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sábado, 23 de agosto de 2025

F1 - O Filme


 Após “Top Gun-Maverick”, o diretor Joseph Kosinski se especializou em obras arrojadas capazes de capturar objetos em alta velocidade. Certamente um respaldo e uma reverência a isso, esta produção assinada por Jerry Bruckheimer, traz todo o conhecimento técnico e cinético de Kosinski na direção para se sagrar como o mais brilhante e espetacular filme a retratar os âmbitos da Fórmula 1 até hoje –e trazer o piloto Lewis Hamilton também na produção não apenas garante a qualidade da obra como atesta o quanto seu roteiro vem abrilhantado por flagrantes de bastidores recriados por quem realmente os vivenciou.

O protagonista de “F1” é Sonny Hayes (vivido com a segurança já notória de Brad Pitt), um exímio piloto, incapaz, porém, de conjugar seu hábil talento na direção com o sucesso nas pistas –Hayes vive, em vez disso, de bicos provisórios nas mais diferentes modalidades de corridas automobilísticas, toda a vez que uma equipe precisa desesperadamente de um piloto de última hora.

Não deixa de ser nessas circunstâncias que o amigo de longa data, Ruben Cervantes (Javier Barden) o convoca para auxiliar uma equipe de Fórmula 1 da qual é proprietário –a Apx GP anda claudicante no campeonato; o carro projetado não corresponde às expectativas; a equipe se vê desanimada; os pilotos, ainda que promissores, não obtêm o resultado esperado; e o conselho da diretoria, diante do rendimento lastimável, está cogitando tirar a equipe das mãos de Ruben. Ele precisa de alguém como Sonny –um piloto que, ao cair de para-quedas dentro da equipe e do campeonato, seja capaz de chacoalhar as previsões pessimistas e surpreender.

E é assim que “F1” basicamente se desenvolve –amparado nos mais básicos expedientes desde que filmes de corrida se converteram num subgênero à parte do cinema hollywoodiano. A diferença é que, quem está aqui, sabe o que faz: Roteirizado por Ehren Kruger, o filme não se intimida ao mergulhar nos meandros complexos das corridas, seja na dinâmica política e profissional entre os membros da equipe, seja nos aspectos detalhados e definidos por alta tecnologia do maquinário utilizado, no entanto, seu trunfo real são os personagens e o competente arco dramático que os coloca em movimento do início ao fim.

Na Apx GP, Sonny deve trabalhar com o piloto novato Joshua Pearce (Damson Idris) que, apesar dos tropeços, começa a sinalizar ser uma futura estrela das pistas. Os egos, como é de se supor, logo colidem, e aí, talvez, esteja o grande truque do filme de Kosinski –não é exatamente a surpresa nos desenlaces que se seguem (estes podem ser vistos como previsíveis até), mas sim a execução primorosa, em termos e encenação e de cinematografia, com que tudo é conduzido.

A equipe da Apx GP é, em si, um organismo vivo e ruidoso o tempo todo: As dinâmicas que que se constroem com a chegada de Sonny são, em geral, saborosíssimas de se acompanhar –além da disputa entre o veterano e o novato (que atravessa estágios de antagonismo para chegar à amizade genuína), há também o envolvimento de Sonny com a diretora técnica Kate McKenna (Kerry Condon, de “Os Banshees de Inisherin”), as tensas (e, com frequência, desonestas) manobras políticas perpetradas nos bastidores, os detalhes peculiares envolvendo cada uma das corridas, e os humores distintos de cada membro da equipe a fervilhar durante os momentos-chaves.

Enfatizando menos a vitória e mais os revezes trilhados durante uma grande disputa, “F1” é cinema comercial em seu mais vibrante formato –bem lapidado, envolvente, satisfatório e prontamente ostensivo, em seu orçamento milionário, nas cenas tão belas quanto acachapantes que entrega. Seu sucesso de público e crítica não apenas faz dele alvo de certa atenção para premiações de cinema ainda vindouras, como também abre espaço para especulações sobre a possibilidade de uma continuação. Um dos rumores mais instigantes: A chance de um crossover com outro belo filme de corridas, também ele, merecedor a um bom tempo de uma continuação, “Dias de Trovão”.

domingo, 3 de março de 2024

DUNA - Segunda Parte


 Os grandes filmes, aqueles de qualidade mais inconteste são, normalmente, os mais difíceis de serem comentados. Como colocar em palavras todo o assombro proporcionado pela produção? Como honrar o mérito ímpar dos artistas envolvidos sem fazer parecer que aquilo é meramente um deslumbramento parcial? “Duna-Segunda Parte”, de Denis Villeneuve, vem confrontar críticos e expectadores com esse inusitado dilema.

Duna-Primeira Parte” foi um épico belo e avassalador e, embora tenha sido extremamente enaltecido pela crítica que atentou para as qualidades técnicas espetaculares da realização e para a bem-sucedida transposição para cinema de elementos antes tidos como intransponíveis do clássico literário de Frank Herbert, alguns chegaram a se queixar de sua narrativa dispersa, da natureza essencialmente introdutória dos arcos construídos ali e de uma esboçada complexidade que, em função de seu final em aberto, para alguns não levava à lugar nenhum. Pois, esta “Parte Dois” vem calar cada uma dessas reclamações ao compor junto com o primeiro longa-metragem uma experiência de ficção científica bela, impactante e intrincada como há muito as telas de cinema não recebiam.

Começando exatamente no ponto em que o filme anterior terminou, “Parte Dois” reencontra Paul (Timothée Chalamet) e Jessica Atreides (Rebecca Fergunson) quando acabaram de unir-se aos Fremen, os habitantes do desértico planeta Arrakis, após terem sido alvo de uma conspiração movida pelos obscuros e brutais inimigos da Casa Harkonnen, o que lhes tirou o controle outrora outorgado pelo Imperador Galáctico (Christopher Walken) de toda a manufatura de especiaria, o material mais precioso do universo, encontrado somente nas areias de Arrakis.

A traição contra os Atreides, não tardamos a descobrir, foi um golpe orquestrado nas sombras pelo próprio Imperador, disposto a por um fim à influência crescente e preocupante dos Atreides junto às poderosas casas de nobreza da galáxia. Entretanto, todos esses inimigos conspiradores têm a convicção de que agora, o problema dos Atreides foi neutralizado, crentes de que Paul e sua mãe foram mortos junto com seus aliados.

