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sábado, 15 de agosto de 2026

Amores Materialistas


 Dakota Johnson é uma atriz injustiçada: Alçada à fama pela infame trilogia “Cinquenta Tons de Cinza”, lançada a partir de 2015 (onde, também lá, ela demonstrava talento e carisma), Dakota experimentou uma exposição na carreira um pouco parecida com a de Robert Patinson e Kristen Stewart através da “Saga Crepúsculo”; fama, sim, e até algum sucesso de bilheteria, mas tudo isso atrelado a um filme mediano e à personagens péssimos que levavam púbico e crítica à percepção de que seus intérpretes eram ruins também. No caso de Dakota, ela não se ajudou estrelando, anos depois, o ainda pior “Madame Teia”, em 2024. Aos mais atentos, contudo, houveram indícios de sua competência, no remake de “Suspiria”, de 2018, conduzido por Lucca Guadagnino, e no desafiador “Papai”, de 2023 (um filme narrativamente espartano ambientado quase todo dentro de um carro), ao lado de Sean Penn.

Foi em 2025 que Dakota pode mostrar em dois belos e consistentes projetos a atriz maravilhosa, intuitiva, encantadora e promissora (características que espelhavam sua mãe, a veterana Melanie Griffith) que ela é: “Amores À Parte” e este “Amores Materialistas”.

Após do sucesso de seu “Vidas Passadas”, a diretora Celine Song mergulhou num projeto de predisposições emocionais similares ainda que mais audacioso na questão comercial e nos valores de produção.

O trio de astros (além de Dakota, o “Capitão América” Chris Evans e o Reed Richards de “Quarteto Fantástico-Primeiros Passos” Pedro Pascal) interpreta as três pontas de um triângulo  amoroso que parece levantar questões sobre objetivos práticos de vida em conflito constante com sentimentos de ordem mais abstrata (como o amor) ainda que essenciais na procura pela felicidade, propósito, afinal, de todos nós.

Dakota é Lucy Mason o que poderia se chamar de uma casamenteira moderna: Trabalha numa empresa especializada em providenciar aos clientes (sejam homens ou mulheres) o encontro perfeito; combinando preferências, escolhas e dados de perfil, eles promovem encontros que podem levar à descoberta do tão sonhado par perfeito.

Orgulhosa de ser uma das mais proeminentes em sua empresa, Lucy conquista pela nona vez um encontro que resulta em casamento, comparecendo na cerimônia, ela encontra dois extremos na forma de pretendentes muito reais: De um lado, o irmão do noivo, Harry Castillo (Pascal), rico, charmoso e atraente, aquela espécie de companheiro de tal maneira perfeito e inalcançável que, na empresa de Lucy, chamam de ‘unicórnio’ ele insiste em chamar Lucy para sair, no que é, inicialmente, rejeitado; do outro lado, ela reencontra John Pitts (Evans), ex-namorado dos tempos de juventude, trabalhando como garçom do buffet contratado, o relacionamento com John, a despeito do sentimento genuíno e duradouro envolvido, não foi para frente, devido às ambições materiais de Lucy. Ela almejava uma estabilidade financeira não apenas confortável, mas exuberante; já John não somente era um aspirante à ator pobretão como continuava a ser um aspirante à ator pobretão –e sem muitas esperanças de deixar de sê-lo...

O dilema com o qual a protagonista se defronta é até óbvio (o amor real interessado e inquestionável de John, embora atrelado às provações da classe média-baixa em contrapartida à vida de luxo e riqueza sugerida pelo mais que adequado Harry), mas aqui não deixa de ser contado com charme, observação social apurada e insuspeita primazia, seja na encenação, na direção de atores e na condução do roteiro.

Ainda que excelente, “Amores Materialistas” teve uma repercussão algo problemática entre o público, uma vez que sua equivocada campanha de marketing tentou vende-lo como uma comédia romântica, o que ele definitivamente não é: Celine Song constrói aqui um charmoso drama romântico (adornado, de fato, com muitos dos elementos sedutores das comédias românticas hollywoodianas) sobre a banalização das relações interpessoais, convertidas numa mercadoria intercambiável, manejada por meio de números e estatísticas (uma frase recorrente no roteiro é “A combinação era perfeita!”) despida cada vez mais da empatia para com o outro.

Essa notável perspicácia crítica pode ter feito o público alvo ressentir-se do resultado final, mas, transformou “Amores Materialistas” numa obra inteligente, sensata e anos-luz a frente, qualitativamente falando, de um mero filme de romance.

sábado, 27 de julho de 2024

Deadpool & Wolverine


 E já aviso de antemão, leitor ocasional ou não, este texto contém os famigerados spoilers, logo, se você aprecia uma experiência cinematográfica com surpresas intactas, leia depois de ter visto o filme!

Após os eventos de “Deadpool 2”, o mercenário Wade Wilson, mais conhecido como Deadpool (Ryan Reynoldos, desempenhando em estado de graça como sempre) procura por Happy Hogan (Jon Favreau) a fim de ingressar nos Vingadores –naquela época, 2018, vale lembrar, além dos acontecimentos de “Deadpool 2”, ainda estávamos às vésperas dos eventos bombásticos de “Vingadores-Guerra Infinita”. Durante a cena –que mais lembra uma mera entrevista de emprego –Happy convence Wade de que ele não necessariamente leva jeito para ser superherói (não no sentido altruísta do termo) e acaba convencendo-o a aposentar seu uniforme. De volta à sua realidade (para a qual ele pode ir e voltar graças ao aparelho fornecido por Cable em “Deadpool 2”, diga-se), Wade se torna um vendedor de carros e assim passam-se seis anos.

É no aniversário de Wade –no qual, providencialmente se reúnem os seus melhores amigos, ou seja, os coadjuvantes que estiveram ao lado dele em seus dois filmes –que o filme, agora dirigido por Shawn Levy, começa de verdade: Wade é visitado por agentes da AVT (Agência de Variância Temporal, mostrada na série “Loki”) e levado até sua sede onde recebe do funcionário Paradox (Matthew McFadyen, de "Orgulho e Preconceito") uma notícia indigesta. O seu universo (que corresponde ao universo mais ou menos bagunçado de filmes da Fox) está morrendo! Segundo Paradox, todo universo tem uma ‘âncora’, um ser tão essencial àquela realidade que sua morte pode levar à desintegração de todo o universo. A ‘âncora’ do universo de Wade morreu –no caso, Wolverine (vivido como todo mundo sabe, com excelência por Hugh Jackman, há uns vinte anos), no filme “Logan”. Dessa forma, Wade, agora uma vez mais dentro do traje de Deadpool, precisa quebrar as regras da própria AVT (que o tinha levado para lá a fim de chamá-lo a integrar a Linha Sagrada, isto é, o universo oficial do MCU) para encontrar nas infinitas realidades alternativas do multiverso, um substituto apropriado, uma ‘âncora’ que substitua aquela que seu universo perdeu –em outras palavras, um outro Wolverine!

E começam aí, então, o festival de referências que fazem de “Deadpool & Wolverine” uma obra assim tão sedutora: Nas variações de Wolverine que acompanhamos Deadpool encontrar com tanta descontração, vemos versões em live-action de segmentos que farão a felicidade dos fãs de quadrinhos como o Wolverine extraído de “A Era do Apocalypse” (na qual ele não possui uma das mãos!); a versão conhecida como ‘Caolho’; uma versão interpretada pelo ex-Superman Henry Cavill (!); uma recriação de sua primeira aparição nas HQs, quando enfrentou o Hulk; e até mesmo a recriação de uma das capas clássicas das revistas, onde foi crucificado num imenso X de madeira. Ao fim dessa busca, resta somente uma versão apropriada de Wolverine para Deadpool levar consigo, uma versão renegada (ainda que trajando, enfim, o icônico colante amarelo dos quadrinhos e das animações), junto da qual ele retorna à AVT, somente para serem enviados por Paradox ao Voidt, ou Vazio –se você assistiu a série “Loki”, então sabe que trata-se de uma dimensão onde são despejados os sobreviventes indesejados de realidades condenadas que, por algum motivo ou outro, conseguem escapar da eventual obliteração.

