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domingo, 11 de setembro de 2022

Alfie - O Sedutor


 Na cerimônia de 2000, durante o agradecimento por seu Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por “Regras da Vida”, Michael Caine citou, entre outros, o jovem colega Jude Law, que à época concorria com ele por seu papel em “O Talentoso Ripley”, afirmando que Law se parecia muito com ele quando mais jovem. Talvez tenha sido um tremendo acaso do destino –ou talvez os produtores desse filme estivessem assistindo à cerimônia... –mas, anos depois, foi o próprio Jude Law quem acabou escalado para reprisar o papel de Alfie Elkins, que havia sido de Michael em 1966 (e pelo qual ele recebera uma indicação ao Oscar de Melhor Ator) no filme “Alfie” –aqui no Brasil intitulado “Como Conquistar As Mulheres”.

Se não chega nem perto de igualar a qualidade, nem tampouco a relevância pulsante com que abordou elementos pertinentes e delicados referentes à revolução sexual e aos novos comportamentos de então, o novo filme serve, ao menos, para uma interessante avaliação da mudança dos tempos, no curioso contraste que se estabelece entre ele e o clássico original –e mesmo entre as circunstâncias que lhe tiram a contundência –e, queira ou não, ele vale a pena ser visto, também, pela convicta e certeira presença de Jude Law. Nisso, Michael Caine estava coberto de razão: Provavelmente poucos atores jovens em geral (e ingleses em particular) seriam capazes de se equiparar em apelo e competência ao desempenho que Caine entrega no filme de 66; no que diz respeito ao seu protagonista, pelo menos, este “Alfie-O Sedutor” se revela tão certeiro quando o clássico.

Uma pena que todo o resto não siga essa vibração: Motorista londrino de limusines descompromissado e galanteador, Alfie (Jude Law, numa segurança à toda prova) é um rapaz que se dá bem até demais com o sexo oposto. Sua rotina é enfileirar conquistas sistematicamente ao longo das noites de balada enquanto narra, no processo, suas aventuras românticas ao expectador, num tom de confissão/reflexão.

Todavia, a compulsão de Alfie por encontros casuais migra, aos poucos, de relações superficiais e basicamente físicas (como atestam as participações rápidas, porém descontraídas de Marisa Tomei, Sienna Miller e Jane Krakowski), para complicações afetivas e sentimentais para as quais ele não estava preparado –caso da recaída na qual Alfie seduz a namorada de um grande amigo. Se no filme original, neste momento –o ponto de virada da trama, digamos assim –o filme original confrontava o público e o personagem principal com um choque de realidade ao trazer, inclusive, uma perturbadora reconstituição de um aborto, o filme de 2004 prefere não pegar tão pesado assim. Ele abraça as intenções mais comerciais e menos sócio-comportamentais ao optar por uma solução onde, desta vez, o aborto não ocorreu, substituído por uma gravidez-surpresa. A tragédia que fica a definir o ponto de virada do protagonista é então uma amizade perdida por conta de sua compulsão por mulheres.

Com efeito, essa disposição de possuir menor contundência e menos ousadia se reflete diretamente no filme: “Alfie-O Sedutor” é prosaico onde o original era pungente; vai de uma comicidade colorida e cheia de flertes (na qual Jude Law se sai muito bem) para uma insossa seriedade forçada, quando o original afastava o público gradualmente do humor inconsequente para um drama avaliativo.

Em suma, a troca da década de 1960 para os anos 2000, drenou a urgência e a necessidade narrativa de expor arestas sociais varridas para debaixo do tapete tão presente (e tão fundamental) em um filme daquele período, para evidenciar a acomodação e até mesmo uma certa alienação por parte da geração subsequente. Até mesmo o desfecho semelhante ao de 66 –onde Alfie, enfim acometido de uma disposição súbita para dividir sua vida com uma mulher (no caso, a belíssima e sedutora Susan Sarandon), acaba descobrindo que foi trocado por outro alguém mais jovem, como ele próprio fez com outras mulheres –parece surgir como uma concessão afetiva e comportamental nesses tempos em que estar sozinho é melhor que estar mal-acompanhado.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Homem-Aranha - Sem Volta Para Casa


 Spoilers são um fenômeno curioso. Há quem odeie recebê-los, preferindo a surpresa de descobrir tudo o que o filme tem a oferecer... bem, durante o próprio filme! Há quem não se importe com eles. Há aqueles que têm tanto prazer em dar spoilers aos outros que o ato de assistir ao filme acaba sendo uma satisfação secundária; eles gostam mesmo é de poder, depois, contar os segredos do filme a quem ainda não o viu. No cinema moderno, com narrativas como as de M. Night Shyamalan e seus finais-surpresa e a acessibilidade de informação da internet, os spoilers se tornaram um perigo para quem almeja uma experiência cinematográfica absolutamente pura, despida de interferências.

No caso de “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, aqueles expectadores que não forem conferir o filme em seus primeiros dias de exibição nos cinemas (na verdade, até mesmo eles!) correm o risco de receber uma avalanche de spoilers. Terceiro longa-metragem da trilogia solo do Homem-Aranha desde que ele passou a ser interpretado por Tom Holland e a integrar o Universo Marvel Cinematográfico –além da participação em outros filmes –“Sem Volta Para Casa” chega tão carregado de novidades espantosas e eletrizantes, tão repleto de momentos planejados com o objetivo de serem inesquecíveis e, ao mesmo tempo, tão sensacional e embriagante em seu ineditismo e empolgação que representa um desafio para qualquer um chegar  às salas sem saber nada sobre ele.

Iniciando arrojadamente na cena pós-créditos com a qual encerrou (sem muito encerrar...) a trama de “Homem-Aranha Longe de Casa”, “Sem Volta Para Casa” segue seu protagonista Homem-Aranha\Peter Parker (Tom Holland) no momento em que foi revelada, em cadeia nacional pelo próprio J. Jonah Jameson em pessoa (J.K. Simmons), a identidade secreta do herói. Sendo esta a terceira personificação do personagem nos cinemas (as anteriores foram vividas por Tobey Maguire e por Andrew Garfield), por vezes o diretor Jon Watts se viu obrigado a adaptar arcos narrativos diferenciados dos quadrinhos a fim de não se repetir. No primeiro (“De Volta Ao Lar”), sob forte referência dos longas de John Hugues, ele acompanhou a rotina escolar de Peter e sua fase no ensino médio, lutando para desvencilhar-se das obviedades de uma trama (já contada) de origem. No segundo (o já citado “Longe de Casa”), ele contou uma aventura descompromissada a girar em torno de férias na Europa. Nos dois casos, a Marvel Studios enfrentou críticas justamente por fugir das características que definiam o Homem-Aranha enquanto personagem e que o atrelavam em demasia à heróis como o Homem-de-Ferro tirando-lhe certa individualidade –a despeito da ótima atuação de Tom Holland.

