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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Dinheiro Suspeito


 Melhores amigos na vida real, os astros Matt Damon e Ben Affleck já dividiram a cena diversas vezes em filmes como o premiado “Gênio Indomável” (praticamente a estréia dos dois) ou o bizarro “Dogma”, de Kevin Smith. Em “Dinheiro Suspeito” – ou “The Rip”, o título original – eles voltam a fazê-lo desta vez do alto de uma carreira já consagrada e com anos de experiência nas costas – o que confere a ambos bagagem suficiente para interpretar magistralmente os dois protagonistas.

Dirigido brilhantemente por Joe Carnahan (realizador extremamente talentoso para com o gênero policial tendo assinando o magnífico “Narc”), “Dinheiro Suspeito” reflete um cinema que, em grande medida, já não é mais feito – uma obra sólida, enxuta, sem firulas, sobre personagens sem firulas existindo no limiar de extremos da Lei, da violência e da criminalidade, lembra muito (como quase todo o cinema de Carnahan) as produções cheias de energia, ênfase e personalidade realizadas nos anos 1970.

“Dinheiro Suspeito” já começa sem qualquer receio de expor o expectador à diálogos carregados de densidade: Sob a atmosfera já pesada de um escritório da polícia, o Tenente Dane Dumars (Matt Damon, ótimo) tece uma conversa com seu superior. A Capitã Jackie Velez (Lina Esco, de “London”), responsável pela investigação aos desdobramentos de um cartel de drogas em Miami, acabou de ser morta num violento e misterioso atentado. A suspeita recai sobre seus próprios colegas – a corregedoria acredita que foram policiais corruptos, na folha de pagamento dos traficantes, que perpetraram o atentado, e para tanto, agentes federais, representados entre outros pelo implacável Del Byrne (Scott Adkins), mobilizam uma bateria indigesta de interrogatórios a todos os membros da Unidade de Narcóticos do Departamento de Polícia de Miami, inclusive J.D. Byrne (Ben Affleck, surpreendente), seu próprio irmão!

A suspeita paira no ar.

Para Dane, J.D. e os agentes Numa Baptiste (Teyana Taylor, de “Uma Batalha Após A Outra”), Lolo Salazar (Catalina Sandino  Moreno, de “Maria Cheia de Graça”) e Mike Ro (Steve Yeun), os demais integrantes da força-tarefa, a Cap. Velez (que, à propósito, estava envolvida com J.D.) esbarrou numa descoberta bombástica – e que talvez seja a confirmação do que até então era uma lenda urbana: Paióis de dinheiro mantidos por cardéis que armazenam quantias tão assombrosas de dinheiro do tráfico que qualquer policial, honesto ou não, se sentiria compelido a pegar um pouco para si.

Engessados pela burocracia do sistema, abalados pelos detalhes nebulosos da investigação da Cap. Velez – detalhes estes que, em grande parte, parecem ter morrido com ela – e subitamente inseguros em depositar confiança absoluta uns nos outros, J.D., Numa, Lolo e Mike resolvem seguir Dane numa apreensão de dinheiro sugerida pelo que talvez seja uma dica anônima.

Com a noite a cair sobre Miami, eles chegam a um bairro residencial de Hialeah onde mora Desi (Sasha Calle, de “Flash”), uma jovem que alega inocência e afirma tão somente estar ocupando a casa de foi de sua falecida avó. Os policiais adentram o recinto e, numa busca, descobrem um paiol com a alarmante quantia de 200 milhões de dólares (uma das maiores apreensões de dinheiro já feitas!) – quando a dica anônima sugeria meros 150 mil!

Instala-se um clima de preocupação: Um valor tão grande não pode passar despercebido aos traficantes, ou mesmo aos policiais corruptos que os ajudam – o grupo de Dane, portanto, corre perigo. É questão de tempo até que inimigos fortemente armados caiam sobre eles. No entanto, segundo a Lei, eles não podem deixar o local sem ante fazer a contagem – e, de novo, ainda pesa a questão de que talvez não possam confiar uns nos outros.