Na realidade, Paul se encontra sob a proteção do líder Fremen Stilgar (Javier Barden) que acredita fervorosamente que ele possa ser o Lisan Al Gaib, o messias das profecias de Arrakis plantadas séculos antes pelas feiticeiras Bene Gesserit que trará a liberdade ao povo Fremen e fará de Arrakis um paraíso verde. Embora disposto a integrar-se aos Fremen (tarefa que exige dele o audacioso feito de cavalgar um dos vermes na areia, os Shai-Hulud, naquela que é uma das grandes cenas do ano) e certamente interessado em aliar-se aos seus guerreiros para levar sua retaliação aos Harkonnen e ao Imperador no seu devido tempo, Paul  tem lá seus receios em aceitar em definitivo o papel messiânico no qual muitos já o enxergam, por outro lado, sua mãe, Jessica, convertida na Madre Superiora dos Fremen, tem grande interesse em alimentar esse culto e, com isso, segue rumo ao inóspito sul de Arrakis onde se escondem as tribos fundamentalistas que acatarão cegamente a concretização dessa profecia e constituirão um exército tão descomunal que prejudicará, em apoteóticas batalhas subsequentes, a exploração de especiaria a ponto de levar o Império e todas as grandes casas da galáxia à voltar suas atenções para Arrakis.

Ao mesmo tempo, a acompanhar essa progressão épica de eventos em larga escala –e mostrados com um brilhantismo e uma energia com a qual nenhum filme recente se equipara –temos também a trajetória íntima de Paul Atreides, um salvador relutante, temeroso em aceitar um papel de tamanha atribulação num contexto infinitamente maior que ele próprio. Esses arcos dramáticos, conduzidos com perícia inquestionável pelo diretor Villeneuve, ressaltam não apenas a precisão e a excelência na atuação de Timothée Chalamet, talvez a melhor de sua carreira, como também a magnífica construção dos personagens que o cercam; o ceticismo raivoso de Chani (Zendaya, ótima) contrabalanceado por seu vínculo sentimental cada vez mais forte com Paul; a truculenta figura paterna de Gurney (Josh Brolin); o antagonismo psicótico e imprevisível de Feyd-Rautha Harkonnen (Austin Butler, absolutamente sensacional); as maquinações sinistras e calculistas das Bene Gesserit (entre elas Charlotte Hampling, oriunda já do primeiro filme, e Lea Seydoux); e a atenciosa avaliação da Princesa Irulan (Florence Pugh), historiadora do Império, a acompanhar com sua narração em off todos esses eventos.

Para muito além das tentativas de se adaptar com pompa e circunstância o tomo cultuado de Frank Herbert –a presepada lamentável de David Lynch e Dino De Laurentis, em 1984; e a produção megalomaníaca, porém, jamais materializada em um filme real de Alejandro Jodorowsky –o que Denis Villeneuve entregou aqui foi uma obra sublime do mais puro cinema: Compondo agora as duas partes de um todo harmonioso, exuberante e impecável, a Primeira e Segunda Partes de “Duna” formam um épico de ficção científica inigualável destinado a encantar (com seu visual arrebatador e sua narrativa hipnótica) gerações e mais gerações de cinéfilos.

quinta-feira, 15 de junho de 2023

A Pequena Sereia


 Nos primórdios de sua história como estúdio de animação, a Walt Disney valeu-se de seu maior e mais retumbante sucesso –o inovador longa-metragem animado “Branca de Neve e Os Sete Anões”, de 1937 –para revitalizar os números de sua bilheteria por meio de sucessivas reprises cinematográficas ao longo do Século XX, algo que também ajudou a transformar aquela animação numa lembrança indefectível para gerações inteiras de crianças. Contudo, hoje os tempos são outros. Dinheiro, ao que parece, não é mais problema aos cofres dos Estúdios Disney, entre os mais poderosos e influentes na Hollywood atual. Logo, os relançamentos de clássicos do passado não fazem mais sentido para os executivos donos do dinheiro e das decisões. Ao invés de celebrar a excelência de seu legado, atitude que os relançamentos de “Branca de Neve” e outros clássicos também proporcionava, os Estúdios Disney querem agora reciclá-lo: Toda uma nova geração de expectadores, desde pelo menos “Alice No País das Maravilhas”, de Tim Burton, lançado em 2010, está de fato tendo contato com os clássicos animados que transformaram a Disney no que ela é hoje, só que, não no formato em que eles se consagraram, mas sim como versões live-actions proporcionadas pelos mais apurados efeitos visuais de última geração, capazes de converter em encenações de carne-e-osso o que outrora somente a animação era capaz de mostrar.

E é claro que os primeiros da fila foram as mais ressonantes e significativas realizações do estúdio. Dentre elas, poucas têm a importância, a relevância e o primor capaz de igualar “A Pequena Sereia”, de 1989. Concebido num período em que a Disney experimentou altos e baixos (mais baixos do que altos...) em sua administração, a animação obteve tamanho êxito que restabeleceu o status de maior estúdio de animação do mundo, o qual, desde então, a Disney soube manter entre muitos sucessos e poucos fracassos.

Coube ao diretor Rob Marshall (do ganhador do Oscar “Chicago”) o desafio de recriar, na medida do possível, a magia incomensurável do longa animado de John Musker e Ron Clements, e este novo “A Pequena Sereia” –como, aliás, muitos dos live-actions da Disney –já começa com a desoladora sensação de que este objetivo é, assim, inatingível. O tempo todo, do início ao fim, o roteiro de Jane Goldman e David Magee cai na mesma armadilha que os outros live-actions antes deles caíram; o de meramente acrescentar novas tonalidades à trama já conhecida, corrigindo meras imperfeições pontuais minúsculas que nada interferiam na excelência do todo, e refazendo com desleixo toda uma narrativa que, antes, pulsava de ímpeto criativo. Assim, somos apresentados, ao mundo submarino habitado por Ariel (Halle Bailey, uma interessantíssima atriz de etnia afro-descendente, diferente da personagem animada, mas que revela-se uma bela escolha), filha mais jovem do Rei Tritão (Javier Barden, numa ótima recriação, na medida do possível, do imponente personagem animado). A dinâmica entre Ariel e seu pai é espelhada na animação: Tritão, severamente indisposto com o mundo da superfície (neste filme, é revelado que os humanos foram responsáveis pela morte de sua esposa) enxerga a todos com desconfiança e hostilidade, logo é com um misto de aflição e intolerância paterna que ele assiste, perplexo, ao fascínio incontornável que Ariel desenvolveu por aquele mundo, a ponto de montar uma espécie de coleção dos utensílios humanos que eventualmente vão parar nas águas dos oceanos.

