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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

King Richard - Criando Campeãs


 Prova do empenho genuíno de Will Smith (também ele produtor deste projeto) em ser visto como intérprete para além de sua reluzente imagem de astro, é o trabalho verdadeiramente diferenciado de sua composição em “King Richard”, terceira indicação ao Oscar de Melhor Ator de sua carreira –as outras duas foram por “Ali” e por “A Procura da Felicidade”.

Aqui, a despeito da persona conhecida e reconhecida, Smith se esforça na criação de trejeitos e minimalismos que não tardam a transformar Richard Williams, seu personagem, em alguém que independe da imagem carismática de Will Smith. É paradoxal que esse mérito venha atrelado à um de seus poréns: No esmero com que é construído, Richard Williams, o patriarca que exige grandeza de suas filhas sem avaliar as consequências de sua cobrança, por vezes soa arrogante, prepotente, irredutível e ocasionalmente até hipócrita –é admirável se olharmos pelo prisma de um personagem humanizado, tratado sem maniqueísmos falsos pela narrativa, concebido sem a intenção primal de agradar ao público, no entanto, seu protagonista falha em ganhar o expectador; não são raras as vezes em que nos pegamos indignados com as atitudes dúbias, grosseiras e inadequadas dele.

Casado com Brandi (Aunjanue Ellis), Richard Williams era pai de cinco garotas negras nascidas no subúrbio de Compton, Califórnia. Vindo de uma família pobre e humilde, e de uma infância marcada pelo fantasma da discriminação, Richard sonhava com o estrelato, pelo menos de duas de suas filhas, Venus (Saniyya Sidney) e Serena (Demi Singleton) que não tardam a se revelarem prodígios no tênis.

Impondo sua própria forma autodidata de treinar –e batendo de frente até mesmo com treinadores reais que aparecem em sua trajetória –Richard acompanha a evolução das duas garotas com atenção e proximidade quase sufocante. Dentre as duas, logo Venus começa a se destacar, o que leva Serena a ser negligenciada; embora Richard afirme, diante de todos, que tudo faz parte de seu “plano”.

Com o passar do tempo, treinadores e investidores graúdos se interessam pelo potencial extraordinariamente promissor de Venus, e aquele que termina convencendo Richard a treiná-la é Rick Macci (Jon Bernthal, sempre excelente). Entretanto, Richard tem lá suas condições, ainda que nem sempre tivesse o direito de tê-lo: Faz questão de ganhar uma grande casa para acomodar toda a família (aonde uma vai, todos devem ir!) e não permite (pelo menos até que mude de ideia) que Venus dispute os torneios juvenis de tênis –então, a única maneira dela se profissionalizar.

A teimosia injustificada dura alguns anos, até que Rick (ajudado por alguma pressão psicológica da própria Venus, farta de protelar as aguardadas competições) o convence a permitir que ela jogue. E isso vem a se suceder logo no torneio da WTA, onde Venus acaba se deparando, como adversária, com Arantxa Sánchez Vicario, então a Nº 1 do mundo.

As sequências desportivas de “King Richard” são filmadas com extrema habilidade e sensibilidade –a recriação de certos momentos específicos das partidas é de uma perfeição particularmente notável –mas, o grande mérito do diretor Reinaldo Marcus Green é construir, munido de uma profusão de elementos que soariam genéricos nas mãos de outro realizador, um trabalho de cinema que se sobressai do lugar comum, mesmo tendo tudo para afundar nessa vala: “King Richard” dribla a pieguice, as obviedades e os clichês do gênero conduzindo sua história com solidez, convicção e competência. Muito ajuda para esse resultado sublime o trabalho do seu elenco. A ênfase –como seria de se imaginar –está toda em Will Smith, mas ele não está só em sua excelência; brilhante estão também a jovem Saniyya Sidney, emotiva e convincente como Venus, Demi Singleton no papel pouco aproveitado, mas ainda assim relevante, de Serena (dela ficamos sabendo mais durante os créditos finais) e a vibrante Aunjanue Ellis, no papel de mãe dela e esposa de Richard, travando brilhantes embates íntimos e morais com ele.

“King Richard” é uma trama de perseverança que ilustra a influência paterna sem aparar as arestas de negligência e autoritarismo –não sendo, no entanto, tão cortante e incômodo quanto “Castelo de Vidro” –e um filme de esporte hábil ao desvencilhar-se dos reflexos condicionados do gênero, seja por um refinamento técnico flagrante, seja pelo talento sempre pontual de todos os envolvidos.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Não Olhe Para Cima


 Há quem se pergunte se ainda há espaço para a inteligência no atual cinema comercial moderno. Na ânsia por encontrar uma resposta positiva, o diretor e roteirista Adam McKay se firmou nos últimos anos como um autor singular, capaz de capturar complexidade, loquacidade, atualidade e urgência num caldeirão bem-humorado e contundente em refletir os percalços do mundo real. Dessa predisposição surgiu o clássico moderno “A Grande Aposta”, o engajado “Vice” e este “Não Olhe Para Cima”.