“Sem Volta Para Casa” vem para rebater cada um desses protestos: Ele é tão original, tão ágil e incisivo, tão consciente dos elementos icônicos que manuseia que provavelmente não tardará a se sagrar como um dos melhores (ou O melhor) filmes em live-action do Homem-Aranha –e Tom Holland, seu intérprete mais consistente e definitivo.

O fio narrativo que conduz a esse enredo tão cheio de surpresas começa quando Peter, farto de ver seus amigos, M.J. (a cada vez mais maravilhosa Zendaya) e Ned (Jacob Batalon) sofrerem por terem contato com o Homem-Aranha, resolve procurar a intervenção mística do Doutor Estranho (Benedict Cumberbath) para que, com um feitiço, ele apague da memória de todo o mundo que Peter é o Homem-Aranha. Contudo, algo dá errado, e o feitiço mexe com o conceito que, encerrada a Saga de Thanos com o magnífico “Vingadores-Ultimato”, deve nortear a próxima saga a conectar os filmes da Marvel: O Multiverso –já abordado na minissérie “Loki”, da plataforma Disney Plus. Resumindo: Agora, os vilões vindos de outras realidades alternativas –como Dr. Octopus e Duende Verde, vividos magistralmente por Alfred Molina e Willen Dafoe dos mesmos filmes com Tobey Maguire –aparecem na realidade do Universo Marvel, complicando a vida do herói e ameaçando vidas. São um total de cinco (já vistos nos trailers): Além de Dr. Octopus e Duende, também o Electro (Jamie Foxx, num personagem melhor desenvolvido do que foi em “O Espetacular Homem-Aranha 2”), o Lagarto (Rhys Ifans) e o Homem-Areia (Thomas Aden Church).

A união de todas essas pontas soltas é indicativa do brilhantismo do trabalho de Jon Watts que –se não agradou a gregos e troianos nos dois filmes anteriores –conseguiu superar-se neste daqui, entregando um trabalho onde honra seu personagem extinguindo qualquer margem para questionamentos quanto a sua fidelidade aos quadrinhos, fazendo deste terceiro filme o arco final onde, em retrospecto, podemos enxergar esta como uma ‘trilogia de origem’ do personagem, ao mesmo tempo que o coloca numa nova, inesperada e possivelmente promissora trajetória de vida adulta, sem evitar, desta vez, os momentos mais sombrios que coloquem à prova justamente sua fibra moral como super-herói.

É tentador, para qualquer resenhista deste filme, revelar as surpresas arrebatadoras que “Sem Volta Para Casa” entrega praticamente o tempo todo durante suas nada modestas duas horas e meia de duração (algumas ombreiam os momentos antológicos de “Ultimato”), entretanto, seria um pecado: Sua experiência é tão vívida, tão assombrosamente sensorial, emocional e mágica que todos merecem a chance que conferi-la nos cinemas livres de spoilers. No que depender de mim, está feito, no entanto, meu conselho é: Corra para vê-lo (e maravilhar-se) o quanto antes!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Entre Quatro Paredes


 Certos filmes independentes acabam superestimados diante do fato de que, de um certo tempo em diante, a Academia de Artes Cinematográficas passou a nomear, ano após ano, um representante, assim digamos, da parcela independente da produção cinematográfica norte-americana. Em 2002, quis o destino que esse representante fosse o dramático (quase melodramático!), árido e comiserativo “Entre Quatro Paredes” –a despeito da originalidade e da audácia narrativa de “Amnésia”, daquele mesmo ano.

“Entre Quatro Paredes” é sobre a família Fowler; sobre o pai, Matt (Tom Wilkinson), a mãe Ruth (Sissy Spacek), e o filho Frank (Nick Stahl, de “O Exterminador do Futuro 3-A Ascensão das Máquinas”); e é, de certa forma, sobre o romance deste com Natalie Strout (Marisa Tomei), uma sensual mulher madura. Dirigido pelo ator Todd Fields (participou de “Twister” e “De Olhos Bem Fechados”), “Entre Quatro Paredes” entrega de pronto essa procedência ao focar sua condução na postura de seu elenco, a ignorar, no processo, todo o resto: Ritmo, atmosfera, até mesmo uma certa lógica interna.

A primeira parte incumbe-se de um registro corriqueiro, de obstinada veracidade, da rotina do dia-a-dia suburbano: São almoços, churrascos de domingo, ou meras situações prosaicas capturadas com uma certa referência (involuntária ou não) ao cinema do britânico Mike Leigh: O indivíduo absolutamente comum tornado central em uma narrativa que o enaltece.

As dinâmicas obtidas aí –o pai a assimilar, orgulhoso, o romance do filho com uma mulher mais velha; a mãe dividida entre o amor ainda apegado ao filho e a presença dessa nova mulher cheia de bagagens e histórias imprevistas trazidas para a simplicidade de seu núcleo familiar; a até mesmo a atração velada do próprio pai por essa nova namorada do filho –não se mantêm por muito tempo. Logo, o filme agrega elementos ásperos de tragédia.

Ex-marido de Natalie, o violento Richard (William Mapother, de “A Outra Terra”) num surto de cólera mata Frank! Contudo, filho de ricaços locais, ele não aparenta, nos dias que se seguem, receber punição por seu ato –Ruth se vê obrigada a vê-lo alegremente bebendo na rua com os amigos, todos os dias. Os efeitos de indignação, luto e expectativa por alguma justiça (venha ela de onde vir) passam a ser assim explorados pelo roteiro, pela direção e pelas atuações nesse casal de protagonistas.

Dessa forma, “Entre Quatro Paredes” faz da lentidão sua fonte de suspense, e a referência que o norteia quando já está a adentrar seu trecho final é, assim “Desejo de Matar”, com Charles Bronson, evocando de modo muito mais árduo e psicologicamente denso a trajetória do pai de família levado a praticar justiça com as próprias mãos.

É pena que, nesse contraste deliberado que o filme trabalha entre os blocos distintos que compõem seu todo, o filme de Todd Fields é menos imprevisível e inesperado, e mais incoerente e inconstante; características que, a despeito do trabalho majestoso de seu elenco (certamente, sua grande força) não o fazem corresponder ao enaltecimento prestado pela Academia no Oscar 2002, do qual, não à toa, ele saiu de mãos abanando.

quarta-feira, 31 de março de 2021

O Poder e A Lei


 É curioso que este “The Lincoln Lawyer” seja, para muitos, o marco zero da chamada ‘McConassence’ –o processo pelo qual, através de um punhado de filmes, Matthew McConaughey provou que não era um mero galã de filmes românticos, mas sim um ator capaz, competente e destemido –uma vez que ele é consideravelmente menos reconhecido do que os demais títulos que pavimentaram o caminho do astro rumo ao Oscar de Melhor Ator, tais como “Magic Mike”, “Killer Joe”, a primeira temporada de “True Detective”, o próprio “Clube de Compras Dallas” e “Interestelar.