Contudo, o Voidt agora está diferente: Por conta de acontecimentos bem reais (no caso, a compra dos estúdios da 20th Century Fox pela própria Walt Disney Company e, portanto, a aquisição desta de todas as propriedades intelectuais daquele estúdio), o Voidt está repleto de personagens oriundos do Universo Marvel da Fox nos cinemas, que reúne os filmes dos X-Men, (num total de onze filmes) os do Quarteto Fantástico (ambas as versões de 2005 e 2015) e os do Deadpool. E claro que, com  isso, o filme de Shawn Levy não haverá de desperdiçar a oportunidade de entregar sequências extasiantes aos expectadores, que apelam ao fã com aparições surpresas (algumas absolutamente sensacionais) capazes de despertar a mesma euforia indescritível que algumas cenas de “Vingadores-Ultimato” o fizeram há cinco anos atrás.

Embora seja uma obra longe da perfeição –e muitos críticos sisudos já correram apontar isso, destacando como exemplo a superficialidade do roteiro em inúmeros trechos, ignorando o fato de que as filmagens de “Deadpool & Wolverine” se sucederam durante a greve dos roteiristas de Hollywood em 2023, o que impediu muitas cenas de ganharem o devido polimento –o filme de Shawn Levy ainda assim tem bom senso e perspicácia o suficiente para sinalizar ao público com tudo aquilo que funcionou muito bem antes deles: O humor incontido e inconsequente de seu irreprimível protagonista (o filme tem a mais alta classificação indicativa permitida pela Marvel Studios até então); as referências inúmeras, algumas um tanto difíceis de se apanhar pelos não-iniciados nos filmes desse certamente vasto universo de heróis; e as sequências vibrantes, feitas para entregar instantes, situações e manobras muito esperadas e almejadas pelos fãs de carteirinha que provavelmente sairão acalentados e saciados do cinema, como há muito tempo não faziam, sob a alegação de que a Marvel havia perdido o jeito para agradar seu público.

“Deadpool & Wolverine” vem provar que não: Ainda há muitas emoções e surpresas a serem entregues ao público. Desde que sejam concebidas por artesões absolutamente capazes e competentes, e tão apaixonados pelo material que manejam quanto seus fiéis expectadores.

sábado, 2 de dezembro de 2023

Lightyear


 É comum notarmos que alguns dos grandes autores do cinema versam suas vastas filmografias em torno de um mesmo tema –tomamos Woody Allen ou Ingmar Bergman, como exemplos, nos quais as obras vislumbram as neuroses dos relacionamentos modernos (no caso de Allen) ou o vazio existencial da condição humana (no caso de Bergman). A Pixar, claro, não é um autor de cinema, sequer é uma pessoa; ela é, sim, um estúdio de animação hoje um tanto quanto independente dos Estúdios Disney que inicialmente lhe proporcionou a criação de seus aclamados longa-metragens. Contudo, não deixa de haver uma espécie de impressão que une, senão todas, a grande maioria das obras da Pixar num único enredo; pelo menos, os seus mais consagrados exemplares: Um apego tocante ao passado.

Nessa ânsia de, volta e meia, voltar seus olhos ao passado, mesmo que avançando rumo ao futuro, a Pixar deu à luz esta produção lançada em 2022 e que, embora tenha seus méritos, pode ser visto como o início de uma fase descendente da Disney e da Pixar onde suas realizações já não conquistavam o impacto dos áureos tempos.

Os créditos iniciais especificam: Em 1995, a Pixar lançou seu primeiro longa animado, “Toy Story”, a girar em torno da rixa entre dois brinquedos (o astronauta Buzz Lightyear e o cowboy Woody) pela adoração de seu dono, o menino Andy. O boneco, Buzz Lightyear, era por sua vez, inspirado no personagem de um filme que supostamente foi lançado naquele universo, e é esse filme específico que, agora, os artesões da Pixar transformam em realidade. Por isso, nele, Buzz Lightyear surge como um astronauta de carne e osso (dublado, em inglês, por Chris Evans, em português, por Marcos Mion) arremessado nas ironias científicas e metafísicas de uma missão que, de certa forma, lhe cobra a vida inteira (algo que curiosamente remete ao arrebatador “Interestelar”, de Christopher Nolan); e aí, nessas entrelinhas de ordem dramática, notamos o diferencial que transforma a Pixar num estúdio de animação tão singular –pena que tal singularidade foi, com o tempo, desaparecendo em meio à pretensões mercadológicas que dispersaram seu público. E tais lapsos, não se engane, leitor, também começaram aqui...

Ávido por desempenhar a contento seu papel de patrulheiro espacial, o astronauta Buzz Lightyear vê a nave na qual ele e centenas de outros passageiros repousavam em animação suspensa descer num planeta inóspito, povoado de insetos gigantes ameaçadores e plantas carnívoras. Ao tentar escapar de lá, Buzz comete um erro que encalha a nave no lugar e pelo qual ele haverá de culpar-se nos anos seguintes: Uma nova tentativa de partir logo é engendrada, mas, Buzz deve testar o cristal que alimenta o motor e assim ter certeza se ele consegue abastecer a nave para uma nova e profunda empreitada nas estrelas. Contudo, a cada teste, a nave de Buzz executa um percurso através do espaço gravitacional do planeta que, para ele, representa 4 minutos, mas para todos que ele deixou para trás, representam 4 anos (!). Como em sua persistência, Buzz executa dezenas e dezenas de testes, ele vê cada uma as pessoas que conhece –sobretudo, a colega e amiga Alicia Hawthorne –envelhecer e morrer.

Na sua última missão –justamente aquela na qual ele finalmente consegue encontrar a composição correta do cristal que alimenta o motor para empreender o vôo espacial –Buzz regressa ao planeta e descobre que ele foi invadido por robôs ameaçadores, controlados por um misterioso vilão conhecido apenas como Zurg (e as origens reais desse vilão, para além das motivações de natureza cômica e referencial mostradas em “Toy Story 2”, são surpreendentes e reflexivas). Aliado à recruta Izzy Hawthorne (neta de sua falecida amiga), Buzz deve garantir a segurança das pessoas na cidade que formou-se dentro do campo de força da nave durante todas as décadas em que esteve em missão, e assim dar continuidade ao que ele pensa ser seu objetivo de vida.

Ainda que traga aquela melancolia e aquele subtexto emocionante sobre a finitude da vida que sempre impregnou de originalidade as obras da Pixar, tal elemento vem, em “Lightyear”, comprometido por uma certa superficialidade, fruto possivelmente do fato de que seu diretor, Angus MacLane (de “Procurando Dory”) pertence à segunda geração de realizadores do estúdio, e não à primeira, da qual vieram os artistas verdadeiramente insubstituíveis e que assinaram as obras-primas vindas de lá, como Pete Docter, Andrew Stanton (produtores deste longa) e John Lasseter.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Não Olhe Para Cima


 Há quem se pergunte se ainda há espaço para a inteligência no atual cinema comercial moderno. Na ânsia por encontrar uma resposta positiva, o diretor e roteirista Adam McKay se firmou nos últimos anos como um autor singular, capaz de capturar complexidade, loquacidade, atualidade e urgência num caldeirão bem-humorado e contundente em refletir os percalços do mundo real. Dessa predisposição surgiu o clássico moderno “A Grande Aposta”, o engajado “Vice” e este “Não Olhe Para Cima”.

Anunciado como a maior superprodução bancada pela Netflix até então –e tal ambição se reflete em cena com os nomes estupendos que abarrotam seu elenco estelar –o filme de McKay era, em si, uma alegoria crítica ao descaso ostentado por alguns líderes mundiais ao aquecimento global. Porém, sua produção –iniciada nos últimos meses de 2019 –precisou ser interrompida com a chegada da pandemia de 2020, sendo retomada em 2021, deixando o filme pronto para ser lançado nos últimos meses desse ano. Essas circunstâncias, é correto afirmar, modificaram de tal forma a percepção de público e crítica do filme que “Não Olhe Para Cima” se tornou algo que, em princípio, nem seu realizador previa: Uma observação pertinente, ácida e implacável das facetas mesquinhas e calculistas do negacionismo, e também, uma horripilante constatação de todas as celeumas que empurram a humanidade rumo ao seu fim.