Ao conhecer e salvar a vida do Príncipe Eric (Jonah Hauer-King, da série “Teto Para Dois”), Ariel toma a decisão definitiva de tentar ingressar naquele mundo para sempre: Ela forja um pacto com sua tia renegada Ursula, a Bruxa do Mar (Melissa McCarthy, numa personagem inspirada na persona do travesti Divine, de “Pink Flamingos”) no qual troca sua voz de sereia pela forma terrena de mulher. Entretanto, sem saber, Ariel estará corroborando ainda mais suas complicações junto à ardilosa bruxa: Tendo o prazo de três dias para obter de Eric um beijo de amor verdadeiro –e assim evitar de transformar-se em prisioneira da bruxa –Ariel abre mão justamente do único meio que Eric teria para reconhecê-la; do salvamento, no qual vislumbrou a mulher que deseja desposar, Eric só se recorda de sua voz bela e encantadora!

É a partir desses expedientes –basicamente, os mesmos manejados com habilidade lendária pela animação –que o filme de Rob Marshall se incumbe, adicionando à eles os efeitos visuais de ponta que recriam com fotogenia inacreditável cenários inteiros, cenas de ação alucinantes, além de personagens essenciais, como o caranguejo Sebastião (voz de Daveed Diggs) e o peixe Linguado (voz do garoto Jacob Trambley), embora tais personagens, no realismo animal com que a encenação live-action os materializa, percam sua expressividade da animação. Rob Marshall emprega com iniciativa e propriedade toda sua notória experiência nas sequências musicais (às quais ganham o acréscimo de uma canção exclusiva –e um bocado desnecessária... –para o Príncipe Eric), onde percebemos o talento imenso de Halle Bailey como cantora.

Competência visual e perfeição técnica não são, deveras, os problemas deste longa-metragem, contudo, os live-actions da Disney potencializam ainda mais uma circunstância que sempre incomodou em casos, por exemplo, de refilmagens: A eterna questão se é, de fato, necessária a recriação de uma obra que já soava competente e bem realizada antes. As refilmagens (existentes desde os primórdios do próprio cinema) se provaram válidas em casos, nos quais, uma repaginação técnica, artística e/ou temática tornava relevante a oportunidade de recontar aquelas histórias, no entanto, no caso dos live-actions da Disney, a norma geral, parece ser justamente a preservação dos elementos das obras clássicas como eles são –e tentar fugir desse caminho resulta ainda mais catastrófico, como atestou “Mulan” –o que nos leva à outra questão: Por que refazê-los tendo os ótimos exemplares originais à disposição, a não ser por conta da contumaz e alardeada crise de imaginação do cinema comercial hollywoodiano?

Ao que parece, tão cedo os Estúdios Disney não encontrarão uma resposta...

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Colateral


 Max Durocher (Jamie Foxx, entregando um grande trabalho no mesmo ano em que arrebatou o Oscar de Melhor Ator por “Ray”) é um motorista de táxi de Los Angeles, assalariado em um trabalho que não lhe satisfaz, que vive planejando abandonar, embora no fundo, esteja apenas se enganado; a ocupação ‘temporária’ de taxista já tomou uma década inteira de sua vida! Numa noite desafortunada, ele é coagido por Vincent (Tom Cruise, num compenetrado e eficiente papel de antagonista), um assassino de aluguel, para quem dá carona em seu veículo, a acompanhá-lo e guiá-lo durante toda a noite aos locais da cidade em que deve fazer cada um de seus cinco "serviços".

O pobre motorista está convicto de que seu perigoso passageiro não o deixará terminar a noite vivo, e por isso planeja fazer algo para impedi-lo, e parar com os assassinatos.

Paralelamente, a circunstância em que se torna choffer do assassino leva Max e Vincent a estabelecer uma curiosa relação entre suas próprias perspectivas.

O excelente roteiro de Stuart Beattie chegou a parar nas mãos do brasileiro Fernando Meirelles (de “Cidade de Deus”), que enxergou na premissa um filme de comédia, até ser realizado e conduzido com brilhantismo pelo sempre competente diretor Michael Mann, que dele extraiu um conto espetacular sobre desilusão e urgência.

Para tanto, sua técnica assimilou maneirismos orgânicos das filmagens digitais –que ele empregou também em seu épico de gangsteres “Inimigos Públicos” –criando um expectro de luz e sombra para as filmagens que conferia ao registro da ação uma aura e uma impressão equilibradas entre o documental e o ligeiramente onírico; características que determinam com primor a natureza de sua trama.

Há um esforço tão nítido quanto admirável de Tom Cruise em conceder textura e profundidade reais ao seu primeiro papel de vilão, o que se sobressai, porém, é a magnífica composição de Jamie Foxx que, aliás, concorreu ao Oscar de Coadjuvante.

A dinâmica entre Max e Vincent, nas mãos desses dois grandes atores, no prisma formidável do inspirado roteiro e na condução peculiar e inteligente da direção, acaba sendo muito mais do que um duelo de egos antagônicos que culmina no incontornável embate físico: É também uma observação audaz sobre os vícios da vida moderna, sobre a corrupção que nos rodeia e sobre os empuxos drásticos e inesperados do destino.

Nesse exercício de gêneros sempre impecável que Michael Mann parece realizar a cada filme –mesclando concepções distintas de ação, mas sempre voltando à mesma categoria pela qual é apaixonado, o filme policial –ele vislumbra o cinema, tal como os grandes autores, como um laboratório onde se está em análise e experimentação a própria existência, o fluxo interminável de todas as coisas, transformando com isso uma premissa ameaçada de resultar banal numa obra tão inquisitiva, profunda, crua e reflexiva quanto “Clube da Luta”, de David Fincher.

domingo, 24 de outubro de 2021

DUNA - Primeira Parte


 In Denis Villeneuve we trust

Já era lendária a afirmação de que “Duna”, a obra-prima literária de Frank Herbert, tratava-se de um trabalho impossível de ser adaptado. As tentativas anteriores de transpô-lo para a linguagem cinematográfica (o filme de 1984 de David Lynch, a minissérie do ano 2000, além do projeto jamais concretizado por Alejandro Jodorowsky) soavam mais como confirmações da inviabilidade do material em ser vertido para outra narrativa do que realizações bem-sucedidas de fato.

