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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Sicario - O Dia do Soldado


O diretor Stefano Sollima segue uma estrutura parecida com a do grande filme de Dennis Villeneuve do qual é continuação, embora, no final das contas, este acabe sendo um filme bastante diferente.
Agora sem a personagem de Emily Blunt –uma espécie de bússola moral no filme –o roteiro também de Taylor Sheridan se concentra nos personagens um tanto ambíguos de Josh Brolin e Benicio Del Toro, permitindo ao filme um mergulho sem ressalvas nos meandros mais sórdidos da politicagem que norteia as decisões a pairar nas operações militares da fronteira EUA/México. Este certamente era um dos propósitos do filme anterior e, se era também aqui, ele se dilui um pouco na intenção de moldar, antes de tudo, um grande filme de ação.
O agente federal Matt Graver (Josh Brolin) tem como missão incumbida diretamente pelo novo ministro de defesa norte-americano (Matthew Modine) deter os ataques terrorista –com o emprego de homens-bomba e tudo –que veem se deflagrando na fronteira, a exemplo das ocorrências mais relacionadas ao Oriente Médio.
A solução de Graver espelha em muito a política usada pelos EUA lá: Incitar uma guerra entre os cartéis para que não haja hegemonia e nem união. Graver conta então com seu homem de confiança, Alejandro (Benicio Del Toro) que, desde que obteve parte de sua vingança no filme anterior tornou-se uma espécie de agente infiltrado, para sequestrar a filha do líder traficante Carlos Eyes, a jovem Isabela (Isabela Moner), e plantar indícios de que fora o cartel rival.
Entretanto, contratempos acontecem: Eles encenam o resgate dela de um cativeiro e quando tentam negociar sua devolução acabam atacados por policiais mexicanos corruptos, o quê acrescenta caos e imprevisibilidade ao plano.
Isabela se perde no deserto, enquanto Alejandro assume a tarefa de encontra-lo e tentar devolvê-la ao lar (ou ao lugar onde estiver mais segura). Nesse interim, a representante do governo dentro da malfadada missão (Catherine Keener) exige uma queima de arquivo, desejosa de apagar a relação do governo com uma missão tão controversa que encerrou-se catastroficamente –e isso significa colocar Graver diante do dilema de neutralizar Alejandro em definitivo.
Paralelamente a esses percalços cada vez mais aflitivos, a narrativa acompanha a vagarosa inclusão de um jovem latino de classe baixa no mundo do tráfico; caminho este que será cruzado com o de Alejandro e Isabela nos palpitantes quarenta minutos finais de filme.
Em meio à crítica nada disfarçada da postura prepotente do governo dos EUA em relação aos imigrantes, o filme realiza uma bela execução técnica de suas sequências de ação e suspense construindo, neste segundo filme, uma estrutura narrativa que demanda um terceiro episódio, sinalizado de maneira explícita em seu final aberto e algo inconcluso.
A despeito de suas imperfeições é uma produção que se eleva muito acima da média do gênero.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Memphis Belle - A Fortaleza Voadora


O diretor inglês Michael Caton-Jones sempre deixou que a irregularidade prevalecesse em sua obra. Uma irregularidade que contaminava suas escolhas estilísticas (nota-se em sua filmografia inclinações diversas para todos os tipos de posturas e gêneros) e as características de seus filmes em geral –houveram muitos diretores que optaram por filmes radicalmente diferentes uns dos outros, mas cuja personalidade manifestava-se na realização tornando similares obras que aparentavam extrema diferença.
Não é o caso de Caton-Jones: De filmes como a comédia rasteira “Dr. Hollywood-Uma Receita de Amor” e o drama “O Despertar de Um Jovem” à aventura “Rob Roy-A Saga de Uma Paixão” e a continuação pseudo-erótica de “Instinto Selvagem”, sua direção parece se adaptar à vontade de seus produtores, como o mais dócil dos operários.
Nesse contexto, o drama de guerra “Memphis Belle-A Fortaleza Voadora” é um de seus melhores trabalhos (talvez, com a honrosa exceção do thriller “Escândalo”).
Como em todos, nele prevalece as vontades e as intenções do produtor que, neste caso, é David Puttman que, desde a década de 1980, gozava de relativo prestígio tendo conquistado um improvável Oscar de Melhor Filme com “Carruagens de Fogo” (um dos grandes azarões do Oscar) e assinando ao menos uma obra inquestionavelmente cult, a mais peculiar e autoral de todas as versões de Tarzan, “Greystoke”.
