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sábado, 18 de outubro de 2025

Na Cama Com Madonna


 No início dos anos 1990, Madonna era uma artista indomada e implacável: Em 1992, ela havia lançado simultaneamente o ousado livro de fotos “Sex”, o álbum “Erotica” e o longa-metragem “Corpo em Evidência”. Um ano antes, esse ciclo de ousadia destinado a chacoalhar as bases de pudor do showbizz já havia se iniciado com o documentário “Na Cama Com Madonna” –ou, no original, “Madonna-Truth Or Dare”.

Dirigido por Alek Keshishian (realizador com certa experiência em videoclipes), “Na Cama Com Madonna” foi lançado fora de competição no Festival de Cannes 1991, onde iniciou sua escandalosa e inovadora trajetória no circuito comercial. Sua estrutura narrativa intercala basicamente a parte documental, depoimentos e bastidores (filmada em preto & branco com câmeras de 16 mm) com o registro das apresentações musicais do show “Blonde Ambition” (filmado, por sua vez, em cores com diversas câmeras de 35 mm), contudo, em sua proposta, o filme revelou-se ousado: Nunca antes um documentário havia exposto a intimidade de uma artista famosa com tanta contundência e de forma tão deliberada, ao flagrar momentos de tensão, crises íntimas e outros conflitos.

Na esteira da turnê “Blonde Ambition” –transcorrida no segundo semestre do ano de 1990, pelo Japão, Europa, EUA, e Canadá –acompanhamos os percalços pessoais, profissionais e familiares da pop-star Madonna, bem como fortes indícios de sua irredutível personalidade: Produzido com perfeccionismo quase obcecado por sua estrela (todos os modelos usados por ela na turnê foram criados pelo estilista Jean-Paul Gaultier!), o show serve como veículo para mostrar um panorama bastante expositivo de sua vida pessoal; o namoro de então com o astro Warren Beatty (com quem ela trabalhou em “Dick Tracy”); a maneira fria e sardônica com que trata as pessoas do showbizz (exemplo disso é o rude desdém para com Kevin Costner); suas opiniões polêmicas sobre sexo, religião e comportamento; a estreita ligação com o mundo homossexual de seus bailarinos; o relacionamento conturbado com o pai e o irmão; a festa na casa de Pedro Almodóvar e a paquera frustrada com Antonio Banderas (com quem trabalharia anos mais tarde no filme “Evita”); a insegurança durante a apresentação em Detroit, com os amigos de infância; a controvérsia gerada pela famosa cena em que simula um orgasmo na cama ao som de “Like A Virgin”, e várias outras revelações.

Com um custo de aproximadamente 4 milhões de dólares, “Na Cama Com Madonna” foi um notável sucesso de bilheteria, sintomático do fascínio que uma estrela como Madonna era capaz de suscitar graças às suas polêmicas e ousadias –ele permaneceu sendo o documentário de maior rentabilidade na história do cinema até 2002, quando foi tirado desse posto por “Tiros em Columbine”, de Michael Moore.

domingo, 4 de dezembro de 2022

Sem Saída


 Não obstante sua roupagem de suspense pós-moderno lembrar constantemente as intrigas literárias de Sydney Sheldon, este “No Way Out” –o título nacional genérico, “Sem Saída”, remete não só a este como a diversos outros filmes –trata-se de uma refilmagem de “O Relógio Verde”, de 1948, dirigido por John Farrow e estrelado por Ray Milland, Charles Laughton e Maureen O’ Sullivan, ambientado, por sua vez, na redação de uma revista.

No trabalho realizado por Roger Donaldson (que à época parecia especializar-se em refilmagens tendo dirigido “Rebelião Em Alto-Mar”, com Mel Gibson, refilmado do clássico “O Grande Motim”), a nova ambientação é uma circunstância imposta sem a menor sutileza já no travelling inicial de câmera quando, em meio aos créditos iniciais, somos levados a uma casa nos arredores de Washington. É lá que um flashback vai regressar aos eventos tortuosos de sua trama a envolver seu protagonista, o Comandante Tom Farrell, vivido pelo galã de então, Kevin Costner.

A história que é assim descortinada demora um pouco a engrenar de fato –o que testa a paciência dos expectadores mais imediatistas –se diluindo em idas e vindas que soam prosaicas numa primeira exibição, entretanto, as pistas e indícios ali plantados vão fazer importante diferença mais tarde.

Uma vez em Washington, as conexões pessoais de Farrell são poucas: Resumem-se ao seu grande amigo Scott Pritchard (Will Patton, num personagem manipulador, insidioso e desprezível) e ao homem que ele bajula acima de qualquer coisa, o Secretário de Defesa norte-americano David Brice (o grande Gene Hackman). Não tarda à Farrell envolver-se também com a mulher mais errada possível, Susan Atwell (a sensacional Sean Young, completamente diferente da sisuda personagem pelo qual mais é lembrada, de “Blade Runner”).

Acaba sendo que Susan, por quem Farrell se apaixona (e é correspondido!), é a amante de Brice. Após um episódio no qual é condecorado herói da marinha, Brice tem a ideia de chamar Farrell para trabalhar em seu gabinete no Pentágono, sem ter a menor ideia que é o próprio Farrell quem disputa com ele sua amante.

Numa noite de exaltação, quando Susan está prestes a dar um basta no caso extraconjugal com Brice, ele acidentalmente a joga da escada, matando-a. Está assim armada a confusão: A única forma de manter a integridade política de Brice –que alimenta planos ambiciosos dentro da conjuntura sócio-política americana –é jogar a culpa do assassinato sobre o outro amante de Susan, e para incrementar ainda mais a busca por sua identidade, Pritchard ventila nos corredores do Pentágono que ele vem a ser o Yuri, uma espécie de lenda urbana da contra-espionagem naqueles tempos de Guerra Fria, supostamente um infiltrado russo que cresceu nos EUA e fornece informações da Inteligência Norte-Americana de dentro de seu próprio sistema central.

Como Farrell trabalha diretamente com Brice e Pritchard, ele coordenada as tensas investigações, às quais, se não lutar contra o tempo e achar uma saída, haverão de levá-las diretamente até ele próprio!

Um dos vários sucessos de bilheteria que abrilhantaram a carreira de Kevin Costner nos anos 1980, “No Way Out” é um suspense vistoso, diferente, pontuado por bem manejadas e astuciosas reviravoltas de enredo (a revelação final é de uma ironia particularmente afiada) e ainda promove uma nada lisonjeira visão dos bastidores do poder em Washington, mostrados como um microcosmos onde não se pode confiar nem na própria sombra!

Entre essas intrigas de estado e conspirações de alta cúpula promovidas pelos personagens masculinos, quem se destaca mesmo é a beleza radiante de Sean Young, um tempero inesperadamente intenso de sensualidade (com pelo menos duas cenas bem marcantes, a da limusine e a da entrada no apartamento logo depois) que dá certo sabor à mistura.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Deixe-O Partir


 O trabalho criterioso e singular do diretor Thomas Bezucha (especialista, pasmem, em comédias!) vale-se em grande medida da concepção hoje saturada que o expectador médio tem do cinema norte-americano comercial de modo geral. Afinal, temos dois protagonista prontamente reconhecíveis (Kevin Costner e Diane Lane interpretaram, juntos, os pais do Superman em “Homem de Aço”), e esse reconhecimento é usado por Bezucha para ludibriar o público.