Todavia, o canadense Denis Villeneuve, que desde sua estréia só fez brilhar em aclamadas produções, tomou para si a responsabilidade de fazer o impossível, depois de sagrar-se com duas espetaculares obras de ficção científica –o magistralmente intimista “A Chegada”, e a continuação audaciosamente superior ao cultuado original “Blade Runner 2049”. Para esta nova e, espera-se, definitiva versão, Villeneuve tomou emprestadas ideias mercadologicamente surgidas a partir da adaptação de “O Senhor dos Anéis”, por Peter Jackson, em 2001: Dividiu o tomo gigantesco de Frank Herbert em dois longa-metragens de generosa duração –a realização da Segunda Parte depende, portanto, do bom desemprenho de público e crítica da Primeira Parte.

“Duna” se passa no ano de 10161. O espaço é um palco de interesses políticos regidos por casas que disputam o poder tal e qual o mais brutal dos sistemas feudais. E o centro da maioria das disputas vem a ser o planeta Arrakis, lugar desértico que gera o produto conhecido como ‘especiaria’ –um pó obtido entre as areias de seus intermináveis desertos, com o qual as viagens interestelares se tornam possíveis.

Por décadas, o domínio e a extração da ‘especiaria’, bem como os atritos selvagens contra os habitantes de Arrakis, o povo do deserto conhecido como os Fremen, ficaram à cargo da Casa Harkonnen, comandada pelo hediondo, grotesco e pernicioso Barão Vladimir Harkonnen (Stellan Skarsgaard) e seu sobrinho Glossu Raban (Dave Bautista, no personagem que foi de Paul L. Smith na versão de David Lynch).

Numa decisão delegada pelo Imperador Galáctico –esta obra, como pode-se notar, foi uma das inspirações de George Lucas para “Star Wars” –o comando de Arrakis passa da Casa Harkonnen para a Casa Atreides.

É aí que entram em cena os protagonistas da trama: O Duque Leto Atreides (Oscar Isaacs), sua esposa Jessica (a maravilhosa Rebecca Fergunson) e, sobretudo, seu filho, Paul (Timothée Chamalet). Sendo Jessica uma integrante das Bene Gesserit, uma casta de feiticeiras imbuídas do dom da premonição, ela e seus pares acreditam que Paul, por sua procedência e por outros indícios que se sucedem (como sonhos nos quais ele vislumbra um futuro bem provável e perigoso), possa ser um messias, esperado há tempos para mudar irreversivelmente a escala de poder.

Dentro do que se propôs, o diretor Villeneuve, só pra variar, realizou um trabalho simplesmente brilhante: Não apenas seu “Duna” ostenta qualidades cinematográficas inquestionáveis em sua grandiosidade (é recomendado que seja visto na maior tela possível tamanho é o deslumbre de seu escopo épico), como também é primorosamente minimalista em seus pequenos detalhes (como os olhos azuis dos Fremen, adquiridos através da exposição à ‘especiaria’) e hiperlativo nas influências que adota: “Duna” é, pois, tão sólido e imponente quanto “Lawrence da Arábia”, tão contundente e estilizado quanto “Kagemusha”, tão antológico e singular quanto “2001-Uma Odisséia No Espaço”.

Esta Primeira Parte fala sobre os fardos da predestinação, sobre os revezes imprevisíveis da ganância e as armadilhas cruéis do idealismo: Uma vez em Arrakis, O Duque Leto Atreides almeja o que seus antecessores jamais cogitaram; uma trégua de convívio e co-existência pacífica com os Fremen. E será justamente por suas nobres intenções que engrenagens insidiosas irão mover uma conspiração capitaneada pelos Harkonnen, algo que proporciona, já na segunda metade deste filme, cenas estupendas de batalha, filmadas por Villeneuve com uma sinergia e um senso de realismo que há algum tempo não surgia em uma obra de fantasia nas telas de cinema. Quem conhece remotamente a trama, seja pelo filme incoerente e corrido de David Lynch, seja pelo conhecimento do enredo do livro de Herbert, perceberá que Villeneuve encerra a narrativa quando a história se encontra na sua metade –ele aproveita esse tempo de tela para fazer tudo o que o filme de Lynch não conseguiu fazê-lo, seja estabelecer a profundidade das inúmeras motivações, seja para compor cenas inteiras do livro com o ritmo e atmosfera corretos assim definidos por Herbert. O resultado não somente é de um assombro que raras produções foram capazes de atingir nos últimos anos, como leva o público a um final em aberto tão instigante, empolgante e magnífico quanto foi o de “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel” e “O Império Contra-Ataca”.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Mar Adentro

Pode à princípio parecer estranha à filmografia de Alejandro Amenábar um drama inspirado em fatos reais –ele que engendrava por premissas quase sempre pinceladas de fantasia como “Preso Na Escuridão”, “Morte Ao Vivo” e “Os Outros”.
Embora “Mar Adentro” represente sim um passo na direção de um cinema mais sério, ele não tarda a mostrar elementos que o aproximam do estilo de seu realizador: Na atuação passional e incontida de Javier Barden, na concepção de cenas plenamente oníricas que estilhaçam a restrição da paralisia de seu protagonista em relação à própria narrativa e na ilustração visual de idas e vindas no tempo, bem como de impressões subjetivas diversas, este trabalho exerce a mesma função de seus anteriores ao abordar a psicologia de seu personagem principal num viés pontuado de imagens absolutamente cinematográficas.
Ramon Sanpedro (Barden, para variar, maravilhoso) foi, até seus vinte e tantos anos, um homem que viveu sua vida plenamente: Viajava para os lugares mais paradisíacos, conhecia pessoas e revelava-se com freqüência alguém de cultura, inteligência e sensibilidade desiguais.
A trajetória de Ramon sofreu uma guinada inesperada e trágica quando ele sofreu um acidente –uma queda drástica e mal-sucedida contra as águas de uma baia –que o levou a viver em estado tetraplégico por cerca de vinte anos, até concluir, não sem alguma amargura, que sua vida, da forma como ele a experimentava, era de uma penitência à qual ele poderia, afinal, dar um fim.
Impelido desse inusitado ideal, Ramon lutou nos tribunais de justiça da Espanha pelo direito de morrer cometendo eutanásia.
“Mar Adento” faz assim a escolha de acompanhar a transformação dos muitos personagens que o cercaram Ramon Sanpedro, evidenciar o modo como ele mostrou a cada um as razões para viver a vida com plenitude, e ao fim como cada um reage a sua luta pelo direito da eutanásia. É menos um drama sobre as agruras existenciais da paralisia e mais um tratado sobre o direito do ser humano às suas próprias convicções, postura embevecida de beleza e encanto cinematográfico que o levou a conquistar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Carne Trêmula

