Mostrando postagens com marcador Catherine Keener. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Catherine Keener. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Capitão Phillips


 Não há como evitar a expectativa que uma união entre um ator como Tom Hanks e um diretor como Paul Greengrass provoca no público ou em qualquer um que conheça o mínimo do trabalho dos dois.

Ainda assim, o resultado desse união, “Capitão Phillips”, conquista a aprovação do expectador por várias outras qualidades.

No início, com uma narrativa já determinada pelas inquietas câmeras na mão do diretor, acompanhamos a rotina de Richard Phillips (Hanks), capitão da marinha mercante norte-americana, preparando-se para mais uma incursão em alto-mar. O breve diálogo dentro do carro denota a preocupação de sua esposa (vivida por Catherine Keener) com os perigos eventuais de seu trabalho e, em última instância, com os efeitos dessa ausência prolongada no humor dos filhos –é uma cena reflexiva feita para estabelecer a conexão entre o protagonista e o público antes de toda ação se iniciar (e quando começa, não pára mais!), contudo, há uma impressão ligeiramente imprevista: Ela imediatamente remete às críticas mais assíduas que o filme de Greengrass recebeu quando de seu lançamento, afirmando que o verdadeiro Richard Phillips em certos momentos nunca chegou a dizer coisas que o personagem de Hanks disse, nem a fazer o que o personagem fez, ou estar nos lugares em que ele esteve. Em suma, se o filme desenha o protagonista como um genuíno herói da vida real, muitos foram os que se apresentaram para dizer que Richard Phillips não foi assim tão heróico...

Interpretado por Tom Hanks com a habitual e insolúvel capacidade para cativar a plateia que ele tem, Richard Phillips surge assim como o personagem principal com quem a plateia se identifica, de imediato, como a pessoa à qual ela irá ancorar sua torcida e simpatia. Entretanto, apesar do belo desempenho de Hanks, é na verdade a sua contraparte, do outro lado dessa trama de tensão e suspense, quem realmente consegue surpreender: Trata-se de Barkhad Abdi, no papel de Muse, líder dos piratas modernos que surgem em dado momento, e cuja atuação –indicada ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2014 –revela-se habilidosa e cheia de propriedades. Pena que todo o talento ostentando por Barkhad Abdi aqui corre o risco de se restringir à etnia de suas marcantes características; até então, ele só reapareceu numa interessantíssima ponta em “Blade Runner 2049”.

Morador de um povoado pobre na costa da Somália, Muse é um dos muitos moradores que enxergam no exercício da pirataria marítima uma oportunidade para confiscar algum item precioso. Ao lado de outros companheiros que unem perigosamente desespero e brutalidade, Muse tenta abordar a embarcação capitaneada por Phillips, com destino à Mombaça, no Quênia.

Se os piratas falham na primeira tentativa –os imensos cargueiros norte-americanos tinham mangueiras de alta pressão para afugentar os invasores –na segunda, eles conseguem se valer de uma brecha no sistema de defesa para adentrar a grande embarcação. O navio é tomado por piratas armados. Phillips se torna, oficialmente, o negociador da tripulação durante o tenso sequestro que se inicia.

Quando parecia que tudo teria um rumo previsto –com os piratas deixando a embarcação à bordo de um bote equipado chamado baleeira depois de confiscarem o que queriam –o grupo de Muse decide partir do navio levando Phillips como refém. Tem início então uma situação ainda mais árdua.

Como em “Vôo United 93” ou no primordial “Domingo Sangrento”, o diretor Greengrass, a partir daí, não poupa o fôlego do expectador: Sua narrativa evoca toda a pressão quase insuportável que todos os envolvidos experimentaram (os piratas somalianos com os nervos em frangalhos e cada vez mais perto de cometer uma loucura; os norte-americanos encarregados da negociação e suas frustrantes tentativas de assumir o controle da situação; e o próprio Phillips cuja integridade psicológica vai minguando diante da terrível provação).

A situação muda –e, no caso do filme, ganha mais urgência e ares de produção de ação –quando entram em cena os operativos do SEAL, que assumem a operação para tentar libertar o Capitão Phillips e, daí em diante, o filme fica sob a grave ameaça de parecer uma descabida propagando americanizada do desempenho logístico e operacional dos SEALs.