Anunciado como a maior superprodução bancada pela Netflix até então –e tal ambição se reflete em cena com os nomes estupendos que abarrotam seu elenco estelar –o filme de McKay era, em si, uma alegoria crítica ao descaso ostentado por alguns líderes mundiais ao aquecimento global. Porém, sua produção –iniciada nos últimos meses de 2019 –precisou ser interrompida com a chegada da pandemia de 2020, sendo retomada em 2021, deixando o filme pronto para ser lançado nos últimos meses desse ano. Essas circunstâncias, é correto afirmar, modificaram de tal forma a percepção de público e crítica do filme que “Não Olhe Para Cima” se tornou algo que, em princípio, nem seu realizador previa: Uma observação pertinente, ácida e implacável das facetas mesquinhas e calculistas do negacionismo, e também, uma horripilante constatação de todas as celeumas que empurram a humanidade rumo ao seu fim.

A começar essa narrativa hilariamente angustiante, temos a jovem Dra. Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) cuja descoberta, de um cometa em rota de colisão com a Terra é compartilhada com seu professor, o Dr. Randall Mindy (Leonardo Dicaprio). Seguindo o raciocínio lógico, Randall e Kate tentam avisar as autoridades desse perigo à raça humana, entretanto, raciocínio lógico é algo que, deveras, não faz parte da cartilha de quase nenhum dos outros personagens que orbitam seus protagonistas e –o que é pior! –alguns deles habitando esferas políticas de fundamental liderança mundial. Como é o caso da presidente Janie Orlean, vivida por Meryl Streep, numa clara alusão à Donald Trump.

É desconcertante toda a sequência em que Randall e Kate tentam, à duras penas, uma audiência na Casa Branca, e são recebidos com descrédito estarrecedor e indulgência alarmante pela Chefe de Estado e seu filho, Jason (Jonah Hill que personifica bem as facetas mais assombrosamente amorais e revoltantes do nepotismo). Em suma, eis o mote em torno do qual “Não Olhe Para Cima” gira: O fato de que, mesmo estando o fim do mundo e seus indícios escancarados à sua frente, muitas são as pessoas que escolhem não crer em sua existência. Trata-se de McKay, como o genuíno autor que é, se voltando para um fenômeno bastante inusitado e preocupante nos tempos digitais de hoje; a pós-verdade –as pessoas já não ligam mais para a verdade, para os fatos e as informações, elas preferem escolher a narrativa que mais lhes agrada, com a qual mais simpatizam, e a defendem com unhas e dentes.

É assim que Randall e Kate, com a ajuda do Dr. Oglethorpe (Rob Morgan, de “Confronto No Pavilhão 99”), conseguem pouco mais que tornarem-se memes na internet (!), após tentarem, em vão, alertar a população por meio do alienado e midiático programa de TV apresentado pelos histriônicos apresentadores vividos por Tyler Perry e Cate Blanchett. A verdade só começa a ser aceita –talvez, um tanto quanto tarde demais –quando as eleições vindouras apontam um prognóstico pessimista para a reeleição de Orlean, o que a obriga, junto de todos os seus senadores e conselheiros, a recorrer a uma manobra populista, financiando uma missão para desviar a rota do cometa. E mesmo aí, no que aparenta ser o rumo natural de todo o filme-catástrofe ao estilo “Armageddon” –o que enganosamente a obra de McKay parece ser –“Não Olhe Para Cima” continua subvertendo: Surge o empresário, inovador e avoado Peter Isherwell (Mark Rylance, hábil em personagens que despertam certa injúria no público) que, na qualidade de financiador principal da campanha (leia-se, manda nela mais que a própria presidente), tem a ideia de jerico de desistir da tentativa de destruir o cometa e, ao invés disso, aproveitar o vasto contingente mineral que é a sua constituição, para com aquilo ter um estoque infinito de matéria-prima para confeccionar seus celulares.

São inúmeros os absurdos que “Não Olhe Para Cima” enfileira, um após o outro, dentro do contexto que se propõe, e eles só não espantam mais do que o fato de que, em grande medida, tudo reflete, e com bastante exatidão, ideologias em voga nos tempos polarizados de hoje. A alfinetada ao conservadorismo, à extrema-direita e ao escrutínio midiático culturalmente questionável é bastante evidente –e certamente Mckay valeu-se do intervalo forçado da pandemia para aproximar seu roteiro ainda mais da deplorável condição política da atualidade –mas, “Não Olhe Para Cima” se propõe a uma reflexão muito mais relevante e válida: Do quanto se perdeu, em compreensão e empatia, nas nossas relações humanas com a chegada de ferramentas digitais que só fizeram nos alienar ainda mais enquanto sociedade.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Ilha dos Cachorros


 Wes Anderson tem uma forma toda especial de mostrar-se a um só tempo contundente, tocante, desconcertante e lúdico em suas narrativas. Essas características normalmente se ressaltam quando ele trabalha com animações. “Ilha dos Cachorros” é seu segundo trabalho dentro desse território, antecedido unicamente por “O Fantástico Senhor Raposo”.