Com eles em cena –a despeito da excelência interpretativa que aqui ambos conseguem obter, sobretudo, Diane –tem-se a impressão de que a produção seguirá por caminhos convencionais, como tantos outros filmes que eles mesmos protagonizaram.

É quando o filme de Bezucha começa a subverter brilhantemente as pressuposições do público: “Deixe-o Partir” trabalha com tempos mortos, silenciosos, onde nada em princípio parece acontecer, são momentos de calmaria na superfície onde se sugere profundidades insondáveis nas quais, aí sim, se escondem as verdadeiras aflições;

George e Margaret Blackledge (Costner e Diane) perderam seu filho. A nora, junto do neto deles, casou-se com outro homem e foi morar em outra cidade, desligando-se da relação que tinha com eles.

Guiados por uma necessidade sentimental e irreprimível de rever o neto e, em última instância, perseguir um vínculo com o filho falecido, o casal empreende uma busca pelas cidades interioranas da América em busca do paradeiro da nora que, indicam as pistas, casou-se com um homem violento que oferece potencial perigo para ela e para a criança.

A narrativa de Bezucha não tem a menor pressa em entregar respostas instantâneas e satisfazer com imediatismo qualquer ansiedade plantada no expectador: A direção transforma a angústia de seus protagonistas na angústia do próprio público ao frustrar as expectativas da resolução de seu suspense, desacelerando o ritmo nos momentos em que mais queríamos que ele se acelerasse.

E, nesse sentido, tudo se intensifica ainda mais: Quando por fim descobrem o que houve com sua ex-nora, Lorna (Kayli Carter), George e Margaret a encontram, e ao seu neto, vivendo com a família do novo marido, os Weboy, um clã de interioranos violentos, sórdidos e potencialmente psicóticos –a matriarca da família (vivida primorosamente por Leslie Manville, de “Trama Fantasma”) é particularmente insidiosa, grosseira, ameaçadora e abusiva.

Se a premissa não sugere uma originalidade maior da parte desta obra do diretor Bezucha, é porque muitas das informações que a tornam desigual são mais bem aproveitadas quando não se sabe nada sobre elas –personagens coadjuvantes posicionados estrategicamente; fortes atmosferas levantadas com parcimônia –configurando esta interessante mescla de drama (o elenco, para tanto, é formidavelmente habilidoso), road movie (proporcionando sua notável transição do idílico ao visceral), faroeste moderno (o personagem de Costner, à propósito, é um ex-xerife) e filme de terror ao estilo “O Massacre da Serra Elétrica”.

Com uma condução de uma tensão dilacerante, o filme gradualmente acentua sua propensão ao perturbador entregando cenas que atingem certo extremismo em seu terço final, caminhando rumo a um desfecho brutal, tenso e apoteótico, potencializado pela ênfase ao drama humano –ou seja, mesmo não estando entre os realizadores mais reconhecidos e aclamados da atualidade, Thomas Bezucha se comporta aqui como um deles ao moldar um filme feito de corajosas escolhas, de pequenos detalhes, de um salutar intimismo em detrimento às convenções de sempre. Tudo isso transforma a tortuosa jornada de um casal na busca pela reconstrução de sua família em uma experiência que testa os nervos de qualquer expectador.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Silverado


 Nos anos 1980, o diretor e roteirista Lawrence Kasdan passeou pelos mais diversos gêneros a fim de saciar sua ‘fome’ por cinema. Certamente, entre as opções, não poderia faltar o faroeste, algo que ele realizou em 1985, após “Corpos Ardentes” e “O Reencontro”, concebendo “Silverado”. A visão do gênero partilhada por Kasdan e por seu irmão Mark (colaborador dele no roteiro), contudo, não tinha quaisquer reflexos das ramificações do faroeste de então –os spaghetti, feitos na Europa ou os revisionistas, feitos nos EUA mesmo –na verdade, sua visão não tinha sequer as questões e considerações subliminares das obras de John Ford e Howard Hawks: O moleque ávido e entusiasmado por faroeste que Kasdan foi um dia fomentou nele uma necessidade de realizar um filme norteado tão somente por seu senso de aventura. E essa decisão permeia e define “Silverado” do início ao fim.

A primeira cena, habilidosa nos quesitos técnicos dispostos pela produção, mostra Emmett, o protagonista de Scott Glenn, num barraco escuro e fechado, a trocar tiros com inimigos escondidos do lado de fora. Encerrada a breve cena –com a morte de seus oponentes –Emmett sai porta afora, seguido pela câmera em movimento, num take que remete deliberadamente à clássica introdução de “Rastros de Ódio”.

E está então estabelecido tudo o que o filme de Kasdan vai ser (e o que não vai ser): Um faroeste de tintas tão românticas quanto heróicas, imbuído do clima de matinê dos faroestes de antigamente –antes que o gênero ganhasse elementos existenciais, e profundas análises de cunho histórico ou até metalinguístico. Assim, na sequência, Emmett cruza-se com o outro protagonista do filme (tão ou até mais importante que ele), Paden, personagem vivido pelo sempre carismático Kevin Kline. Ele surge só de ceroulas largado no deserto e, ao receber auxílio de Emmett, logo estabelecem a parceria que haverá de perdurar por todo o filme.

Emmett vai até a cidadezinha de Turley, onde encontra o irmão caçula, Jake (Kevin Costner, num personagem mais descontraído do que de costume) em apuros com as autoridades locais. Escapando por um triz do xerife (vivido por John Cleese), graças à ajuda do pistoleiro negro Mal Johnson (Danny Glover), os quatro decidem rumar para a cidade de Silverado, onde mora da irmã de Emmett e Jake, e para onde ele pretende ir, uma vez que saiu há pouco da cadeia onde esteve por cinco anos.

Entretanto, nesse caminho, complicações usuais do faroeste os perseguem: Eles resolvem auxiliar uma caravana com o mesmo destino deles –em meio à qual se encontra a personagem sub-aproveitada da bela Rosanna Arquette –cujos ocupantes tiveram seu dinheiro roubado. No decurso de inúmeras idas e vindas, todos chegam em Silverado, somente para descobrir os verdadeiros problemas que lá os esperam; e que são essenciais ao plot: Para Emmett e Jake, o filho do homem que Emmett matou (morte pela qual pagou com a prisão), tem um plano de vingança pronto para ser posto em prática; para Mal, cujo o pai, Ezra (Joe Seneca) passa poucas e boas para sustentar a terra da família, e a irmã Rae (Lynn Whitfield) tem de prostituir-se no saloon local, estão reservados os mesmos perigosos aborrecimentos que alguém tentando enfrentar a discriminação e a injustiça deve encarar; e para Paden, cujo xerife local, o desonesto Cobb (Brian Dennehy) coloca sob suas asas assim que chega a Silverado, resta um difícil dilema: Ajudar os novos amigos, indo contra um homem que a ele se aliou, ou omitir-se de todas as terríveis ciladas para eles preparadas.

