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quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Auto da Compadecida


O ator Matheus Nachtergaele (interpretando João Grilo com um brilhantismo singular) rouba todas as cenas nesta maravilhosa adaptação da peça de Ariano Suassuna.
Ainda no final da década de 1990, foi idéia do diretor Guel Arraes realizar uma minissérie filmada em 35 milímetros que depois, submetida a uma montagem mais criteriosa, se convertesse em filme a ser lançado nos cinemas –dando origem à uma tática que depois tornou-se moda.
João Grilo, um típico retirante do Nordeste, vive de pequenos bicos em serviços ordinários que arruma no pequeno vilarejo do sertão em que vive, junto de seu inseparável companheiro Chico (Selton Mello, também ele inspiradíssimo).
O quê se prova atípico em João Grilo, porém, é seu faro acentuado para oportunidades –que, na verve graciosa, esperta e regional de Ariano Suassuna (preservada em toda sua pluralidade verbal) se desdobra em seqüências memoráveis: De língua ferina, João Grilo por vezes vale-se de sua lábia afiada para ludibriar e tirar certo proveito dos personagens ao seu redor, como o dono de mercearia (seu empregador, na maioria das vezes), e sua esposa infiel (vividos por Diogo Vilela e Denise Fraga); ou o perplexo padre da paróquia (o saudoso Rogério Cardoso), e seu ambicioso superior, o cardeal (Lima Duarte). As peripécias de João Grilo chegam ao limite quando ele se cruza com um ensandecido cangaceiro (Marco Nanini), o que leva João Grilo, junto de outros, para uma aventura além-morte, onde encontrarão Cristo (personificado –para efeitos de reflexão –pelo ator negro Maurício Gonçalves) e o Diabo (um pernicioso e rabugento Luis Melo).
A salvação de João Grilo se encontra, contudo, na imensa confiança e fé que ele deposita em Nossa Senhora, a Compadecida (a quem toda a importância moral e o peso simbólico, a esplêndida presença de Fernanda Montenegro faz o mais absoluto jus).
Um trabalho admiravelmente cinematográfico –apesar das consideráveis origens televisivas do projeto –cujo teor se revelou tão incrivelmente brasileiro que sua linguagem sequer foi assimilada no restante do mundo para que fosse compreendido e indicado à prêmios (como o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro) como era do seu merecimento.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Central do Brasil

“My english is not good. But my soul is better.”
Não, esta frase não está em nenhuma cena de “Central do Brasil”, na verdade, ela foi dita pela atriz Fernanda Montenegro no discurso de agradecimento ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro recebido pela produção no ano 2000. Na opinião de muitos, sua demonstração de humanismo e espirituosidade nessa ocasião representou um passo e tanto para a indicação ao Oscar de Melhor Atriz que ela obteve, até hoje, a única para uma intérprete brasileira.
Dirigido por Walter Salles (cuja carreira, apesar de tudo, demonstrou uma irregular oscilação de qualidade ao longo dos anos), “Central do Brasil” representou um avanço considerável no cinema da Retomada que surgiu no nosso país durante a década de 1990. Hoje, talvez até mais do que na época, é possível perceber que, na esteira dos indicados ao Oscar anteriores –também eles representativos da Retomada e da gradual descoberta de nosso valor e integridade artística –“Central...” se mostra de uma execução infinitamente mais arrojada do que “O Quatrilho”, de 1995, e mais equilibrado, marcante e austero do que “O Quê É Isso, Companheiro?”, de 1998 (e, por sinal, estrelado por Fernanda Torres, a filha de Fernanda Montenegro).
Fazendo imediatamente jus ao seu título, o filme se inicia na Estação Central do Rio de Janeiro, lugar abarrotado de gente indo e vindo de todos os cantos do Brasil. E a câmera de Walter Salles exercita seu cinema de autor com olhar para o regional (um reflexo involuntário que surgiu com o cinema da Retomada) capturando a variedade –inclusive verbal –dessas pessoas tão diversificadas. Pretexto não lhe falta: A protagonista Dora (vivida com toda a bagagem sentimental e profissional que os anos de TV e teatro proporcionaram à magnífica Fernanda Montenegro) é uma ex-professora que vive de escrever cartas para o povo (não raro, analfabetos) que por lá passa. Pessoas dos mais diversos cantos lhes relatam reminiscências, recados e mensagens para entes queridos que ela redige e cobra com a promessa de, mais tarde, postar no correio.
Em sua amargura de classe média suburbana, Dora acumula as cartas em sua casa sem incomodar-se em enviá-las. Sua rotina segue normal até o dia em que uma mulher lhe dita uma carta a ser enviada para seu suposto marido, morador do sertão pernambucano. A mulher morre pouco depois, atropelada no metrô carioca. O garotinho que ela trazia consigo, Josué (o expressivo Vinícius de Oliveira) fica órfão, sozinho e perdido.
Nos dias que se seguem apenas Dora, apesar das rusgas, parece realmente se importar com o garoto.
Ela o leva para casa, e depois, com a ajuda da vizinha Irene (e um filme que reúne Fernanda e Marília Pêra em cena já é, só por isso, digno de atenção) decide pegar a estrada num dos ônibus interestaduais rumo à Bahia e Pernambuco e tentar encontrar o restante da família de Josué.
A peregrinação de Dora e Josué estrada afora –o quê coloca este filme já na categoria de ‘road-movies’ tal e qual outros dois trabalhos de Salles, os posteriores “Diários de Motocicleta” e “Na Estrada” –é uma oportunidade para a narrativa registrar com imediatismo e primeira mão um Brasil autêntico e vívido com suas romarias de atmosfera quase mística, seus pitorescos (e muitas vezes paupérrimos) botecos de beira de estrada, e toda sorte de características que nosso país conserva e que dele parecem fazer algo único –para o bem e para o mal.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O Amor Nos Tempos Do Cólera

