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sexta-feira, 9 de julho de 2021

Quanto Mais Quente Melhor


 Do momento em que começa até a cena em que termina, “Some Like It Hot”, de Billy Wilder, mais do que sua capacidade de fazer rir, exercita também o poder de surpreender o público, ainda que, deveras, ele consiga fazer rir com frequência também. Sua cena de abertura é uma perseguição de carro acompanhada de tiroteio, em plena Chicago da década de 1920, apinhada de gangsteres ávidos por burlar a Lei Seca.

À essa perseguição, segue-se um momento onde os gangsteres levam um carregamento de bebida alcóolica (escondido dentro de um caixão destinado a um falso funeral!) a uma casa de shows clandestina. Vemos então que o mesmo local está prestes a receber uma batida policial graças a um escorregadio informante que logo se evade.

Mas, espere! Este filme não é aquela comédia com Marilyn Monroe, Jack Lemmon e Tony Curtis?

Sim, é. Mas, até chegarmos lá, o diretor Wilder gasta um tempo crucial e salutar preparando maravilhosamente bem seu contexto, não eximindo-se de moldar um prólogo até bastante carregado de violência e ameaça. Nele, seus protagonistas surgem em cena quase por acaso, quando a câmera desliza até Joe e Jerry (Curtis e Lemmon, numa dinâmica bastante parecida com a de Dean Martin e Jerry Lewis, sendo um o cafajeste de ares sedutores e o outro, o pateta que sempre se dá mal). Um saxofonista e um contrabaixista, respectivamente, Joe e Jerry tocam em uma banda de jazz naquele inferninho ilegal em Chicago. Quando a polícia baixa por lá, eles se veem obrigados a fugir e procurar por  mais emprego, terminando por testemunhar o assassinato do tal informante da polícia pelas mãos do mafioso Spats Columbo (George Raft).

Procurados pela máfia e pela polícia por estarem no lugar errado e na hora errada. Joe e Jerry precisam mais do que simplesmente fugir, eles precisam desaparecer sem deixar rastros e, de repente, uma ideia que antes parecia absurda começa a soar bem mais plausível: Disfarçarem-se de mulheres para entrar numa banda feminina com destino à Miami, na ensolarada Flórida.

É quando finalmente embarcam no trem que os levará para a Flórida já com suas novas identidades –Joe agora é Josephine; Jerry agora é Daphne –que os dois destrambelhados e azarados músicos se deparam com uma aparição: Sugar Kane, personagem que abarca os maneirismos inconfundíveis e poderosamente atrativos que Marilyn Monroe tornou icônicos; e na peculiar e, até certo ponto, desafiadora mescla de eficiência, magnetismo e espontaneidade com a qual ela moldou sua atuação aqui ela foi, enfim, contemplada com um Globo de Ouro de Melhor Atriz em Musical ou Comédia.

Billy Wilder sempre foi fascinado por personagens de dúbias intenções que, durante a maior parte da premissa, ocultam o que são e o que desejam por meio de atrapalhados (e elaborados) subterfúgios. Aqui, no que pode ser considerado sua grande obra, não é diferente: Embora dedicados no decurso de sua farsa –algo que, evidentemente, ocupa o cerne no filme –Joe e Jerry  têm seus instintos primais despertados pela insinuante, vulnerável e ingenuamente irresistível Sugar, e logo tentam enredá-la, sem muito saber como.

Na verdade, Joe, obviamente, descobre o caminho das pedras com mais rapidez, deixando o parceiro para trás: Ao chegar no hotel da Flórida, ele adota outro disfarce além daquela que já vinha interpretando (!); o de um milionário playboy, e com isso atrai Sugar, abertamente interessada em caçar um marido rico.

O trecho final transforma a comédia de Wilder num bem calibrado e pulsante espetáculo de humor físico quando o mesmo hotel recebe, na maior das coincidências, o pessoal do próprio Spats Columbo, reunindo protagonistas e antagonistas no mesmo ambiente, e dando oportunidade para sucessivas confusões.