A resposta para isso não é nenhuma surpresa: A força de “Silverado” não está na subversão de narrativas clássicas desse gênero, mas no reencontro ávido e apaixonado com esses expedientes, no clima épico imediatamente reconhecível de quando tais momentos estão se aproximando e, nesse sentido, “Silverado” não deseja, em momento algum decepcionar seu público –aquele tipo de expectador que almeja encontrar um faroeste descomplicado, onde mocinhos e bandidos são definidos com características absolutamente reconhecíveis, e seus empates –ilustrados com pompa e circunstância dramática –seguem os rituais de praxe que emolduram grandes momentos da Velha Hollywood.

Em sua evoção do que o gênero tem de mais clássico, “Silverado” não deixa de encontrar pequenos lapsos que se fazem mais evidentes conforme o tempo foi passando. Seu maior defeito é a tremenda falta de profundidade em relação aos enredos individuais de cada personagem, um problema bastante razoável para um filme que se divide entre tantos protagonistas e almeja dar uma sub-trama a cada um.

A despeito disso, “Silverado” segue sendo aquilo que dele seu realizador queria mesmo fazer: Um entretenimento à moda antiga, amparado no carisma palpitante de seus astros, no charme trivial e anacrônico do gênero que homenageia, nas inúmeras cenas inconfundíveis que o compõem (as cavalgadas em panorâmicas paisagens americanas; os duelos à céu aberto) e na oposição dos homens bravos que se elevam contra o mau-caratismo e a vilania, e os desregrados corruptos de uma terra sem lei que os enfrentam.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Vingança

As cenas iniciais deste misto de drama, suspense e ação não negam ser este um trabalho do mesmo diretor de “Top Gun”, o falecido Tony Scott: Tomadas aéreas habilmente montadas (à cargo de Chris Lebenzon) e fotografadas (à cargo de Jeffrey Kimball) que estranhamente nada dizem a respeito do filme que se segue depois.
Aqui, Scott reuniu-se com um astro emergente do período, Kevin Costner (que tinha acabado de fazer “Sorte No Amor” e “Campo dos Sonhos”) após um resultado mediano dirigindo “Um Tira da Pesada 2”, em 1987. Costner iniciou por aqui seu hábito de interferir também no resultado final atrás das câmeras (em “Vingança”, ele é produtor executivo), o que à medida que seu estrelato foi se consolidando lhe garantiu ainda mais controle sobre seus projetos, chegando inclusive à ele próprio dirigir (e ganhar um Oscar por) “Dança Com Lobos”.
Entretanto, essa é outra história –que, por sinal, segue pela década de 1990 adentro, e vai até as catástrofes que comprometeram a carreira de Costner, “Waterworld” (como astro e produtor) e “O Mensageiro” (como astro e diretor) –voltemos, portanto, à “Vingança”: Costner vive Jay Cochran, piloto da Força Aérea Norte-Americana em vias de se aposentar –daí as sequências que abrem o filme.
Livre para ir aonde quiser e fazer o que quiser, Cochran decide dar uma passada pelo México onde mora um milionário de quem ficou amigo jogando tênis.
Tiburon ‘Tibey’ Mendez (o veterano Anthony Quinn) vive numa mansão que é uma verdadeira fortaleza, cercada de suspeitos seguranças armados –e, embora os indícios de alguma periculosidade estivessem lá desde o começo (numa cena inicial, Tibey, num rompante de fúria, arremessa seu cão dentro da piscina), Cochran não vê problema em aceitar a hospitalidade do amigo.
Tibey é casado com uma mulher muito mais jovem e infinitamente mais atraente do que qualquer outra, Miryea (a maravilhosa Madeleine Stowe). Por conta de tais divergências, o casamento entre os dois tem seus atritos –Miryea se ressente por Tibey não desejar ter filhos –minimizados somente pelo medo genuíno que ela (e todos os outros à sua volta) sentem dele.
À princípio, Miryea imagina que Cochran será um amigo com as mesmas características que os demais amigos de Tibey ostentam: Espalhafatoso, grosseiro, arrogante e sarcástico –características que não só parecem fazer parte da visão estereotipada que o filme tem do povo mexicano, como também definem o comportamento mafioso em geral.
Contudo, Cochran revela-se alguém diferente, sensível e gentil –adjetivos que levam Miryea a se sentir atraída cada vez mais por ele. Essa circunstância –a do romance proibido –embora de importância fundamental à trama, é um dos empecilhos do filme em face da incapacidade atroz do roteiro em construir diálogos sentimentalmente expressivos para consolidar a situação, do fracasso em esboçar motivações válidas aos personagens (mesmo que essa seja uma premissa que já rendeu infindáveis exemplares à serem referenciados), e da química praticamente inexistente entre Costner e Madeleine que, em cena, deixam até vislumbrar um palpável constrangimento um com o outro em alguns momentos.
Mas, ainda que esse seja o calcanhar de Aquiles do filme... vida que segue: Os dois se envolvem, tornando-se amantes quando percebem que não vão resistir à atração mútua que experimentam –e qualquer expectador e coadjuvante consegue notar a confusão que isso vai render, menos o casal central...
Quando Tibey descobre o adultério, o lado ‘gangster mexicano’ que ele não deixava que Miryea nem Cochran notassem –embora, como eu disse, houvessem pistas bem óbvias disso desde o início –cai sobre os dois com a força de um furacão: Cochran é espancado por seus capangas e deixado numa estrada quase morto, sua cabana (onde o flagra ocorreu) é toda queimada, e Miryea, com o rosto dilacerado, é despachada para um prostíbulo, onde a rotina forçada de meretriz servirá de castigo para sua traição.
No entanto, Cochran não morreu. Ele é resgatado de seu estado moribundo por um camponês e, contando com uma ajuda aqui, outra ali, nos meses que se seguem (o viajante tuberculoso que lhe dá carona e dinheiro; os providenciais capangas ‘do bem’ vividos por Miguel Ferrer e um jovem John Leguizano; e até mesmo uma desvairada e sexy cantora interpretada por Sally Kirkland, que infelizmente não aparece o bastante), vai se recuperando e reconstituindo a trilha de indícios que deverá levá-lo ao paradeiro de Miryea.
Consequentemente, essas investigações esbarram em Tibey, e num definitivo acerto de contas entre ele e Cochran.
Dono de uma premissa calcada em estruturas totalmente manjadas –desde o adultério passando pelo arco dramático da vingança e do amigo que vira inimigo –o filme só escapa da mesmice porque Tony Scott lhe dá um tratamento diferenciado no estilo imediatamente identificável que impõe: Iluminação difusa contra as fontes de luz, enquadramentos a lembrar videos publicitários, cenas nada realistas estilo videoclip e muitos tratamentos de fotografia.
Embora isso torne muito do andamento enfadonho, sobretudo, na primeira parte, também confere alguma identidade ao material, sabendo encontrar em suas pontuações de roteiro, as mais relevantes referências cinematográficas possíveis; na primeira metade, as cenas emulam “O Poderoso Chefão” no registro agressivo e icônico que se tenta fazer dos gangsteres mexicanos, já a segunda metade, faz claras alusões ao faroeste mantendo um ritmo cadenciado do início ao fim. Uma pena que a junção dos elementos propostos –drama romântico, visual estilizado, violência extrema, fatalismo –não resulte numa narrativa completamente apetecível.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Treze Dias Que Abalaram O Mundo