A começar essa narrativa hilariamente angustiante, temos a jovem Dra. Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) cuja descoberta, de um cometa em rota de colisão com a Terra é compartilhada com seu professor, o Dr. Randall Mindy (Leonardo Dicaprio). Seguindo o raciocínio lógico, Randall e Kate tentam avisar as autoridades desse perigo à raça humana, entretanto, raciocínio lógico é algo que, deveras, não faz parte da cartilha de quase nenhum dos outros personagens que orbitam seus protagonistas e –o que é pior! –alguns deles habitando esferas políticas de fundamental liderança mundial. Como é o caso da presidente Janie Orlean, vivida por Meryl Streep, numa clara alusão à Donald Trump.

É desconcertante toda a sequência em que Randall e Kate tentam, à duras penas, uma audiência na Casa Branca, e são recebidos com descrédito estarrecedor e indulgência alarmante pela Chefe de Estado e seu filho, Jason (Jonah Hill que personifica bem as facetas mais assombrosamente amorais e revoltantes do nepotismo). Em suma, eis o mote em torno do qual “Não Olhe Para Cima” gira: O fato de que, mesmo estando o fim do mundo e seus indícios escancarados à sua frente, muitas são as pessoas que escolhem não crer em sua existência. Trata-se de McKay, como o genuíno autor que é, se voltando para um fenômeno bastante inusitado e preocupante nos tempos digitais de hoje; a pós-verdade –as pessoas já não ligam mais para a verdade, para os fatos e as informações, elas preferem escolher a narrativa que mais lhes agrada, com a qual mais simpatizam, e a defendem com unhas e dentes.

É assim que Randall e Kate, com a ajuda do Dr. Oglethorpe (Rob Morgan, de “Confronto No Pavilhão 99”), conseguem pouco mais que tornarem-se memes na internet (!), após tentarem, em vão, alertar a população por meio do alienado e midiático programa de TV apresentado pelos histriônicos apresentadores vividos por Tyler Perry e Cate Blanchett. A verdade só começa a ser aceita –talvez, um tanto quanto tarde demais –quando as eleições vindouras apontam um prognóstico pessimista para a reeleição de Orlean, o que a obriga, junto de todos os seus senadores e conselheiros, a recorrer a uma manobra populista, financiando uma missão para desviar a rota do cometa. E mesmo aí, no que aparenta ser o rumo natural de todo o filme-catástrofe ao estilo “Armageddon” –o que enganosamente a obra de McKay parece ser –“Não Olhe Para Cima” continua subvertendo: Surge o empresário, inovador e avoado Peter Isherwell (Mark Rylance, hábil em personagens que despertam certa injúria no público) que, na qualidade de financiador principal da campanha (leia-se, manda nela mais que a própria presidente), tem a ideia de jerico de desistir da tentativa de destruir o cometa e, ao invés disso, aproveitar o vasto contingente mineral que é a sua constituição, para com aquilo ter um estoque infinito de matéria-prima para confeccionar seus celulares.

São inúmeros os absurdos que “Não Olhe Para Cima” enfileira, um após o outro, dentro do contexto que se propõe, e eles só não espantam mais do que o fato de que, em grande medida, tudo reflete, e com bastante exatidão, ideologias em voga nos tempos polarizados de hoje. A alfinetada ao conservadorismo, à extrema-direita e ao escrutínio midiático culturalmente questionável é bastante evidente –e certamente Mckay valeu-se do intervalo forçado da pandemia para aproximar seu roteiro ainda mais da deplorável condição política da atualidade –mas, “Não Olhe Para Cima” se propõe a uma reflexão muito mais relevante e válida: Do quanto se perdeu, em compreensão e empatia, nas nossas relações humanas com a chegada de ferramentas digitais que só fizeram nos alienar ainda mais enquanto sociedade.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Entre Facas e Segredos


 Após a polêmica recepção de “Star Wars-OsÚltimos Jedi” –que apesar de suas elevadas qualidades, dividiu os fãs –o roteirista e diretor Rian Johnson dedicou-se a um projeto capaz de acomodar sem estranhezas suas qualidades como realizador: Um suspense pontuado de enigmas a serem desvendados, no melhor estilo Aghata Christie.

Nele podemos, portanto, notar a grande especialidade de Johnson: Compor uma história cheia de mistérios e guinadas súbitas, onde cada elemento contribui para a manutenção de um suspense ferino, irônico e eficiente.

Uma semana depois que o escritor de best-sellers Harlan Thrombey (Christopher Plummer, sempre maravilhoso) é encontrado morto, sua jovem e dedicada enfermeira, Marta (Ana De Armas, sensacional) é chamada à mansão da família para uma nova rodada de interrogatórios. Desta vez, quem presta consultoria à polícia –já ávida por encerrar o caso dando a morte como suicídio –é o detetive particular Benoit Blanc (Daniel Craig, magnífico com um estudado sotaque do Kentuchi) que fora contratado por um misterioso cliente anônimo.

De imediato, Blanc identifica o ninho de cobras (e a coleção de suspeitos em potencial) que é a família do falecido: A indulgente filha mais velha, Linda (Jamie Lee Curtis), além de casada com o infiel Richard (Don Johnson), tem como filho o almofadinha Ramson (Chris Evans); o filho caçula, Walt (Michael Shannon), despido de qualquer talento, nada mais faz do que gerenciar de modo medíocre a fortuna produzida pelo pai; e a nora, Joni (Toni Collete), viúva do filho do meio, é uma socialite que procura extorquir dinheiro do milionário usando a faculdade da filha (Katherina Langford) como justificativa.

Na noite em que Harlan apareceu morto, todos tiveram seu tapete puxado pelo patriarca –e todos, portanto, tinham razões para matá-lo.

Contudo, o detetive Blanc identifica na humilde Marta uma peculiaridade que pode ajudá-lo em sua investigação: Por uma curiosa condição fisiológica, Marta vomita toda a vez que tenta mentir –entretanto, ainda assim, ela tem lá seus segredos à esconder!

A trama de “Entre Facas e Segredos” é um novelo que o roteiro não se furta de tornar ainda mais intrincado a medida que vai avançando sua narrativa (ou regressando, visto que muito dela se abastece de flashbacks que revitalizam algumas informações e, não raro, oferecem percepções opostas de informações previamente fornecidas); o que só denuncia o talento inquestionável de Johnson no equilíbrio de inúmeros elementos que regem o gênero, e no manejo hábil e esperto de detalhes que num momento parecem meros adereços, para no instante seguinte revelarem-se peças cruciais de suas imprevistas reviravoltas.

Um corpo inusitado no cinema norte-americano por sua inteligência e sagacidade, “Entre Facas e Segredos” faz o expectador vibrar de tempos em tempos com as guinadas magistrais de sua premissa, e com o teor incrivelmente envolvente de sua investigação, além de brindar o público com um elenco vasto, talentoso e estelar.

