Mostrando postagens com marcador Pedro Almodóvar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pedro Almodóvar. Mostrar todas as postagens

sábado, 18 de outubro de 2025

Na Cama Com Madonna


 No início dos anos 1990, Madonna era uma artista indomada e implacável: Em 1992, ela havia lançado simultaneamente o ousado livro de fotos “Sex”, o álbum “Erotica” e o longa-metragem “Corpo em Evidência”. Um ano antes, esse ciclo de ousadia destinado a chacoalhar as bases de pudor do showbizz já havia se iniciado com o documentário “Na Cama Com Madonna” –ou, no original, “Madonna-Truth Or Dare”.

Dirigido por Alek Keshishian (realizador com certa experiência em videoclipes), “Na Cama Com Madonna” foi lançado fora de competição no Festival de Cannes 1991, onde iniciou sua escandalosa e inovadora trajetória no circuito comercial. Sua estrutura narrativa intercala basicamente a parte documental, depoimentos e bastidores (filmada em preto & branco com câmeras de 16 mm) com o registro das apresentações musicais do show “Blonde Ambition” (filmado, por sua vez, em cores com diversas câmeras de 35 mm), contudo, em sua proposta, o filme revelou-se ousado: Nunca antes um documentário havia exposto a intimidade de uma artista famosa com tanta contundência e de forma tão deliberada, ao flagrar momentos de tensão, crises íntimas e outros conflitos.

Na esteira da turnê “Blonde Ambition” –transcorrida no segundo semestre do ano de 1990, pelo Japão, Europa, EUA, e Canadá –acompanhamos os percalços pessoais, profissionais e familiares da pop-star Madonna, bem como fortes indícios de sua irredutível personalidade: Produzido com perfeccionismo quase obcecado por sua estrela (todos os modelos usados por ela na turnê foram criados pelo estilista Jean-Paul Gaultier!), o show serve como veículo para mostrar um panorama bastante expositivo de sua vida pessoal; o namoro de então com o astro Warren Beatty (com quem ela trabalhou em “Dick Tracy”); a maneira fria e sardônica com que trata as pessoas do showbizz (exemplo disso é o rude desdém para com Kevin Costner); suas opiniões polêmicas sobre sexo, religião e comportamento; a estreita ligação com o mundo homossexual de seus bailarinos; o relacionamento conturbado com o pai e o irmão; a festa na casa de Pedro Almodóvar e a paquera frustrada com Antonio Banderas (com quem trabalharia anos mais tarde no filme “Evita”); a insegurança durante a apresentação em Detroit, com os amigos de infância; a controvérsia gerada pela famosa cena em que simula um orgasmo na cama ao som de “Like A Virgin”, e várias outras revelações.

Com um custo de aproximadamente 4 milhões de dólares, “Na Cama Com Madonna” foi um notável sucesso de bilheteria, sintomático do fascínio que uma estrela como Madonna era capaz de suscitar graças às suas polêmicas e ousadias –ele permaneceu sendo o documentário de maior rentabilidade na história do cinema até 2002, quando foi tirado desse posto por “Tiros em Columbine”, de Michael Moore.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Indicados Ao Oscar 2020

E está dada a largada ao que ainda é considerado o grande prêmio do cinema:

Melhor Filme
1917
Adoráveis Mulheres
Coringa
Era Uma Vez em... Hollywood
Ford vs Ferrari
História de Um Casamento
O Irlandês
Jojo Rabbit
Parasita

“Coringa” lidera o número de indicações, com 11, seguido por “Era Uma Vez em... Hollywood” e “O Irlandês”, com 10 cada, contudo, há tempos que o número de indicações não quer dizer favoritismo na premiação –colocando as demais premiações em perspectiva, muito se aposta na obra de Quentin Tarantino que parece usufruir de fatores muito favoráveis junto ao prêmio.
E que felicidade é ver “Parasita” gozando de tantas honrarias!

Melhor Atriz
Scarlet Johansson – História de Um Casamento
Renée Zellweger – Judy-Muito Além do Arco-Íris
Charlize Theron – O Escândalo
Saoirse Ronan – Adoráveis Mulheres
Cynthia Erivo – Harriet

Melhor Ator
Joaquin Phoenix – Coringa
Adam Driver – História de Um Casamento
Antonio Banderas – Dor e Glória
Jonathan Pryce – Dois Papas
Leonardo DiCaprio – Era Uma Vez em... Hollywood

Os favoritos: Renée Zellweger e Joaquin Phoenix, sem discussão!
Quem pode ameçar a supremacia de cada um deles é, respectivamente, Charlize Theron e Adam Driver.
A inclusão de Antonio Banderas entre os melhores atores é certamente uma daquelas alegrias que vez ou outra o Oscar nos proporciona; pena elas não serem mais frequentes...