É curioso como os filmes que tenho escolhido, mesmo que sem essa intenção, acabam refletindo a situação atual: Foi assim com “Contágio”, foi assim com a minissérie “Chernobyl”, e é assim com “Treze Dias Que Abalaram O Mundo” –cada um deles, à sua maneira, evocava um aspecto desses dias incertos que vivemos.
Lançado em 2007, “Treze Dias...” representava um das inúmeras tentativas de reinvenção que a carreira de Kevin Costner experimentou ao longo dos anos. Vindo de dois fracassos homéricos de bilheteria e crítica nos anos 1990 –“Waterworld-O Segredo das Águas” e “O Mensageiro” –o astro aceitou dividir o protagonismo deste eletrizante thriller político (por anos incluso na lista de melhores roteiros jamais filmados a circular em Hollywood) que esmiúça o fato real da Crise dos Mísseis de Cuba –pano de fundo histórico usado em “X-Men Primeira Classe”.
Outubro de 1962. Sobrevoando Cuba, uma avião U2 da Força Aérea Norte-Americana registra fotos de uma atividade em solo cubano que os especialistas de Washington não tardam a identificar: São bases militares erguidas por soviéticos, construindo mísseis balísticos cujo local estratégico permite aos russos um ataque imediato em várias cidades no solo americano.
A Casa Branca fica alarmada e o presidente John F. Kennedy (vivido com precisão estudada por Bruce Greenwood) chama seus homens de maior confiança, seu irmão Bobby (Steven Culp) e seu principal assessor e melhor amigo Kenny O’Donnell (Costner). Os militares esperam que o presidente declare guerra contra a URSS, e que dê a ordem para a invasão de Cuba, no entanto, Kennedy e seus assessores estão cientes do perigo que ronda a situação.
A Primeira Guerra Mundial gerou condições sócio-políticas que terminaram deflagrando a Segunda Guerra Mundial, como ele bem leu no livro “Armas de Agosto”, e agora, poucas décadas depois, circunstâncias da guerra anterior empurravam novamente o mundo em direção à Terceira Guerra Mundial. Um ciclo vicioso que eles precisavam interromper com bom senso e diplomacia, caso contrário, a Humanidade não chegaria a terminar o Século XX.
Diante de indecisões, dilemas e uma pressão política absurda, Kennedy acata uma controversa sugestão do Secretário de Defesa Robert McNamara (Dylan Baker, de “Homem-Aranha 2 e 3”): Realizar um bloqueio marítimo em Cuba, impedindo assim os navios enviados da URSS com utensílios para que os mísseis fossem terminados e se tornassem operacionais.
A situação do bloqueio, porém, é extremamente desvantajosa e sujeita a toda sorte de erro humano –é, entretanto, a melhor alternativa entre as opções radicais que podem culminar numa bola de neve cujo desfecho será a guerra.
Diante disso, os EUA precisam obter o aval unânime das Nações Unidas (o quê eles conseguem!), e Kennedy, Bobby e O’Donnell precisam conter a sanha por combate de seus militares que inventam pretextos para levar ao conflito: Como sucessivos voos rasantes sobre as bases cubanas sob a justificativa de tirar novas fotos de reconhecimento –na verdade, os militares aguardam que um piloto americano seja abatido para poderem atacar Cuba.
Durante duas semanas, o mundo nunca esteve tão próximo de um verdadeiro apocalipse deflagrado pelos senhores da guerra; e para tanto, além do temor irreprimível dos personagens, o filme registra também a comoção pública, as prateleiras de mercado sendo esvaziadas por pessoas querendo estocar alimento em casa, as filas nas igrejas de fiéis querendo prestar suas últimas confissões –uma atmosfera muito familiar, não?
Conduzido pelo veterano Roger Donaldson (que dirigiu Kevin Costner em “Sem Saída” nos anos 1980), “Treze Dias...” é uma reconstituição eletrizante dos mais diversos aspectos ocasionados no gabinete presidencial durante aquele tenso episódio. Sua narrativa vale-se de muitas cenas documentais (perceptíveis, sobretudo, na resolução full HD) e de um aparato informativo extremamente rico que dá conta de dezenas de personagens pertinentes, além de um belo roteiro que amarra essa miríade de fatos e informações com admirável polimento dramático.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Waterworld - O Segredo das Águas


Astro fulgurante entre o fim dos anos 1980 e começo dos 1990 –não somente atuando em sucessos de bilheteria como também se saindo muito bem como diretor –era questão de tempo até que a estrela de Kevin Costner parasse de brilhar com tanta intensidade.
Só ninguém esperava que a queda fosse tão vertiginosa.
Projeto que ele acarinhou enquanto ao longo dos anos experimentava sua consagração junto ao Oscar, com “Dança Com Lobos”, ou via sua imagem associada do herói americano moderno em filmes como “Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões” e “O Guarda-Costas”, este “Waterworld” –dirigido pelo mesmo Kevin Reynolds que o comandou em “Robin Hood” –nada mais era que uma variação de “Mad Max”, ou seja, uma aventura pós-apocalíptica, ambientada em alto mar.
E começa aí as dicas do quão problemática foi a produção: Dez entre dez realizadores de cinema irão garantir que uma das maiores dores de cabeça na execução de um filme se dá quando ele se passa no mar –desde Steven Spielberg (“Tubarão”) passando pelo que talvez seja hoje o mais colossal exemplo, James Cameron e seu “Titanic”.
Durando muito mais tempo do que o seu previsto e consumindo muito mais dinheiro de seu orçamento do que inicialmente foi programado, “Waterworld” chegou aos cinemas em 1996 após quase dois anos de uma filmagem problemática e caótica. E o filme que dela emergiu sequer valia o esforço para tanto: “Waterworld” é uma aventura aquática rasteira que em momento algum condiz com todo o falatório suscitado por sua execução.
Com o derretimento das calotas polares, os oceanos dominaram o planeta Terra levando ao surgimento de hordas de piratas que se digladiavam nos mesmos moldes que os motoqueiros de “Mad Max”.
Vivendo solitariamente nesse mundo, o personagem de Kevin Costner é o primeiro de uma evolução: um homem-peixe capaz de respirar embaixo d’água e melhor se adaptar a esse novo mundo.
É nas mãos dele que vão parar uma garotinha (Tina Majorino) e sua tutora (a bela Jeanne Tripplehorn) que trazem o segredo para encontrar o único lugar de terra firme restante no planeta; um elemento que, na forma com que se apresenta no filme, é implausível.
O grande problema de “Waterworld”, não obstante o domínio que o diretor Kevin Reynolds tem do ritmo e sua real capacidade para entregar boas cenas de ação, é que, em sua execução e finalidade, ele se contenta com pouco: É uma aventura escapista somente, dessas que passados alguns anos logo se tornavam habituais na ‘sessão da tarde’.
Esse não seria pecado algum se “Waterworld” não tivesse deixado atrás de si o rastro de uma produção tumultuada que comprometeu seriamente a carreira de seus envolvidos. Se era para resultar catastrófico, então que esses percalços extremos se refletissem na tela com o mesmo assombro megalomaníaco que foi empregado atrás das câmeras, tal qual o fizeram o já citado James Cameron, com “Titanic”, Michael Cimino, com “O Portal do Paraíso” e Francis Ford Coppola, com “Apocalypse Now”.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Os Intocáveis