A arrematar este trabalho do espanhol Pedro Almodovar (para muitos, uma de suas melhores obras nos anos 1990) temos duas cenas de parto, uma em seu prólogo, outra em seu epílogo. Vem a ser uma daquelas realizações características de Almodovar nas quais ele não permite que fiquemos indiferentes: “Carne Trêmula” é exultante na análise das mazelas sentimentais ao evidenciá-las como uma fratura exposta, e por conta disso, é uma obra para se amar, ou para se odiar.
Quem sabe esta tenha sido a fase mais resplandecente da carreira de Pedro Almodovar –suas obras imediatamente anteriores à consagração junto ao Oscar por “Tudo Sobre Minha Mãe” –embora também depois tivessem havido trabalhos incontestáveis (“Volver” e “Fale Com Ela” não me deixam mentir). A segunda metade dos anos 1990 parece ter alcançado Almodovar com uma disposição e uma capacidade então inédita para conciliar suas inquietações artísticas com a reciprocidade do circuito comercial.
Assim como em “Ata-Me”, estamos diante de um filme onde o amor e a obsessão (e o triângulo amoroso daí originado) ocupam regiões tão nebulosas que, nas dinâmicas reveladas, se faz difícil distinguir um do outro: Há David, o homem apaixonado e objeto da paixão da mulher (mas, confinado à cadeira de rodas que o faz impraticável para o amor); há Victor, o homem apaixonado injustiçado pelo papel de deflagrador involuntário de todo o drama (e responsável assim pelo outro estar numa cadeira de rodas); e há Elena, a mulher, pivô de toda essa celeuma a definir a dicotomia entre os personagens.
Essa mulher, Elena (a belíssima Francesca Neri) parece ter mexido com a cabeça de Victor (Liberto Rabal), o jovem cujo nascimento testemunhamos no princípio do filme, nos anos 1970 (onde vislumbramos também uma ponta de Penelope Cruz antes da fama mundial).
Passados vinte anos, Victor tenta dar um sentido à sua vida da única forma que compreende ser válida: Trazendo para junto de si seu grande amor, que ele crê ser Elena, a quem ele rastreia em Madri por meios de brilhantes subterfúgios elaborados pelo roteiro de Almodovar.
Quando se encontram, podemos entender a distinção das impressões subjetivas que definem (e desconstroem) o amor no cinema de Almodovar em geral: Para Victor, ela é tudo –sua primeira vez, e por conseguinte, o amor de sua vida. Para Elena, ele não é nada –ela mal se recorda do interlúdio com ele o qual enxergou como uma relação casual (!).
Galgando a situação para um cenário passional inerente aos arroubos espanhóis, Elena e Victor chegam a lutar por uma arma de fogo quando ela deduz que ele, em sua insistência, passou dos limites. Policiais são chamados –o honrado David (vivido por Javier Barden, a outra ponta desse triângulo amoroso) e seu dúbio parceiro Sancho (José Sancho).
Na confusão que se segue, David termina baleado e paralítico –o que leva Elena a viver com ele alimentando uma espécie de amor platônico baseado na gratidão –enquanto Victor é condenado a seis anos de prisão.
Quando esse tempo passa e Victor é posto em liberdade, o diretor rearranja as relações dos personagens, modificando mais uma vez suas dinâmicas em sua notável inquietude sentimental.
Almodovar impõe a si próprio aqui um desafio consideravelmente maior que em seus outros trabalhos normalmente mais amenos e básicos do ponto de vista da elaboração da premissa, incluindo seu oscarizado “Tudo Sobre Minha Mãe”: Tão embevecidas de complexidade são as relações que se estabelecem entre os personagens que nem conseguimos presumir para qual intento deverá pender sua notória capacidade de manipulação.
Parte de “Carne Trêmula” é composto por fetiches minuciosos como a disputa velada de virilidades entre os protagonistas (numa contradição brilhante que opõe um macho alfa inválido à um garoto sexualmente funcional, mas relutante e assustado) e, sobretudo, o elemento que mais agrada Almodovar (e que ele dedicou muitos de seus trabalhos a contemplar), o protagonista falho e imperfeito, representativo dos piores lapsos até, mas, que no contexto e na circunstância que se constroem encontra meios de ser o amante heróico, o príncipe encantado.
Dentre todas as transgressões visuais e temáticas atribuídas à Almodovar (todas bem mais evidentes) é essa (muito mais sutil) à qual ele parece dar mais apreço.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Mãe!