Nele –num reflexo bastante crítico da concepção de Anderson ao olhar a sociedade moderna –os humanos são menos compreensíveis que os animais; isso porque os cães não só narram a trama e participam dela ativamente na maior parte do tempo (com diálogos existencialistas e tudo o mais), mas também porque tudo se ambienta no Japão, e os personagens humanos falam somente o idioma de lá, sendo que o filme propositadamente omite as legendas das passagens em japonês –com exceção, de trechos traduzidos por intérpretes, legendas pontuais (e raras), e uma única personagem (uma aluna de intercâmbio) que fala a língua ocidental.

E é curioso notar assim o fascínio  e a intransponibilidade comunicativa que o Japão exerce tanto em Wes Anderson, como em Sofia Coppola (e seu “Encontros e Desencontros”), eles que têm em seu cinema muitas coisas em comum; muito mais do que apenas a presença de Bill Murray em suas obras –que aliás, aqui aparece dublando o personagem Boss!

Sendo assim, de modo geral, a trama de teor político que se descortina ao público é, em grande medida, expressada pelo ponto de vista dos cachorros: Após uma breve introdução de uma lenda segunda a qual o Japão –ou mais precisamente a cidade de Megasaki –viu-se polarizado entre apreciadores de cães e adoradores de gatos, acompanhamos, no futuro, os cães se tornarem alvo de uma manobra política do prefeito Kobayashi para serem dizimados, ao levarem a culpa pela disseminação de um vírus.

Os cães são assim exilados numa ilha –a Ilha do Lixo –e por lá abandonados. Anos depois, um grupo de cães (entre os quais está o narrador da história) testemunha a chegada de uma aeronave à ilha. Ela trás o jovem Atari Kobayashi, sobrinho do prefeito, indo atrás do seu cão guarda-costas, Spots (voz de Liev Schreiber), o primeiro animal para lá enviado.

Todavia, o paradeiro de Spots não é fácil de ser encontrado: Tudo indica que (se sobreviveu...) ele foi parar em algum lugar do extremo oposto da ilha, dominado por um grupo de cães selvagens de hábitos canibais!

Enquanto Atari tenta chegar lá, auxiliado meio a contra gosto pelo desiludido vira-lata Chief (voz de Bryan Cranston), as autoridades de Megasaki preparam uma medida para exterminar de uma vez a mal-fadada ilha dos cachorros: A fim de abafar a descoberta de que o vírus é perfeitamente curável (o que torna assim o retorno dos cães para o continente possível), o prefeito Kobayashi, ignorante da presença do sobrinho por lá, quer aprovar uma erradicação total à ilha, onde cães-robôs disseminarão um composto venenoso a partir de wasabi (!) que matará todos os seres vivos que estiverem lá.

Datado de 2018, é incrivelmente curioso, como um elemento essencial da narrativa de “Ilha dos Cachorros” remete ao cenário de 2020: O do vírus usado para manipular os anseios da população com fins políticos e certamente unilaterais.

Para além desse viés visionário, o diretor Wes Anderson ainda criou uma animação emocionante e pertinente, sobre a intolerância, sobre a intoxicante incapacidade de comunicação, e sobre a necessidade fundamental da preservação animal e ambiental.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Pânico


 O roteiro de Kevin Williamson, dirigido com o máximo de criatividade por Wes Craven é um paradoxo na forma com que mostrou-se revolucionário: Naquele final dos anos 1990 de então, os realizadores conseguiram entregar um filme recebido como divisor de águas no gênero do terror contemporâneo, simplesmente versando em torno dos clichês inapeláveis desse mesmo gênero –e, no final das contas, não lhes acrescentando nada genuinamente novo.

A beleza de “Pânico” está, portanto, na sedução com que consegue enredar seus expectadores, e para isso, um diretor profundamente conhecedor das engrenagens que movem o gênero, como Wes Craven, é essencial.

Desde seu prólogo –onde vemos uma jovem Drew Barrymore, às voltas com um ameaçador telefonema de um psicótico que, descobrimos, está rondando sua casa –“Pânico” é todo metalinguagem: Os personagens, fãs incondicionais de filmes de terror ‘slasher’, debocham das decisões redundantes das vítimas dos assassinos (que insistem em correr escadas acima, por exemplo, ao invés de saírem porta afora) para, no momento seguinte, serem levados a cometer os mesmos lapsos.