Nunca foi muito segredo a visão desprendida, niilista e até certo ponto cínica que Billy Wilder possuía da sedução e do sexismo. Ainda que realizado numa época em que audácias temáticas precisavam do tempero da sutileza para ultrapassar o crivo de censores eventuais, “Some Like It Hot” é exemplar de várias facetas desse seu olhar atrevido: Para muito além da questão cômica do travestismo onde heterossexuais se obrigam a vestirem-se de mulher –que, certamente, inspirou outras comédias bem-sucedidas que vieram muito depois como “Tootsie”, “Uma Babá Quase Perfeita” e o irrisório “As Branquelas” –temos a abordagem quase canalha da parte do personagem de Tony Curtis (um protagonista apático que considero o grande ponto fraco do filme) em contraponto ao jogo de interesses declarado que dá início ao seu relacionamento com Sugar Kane. Nesse romance não estão em perspectiva quaisquer sentimentos de natureza genuína ou boas intenções; e o diretor parece bem à vontade com isso. E nem me deixem começar a falar sobre o personagem de Jack Lemmon e o rico pretendente que ele (ou “ela”) conhece no hotel (vivido por Joe E. Brown), o que culmina num dos finais mais absurdamente hilários do cinema.

“Ninguém É Perfeito.”

sábado, 27 de julho de 2019

Avanti! Amantes À Italiana

Se o filme “O Candelabro Italiano” é um clássico do romantismo, inclusive por aproveitar amplamente os cenários turísticos e a atmosfera lírica da Itália, este trabalho do diretor Billy Wilder, sempre de um tom cáustico para com as relações humanas, pode ser visto como um quase anti-romance.
Não há, por exemplo, em Jack Lemmon (nem em seu personagem), maiores intenções de capturar a afeição do público feminino; com efeito, também a personagem de Juliet Mills surge tratada dentro do filme por todos os personagens que a cercam como uma mulher gorda e sem atrativos –características às quais, curiosamente, a escalação da bela, deliciosa e encantadora Juliet Mills não correspondem nem um pouco, coisas de Hollywood...
“Avanti!”, enfim, parte de uma peça de teatro escrita por Samuel A. Taylor, na qual o empresário Wendell Armbruster Jr. (Jack Lemmon), chega à região italiana de Ischia para reconhecer e levar para os EUA o cadáver do próprio pai, Wendell Armbruster Sr., que morreu em um acidente de carro.
Todavia, surpresas logo complicam seus planos e acirram seus nervos: Ao que parece, seu pai não estava sozinho no momento do acidente. Estava acompanhado da amante, a qual também veio a falecer. E vem a ser consequentemente a filha dela, Pamela (Juliet Mills) que Wendell encontra seguidamente até chegar ao hotel onde estavam hospedados.
As circunstâncias os aproximam, mas Wendell, irritadiço e mal-humorado, não quer saber de conversa –este é certamente um dos personagens mais apáticos e rabugentos já interpretados pelo normalmente divertido e carismático Lemmon.
Ao menos, Juliet Mills consegue contrabalançar a apatia dele com uma presença radiante e lívida: É uma ironia, portanto, que ele tenha conquistado o Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical, enquanto que Juliet tenha sido somente indicada.
É claro que, em algum momento, o romance haverá de falar mais alto –estamos, afinal, na Itália, e o clima paradisíaco, e todas as situações características irão operar uma ligeira mudança em Wendell; que começará a enxergar Pamela com outros olhos.
Não esperem, contudo, uma comédia romântica com altas doses de sacarose: Antes de mais nada, a produção exala sarcasmo, inclusive para com o próprio gênero a que pertence.
O filme em si, na gama de assuntos que aborda e nas cenas que a partir deles materializa, é uma espécie de conquista tardia de Billy Wilder. Por anos, o diretor de “Crepúsculo dos Deuses” e “Quanto Mais Quente Melhor” entregou filmes (comédias em sua maioria) que desafiavam a moral e os costumes de seu tempo; e teve, no famigerado Código Hays, um constante obstáculo para expressar a totalidade de suas ideias.
Lançado em 1972, quando há tempos a censura já não era capaz de ditar restrições como antigamente, “Avanti” é um filme onde Wilder, mais até do que estruturar uma narrativa com zelo, tem a chance de se esbaldar moldando sua trama e suas cenas ao seu bel-prazer: Ele se dá o luxo de abordar um tema espinhoso como o adultério; faz sucessivas menções de cunho sexual sem ocultar malícia, faz questão de mostrar-se politicamente incorreto e ainda confere algumas cenas de nudez à Juliet Mills.
Simplesmente porque pode. Porque o Código Hays não tem mais força para impedi-lo de fazer o que quer.
Com efeito, “Avanti” resulta num filme não tão esplêndido quanto outros que Wilder entregou no auge de sua carreira. Entretanto, ele ainda consegue divertir, inclusive porque sua receita, no fim das contas, é mais graciosa do que ferina.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Síndrome da China