O grande problema que este filme enfrentou foi o fato do público equivocadamente deduzir que um filme reflete a sua atriz. Explico: Ao ver Jennifer Lawrence, a protagonista, nos trailers e nos pôsteres, muitos (a grande maioria, seus fãs) acharam que encontrariam um trabalho comercial, nos moldes daqueles com os quais se acostumaram a vê-la, leia-se, a série “Jogos Vorazes”, ou a série “X-Men”.
Não podiam estar mais errados: “Mãe!” –como, aliás, todo e qualquer filme –reflete, sim, a personalidade e o estilo de seu diretor, Daren Aronofsky, e como todos os seus trabalhos ele é pontuado por inconformismo, por suas próprias obsessões pessoais (que vão desde metáforas de natureza artística até impressões de conotações bíblicas) e por uma amplitude de interpretação que transforma o filme numa das obras mais instigantes e desafiadoras do ano.
Jennifer interpreta a jovem e dedicada dona de casa numa mansão ambientada no que parece ser o centro de uma longínqua floresta. Javier Bardem vive seu marido, um poeta transtornado por um poderoso bloqueio criativo. O início do filme sugere a renovação de um ciclo: Através de um misterioso cristal, Bardem refaz uma casa em chamas.
Surge a personagem de Jennifer nessa casa restaurada.
Negando aos protagonistas –e aos coadjuvantes também –qualquer nome que seja, o roteiro de Aronofsky reforça sua natureza alegórica. Seria Jennifer Lawrence a Mãe-Terra? Seria Javier Bardem a representação de Deus?
Provavelmente. Sobretudo, se levarmos em conta o peso referencial e dramático que as noções bíblicas e teológicas possuem na obra de Aronofsky. A iniciar esses percalços que refazem o Velho Testamento –mas, não apenas isso –de maneira artisticamente decodificada, o casal recebe uma visita. Um médico (Ed Harris). Fã declarado do trabalho do poeta, ele vai adentrando a casa, lisonjeando o marido com sua escancarada devoção e afrontando a jovem esposa com seu desleixo.
A indiferença do marido, que dilacerava a jovem, só se acentua com isso.
Tudo irá piorar.
Na manhã seguinte chega a esposa (Michele Pfeiffer). Intrusiva, hostil, arrogante, ela é tão importuna e inconveniente quanto potencialmente perigosa e francamente ameaçadora. Ambos são imersos em vícios: Ele tosse o tempo todo devido ao hábito tabagista (e além de tudo bebe); ela é lasciva, despudorada na ostentação da volúpia que mantém com o marido. Ambos são pois Adão e Eva –até mesmo a cicatriz da costela extraída ele possui –e, como na Bíblia, são apenas o início de todo o caos que virá com a humanidade: Logo, aparecem Caim e Abel (Domhnall e Brian Gleeson, irmãos na vida real) culminando na morte do segundo pelas mãos do primeiro.
Todos eles (e outros mais) partem após um incidente com uma pia que alaga a cozinha e leva a jovem esposa ao limite –uma analogia envolvendo derramamento de água que remete ao dilúvio e à parábola da Arca tão bem ilustrada, à propósito, pelo próprio Aronofsky em “Noé”.
Segue-se um período de tranqüilidade durante o qual a jovem engravida e o marido tem um lampejo de inspiração que o faz escrever seu primeiro poema.
Entretanto, com esse poema virão adoradores (profetas?) e diversos seguidores fanáticos que irão deturpar as palavras do poeta em prol de seus próprios interesses. Ele aceita a invasão de sua casa e a destruição de seus bens materiais em troca da devoção cega que o embriaga e o satisfaz. Ela desespera-se com crescendo incontrolável da depredação –como fez em “Cisne Negro”, Aronofsky confronta sua personagem principal (numa atuação esplêndida de Jennifer Lawrence) com toda sorte de exuberantes perversidades sugeridas em sua narrativa: A própria turba que invade a casa se divide e entra em conflito (as doutrinas e ideologias que levam o ser humano à guerra) enquanto a jovem grávida se vê aflita e acuada.
O marido está sempre ali por perto, mas, sua displicência, sua indiferença, sua conivência com os atos abusivos e seu êxtase pela aclamação o tornam perigosamente ausente.
A criança então nasce (Jesus?) e num momento de descuido da mãe, a multidão o toma num dos mais desconcertantes momentos do cinema em 2017. Certamente, houve a intenção de Aronofsky em emular Lars Von Trier nesta obra: A protagonista, as escolhas visuais e os rumos metafóricos adotados pelo enredo são característicos, ainda que seja bastante provável que o diretor dinamarquês, em sua intransigência, carregaria ainda mais no teor chocante dos vinte minutos finais.
O que Aronofsky fez, contudo, bastou para que “Mãe!” se tornasse um dos trabalhos mais controversos da temporada.

sábado, 4 de novembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2008

A consagração (até tardia, uns podem afirmar) dos Irmãos Coen, chegando justamente por uma de suas obras-primas, um filme francamente superior a todos os outros concorrentes.
A cerimônia também revelou a espetacular francesa Marion Cotillard aos olhos do mundo e de Hollywood: Muitos devem ter ficado surpresos quando ela ganhou o Oscar de Melhor Atriz e subiu ao palco revelando-se uma mulher tão jovem e linda, completamente diferente do que se vê em seu impressionante trabalho em “Piaf-Um Hino Ao Amor”.
Não dava mesmo para negar o Oscar de Melhor Ator para Daniel Day-Lewis (o segundo dos três que ele já conquistou) e nem o de Melhor Coadjuvante para Javier Barden.
Ainda sobraram alguns prêmios para reconhecer um dos melhores trabalhos do ano, “O Ultimato Bourne”, o magistral fim da trilogia, agraciado com três estatuetas técnicas.
Mas, a marmelada da noite parece ter sido por conta do prêmio de efeitos visuais, conquistado não por “Transformers”, o franco favorito, mas pelo equivocado e tímido “A Bússola de Ouro”.

MELHOR FILME

MELHOR DIREÇÃO
"Onde Os Fracos Não Têm Vez", Joel e Ethan Coen

MELHOR ATRIZ
Marion Cotillard, "Piaf-Um Hino Ao Amor"

MELHOR ATOR
Daniel Day-Lewis, "Sangue Negro"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Tilda Swinton, "Conduta de Risco"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Javier Barden, "Onde Os Fracos Não Têm Vez"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Sangue Negro"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Taxi Para A Escuridão"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Freeheld"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Os Falsários" (Áustria)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"O Ultimato Bourne"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"A Bússola de Ouro"

MELHOR MAQUIAGEM
"Piaf-Um Hino Ao Amor"

MELHOR FIGURINO
"Elizabeth-A Era de Ouro"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"O Ultimato Bourne"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Sweeney Todd-O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet"

MELHOR TRILHA SONORA

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Falling Slowly", de "Apenas Uma Vez"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Juno"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Onde Os Fracos Não Têm Vez"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Ratatouille"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Peter e O Lobo"

MELHOR MONTAGEM
"O Ultimato Bourne"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Le Mozart dês Pickpockets”

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Piratas do Caribe - A Vingança de Salazar