A preencher esse amálgama ininterrupto de referências, o roteirista Williamson até que soube construir uma trama suficientemente envolvente: Após o assassinato de Casey (a personagem de Drew), um toque de recolher instala-se na cidadezinha de Woodsboro, com as autoridades temerosas de novos assassinos, a mídia subitamente interessada nos desdobramentos naquela comunidade pacífica e os jovens  tecendo teorias e mais teorias a partir dos filmes de psicopata que conhecem.

A protagonista de “Pânico” é Sydney (Neve Campbell, então em alta pelo sucesso do seriado “O Quinteto”) e, em poucos dias, há de completar um ano do assassinato da própria mãe dela; crime que muitos insistem em relacionar com as novas mortes.

De fato, Sydney, cujo pai saiu em viagem, deixando-a sozinha em casa, é assediada pelo assassino (um psicopata que usa uma máscara inspirada na pintura “O Grito”, do artista Edvard Munch), usando o mesmo recurso do telefone da vítima anterior: Ameaçadoramente, ele propõe um jogo de perguntas e respostas sobre filmes de terror, à medida que vai revelando sua presença próxima e letal –na cartilha de Wes Craven e Kevin Williamson, “Pânico” surge como um herdeiro natural de “Halloween” e “Sexta-Feira 13” (filmes com os quais a premissa é deliberadamente similar) ao introduzir um psicopata com elementos visuais icônicos à exemplo de Michael Meyers e Jason Vorhees, mas incrementado pelas artimanhas tecnológicas que o conectam aos jovens (o telefone) e por sua própria percepção cultural (os filmes de terror).

É também curioso notar que Craven humaniza o psicopata: Ele cai, se machuca e apanha de suas vítimas antes de matá-las, o que serve não necessariamente para humanizá-lo (embora isso aconteça) mas, mais precisamente para relacioná-lo com os suspeitos que vão despontando. Um elemento que garante diversão e interesse à “Pânico” –pelo menos, nas primeiras vezes a que se assiste a ele –são as incertezas quanto à identidade real do assassino: Seria o namoradinho de Sydney (Skeet Ulrich, de “Jovens Bruxas” e “Melhor É Impossível”) cheio de desculpas esfarrapadas e histórias mal-contadas? Ou seria o nerd de locadora Randy (Jamie Kennedy, possivelmente o melhor personagem do filme) cujas observações sobre os códigos embutidos nos filmes de terror são um dos grandes achados do filme?

A resposta que “Pânico” fornece –e que vem após uma sucessão estilística de mortes e corre-corre ao gosto dos jovens sedentos por sangue e adrenalina –é mirabolante e cheia de desdobramentos absurdos; e, por isso mesmo, divertidíssima!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Aconteceu Em Woodstock


O abalo sísmico provocado por “O Segredo de Brokeback Mountain” na crítica e no público foi tamanho que, alguns anos e alguns projetos depois, o diretor Ang Lee ainda produzia sob a sombra dessa repercussão –uma espécie de necessidade de se provar e se manter naquele mesmo nível de relevância cinematográfica.
Certamente há algo disso a orientar “Aconteceu Em Woodstock”, uma realização exemplar e brilhante, mas destituída daquilo que mais supostamente teria: Espontaneidade.
Ang Lee inicia seu filme imerso num silêncio muito condizente com a cidadezinha de White Lake, no estado de Nova York, onde se ambienta a trama. Lá, todas as características típicas da pequena e deliberadamente medíocre comunidade interiorana norte-americana convergem. Até a trilha sonora que toca, portanto, soa abafada e retraída.
Sabemos, entretanto, que muito barulho virá: Elliot Tiber (Demetri Martin) é um jovem morador com tímidas pretensões artísticas. Todos os seus esforços, no entanto, são dirigidos para harmonizar a situação dos pais, Sonia (Imelda Stanton) e Jake (Henry Goodman) –imigrantes russos, proprietários de um pequeno hotel caindo aos pedaços, eles não se acertam com ninguém, exceto com o parcimonioso Elliot, que para tanto, deixou sua morada em Greenwich Village para ficar com os velhos.
Em meio ao tédio local, o máximo que Elliot se permite é organizar um pequeno festival de música todo o ano –que atrai, quando muito, uma meia dúzia de moradores...
Contudo, eis que a cidade vizinha, Wallkills, estava prestes a sediar um festival de música hippie –com atrações muito famosas daqueles idos de 1969 –e os organizadores foram, da noite para o dia, desamparados pelos proprietários locais.
Disposto a usar a oportunidade para agitar a freguesia claudicante de seu hotel, Elliot não perde tempo e liga para os organizadores com uma ideia inusitada e prática: O alvará para seu insosso e medíocre festival de música foi tirado sem problemas pelas autoridades, sendo assim ele pode usá-lo, ainda que num festival de proporções –imagina ele –um pouco maiores!
Elliot mal pode imaginar que está acendendo o estopim para uma experiência sem precedentes que marcará, de forma inapelável, toda a cultura norte-americana.
Austero como sempre em sua observação das incongruências humanas (e revelando um olhar extraordinariamente afiado sobre meandros comportamentais americanos para um cineasta taiwanês), Ang Lee tem a sensatez de desviar sua narrativa de participações famosas (como Janis Joplin ou Jimmie Hendrix) ou mesmo de facetas mais grandiosas do Woodstock em si para priorizar as pessoas comuns, Elliot e seus pais (que, de normais, não têm absolutamente nada), os moradores perplexos de White Lake (o proprietário das terras usadas para o evento, vivido por Eugene Levy, o ator-assinatura da série “American Pie”; o rabugento cidadão vivido por Jeffrey Dean Morgan e seu irmão, alucinado e veterano do Vietnam, interpretado por Emily Hirsch) e toda sorte de indivíduos inacreditáveis que o festival atrai: O travesti (!) e ex-veterano da guerra da Coréia, Vilma, personificado com brilho insólito por Liev Schreiber; o hippie Michael (Jonathan Groff), um dos responsáveis pelo festival cuja atitude sempre lisérgica parece algo fora da realidade; o doidão em LSD (Paul Dano, ótimo), e sua namorada (Kelli Garner, inebriante) que surgem no momento mais psicodélico do filme; e tantos outros.
“Aconteceu Em Woodstock” marca também a segunda incursão como roteirista de James Schamus, produtor de todos os filmes de Ang Lee, a primeira foi “Hulk” –é curioso notar que, embora de origens, procedimentos e naturezas absolutamente distintas, há alguma afinidade entre esses dois projetos, em especial, a forma com que a narrativa se vale de múltiplos quadros para dividir as cenas enfatizando, aqui, o caos gradativo presente nos preparativos e, mais tarde, a fascinante pluralidade que contaminou esse festival lendário.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Amante À Domicílio