Melhor Atriz Coadjuvante
Laura Dern – História de Um Casamento
Margot Robbie – O Escândalo
Scarlett Johansson – Jojo Rabbit
Florence Pugh – Adoráveis Mulheres
Kathy Bates – Richard Jewell

Melhor Ator Coadjuvante
Brad Pitt – Era Uma Vez em... Hollywood
Anthony Hopkins – Dois Papas
Tom Hanks – Um Lindo Dia na Vizinhança
Al Pacino – O Irlandês
Joe Pesci – O Irlandês

Antes de falar sobre os possíveis ganhadores, deixem-me expressar minha felicidade pela dupla indicação de Scarlett Johansson, na categoria principal (por “História de Um Casamento”) e na de coadjuvante pelo belo trabalho de Taika Waikiki; demorou para que a Academia reconhecesse seu já comprovado talento, acima da linda mulher (e símbolo sexual) que ela é, mas quando o fez, foi com pompa e circunstância!
Como no Globo de Ouro, as presenças de Al Pacino e Joe Pesci (com destaque para o segundo) parecem ameaçar tremendamente o favoritismo de Brad Pitt que vem (merecidamente) se consolidando ao longo da temporada. Eu prefiro (inclusive em outras categorias!) infinitamente mais a homenagem esperta e camarada de Tarantino à Hollywood do que o estudo sobre o tempo, o envelhecimento e a resiliência conduzido por Scorsese. Entre as atrizes coadjuvantes, a bela surpresa na inclusão de Kathy Bates, Margot Robbie e Florence Pugh não tira a liderança nas apostas de Laura Dern, vencedora em praticamente todos os prêmios que disputou até agora –este parece ser o ano da musa de David Lynch!

Melhor Diretor
Martin Scorsese – O Irlandês
Quentin Tarantino – Era Uma Vez em... Hollywood
Sam Mendes – 1917
Bong Joon Ho – Parasita
Todd Phillips – Coringa

Melhor Roteiro Original
História de Um Casamento – Noah Baumbach
Era Uma Vez em... Hollywood – Quentin Tarantino
Parasita – Bong Joon Ho, Han Jin Won (História por Bon Joon Ho)
Entre Facas e Segredos – Rian Johnson
1917 – Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns

Melhor Roteiro Adaptado
Jojo Rabbit – Taika Waititi
O Irlandês – Steven Zaillian
Dois Papas – Anthony McCarten
Coringa – Todd Phillips e Scott Silver
Adoráveis Mulheres – Greta Gerwig

Um prazer ver Bong Joon-Ho e seu “Parasita” em tantas categorias, é bem provável que todas essas indicações se concretizem no único prêmio de Filme Estrangeiro, mas já está bom demais!
Com Scorsese perdendo terreno na temporada de prêmios, é de se imaginar o Oscar de Melhor Diretor ficando mesmo entre Sam Mendes (até então o favorito) e Quentin Tarantino, que deve mesmo prevalecer na categoria de Roteiro Original.
Já, entre os roteiros adaptados, “O irlandês” deve competir direto com a delicadeza e qualidade de “Adoráveis Mulheres” –e com o imenso apreço que a Academia parece nutrir pelas obras de Greta Gerwig –e com a larga aceitação de púlbico e crítica de “Coringa”, fatores que podem influenciar numa categoria sem tantos favoritos como esta.

Melhor Figurino
Jojo Rabbit
Era Uma Vez em... Hollywood
O Irlandês
Coringa
Adoráveis Mulheres

Melhor Maquiagem & Cabelo
O Escândalo
Coringa
Judy-Muito Além do Arco-Íris
Malévola-Dona do Mal
1917

Melhor Direção de Arte
Era Uma Vez em... Hollywood
1917
Jojo Rabbit
O Irlandês
Parasita

Melhor Trilha Sonora Original
Coringa
Adoráveis Mulheres
História de um Casamento
1917
Star Wars-A Ascensão Skywalker