Um filmaço.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Vingadores - Ultimato

Numa das cenas que abrem esta continuação praticamente direta de “Vingadores-Guerra Infinita”, vemos Tony Stark gravar um melancólico monólogo diante do capacete da armadura com a qual ele foi o Homem de Ferro –cena esta vista e revista em diversos trailers.
A referência à Hamlet, de Shakespeare, é clara, bem como também é clara a similaridade entre a ambientação soturna da nave –Stark está à deriva no espaço –com a caverna onde ele construiu sua primeira armadura, dando o primeiro passo para o surgimento do que é hoje conhecido como o Universo Marvel dos cinemas.
A cena mostra assim os dois elementos primordiais que os diretores Anthony e Joe Russo tratarão de manter impecáveis ao longo das avassaladoras três horas de duração de “Vingadores-Ultimato”: A referência do mais altíssimo nível a que se pode chegar –em termos técnicos, dramáticos e artísticos, inclusive –e uma compreensão insolúvel de que o passado embutido em toda a cronologia cinematográfica da Marvel Studios deve não só ser recordado, mas também, levado em consideração, apreciado e, no fim, louvado.
Ao dar continuidade aos eventos arrebatadores de “Guerra Infinita”, “Ultimato” imbrica por um caminho que a Marvel e nenhum outro estúdio encontrou meios até então de trilhar: O de um legado composto ao longo de 11 anos de produções cinematográficas, em meio aos quais ele corajosamente percebe a importância de encontrar um fim.
Sim, porque, preservadas as surpresas que a obra reserva –e, meu Deus, elas são muitas! –“Ultimato” é, antes de mais nada, um encerramento. Um desfecho de uma história que num único empuxo narrativo se iniciou com o astro Robert Downey Jr. e seu encaixe absurdo com o personagem de Tony Stark/Homem de Ferro no primeiro filme do estúdio, e prosseguiu num expansão sem precedentes dessa mitologia nos filmes “Thor”, “Capitão América-O Primeiro Vingador” e, na junção audaciosa e vibrante dessas linhas narrativas em “Vingadores”; que, em sua cena pós-crédito, introduzia pela primeira vez o grande vilão Thanos, interpretado aqui com eficiência incontestável e empatia amedrontadora pelo ótimo Josh Brolin.
Foi em torno da promessa da vinda de Thanos que a Marvel Studios construiu assim o fio condutor a unir todos os trabalhos que se seguiram –e que oscilavam entre excelente entretenimento e diversão descompromissada –em meios aos quais não tardaram a destacar-se as obras assinadas pelos Irmãos Russo.
Pelas mãos deles, o Capitão América logo assumiu uma posição existencialmente central nesse Universo Marvel, no magnífico “Soldado Invernal” e depois no brilhante “Guerra Civil”.
A demonstração de habilidade incomum dos Russo prosseguiu com o espetacular “Guerra Infinita” e, por fim, a revelação de Thanos como o mais complexo vilão já concebido pelo estúdio. O que nos leva a este “Ultimato”.
Incapazes de lidar com o fato de que o vilão os derrotou e sobrepujou –agonia que os fãs também experimentaram durante o ano inteiro que separam estes dois filmes –os Vingadores remanescentes (e que correspondem, por sua vez, à formação original vista no primeiro filme) unem-se num plano derradeiro para tentar um contra-ataque; estimulados pela aquisição da poderosa Capitã Marvel (Brie Larson).
Este é o ponto de partida do filme e corresponde a tudo que dele se pode falar sem entrar no terreno pantanoso e arriscado das surpresas, pois sua trama é repleta de reviravoltas inesperadas, e ramificações que se mostram mais complexas do que poderia se supor num filme de orientação tão comercial, conduzindo o expectador a uma meia hora final que está entre os mais assombrosos e embasbacantes momentos do cinema comercial de todos os tempos.
O que importa, porém, é que por trás da expectativa absurda que a Marvel conseguiu gerar no público –e do filme emocionante e arrebatador que criou para correspondê-lo –“Ultimato” é, no fundo no fundo, uma declaração de amor.
Ao legado extraído de décadas de quadrinhos e transposto com apaixonada propriedade para a tela de cinema. Aos fãs, que converteram as produções da Marvel em sucessos simultâneos de bilheteria (e que certamente transformarão este num novo fenômeno). Aos personagens e seus intérpretes que se revelaram, em sua esmagadora maioria, de um acerto fenomenal –e aqui, apesar de todas as presenças esplêndidas que se seguem (com destaque para Chris Evans e Jeremy Renner) não dá para não chamar Robert Downey Jr. à frente.
Ele é o princípio de tudo. O marco zero. E é nele, mais uma vez, que se ampara a escolha para encerrar esta jornada de 22 filmes. Ele foi (e sempre será) Tony Stark, o personagem que acendeu o estopim para um legado sem precedentes no cinema comercial, e ele é aqui aquele que, num dos momentos mais superlativos e emocionantes, executa enfim sua manobra final.
“Ultimato” é cinema como aquilo que ele deveria ser: Emocional, visceral, divertido (mágico, até!), arrebatador e espantoso em níveis que a indústria (e a própria Marvel Studios) encontrarão dificuldades de igualar nestes anos por vir.
Tê-lo nas salas de cinema é um privilégio.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Vingadores - Guerra Infinita

A Marvel Studios tinha um plano. Ele começou, mais ou menos em 2012, quando o vilão Thanos fez sua primeira e breve aparição na cena pós-créditos de "Vingadores".
Imaginou-se, na época, que aquele seria o gancho para uma continuação (que veio três anos depois, “A Era de Ultron”), mas o plano da Marvel Studios –e de seu competente presidente, Kevin Feigi –revelou-se muito mais complexo e ambicioso: Com o tempo e os inúmeros filmes que vieram depois (que variavam entre o divertido e o excelente), a Marvel construiu todo um universo de personagens e narrativas compartilhadas no cinema, repetindo uma linguagem que predominava nos quadrinhos originais, cujas direções apontavam para um único desenlace; a chegada de Thanos e sua conseqüente reunião das seis jóias do infinito.
Quem leu os quadrinhos sabe do quê se trata. As Jóias do Infinito são poderosas gemas de poder cósmico que reunidas proporcionam a onipotência. São elas, a jóia do espaço (o Tesseract visto em “Capitão América-O Primeiro Vingador” e em “Vingadores), da realidade (o Aether, mostrado em “Thor-O Mundo Sombrio”), do poder (o Orbe revelado no primeiro “Guardiões da Galáxia”), da mente (a jóia que terminou constituindo parte do andróide Visão em “A Era de Ultron”), do tempo (o Olho de Agamoto, em “Doutor Estranho”) e da alma (jamais revelada até então, mas que ocupa uma parte essencial da trama neste filme).
Não é a toa, também que por meio deste filme, então, a Marvel Studios sinalize um desfecho para muitas das premissas que ela mesma iniciou nesses últimos dez anos.
Claro que ninguém é ingênuo de achar que eles deixarão de investir em seus filmes e em seus heróis, mas o trabalho dos Irmãos Russo (diretores primorosos de “Capitão América-Soldado Invernal” e “Capitão América-Guerra Civil”) é tão contundente e corajoso que o filme consegue passar uma amarga impressão oposta –independente do rumo que seja tomado em outros filmes vindouros (e, sim, eles virão) a sensação que “Guerra Infinita” nos passa é, de fato, a de um encerramento.
A medida que Thanos (numa trabalho brilhante de Josh Brolin em captura de performance) vai tentando reunir as seis jóias, a história se reveza em três eletrizantes linhas narrativas: Na primeira (e que já havia sido devidamente esboçada no final de “Thor-Ragnarok”) acompanhamos o Deus do Trovão que, destituído de seu martelo, sua nave e seu povo, encontra os Guardiões da Galáxia –ao lado dos quais tentará obter um novo martelo para ter uma chance de se equiparar a Thanos na batalha final. Na segunda linha, vemos Tony Stark, o Homem de Ferro, unir-se ao mago Doutor Estranho e ao jovem Homem-Aranha para ainda no espaço sideral tentar deter a ameaça de Thanos. Na terceira linha, somos testemunhas dos esforços do Capitão América e seu grupo, Viúva Negra. Falcão, Feiticeira Escarlate e Visão, aliados ao Pantera Negra para tentar impedir uma invasão alienígena à Terra, na preparação para uma das mais espetaculares e gigantescas batalhas que o cinema já viu.
Três linhas narrativas. E nas três, a Marvel cuidou para que os protagonistas de cada um dos núcleos fossem os membros de sua Trindade Principal: Homem de Ferro, Capitão América e Thor que, vividos respectivamente por Robert Downey Jr., Chris Evans e Chris Hemsworth, são assim as mais perfeitas traduções cinematográficas desses personagens.
É a Thanos, contudo, que “Guerra Infinita” de fato pertence.
Indo de encontro a uma das críticas mais contumazes de seus filmes (de que seus vilões são genéricos), a Marvel Studios faz de Thanos o grande protagonista de seu filme –e isso significa que suas motivações são esboçadas com um brilho e um zelo que ultrapassa o registro dos quadrinhos.
Significa outra coisa também: Não há nenhum personagem mais implacável que Thanos, e em seu propósito não entram as predileções do público –um dos assuntos mais discutidos pelos expectadores antes da estréia era quem morre ou não em “Guerra Infinita”, e dá pra dizer (sem entregar surpresas) que os Irmãos Russos foram inclementes: personagens absolutamente queridos e inesperados (e num número muito maior do que se pode supor) ganham um fim trágico em inúmeros momentos deste filme, o quê torna seu encerramento –o primeiro da Marvel a ter um aspecto de ‘final’ de fato –um tanto amargo.
Uma junção habilidosa e singular entre o escopo narrativo de “OSenhor dos Anéis-O Retorno do Rei” e o impacto emocional de “StarWars-O Império Contra-Ataca”.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Scott Pilgrim Contra O Mundo