Um ator brilhante normalmente mais associado a coadjuvantes –mas, tendo seu momento de brilho em pelo menos uma ocasião, no magnífico “Barton Fink-Delírios de Hollywood” –John Turturro arrisca-se na direção reservando para si um personagem que representa, em geral, uma massagem de ego para qualquer intérprete que se preze: Altivo, solene e inabalável.
Fioravante tem todas essas características e ainda divide muitas cenas com o notável elenco feminino que para este filme foi arregimentado.
De humor tipicamente nova-iorquino, Turturro já escancara sua referência mais óbvia colocando Woody Allen como seu co-astro –e amplificando ao máximo a sensação de déja vu ainda estamos numa comédia de raízes profunda e culturalmente judaicas!
Murray Schwartz, personagem de Allen, desfez-se a pouco da livraria que pertenceu a sua família por gerações. Ao mesmo tempo, seu funcionário e amigo de longa data, o próprio Fioravante, terminou na dependência de bicos ocasionais como encanador e eletricista.
Mas, Murray tem um plano impronunciável: Ofertou –meio que à revelia dele –os serviços viris de Fioravante a sua médica (Sharon Stone) que, curiosa por realizar um ménage à trois ao lado da amiga (Sofia Vergara), encontrou em Fioravante, proposto por Murray, uma saída para seu anseio.
Relutante mas, de certa maneira passivo, ele concorda com a situação imediatamente criada por Murray que vira, no frigir dos ovos, seu cafetão. Ele, com a sucessão de serviços bem prestados (!), eles iniciam um novo negócio que bate de frente com a rigidez da comunidade judaica do bairro onde moram quando Murray resolve atrair como cliente a viúva Avigal (a francesa Vanessa Paradis), o objeto do desejo, por sua vez, do patrulheiro do bairro Dovi (Liev Schreiber) que passa a vigiar a dupla de perto.
Há um humor contido e pretensamente elegante neste filme bem menos atrevido e malicioso que sua premissa é capaz de sugerir.
Ele revela um bom diretor de cenas em John Turturro certamente mais voltado para as sutilezas da atuação do elenco –como era de se esperar –do que para aspectos mais técnicos como montagem e ritmo. No final, ele próprio parece bastante consciente de que, se existem acertos em seu filme, eles ocorrem pelas inspiradas escolhas de seus atores e atrizes.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Um Homem Perfeito