Diante do status indissolúvel de clássico moderno que esta obra de Brian De Palma adquiriu com o tempo fica um pouco difícil observa que ela era, primeiramente, uma adaptação cinematográfica de uma série de TV, nos moldes do que, anos depois foi feito em “Missão Impossível” (dirigido pelo próprio De Palma) e “As Panteras” –por mais díspare que seja essa comparação.
Ainda assim, a direção refinada de De Palma, o roteiro brilhante e intenso de David Mamet, a música antológica de Ennio Morricone e o espetacular elenco reunido fazem desta uma obra inteiramente cinematográfica.
O período da Lei Seca vigora em Chicago. É o auge do controle do poder gangster e, portanto, terreno fértil para que o mafioso Al Capone (Robert De Niro) possa prosperar a frente de um império.
Sem maiores recursos e sem muita chance de sucesso, o agente federal Elliot Ness (Kevin Costner), cerca-se de policiais incorruptíveis –o veterano e experiente guarda das ruas Malone (Sean Connery, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), o íntegro promotor Oscar Wallace (Charles Martin Smith) e o jovem e habilidoso cadete George Stone (Andy Garcia) –para levar a cabo sua cruzada de finalmente por na cadeia esse chefão do crime organizado de Chicago.
Tão magistral é o trabalho de Brian De Palma (amparado nas estupendas atuações de todo o elenco, em especial o magnífico Sean Connerry e Robert De Niro, sensacional como Al Capone) que o resultado alcançado aqui se lança num patamar além das brilhantes obras referenciais que ele entregou no passado (e que tinham, também elas, um valor artístico próprio e insuspeito) incorporando uma sucessão de cenas fabulosas cujo impacto supera e mera homenagem, a melhor delas: Um tenso e brilhantemente montado tiroteio no qual um carrinho de bebê desce as escadarias em câmera lenta numa esplêndida referência à "Encouraçado Potenkin" –mas, realizada com um primor tal que, hoje, a própria cena em si é lembrada como uma das grandes seqüências do cinema.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar

A década de 1960 não foi somente um período marcante de mudanças e transformações para os EUA e o mundo; foi também uma época a qual aparentemente, o diretor Oliver Stone custou a conseguir deixar de lado. A maior parte dos grandes títulos de sua filmografia, ao menos durante as suas duas primeiras décadas de atividade como cineasta, se dedicam a falar sobre episódios essenciais desse trecho da história americana.
Se a Guerra do Vietnam é uma parte indissociável do contexto de “Platoon” e “Nascido em 4 de Julho”, em “JFK”, ele lança seu olhar parcial, paranóico e imbuído de uma tendenciosa maestria cinematográfica sobre os percalços e conseqüências do assassinato do então presidente americano John F. Kennedy, cometido –acredita-se –pelo atirador Lee Oswald (aqui interpretado com peculiaridade por Gary Oldman). A base para esse olhar, Stone encontra na teoria controversa do promotor Jim Garrison –personificado com segundas intenções da parte de seu diretor pelo astro Kevin Costner: Na época, devido à sua participação no aclamado épico “Dança Com Lobos” e em outros sucessos de bilheteria como “Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões”, Costner era enxergado como uma espécie de herói americano, o tipo de intérprete escolhido a dedo para se colocar num personagem do qual o diretor não deseja que a platéia duvide.
Desde a utilização brilhante do famoso e vídeo amador de Zapruder –uma prática habitual no cinema de Oliver Stone –ao emprego de uma riqueza documental e informativa incomum para qualquer superprodução (por tais valores, “JFK” levou os Oscars de Melhor Fotografia e Montagem) e o uso pontual de participações notáveis de um elenco diverso e estelar, todas as exuberantes facetas deste filme são administradas por seu diretor na imposição demagógica de sua própria ideologia e ponto de vista –provavelmente a grande ressalva em toda a filmografia fascinante de Stone.
Garrison acreditava numa possibilidade bem diferente daquela ventilada pela imprensa. Para ele, Oswald era um mero bode expiatório para toda uma conspiração que envolvia inúmeros interessados em dar cabo de Kennedy –e para tanto, um de seus argumentos é de que a sucessão de tiros obtida unicamente por Oswald naquele atentado seria humanamente impossível para um atirador sozinho executar.
A partir daí, subjetivada nas investigações de Garrison, a narrativa de Stone desfralda uma conspiração que ganha ares assombrosos e aterradores ao longo das três horas de duração do filme.
E Stone o faz com uma mescla assombrosa de tensão e intensidade, deixando entrever, apenas em alguns rápidos momentos de seu último terço a pecaminosa tendência do diretor em alterar obviedades históricas apenas para salientar seu próprio ponto de vista.
Um grande filme de um diretor tendencioso que soube empregar como poucos as ferramentas do cinema com perversa astúcia.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Rapa Nui - Uma Aventura No Paraíso

A amizade entre o astro Kevin Costner e o diretor Kevin Reynolds sempre seguiu numa proximidade à de suas trajetórias profissionais –tal como pode ser conferido em um dos primeiros filmes de um Costner ainda jovem, “Fandango”, dirigido por Reynolds.
Natural que, com a consagração obtida por “Dança Com Lobos” e seus sete prêmios Oscars em 1990 (e ainda o largo sucesso de público de “Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões”, também dirigido por Reynolds), fosse intenção de Costner estender essa graça para seus colaboradores. Foi certamente com essa intenção (a de uma bela campanha junto ao Oscar) que, em 1994, Kevin Costner contribuiu, não como astro, mas como produtor (o quê, em “Dança Com Lobos”, ele também era) de um ambicioso projeto de Reynolds: Contar uma história em tintas épicas e românticas que imaginava como teriam surgido as misteriosas rochas em forma de cabeça humana na Ilha de Páscoa.
Como todo filme ambicioso na velha tradição hollywoodiana, este usa da trajetória de sofrimento de uma comunidade para emoldurar a história de um triângulo amoroso.
A jovem camponesa Ramana (a bela Sandrine Holt que antes fez “Hábito Negro”) é o objeto do desejo do inquieto e inconformado escravo Make (Esai Morales), mas ama de fato o nobre Noro (Jason Scott Lee, de uma etnia indefinida entre o polinésio e o oriental –chegou a interpretar Bruce Lee em uma cinebiografia!). Noro e Make são grandes amigos, mas a cartilha dramática de filmes feitos à moda antiga manda que um embate pelo coração de Ramana os torne antagonistas.
Em meio à isso, uma competição que elegerá o grande campeão da ilha deixa as suas duas classes (nobres e plebeus), já um bocado segregadas.
Make deseja vencer Noro como forma de compensar a predileção de Ramana por ele, mas aos poucos, Make transfere seu inconformismo para outro lugar: A devastadora e árdua tarefa imposta à sua classe de esculpir continuamente pedras gigantescas em forma humana para satisfazer os deuses, trabalho pesado e insano que está esgotando as forças dos homens e exaurindo as árvores da ilha. No entanto, com o tempo, a liderança de Make na tentativa de livrar os seus da opressão o tornará alguém mais obscuro e lúgubre.
Nesse ínterim, tudo o que almeja Noro é viver em paz ao lado de Ramana, fato que a disputa de Make, a oposição da família de ambos, e a própria extinção inexorável e imediata de seu povo tentarão obstruir.
A despeito dos esforços verdadeiramente constituídos de mérito, tanto o diretor Reynolds (cuja narrativa consegue ser empática e vibrante) quando o produtor Costner não conseguiram fazer de “Rapa Nui” mais do que uma empolgante “sessão da tarde” –é um filme agradável, bonito e interessante de fato, mas igualmente chafurdado em clichês e desprovido de qualquer elemento digno de se considerar memorável (nesse sentido, Mel Gibson, treze anos depois, foi bem mais feliz com seu “Apocalypto”).
Ao menos, fez um sucesso razoável e tem, ainda hoje, seus admiradores. Já, os dois Kevins, o Costner e o Reynolds, continuariam com seus planos ambiciosos que, ainda na década de 1990, culminariam com o catastrófico “Waterworld-O Segredo das Águas”, esse sim um fracasso tão retumbante que quase poria fim à carreira dos dois.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Dança Com Lobos