“Capitão Phillips” tem o mérito de retratar com ineditismo a pirataria moderna pelo prisma do cinema hollywoodiano, falta algo, contudo, que o impede de atingir a maestria sem par daqueles outros trabalhos de Greengrass, todos eles, geniais na forma com que relatam acontecimentos determinantes e pontuais no panorama sócio-político mundial.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Irresistível Paixão

Muito aclamada devido ao sucesso de público e crítica de “Onze Homens e Um Segredo” e suas continuações, a parceria entre o diretor Steve Sodenbergh e o astro George Clooney começou, de fato, neste sensacional “Irresistível Paixão”.
Aliás, astro pode ser termo, à época, precipitado para atrelar à George Clooney: Tendo deixado a série “Plantão Médico” para protagonizar o frustrante “Batman & Robin” –a mais catastrófica versão do Homem-Morcego para os cinemas –Clooney ainda não era um dos grandes nomes de Hollywood, mas, havia ganho tanto dinheiro para estrelar o mal-fadado filme que, na sequência, descobriu ter o privilégio de escolher a dedo seus projetos seguintes: Se colocar dinheiro no bolso já não era mais prioridade, ele podia passar a almejar a qualidade.
Foi assim que Clooney envolveu-se em trabalhos prestigiados como a aventura marinha “Mar Em Fúria”, o drama de guerra “Três Reis” e esta notável adaptação de Elmore Leonard, uma trama intrincada (bem ao gosto do autor) que, lá no fundo, versava sobre um caso de amor improvável entre um ladrão de bancos e uma oficial de justiça.
Clooney é Jack Foley, cujo orgulho é ter assaltado quase duzentos bancos sem jamais precisar sacar uma arma, em vez disso, Foley se valia de esperteza, inteligência e uma astúcia prodigiosa –características que ele põe em prática já na primeira cena.
Não adianta muito: Por um golpe de azar, ele vai preso mesmo assim.
Amargando mais algum tempo na prisão –e começando a concluir, por conta disso, que seu próximo golpe deve render sua aposentadoria definitiva desse negócio –Foley participa de uma fuga em massa, de cujo fracasso ele se desvencilha graças à cumplicidade do amigo Buddy (Vhing Rhames) e a casual aparição no local da agente federal Karen Sisco (a maravilhosa Jennifer Lopez, no papel que ajudou a construir sua imagem de símbolo sexual dos anos 1990) no carro de quem eles empreendem sua escapada.
Dividindo o porta-malas (eles a levam como refém), Foley e Karen trocam alguns minutos de conversa onde o diretor Sodenbergh permite-se vislumbrar com satisfação e exultação a química espetacular que Clooney e Jennifer compartilham em cena; é uma pena que eles não tenham feito outros filmes juntos.
A partir daí, revelando o gosto do hábil roteirista Scott Frank (de “Um Plano Simples” e “Minority Report-A Nova Lei”) para tramas elaboradas e fragmentadas, o filme se divide em duas linhas distintas de tempo, destinadas a se encontrar (e a se complementar) quando o filme de Sodenbergh atingir seu clímax: Numa delas, passada dois anos antes, vemos Foley em uma prisão da Flórida junto de outros detentos, entre eles, o estelionatário ricaço Ripley (Albert Brooks, de “A Musa” e “Bem-Vindo Aos 40”) e o ex-pugilista e bandidão barra-pesada Snoopy (o simpático Don Cheadle aqui, contudo, ameaçador). Na outra, evidentemente, acompanhamos os eventos subsequentes à fuga de Foley, suas tentativas de escapar ao jugo da polícia e do FBI e de prosseguir, ao lado de Buddy, com seu derradeiro golpe, aquele com o qual ele almejava se aposentar (assaltar a mansão de Ripley ao lado de Snoopy); além, é claro, das investigações por conta própria da esperta e persistente Karen Sisco que deseja reencontrar Jack, para prendê-lo novamente, ou quem sabe, descobrir o que é essa estranha atração que sentem.
Naquele ano, 1998, “Irresistível Paixão” chegou às salas de cinema capitaneando um formidável abalo sísmico no cinema comercial norte-americano, ao substituir as pirotecnias em voga nas produções de então por uma inteligência instigante e à toda prova –uma tendência inesperada e salutar que moldaria um pico insuspeito de qualidade entre as obras hollywoodianas naqueles anos –grande responsável pelo êxito deste filme foi também o tratamento sempre diferenciado de Steve Sodenbergh, um entusiasta nítido e confesso das narrativas antigas da Velha Hollywood, sobretudo, os filmes de gangster e os filmes noir. São tons e atmosferas que ele atribui à este brilhante e bem calibrado conto de polícia e ladrão, temperado com bem-vinda sensualidade, imprevisto requinte e palpitante virilidade: Sim, pois, em seu tumultuado, eletrizante e divertido desfecho não tenha dúvidas, o romance entre Jack Foley e Karen Cisco termina em bala!