Há diversos méritos que sobrepõem este filme acima do anterior, “Navegando Em Águas Misteriosas”, em termos de qualidade: O roteiro que encontra meios até inventivos de relacionar sua trama à história contada nos três primeiros filmes da franquia; a mocinha com muito mais carisma e motivação vivida por Kaya Scodelario (na verdade, nesse detalhe este filme supera todos os demais!); e a duração, mais curta e enxuta (embora o filme ainda se estenda para além das duas horas de metragem).
Infelizmente, este filme também tem lá seus deméritos, oriundos principalmente dos trejeitos indissociáveis que a saga adquiriu desde seu início, e que se repetem com impressão deliberada neste quinto exemplar.
O Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp, cujo personagem perdeu um pouco do protagonismo devido aos abalos pessoais na carreira) agora é procurado por Henry Turner (Brenton Thwaites, de “Deuses doEgito”), rapaz determinado à quebrar a maldição que impede seu pai de regressar para terra firme e viver em família –sim, ele é filho de Will Turner (Orlando Bloom) transformado no capitão imortal do navio “Holandês Voador” ao final de “No Fim do Mundo”!
O único meio de quebrar a maldição (na verdade, de quebrar todas as maldições) é encontrando o Tridente de Poseidon –e é aí que torna-se necessário encontrar Jack Sparrow, ou melhor, sua bússola mágica com a qual é possível achar tal artefato.
Três personagens irão cruzar-se com eles no percurso de sua aventura: A jovem e bela Carina Smith (Kaya), dedicada estudiosa de astronomia (e sintomaticamente confundida com uma bruxa pelos numerosos ignorantes da época); o capitão Barbosa (Geoffrey Rush, com freqüência tão bom, ou melhor, que o próprio Johnny Depp em cena), que desde “AMaldição do Pérola Negra” vive uma relação de inimizade e aliança constante com Sparrow; e o fantasmagórico Capitão Salazar (o espanhol Javier Barden), o providencial vilão sobrenatural deste filme cuja origem é profundamente relacionada à do próprio Jack Sparrow –o qual, à propósito, ele anseia encontrar para concretizar sua vingança.
E ainda no terreno das participações luxuosas, temos uma breve (e consideravelmente aleatória) aparição de Paul McCartney como tio de Jack Sparrow, espelhando a participação especial (bem melhor) de Keith Richards em alguns dos filmes anteriores.
Os diretores Joachim Rønning e Espen Sandberg (realizadores de “A Aventura de Kon-Tiki”, produção norueguesa indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012) buscam, portanto, uma sutil diferenciação de seu trabalho em relação ao de Gore Verbinski (diretor dos três primeiros) e de Rob Marshall (do quarto), no que são, em sua maior parte do tempo, mau sucedidos, esmagados pela convenção de fazer desta uma obra tão homogênea quanto as outras. Eles ocasionalmente introduzem novas e inventivas percepções acerca de uma aventura em alto-mar, traduzidas em enquadramentos inesperados, numa fluidez quase de desenho animado (mais perceptível na primeira metade, debilitada na segunda) e numa identidade visual peculiar em relação aos demais filmes, embora não consigam evitar nem o fato de que as mesmas repetições de premissa e artimanhas rocambolescas permanecem todas lá, nem a falta de traquejo deles próprios para conduzir o humor das cenas cômicas ou a falta de experiência para administrar o ritmo e a continuidade de uma superprodução.

No frigir dos ovos é um trabalho superior ao último filme, o mais fraco da série até então, mas está longe de ter frescor e o sabor de novidade dos três primeiros exemplares, uma tendência que infelizmente deve se tornar o principal calcanhar de Aquiles da franquia daqui para frente.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Vicky Cristina Barcelona

O celebrado autor de cinema Woody Allen vinha de uma seqüência pouco frutífera de filmes realmente memoráveis na década de 1990 –e que adentrou alguns anos na década de 2000 –quando a maré começou a mudar e seu ímpeto criativo voltou com trágico suspense, carregado de aspectos de Dostoievski, “Match Point”, ambientado em Londres.
Ao mesmo tempo, parecia que ele havia descoberto uma nova musa: A formidável Scarlett Johansson, com quem depois fez o gracioso “Scoop-O Grande Furo” e este “Vicky Cristina Barcelona” –entre esses dois últimos ele ainda entregou o pouco conhecido suspense “O Sonho de Cassandra”.
Numa de suas premissas mais leves e descontraídas nos últimos tempos, Allen acompanha duas amigas norte-americanas de personalidades e temperamentos opostos que vão passar suas férias em Barcelona, na Espanha (e parecia ser também uma espécie de novo método criativo de Allen,na época, eleger cidades específicas como cenário de seus novos filmes, afastando-se –apenas por algum tempo –de sua tão adorada Nova York).
Vicky (Scarlett Johansson, perfeita e sensual como sempre, em sua terceira colaboração com o diretor) enxerga a viagem como uma forma de aproveitar a vida em toda sua plenitude, o quê inclui a possibilidade de alguns excessos. Já, Cristina (Rebecca Hall, atriz mais conhecida em teatro, que revela-se uma grata surpresa) sob o pretexto de acompanhar a amiga em seus percalços, evita as vicissitudes como forma de enfatizar sua virtude, lembrando o tempo todo que está noiva e de casamento marcado.
As duas acabam por se envolver com um sedutor artista plástico (o ótimo Javier Barden, recém-saído do oscarizado “Onde Os Fracos Não Têm Vez”) e seus sucessivos contratempos com sua tempestuosa ex-esposa (Penélope Cruz, nunca menos que sensacional no filme que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante).
Woody Allen entrega mais uma de suas teses do relacionamento de homens e mulheres, recheadas de sarcasmo e observações espirituosas. Ele utiliza os expedientes de sempre para o seu filme mais gracioso e simpático desde "Desconstruindo Harry" (pelos menos até realizar, alguns anos mais tarde, o maravilhoso “Meia Noite em Paris”), amparado, como de hábito, na maestria de um elenco brilhante.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O Amor Nos Tempos Do Cólera