É quase impossível resistir à vontade de comparar uma obra cinematográfica com sua fonte original em quadrinhos quando é lançada uma adaptação, por mais que não seja algo aconselhável: Apesar das semelhanças significativas e, em alguns casos, fascinantes, entre as duas versões, é uma tendência natural que a versão impressa da história, devido ao seu ritmo literário subjetivo, à liberdade do autor e à amplitude do formato, seja mais detalhada e completa, dando ao filme a impressão de que ele mutilou e simplificou a história.
Embora seja dirigido com absoluto brilhantismo por Edgar Wright (realizador do magnífico “Todo Mundo Quase Morto”), essa não deixa de ser uma sensação que persegue o expectador em “Scott Pilgrim Contra O Mundo” quando se compara o filme e a HQ.
Outro problema –bem mais pessoal da minha parte –é a escolha do inadequado Michael Cera (de “Juno”) para interpretar Scott Pilgrim, um personagem irrequieto, carismático em sua falta de noção, e completamente distinto do registro abobalhado que Cera lhe dá (e que se repete, na verdade, em todas as atuações do ator): É nítido que a escolha do protagonista foi uma das poucas intervenções do estúdio nesta produção –prova disso é que todos os outros personagens são maravilhosamente bem escalados.
Jovem canadense e guitarrista de uma banda obscura, o ligeiramente desligado Scott Pilgrim conhece, um belo dia, uma garota que lhe transforma a vida: a misteriosa e linda Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead, de “Rua Cloverfield 10”, um arraso!).
Para namorá-la, contudo, Scott deve vencer um desafio; derrotar um a um os sete ex-namorados malignos que Ramona teve antes de conhecê-lo –o primeiro namoradinho, o indiano Matthew Patel (Satya Bhabha), o às do skate e astro de cinema nas horas vagas, Lucas Lee (Chris Evas, de “Capitão América”), o guitarrista e vegano metido a besta Todd Ingram (Brandon Routh, que estrelou “Superman-O Retorno”, de Bryan Singer), namorado por sua vez da belíssima Envy Adams (Brie Larson, sensacional como sempre), famosa rockstar e ex de Scott (!), a enfezada e mortífera Roxy Richter (Mae Whitman), um breve affair lésbico de Ramona (!), os gêmeos Kyle e Ken Katayanagi (Keita Saitou e Shôta Saitô), e o líder de todos, o manipulador Gideon Graves (Jason Schwartzman, impagável).
Todos têm poderes alucinantes (e inesperados para quem assiste o filme de maneira casual) e representam assim, nesta vibrante adaptação da festejada graphic-novel de Bryan O’ Malley, o originalíssimo contexto no qual a narrativa está inserida: Absorvendo elementos, premissas e circunstâncias dos jogos de videogame, o filme se estrutura em “fases” representadas pelas lutas contra cada ex-namorado/adversário, que Scott Pilgrim deve derrotar, assim como também deve, nesse processo, encontrar um meio de amadurecer, para conseguir administrar o relacionamento que conquista com Ramona a cada combate. Isso dá ao filme um dinamismo e um apelo próprio e cativante, efeito que os quadrinhos originais já causavam. É claro que nas HQs os pormenores desse relacionamento (o cerne real da obra, ao invés das lutas) e suas mínimas mudanças eram explorados com muito mais tempo e precisão, rendendo uma analogia extraordinariamente encantadora (e proporcionando uma presença muito maior e mais significativa à personagem de Knives Chau, vivida por Ellen Wong, essencial à trama e à seus desdobramentos, relegada, aqui, a uma participação infelizmente bem menor), mas o diretor Wright certamente obtém o melhor resultado possível dentro do limitado tempo de um longa-metragem.
Seu filme é cheio de sentimento e de cenas tão espantosas quando cativantes, fruto de sua técnica afiada e audaz, e do entendimento sensato do enredo, do ritmo e das motivações.

sábado, 8 de julho de 2017

Homem-Aranha - De Volta Ao Lar

Parece escapar à compreensão de alguns que o sucesso conquistado pela Marvel Studios com seu universo compartilhado ao longo de vários filmes não se deve somente pela excelência técnica (exercida, sobretudo, no quesito de efeitos visuais) ou pela competência artística: Ela se deve, acima de tudo, porque a Marvel tem o bom senso raro de compreender integralmente seus personagens.
Essa característica fica totalmente clara em “Homem-Aranha-De Volta Ao Lar” –obra cujo protagonista a Marvel agora tem em mãos devido à um acordo (e a uma espécie de clamor popular, também) com os estúdios da Sony.
A dica já é dada no princípio do filme, quando surge escrito na tela, “Um Filme de Peter Parker” –embora a intenção seja uma galhofa (como muitas que o personagem protagonizará), ali há algo de verdadeiro: Este filme é, sim, sobre Peter Parker. O Homem-Aranha, a identidade que ele assume para combater o crime, impulsionado pela obtenção de seus poderes de aranha e por um entusiasmo característico da juventude, é um detalhe que determina a narrativa, mas seu cerne emocional e moral é, o tempo todo, Peter Parker, interpretado com vivacidade e profundidade por Tom Holland que, desde sua participação em “Capitão América-Guerra Civil”, ganhou não só a honra de viver o personagem agora oficialmente inserido no Universo Marvel Cinematográfico (e neste filme, tal aspecto é empregado numa infinidade de detalhes saborosos), mas também o direito de ser considerado até então a melhor personificação em cinema do personagem –que me perdoem as esforçadas tentativas de Tobey Maguire e Andrew Garfield...
Morador de classe média do Queens, em Nova York e estudante do ensino médio, o novo membro apadrinhado por Tony Stark (Robert Downey Jr. sempre fazendo sua participação valer a pena) do grupo dos Vingadores, tem a peculiaridade de ser um adolescente de quinze anos. Talvez, seja por isso que, apesar de sua imensa ansiedade, Peter não receba, ao longo de meses, nenhum telefonema de seu novo tutor para alguma missão além daquela em “Guerra Civil”, onde ele foi apresentado; e as cenas iniciais, que mostram os eventos daquela produção vistos por outra ótica já são um show à parte, e uma indicação das mais inspiradas do humor genuíno e irresistível do qual este filme vem dotado.
As coisas se complicam para o Homem-Aranha quando, em sua patrulha habitual como “herói do subúrbio”, ele descobre o esquema de Adrian Toomes (Michael Keaton, sensacional) que, desde os eventos mostrados em “Os Vingadores”, vem obtendo clandestinamente tecnologia alienígena e vendendo-a no mercado negro. A despeito dos alertas de Tony Stark e de seu braço direito Happy Hogan (Jon Favreau, de perfeito timing cômico) para que não se meta em encrencas, Peter decide ir a fundo na tentativa de desmantelar essa quadrilha, mas as atribulações dessa vida de vigilante mascarado vão colidir com a já agitada e caótica vida adolescente e estudantil de Peter que precisa equilibrar um romance relutante –com a bela Liz Allan (Laura Harrier), uma das meninas mais populares da escola –a amizade com o divertido Ned (Jacob Batalon), que acaba descobrindo seu segredo, e seus esforços atrapalhados para tentar ocultar isso tudo de sua Tia May vivida por uma deliciosa Marisa Tomei.
E sobram assim oportunidades (nenhuma delas desperdiçada) para que “De Volta Ao Lar” faça magníficas referências aos filmes de John Hugues, essenciais retratos desse tipo de dramaturgia adolescente; e a seqüência que emula um dos momentos antológicos de “Curtindo A Vida Adoidado” é nada menos que genial!
Está aí, pois, na variedade de cores e perplexidades da rotina de Peter Parker a grande sacada que faz da Marvel –e do universo ao qual ela dá corpo –algo tão especial: Os mesmos elementos que fazem e que fizeram o fascínio perene de gerações inteiras de leitores se vêem preservados e transpostos com brilho na tela do cinema.
No caso de Homem-Aranha/Peter Parker, são as irônicas exigências da vida heróica que insistem em intervir em suas tentativas de ser feliz numa vida normal, e o filme magistralmente dirigido pelo jovem Jon Watts utiliza desses expedientes com habilidade seja em seu humor, seja em seu drama.
Em meio à isso tudo, ele ainda insere cenas prodigiosas de ação e uma admirável construção de praticamente todos os personagens –as revelações a respeito de Adrian Toomes no terço final do filme são notáveis e surpreendentes: Precisa mais para que este seja o melhor filme do Homem-Aranha realizado até hoje?