sábado, 4 de abril de 2020

Jackass Apresenta Vovô Sem Vergonha

“Jackass” nasceu como um programa humorístico de quadros radicais na MTV –a frase “As cenas deste filme foram feitas por profissionais, você e seus amigos idiotas não tentem repeti-las em casa” ficou famosa durante um bom tempo! Eventualmente, “Jackass” migrou em versões para cinema, em meio às quais identificou-se um sucesso junto ao seu público de “Bad Grandpa”, o quadro onde o protagonista Johnny Knoxville era maquiado (brilhantemente maquiado, diga-se) como um velhinho octogenário que metia-se deliberadamente nas maiores confusões.
Após uma trinca bem-sucedida de longa-metragens para cinema de “Jackass” tornou-se um empecilho para os realizadores a fama e o reconhecimento de Knoxville –o fato do programa depender de flagrantes reais de pessoas comuns nas ruas dependia do detalhe incontornável deles não saberem quem seu personagem principal era (!).
Assim, pareceu inevitável o aproveitamento do conceito do quadro “Bad Grandpa”, ainda que a produção o faça lançando mão de subterfúgios inéditos para o programa “Jackass”.
Há inventividade em “Vovô Sem Vergonha”, entretanto, tal inventividade está oculta atrás de uma muralha de escracho, escatologia e humor politicamente incorreto, tornando um bocado possível passar despercebido do público.
Idealizado pelo autoral e conceituado Spike Jonze (que atua como produtor e argumentista) e dirigido por Jeff Tremaine (presente em todas as realizações anteriores, de TV ou cinema, de “Jackass”) “Vovô Sem Vergonha” parte do princípio inédito de que tudo, desta vez, é uma ficção –afinal, há personagens sendo interpretados por seus atores –e, portanto, segue uma certa linha narrativa. Só isso já distingue “Vovô Sem Vergonha” de todas as obras “Jackass” que sempre se amparavam em quadros que lembravam mais uma versão extrema das “pegadinhas”.
Assim, Knoxville é Irving, um idoso de 86 anos que perdeu a esposa recentemente. Ele tem um neto de oito anos, Billy (o notável Jackson Nicoll) cuja mãe (Catherine Keener), tão viciada em drogas quanto traficante, o deixa aos cuidados do velho para evitar a prisão. Irving não deseja cuidar de uma criança diante de sua recém-conquistada liberdade –ele comemora o óbito da esposa como quem acerta na loteria! –e assim empreende uma viagem pelas cidades americanas até encontrar o pai dele para poder deixar Billy aos seus cuidados.
Essa trama, algo básica, serve aos propósitos da produção que idealiza cenas escrachadas desenvolvidas ao longo da grande viagem do avô e do neto, em meio à qual eles protagonizam cenas absolutamente inacreditáveis. Numa sacada parecida com o igualmente inacreditável “Borat”, os protagonistas em cena são os únicos seres fictícios da situação, todos os outros ‘personagens’, por assim dizer, são pessoas reais eventualmente presentes nos locais reais onde a cena se sucedeu –e, entre outras coisas, as câmeras arrojadas da produção capturam suas reações assombradas diante das presepadas que se sucedem.
E os realizadores, de fato, não mediram esforços para que os segmentos que compõem “Vovô Sem Vergonha” fossem antológicos: Desde as primeiras cenas (Billy na sala de espera de um consultório relatando inocentemente os vícios chocantes da mãe; Irving num hospital recebendo a notícia do falecimento e reagindo de forma festiva) até os momentos que se seguem avançando a trama adiante (o velório da esposa, com pessoas reais; os funcionários de mudança contratados para carregar o cadáver da mulher; e todas as maluquices que se seguem estrada afora), “Vovô Sem Vergonha” confronta o expectador com um humor implacável e alucinado.
Algumas cenas, a despeito do nível extravagante de vergonha alheia e sarcasmo irrestrito, impressionam pela maneira estupenda com que são elaboradas –é o caso da sequência do pênis preso numa máquina de refrigerante (!!); da cama eletrônica dobrável; da boate de stripper masculino, da desastrosa competição de peidos (!!!) dentro de uma lanchonete, do desfecho, num bar de motoqueiros que atuam como assistentes sociais e, logo depois, num concurso de beleza mirim.
“Vovô Sem Vergonha” não poupa nada, nem ninguém de seu humor insano e desavergonhado. Seus detratores podem apontar, com muita razão, o mau gosto indiscutível presente em cada uma das ações de seu depravado protagonista, mas em sua sinceridade criativa ele se vale justamente disso para encontrar graça nas reações verdadeiras de seu vasto leque de incautos coadjuvantes colhidos da realidade.
Digam o que quiserem de seu humor de porta de banheiro e da bizarrice assumida de seu conceito, mas ele não deixa de ser um dos filmes mais engraçados dos últimos anos.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Quero Ser John Malkovich