O diretor Kees Van Oostrum até entrega faíscas de uma audácia que poderia remeter a ousadia ardente de seu conterrâneo Paul Verhoeven, mas seu trabalho não escapa da amenidade e da suavidade que lhe reduz o potencial.
Casal de norte-americanos moradores de Amsterdam, o executivo James (Liev Schreiber) e a editora Nina (Jeanne Tripplehorne) completam onze anos de casamento, pontuados por altos e baixos, entre eles, as escapadelas extraconjugais dele (e uma certa vista-grossa dela) e encontros ocasionais em bares onde ambos fingem ser estranhos que acabaram de se conhecer.
Quando Nina descobre que James a está traindo com uma de suas amigas, entretanto, ela lhe dá um basta e sai de casa, indo morar com sua amiga escritora Lynn (Joelle Carter), que guarda um grande segredo –e que, a rigor, não importa coisa alguma ao filme...
Indecisa entre preservar seu orgulho mantendo o afastamento ou ceder ao sentimento e voltar para o homem que ainda ama (mas, que a traiu), Nina inicia com James uma série de telefonemas onde, em princípio, se faz passar por outra mulher que estabelece com ele uma curiosa amizade à distância definida por confidências de ambas as partes, onde eles tentam (meio que em vão) entender as expectativas afetivas de homens e mulheres acerca uns dos outros.
Conseguindo manter um mínimo de interesse no expectador neste conto de suspense romântico com algum humor, graças, sobretudo, ao bom e competente casal central, o diretor Van Oostrum tenta refletir sobre diversas facetas ambíguas do relacionamento a dois fracassando em todas as tentativas de se aprofundar em seu propósito, especialmente porque não lhe ocorre fazer qualquer gesto mais ousado além de replicar expedientes de inúmeros gêneros já muito batidos e martelados: Sua comédia é acanhada; seu drama é chato; seu romance é clichê e sua tensão é superficial.
Resta sua revigorante ambientação em Amsterdam (que sugere mais libertinagem do que de fato se vê) e a presença da veterana Louise Fletcher, ganhadora do Oscar de Melhor Atriz por “Um Estranho No Ninho”.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Para Maiores

Eis um filme que, em sua incontornável ruindade, é um caso para estudo. Afinal de contas, ainda assim, foi reunido, ao longo de seus esquetes, não só um elenco de fazer inveja a qualquer superprodução, mas também um time de diretores que se responsabilizam por cada, digamos, episódio que vai de nomes notáveis como Peter Farrelly (aqui arriscando a direção sem seu irmão Bobby), James Gun (de “Guardiões da Galáxia”), Steve Carr (de “Segurança de Shopping”), Griffin Dunne (astro de “Depois de Horas”, de Scorsese e diretor de “Da Magia À Sedução”), Bret Ratner (de “A Hora do Rush” e “X-Men O Confronto Final”) e outros! –e todos, sem exceção, passam uma tremenda vergonha em todas as seqüências deste filme cujo nível de mau gosto chega às raias do inacreditável.
Reza a lenda, que o produtor Charles B. Wessler (realizador dos filmes dos Irmãos Farrelly) conseguiu arregimentar tantos atores graças à sua influência e a um curta-metragem previamente gravado em 2009 com Hugh Jackman e Kate Winslet –quando o filme foi lançado em 2013, tal curta, por sinal, foi incluído como o trecho que inicia esta sucessão de absurdos intermináveis!
É uma antologia cômica calcada nas características pesadíssimas da comédia vulgar juvenil que aflorou nos anos 1980 e que ganhou, com as décadas que vieram, mais e mais escatologia. Uma exaltação do politicamente incorreto.
Sua trama une engenhosidade e grosseria de forma desconcertante: A fim de pregar uma peça de 1º de abril num garotinho metido a hacker, dois adolescentes pra lá de imbecis lhe distraem com a missão de procurar um filme na internet, difícil de achar por ter sido banido, cujo conteúdo é um mistério –o "Movie 43", que dá o título original à produção.
O problema é que durante a busca o tal filme revela-se real, e nos sucessivos vídeos que eles vão descobrindo surgem tramas curtas que, de uma maneira geral, destroem com o modo de vida norte-americano com um humor politicamente incorreto radical até mesmo para os padrões extremos que o gênero tem tomado atualmente (como "Ted").
No primeiro esquete –supostamente aquele que iniciou tudo! –uma moça (Kate Winslet) vai jantar em um restaurante com um solteirão charmoso e boa-pinta (Hugh Jackman), para descobrir, do pior jeito possível, porque ele continua solteiro: De alguma forma ridícula e mirabolante, ele possui os testículos no pescoço (acredite, isso já dá uma boa idéia do nível extremo de absurdo, escracho e nojeira que se seguirá a partir daqui!).
Noutro, o casal na vida real Naomi Watts e Liev Schreiber vive a mãe e o pai de um rapaz educado em casa –como é costume em alguns locais do EUA –entretanto, a fim de proporcionar ao filho uma educação com todas as variações de uma experiência escolar completa, eles decidem submeter seu filho até mesmo ao bullying impiedoso que seus colegas praticariam: Eles organizam festas e não o convidam (!), seu pai exerce forte tortura psicológica nas aulas de educação física (!), e sua mãe, na falta de outra, flerta com ele para ensinar-lhe as minúcias da rejeição (!!). O resultado é ultrajante.
Numa adaptação mambembe e debochada da “Liga daJustiça”, anos antes do filme de Zack Snyder e Joss Whedon, vemos em um restaurante, Robin (Justin Long) tentar se dar bem num encontro com a Supergirl (Kristen Bell), apesar das constrangedoras intromissões do inconveniente Batman (Jason Sudeikis) e, mais tarde, da espalhafatosa Mulher Maravilha (Leslie Bibb) e de uma neurótica Lois Lane (Uma Thurman).
Já, o casal formado por Chris Pratt e Anna Faris resolve temperar sua vida sexual quando a esposa faz uma inesperada proposta ao marido: Defecar nela (!!!).
A preparação para esse momento tão... especial (!) envolve o uso de um laxante poderoso que vai colocar o marido numa situação aflitiva.
Também em um encontro marcado num restaurante, Halle Berry e o comediante Stephen Merchant resolvem brincar de ‘desafio ou conseqüência’, o quê os leva a atitudes inacreditáveis.
Richard Gere faz o executivo de uma empresa cujo produto mais rentável, o I-Babe (um dispositivo que grava músicas em tamanho real e formato de uma mulher nua!) está levando compradores adolescentes à mutilação (!) por uma razão bem peculiar: No lugar onde seria a vagina fica uma hélice para ventilação (!!!).
Num dos episódios mais estranhos e non-sense, Emma Stone faz uma namorada impaciente e incompreensível disposta a discutir a relação com o namorado (Kieran Culkin), mesmo que seja na caixa de supermercado onde ele trabalha (!).
Um encontro catastrófico é o que experimenta a jovem Chloe Grace Moretz ao ir à casa do namoradinho e lá passar pela infelicidade de ter sua primeira menstruação (!), para o pânico de seu irmão mais velho, Christopher Mintz-Plasse.
Numa cabana, Johnny Knoxville e Seann William Scott encontram um ‘leprechaum’ –num registro deliberadamente destoante de efeitos visuais, do ator Gerard Butler –que não é exatamente aquilo que eles esperavam.
Um time de basquete composto por negros recebe de seu treinador, Terrence Howard, uma instrução bastante simples (e racista) para conseguir ganhar do time composto por brancos.
E por fim, no episódio escondido nos créditos finais, Elizabeth Banks tenta manter a harmonia de seu relacionamento com o namorado dos sonhos, Josh Duhamel, mas isso é perturbado pelo gato dele (um CG ainda mais porco que o do ‘leprechaum’), uma versão distorcida, psicopata e homossexual de Garfield (!!).