Em termos cronológicos, no entanto, não restam muitas dúvidas de que foi aqui onde tudo começou.

McConaughey vive Michael Haller, um advogado de Los Angeles tarimbado em achar os atalhos em meio às tortuosas cirandas de crimes, flagrantes, delitos e audiências que compõem a rotina judicial. Também é um tanto quanto hábil em ignorar a ressaca moral originada do fato de defender clientes que quase nunca são tão inocentes assim.

No roteiro de John Romano meticulosamente bem inserido nos meandros e expedientes de filmes de tribunal –embora “The Lincoln Lawyer” custe um pouco a se revelar como um –a dualidade a que se presta a atividade do protagonista está esboçada em diversos aspectos de sua vida, inclusive a pessoal: Haller é ex-marido de Maggie McPherson (Marisa Tomei), com quem tem uma filha, e que, por ironia, é justamente promotora de justiça; a ex-esposa, com quem Haller, portanto, precisa manter uma convivência senão dotada de harmonia, ao menos, dotada de camaradagem, tem por ofício exatamente a oposição ao que ele faz, lançar mão de argumentos para incriminar os mesmos meliantes que Haller liberta.

Entretanto, a premissa caminha mesmo em direção ao pulo do gato quando Haller é chamado para defender um réu num julgamento enganosamente simples: Um ricaço (Ryan Phillipe)  foi acusado de espancar uma jovem prostituta. Haller deve inocentá-lo evidenciando o fato de que ela talvez tenha armado para extorquir dinheiro dele.

Se no início tudo parece transcorrer como mais um caso, dos tantos que ocupam, sem maiores preocupações, os dias do desprendido advogado, logo, porém, um detalhe banal acende um alerta em Haller. O caso parece, subitamente, adquirir ligação com outro, sucedido anos atrás, e que resultou na condenação do cliente de Haller.

De alguma forma, os dois casos estão relacionados, e o cliente atual de Haller pode não ser tão inocente quanto afirma.

Contudo, na condição de advogado de defesa, suas mãos estão atadas: Cabe a Haller se esforçar em inocentar seu cliente, qualquer resultado diferente seria prejudicial para sua imagem e carreira, ainda que os indícios de que ele defende agora um sociopata, vão se acumulando.

O filme dirigido com bastante eficácia por Brad Furman lança assim uma pergunta ao expectador: Quais providências tomar quando se descobre, já na metade de um processo judiciário, que o seu cliente deveria, e merecia, ser condenado?

Não é tão simples a resposta, e nem mesmo o filme de Brad Furman pretende nela chegar por meio de um caminho simplista: Quando o julgamento finalmente toma conta da narrativa na absorvente segunda metade, as cartas já se encontram dispostas na mesa apenas para que a direção e o roteiro as trabalhem com perícia e minimalismo, atentos às minúcias de ordem dramática e às reviravoltas imprevistas.

Muito pouco disso funcionaria se a frente de tudo não estivesse um ator expressivo capaz de conduzir a plateia por uma trama pontuada de diálogos e termos complexos: Como um prestidigitador que engana o público com sua agilidade nas mãos, a atuação de McConaughey captura a atenção do expectador mesmo quando o filme, em seu mergulho sem ressalvas nas engrenagens jurídicas, não oferece razões para merecê-la.

Um truque e tanto num filme que termina fazendo jus a essa atenção recebida.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Oscar - Minha Filha Quer Casar


 A adentrar os anos 1990, a carreira de Sylvester Stallone –assim como a de outros astros de ação dos anos 1980, como Arnold Schwarzenegger ou Bruce Willis –viu-se numa necessidade de reinvenção (afinal, músculos e disposição física não são atributos eternos). E uma das suas primeiras incursões num gênero diferenciado, como a comédia, ocorreu neste divertido e curioso “Oscar-Minha Filha Quer Casar” –lembrado por uns como um hilário passatempo da década de 1990, e por outros como um destoante, e até lamentável, título na filmografia do astro, “Oscar” estranhamente divide opiniões.

Stallone vive o gangster Angelo ‘Snaps’ Provolone que, já na primeira cena, assiste consternado a morte do pai (Kirk Douglas, numa ponta luxuosa); antes de morrer, contudo, ele leva Snaps a fazer uma promessa: Deixar os negócios escusos de lado e virar um homem honesto, dando assim o ponto de partida para as confusões.

Passa-se um mês, e o filme então inicia-se de fato, a transcorrer sua trama de idas e vindas e graciosos mal-entendidos em um único dia: O dia em que Snaps –ou melhor, o Sr. Provolone –haverá de tornar-se um empresário honesto, ao selar, ao meio-dia, um acordo com um grupo de banqueiros em plenos anos 1930.

Entretanto, é nesse dia que todos os problemas acarretados por sua família virão bater a porta de Provolone: A começar por Anthony Rossano (Vincent Spano, ator de alguns filmes dos Irmãos Tavianni), seu desaforado contador que aparece para exigir um aumento considerável de salário (!) e a mão de sua filha em casamento (!).

Entretanto, o que Provolone ainda não sabe –e que descobrirá aos trancos a barrancos ao longo do dia –é que Rossano não se refere à sua filha de fato, Lisa (Marisa Tomei), que realmente está grávida, só que do ex-chofer, Oscar (!), mas à meiga Theresa (Elizabeth Barondes), garota pobre que mentiu ser sua filha.

Como Rossano apropriou-se de uma considerável soma em dinheiro a fim de devolvê-la à Provolone só quando este lhe cedesse a mão da filha em matrimônio, ele não pode dizer-lhe ainda a verdade, e talvez, nem queira: Afinal, a despeito de Theresa e Rossano se amarem, ele precisa providenciar um marido para Lisa, já que Oscar (um personagem que só aparece no final, interpretado pelo roteirista Jim Mulholland, mas sobre quem todos falam e cujas ações movimentam toda a trama) alistou-se no exército.

Durante as confusões que se sucedem na mansão de Provolone, do lado de fora, policiais de tocaia (liderados por Kurtwood Smith) e gangsters rivais (comandados por Richard Romanus) organizam suas próprias investidas contra Snaps, certos de que ele está armando das suas.