Michael Douglas é indiscutivelmente famoso como ator, mas na verdade, ele começou a carreira na indústria cinematográfica como produtor –talvez, desejoso de afastar-se de comparações com seu fulgurante pai, o astro Kirk Douglas –até mesmo o Oscar de Melhor Filme ele já havia conquistado (pela produção de “Um Estranho No Ninho”, em 1976).
Em “Síndrome da China”, o Douglas produtor tenta conciliar o Douglas ator, marcando presença num dos personagens fundamentais da trama.
Parte dos politizados esforços de desarmamento que moveram muitos veículos de mídia daquele período, “Síndrome da China” é dirigido por James Bridges que, de mais evidência, fez os filmes “Cowboy do Asfalto” e “Perfeição”, nos anos 1980, ambos com John Travolta.
E, se estamos falando de um projeto politizado, acaba sendo até espontânea a presença da estrela Jane Fonda. Ela vive Kimberly Wells, uma repórter televisiva constantemente frustrada na emissora em que trabalha: Bela e ruiva, ela é vista por seus superiores como uma apresentadora perfeita para noticiários banais em apresentações musicais e zoológicos. O sonho de cobrir um furo jornalístico de relevância parece-lhe um tanto distante.
Contudo, durante uma matéria corriqueira ao lado do cameraman Richard Adams (Michael Douglas) na usina nuclear de Verdana, Kimberly testemunha um acidente prontamente sanado pela equipe de manutenção.
A câmera de Richard, contra as orientações da empresa, filma toda a comoção da equipe cujos rostos assombrados e exacerbados indicam que a ocorrência foi muito mais séria do que sugere as atenuantes versões oficiais.
De seu lado, Kimberly e principalmente Richard, de natureza ativista e inconformista, tentam superar os inúmeros obstáculos para expor a verdade que aconteceu na usina nuclear.
Do outro, o veterano técnico Jack Godell (Jack Lemmon, fabuloso) descobre alarmantes indícios de que as certificações de segurança baseada nas quais a usina opera foram forjadas, ou seja, o funcionamento dos reatores nucleares pode acarretar uma catástrofe irreversível que os especialistas chamam de Síndrome da China.
Mais que uma realização brilhante de cinematografia (objetivo que ele atinge em partes), o filme de Bridges, em sua posição de denúncia, se faz notável pelo grau profético obtido por seu roteiro: Pouco depois de seu lançamento ocorreu o vazamento radioativo na usina nuclear de Three Miles Island, nos EUA, e logo mais tarde, deu-se o de Chernobyl, na União Soviética.

sábado, 24 de novembro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1956


Numa espécie de reconhecimento indireto ao grande cinema realizado então na Itália, o Oscar 1956 foi vencido por um filme que agregava as mesmas características do Movimento Neo-realista que definiam obras que estavam provocando um abalo sísmico no cinema, o sublime “Marty”. Nesse sentido, a premiação de Melhor Atriz para Anna Magnani –a primeira atriz italiana a vencer a categoria –também pode ser enxergada da mesma forma.
Além do Oscar de Melhor Filme (que ele venceu de grandes produções como “Suplício de Uma Saudade”, “A Rosa Tatuada”, “Férias de Amor” e “Mrs. Roberts”), “Marty” deu também o Oscar de Melhor Ator à Ernest Borgnine.

MELHOR FILME
"Marty"

MELHOR DIREÇÃO
"Marty", Delbert Mann

MELHOR ATRIZ
Anna Magnani, "A Rosa Tatuada"

MELHOR ATOR
Ernest Borgnine "Marty"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jo Van Fleet, "Vidas Amargas"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jack Lemmon, "Mrs. Roberts"

MELHOR FOTOGRAFIA P&B
"A Rosa Tatuada"

MELHOR FOTOGRAFIA CORES
"Ladrão de Casaca"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Samurai-O Guerreiro Dominante" (Japão)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"As Pontes de Toko-Ri"

MELHOR FIGURINO P&B
"Eu Chorarei Amanhã"

MELHOR FIGURINO CORES
"Suplício de Uma Saudade"

MELHOR SOM
"Oklahoma"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE P&B
"A Rosa Tatuada"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE CORES
"Férias de Amor"

MELHOR TRILHA SONORA MUSICAL
“Oklahoma"

MELHOR TRILHA SONORA DRAMA
"Suplício de Uma Saudade"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Love Is A Many Splendored Thing", de "Suplício de Uma Saudade"

MELHOR ROTEIRO
"Marty"

MELHOR HISTÓRIA ORIGINAL
"Ama-Me Ou Esquece-Me"