A primeira parte de “Dança Com Lobos”, sucedida na civilização mostra o ‘homem branco’ de maneira desagradável, o lado mais sujo da humanidade: Capturado em meio aos conflitos da guerra (a de Secessão, no caso), o registro é de pessoas relapsas, sujas, quase sempre ocasionadas de um suor incontrolável, cercadas de violência, corrupção e escárnio.
É nesse momento que nos é introduzido seu protagonista John Dunbar (vivido por aquele que vem a ser também o diretor estreante do filme, Kevin Costner), um oficial que devido a um ato desesperado durante o conflito (ele praticamente tenta se matar para que não lhe amputem a perna) acaba sendo condecorado.
Já nesse prólogo se percebe certo maniqueísmo de teor romantizado que constitui a narrativa de Costner –e que, não por acaso, acabou seduzindo os críticos e a Academia de Artes Cinematográficas no início dos anos 1990 –os ‘homens brancos’ são quase sempre feios, desleixados, detestáveis e repulsivos, enquanto que os índios nativos, e sua cultura (como descobriremos mais tarde), são magníficos, exuberantes, altivos e admiráveis.
É com eles, afinal, que Dunbar irá se deparar quando, ao procurar tranqüilidade, ele recebe um posto avançado em território hostil, ainda dominado pelas tribos indígenas. Nesse ponto, a obra de Costner assume outro tom, certamente mais agradável, no qual enfim seu filme se mostra bonito, paisagístico e, no fundo, ecológico; a vida em meio à natureza começa a revelar-se como algo nobre, valoroso e admirável.
Pouco a pouco, Dunbar percebe a presença dos nativos no território onde escolheu isolar-se, e, nos dias que se seguem busca se comunicar.
A metamorfose do próprio Dunbar enquanto personagem caracterizado é, ela própria, exemplo perfeito da postura do diretor: Ele vai deixando a barba mau-cuidada para trás em lugar de um rosto limpo, ganhando as fotogênicas feições do astro de cinema que Costner é.
Conclui-se, portanto, que com o tempo Dunbar vai envolver-se com a vasta tribo local onde criará amizades; um dos membros mais intrigados e fascinados com esse ‘homem branco’ vem a ser Pássaro Esperneante, interpretado com dignidade e excelência por Graham Greene.
Esse maniqueísmo de que falei acima é um recurso usado por Hollywood mais notadamente em histórias de amor (e “Dança Com Lobos” é, sob muitos aspectos, uma história de amor) e, a despeito dos vastos argumentos prós e contra essa postura dramática, Costner construiu com eles um filme sedutor: Não chega e ser surpresa, então, quando o roteiro revela –naquela que, talvez, seja sua manobra mais reprovável –que entre os índios há também (veja só!), uma mulher branca (a formidável Mary McDonnell) que havia sido por eles adotada quando era pequena e teve a família chacinada: Personagem feita sob medida, portanto (como só o cinema de ficção é capaz de fazer), para que o protagonista tenha um par romântico propício para a satisfação da platéia.
Costner também salienta os aspectos dramáticos: Há elementos de sobra a se interpor entre o personagem principal e sua busca por paz e tranqüilidade e, sobretudo, ele enfatiza o inevitável temor de Dunbar, de que “Os homens brancos estão chegando!”, como forma de ratificar seu lamento por uma civilização varrida da terra que era sua por direito –ainda que esse lamento soe, em seu filme, como um pouco de auto-promoção.
“Dança Com Lobos” conquistou incríveis 7 Oscars na cerimônia de 1990, um feito e tanto para o filme de estréia de um diretor, e mais ainda se pensarmos que havia pelo menos uma obra francamente superior à ele no páreo –o magistral “Os BonsCompanheiros”, de Martin Scorsese –entretanto, o faroeste de Costner, com sua narrativa à moda antiga e suas belíssimas imagens, certamente foi muito mais ao encontro do tradicionalismo da Academia: Hollywood, em seu pacifismo dúbio, é bem provável, se identificou com a postura tendenciosa do filme de Costner, numa tentativa de se retratar com os índios.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Estrelas Além do Tempo

O grande problema deste filme genuinamente simpático é a expectativa que o fato de ter ele sido indicado ao Oscar de Melhor Filme pode gerar: O público tende a esperar dele uma excelência e acabamento artístico que ele não tem.
Não é tão bom quanto “Histórias Cruzadas”, por exemplo (com o qual guarda imensas semelhanças), e certamente está longe de qualquer comparação com o magnífico “Os Eleitos”, cujos eventos narrados a trama desta produção aborda constantemente.
A grande verdade é que “Estrelas Além do Tempo” teve seu lugar entre os oito indicados ao Oscar 2017 devido a uma questão de cota: Foi a resposta não muito válida da Academia para a polêmica do “OscarSoWhite” ocorrida um ano antes –dessa forma, este filme singelo e descompromissado, que poderia surpreender o público, acabou alçado à um nível que sua simplicidade é incapaz de igualar. E isso pode estragar a experiência de vê-lo.
E ver “Estrelas Além do Tempo” é um bocado necessário.
Ele conta a história pouco conhecida de três mulheres negras de inteligência prodigiosa, Katherine Goble (Taraji P. Henson, charmosíssima), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer, de “Histórias Cruzadas”) e Mary Jackson (Janelle Monáe), que tiveram o infortúnio de viver na segregada Flórida, nos EUA dos anos 1960. Hábeis com números, elas foram recrutadas para trabalhar na NASA, em meio ao auge da Corrida Espacial Norte-Americana contra os russos.
Cada um das três amigas viveu seus revezes separadamente: Katherine foi nomeada consultora do chefe de operações Al Harrison (Kevin Costner) e, embora fosse melhor e mais capaz que a maioria de sua equipe, era obrigada não só a tomar café separadamente, como também tinha que caminhar 800 metros até o banheiro para negros mais próximo toda vez que precisava usá-lo (!); Dorothy tentou uma vaga como supervisora por meses –função que ela já vinha ocupando, tendo a supervisora oficial adoecido –o que lhe era negado paulatinamente por sua superiora, a amargurada Srta. Michaels (Kirsten Dunst). Sua saída: Com a chegada dos imensos computadores da IBM, ela roubou um livro da biblioteca pública (!) e especializou-se por conta própria em linguagem Fortran, tornando-se imprescindível; já, Mary lutou para tornar-se engenheira-chefe no departamento de construção de protótipos –e precisou obter uma autorização na Justiça para conseguir assistir aulas avançadas cujos cursos segregados eram, segundo a lei da Virgínia, exclusivos aos brancos.
Debruçadas, como todos os funcionários da NASA, ao pioneiro Programa Mercury, elas são mostradas em sua fundamental colaboração para com o inédito vôo orbital do astronauta John Glenn ao redor da Terra, evento que ocupa a maior parte da narrativa.
Uma história tremendamente edificante –e desta maneira tratada pela direção de Theodore Melfi que por vezes se deixa descontrolar pelo momento: Ele exagera na caracterização dos brancos opressores, pesa o ritmo em cenas que precisavam ser enxutas e perde um tempo precioso com detalhes banais. Sua condução não é tão acertada quanto a de Tate Taylor no equilibradíssimo “Histórias Cruzadas”, cujo tema e a presença de Octavia Spencer levam imediatamente a uma comparação, mas o filme tem seus méritos: A trilha sonora assinada por Hans Zimmer e Pharrell Williams (também ele produtor) tem lá seus momentos e a reconstituição de época é caprichadíssima. No numeroso elenco, além das excelentes Taraji P. Henson e Octavia Spencer, brilha também o magnífico Mahershala Ali (ele já havia feito par romântico com Taraji em “O Curioso Caso de Benjamin Button”), Janelle Monáe é a mais fraca das três protagonistas e, verdade seja dita, sua personagem ganha o arco narrativo mais mal trabalhado; os demais membros do elenco oscilam de forma maniqueísta entre o francamente apático (Kirsten Dunst, Sarah Palson, Jim Parsons, de “Big Bang Theory”) e o meramente displicente (Kevin Costner), a única exceção é a breve participação de Glen Powell (de “Jovens, Loucos e MaisRebeldes”) como John Glenn.
A despeito de suas limitações artísticas, “Estrelas Além do Tempo” é ainda assim um filme pertinente e essencial ao cumprir com louvor a tarefa de enfim jogar um pouco de luz sobre essas três mulheres cuja contribuição para a história norte-americana foi inestimável apesar de todos os obstáculos e injustiças que vieram a enfrentar.