Ainda que rocambolesca, a sinopse não dá conta das trapalhadas e do fluxo ininterrupto de gags que se passam ao longo do filme, tornando-o, para aqueles capazes de apreciar a comédia que ele é, um tanto saboroso e engraçado –e o diretor John Landis, além de aproveitar esses desenlaces típicos para ambientar seu filme numa direção de arte primorosa em acabamento cenográfico, pontua sua narrativa com belíssimas e arrojadas participações, como a linda e macarrônica esposa de Provolone (a italiana Ornella Muti), o solícito e perplexo padre local (o veterano Don Ameche), o avoado e prestativo fonoaudiólogo (o ótimo Tim Curry), os hilariantes capangas de Snaps, Aldo (Peter Riegert, de “O Máskara”), indignado com sua ‘promoção’ à mero mordomo, e o engraçadíssimo brutamontes Connie (o sensacional Chazz Palminteri).

O que talvez explique uma certa indisposição com este filme por parte do público, seja justamente a presença nele de seu protagonista, Sylvester Stallone: Embora acha graça genuína em sua participação –o que talvez se deva mais pelo biotipo improvável de Stallone do que por sua interpretação de fato –alguns expectadores certamente esperavam dele o mesmo que ele entregou em todos os seus filmes; e “Oscar”, apesar disso, não traz uma única cena de ação, mostrando, em vez disso, um humor de bases quase teatrais –foi inspirado em uma produção francesa homônima de 1967 escrita por Claude Magnier –com suas entradas e saídas de cena potencializadas em seu humor e em seu ritmo pelo dinamismo da música “O Barbeiro de Sevilha” servindo de elemento instigante da narrativa.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Tudo Por Um Sonho

Separado da esposa e da filha por vinte anos enquanto foi prisioneiro do regime totalitário de Cuba, o sonhador Juan Perez (o sempre bom Alfred Molina) não deixa de ser vítima das imprevisíveis ironias da vida quando parece enfim aportar nos EUA: Ele é equivocadamente tomado pelo oficial de imigração como marido da ex-prostituta Dorita (Marisa Tomei, voluptuosa e insinuante como nunca), já que o sobrenome Perez é relativamente comum entre os imigrantes.
Para eles, é até conveniente a manutenção do engano: Famílias numerosas não são deportadas para inumanos abrigos militares e ainda recebem patrocínio de assistentes sociais voluntários para começar a vida nos EUA.
É por isso que Dorita passa a procurar 'membros da família' entre os refugiados, desde o 'papai' (um idoso senil que anda nu e sobe em locais altos) até o 'filho do casal' (um menino órfão já familiarizado com a malandragem dos subúrbios).
Do outro lado desta trama de encontros e desencontros, a esposa verdadeira de Juan, Carmella (Anjelica Huston) e sua filha Teresa (Trini Alvarado, de “Os Espíritos”) tentam –mas, nunca conseguem –reencontrá-lo, e a desilusão resultante começa a empurrar Carmella para os braços do pretendente mais próximo, o detetive Pirelli (Chazz Palminteri).
A diretora indiana Mira Nair não esconde, em sua filmografia, o apreço por temas e indivíduos marginalizados, é pena que ela use desse interesse criativo para fazer aqui uma mera comédia romântica; sim, porque por mais que hajam subterfúgios inesperados (como a repentina morte de um dos personagens) nada esconde o fato de que tudo conspira para que o amor vá brotar entre Juan e Dorita.
Ao menos, Mira Nair se beneficia de presenças formidáveis que aumentam o interesse pelo filme, como a vulcânica Marisa Tomei, a encantadora Anjelica Huston e os charmosos Alfred Molina e Chazz Palminteri.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Homem-Aranha - Longe de Casa

Apesar do jovem Tom Holland ser o intérprete que melhor reuniu as características de Peter Parker/Homem-Aranha no cinema, muitos foram os que torceram o nariz para a versão do personagem inserida no Universo Marvel Cinematográfico, sob a alegação de que ele foi descaracterizado, perdendo muito de sua essência ao ser atrelado ao Homem de Ferro de Tony Stark, o que deixou de lado certos elementos seus tidos por determinantes.
Há um pouco de razão nisso; e tais reclamações tendem a se intensificar ainda mais com este “Homem-Aranha Longe de Casa”.
Vindo de uma esteira de mais de vinte filmes, e dando continuidade a um dos mais impactantes dentre eles (o absolutamente espetacular “Vingadores-Ultimato”), o novo filme do Homem-Aranha padece de um problema semelhante ao que acarretou em “Homem de Ferro 2”: Os realizadores, conscientes de que sua narrativa particular integra todo um universo rico, vasto e compartilhado, por vezes se esquecem de focar em seu protagonista e em sua história afundando com frequência num mar de referências sobre acontecimentos que já se sucederam –ou que ainda haverão de se suceder.
É difícil, por exemplo, abordar “Longe de Casa” como uma narrativa independente –coisa que ele não é, e os críticos mais vorazes terão de aceitar o fato que daqui para frente será assim –ele se inicia meses após os acontecimentos de “Ultimato”, ou seja, depois de todas as pessoas dizimadas pelo estalar de dedos de Thanos (fenômeno nomeado aqui como ‘Blip’) serem novamente trazidas à vida –o que inclui o protagonista Peter Parker (Tom Holland, mais adequado ao papel do que nunca) e quase todo seu séquito de coadjuvantes; sua bela Tia May (Marisa Tomei), seu melhor amigo Ned (Jacob Batalon), seu interesse amoroso M.J. (Zendaya), seu rival Flash Thompson (Tony Revolori) e alguns outros.
Aqui, todo o núcleo estudantil daquele elenco arruma as malas para um tour pela Europa –o que confere ao filme as belas ambientações do Velho Continente como Veneza, Praga e Paris. Porém, é claro que os planos de Peter –de conseguir se declarar em grande estilo à garota que ama –serão frustrados por Nick Fury (Samuel L. jackson) que irá requisitar as habilidades de sua identidade super-heróica; um dos poucos disponíveis após as inúmeras baixas e desistências ocorridas em “Ultimato” (algumas delas mostradas em um clip intencionalmente dramático, mas involuntariamente cômico, visto no início).
Fury precisa do auxílio de Peter, ou melhor, do Homem-Aranha, porque gigantescas criaturas desconhecidas, os Elementais, apareceram no mundo criando caos e destruição. O único a se opor a elas vem a ser Quentin Beck (Jake Gyllehhaal, ótimo), segundo o próprio, um superherói vindo de uma realidade paralela ostentando poderes que fazem dele o único salvador à mão –Peter seria assim uma espécie de ajudante.
Até quase a metade de sua duração, “Longe de Casa” divide-se assim entre as tentativas algo atrapalhadas de Peter em ser um adolescente normal –tentando flertar com M.J., inventando estratagemas elaborados para encobrir sua vida dupla ou simplesmente buscando se desvencilhar das exigências de Fury –e seus esforços para conter a ameaça dos Elementais ao lado de Quentin Beck.
No entanto, não é surpresa para ninguém que tenha lido quadrinhos ou tenha um mínimo de conhecimento da mitologia do Homem-Aranha que Quentin Beck é, na verdade, o vilão ilusionista Mysterio –e essa revelação não tarda a ocorrer dando uma guinada até previsível, mas bastante interessante à trama; tão mais interessante pela maneira orgânica com que os roteiristas souberam enraiza-la no contexto do Universo Marvel dando, inclusive, ao Mysterio toda uma funcionalidade cinematográfica que chega a nos fazer perguntar por que esse antagonista não havia sido aproveitado antes.
Como pano de fundo, as paisagens européias de cartão-postal.
Há outro pano de fundo também: A ressonar como um dos empuxos morais e sentimentais da trama está o tempo todo a lembrança de que Tony Stark, o mentor de Peter Parker, não vive mais; e o peso (um tanto quanto grande para o jovem rapaz) de que é ele quem deve herdar agora esse legado.
Eis aí, portanto, um dos motivos para a maior grita dos fãs mais devotados do Aranha: A de que Tony Stark ocupa aqui o papel existencial que seria de direito e de fato do Tio Ben nesta nova versão do herói –o exemplo de sacrifício, heroísmo e responsabilidade que o empurra para frente e o motiva a continuar sendo o Homem-Aranha.
Da forma como é concebido, o filme paga um tributo desmedido ao herói tombado e, na opinião de alguns, descaracteriza seu protagonista real: “Longe de Casa” segue os tópicos narrativos dos dois primeiros filmes do Homem de Ferro (dirigidos por Jon Favreau que aliás tem aqui um papel também ele fundamental), com tamanha preservação de referências e analogias que Peter quase deixa de ser o Homem-Aranha para ser uma espécie de Homem de Ferro Jr.(!)
Quase. Porque uma série de elementos genuínos do herói ainda estão lá. Porque Tom Holland é encantador e inescapavelmente certeiro em sua personificação. E porque o diretor Jon Watts compreende aqui de maneira ainda melhor que em “Homem-Aranha De Volta Ao Lar” que aquilo que define o herói é sua condição perene e periclitante de um ser humano falho passível de se meter em enrascadas mais do que em escapar delas, e com todos esses atributos a lhe pesar ainda tenta salvar o dia e seus entes queridos.
A lição primordial –e à época inovadora –deixada pelo criador Stan Lee, que o Homem-Aranha incorpora como nenhum outro e que a Marvel Studios (mais que qualquer outra produtora) compreende como ninguém.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Meu Primo Vinny