MELHOR HISTÓRIA & ROTEIRO
"Melodia Interrompida"

MELHOR MONTAGEM
"Férias de Amor"

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

A Primeira Página


A vida do repórter Hildy Johnson (Jack Lemmon) não anda nada fácil: Se por um lado está nas nuvens pelo fato de que vai se casar com a maravilhosa Peggy (Suzan Sarandon), por outro, seu esperto editor Walter Burns (Walter Mathau) não lhe desgruda do pé –na polvorosa Chicago dos anos 1920, a iminente execução de um rapaz que afrontou um policial mobiliza a opinião pública e os interesses políticos que, ao sabor da controvérsia, podem acabar colocando na forca o pescoço de um homem inocente.
Para Burns, raposa que ele só, o repórter mais indicado do jornal “Examiner” (no qual ambos trabalham) para cobrir tal evento só poderia ser Hildy. Somente ele tem (como ficará até provado mais tarde) a experiência, a desenvoltura e o traquejo para farejar a notícia de primeira página da forma como os editores mais ambiciosos almejam: Bombástica, de preferência.
Hildy, no entanto, não quer nada disso. Seu coração bate por Peggy, junto da qual estará a caminho da Philadelphia para casar enquanto o infeliz estará sendo enforcado.
Contudo, Burns tem lá seus estratagemas para enredar Hildy –que contam com uma boa dose de sua paixão não declarada pelo intrépido ofício de repórter, sentimento que essa reportagem irá despertar no momento em que o prisioneiro em questão, Earl Williams (Austin Pendleton, aparentando tudo menos um cara perigoso) fugirá debaixo do nariz da polícia e da cabine de imprensa poucas horas antes de seu enforcamento.
Moldando uma nova versão da peça de Ben Hecht e Charles MacArthur –já havia sido filmada em 1931, com “A Última Hora”,  em 1940, com “Jejum de Amor” e seria novamente em 1988, com “Troca de Maridos” –o diretor e roteirista Billy Wilder não perde a chance de reunir a dupla matadora Jack Lemmon/Walter Mathau (em quem a dinâmica hilária dos dois personagens principais funciona às mil maravilhas) nesta encenação primorosa que, ao seu gosto, lança um olhar pulsante de sarcasmo para os meandros nem sempre éticos do disputado processo jornalístico, onde muitas vezes prima o sensacionalismo, assim como da própria instauração da ordem e dos escorregadios conceitos de culpa e inocência.
Sua direção incansavelmente bem-humorada é pródiga em encontrar soluções brilhantes.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Se Meu Apartamento Falasse


Bud Baxter (Jack Lemmon, perfeito em sua inquietude e perplexidade) ocupa uma função curiosa e extracurricular no grande escritório em que trabalha: Embora seja um funcionário insignificante, os favores constantes prestados aos tubarões maiores representam possibilidade de crescimento profissional.
Sendo solteiro, sozinho e com pouca aptidão para a conquista das mulheres, ele pode deixar seu apartamento constantemente disponível às escapadelas (não raro extraconjugais) dos executivos da empresa. Esse arranjo o faz alguém bem quisto entre os figurões.
Ocasionalmente, algum contratempo (como um acesso inesperado de gripe) obriga Bud a rever suas combinações –vez ou outra, afinal, ele precisa de seu apartamento para simplesmente repousar nele! E, nesse sentido, o comentário social implícito na situação prodigiosamente bem construída pelo diretor Billy Wilder, ganha as mais rasgadas ênfases de comédia –nada de circunstancias dramáticas ou empostadamente sérias, para Wilder a reflexão atinge um contexto mais amplo e penetrante se ela vem enlaçada no charme e no envolvimento do humor.
Claro que, em algum momento, na observação a que se pretende, o filme haverá de ganhar algum realce mais austero; mas isso só o faz inclinar sutilmente para outro gênero do qual Wilder pode se gabar de ter sido um dos pioneiros –a comédia romântica: Quando pouco a pouco começa a se afeiçoar à uma jovem secretária da empresa (Shirley MacLaine, encantadora), Bud descobre que ela é uma das inúmeras jovens que terminam as noites conduzidas para seu apartamento onde exerce a nada lisonjeira ocupação de amante de um dos patrões. Um detalhe que logo o fará ver seu envolvimento nesse arranjo sórdido –envolvimento este que Bud, até então, enxergava com auto-indulgência. Se os patrões eram cafajestes com as mulheres, ele não tinha nada com isso. Fornecia o apartamento somente, mantendo-se de consciência limpa.
Ledo engano, é o que Wilder fará seu protagonista perceber: Ao proporcionar as condições para que o mau-caratismo machista possa se aproveitar de jovens subordinadas, Bud se coloca numa situação em que, mesmo sem usufruir do abuso é, também ele, um abusador.
Audacioso e certamente inovador na denúncia trabalhista que vislumbrar em tempos que a própria revolução sexual era uma novidade, “Se Meu Apartamento Falasse” esconde habilmente seu teor controverso com uma impecável aura de romance cativante –no que o par composto por Lemmon e MacLaine se mostra uma escolha certeira.
Como é comum em sua filmografia, Wilder une primorosamente uma insuspeita capacidade de divertir de forma inteligente com uma pertinente e esperta compreensão das mazelas corruptíveis da realidade.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A Corrida do Século