Ambientado na Segunda Guerra Mundial e lançado muitos anos antes de “O Resgate do Soldado Ryan” –e, portanto, destituído do fulgor energético para com as cenas de batalha que o filme de Spielberg obrigou praticamente todos os filmes de guerra a ter depois dele –o enredo de “Memphis Belle” se inicia em 1943.
Há uma comoção à pairar na atmosfera daquela base aérea norte-americana ambientada na Inglaterra: Uma de suas tripulações (justamente a do B-17 nomeado Memphis Belle) está prestes a completar a inédita marca de vinte e cinco missões completas, o que fará dela a primeira equipe a conseguir completar suas tarefas e voltar para casa.
A derradeira missão é carregada de expectativa da parte dos soldados –que se dividem entre empolgação pela conquista iminente e medo da morte provável –e de seus oficiais, entre os quais o humanista e paternalista Capitão Dennis Dearborn (Matthew Modine, de outro belo drama de guerra, “Nascido Para Matar”, de Stanley Kubrick).
No percurso dessa missão (que consiste num arriscado bombardeio à cidade de Bremem, na Alemanha), e no suspense que ela suscita, o filme explora, numa narrativa embriagada da nostalgia do cinema à moda antiga que parece buscar, os anseios e reflexões muitos humanos de seus integrantes, abrindo espaço para um elenco masculino homogêneo e dedicado: O sensível e austero Danny (Eric Stolz); o impulsivo e sem-noção Rascal (Sean Astin); o boa-praça Clay (Harry Connick Jr. cuja verve de cantor é aproveitada numa das mais famosas cenas); o auto-declarado médico Val (Billy Zane); o tremendamente abalado Phil (D.B. Sweeney); o irrequieto e voluntarioso Luke (Tate Donovan); o resignado Virgil (Reed Diamond); o supersticioso Eugene (Courtney Gains); e o taciturno e sério Jack (Neil Giuntoli).
Nem tanto uma obra debruçada sobre o espetáculo da guerra quando à exaltação de bons sentimentos (embora a sequência final prime por realismo e intensidade), este filme abre mão de atos heroicos individuais para entregar a história de um emocionante e sincero esforço conjunto.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Nascido Para Matar

Os filmes anteriores do diretor Stanley Kubrick que abordavam a guerra foram o poderoso “Glória Feita de Sangue” e o épico “Spartacus”, sempre adotando um viés por meio do qual a observação se estendia para além do conflito, convertendo o projeto em algo diferente.
Mas, “Nascido Para Matar”, seu penúltimo trabalho, é um filme de guerra com todas as letras. Kubrick almejava pôr em perspectiva a “beleza do combate”, e vislumbrar com sua narrativa sempre inquisitiva, a forma como os homens abandonam as ideologias que os movem para entregar-se ao êxtase da batalha.
E, do início ao fim, ele põe em prática seu detalhismo metódico para expor esse argumento.
A primeira e impecável parte de “Nascido Para Matar” se passa num campo de treinamento militar onde paulatinamente suas câmeras mostram o processo de remoção de identidade dos recrutas voluntários (a primeira cena, onde todos têm seus cabelos podados é só o início) para transformá-los em soldados selvagens prestes a lutar no Vietnam.
Nesse entrecho, Kubrick já trata de povoar seu filme com elementos memoráveis: O sargento insanamente militarista interpretado com som e fúria por R. Lee Ermey; a profundidade de campo obtida pelas lentes em foco contínuo que registram o treinamento obcecado dos recrutas; a sucessão irônica, impiedosa e desumana de tarefas e procedimentos; e a gradativa imersão na loucura do desleixado soldado interpretado com brilhantismo por Vincent D’ Onofrio (que atualmente dá um show no papel de Rei do Crime na série do “Demolidor”).
Num corte seco –como lhe é de praxe –Kubrick arremessa o público na segunda parte de seu filme, quando a teoria do treinamento dá lugar à prática do combate propriamente dito e seu protagonista, Joker (interpretado por Matthew Modine) se vê em pleno Vietnam às voltas com inúmeros absurdos registrados no campo de batalha –tão mais absurdos por serem retratados com total despojamento por Kubrick, longe das alegorias e do surrealismo que Coppola impôs em seu “Apocalypse Now”.