Não fosse a inusitada e imprevista celeuma provocada pela vitória de Marisa Tomei, como Melhor Atriz Coadjuvante no Oscar 1993, pouca gente daria atenção à “Meu Primo Vinny”.
Entretenimento humorístico, daquele tipo encomendado para o perfil de um astro específico –que aqui, é Joe Pesci, mas poderia perfeitamente ser Dudley Moore ou Danny De Vito se fossem os anos 1980 –o filme realizado por Jonathan Lynn teve tirada de si a oportunidade de surpreender pela comédia graciosa que é. Em vez disso, teve de carregar a pecha da polêmica (a despeito do merecimento –ela está ótima! –Marisa teria ou não levado o prêmio se não fossem as trapalhadas de Jack Palance?) e arcar com uma expectativa inesperadamente elevada de público e crítica.
A confusão que dá o ponto de partida ao filme começa quando dois amigos (um deles vivido por Ralph Macchio, de “Karatê Kid”) saem de uma lanchonete sem lembrar de pagar a conta. Ao serem interceptados pela polícia, um imbróglio dos diabos coloca-os numa enrascada: Eles pensam tratar-se da conta não paga e confessam serenamente sua infração, entretanto, os policiais se referem a um assassinato cometido, logo depois, na lanchonete (!) –esse é um dos diversos mal-entendidos que o roteiro construirá com objetivos cômicos.
É aí que entra em cena Vinny, o personagem de Joe Pesci, um ítalo-americano ignorante, recém-formado em Direito, porém, sem qualquer experiência na área, primo de um dos acusados que tentará livrar a barra dos dois.
Para tanto, Vinny (que leva a tiracolo sua intempestiva noiva vivida por Marisa Tomei) deve superar a própria ignorância em relação às complexas questões jurídicas e manter as aparências perante o juiz e o promotor, que creem ser ele um gabaritado advogado.
Meu Primo Vinny” pega o gênero de filme de tribunal –bastante popular naqueles anos 1990 –e o satiriza com propriedade, não excluindo da receita os diálogos inteligentes que introduzem galhofa e comicidade às argumentações legislativas, sem nunca, porém, soar pretencioso ou demasiado sério.
Os vinte minutos finais são bastante acertados ao encontrar uma solução inesperada justamente na personagem de Marisa Tomei; oportunidade que ela de fato aproveita completamente para brilhar.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Zandalee - Uma Mulher Para Dois