Melhor Canção Original
“I’m Standing With You” de Superação-O Milagre da Fé
“Into the Unknown” de Frozen 2
“Stand Up” de Harriet
“(I’m Gonna) Love Me Again” de Rocketman
“I Can’t Let You Throw Yourself Away” de Toy Story 4

Melhor Fotografia
1917
Coringa
O Irlandês
O Farol
Era Uma Vez em... Hollywood

Melhor Montagem
O Irlandês
Ford vs Ferrari
Coringa
Jojo Rabbit
Parasita

Melhor Edição de Som
1917
Coringa
Ford vs Ferrari
Star Wars-A Ascensão Skywalker
Era Uma Vez em... Hollywood

Melhor Mixagem de Som
Coringa
Ad Astra
1917
Ford vs Ferrari
Era Uma Vez em... Hollywood

Melhores Efeitos Visuais
Vingadores-Ultimato
O Irlandês
O Rei Leão
1917
Star Wars-A Ascensão Skywalker

De modo geral, as categorias técnicas têm, em “1917”, seu grande favorito –até mesmo em efeitos visuais, onde se destaca o fenômeno “Vingadores-Ultimato”.
Entre surpresas de última hora (“Ad Astra” em Mixagem de Som e “O Farol” em Fotografia) e esnobadas intrigantes (sobretudo, a ausência de “Era Uma Vez em... Hollywood” em Melhor Montagem, vaga que provavelmente ficou com “Ford vs Ferrari”), temos “Rocketman”, cujo favoritismo em Melhor Canção Original terá de compensar seu esquecimento em praticamente todas as outras categorias.

Melhor Documentário
Democracia em Vertigem
American Factory
The Cave
For Sama
Honeyland

Melhor Animação
Toy Story 4
I Lost My Body
Link Perdido
Como Treinar Seu Dragão 3
Klaus

Melhor Filme Estrangeiro
Honeyland – Macedônia
Corpus Christi – Polônia
Parasita – Coreia do Sul
Les Misérables – França
Dor e Glória – Espanha

Como é até habitual, a Academia reconhece o valor do cinema brasileiro com mais frequência entre os documentários –e este ano, é “Democracia em Vertigem” que ganha a honraria –entre as animações, a grande surpresa foi a ausência de “Frozen 2”, que restrige ao peso-pesado “Toy Story 4” a tarefa de superar a súbita preferência nas premiações conquistada (sem muito mérito) por “Link Perdido” e (com largo merecimento) por “Klaus”.
Já, o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro já tem dono, embora seja sempre bacana ver uma obra de Pedro Almodovar reiterar a relevância do diretor espanhol: Será o absurdo dos absurdos se a Academia negar esse Oscar ao sul-coreano “Parasita”.

Melhor Curta Animado
Dcera (Daughter)
Hair Love
Kitbull
Memorable
Sister

Melhor Curta em Documentário
In the Absence
Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)
A Vida em Mim
St. Louis Superman
Walk Run Cha-Cha

Melhor Curta em Live-Action
Brotherhood
Nefta Football Club
The Neighbors’ Window
Saria
A Sister

A confirmação dos favoritos ou a invalidação das maiores apostas se dará no dia 9 de fevereiro, na 92ª Cerimônia do Oscar, a ser realizada no Teatro Dolby, em Los Angeles.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Carne Trêmula

