso, Foley se valia de esperteza, inteligência e uma astúcia prodigiosa –características que ele põe em prática já na primeira cena.
Não adianta muito: Por um golpe de azar, ele vai preso mesmo assim.
Amargando mais algum tempo na prisão –e começando a concluir, por conta disso, que seu próximo golpe deve render sua aposentadoria definitiva desse negócio –Foley participa de uma fuga em massa, de cujo fracasso ele se desvencilha graças à cumplicidade do amigo Buddy (Vhing Rhames) e a casual aparição no local da agente federal Karen Sisco (a maravilhosa Jennifer Lopez, no papel que ajudou a construir sua imagem de símbolo sexual dos anos 1990) no carro de quem eles empreendem sua escapada.
Dividindo o porta-malas (eles a levam como refém), Foley e Karen trocam alguns minutos de conversa onde o diretor Sodenbergh permite-se vislumbrar com satisfação e exultação a química espetacular que Clooney e Jennifer compartilham em cena; é uma pena que eles não tenham feito outros filmes juntos.
A partir daí, revelando o gosto do hábil roteirista Scott Frank (de “Um Plano Simples” e “Minority Report-A Nova Lei”) para tramas elaboradas e fragmentadas, o filme se divide em duas linhas distintas de tempo, destinadas a se encontrar (e a se complementar) quando o filme de Sodenbergh atingir seu clímax: Numa delas, passada dois anos antes, vemos Foley em uma prisão da Flórida junto de outros detentos, entre eles, o estelionatário ricaço Ripley (Albert Brooks, de “A Musa” e “Bem-Vindo Aos 40”) e o ex-pugilista e bandidão barra-pesada Snoopy (o simpático Don Cheadle aqui, contudo, ameaçador). Na outra, evidentemente, acompanhamos os eventos subsequentes à fuga de Foley, suas tentativas de escapar ao jugo da polícia e do FBI e de prosseguir, ao lado de Buddy, com seu derradeiro golpe, aquele com o qual ele almejava se aposentar (assaltar a mansão de Ripley ao lado de Snoopy); além, é claro, das investigações por conta própria da esperta e persistente Karen Sisco que deseja reencontrar Jack, para prendê-lo novamente, ou quem sabe, descobrir o que é essa estranha atração que sentem.
Naquele ano, 1998, “Irresistível Paixão” chegou às salas de cinema capitaneando um formidável abalo sísmico no cinema comercial norte-americano, ao substituir as pirotecnias em voga nas produções de então por uma inteligência instigante e à toda prova –uma tendência inesperada e salutar que moldaria um pico insuspeito de qualidade entre as obras hollywoodianas naqueles anos –grande responsável pelo êxito deste filme foi também o tratamento sempre diferenciado de Steve Sodenbergh, um entusiasta nítido e confesso das narrativas antigas da Velha Hollywood, sobretudo, os filmes de gangster e os filmes noir. São tons e atmosferas que ele atribui à este brilhante e bem calibrado conto de polícia e ladrão, temperado com bem-vinda sensualidade, imprevisto requinte e palpitante virilidade: Sim, pois, em seu tumultuado, eletrizante e divertido desfecho não tenha dúvidas, o romance entre Jack Foley e Karen Cisco termina em bala!

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Homem-Aranha - Longe de Casa

Apesar do jovem Tom Holland ser o intérprete que melhor reuniu as características de Peter Parker/Homem-Aranha no cinema, muitos foram os que torceram o nariz para a versão do personagem inserida no Universo Marvel Cinematográfico, sob a alegação de que ele foi descaracterizado, perdendo muito de sua essência ao ser atrelado ao Homem de Ferro de Tony Stark, o que deixou de lado certos elementos seus tidos por determinantes.
Há um pouco de razão nisso; e tais reclamações tendem a se intensificar ainda mais com este “Homem-Aranha Longe de Casa”.