Ainda no embalo de uma espécie de reconhecimento alternativo que ele obteve por sua participação em “Coração Selvagem”, de David Lynch, o ator Nicolas Cage aparece aqui fazendo o que sempre foi sua especialidade: Um personagem surtado dos pés à cabeça.
Se Cage ainda viria a melhorar bastante como intérprete, aprimorar sua técnica (chegando até a ganhar um Oscar por “Despedida Em Las Vegas”), virar um astro a partir da metade dos anos 1990 e então entrar numa decadência tão vertiginosa quanto foi a sua ascensão, por outro lado, seu co-astro, Jugde Reinhold (de “Um Tira da Pesada”), coadjuvante relativamente assíduo nos anos 1980, fazia uma de suas últimas aparições relevantes no cinema.
Eles interpretam dois grandes amigos de infância: Johnny (Cage), um pintor de impulsos violentos e passionais, e Thierry (Reinhold), um poeta embriagado de seu próprio desdém pela sociedade.
Johnny reencontra Thierry após muitos anos em Nova Orleans –cidade cuja exotismo é empregado sem modéstia nos propósitos atmosféricos do filme –e, ao retomarem a amizade retomam também seu inconformismo com tudo e com todos.
Entretanto, Thierry é casado com a linda e insinuante Zandalee (Erika Anderson, tentadora) e embora seu desprezo, por vezes, se estenda até a esposa e o marasmo que ocasionalmente consome seu casamento (com a atenção de Thierry mais dedicada aos negócios da família do que à mulher), isso não ocorre com Johnny: Ele só enxerga em Zandalle erotismo e beleza –e, logo, ela se torna assim objeto de suas obsessões, e mote central de sua arte renascida.
Um triângulo amoroso se estabelece. Johnny e Thierry usam Zandalee como sua musa e combustível de sua criação artística ao mesmo tempo que assumem uma disputa por meio de deliberações que passeiam por concepções desconcertantes da vida e do mundo –há uma inteligência flagrante e de notável riqueza cultural nos diálogos –enquanto criam (e envolvem-se) em uma névoa própria dentro da qual atitudes, comportamentos e posturas distintas do mundo real –porém, não desprovidos de certa compostura –podem assim se expressar e encontrar um meio de se conciliar.
Dirigido por Sam Pillsbury (roteirista e produtor da ficção científica “Terra Tranquila”), “Zandalee” destaca-se por seu romantismo e excentricidade levados ao extremo e às últimas consequências, por sua desenvoltura ao afirmar-se sensual sem ceder (muito) ao vulgar, pela participação notável e exalando charme de Erika Anderson (que infelizmente, depois deste trabalho não participou de mais nenhum projeto relevante) e pela chance de ver Nicolas Cage e sua doideira interpretativa em estado bruto.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Motoqueiros Selvagens


Já na primeira cena a capacidade de fazer rir do filme de Walt Becker já fica bem clara: O grupo formado por John Travolta, Tim Allen, Martin Lawrence e William H. Macy percorre uma rua, todo supino, sob suas motos. É Macy quem acaba fazendo uma micagem qualquer e se dá mal; embora tenha dois comediantes notórios entre seus protagonistas (Allen e Lawrence) e um astro com timing cômico (Travolta), é o único ator de fato (Macy), quem consegue trazer para si os momentos mais hilários.
O mote de “Motoqueiros Selvagens” é a típica crise de meia idade que acomete os homens na faixa etária dos quatro grandes amigos.
Woody (Travolta) almeja uma sensação de liberdade que há tempos não experimentava, enredado pelos aborrecimentos da vida urbana e por um casamento sem ânimo.
Seus amigos, Doug (Allen), Bobby (Lawrence) e Dudley (Macy) podem até não compartilhar do mesmo grau de desespero, mas identificam-se com sua injúria pela vida comportada o suficiente para ir com ele em viagem pelo país a bordo de suas motos, planejada em cima da hora e na qual rege a regra do rompimento com os vínculos da sociedade; sem telefones celulares, Internet ou qualquer distração.
No entanto, na primeira tentativa que os quatro motoqueiros de araque engendram para confraternizar com motoqueiros reais –no caso, a gangue dos Del Fuegos, liderada por um ameaçador Ray Liotta –um contratempo acontece: Uma tentativa até inocente de retribuir a hostilidade sofrida leva Woody a, sem querer, botar fogo no bar que serve de moradia para os Del Fuegos! E agora, os quatro amigos têm toda uma gangue em seu encalço.
Esse detalhe gera menos tensão e mais uma oportunidade de arremate para a narrativa episódica: Quando os quatro pretensos motoqueiros chegam à uma cidadezinha hospitaleira às voltas com uma comemoração regional –e o personagem de Macy encontra uma divertida chance de romance nas curvas da personagem vivida por Marisa Tomei –é providencial que a gangue de motoqueiros malvadões apareça para oferecer o tempero de algum conflito na condução tão tranquila e descontraída que vinha se construindo; além da oportunidade para os urbanizadas e civilizados heróis demonstrarem lá ao seu jeito que têm coragem.
Serve para mais outra coisa também: A participação cheia de significado e enaltecimento do grande Peter Fonda, um grande ator a quem para sempre foi relacionado o clássico “Sem Destino” –não tê-lo num filme de motoqueiros seria como falar sobre pintura e não mencionar Leonardo Da Vinci.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Chaplin

Durante muito tempo o cinema flertou com uma possibilidade inevitável: Um filme sobre a vida do intrépido Charles Chaplin –realizador que pode ser considerado uma das poucas figuras históricas que ilustra o próprio cinema.
Veio a ser o diretor Richard Attenborough (de "Gandhi"), amigo pessoal da família Chaplin, quem assumiu esse acalentado projeto, esforçando-se em concentrar, num riquíssimo filme de cento e quarenta e oito minutos, os aspectos de uma vida desigual que renderia fácil uma dezena de filmes –para tanto, ele inspirou-se em “My Life”, a autobiografia de Charles Chaplin (há cenas nas quais o personagem fictício, interpretado por Anthony Hopkins, rememora a trajetória dele para a realização da obra) e na biografia “Chaplin, His Life And Art”, escrita pelo pesquisador David Robinson.
A estrutura narrativa do filme assim dá ênfase ao fato de que o caminho trilhado por Chaplin é paralelo ao do próprio cinema no século XX, pontuada, no entanto, pelas influências –sejam elas inspiradoras ou destrutivas –das mulheres que passaram pela vida do protagonista.
Dessa forma, Attenborough inicia seu filme ainda na infância pobre repleta de correrias e privações em Londres, em meio à qual os realizadores acreditam estar a gênese para as motivações e o comportamento que Charles apresentou ao longo da vida; em especial, o caráter lúdico que deu a seus filmes.
Quando o filme avança para mostrar Charles em sua juventude –em meio às apresentações nos palcos de valdeville londrinos –é quando somos introduzidos ao ator extraordinário que dá vida à Charles Chaplin: Robert Downey Jr. (hoje, unanimemente conhecido como intérprete do “Homem de Ferro”) que foi merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator por este trabalho.
O talento irrestrito de Charles não tarda a levá-lo a migrar para a América, onde é contratado como figurante pelo produtor Mack Sennett (Dan Aykroyd), entretanto, a criatividade pulsante e independente de Charles o leva a trilhar um caminho próprio como realizador (bem como à criação de seu mais célebre e simbólico personagem, Carlitos, o vagabundo) culminando em sua consagração como gênio do cinema na América, onde criou filmes que alegraram e emocionaram milhões.
O terço final do filme mostra a textura inusitadamente política apontada nas atitudes de Charles como quando se recusou a aderir ao cinema falado, e a celeuma levantada até mesmo à revelia dele quando lançou o maravilhoso “O Grande Ditador”. Fatos que estranhamente lhe renderam amigos e inimigos –sendo os mais insidiosos e marcantes o promotor Joseph Scott (James Woods) e o chefe do FBI, J. Edgar Hoover (Kevin Dunn), que o investigaram, caluniaram e perseguiram até obter sua extradição dos EUA, em 1952.
Para só voltar vinte anos depois, quando recebeu um Oscar honorário na breve e emocionante seqüência que encerra o filme.
Como mencionado acima, as companheiras de Charles definem muito de quem ele se torna e dos rumos que sua vida toma: O primeiro (e relativamente trágico) amor, a bailarina Hetty Kelly vivida por Moira Kelly; a primeira mulher Mildred Harris (Milla Jovovich, não somente antes da franquia “Resident Evil” como antes até mesmo de “O Quinto Elemento”); a atriz Paulette Goddard (Diane Lane) que também se envolveu com ele; a problemática Joan Barry (Nancy Travis); e a última esposa Oona (novamente interpretada por Moira Kelly, num recurso que proporciona à trama uma espécie de circularidade afetiva).
Se a direção de Attenborough, ainda que cheia de propriedade, não escapa de um tom solene e deslumbrado, o seu filme é emoldurado numa brilhante atuação de Robert Downey Jr, que confere humanidade, solidez e ares genuinamente comoventes à um personagem desafiador e intimidante para qualquer ator.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1993