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Sunshine - Alerta Solar

Existem filmes que são verdadeiras assombrações para aqueles que desejam aventurar-se em algum gênero cinematográfico específico.
Quando o versátil diretor escocês Danny Boyle –vindo da ótima reformulação de filmes de zumbi, “Extermínio" –resolveu enveredar pelo terreno da ficção científica, certamente, os fantasmas com os quais ele se deparou foram “Alien”, de Ridley Scott, “2001-Uma Odisséia NoEspaço”, de Stanley Kubrick e “Solaris”, de Andrei Tarkovski; obras essenciais e passíveis de comparação para qualquer filme cujo cenário é uma espaçonave.
À esses títulos é possível também incluir mais um: “O Enigma do Horizonte”, de Paul Anderson, cuja trama guarda algumas grandes semelhanças com esta daqui.
O grande diferencial de “Sunshine”, pode-se dizer, é o próprio Danny Boyle –sua direção inteligente, elegante e paulatinamente compenetrada jamais deixa que a premissa (ocasionalmente absurda) despenque para suas facetas mais banais e redundantes.
A trama se passa no futuro.
Longe do planeta Terra, a bordo da nave Icarus 2.
Após a missão fracassada da Icarus 1, essa segunda nave parte em direção ao sol deixando para trás um planeta terra a beira de um inverno solar. O astro-rei está morrendo, sua energia se acabando (numa probabilidade científica real vislumbrada pelo roteiro) e quando isso terminar por acontecer todo o sistema solar morrerá, engolido por uma supernova.
Para deter isso, a tripulação da Icarus 2 leva consigo uma bomba nuclear que ao ser detonada, supõe-se, reacenderá o sol e salvará a humanidade da extinção.
O grupo reunido a bordo da nave é, ele próprio, um conjunto bastante interessante de personagens e interpretes: Robert Capa, o especialista em fusão atômica –e protagonista –interpretado por Cillian Murphy (que protagonizou também “Extermínio”); o piloto Mace (Chris Evans, num papel sensacional bem antes do Capitão América); o honrado capitão Kaneda (o ótimo Hiroyuki Sanada, de “O Samurai do Entardecer”); a botânica Corazon (Michelle Yeoh, de "O Tigre e O Dragão"); a cientista Cassie (Rose Byrne); o psicólogo Searle (Cliff Curtis), e ainda os astronautas vividos por Troy Garity e Benedict Wong.
Até que todos eles cheguem lá, partindo do princípio surreal de que uma nave tripulada seja capaz de ir em direção ao sol (ainda que isso seja tratado, na narrativa, com verossimilhança e seriedade), a tripulação da Icarus 2 descobrirá as conseqüências imprevisíveis que o ser humano pode sofrer ao tentar se opor a sua própria extinção.
Danny Boyle não perde o pulso em nenhum momento sequer neste instigante conto de ficção científica amparado em conceitos existenciais tal qual "Solaris" de Tarkovski, mas com ritmo e acabamento de filme comercial.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Vingadores - A Era de Ultron

É claro que após o êxito espetacular obtido com o primeiro filme dos “Vingadores”, a Marvel Studios manteria as coisas exatamente como estavam, a fim de não mudar a maneira acachapante com que seus filmes vinham tomando as bilheterias de assalto.
Leia-se: Tal e qual o primeiro filme, Joss Whedon continuaria a cargo do roteiro e da direção da segunda grande reunião dos heróis da Marvel.
Haviam, porém, algumas variáveis. A primeira: Os Vingadores –e todo o contexto que levava, de uma forma ou de outra, à sua junção, já não era novidade. Como também não era novidade, os filmes-solo que antecipavam esse evento –tudo isso já tinha sido mostrado, e com perícia, nos filmes da primeira fase.
A segunda: Joss Whedon, praticamente, engatou a execução do segundo filme, tão logo terminado o primeiro (minto, ele realizou, entre os dois uma adaptação semi-teatral, pequena, modesta e quase imperceptível de uma obra de Shakespeare, “Muito Barulho Por Nada”).
E sua exaustão é visível no desgaste da narrativa.
É assim que, numa continuação quase direta (e ligeiramente desleixada) dos eventos transcorridos em “Capitão América-O Soldado Invernal”, encontramos os Vingadores reunidos para o quê parece ser o último confronto com as forças remanescentes da organização diabólica Hidra (desmascarada pelo próprio Capitão América naquele filme).
Contudo, a crescente preocupação do inventor Tony Stark (Robert Downey Jr.) para com as intermináveis aflições do mundo –somadas aos perigos alienígenas que ele mesmo vislumbrou no filme anterior dos Vingadores –o levam a criar uma inteligência artificial denominada Ultron (personificado pelos movimentos e pela voz do ator James Spader), que não tarda a se rebelar contra os próprios Vingadores, partindo da dedução lógica (para uma máquina) que é a Humanidade a grande ameaça ao planeta Terra.
Ninguém disse que seria fácil para Whedon dar segmento ao seu excepcional trabalho em “Os Vingadores”.
“A Era de Ultron” termina sendo um exemplar bastante indicativo de tudo o que funciona e do que não funciona no método de trabalho dele; Whedon é muito melhor como roteirista que como diretor, mas ele próprio sabotou as chances de seu filme evoluir perante o anterior ao tomar a decisão (que reverbera em todos os filmes do Universo Marvel) de ignorar o vilão Thanos (esboçado no primeiro “Vingadores” e reservado para o terceiro filme) e partir aqui para uma trama de aspecto quase aleatório, sem a mesma importância nas estruturas de história do que o primeiro filme tinha.
Nota-se que a forma com que Whedon trabalha o humor é repetitiva em relação ao outro filme, e bem menos eficiente. Ele buscou dar um tratamento mais sombrio à premissa (encontrando na direção de fotografia de Ben Davis, um auxílio formidável), mas suas decisões afetam a condução, o tom e até mesmo uma certa coerência inerente aos seus personagens –Escolhas lamentáveis como o romance que entrelaça Bruce Banner (Mark Ruffalo) e Natasha Romanoff (Scarlet Johansson), a maneira com que emprega os personagens da Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e do Mercúrio (Aaron Taylor-Johnson), ou mesmo do Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), ou as piadinhas fora de hora ou de lugar minam o valor do filme como um todo, revelando as brechas de uma narrativa que não se conclui.
O resultado, de fato, acabou aquém de quaisquer expectativas, entregando um filme redundante, problemático e carente de frescor, ainda que mantivesse lá seus momentos divertidos –como produtora, a Marvel Studios não se permitiu a concepção de um produto de baixa qualidade.
Ainda que este seja um de seus títulos menos memoráveis, ele continua bem acabado, fluido em seu ritmo, bonito em seu visual, e empolgante em sua ação.
A Marvel Studios aparentemente aprendeu a lição: Os filmes posteriores à “Era de Ultron” apresentavam, todos, um tratamento diferenciado (visível desde o seu marketing), nada repetitivo, e ciente da evolução que a história e os personagens dentro desse universo precisavam experimentar.
E Joss Whedon, bem, ele foi descansar. Substituído, no comando do terceiro “Vingadores” pelos talentosos Irmãos Anthony e Joe Russo (de “Capitão América-Soldado Invernal” e “Guerra Civil”).
Que eles façam algo grande!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Os Vingadores