Vindo de uma esteira de mais de vinte filmes, e dando continuidade a um dos mais impactantes dentre eles (o absolutamente espetacular “Vingadores-Ultimato”), o novo filme do Homem-Aranha padece de um problema semelhante ao que acarretou em “Homem de Ferro 2”: Os realizadores, conscientes de que sua narrativa particular integra todo um universo rico, vasto e compartilhado, por vezes se esquecem de focar em seu protagonista e em sua história afundando com frequência num mar de referências sobre acontecimentos que já se sucederam –ou que ainda haverão de se suceder.
É difícil, por exemplo, abordar “Longe de Casa” como uma narrativa independente –coisa que ele não é, e os críticos mais vorazes terão de aceitar o fato que daqui para frente será assim –ele se inicia meses após os acontecimentos de “Ultimato”, ou seja, depois de todas as pessoas dizimadas pelo estalar de dedos de Thanos (fenômeno nomeado aqui como ‘Blip’) serem novamente trazidas à vida –o que inclui o protagonista Peter Parker (Tom Holland, mais adequado ao papel do que nunca) e quase todo seu séquito de coadjuvantes; sua bela Tia May (Marisa Tomei), seu melhor amigo Ned (Jacob Batalon), seu interesse amoroso M.J. (Zendaya), seu rival Flash Thompson (Tony Revolori) e alguns outros.
Aqui, todo o núcleo estudantil daquele elenco arruma as malas para um tour pela Europa –o que confere ao filme as belas ambientações do Velho Continente como Veneza, Praga e Paris. Porém, é claro que os planos de Peter –de conseguir se declarar em grande estilo à garota que ama –serão frustrados por Nick Fury (Samuel L. jackson) que irá requisitar as habilidades de sua identidade super-heróica; um dos poucos disponíveis após as inúmeras baixas e desistências ocorridas em “Ultimato” (algumas delas mostradas em um clip intencionalmente dramático, mas involuntariamente cômico, visto no início).
Fury precisa do auxílio de Peter, ou melhor, do Homem-Aranha, porque gigantescas criaturas desconhecidas, os Elementais, apareceram no mundo criando caos e destruição. O único a se opor a elas vem a ser Quentin Beck (Jake Gyllehhaal, ótimo), segundo o próprio, um superherói vindo de uma realidade paralela ostentando poderes que fazem dele o único salvador à mão –Peter seria assim uma espécie de ajudante.
Até quase a metade de sua duração, “Longe de Casa” divide-se assim entre as tentativas algo atrapalhadas de Peter em ser um adolescente normal –tentando flertar com M.J., inventando estratagemas elaborados para encobrir sua vida dupla ou simplesmente buscando se desvencilhar das exigências de Fury –e seus esforços para conter a ameaça dos Elementais ao lado de Quentin Beck.
No entanto, não é surpresa para ninguém que tenha lido quadrinhos ou tenha um mínimo de conhecimento da mitologia do Homem-Aranha que Quentin Beck é, na verdade, o vilão ilusionista Mysterio –e essa revelação não tarda a ocorrer dando uma guinada até previsível, mas bastante interessante à trama; tão mais interessante pela maneira orgânica com que os roteiristas souberam enraiza-la no contexto do Universo Marvel dando, inclusive, ao Mysterio toda uma funcionalidade cinematográfica que chega a nos fazer perguntar por que esse antagonista não havia sido aproveitado antes.
Como pano de fundo, as paisagens européias de cartão-postal.
Há outro pano de fundo também: A ressonar como um dos empuxos morais e sentimentais da trama está o tempo todo a lembrança de que Tony Stark, o mentor de Peter Parker, não vive mais; e o peso (um tanto quanto grande para o jovem rapaz) de que é ele quem deve herdar agora esse legado.
Eis aí, portanto, um dos motivos para a maior grita dos fãs mais devotados do Aranha: A de que Tony Stark ocupa aqui o papel existencial que seria de direito e de fato do Tio Ben nesta nova versão do herói –o exemplo de sacrifício, heroísmo e responsabilidade que o empurra para frente e o motiva a continuar sendo o Homem-Aranha.