A consagração de Clint Eastwood pelo fenomenal “Os Imperdoáveis” –pelo qual o grande Gene Hackman também levou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante.
Também foi um reconhecimento (para muitos, tardio) de Al Pacino por sua atuação em “Perfume de Mulher” em meio a uma carreira pontuada por trabalhos memoráveis, além da conquista do prêmio de Melhor Atriz por Emma Thompson por “Retorno A Howard’s End”.
Entretanto, o momento mais peculiar da noite foi o anúncio do prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante realizado por um atrapalhado Jack Palance –há quem diga que ele tinha tomado umas e outras no camarim! Após ler, como é de hábito, o nome das cinco indicadas que surgiam em ordem na tela do telemprompter (que eram Miranda Richarson, por “Perdas eDanos”, Vanessa Redgrave –até então a favorita e vencedora do Globo de Ouro –por “Retorno A Howard’s End”, Joan Plowright, por “Um Sonho de Primavera”, Judy Davis, por “Maridos e Esposas” e Marisa Tomei, por “Meu Primo Vinny”), Palance esqueceu seus óculos de leitura e, depois de alguns constrangedores segundos nos quais ficou claro que ele não conseguia ler o nome gravado da vencedora no envelope, ele disse o nome que apareceu por último no teleprompter: Marisa Tomei.
Uma das gafes mais lendárias nunca devidamente esclarecida do Oscar.

MELHOR FILME
"Os Imperdoáveis"

MELHOR DIREÇÃO
"Os Imperdoáveis", Clint Eastwood

MELHOR ATRIZ
Emma Thompson, "Retorno a Howard’s End"

MELHOR ATOR
Al Pacino, "Perfume de Mulher"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Marisa Tomei, "Meu Primo Vinny"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Gene Hackman, "Os Imperdoáveis"

MELHOR FOTOGRAFIA

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"The Panama Deception"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Educating Peter"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Indochina" (França)

MELHORES EFEITOS SONOROS

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"A Morte Lhe Cai Bem"

MELHOR MAQUIAGEM
"Drácula de Bram Stoker"

MELHOR FIGURINO
"Drácula de Bram Stoker"

MELHOR SOM
"O Último dos Moicanos"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Retorno A Howard’s End"

MELHOR TRILHA SONORA
“Aladim"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"A Whole New World", de "Aladim"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Retorno A Howard’s End"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Mona Lisa Descending A Staircase"

MELHOR MONTAGEM
"Os Imperdoáveis"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Omnibus”

sábado, 8 de julho de 2017

Homem-Aranha - De Volta Ao Lar

Parece escapar à compreensão de alguns que o sucesso conquistado pela Marvel Studios com seu universo compartilhado ao longo de vários filmes não se deve somente pela excelência técnica (exercida, sobretudo, no quesito de efeitos visuais) ou pela competência artística: Ela se deve, acima de tudo, porque a Marvel tem o bom senso raro de compreender integralmente seus personagens.
Essa característica fica totalmente clara em “Homem-Aranha-De Volta Ao Lar” –obra cujo protagonista a Marvel agora tem em mãos devido à um acordo (e a uma espécie de clamor popular, também) com os estúdios da Sony.
A dica já é dada no princípio do filme, quando surge escrito na tela, “Um Filme de Peter Parker” –embora a intenção seja uma galhofa (como muitas que o personagem protagonizará), ali há algo de verdadeiro: Este filme é, sim, sobre Peter Parker. O Homem-Aranha, a identidade que ele assume para combater o crime, impulsionado pela obtenção de seus poderes de aranha e por um entusiasmo característico da juventude, é um detalhe que determina a narrativa, mas seu cerne emocional e moral é, o tempo todo, Peter Parker, interpretado com vivacidade e profundidade por Tom Holland que, desde sua participação em “Capitão América-Guerra Civil”, ganhou não só a honra de viver o personagem agora oficialmente inserido no Universo Marvel Cinematográfico (e neste filme, tal aspecto é empregado numa infinidade de detalhes saborosos), mas também o direito de ser considerado até então a melhor personificação em cinema do personagem –que me perdoem as esforçadas tentativas de Tobey Maguire e Andrew Garfield...
Morador de classe média do Queens, em Nova York e estudante do ensino médio, o novo membro apadrinhado por Tony Stark (Robert Downey Jr. sempre fazendo sua participação valer a pena) do grupo dos Vingadores, tem a peculiaridade de ser um adolescente de quinze anos. Talvez, seja por isso que, apesar de sua imensa ansiedade, Peter não receba, ao longo de meses, nenhum telefonema de seu novo tutor para alguma missão além daquela em “Guerra Civil”, onde ele foi apresentado; e as cenas iniciais, que mostram os eventos daquela produção vistos por outra ótica já são um show à parte, e uma indicação das mais inspiradas do humor genuíno e irresistível do qual este filme vem dotado.
As coisas se complicam para o Homem-Aranha quando, em sua patrulha habitual como “herói do subúrbio”, ele descobre o esquema de Adrian Toomes (Michael Keaton, sensacional) que, desde os eventos mostrados em “Os Vingadores”, vem obtendo clandestinamente tecnologia alienígena e vendendo-a no mercado negro. A despeito dos alertas de Tony Stark e de seu braço direito Happy Hogan (Jon Favreau, de perfeito timing cômico) para que não se meta em encrencas, Peter decide ir a fundo na tentativa de desmantelar essa quadrilha, mas as atribulações dessa vida de vigilante mascarado vão colidir com a já agitada e caótica vida adolescente e estudantil de Peter que precisa equilibrar um romance relutante –com a bela Liz Allan (Laura Harrier), uma das meninas mais populares da escola –a amizade com o divertido Ned (Jacob Batalon), que acaba descobrindo seu segredo, e seus esforços atrapalhados para tentar ocultar isso tudo de sua Tia May vivida por uma deliciosa Marisa Tomei.
E sobram assim oportunidades (nenhuma delas desperdiçada) para que “De Volta Ao Lar” faça magníficas referências aos filmes de John Hugues, essenciais retratos desse tipo de dramaturgia adolescente; e a seqüência que emula um dos momentos antológicos de “Curtindo A Vida Adoidado” é nada menos que genial!
Está aí, pois, na variedade de cores e perplexidades da rotina de Peter Parker a grande sacada que faz da Marvel –e do universo ao qual ela dá corpo –algo tão especial: Os mesmos elementos que fazem e que fizeram o fascínio perene de gerações inteiras de leitores se vêem preservados e transpostos com brilho na tela do cinema.
No caso de Homem-Aranha/Peter Parker, são as irônicas exigências da vida heróica que insistem em intervir em suas tentativas de ser feliz numa vida normal, e o filme magistralmente dirigido pelo jovem Jon Watts utiliza desses expedientes com habilidade seja em seu humor, seja em seu drama.
Em meio à isso tudo, ele ainda insere cenas prodigiosas de ação e uma admirável construção de praticamente todos os personagens –as revelações a respeito de Adrian Toomes no terço final do filme são notáveis e surpreendentes: Precisa mais para que este seja o melhor filme do Homem-Aranha realizado até hoje?