Há um esforço nítido, até louvável, do diretor Mike Newell em transpor a prosa minimalista, colorida e vívida de Gabriel Garcia Marquez para a tela do cinema.
Esse é, desde já, um objetivo fadado ao fracasso, ou como seria mais justo neste caso específico, fadado a uma incongruente irrelevância em sua graciosidade.
A verve de Garcia Marquez é única e inimitável. Adaptá-la para outra mídia, então, uma ingrata tarefa. Prova disso, é o pouco conhecido e mediano (ainda que profundamente falho) "Ninguém Escreve Ao Capitão". Que o trabalho de adaptação da obra seja de uma fidelidade quase religiosa é algo de se esperar nesse esmero tão engajado.
O filme não poupa seus personagens. Apesar do clima incontornavelmente fantasioso que é inerente à Garcia Marquez, esse surrealismo não lhes alivia a barra: À eles está destinada toda sorte de frustrações, humilhações e desilusões que competem à condição humana. Embora a trama não lhes negue (no caso do casal protagonista) alguma redenção.
Na história, vemos o amor entre Florentino (Javier Bardem, sempre muito bom) e Fermina (a linda Giovanna Mezzogiorno) ser tolhido -e interrompido por uns bons cinquenta anos! -pelo pai da jovem, em prol do médido recém-chegado à aldeia. A amargura do protagonista acaba sendo também o que lhe afasta do mundo e das necessidades mundanas, pelo menos, a partir do momento em que ele descobre o encanto das mulheres que se entregam à ele (e as cenas subsequentes não economizam na beleza e na nudez delas), embora seu coração jamais deixe de querer mesmo Fermina.
E essa questão -a de se ter demais algo, em contraponto ao que se anseia sem nunca obter -é o drama que aflige o filme, o norte para o qual sua bússola apontará do primeiro ao último minuto.
Tal qual convêm ao romantismo rasgado que remete ao livro (e que remete, por sua vez, à 'latinidad' de seu autor), anos se transcorrerão com os personagens a padecer nessa expectativa de amor.
Que tudo seja amarrado com saborosa fluidez, é um dado que vem a amenizar uma possível desolação advinda disso, cortesia do indisfarçável timbre comercial do diretor Newell (artesão dos mais ecléticos tendo realizados obras desde a comédia "Quatro Casamentos e Um Funeral" até produções como "Harry Potter e O Cálice de Fogo").
Outro deleite é poder conferir Fernanda Montenegro numa produção internacional, embora muitos digam (com certa razão) que ela está sub-aproveitada.