Da forma como é concebido, o filme paga um tributo desmedido ao herói tombado e, na opinião de alguns, descaracteriza seu protagonista real: “Longe de Casa” segue os tópicos narrativos dos dois primeiros filmes do Homem de Ferro (dirigidos por Jon Favreau que aliás tem aqui um papel também ele fundamental), com tamanha preservação de referências e analogias que Peter quase deixa de ser o Homem-Aranha para ser uma espécie de Homem de Ferro Jr.(!)
Quase. Porque uma série de elementos genuínos do herói ainda estão lá. Porque Tom Holland é encantador e inescapavelmente certeiro em sua personificação. E porque o diretor Jon Watts compreende aqui de maneira ainda melhor que em “Homem-Aranha De Volta Ao Lar” que aquilo que define o herói é sua condição perene e periclitante de um ser humano falho passível de se meter em enrascadas mais do que em escapar delas, e com todos esses atributos a lhe pesar ainda tenta salvar o dia e seus entes queridos.
A lição primordial –e à época inovadora –deixada pelo criador Stan Lee, que o Homem-Aranha incorpora como nenhum outro e que a Marvel Studios (mais que qualquer outra produtora) compreende como ninguém.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Vidro

Os altos e baixos na trajetória de M. Night Shyamalan como autor reconhecido e aclamado refletem a curiosa e demorada gênese de “Vidro” como projeto cinematográfico.
Quando lançou “Corpo Fechado” na esteira do sucesso de “O Sexto Sentido”, Shyamalan experimentou um fenômeno ainda mais inusitado e louvável do que o sucesso de público e crítica da obra anterior: Inicialmente recebido com aparente desprezo por aqueles que julgavam “Corpo Fechado” um correspondente atípico de “O Sexto Sentido”, o filme cresceu na memória do público e dos cinéfilos aos poucos, com o passar do tempo, transformando-se em um dos grandes cult-movies do cinema.
De lá pra cá, entre sucessos originados de sua reconhecida fórmula de fazer cinema e projetos que por vezes caíam na incompreensão e na indiferença, M. Night Shyamalan foi constantemente indagado sobre uma vindoura continuação para “Corpo Fechado” –uma ideia a qual, durante um bom tempo, ele foi abertamente arredio.
A maneira como ele correspondeu ao anseio do público foi bem ao seu gosto, improvável e inesperada: Em “Fragmentado”, de 2016 (exatos dezesseis anos, portanto, do lançamento de “Corpo Fechado”), ele introduz uma cena final onde revelava que o protagonista daquele filme, David Dunn, vivido por Bruce Willis, existia, por assim dizer, no mesmo universo que Kevin Wendell Crumb (James McAvoy) e os outros personagens de “Fragmentado”.
Estava aberta a porta para a esperada continuação não apenas de “Corpo Fechado”, mas agora de “Fragmentado” também.
Com efeito, a trama se inicia logo depois dos eventos daquele filme. Após o rapto de garotas cuja sobrevivente foi a jovem Casey (Anya Taylor-Joy), e o desenvolvimento de uma 24ª personalidade bestial –adequadamente chamada ‘The Beast’ –a Horda (como é apelidado o indivíduo de múltiplas personalidades vivido por McAvoy) entra no radar do vigilante David Dunn que tem agido nas sombras neutralizando criminosos na Philadelphia na última década com o auxílio logístico de seu filho Joseph (Spencer Treat Clarke, um rapaz aqui, ainda uma criancinha em “Corpo Fechado”).
O embate entre personagens tão antagônicos quanto antológicos não tarda muito a acontecer, escrito e dirigido com aquele primor desigual que Shyamalan parecia ter perdido nos últimos tempos, mas que recuperou em “Fragmentado”.