É bem provável que hajam até mesmo outros episódios além desses que consegui lembrar, mas a experiência de passar por este filme é tão desconcertante e perturbadora que vou ficar só nestes mesmos!

sexta-feira, 6 de maio de 2016

X-Men Origens Wolverine

Com o encerramento do terceiro filme, tinha-se aberto uma possibilidade muito interessante para os mutantes no cinema: os filmes-solo.
E era óbvio que o primeiro e preferido de todos para ganhar um filme só seu seria o Wolverine.

Foi assim que, convidado pelo estúdio da Fox, o diretor sul-africano Gavin Hood (que havia conquistado até o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2006, por “Infância Roubada”) assumiu as rédeas para o filme que prometia jogar uma luz sobre todo o mistério envolvendo a origem de Logan (Hugh Jackman, independente de qualquer coisa, sempre perfeito no papel): Em meados do Século XIX, o jovem James Logan Howlett foge de casa com seu suposto meio-irmão Victor, ao descobrir uma mutação que o torna diferente. Nas décadas que virão eles perceberão que não envelhecem e que seus corpos curam-se extraordinariamente rápido, características que os tornam ótimos soldados. Assim, por volta dos anos 60, já no Século XX eles serão recrutados pelo General Striker, militar maquiavélico e manipulador que levará Logan, já com o codinome de Wolverine, a submeter-se a uma experiência em que seu esqueleto receberá enxertos de um poderoso metal chamado Adamantium.
Um dos muitos grandes problemas enfrentados pelo filme, foi a pressão exercida pelo estúdio (com a qual o diretor Hood, vindo de um ambiente criativo completamente distinto, não soube lidar), que sempre foi tirada de letra quando o diretor era Bryan Singer, sempre sagaz, firme e convicto da forma como queria fazer seu trabalho. Dessa forma (sem uma mente dotada de genuína visão artística para controlar o complexo processo de criação que resulta das filmagens), o filme que chegou aos cinemas, apesar das ótimas presenças de Hugh Jackman e de Liev Schreiber, era equivocado, desleixado, mal trabalhado e mal adaptado dos quadrinhos.
Hoje é lembrado como uma das piores adaptações já feitas e nem sequer foi considerado na cronologia pelos filmes seguintes.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Spotlight - Segredos Revelados