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A Grande Aposta

A linguagem técnica pesada de “A Grande Aposta” o torna um corpo estranho no circuito comercial. Um indicado ao Oscar, do gênero comédia, mas com um inusitado pé na seriedade, também por relatar de forma perplexa um fato real e, não raro, fazer com que seu magnífico elenco oscile entre humor e drama.
Por volta de 2006, o analista Michael Burry (o sempre compenetrado Christian Bale), descobre, após exaustiva pesquisa, uma bolha iminente no mercado imobiliário norte-americano, e prevê com isso a quebra do sistema econômico mundial. De início desacreditado, ele tenta encontrar meios de obter algum benefício com essa descoberta. Isso acaba levando a informação à outros personagens como o escorregadio Jared Vennett (o brilhante Ryan Gosling) e o corretor Mark Baum (Steve Carell, ótimo), que descobrirá nesse processo o conflito que se dá entre a ética e a imunidade.

O diretor e roteirista Adam McKay, especializado em comédias (fez “O Âncora-A Lenda de Ron Burgundy” e sua continuação “Tudo Por Um Furo”) cria seu projeto mais difícil e audacioso, lançando mão de uma narrativa dinâmica e loquaz onde ocasionalmente precisa parar para esclarecer os termos complexos que saem da boca de seus personagens o tempo todo: E são providenciais, portanto, as participações especiais de Margot Robbie ou de Selena Gomez.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O Vingador Tóxico

Divertidíssimo, este "Toxic Avenger". Tido como a grande produção da Tromma (produtora dos anos 1970 e 1980 especializada em filmes grotescos e alternativos, em grande parte dirigidos ao público punk), ele reúne uma produção de relativa qualidade, certa inspiração na direção, uma trama descontraída muito bem equilibrada entre o simples e o bem acabado, e aquela qualidade intrínseca aos filmes que conseguem o feito raro de marcar um período: Ser o filme certo, na hora e no lugar certos!
Sim, pois não há melhor momento do que a década de 1980, tão carregada de maneirismos peculiares, e ainda provida daquela incorreção política saudável, que seria abolida pelo entretenimento na década seguinte (fazendo dela um momento tão cínico), para contar a história de Melvin, o jovem zelador de uma academia de ginástica que sofre maus tratos dos frequentadores marombados e afetados dessa mesma academia (incluindo aí algumas garotas lindas e fúteis), e que vão num crescendo preocupante, até culminar em sua quase morte: Ele cai em um tonel de dejetos radioativos, e (como costuma acontecer na maior parte das ficções) se transforma numa espécie de monstro, deformado, grotesco, ainda que musculoso e forte. Com o tempo ele arruma um lugarzinho para morar (um toca paupérrima no meio do mato!), e até mesmo uma namorada (muito gostosa e cega!!!).
Num ritmo e tom de história em quadrinhos, Melvin se torna o super-herói da cidade, e os jovens “descolados e esnobes” são assim seus vilões, isso pelo menos até que suas ações de ‘justiceiro’ chamem a atenção do prefeito e dos outros políticos corruptos da região.
E tão afetado é o seu registro que nos pegamos torcendo pelo ‘vingador tóxico’ para que lhes dê a devida lição; sem dúvida, uma forma dos realizadores buscarem a franca identificação de seu público, normalmente bastante discriminados, naquela época, pelos populares da escola.
Uma realização tão curiosa e fora do comum não podia escapar da sina de tornar-se Cult com o passar do tempo. Mais até: “Toxic Avenger” terminou se tornando aquilo que ele mesmo parodiava, uma produção de sucesso, cujo personagem principal virou tema para a comercialização de bonequinhos e outras traquitanas. A Tromma Produções realizou até continuações deste que é seu maior sucesso em toda sua história, todos incapazes de repetir o êxito do original.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O Lutador

Vislumbrando seu fim após um ataque cardíaco, lutador decadente busca juntar os cacos do que era então sua vida, o que inclui reaproximar-se de sua filha com quem mal tem contato. Há uma luta em seu passado que lhe deixou um assunto mal resolvido com outro lutador. A iminência do combate que se aproxima (e que pode custar lhe a vida), lhe dá uma esperança de redenção, bem como lhe dá coragem para tentar aproximar-se da stripper que lhe atende todas as noites. A única pessoa com quem de fato se relaciona.
A direção partilha conosco a ânsia por capturar e entender a história de um personagem que se mostra impenetrável. Encontrar assim as frestas que vislumbram uma história que se perdeu no passado. A câmera de Daren Aronofski, em sua garimpagem emocional, a transfigurar as cenas no brilhante cinema que se vê.
E Mickey Rourke dando corpo, alma, voz e sangue a um personagem que ele conhece tão bem.
Como em "Requiem Para Um Sonho" os enquadramentos e cortes (aqui não tão simultâneos, rápidos e pragmáticos) observam o acúmulo das feridas externas visando, por meio delas, as transformações internas.
Como em "Fonte da Vida" é a desesperada e desesperadora tentativa de um homem em entender o que parece estar além do ponto de não retorno.