A arrematar este trabalho do espanhol Pedro Almodovar (para muitos, uma de suas melhores obras nos anos 1990) temos duas cenas de parto, uma em seu prólogo, outra em seu epílogo. Vem a ser uma daquelas realizações características de Almodovar nas quais ele não permite que fiquemos indiferentes: “Carne Trêmula” é exultante na análise das mazelas sentimentais ao evidenciá-las como uma fratura exposta, e por conta disso, é uma obra para se amar, ou para se odiar.
Quem sabe esta tenha sido a fase mais resplandecente da carreira de Pedro Almodovar –suas obras imediatamente anteriores à consagração junto ao Oscar por “Tudo Sobre Minha Mãe” –embora também depois tivessem havido trabalhos incontestáveis (“Volver” e “Fale Com Ela” não me deixam mentir). A segunda metade dos anos 1990 parece ter alcançado Almodovar com uma disposição e uma capacidade então inédita para conciliar suas inquietações artísticas com a reciprocidade do circuito comercial.
Assim como em “Ata-Me”, estamos diante de um filme onde o amor e a obsessão (e o triângulo amoroso daí originado) ocupam regiões tão nebulosas que, nas dinâmicas reveladas, se faz difícil distinguir um do outro: Há David, o homem apaixonado e objeto da paixão da mulher (mas, confinado à cadeira de rodas que o faz impraticável para o amor); há Victor, o homem apaixonado injustiçado pelo papel de deflagrador involuntário de todo o drama (e responsável assim pelo outro estar numa cadeira de rodas); e há Elena, a mulher, pivô de toda essa celeuma a definir a dicotomia entre os personagens.
Essa mulher, Elena (a belíssima Francesca Neri) parece ter mexido com a cabeça de Victor (Liberto Rabal), o jovem cujo nascimento testemunhamos no princípio do filme, nos anos 1970 (onde vislumbramos também uma ponta de Penelope Cruz antes da fama mundial).
Passados vinte anos, Victor tenta dar um sentido à sua vida da única forma que compreende ser válida: Trazendo para junto de si seu grande amor, que ele crê ser Elena, a quem ele rastreia em Madri por meios de brilhantes subterfúgios elaborados pelo roteiro de Almodovar.
Quando se encontram, podemos entender a distinção das impressões subjetivas que definem (e desconstroem) o amor no cinema de Almodovar em geral: Para Victor, ela é tudo –sua primeira vez, e por conseguinte, o amor de sua vida. Para Elena, ele não é nada –ela mal se recorda do interlúdio com ele o qual enxergou como uma relação casual (!).
Galgando a situação para um cenário passional inerente aos arroubos espanhóis, Elena e Victor chegam a lutar por uma arma de fogo quando ela deduz que ele, em sua insistência, passou dos limites. Policiais são chamados –o honrado David (vivido por Javier Barden, a outra ponta desse triângulo amoroso) e seu dúbio parceiro Sancho (José Sancho).
Na confusão que se segue, David termina baleado e paralítico –o que leva Elena a viver com ele alimentando uma espécie de amor platônico baseado na gratidão –enquanto Victor é condenado a seis anos de prisão.
Quando esse tempo passa e Victor é posto em liberdade, o diretor rearranja as relações dos personagens, modificando mais uma vez suas dinâmicas em sua notável inquietude sentimental.
Almodovar impõe a si próprio aqui um desafio consideravelmente maior que em seus outros trabalhos normalmente mais amenos e básicos do ponto de vista da elaboração da premissa, incluindo seu oscarizado “Tudo Sobre Minha Mãe”: Tão embevecidas de complexidade são as relações que se estabelecem entre os personagens que nem conseguimos presumir para qual intento deverá pender sua notória capacidade de manipulação.
Parte de “Carne Trêmula” é composto por fetiches minuciosos como a disputa velada de virilidades entre os protagonistas (numa contradição brilhante que opõe um macho alfa inválido à um garoto sexualmente funcional, mas relutante e assustado) e, sobretudo, o elemento que mais agrada Almodovar (e que ele dedicou muitos de seus trabalhos a contemplar), o protagonista falho e imperfeito, representativo dos piores lapsos até, mas, que no contexto e na circunstância que se constroem encontra meios de ser o amante heróico, o príncipe encantado.
Dentre todas as transgressões visuais e temáticas atribuídas à Almodovar (todas bem mais evidentes) é essa (muito mais sutil) à qual ele parece dar mais apreço.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Abraços Partidos