É quando Dunn e a Horda são capturados e jogados numa clínica psiquiátrica –em uma guinada que aproxima “Vidro” do clássico “Um Estranho No Ninho” –que as intenções de Shyamalan começam a ficar mais claras: Entra em cena a personagem da Dra. Ellie Staple (interpretada com o esperado ar de petulância intelectual por Sarah Paulson).
Staple representa a descrença. Ela não acredita que pessoas normais possam desenvolver características extraordinárias que as aproximam dos superheróis de quadrinhos –a rigor, a premissa de “Corpo Fechado” –e, dentro das instalações psiquiátricas, tratará de enfraquecer a convicção de David, de Kevin (e todas as personalidades dentro dele) e também do sedado Elijah Price (Samuel L. Jackson), encarcerado desde que foi descoberto tratar-se do perigoso Mr. Glass; na concepção dele próprio, um vilão de HQs que compensa a fragilidade do próprio corpo (ossos quebradiços como vidro) com uma mente brilhante e aprimorada.
Staple confronta os três protagonistas fantásticos com embasamentos factuais que nivelam ao patamar do normal as suas proezas, e não deixa de soar com isso aquilo que a narrativa de fato quer fazer dela: Uma estraga-prazeres.
Entretanto, a mente de Elijah não pode ser contida ou domesticada. Antes mesmo que a doutora perceba, já existe um plano detalhado em gestação, e que certamente envolve a fuga dele e da Horda de seus confinamentos.
A essa sequência concebida com zelo e critério (e com um viés emocional inédito nos filmes anteriores), Shyamalan acrescenta todas as considerações morais, pessoais, sentimentais e filosóficas que ele atribui a todos os seus melhores trabalhos: “Vidro” é, como “Corpo Fechado”, uma variação do conceito de histórias em quadrinhos em atividade num mundo real –assunto bastante atual diante do sucesso retumbante do Universo Marvel nos cinemas –mas, é também um olhar preocupado e válido sobre as neuroses imprevisíveis escondidas na sociedade (argumento presente em “Fragmentado”), e une todas essas considerações numa conclusão válida e pertinente sobre a família; e para tanto, são fundamentais à narrativa as participações também dos entes queridos relacionados à cada um dos três protagonistas, Joseph, o filho de Dunn, que busca ser uma força indireta na cruzada do pai; Casey, a vítima que escapou da fúria de ‘The Beast’ por ser reconhecida por ele como uma igual; e a mãe de Elijah (Charlayne Woodard) que sempre experimentou a aflição pelo corpo frágil do filho e o orgulho por sua inteligência fora do comum.
“Vidro”, assim, embora seja também sobre o bem contra o mal (como toda boa HQ), ao mesmo tempo embaralha essas impressões com algumas dinâmicas ambíguas, porém, revela-se mesmo um tratado sobre a fé contra a incredulidade. A disposição para acreditar que o extraordinário é real e possível contra o conformismo de justificá-lo com pretextos impessoais.
E nessa disputa, Shyamalan escolhe claramente um lado sem um pingo de dúvida.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Fresh

Lançado alguns anos após “Os Donos da Rua”, este trabalho de estréia do diretor e roteirista Boaz Yakin (que depois realizaria “Duelo de Titãs”, com Denzel Washington) aproveita a mesma vertente então inovadora para falar sobre as mazelas enfrentadas pelos moradores de subúrbios específicos norte-americanos.
Vivido com brilho enternecedor e silêncios expressivos pelo jovem Sean Nelson, o personagem-título é um morador do Brooklyn, em Nova York, onde as alternativas de vida de um garoto da idade dele não são das mais auspiciosas.
Fresh, contudo, se vale de sua vivacidade e criatividade para desvencilhar-se da sordidez da melhor forma que pode. Ele não deixa de prestar o auxílio quase obrigatório de todos os meninos de sua idade aos traficantes locais (o mais emblemático deles vivido por Giancarlo Esposito, de “Maze Runner”), mas procura frequentar com regularidade a escola e encontrar tempo para encontrar às escondidas o próprio pai, vivido por Samuel L. Jackson.