Após uma bem-sucedida parceria em “Quanto Mais Quente Melhor”, os astros Jack Lemmon e Tony Curtis tornaram a trabalhar juntos, desta vez sob a direção do especialista em comédia pastelão Blake Edwards –e o resultado tornou a ser maravilhoso!
Desta vez, no entanto, eles não faziam o papel de parceiros, mas de antagonistas, sendo Tony Curtis o herói e Jack Lemmon, o vilão.
Com efeito, o crápula vivido por Lemmon é tão caricato, engraçado e carismático que, por vezes, ofusca o mocinho algo genérico de Curtis, ainda que sua persona agradável faça, em prol do protagonista, exatamente aquilo que se espera dele.
“A Corrida do Século’ se inicia com esquetes que não necessariamente elaboram a trama que o filme terá, mas ilustram, de forma inapelavelmente divertida, a rivalidade entre o mau-caráter Professor Fate (Lemmon) e o solícito e engomadinho piloto Leslie (Curtis), ou melhor, o Grande Leslie –e nessas esquetes se percebe o pleno domínio cômico de cena que o diretor Edwards ostentou tantas vezes.
A trama, por assim dizer, se desenha de fato quanto os dois disputam então uma corrida pra valer que parte de Nova York em direção à Paris; e, portanto, envolve não somente carros de corrida, mas toda sorte de meios de transporte!
Nesse percurso, a corrida se transfigura com a aparição de outros personagens que acrescentarão ainda mais molho aos planos ingenuamente malignos de Prof. Fate para vencer a corrida trapaceando.
Embora tenha um reconhecimento menor que a série “A Pantera Cor-De-Rosa”, “A Corrida do Século” revela tão divertido, envolvente e indicativo do talento de Blake Edwards quanto aquele projeto.
E mais: Como ele, este filme também inspirou um desenho animado; “A Corrida Maluca”, cujo personagem vilanesco, Dick Vigarista, é recriado à imagem e semelhança do Prof. Fate de Jack Lemmon.

sábado, 7 de julho de 2018

Os Vencedores do Oscar 1974


O prêmio de Melhor Filme foi para o ótimo “Golpe de Mestre” (entre seus concorrentes, o fenômeno “O Exorcista”!). Jack Lemmon levou o de Melhor Ator e a hoje não tão lembrada Glenda Jackson conquistou seu segundo Oscar de Melhor Atriz (!).
Os coadjuvantes foram: O não muito famoso John Houseman e a menininha Tatum O’ Neal que fez história ao conquistar o prêmio com apenas 10 anos de idade.
Mas, quero aproveitar para esclarecer uma enorme confusão feita pelo próprio Oscar naquela época: Na retrospectiva da semana passada, sobre a cerimônia de 1975, é mencionada a indicação ao prêmio de coadjuvante para Valentina Cortese, por “A Noite Americana”, e de fato o filme de Truffaut teve tal indicação –e em 1975, ele concorreu também a Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original –contudo, o prêmio de Filme Estrangeiro na cerimônia de 1975 foi para “Amarcord”, de Fellini, enquanto que “A Noite Americana” ganhou o prêmio de Filme Estrangeiro um ano antes, 1974 (como pode ser conferido abaixo)!
Mas, como? “A Noite Americana” foi lançado nos cinemas americanos com um ano de atraso, os votantes da Academia que elegem os filmes estrangeiros não são os mesmos das demais categorias, assim, os membros votantes de 1975 só descobriram que o filme era bom o suficiente para concorrer em outras categorias um ano depois que ele já havia sido premiado –o que não o impediu de ganhar novas indicações.
O mesmo, diga-se, ocorreu com o próprio “Amarcord”: A obra-prima de Fellini arrebatou, em 1975, o prêmio de Filme Estrangeiro, mas em 1976, lá estava Fellini concorrendo pelo mesmo filme como Melhor Diretor (conquistado por Milos Forman, de “Um Estranho No Ninho”) e Melhor Roteiro Original (conquistado por “Um Dia de Cão”).
Coisas do Oscar.