sábado, 1 de abril de 2017

Robin Hood no cinema



Os mais distintos personagens e personalidades já povoaram as obras de cinema desde que a sétima arte foi concebida e adquiriu seu status de entretenimento popular. Drácula. Sherlock Holmes. Jesus Cristo. Entre eles, certamente está também o galante fora-da-lei que vive para atazanar a vida do xerife de Nothingham e maneja arco e flecha como ninguém.
As diferentes personificações de suas aventuras vão do humor assumido à mais comercial das aventuras, da descontração ao compromisso sério e respeitoso com a lenda, passando por reinvenções que visitam os mais diferentes gêneros e propostas.
Aqui, alguns deles:
As Aventuras de Robin Hood (1938)
Inicialmente dirigido por Willian Keighley, mas depois substituído por Michael Curtiz (de “Casablanca”) sob pretexto de que as cenas de ação, sem um realizador experiente, careciam de brilho, este clássico do capa & espada conta a história do fora-da-lei Robin de Locsley (um vistoso e fotogênico Errol Flynn, por muito tempo o grande astro desse gênero) que, escondido na floresta de Sherwood, roubava dos ricos para dar aos pobres desafiando assim o xerife de Nothingham, e ajudando os oprimidos camponeses, durante um período de opressão em que o perverso Rei João substituiu Ricardo Coração de Leão quando este havia partido para lutar nas Cruzadas em Jerusalém.
O conto de Walter Scott ganha aquela que, na opinião de muitos puristas, é sua versão definitiva, ganhadora do Oscar de Melhor Trilha Sonora.

Robin Hood-O Invencível (1960)
Longe de seu habitat natural –os filmes de terror dos estúdios Hammer –o diretor Terence Fisher trouxe a tiracolo um de seus astros recorrentes (Peter Cushing), e fez uma versão muita particular da lenda, concebendo uma trama que desvia-se dos acontecimentos mais conhecidos que cercam os personagens.
Nesta produção curiosa, Robin é interpretado com uma ponta de astúcia e ambigüidade –oriundas da formação artística do diretor Fisher, certamente –por Richard Greene, e trás consigo uma Lady Marian surpreendente num registro muito mais sensual do que pudico, personificada por Sarah Branch.

Robin Hood (1973)
Durante muito tempo tido como uma das referências da clássica história, o desenho da Disney –no qual Robin Hood ganha as formas e expressões ladinas de uma raposa –pode até frustrar quem espera por uma animação no patamar de qualidade do estúdio: A Disney enfrentava na época um período de reestruturação interna que prejudicou bastante o resultado final.
Robin Hood é um fora-da-lei que vive a perturbar as autoridades de Nothingham, sobretudo seu xerife, em função de sua luta para "roubar os ricos e dar aos pobres". Seu charme ousado e galante conquista inclusive o coração de Lady Marion, e a ira do Rei João. Lembrado sempre como um dos mais insatisfatórios desenhos da Disney, provavelmente por ter sido produzido num período em que os estúdios passavam por uma transformação profissional, logística e conceitual, é de fato, equivocado, na decisão de transformar a história de Robin Hood num emaranhado de cenas cômicas e dispersas que não dão unidade alguma à história e, sobretudo, ao colocar animais interpretando personagens humanos.

Robin Hood-O Trapalhão da Floresta (1974)
Pouco depois à animação da Disney, foi a vez dos Trapalhões lançarem a sua própria versão da lenda. No entanto, os Trapalhões, como eles passaram a ser conhecidos, não haviam sido formados ainda naquele ano de 1974 –os integrantes que vemos aqui se resumem a Didi (Renato Aragão, que neste filme leva o nome de Zé Grilo) e Dedé Santana (chamado aqui de Willian), e próprio humor feito por eles aqui não é tão inofensivo e dirigido às crianças como, aos poucos passou a ser feito, mas a história, em sua tentativa algo satírica de transpor a lenda de Robin Hood para o contexto brasileiro –inclusive com um sutil subtexto a falar sobre os latifundiários e sua opressão ao proletariado –revela-se tão notável quanto curiosa, responsabilidade certamente da condução do diretor J.B. Tanko, realizador dos melhores filmes dos Trapalhões.
Na trama, Rei João é João Climério e Ricardo Coração de Leão é seu meio-irmão Ricardo que vai fazer um safári na África (!), deixando sua fazenda à mercê dos ditames tirânicos do vilão.
O grupo de foras-da-lei é, assim, um bando de aldeões que resolve perturbar o fazendeiro e seus capangas, lembrando um pouco o movimento sem terra –ainda que muito de suas caracterizações pareçam remeter à Revolta dos Farroupilhas.
Robin Hood (interpretado pelo galã Mário Cardoso que também participou de “Os Saltimbancos Trapalhões”) sofre um ferimento e, enquanto se recupera, é substituído em suas peripécias –no melhor estilo “Kagemusha”, de Akira Kurosawa!! –pelo personagem de Renato Aragão que, como sempre, apronta poucas e boas.
Décadas mais tarde, em 1990, Renato Aragão e seus companheiros (já compondo o grupo consagrado dos Trapalhões) voltaram a trabalhar numa nova trama envolvendo o personagem em “O Mistério de Robin Hood”, mas sem qualquer relação de história ou de essência com a lenda clássica –sem falar que era uma porcaria!