Alcoólatra cujo vício destruiu a própria vida, o pai de Fresh vive como mendigo embora seja um gênio do xadrez –é ele quem orienta Fresh o tempo todo na sua busca por uma vida melhor.
Dividindo-se em tantas situações, Fresh experimenta cobrança de todos os lados –traficantes, família, professores, amigos –e sua vida resume-se a tentar driblar essas atribulações.
Nesse percurso, Fresh irá tomar contato com a tentação do poder, os efeitos transformadores da cultura, o perigo intoxicante da morte e a corrupção perniciosa da prostituição, num dos mais realistas registros da perda de inocência dos anos 1990.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Capitã Marvel

A homenagem à Stan Lee (1922-2018) que antecede o filme é linda e, partida da própria Marvel Studios cujos personagens ele concebeu, tinha de ser muito especial mesmo.
É a primeira das várias emoções que “Capitã Marvel” leva o expectador a experimentar.
Aguardada obra da Marvel por trazer pela primeira vez uma protagonista feminina, o filme faz jus a todo seu significado implícito entregando uma deliciosa trama sobre descobertas, perseverança e heroísmo –como o são alguns de seus melhores exemplares.
A protagonista em questão (interpretada com minimalismos sensacionais por Brie Larson) começa o filme chamada pelo nome de Vers, e seu passado é envolto em mistério –tudo que ela tem são lembranças inconclusas e fragmentadas, aos quais, pouco a pouco, a narrativa trará de dar pleno significado.
Vers é membro de um grupo denominado Star Force, liderado pelo guerreiro alienígena Kree, Yon-Rogg (Jude Law, autoritário e ameaçador) e, no espaço sideral, sua missão é perseguir e exterminar os alienígenas contra quem os Kree travam uma guerra ininterrupta, os transmorfos conhecidos como Skrulls –cuja fidelíssima e espetacular personificação realizada neste filme vai fazer os ávidos fãs de quadrinhos espumarem de satisfação!
Numa manobra típica de embates conspiratórios, Vers acaba prisioneira dos Skrulls e descobre o interesse deles pela Terra, planeta onde ela acaba vindo parar –e assim, descobrimos que o filme se passa nos anos 1990 (e, por consequência, é como uma pulsante aventura dos anos 1990 que ele vem a se parecer) e que Vers –na verdade, Carol Danvers, já viveu aqui, sendo ela muito mais humana do que pode imaginar.
O roteiro de “Capitã Marvel” –assinado pelos diretores Anna Boden e Ryan Fleck, e por Nicole Perlman (co-roteirista de “Guardiões da Galáxia”) –é uma sucessão de achados: Faz da Guerra Kree-Skrull uma justaposição alegórica da guerra entre palestinos e israelenses; usa do fio narrativo subjetivo da personagem principal para moldar uma incomum trama de origem; vale-se de expedientes inesperados para introduzir detalhes riquíssimos (o que ajuda, inclusive, o ótimo elenco a brilhar); e ainda conduz a história com uma junção de aventura, ficção científica, escapismo e empatia tão afiada e fluida que se torna delicioso assisti-lo –poderia ter três horas de duração que passariam numa brisa.
A produção adquire uma miríade de referências que os fãs tanto adoram quando, na Terra, Carol Danvers conhece o agente Nick Fury (Samuel L Jackson, magnífico numa versão digitalmente rejuvenescida do personagem) e descobre que os Skrulls estão infiltrados na poderosa S.H.I.E.L.D., no entanto, a definição do que são inimigos de fato será colocada em xeque quando Carol descobrir melhor as motivações de Talos (Ben Mendelsohn, ótimo), até então o grande vilão do filme.