Há um esforço nítido, até louvável, do diretor Mike Newell em transpor a prosa minimalista, colorida e vívida de Gabriel Garcia Marquez para a tela do cinema.
Esse é, desde já, um objetivo fadado ao fracasso, ou como seria mais justo neste caso específico, fadado a uma incongruente irrelevância em sua graciosidade.
A verve de Garcia Marquez é única e inimitável. Adaptá-la para outra mídia, então, uma ingrata tarefa. Prova disso, é o pouco conhecido e mediano (ainda que profundamente falho) "Ninguém Escreve Ao Capitão". Que o trabalho de adaptação da obra seja de uma fidelidade quase religiosa é algo de se esperar nesse esmero tão engajado.
O filme não poupa seus personagens. Apesar do clima incontornavelmente fantasioso que é inerente à Garcia Marquez, esse surrealismo não lhes alivia a barra: À eles está destinada toda sorte de frustrações, humilhações e desilusões que competem à condição humana. Embora a trama não lhes negue (no caso do casal protagonista) alguma redenção.
Na história, vemos o amor entre Florentino (Javier Bardem, sempre muito bom) e Fermina (a linda Giovanna Mezzogiorno) ser tolhido -e interrompido por uns bons cinquenta anos! -pelo pai da jovem, em prol do médido recém-chegado à aldeia. A amargura do protagonista acaba sendo também o que lhe afasta do mundo e das necessidades mundanas, pelo menos, a partir do momento em que ele descobre o encanto das mulheres que se entregam à ele (e as cenas subsequentes não economizam na beleza e na nudez delas), embora seu coração jamais deixe de querer mesmo Fermina.
E essa questão -a de se ter demais algo, em contraponto ao que se anseia sem nunca obter -é o drama que aflige o filme, o norte para o qual sua bússola apontará do primeiro ao último minuto.
Tal qual convêm ao romantismo rasgado que remete ao livro (e que remete, por sua vez, à 'latinidad' de seu autor), anos se transcorrerão com os personagens a padecer nessa expectativa de amor.
Que tudo seja amarrado com saborosa fluidez, é um dado que vem a amenizar uma possível desolação advinda disso, cortesia do indisfarçável timbre comercial do diretor Newell (artesão dos mais ecléticos tendo realizados obras desde a comédia "Quatro Casamentos e Um Funeral" até produções como "Harry Potter e O Cálice de Fogo").
Outro deleite é poder conferir Fernanda Montenegro numa produção internacional, embora muitos digam (com certa razão) que ela está sub-aproveitada.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

007 Operação Skyfall

O início deste primordial "Operação Skyfall' registra uma missão fracassada (além de já colocar, nítidas na mesa, a paixão e a adoração do diretor Sam Mendes pelas características mais intrinsecas que fizeram o ícone de James Bond).
Ao tentar neutralizar um espião inimigo, Bond acaba se prejudicando com o erro humano de seus colegas agentes de campo (e, de uma certa maneira com a impessoalidade e a indiferença cruel de sua chefe no Serviço Secreto, M, magnificamente interpretada por Judi Dench), o que lhe deixou dolorosas seqüelas.
No entanto, após um atentado terrorista até então inconcebível, o agente britânico é chamado de volta à ativa para rastrear um ex-agente que vem dando muito trabalho ao MI-6 em geral, e à sua chefe M em particular.
Uma vez que esse ex-agente, Silva (o formidável Javier Barden), é motivado pela vingança por ter sido deixado de lado pelo Serviço Secreto no passado, a relação entre ele e Bond (que percebe estar numa situação muito semelhante à que Silva também esteve) torna-se estranhamente ambígua. 
Terceiro filme de Daniel Craig no papel (antecedido pelo brilhante "Cassino Royale" e pelo mediano "Quantum Of Solace") e o primeiro dirigido pelo ganhador do Oscar, Sam Mendes (de “Beleza Americana”), o mesmo que realizou o novo “007 Contra Spectre”. 
A despeito dos ótimos filmes estrelados por Sean Connery, e de alguns bons exemplares com Roger Moore, este é o melhor já realizado na franquia 007. O diretor Sam Mendes retoma questões envolvendo a origem de Bond (assim como paradigmas que definiram a própria série) com uma perspicácia eletrizante para com a história e as cenas de ação.

sábado, 10 de outubro de 2015

Onde Os Fracos Não Têm Vez

A violência é um elemento por meio do qual os personagens nos filmes dos Irmãos Coen definem e determinam o mundo ao qual tentam se adaptar.
Dentre todos os seus filmes, talvez, aquele que recebe uma maior ênfase na violência é este “Onde Os Fracos Não Têm Vez” –ela aparece intensa e incontornável como eles não o faziam desde “Gosto de Sangue”, e este é só um dos principais elementos notáveis nesta primorosa adaptação de Cormack McCarthy.
Pouco a pouco percebemos que no meio-oeste norte-americano, um texano comum encontra por acaso uma mala cheia de dinheiro entre vários cadáveres do que parece ter sido uma negociação de drogas que deu errado. Ingenuamente ele resolve esconder o dinheiro, mas logo surgem pessoas atrás dele. Em seu encalço está um frio assassino de aluguel que deixa um rastro de morte por onde passa. Atrás de todos eles e buscando encontrar um significado por trás de tudo, está um xerife veterano em vias de se aposentar. Vencedor de 6 Oscars em 2007, incluindo os prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção, este poderoso trabalho reafirma o talento hiperlativo dos Irmãos Coen, sua condução da trama é um dos muitos fatores que mantém um insuspeito fascínio no filme: Não acompanhamos exatamente uma história, mas uma sucessão de cenas que nos obrigam, sistematicamente, a "pescar" a história em meio ao que vai se passando.
Nesse contexto, o trabalho do elenco é de uma importância inqualificável: Josh Brolin é uma grata surpresa, e Tommy Lee Jones parece ter nascido para interpretar o veterano xerife. Porém, é necessário separar um parágrafo inclusivo para o terceiro protagonista.
No papel de Anton Chigurt, o espanhol Javier Barden compõe uma figura assustadora, ligeiramente irreal com aquele corte de cabelo que tanto remete à outras maluquices dos Coen, e que no fim serve a propósitos mais alegóricos do filme. Sendo o personagem menos humanizado é totalmente irônico que tenha sido o único premiado do elenco (Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2007, além de uma penca de outros prêmios), e algo ainda mais indicativo da imensa perícia dos Irmãos Coen que realizam aqui um estudo sobre a violência e suas sérias implicações no mundo e na sociedade, por meio do olhar cansado daquele velho xerife, numa vã tentativa de entender a inospicidade dos novos tempos.