Robin & Marian (1976)
Eis que o diretor Richard Lester –normalmente um operário padrão dos estúdios tendo entregado ao longo da carreira inúmeras obras de encomenda, ainda que de qualidade, como “A Vingança de Milady”, “Viagem Fantástica” e até mesmo “Superman 3” –realiza um de seus melhores trabalhos.
Sua visão sobre a lenda ousa imaginar Robin Hood e sua trupe de coadjuvantes, não no início, como normalmente o cinema faz, enaltecendo a juventude, mas no seu apogeu.
Quando a história começa, já contam duas décadas dos famosos feitos de Robin, agora tornado um valoroso guerreiro de confiança de Ricardo Coração de Leão –e, por conta de qual mérito, todo esse tempo transcorrido, ele passou lutando nas Cruzadas (o quê a história contada fez parecer ser uma obsessão para Coração de Leão).
Com a morte do Rei Ricardo, Robin regressa para a Inglaterra almejando enfim uma vida de paz, mas as intrigas de seus arquiinimigos, o Xerife de Nothingham e o Rei João, não cessaram, e ele se vê obrigado a reunir o antigo bando de foras-da-lei em Sherwood, bem como retomar a relação com Lady Marian, que ficou todo esse tempo em um convento.
Veteranos de talento a toda à prova surgem assim interpretando os personagens já num momento crepuscular como Sean Connery (Robin Hood), Audrey Hepburn (Lady Marian), Nicol Willianson (Pequeno John), Ronnie Barker (Frei Tuck), Robert Shaw (o xerife de Nothinghan), Ian Holm (Rei João) e Richard Harris (Ricardo Coração de Leão), contribuindo para fazer desta uma das mais desiguais e primorosas versões do conto de Walter Scott.

Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões (1991)
Talvez o mais famoso dentre todos os filmes, muito por conta do enorme prestígio junto ao público que o astro Kevin Costner (recém-saído do oscarizado “Dança Com Lobos”) gozava à época. Ele e o diretor Kevin Reynolds tiveram uma longa e oscilante colaboração ao longo dos anos entregando trabalhos como o juvenil e divertido “Fandango”, o catastrófico “Waterworld-O Segredo das Águas” e a aclamada minissérie “Hatfields & McCoys”.
A trama vivenciada por Robin Hood aqui já era um indicativo das reinvenções nem sempre inspiradas que histórias clássicas como esta viriam a sofrer no futuro, nas mãos de produtores de Hollywood.
Neste filme, por exemplo, Robin Hood encontra os foras-da-lei de Sherwood já como um bando completo –nas outras versões, é o próprio Robin quem monta o grupo –o romance com Lady Marian (Mary Elizabeth Mastrantonio, uma das jovens atrizes em alta na época) tem elementos modernos de implicância, relutância e sensualidade; o vilão (Alan Rickman, divertido e caricato) não poderia ser mais pueril; o personagem inédito de Morgan Freeman (um mouro), de suma importância à trama, foi introduzido como forma de ilustrar esse objetivo de reinvenção (além de antecipar um processo de representatividade que hoje é via de regra entre filmes de estúdio); e as cenas com arco e flecha são turbinadas por efeitos visuais que especulam enquadramentos antes impossíveis.
Curiosidade: Sean Connery aparece aqui (numa ponta ao final) como Ricardo Coração de Leão, pelo que, à época, foi um cachê recorde por uma participação tão pequena.

Robin Hood-O Herói dos Ladrões (1991)
Este filme muito mais obscuro, além de ter a má sorte de ser lançado no mesmo ano do retumbante sucesso estrelado por Kevin Costner, também era prejudicado pelo fato de trazer uma série de escolhas equivocadas, a começar pela presença de Patrick Bergin como o Robin Hood mais desprovido de carisma da história (seu filme mais famoso é “Dormindo Com O Inimigo” onde ele faz o marido violento de Julia Roberts, e ele de fato serve mais para fazer vilões mesmo...).
Como se não bastasse, o diretor John Irvin se mostra pouco empolgado nas cenas de ação que quando não se desenrolam de maneira formulaica e mecânica apresentam uma sucessão de incoerências. Se há algum detalhe digno realmente de nota é uma jovem e sensual Uma Thurman interpretando uma Lady Marian carregada de presença e magnetismo.

A Louca! Louca História de Robin Hood (1993)
Inevitavelmente uma paródia. Entretanto, assinada por um dos grandes comediantes americanos dos anos 1970 e 80, o veterano Mel Brooks, mas que já mostrava sinais de cansaço nos anos 1990.
O galã Cary Elwes (de “Tempo de Glória” e que fez algum sucesso como uma versão moderna de Errol Flynn na fantasia “A Princesa Prometida”) é o Robin Hood nesta reencenação cômica e musical (!) da lenda –certamente, pegando carona do imenso êxito da produção com Kevin Costner, lançada anos antes –onde pouco se consegue achar de relevância: Mesmo as piadas parecem não ter maiores propósitos junto à narrativa, o quê é no mínimo frustrante quando se pensa que este é um filme do cara que fez “Banzé No Oeste” ou “Primavera Para Hitler”.
Para se ter uma idéia, este Robin Hood cômico é tão insípido que fica a dever (e muito!) à versão debochada e maliciosa do personagem que aparece, por brevíssimos minutos, na animação “Shrek”, de 2001.

Robin Hood (2009)
Já quase no fim da década de 2000, o diretor Ridley Scott e o astro Russell Crowe, vindos de uma longa e produtiva parceria (mas, cujo maior êxito foi indiscutivelmente “Gladiador”) resolveram revisitar a lenda a fim de conceber um projeto que, em suas tintas épicas e em sua ambientação medieval, resgatasse as mesmas características de seu grande sucesso.
O resultado foi uma reinterpretação bastante audaciosa da lenda que, além de tudo, almejava não apenas dar um inédito subtexto de realismo histórico, mas que também nascia com um esqueleto de saga: Este teria sido só o primeiro capítulo, firmando-se como uma espécie de “origem” de Robin Hood e não uma versão moderna de suas famosas aventuras –essas teriam vindo numa eventual continuação, se o filme tivesse feito sucesso suficiente de público.
Não fez.
Durante a incursão do Rei Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra, em Jerusalém, no Século 12, um grupo de seus arqueiros, liderados por Robin Longstride (Crowe, já um bocado velho para interpretar um herói no princípio de sua jornada), abandona as trincheiras na França, para retornar a sua terra natal. No caminho, Ricardo é morto, e os arqueiros se vêem no meio de uma conspiração para minar a coroa inglesa, agora sob o comando do irascível Rei João (Oscar Isaacs, muito mais jovem do que as versões anteriores). Levado pelas circunstâncias, Robin assume a identidade do cavaleiro morto, Robert Loxley, e assim apresenta-se no palácio real e, mais tarde, ao pai e à esposa do verdadeiro Loxley, em Notthinghan, onde vai a fim de devolver a espada do filho ao pai –neste filme, Lady Marian (interpretada pela sempre eficiente Cate Blanchett) não é filha do Rei João, numa das inúmeras licenças poéticas que se acotovelam no roteiro excessivamente rocambolesco e cheio de desdobramentos de Brian Helgeland (co-roteirista de “Los Angeles-Cidade Proibida”).
Mas o Rei João, em parte influenciado pelo traiçoeiro Godfrey (Mark Strong), colocará toda a Inglaterra ante uma invasão de tropas francesas, obrigando Robin a tornar-se líder de um bando de foras-da-lei.