Guardados alguns casos à parte (e que também mostraram-se interessantes) a Marvel Studios sempre compreendeu, em suas adaptações cinematográficas, que o gênero de super-heróis é, em grande e significativa medida, uma fonte de inspiração. E não de introspecção.
Seus trabalhos assim, primavam pelo senso de humor, pela descontração (vide o emblemático filme do Homem de Ferro). Passam, enfim, longe de serem obras sombrias.
E a Marvel Studios deu-se muito bem com isso.
O sexto filme realizado por eles, após seu estúdio de cinema ser consolidado, foi justamente aquele que reunia todos os personagens introduzidos separadamente nas produções anteriores, e atendia pelo título de “Marvel’s Avengers”, ou simplesmente chamado “Os Vingadores” –foi também aquele mais cercado de expectativa.
Era, afinal, uma cartada e tanto aquela que a Marvel estava dando (e tão bem sucedida ela foi que hoje, com vários estúdios correndo atrás para fazer a mesma coisa, fica difícil imaginar que, em 2012, isso ainda era um projeto sem precedentes): Convergir todo um leque de narrativas paralelas para unir vários personagens protagonistas num filme só.
Uns imaginavam algo parecido com “Onze Homens e Um Segredo”; outros um reflexo com mais pompa daquilo que Bryan Singer já fazia em “X-Men” (o mero surgimento de um grupo de heróis, afinal). O risco de fracasso, se pararmos para avaliar, era imenso.
Mas, a Marvel surpreendeu meio mundo demonstrando aquilo que, como estúdio, ela sempre demonstrou: Bom senso.
Eles chamaram Joss Whedon para roteirizar e dirigir o projeto e, embora à época, o filme mais famoso dele fosse o divertido e despretensioso “Serenity”, Whedon revelou-se a escolha adequada: Seu senso de humor convulsivo na construção narrativa combinava perfeitamente com a proposta da Marvel; seu conhecimento nato dos meandros das histórias em quadrinhos (das quais ele mesmo foi roteirista durante algum tempo) veio a calhar ao juntar inúmeras narrativas vindas dos filmes antecessores, e ele ainda soube ser absolutamente fiel ao material original das HQs, além de construir um filme, propriamente dito, pulsante, empolgante e vibrante por si só.
E ainda fez parecer que era algo simples e fácil de ser feito.
Retomando muito de seu gancho dramático deixado ao filme de “Thor”, descobrimos, já na cena de abertura do filme, que Loki (Tom Hiddleston, ótimo), o deus da trapaça, roubou das sedes secretas da S.H.I.E.L.D. o artefato poderoso conhecido como Tesseract (visto em “Capitão América-O Primeiro Vingador”).
Como provavelmente ele será usado para criar um portal que possibilite uma invasão alienígena à Terra, o diretor-chefe da S.H.I.E.L.D., Nick Fury (Samuel L. Jackson), dá início ao "Projeto Vingadores", que consiste em reunir num único grupo o gênio e playboy Tony Stark (Robert Downey Jr.), trajando sua poderosa armadura de Homem de Ferro; Steve Rogers (Chris Evans), o super-soldado conhecido como Capitão América; o deus do trovão –e irmão de Loki –Thor (Chris Hemsworth); e o cientista Bruce Banner (Mark Ruffalo), capaz de se transformar na criatura Hulk; além dos agentes, Natasha Romannof, a Viúva negra (Scarlet Johansson) e Clint Barton, o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner). Juntos, esses seres tão distintos e igualmente poderosos formarão um grupo em defesa da humanidade.
O filme que Whedon constrói a partir dessa premissa é um exemplo de como o entretenimento pode ser empregado com maestria, sem que se perca, com isso, a qualidade artística. A um só tempo, espetáculo visual (praticamente metade do filme é uma grande e brilhantemente filmada seqüência de batalha), roteiro equilibrado e afinado (com exceção de um único furo, quando Thor desaparece sem menores explicações em uma cena fundamental), e grande obra de cinema (há pelo menos três grandes cenas específicas que ficam em nossa mente depois do filme), “Os Vingadores” coroou a iniciativa da Marvel Studios em moldar um universo composto por linhas narrativas conectadas, a exemplo do que já existia a quase cinco décadas nos quadrinhos, e entregou ao público a mais satisfatória e extasiante aventura que se pôde saborear no cinema em muito tempo.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Capitão América - Guerra Civil

A sequência de filmes que a Marvel Studios vem entregando desde 2008, não serve apenas e tão somente para quebrar recordes de bilheteria, felizmente, ela serve também para eles se aprimorem a cada produção. Melhorando. Superando cada filme para no seguinte fazer algo ainda mais instigante, mais aprofundado em relação aos seus heróis, e ao modo como percebem e são percebidos pelo mundo à sua volta.
Nem sempre funciona, como se pode conferir em “Vingadores-A Era de Ultron”, não um filme ruim, mas problemático.
Em seus acertos, porém (e eles são muito mais freqüentes que seus erros), a Marvel entrega obras vibrantes, que não só representam todo o conceito do que um filme comercial realmente deve ser, mas também demonstram um bom senso raro e requintado no tratamento dos personagens. Se “Capitão América-O Soldado Invernal” já era um dos títulos no qual isso se expressou com mais primor, então “Capitão América-Guerra Civil” orquestrado pelos mesmos diretores Anthony e Joe Russo faz jus ao alardeado título de “melhor filme da Marvel até aqui”.
Ele é, e com muito mais honras do que se pode imaginar.
Quando “Guerra Civil” começa, vemos que a formação dos Vingadores permaneceu a mesma desde o final de “A Era de Ultron” (e aí percebemos nos Irmãos Russo uma coerência que faltou no diretor e roteirista Joss Whedon naquele filme; a capacidade de manter-se conectado à lógica que norteia cada um dos filmes e que define os personagens, sem desvirtuá-los de uma produção para a outra).
Não tarda para que o Secretário de Defesa dos EUA, o General Ross (Willian Hurt, oriundo do filme “O Incrível Hulk”, lá de 2008), os confronte com um dilema: Após os acontecimentos catastróficos dos últimos filmes –e que têm à rigor, os Vingadores como protagonistas –a ONU cria um tratado que obriga os heróis uniformizados a prestar contas ao governo mediante suas ações. Ou seja, obedecer ordens, o quê implica salvar quem eles mandam salvar, e deixar de lado qualquer outra ação não autorizada.
O Capitão América (Chris Evans, em um ótimo trabalho) deseja ser guiado somente por seu altruísmo e não por interesses políticos, e por isso diz não. O Homem de Ferro (Robert Downey Jr., mostrando valer cada centavo de seu cachê milionário) deseja espiar um pouco da culpa que lhe consome pelos atos do robô Ultron (que era, afinal de contas, criação sua) e por isso diz sim.
Uma ruptura então ocorre no Universo Marvel Cinematográfico como o conhecíamos, com cada herói indo para um lado da discussão.
Se há uma decisão genial em “Guerra Civil” é a de não santificar nem demonizar nenhum dos lados: ambos estão certos, e ambos estão errados. É a mesma premissa (porém empregada em um conceito diferente) que fez o maior sucesso nos quadrinhos da Marvel quando uma saga de mesmo nome foi publicada à pouco mais de uma década.
Até mesmo o vilão de fato deste filme espetacular, o Barão Zemo (aqui, coronel, interpretado por Daniel Bruhl) adquire motivações que o humanizam.
Em meio à tudo isso, os Russo ainda demonstram um controle elegante e apurado da imensa diversidade de personagens e poderes que têm em cena, num show de direção que até outro tempo era privilégio somente de Bryan Singer e seus X-Men: Além do Capitão América e do Homem de Ferro, há também a Viuva Negra (Scarlett Johansson, fantástica), o Pantera Negra (Chase Bosewick, surpreendente), o Falcão (Sam Wilson), o Soldado Invernal (Sebastian Stan), o Visão (Paul Betany), a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), o Máquina de Combate (DonCheadle), o Homem Formiga (Paul Rudd, hilário) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), cada um deles com um arco próprio e uma importância própria dentro da trama (e é necessário ressaltar aqui o modo engenhoso com que isso é feito com o Pantera Negra).
Há mais uma personagem além desses, e ele responde por um dos mais genuínos sorrisos de satisfação que o expectador dará no cinema em 2016: O Homem Aranha, interpretado com minúcia espantosa e brilhantismo flagrante por Tom Holland –que me perdoem os anteriores Tobey Maguire e Andrew Garfield, mas este jovem é a melhor versão cinematográfica do Homem Aranha de todos os tempos, e consegue fazer isso tudo em meros quinze minutos!