Ainda assim, apesar dessas qualidades intrínsecas (boa parte delas, inerentes aos trabalhos da Marvel), o grande valor de “Capitã Marvel” está na inspiração, não só aquela que ele emprega (e que vem muito da força de Brie Larson), mas também aquela que ele exala: Nenhum filme do cinema moderno –nem mesmo o formidável “Mulher Maravilha” ou o já icônico “Jogos Vorazes” –faz tanto pelo movimento do empoderamento feminino quanto a história de Carol Danvers. Por meio dela, a Marvel Studios constrói o filme que a DC deveria ter feito para o Superman, mas não soube como fazer.
A partir de agora, é seguro dizer, toda uma geração de meninas e mulheres crescerá tendo o exemplo salutar de bravura e tenacidade de Carol Danvers para se inspirar.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Os Incríveis 2


A despeito de ter sido feita uns catorze anos depois, esta continuação honra o filme original a ponto de continuar praticamente da cena em que ele se acaba –quando um certo vilão Escavador aparece para aprontar das suas.
Há um breve e divertido prólogo, onde vemos a cena do ponto de vista de um personagem coadjuvante –um detalhe que até terá alguma importância mais a frente –e o filme prossegue para mostrar que, apesar das aparências, o que pareceu ser um final feliz em 2004, terminou sendo uma continuidade espontânea e bastante notável para a trama.
O interlúdio contra o Escavador mostrou algo para a Família Pêra: Que esse breve retorno como heróis não foi assim tão boa ideia –tudo o que a opinião pública viu foram que eles estavam dentro de uma máquina perfuratriz que destruiu vários prédios da cidade. Com os agentes federais deixando-os de lado por conta disso e com sua casa destruída (no final, do primeiro filme, lembra-se?), eles têm que se contentar com as acomodações pouco lisonjeiros de um motel.
É quando o roteiro dá início à trama deste filme por assim dizer. O Sr. Incrível Roberto (voz de Graig T. Nelson, maravilhosamente dublado em português por Márcio Seixas), Helena a Mulher-Elástica (voz de Holly Hunter) e Gelado (voz de Samuel L. Jackson) são chamados por um casal de irmãos milionários e empreendedores.
O plano deles é honrar a adoração que o falecido pai nutria pelos super-heróis, e ajuda-los a reverter a lei que, desde o princípio do filme anterior, os fez ilegais e impediu sua atividade nos últimos quinze anos.
Para tanto, os irmãos têm um plano arrojado: Querem televisionar toda a ação super-heróica para trazer a opinião pública para o seu lado. Na fase inicial de tal plano, é a Mulher-Elástica quem termina sendo a escolha perfeita.
Há, pois, uma inversão, portanto, da premissa do filme original –se antes, era o Sr. Incrível quem, movido por insatisfação e tédio, acabava capitaneando a ação; agora, é sua esposa quem assume algum protagonismo, não que as cenas domésticas, quando o Incrível tem de cuidar dos três filhos e descobre a demanda que isso exige, não tenham sua importância dentro da trama.
Na verdade, na junção para lá de esperta que a narrativa promove entre todas as facetas que se dispõe a trabalhar, “Os Incríves 2” se mostra nitidamente mais bem resolvido que o primeiro filme. Cada personagem é essencial para a história –desde Helena, magnificamente bem aproveitada neste filme, passando pelo Sr. Incrível e suas incertezas e inseguranças, até chegar às crianças, com a graciosidade de Flecha, a evolução interessantíssima de Violeta e, por fim, o melhor personagem de todos, o bebê Zezé, cujos vastos poderes são descobertos aqui.
Como no primeiro filme, o gracejo e inocência inerente à Disney e à Pixar escondem uma premissa magistralmente concebida pelo diretor Brad Bird que aproveita elementos de “Watchmen” ao vislumbrar um mundo lidando com a existência de super-heróis.
Se o primeiro “Os Incríveis” era uma grata surpresa em termos estéticos e temáticos –até por ser o primeiro longa animado onde e Pixar nomeava humanos como protagonistas –este segundo expande de modo sensacional aquela mitologia, inclusive, desta vez enfatizando com indiscutível habilidade os aspectos geniais na concepção desses personagens.