Não existem distrações redundantes nem desvios melindrosos no filme de Joe Carnahan, o que ele constrói com habilidade espantosa é um trabalho básico, tenso, decorrido numa única noite e ambientado quase que totalmente num único lugar (ainda que seu refinamento cinematográfico evite qualquer impressão teatral). Seus atores estão em ponto de bala (não me lembro quando foi a última vez que vi Ben Affleck tão bem), seu roteiro (assinado por ele próprio e por Michael McGrale) além de engenhoso e meticuloso, aborda aspectos distintos da atividade policial e gerencia elementos que desembocam em revelações surpreendentes na parte final, e sua direção extremamente segura e absorvente equilibra com rara primazia as sequências explosivas de ação (ainda que, no clímax, ele exagere um pouco nesse quesito), a tensão gradual e crescente e a manutenção louvável de um enredo sempre em desenvolvimento, trazendo até o fim novas informações ao público.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Maria Cheia de Graça

A jovem Catarina Sandino Moreno (agraciada com uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz) impressiona por sua firme presença em cena neste filme independente de grande simplicidade, mas muito bem conduzido.
Ela vive Maria, uma jovem colombiana de classe média-baixa que, como todas as jovens, alimenta o sonho de ir para os EUA atrás de uma melhor qualidade de vida.
O fato de engravidar de um namorado, apesar da ocasional relutância, só potencializa ainda mais esse ideal. A oportunidade de fazer sua sonhada viagem surge assim de forma ilícita e perigosa: Ela pode integrar um grupo de mulheres usadas como "mulas"; são jovens que ganham dinheiro, e a chance de migrar para a América, desde que cruzem a fronteira com uma certa quantia de drogas escondida dentro de seu estomago(!).
Ela decide encarar o desafio junto de uma amiga e de outra desconhecida que se diz já acostumada a essas viagens. E serão esses percalços o relevo constante que consolidará toda a trajetória da narrativa.
Da insegurança paralisante experimentada ainda em casa, passando pela tensão insolúvel durante todo o entrecho no aeroporto e no vôo que se segue a ele (e até mesmo depois, numa rápida e brutal seqüência), o diretor Joshua Marston narra esse conto despido de qualquer natureza regional, e sim com um viés de compromisso global, e mantém sua câmera atenta às mínimas alterações do expressivo rosto de Catarina, onde fica perfeitamente registrado que, esteja ela onde estiver, Colômbia ou EUA, as coisas nunca serão tão simples.
Contudo, a jornada de sua protagonista é menos em direção é um local específico (EUA), e mais em direção á um estado de espírito que está em nenhum outro lugar senão dentro dela própria: Onde Maria, ao descobrir-se mãe de fato (da mais inusitada e arriscada das formas) encontrará em si mesma uma certeza e uma capacidade de auto-afirmação que antes pareciam impossíveis germinar naquela titubeante moça do início do filme.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O Amor Nos Tempos Do Cólera

Há um esforço nítido, até louvável, do diretor Mike Newell em transpor a prosa minimalista, colorida e vívida de Gabriel Garcia Marquez para a tela do cinema.
Esse é, desde já, um objetivo fadado ao fracasso, ou como seria mais justo neste caso específico, fadado a uma incongruente irrelevância em sua graciosidade.
A verve de Garcia Marquez é única e inimitável. Adaptá-la para outra mídia, então, uma ingrata tarefa. Prova disso, é o pouco conhecido e mediano (ainda que profundamente falho) "Ninguém Escreve Ao Capitão". Que o trabalho de adaptação da obra seja de uma fidelidade quase religiosa é algo de se esperar nesse esmero tão engajado.
O filme não poupa seus personagens. Apesar do clima incontornavelmente fantasioso que é inerente à Garcia Marquez, esse surrealismo não lhes alivia a barra: À eles está destinada toda sorte de frustrações, humilhações e desilusões que competem à condição humana. Embora a trama não lhes negue (no caso do casal protagonista) alguma redenção.
Na história, vemos o amor entre Florentino (Javier Bardem, sempre muito bom) e Fermina (a linda Giovanna Mezzogiorno) ser tolhido -e interrompido por uns bons cinquenta anos! -pelo pai da jovem, em prol do médido recém-chegado à aldeia. A amargura do protagonista acaba sendo também o que lhe afasta do mundo e das necessidades mundanas, pelo menos, a partir do momento em que ele descobre o encanto das mulheres que se entregam à ele (e as cenas subsequentes não economizam na beleza e na nudez delas), embora seu coração jamais deixe de querer mesmo Fermina.
E essa questão -a de se ter demais algo, em contraponto ao que se anseia sem nunca obter -é o drama que aflige o filme, o norte para o qual sua bússola apontará do primeiro ao último minuto.
Tal qual convêm ao romantismo rasgado que remete ao livro (e que remete, por sua vez, à 'latinidad' de seu autor), anos se transcorrerão com os personagens a padecer nessa expectativa de amor.
Que tudo seja amarrado com saborosa fluidez, é um dado que vem a amenizar uma possível desolação advinda disso, cortesia do indisfarçável timbre comercial do diretor Newell (artesão dos mais ecléticos tendo realizados obras desde a comédia "Quatro Casamentos e Um Funeral" até produções como "Harry Potter e O Cálice de Fogo").
Outro deleite é poder conferir Fernanda Montenegro numa produção internacional, embora muitos digam (com certa razão) que ela está sub-aproveitada.