Harry Caine (Lluis Homar) é um deficiente visual. Sua cegueira, no entanto, não impede seu sucesso com belas mulheres –ou, talvez, como revela a cena inicial, seja justamente ela que o proporciona.
Roteirista de peculair compreensão da natureza humana (tal como o próprio Pedro Almodovar, ou como ele mesmo se enxerga), Harry foi no passado também o diretor de cinema de suas próprias histórias –e, na trama trágica que vai se descortinando, Almodovar estabelece uma analogia até meio manjada entre o deixar de enxergar e o parar de expressar-se por meio do cinema.
Por qual razão Harry Caine mudou seu nome, que antes era Mateo Blanco? E o que ocorreu, afinal, para que ele ficasse cego?
Iniciando uns bons anos após os eventos passados que definiram o presente (e invariavelmente resgatando-os com sucessivos flashbacks), “Abraços Partidos” recupera e reconstitui a história de Mateo Blanco na qual descobrimos seu amor pela musa Lena (Penelope Cruz, sempre maravilhosa) que se converte de adoração platônica e profissional para atração carnal e consumada. Gradativamente, o roteiro de Almodovar migra seu protagonismo de Mateo para Lena: Só para revelar que ela é a típica heroína almodovariana com todas as letras! Pobre, foi obrigada a prostituir-se para cuidar da mãe doente, e depois cedeu aos desejos sórdidos de um velho e repressor milionário tornando-se sua amante. E só então foi descoberta como atriz.
Almodovar vai e volta no tempo com sua condução controlada não apenas tentando unir as inúmeras pontas soltas que ele mesmo expôs, mas também igualando as cores resignadas do agora com o vermelho passional do outrora, e nelas vislumbrando uma certa redenção para Mateo/Harry, não mais oprimido pelo passado e no caminho por fazer as pazes com si mesmo.
Da fase em que Almodovar trocou a graça rasgada por uma dramaturgia tão incomum quanto reveladora –e que rendeu obras premiadas como “Tudo Sobre Minha Mãe”, “Fale Com Ela” e “Volver” –“Abraços Partidos” é com frequência visto como o mais irregular, quiçá o mais pesado e estéril.
Com essa sua inconstância, acabou sinalizando uma nova reinvenção na carreira do diretor espanhol rumo a um cinema paulatinamente mais maduro e auto-consciente.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Ata-Me

A subversão é um ato inerente ao cinema de Pedro Almodóvar. Se com o passar dos anos, ele aprendeu novas técnicas de desenvoltura para subverter conceitos com mais sutileza, em seus primeiros trabalhos, nos anos 1980, a subversão era executada com mais audácia.
Contudo, sempre graciosa.
Dessa fase, “Ata-Me” é um dos mais satisfatórios exemplares. Parte comédia de humor negro, parte romance, parte sátira sobre seqüestro e cárcere, o filme vislumbra as possibilidades que surgem entre dois personagens que experimentam uma situação de seqüestrador e refém. A narrativa imprevisível de Almodóvar começa dando a impressão de que será outro rumo o que ele irá seguir; há diversos elementos na história da atriz pornô Marina Osorio (Victoria April, um charme só) que parecem levar por outra direção –muitos deles serão deixados de lado (como a figura inicialmente importante do diretor do filme, numa homenagem a John Huston, vivido por Paco Rabal), numa atitude que parece deliberada da parte de Almodóvar: Esta parece ser uma experiência toda nova de sua parte, a descobrir diferentes caminhos de seu cinema, ou foi um caso em que o filme transformou-se a medida que foi sendo elaborado.
É Ricky (Antonio Banderas, então uma espécie de “muso” do diretor) quem ganhará estatura na narrativa a partir de determinado ponto. Aficcionado e apaixonado por Marina, ele chegará ao extremo de seqüestrar seu objeto do desejo, tentando com ela simular algum relacionamento que, de início, só existe em sua cabeça.
Curioso pensar que esse trecho da premissa aproxima o trabalho de Almodóvar do filme “Bilbao”, de Bigas Luna, ainda que aquela obra se debruçasse ainda mais sobre as perversões e as patologias de seus personagens, num registro fatalista, do jeito como faz aqui, Almodóvar –como lhe é peculiar –reveste a perversão inerente ao ponto de partida de uma névoa estranhamente carismática, convidando-nos (junto da personagem de Victoria April) a simpatizar com o seqüestrador.
Aos poucos, Almodóvar vai enredando o público numa verdadeira trama de romance carregada com pinceladas irônicas e de sangue quente latino, a ponto de nos fazer torcedores para que esse tumultuado enredo envolvendo Marina e Ricky termine em final feliz
Só mesmo Almodóvar para combinar gracejo, submissão e abuso numa comédia romântica.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos

O diretor espanhol Pedro Almodóvar escreve personagens femininas com despudor e exuberância. Dentre os inúmeros títulos de sua filmografia, “Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos”, embora não seja o seu melhor trabalho (ainda que tenha sido assim considerado durante algum tempo) é o primeiro onde tais características se provaram certas e evidentes.
Poucos cineastas são capazes que construir uma personagem tão convicta de suas próprias aflições como Pepa (Carmem Maura), tão caprichosamente inserida na farsa de ciúme, desilusão e confusão que é a sua vida nas perplexas horas em que o filme se presta a acompanhá-la, e tão cercada de coadjuvantes igualmente bem ordenados e orquestrados, no objetivo de darem vida a uma mescla ardente, sanguínea e passional de comédia e tragédia. Pois, para Pepa é angustiante cada minuto que passa sem saber de Ivan (Fernando Guillén), o homem que jurou comprometer-se com ela, mas que, ao invés de assumi-la, resolveu partir, naquela mesma noite, para Estocolmo com uma outra amante. A angústia se justifica: Este é não só o dia de sua partida, como também o dia em que Pepa descobriu estar grávida!
Para piorar ainda mais o estado de nervos de Pepa, outras confusões se somam: Em seu apartamento aparece Candela (María Barranco), uma amiga apaixonada por um desconhecido e estarrecida com a descoberta de que ele é um terrorista xiita (!), assim como Carlos (Antonio Banderas), o filho de Ivan, acompanhado de sua noiva, Marisa (a exótica Rossy de Palma), em busca de um imóvel para alugar.
Entre farsas qüiproquós, histerismo e tentativas de manter a pose, Pepa descobre que a esposa de Ivan, Lucia (Julieta Serrano) planeja encontrá-lo no aeroporto, tal como a própria Pepa, entretanto com intenções diferentes: Matá-lo junto da outra amante!
A hábil direção de Almodóvar (num projeto mais acessível em comparação à suas obras anteriores, plenamente capaz de lançar luz sobre suas qualidades) equilibra um sem fim de situações de ordem cômica sem perder o ritmo ou o tom neste trabalho bastante admirável, grande responsável, no fim dos anos 1980, pelo início da fama cada vez maior que o realizador espanhol obteve mundo afora.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A Pele Que Habito

A trajetória de Pedro Almodóvar como cineasta é constituída por fases: Temos a fase inicial de sua carreira, pontuada pelos trabalhos mais transgressivos e alternativos (como “Pepi, Luci, Bom”, “Labirinto de Paixões”, “Maus Hábitos”, “Matador” e “A Lei do Desejo”), nos quais ele moldou seu estilo extravagante sem muitas das amarras que vieram depois; essa fase foi seguida de um inevitável amadurecer, quando ele adotou uma elegância maior como contador de histórias, deixando seus filmes menos ácidos e ofensivos, e mais ferinos e acessíveis (como “Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos”, “Ata-Me”, “De Salto Alto”, “A Flor do Meu Segredo”, “Kika”, “Carne Trêmula” e por fim “Tudo Sobre Minha Mãe”), essa fase conseqüentemente correspondeu também ao início de sua consagração junto à crítica.
Sua fase seguinte, como diretor veterano, incluiu alguns de seus melhores trabalhos (“Fale Com Ela”, “Volver”, “Abraços Partidos”), abrindo margem para uma possível reinvenção.
Difícil dizer é se tal reinvenção chega, de fato, com este quase radical “A Pele Que Habito” –tão distinto ele é, na filmografia de Almodóvar (embora continue contendo temas, orientações e propósitos que lhe são caros), que mais parece um rompante singular de criação do que a pista para um novo caminho.
Cirurgião espanhol (Antonio Banderas, na última de diversas colaborações com o diretor) pioneiro no estudo de pele transgênica guarda dentro de sua isolada mansão uma estranha prisioneira: Uma jovem (Elena Anaya, a Doutora Veneno de “Mulher Maravilha” num papel bastante corajoso) que a princípio parece ser só mais uma cobaia humana para seus bem sucedidos experimentos.
Não é: Almodóvar, com sua condução tradicionalmente corriqueira e atenta às nuances mais banais como indicativos perenes da peculiaridade de seus personagens (ainda que desta vez, ele tenha substituído as habituais cores berrantes de sua encenação por uma paleta bem mais contida e discreta), irá regressar, num audaz flashback, alguns anos no tempo e contará a história de Vicent (Jan Cornet), rapaz que inadvertidamente irá se envolver casualmente com a perturbada Norma (Bianca Suárez), filha do cirurgião interpretado por Banderas.
Conforme o passado das personagens vai se esclarecendo, surpreendentes e, por que não, aterradoras revelações vão sendo feitas a respeito da cativa e de seu captor.
Um admirável e perceptível salto de Pedro Almodóvar em direção a uma sofisticação que antes não parecia ter qualquer prioridade em sua carreira como autor, este curioso e francamente perturbador “A Pele Que Habito” despe-se do colorido extravagante que predominava em seus filmes para envolver, num ambiente de sobriedade que deve enganar muitos desavisados, esta sua versão muito pessoal e particular de "Frankenstein" com uma ousadia que lhe é peculiar na forma com que discute, entre outras coisas, as fronteiras do masculino e do feminino.
Tal exercício imaginativo rendeu o seu melhor filme desde "Volver".