Na visão de Kubrick, a guerra é uma circunstância atroz, sanguinária e irônica que expõe as facetas mais primitivamente pecaminosas do homem: A luxúria das prostitutas vietnamitas que dialogam com os soldados num bisonho sotaque inglês; a vaidade dos despreparados oficiais americanos que só pensam em sorrir para as câmeras; a sanha homicida incontrolável dos operadores de metralhadora; a avidez dos jovens soldados ao usar suas armas e descobrir o próprio poder de matar.
Tudo na narrativa de Kubrick especula a tremenda adequação que as emoções da guerra encontram na hostilidade inerente à condição humana, e partir daí vislumbra os ecos de uma esperança que ele por ventura se permite cultivar.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Short Cuts - Cenas da Vida

Dentre todos os diretores norte-americanos, aquele que mais logrou o objetivo de realizar um painel, um afresco acerca dos micro-cosmos que abordava, sempre foi Robert Altman. 
Oriundo do teatro, de onde tirou muitos dos artifícios que pôs em prática em sua carreira cinematográfica, ele era adepto de elencos numerosos, e de um clima de improviso constante no set: Não à toa, isso atraia grandes nomes para seus filmes. 
Por uma série de razões, “Short Cuts” é um de seus trabalhos mais memoráveis, em meio a tantas obras essenciais como “O Jogador”, “Nashville”, “O Perigoso Adeus” e “Assassinato em Gosford Park”.
Aqui, Altman mergulha na adaptação de vários contos de Raymond Chandler, descobrindo no processo o quando esse escritor (cronista nato da angústia corriqueira da sociedade americana) é tão similar a ele. 
São cerca de vinte e dois contos, mesclados uns aos outros, até o ponto de parecerem indivisíveis. Juntos formam um painel de três horas de duração das idiossincrasias ocultas nas entranhas de personagens vingativos, cruéis, perversos até, mas que se travestem de pessoas absolutamente normais.
Não é fácil para o frustrado Jerry (Chris Penn) acompanhar a rotina de sua esposa Lois (Jennifer Jason Leight) que, ao mesmo tempo em que cuida da casa e dos filhos, divide-se no serviço de atendente de sexo por telefone a fim de completar a renda mensal. Uma raiva reprimida cresce dentro dele. Assim como também cresce em seu amigo, Bill (Robert Downey Jr.) que busca extravasar a própria crueldade fazendo maquiagens de agressão violenta e sanguinária na própria mulher, a passiva Honey (Lily Taylor).
Já, a dona de casa Ann (Andie MacDowel) experimenta aborrecimentos inesperados na forma de inconvenientes ligações do padeiro Andy (Lyle Lovett) enquanto tem de lidar com uma tragédia inominável, ao mesmo tempo em que seu pai reaparece (Jack Lemmon); diretamente envolvida nisso, a frustrada garçonete Doreen (Lily Tomlin) tenta dar a volta por cima numa happy hour com o marido Earl (Tom Waits); e por falar em happy hour, a tensão pode comprometer a descontração na festa planejada por Marian (Julianne Moore) e Ralph (Matthew Modine) ao lado dos amigos Claire (Anne Archer) e Stuart (Fred Ward), quando uma inesperada discussão de relação se inicia, tudo por conta da tensão sexual resultante do fato de ela pintar quadros com a própria –e exuberante –irmã nua (Madeleine Stowe) em frente ao marido (!).
Alheios a tudo isso, os amigos pescadores Vern (Huey Lewis) e Gordon (Buck Henry), junto do próprio Stuart, não permitem que nem a descoberta de um cadáver interfira em sua pescaria de fim de semana.
Por outro lado, Stormy (Peter Gallagher) planeja transformar a vida de Betty (Frances McDormand) sua iminente ex-esposa, em um inferno.
Um apanhado espetacular de histórias intrinsecamente conectadas (através de seu tom, de sua proposta, de pequenos detalhes e de múltiplas co-relações que se podem ser estabelecidas) onde a sondagem oferecida fornece um notável e raro panorama para interiores psicológicos imensamente intrigantes: Essa sempre foi uma das grandes qualidades de Robert Altman, montar uma encenação na qual sentimentos como o rancor, a rejeição, a aflição e até mesmo a fúria em sua expressão mais palatável, se revelam impulsos astutos para os pequenos desenlaces dos dramas humanos.