MELHOR FILME
"Golpe de Mestre"

MELHOR DIREÇÃO
"Golpe de Mestre", George Roy Hill

MELHOR ATRIZ
Glenda Jackson, "Um Toque de Classe"

MELHOR ATOR
Jack Lemmon, "Sonhos do Passado"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Tatum O’ Neal, "Lua de Papel"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
John Houseman, "O Homem Que Eu Escolhi"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Gritos e Sussurros"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"A Noite Americana" (França)

MELHOR FIGURINO
"Golpe de Mestre"

MELHOR SOM
"O Exorcista"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Golpe de Mestre"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

MELHOR TRLHA SONORA ADAPTADA
"Golpe de Mestre"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"The Way We Were", de "Nosso Amor de Ontem"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Golpe de Mestre"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Exorcista"

MELHOR MONTAGEM
"Golpe de Mestre"

segunda-feira, 21 de maio de 2018

12 Homens e Uma Sentença


Após grandes obras que definiram o panorama cinematográfico da década de 1970, o diretor William Friedkin andou meio diluído em projetos incapazes de expor a contento sua habilidade desigual e seu talento feroz.
Ao chegar na década de 1990, suas grandes obras já não ressoavam na forma de maiores oportunidades no cinema restando o consolo da TV. É assim que chegamos a esta refilmagem televisiva do clássico de 1957 dirigido por Sidney Lumet que Friedkin encarou com disposição e energia.
Não há cenas externas em “12 Homens e Uma Sentença”. De acordo com a propensão artística de Lumet, tudo nele sugere um espetáculo essencialmente teatral, contudo, a obra de Friedkin estrapola essa condição paulatinamente através de posicionamentos petulantes de câmeras e jogadas cênicas que dão frenesi e alta voltagem a sua premissa.
Houve um crime (do qual temos apenas um indício sonoro durante a tela preta que introduz o título). E há, assim, um julgamento.
Ou melhor: Já houve. O roteiro de Reginald Rose (o mesmo do filme original) nos coloca diretamente na deliberação do júri, quando a sentença do réu (um rapaz latino que pode ou não ser culpado do crime) será decidida por doze jurados desconhecidos e anônimos.
A idéia é de que, se houver uma dúvida cabível, a culpa pode ser revogada. Em princípio, não é isso que ocorre: Liderados com certa ênfase por um senhor intransigente e apressado (George C. Scott, ótimo), o júri chega rapidamente ao veredicto de culpado. Entretanto, dois jurados (os magníficos Jack Lemmon e Hume Cronyn) levantam a possibilidade de uma série de dúvidas cabíveis.
Os demais têm pressa. Mas, os dois, pouco a pouco, os fazem ponderar melhor. Nesse processo, todos os doze jurados revelam algo novo acerca de suas próprias considerações morais: O rapaz que, de início, encara seu afazer com superficialidade, almejando ir ao jogo de futebol (Tony Danza); o senhor polido, culto e aparentemente sábio que usa a própria austeridade como forma de se proteger das incertezas (Armin Mueller-Stahl, sensacional); o operário-padrão desinteressado em capitanear opiniões, mas ciente das conseqüências (James Gandolfini, soberbo); o homem racista que, perto do fim, revela suas verdadeiras e torpes intenções (Mykelti Willianson, de “Forrest Gump”), e outros.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar

A década de 1960 não foi somente um período marcante de mudanças e transformações para os EUA e o mundo; foi também uma época a qual aparentemente, o diretor Oliver Stone custou a conseguir deixar de lado. A maior parte dos grandes títulos de sua filmografia, ao menos durante as suas duas primeiras décadas de atividade como cineasta, se dedicam a falar sobre episódios essenciais desse trecho da história americana.
Se a Guerra do Vietnam é uma parte indissociável do contexto de “Platoon” e “Nascido em 4 de Julho”, em “JFK”, ele lança seu olhar parcial, paranóico e imbuído de uma tendenciosa maestria cinematográfica sobre os percalços e conseqüências do assassinato do então presidente americano John F. Kennedy, cometido –acredita-se –pelo atirador Lee Oswald (aqui interpretado com peculiaridade por Gary Oldman). A base para esse olhar, Stone encontra na teoria controversa do promotor Jim Garrison –personificado com segundas intenções da parte de seu diretor pelo astro Kevin Costner: Na época, devido à sua participação no aclamado épico “Dança Com Lobos” e em outros sucessos de bilheteria como “Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões”, Costner era enxergado como uma espécie de herói americano, o tipo de intérprete escolhido a dedo para se colocar num personagem do qual o diretor não deseja que a platéia duvide.
Desde a utilização brilhante do famoso e vídeo amador de Zapruder –uma prática habitual no cinema de Oliver Stone –ao emprego de uma riqueza documental e informativa incomum para qualquer superprodução (por tais valores, “JFK” levou os Oscars de Melhor Fotografia e Montagem) e o uso pontual de participações notáveis de um elenco diverso e estelar, todas as exuberantes facetas deste filme são administradas por seu diretor na imposição demagógica de sua própria ideologia e ponto de vista –provavelmente a grande ressalva em toda a filmografia fascinante de Stone.
Garrison acreditava numa possibilidade bem diferente daquela ventilada pela imprensa. Para ele, Oswald era um mero bode expiatório para toda uma conspiração que envolvia inúmeros interessados em dar cabo de Kennedy –e para tanto, um de seus argumentos é de que a sucessão de tiros obtida unicamente por Oswald naquele atentado seria humanamente impossível para um atirador sozinho executar.
A partir daí, subjetivada nas investigações de Garrison, a narrativa de Stone desfralda uma conspiração que ganha ares assombrosos e aterradores ao longo das três horas de duração do filme.
E Stone o faz com uma mescla assombrosa de tensão e intensidade, deixando entrever, apenas em alguns rápidos momentos de seu último terço a pecaminosa tendência do diretor em alterar obviedades históricas apenas para salientar seu próprio ponto de vista.
Um grande filme de um diretor tendencioso que soube empregar como poucos as ferramentas do cinema com perversa astúcia.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O Sucesso A Qualquer Preço

A origem teatral do projeto é imposta poderosamente na direção de James Foley que engessa a narrativa o tempo todo em um único ambiente. Existem, quando muito, pequenos lapsos do roteiro de David Mamet que esboçam situações em outros lugares, mas o cenário é essencialmente o escritório de vendas aonde a tensão vai ganhando corpo graças principalmente ao majestoso elenco masculino.
Glengarry Glen Ross é a firma de vendas imobiliárias em Chicago que se beneficia, sobretudo, da lábia tarimbada de seus corretores: O calejado Shelley (Jack Lemmon); o irascível Dave (Ed Harris); o titubeante George (Alan Arkin); além do gerente tentacular e impiedoso Williamson (Kevin Spacey) e do representante da empresa titular, Blake (Alec Baldwin).
Homens endividados de classe média nos idos dos anos 1990, eles precisam ofertar, enaltecer e vender seu produto de porta em porta. A comissão garante que o sucesso de suas vendas seja proporcional ao lucro que obtêm. Todavia, nenhum deles se mostra satisfeito com tal sistema, ao contrário, muitos deles vêem, desesperados, clientes que lhes consomem tempo precioso de conversa e terminam não comprando nada.
A única exceção é Ricky Roma (Al Pacino, formidável), o campeão de vendas absoluto do escritório.
A fim de incentivar o mesmo ímpeto nos outros desanimados vendedores, a empresa disponibiliza certos bônus que vão além da comissão, em troca de um aumento quase inumano no índice de vendas. Para pressioná-los, o fantasma da demissão paira sobre todos.
É quando alguns deles começam a elaborar planos mais ilícitos.
O ambiente parece uma panela de pressão onde os ânimos e os propósitos vão se somando até a tensão chegar a níveis notáveis. A direção de Foley e o roteiro de Mamet são perspicazes ao trabalhar um conto enxuto (menos de uma hora e meia de duração), objetivo e incisivo sobre as desesperanças da agitada vida moderna, a analogia implacável da seleção natural, as ironias do drama e a máxima de que nada é fácil para ninguém.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Hamlet

“Ser ou não ser... eis a questão.” O protagonista existencialista de “Hamlet” questionava até mesmo o ato de existir. Não era a toa que sua vida dava espaço para o desiludido questionamento: Seu pai faleceu, e em apenas um mês, seu tio terminou desposando sua mãe, o que levou Hamlet a ser visitado pelo fantasma de seu pai, que lhe convocava para representá-lo em sua vingança.
Assim se constrói uma das peças de Shakespeare mais famosas de todos os tempos, traduzida e preservada na integridade de suas quase intransponíveis quatro horas de duração pelo ator e diretor Kenneth Brannagh. Como é um ator, Brannagh enfatiza seu elenco monumental através da narrativa, fornecendo a eles planos longos, à vezes intermináveis, onde podem declamar o bardo na íntegra, e também dá prioridade ao texto, o que termina evidenciando sua verborragia.
É um trabalho perigosamente disperso, no qual o expectador desavisado corre o risco de ser esmagado por uma narrativa de teor, tamanho e envergadura tão exuberantes, raramente vista no atual circuito comercial.