Por fim, pode-se registrar outro feito, também raro, que os Irmãos Russo e a Marvel Studios obtiveram de um filme comercial: O de conseguir fazer o expectador sair eufórico de dentro do cinema, e querendo muito mais, de um filme que excede duas horas de duração.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Capitão América - O Soldado Invernal

Vinda de uma sucessão bastante impressionante de sucessos de crítica e de bilheteria, a Marvel Studios, assim como o público, via uma incógnita em “Capitão América-O Soldado Invernal”.
A razão era de natureza humana: Como membro mais íntegro dos vingadores, o Capitão América corria o risco de ser visto como um personagem de valores antiquados pelos acelerados e desprendidos expectadores de blockbusters atuais, tão afeitos aos anti-heróis da moda. Afinal de contas, o primeiro filme do Capitão América, que funcionou às mil maravilhas, era, ele próprio, ambientado na Segunda Guerra Mundial, contextualizando assim todas as características “à moda antiga” do herói: Era um filme de época.
Na sequência, o Capitão funcionou também no filme dos Vingadores, já arremessado para os dias de hoje, mas ali, ele era um membro de toda uma equipe, numa trama que balanceava as diferenças e idiossincrasias uns dos outros (afinal, lá estavam também o Hulk e o Thor, só para citar alguns exemplos).
O segundo filme era, portanto, o primeiro no qual Steve Rogers seria o protagonista de um trama inteiramente passada nos tempos atuais.
Para a empreitada, a Marvel ainda fez uma escolha curiosa: os irmãos diretores Anthony e Joe Russo, cujo filme mais conhecido era a mediana comédia “Dois é Bom, Três É Demais”.
Era, de certa forma, um risco. Como eles fariam, afinal de contas, um personagem como o Capitão América soar relevante e interessante em uma época tão cínica como a nossa?
A genial resposta que eles deram em “Capitão América-O Soldado Invernal” era: Não mudando absolutamente nada!
Explica-se: Num longa-metragem realizado nos moldes dos bons filmes de espionagem, onde não se podia confiar em praticamente ninguém, a presença de um protagonista transparente e íntegro como o Capitão América acabava sendo a âncora perfeita na qual a platéia podia se segurar.
E que filmaço de espionagem eles fizeram!
Trabalhando como um agente de campo da S.H.I.E.L.D. em Washington depois dos acontecimentos ocorridos em “Os Vingadores”, Steve Rogers caminha a passos largos para elucidar uma conspiração após um atentado à vida do diretor Nick Fury. O quê ele descobrirá é inclusive de nível pessoal: A Hidra, organização criada pelo Caveira Vermelha, está inflitrada na S.H.I.E.L.D. e um de seus mais preciosos operativos vem a ser o Soldado Invernal, identidade secreta de seu grande amigo Bucky, que ele considerava morto.
Revelando uma solidez narrativa das mais surpreendentes, os Irmãos Russo enfatizaram todos os aspectos que já sabiam funcionar: A atuação certeira de Chris Evans como Capitão América, sua química com Scarlett  Johansson (que aliás é uma das melhores coisas do filme!), e a diversidade e sinergia do Universo Marvel Cinematográfico.
Eles também deram uma contribuição inestimável: Um tom sombrio acachapante, um enfoque mais realista, fazendo do Capitão América uma espécie de “Jason Bourne da Marvel”, e ainda trouxeram para o elenco a presença mais do que significativa de Robert Redford.
O resultado é o melhor filme da Marvel Studios até então, e um longa de super-heróis que rivaliza em pé de igualdade, com qualidade e mérito com aquele considerado a melhor adaptação de HQ do cinema, o também realista “Batman-O Cavaleiro das Trevas”. 

domingo, 24 de abril de 2016

Capitão América - O Primeiro Vingador

Um dos mais saborosos filmes produzidos pela Marvel Studios é o do Sentinela da Liberdade. Há nele um charme todo especial, muito advindo da bela ambientação retrô dos anos 1940, que lhe dá um clima de filme de matinê. Some a isso o trabalho apaixonado e apropriado do diretor Joe Johnston (de "Querida, Encolhi As Crianças", "Jumanji" e "Rocketeer") que, como dá para perceber, é muito bom em resgatar esse tipo de nostalgia.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o franzino Steve Rogers (Chris Evans, ótimo no papel) pena para conseguir ser aceito no exército americano. Quando isso ocorre, ele passa a integrar um misterioso projeto que visa criar uma espécie de supersoldado: Em uma complicada experiência, seu corpo é anabolizado e ele torna-se forte e ágil.
De início usado como garoto-propaganda para os EUA, o Capitão América (como passa a ser chamado) logo integra as frentes de batalha, tornando-se fundamental na luta contra os nazista, sobretudo, contra os planos maléficos do Caveira Vermelha (Hugo Weaving, sempre fantástico interpretando vilões).
"Capitão América-O Primeiro Vingador" compõe a primeira leva de filmes da Marvel Studios, a chamada Fase 1, que culminou com o filme dos Vingadores, onde todos os heróis apresentados até então foram reunidos. Dentre todos, "Capitão América" foi o que mais demorou, e não é para menos: O estúdio sabia que um personagem como ele -em princípio, de valores tão antiquados -precisava de um cuidado todo especial para chegar às telas de cinema.
O resultado, feito com cuidado, critério e minúcia, é excelente.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O Expresso do Amanhã

Num futuro gélido e desprovido de esperança, tudo o que restou da humanidade se encontra confinado nos vagões de um trem imenso, que segue por uma extensão igualmente imensa de trilhos cuja rota, que cruza todo o planeta, leva exatamente um ano para ser feita. 
A ordem de habitação desses vagões segue uma espécie de “cadeia alimentar”, sendo assim, os ocupantes dos últimos vagões são, por assim dizer, a escória humana: comem apenas barras nutritivas suspeitas, vivem precariamente em termos de higiene e saúde, e quanto têm filhos, eles por vezes lhes são tomados em prol dos passageiros mais afortunados dos vagões à frente. Até que, após muito planejamento, uma rebelião tem início, conduzida de forma inicialmente relutante pelo ponderado Curtis. A intenção é avançar, vagão após vagão, até por fim chegarem à locomotiva, onde dizem reside o todo poderoso e messiânico Wilford. 
Estreando no cinema norte-americano, o diretor sul-coreano Bong Joon Ho (realizador do magistral “Mother”) imprime seu inegável talento na composição deste tenso conto de ficção científica adaptado de uma graphic-novel francesa, que guarda ecos de “Expresso Para O Inferno” de Andrei Konchalovsky (e que tinha roteiro de Akira Kurosawa), mas cujas características mais palatáveis, certamente são aquelas que o aproximam da série “Mad Max”, sobretudo, seu bem sucedido registro da insanidade, e o modo como faz uma peculiar síntese da raça humana e das desigualdades sociais.
No papel de Curtis, Chris Evans mostra um louvável esforço para afastar-se de seu mais emblemático personagem (o Capitão América), cercado por um elenco de tirar o chapéu: John Hurt, Octavia Spencer, Jamie Bell, Tilda Swinton, Ed Harris e outros.