O gênero investigativo já rendeu grandes filmes. Talvez o maior exemplar do gênero seja “Todos Os Homens do Presidente”, contudo, nos últimos tempos tem sido uma categoria de filmes cada vez mais escassa, possivelmente devido ao pouco interesse do público, mais e mais voltado para obras de entretenimento vazio do que produções com conteúdo. 
É possível lembrar apenas de “O Informante” de Michael Mann, com Russel Crowe e Al Pacino, num já longínquo ano 2000... e mais nada. 
“Spotlight” vem para suprir essa lacuna. E o faz com pompa e circunstância. 
Desde o início é um tanto quanto admirável ver um projeto corajoso como esse ganhar a luz do sol, pois ele toca em temas escandalosos ao apontar o dedo para a Igreja Católica. Mais admirável ainda é a inesperada consagração que ele vem obtendo na temporada de prêmios, tirando ligeiramente um favoritismo que antes parecia ser apenas de “O Regresso”. Méritos para isso não lhe faltam. 
Em 2001, pouco antes do trágico atentado ao World Trade Center (que é mostrado em um determinado ponto da narrativa), o novo editor do The Globe, prestigiado jornal de Boston, propõe uma incisiva investigação aos casos de pedofilia envolvendo padres das paróquias da cidade, que ao que tudo indica estão sendo varridos para debaixo do tapete pela própria Igreja. Essa iniciativa, movida por uma equipe jornalística apelidada "Spotlight" acaba revelando, ao longo dos persistentes meses de investigação, que tais casos não são ocorrências corriqueiras, mas abusos que ocorrem em uma imenso número, em comunidades do mundo todo, e em  todos os casos, a atitude da Igreja é a de silenciar as vítimas e minimizar os danos à própria instituição.
Com base nesse argumento, primorosamente urgido como roteiro, e contando com um elenco fenomenal (no qual se faz impossível não destacar o brilho de Michael Keaton e de Mark Ruffalo), o diretor Tom McCarthy elabora uma intenso e urgente registro do jornalismo investigativo real -aquele que parece estar morrendo, em face dos blogs e sites de notícias superficiais da internet -ao mesmo tempo que aborda um tema, no mínimo espinhoso. Prova de sua perícia, e da qualidade estratosférica que alcançou, é o fato de que ninguém está se referindo a este magnífico longa-metragem como uma obra polêmica, mas sim como o grande filme que é.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O Amor Nos Tempos Do Cólera

Há um esforço nítido, até louvável, do diretor Mike Newell em transpor a prosa minimalista, colorida e vívida de Gabriel Garcia Marquez para a tela do cinema.
Esse é, desde já, um objetivo fadado ao fracasso, ou como seria mais justo neste caso específico, fadado a uma incongruente irrelevância em sua graciosidade.
A verve de Garcia Marquez é única e inimitável. Adaptá-la para outra mídia, então, uma ingrata tarefa. Prova disso, é o pouco conhecido e mediano (ainda que profundamente falho) "Ninguém Escreve Ao Capitão". Que o trabalho de adaptação da obra seja de uma fidelidade quase religiosa é algo de se esperar nesse esmero tão engajado.
O filme não poupa seus personagens. Apesar do clima incontornavelmente fantasioso que é inerente à Garcia Marquez, esse surrealismo não lhes alivia a barra: À eles está destinada toda sorte de frustrações, humilhações e desilusões que competem à condição humana. Embora a trama não lhes negue (no caso do casal protagonista) alguma redenção.
Na história, vemos o amor entre Florentino (Javier Bardem, sempre muito bom) e Fermina (a linda Giovanna Mezzogiorno) ser tolhido -e interrompido por uns bons cinquenta anos! -pelo pai da jovem, em prol do médido recém-chegado à aldeia. A amargura do protagonista acaba sendo também o que lhe afasta do mundo e das necessidades mundanas, pelo menos, a partir do momento em que ele descobre o encanto das mulheres que se entregam à ele (e as cenas subsequentes não economizam na beleza e na nudez delas), embora seu coração jamais deixe de querer mesmo Fermina.
E essa questão -a de se ter demais algo, em contraponto ao que se anseia sem nunca obter -é o drama que aflige o filme, o norte para o qual sua bússola apontará do primeiro ao último minuto.
Tal qual convêm ao romantismo rasgado que remete ao livro (e que remete, por sua vez, à 'latinidad' de seu autor), anos se transcorrerão com os personagens a padecer nessa expectativa de amor.
Que tudo seja amarrado com saborosa fluidez, é um dado que vem a amenizar uma possível desolação advinda disso, cortesia do indisfarçável timbre comercial do diretor Newell (artesão dos mais ecléticos tendo realizados obras desde a comédia "Quatro Casamentos e Um Funeral" até produções como "Harry Potter e O Cálice de Fogo").
Outro deleite é poder conferir Fernanda Montenegro numa produção internacional, embora muitos digam (com certa razão) que ela está sub-aproveitada.