  Fiel à sua formação de origem (o teatro), Brannagh realizou um grande filme, ainda que bastante difícil e denso, honrando seu elenco majestoso (e composto por inúmeros colaboradores) e a verve do autor, cuja genialidade ele dedicou boa parte de sua filmografia a ressaltar: William Shakespeare.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Short Cuts - Cenas da Vida

Dentre todos os diretores norte-americanos, aquele que mais logrou o objetivo de realizar um painel, um afresco acerca dos micro-cosmos que abordava, sempre foi Robert Altman. 
Oriundo do teatro, de onde tirou muitos dos artifícios que pôs em prática em sua carreira cinematográfica, ele era adepto de elencos numerosos, e de um clima de improviso constante no set: Não à toa, isso atraia grandes nomes para seus filmes. 
Por uma série de razões, “Short Cuts” é um de seus trabalhos mais memoráveis, em meio a tantas obras essenciais como “O Jogador”, “Nashville”, “O Perigoso Adeus” e “Assassinato em Gosford Park”.
Aqui, Altman mergulha na adaptação de vários contos de Raymond Chandler, descobrindo no processo o quando esse escritor (cronista nato da angústia corriqueira da sociedade americana) é tão similar a ele. 
São cerca de vinte e dois contos, mesclados uns aos outros, até o ponto de parecerem indivisíveis. Juntos formam um painel de três horas de duração das idiossincrasias ocultas nas entranhas de personagens vingativos, cruéis, perversos até, mas que se travestem de pessoas absolutamente normais.
Não é fácil para o frustrado Jerry (Chris Penn) acompanhar a rotina de sua esposa Lois (Jennifer Jason Leight) que, ao mesmo tempo em que cuida da casa e dos filhos, divide-se no serviço de atendente de sexo por telefone a fim de completar a renda mensal. Uma raiva reprimida cresce dentro dele. Assim como também cresce em seu amigo, Bill (Robert Downey Jr.) que busca extravasar a própria crueldade fazendo maquiagens de agressão violenta e sanguinária na própria mulher, a passiva Honey (Lily Taylor).
Já, a dona de casa Ann (Andie MacDowel) experimenta aborrecimentos inesperados na forma de inconvenientes ligações do padeiro Andy (Lyle Lovett) enquanto tem de lidar com uma tragédia inominável, ao mesmo tempo em que seu pai reaparece (Jack Lemmon); diretamente envolvida nisso, a frustrada garçonete Doreen (Lily Tomlin) tenta dar a volta por cima numa happy hour com o marido Earl (Tom Waits); e por falar em happy hour, a tensão pode comprometer a descontração na festa planejada por Marian (Julianne Moore) e Ralph (Matthew Modine) ao lado dos amigos Claire (Anne Archer) e Stuart (Fred Ward), quando uma inesperada discussão de relação se inicia, tudo por conta da tensão sexual resultante do fato de ela pintar quadros com a própria –e exuberante –irmã nua (Madeleine Stowe) em frente ao marido (!).
Alheios a tudo isso, os amigos pescadores Vern (Huey Lewis) e Gordon (Buck Henry), junto do próprio Stuart, não permitem que nem a descoberta de um cadáver interfira em sua pescaria de fim de semana.
Por outro lado, Stormy (Peter Gallagher) planeja transformar a vida de Betty (Frances McDormand) sua iminente ex-esposa, em um inferno.
Um apanhado espetacular de histórias intrinsecamente conectadas (através de seu tom, de sua proposta, de pequenos detalhes e de múltiplas co-relações que se podem ser estabelecidas) onde a sondagem oferecida fornece um notável e raro panorama para interiores psicológicos imensamente intrigantes: Essa sempre foi uma das grandes qualidades de Robert Altman, montar uma encenação na qual sentimentos como o rancor, a rejeição, a aflição e até mesmo a fúria em sua expressão mais palatável, se revelam impulsos astutos para os pequenos desenlaces dos dramas humanos.