sábado, 19 de novembro de 2016

Fale Com Ela

A paixão é tão predominante nos temas do espanhol Pedro Almodóvar quanto a cor vermelha o é em sua encenação –e, provavelmente, pelas mesmas razões.
Em sua postura autoral, Almodóvar logrou levar ao amplamente discorrido assunto do romance a sua própria percepção mundana do sentimento, e por meio desse caminho tateou uma busca por seu próprio estilo que, como sabemos, revelou-se espalhafatoso e passional desde o inicio.
Se isso chocava as platéias lá nos anos 1980, quando o espanhol ainda destilava uma verve muito mais despudorada e afetada em obras como “Labirinto de Paixões” ou “Ata-Me”, o tempo tratou de trazer-lhe mais serenidade, assim como um certo refinamento cinematográfico.
É com essa bagagem que Almodóvar chegou então à “Fale Com Ela”, de 2002, que ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original –um prêmio que, de uma certa maneira, acaba sendo mais significativo para sua carreira do que o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro conquistado por “Tudo Sobre Minha Mãe”, em 2000.
Isso porque algo mudou em Almodóvar, e podemos percebê-lo através da delicada e inusitada trama deste filme algo surpreendente: Pesquisador argentino (o espetacular Dario Grandinetti), enamorado de uma toureira espanhola (Rosário Flores), testemunha um acidente grave envolvendo sua amada nas arenas. A jovem entra em coma, e no hospital para o qual é enviada, ele acaba conhecendo um jovem enfermeiro (Javier Câmara) apaixonado por uma jovem e bela bailarina (Leonor Watling) também em estado comatoso.
Eis uma das primeiras sacadas fenomenais do filme: Os dois relacionamentos, que em princípio eram baseados na palavra, e orientados pela personalidade das mulheres –como, aliás, também o eram, antes deste trabalho, as narrativas de Almodóvar –agora, se baseiam no silêncio e na voz masculina.
A história vai e vem no tempo esclarecendo os meandros dos dois relacionamentos e reservando algumas surpresas ao final. Almodovar mais uma vez desfila seu estilo peculiar na forma debochada com que expõe as relações humanas, contestando ações que, sob o viés de cineastas mais convencionais, surgiriam como atitudes reprováveis, mas que aqui ganham justificativas sentimentais e até mesmo primorosas metáforas metalinguísticas –o pequeno curta-metragem mudo mostrado dentro da narrativa, “O Amante Minguante”, estrelado pela maravilhosa Paz Vega, é um jóia de preciosidade.

Em meio à impetuosa e passional filmografia de Almodovar, este é um de seus trabalhos mais tocantes.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Volver

As mulheres mais uma vez têm aqui toda a atenção de Almodóvar. Ele se identifica plenamente com elas, e em “Volver” essa identificação adquire dimensões poderosas com Penélope Cruz, num de seus mais espetaculares trabalhos: Não fosse ela, o filme do espanhol perderia muito de seu poder.
É um curioso reencontro de gerações que se distanciaram. Na ótica de Almodóvar, contudo, esse drama familiar ganha contornos cartunescos que só não o fazem mais inacreditável graças ao talento de Penélope, do ótimo elenco coadjuvante (quase todo ele de colaboradoras de Almodóvar), e da desenvoltura, cada vez mais aprimorada e experiente, de seu autor em narrar contos que fogem à monotonia das classes que retrata.

Penélope é Raimunda, espanhola cativante e intempestuosa, cujo marido ela mata para que não abuse da filha. Como num filme de Antonioni, esse crime é logo deixado de lado por Almodóvar (!) para concentrar-se em outra questão: A mãe (Carmen Maura, uma das presenças mais assíduas na filmografia de Almodóvar, o que explica sua presença onipresente e “fantasmagórica” neste filme), que para todos os efeitos era dada como morta reaparece, num subterfúgio que só poderia sair mesmo da mente do espanhol. E é essa questão –a dualidade entre o que se acredita e o que se passa de fato, entre o modo como lidamos com o mundo, e como a vida se revela a nós –a grande reflexão junto com a qual ele nos convida a rir e a torcer por suas heroínas.