O diretor Spike Jonze criou uma curiosa fábula sobre os meandros da metalinguagem a que se dispõe o cinema, e os percalços da fascinação da fama. Tudo isso numa história mirabolante que convida a refletir sobre uma questão pragmática: Qual é o prazer de experimentar o ponto de vista de uma celebridade?
Na trama mirabolante que ele dá vida com a contribuição do roteirista Charlie Kaufman (de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”), o ator John Cusack é Craig Schwartz, um especialista em marionetes amargando uma mediocridade que se estende aos outros âmbitos de sua vida.
Craig tem um emprego insatisfatório, uma esposa à qual trata (e é tratado) com indiferença, Lotte (Cameron Diaz, fazendo papel de feia!), e nenhuma perspectiva de que as coisas venham a melhorar.
Entretanto, quando ele começa a trabalhar num estranho escritório –localizado num meio andar de um prédio (!) –duas coisas vêm a acontecer: Primeiro, ele conhece e se apaixona por sua radiante colega de escritório, Maxine (Catherine Keener, ótima), efeito que ela desperta em Lotte também (!); e depois, ele encontra no mesmo escritório uma pequena porta que conduz por um corredor e que, ao adentrá-lo, permite acesso momentâneo à mente do ator John Malkovich (!).
E, claro, o próprio John Malkovich comparece fazendo o papel de si mesmo –e, inclusive, mostrando bastante audácia em suas escolhas visto que os rumos que a trama vai tomando revelam-se tão mais absurdos quanto também perturbadores.
Comprometido, talvez, por uma acidez melancólica que o faz de difícil digestão para o público –e aprofundando ainda mais isso ao colocar o simpático John Cusack num papel apático, quase antagônico –o filme de Spike Jonze, embora hábil, se excede nos caminhos surreais que toma, ocasionando também uma avalanche de questionamentos sobre a modernidade.
A nossa identidade é, afinal, determinante naquilo que seremos? Há uma diferença imprevisível entre aquilo que somos e o que permitimos aos olhos dos outros que sejamos?
Como o diretor espirituoso que é, Jonze não dá uma resposta. Ele discorre em cima de uma dúvida coletiva num misto de angústia e irreverência levando seu tema às últimas conseqüências, deixando o expectador num impasse surreal.
Levar um tema às últimas conseqüências, por sinal, parece ser especialidade dele, já que são de sua autoria o insano programa televisivo “Jackass” e, no cinema, os desiguais “Adaptação” (um exercício dissertativo sobre as infinitas inseguranças da criação cinematográfica), “Onde Vivem Os Monstros” (uma visão lúdica e pessoal sobre os desdobramentos ambíguos da pureza e da crueldade infantil) e “Ela” (um conto estilizado que contrapõe as facetas prodigiosas da tecnologia às inadequações afetivas do ser humano).

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Sicario - O Dia do Soldado


O diretor Stefano Sollima segue uma estrutura parecida com a do grande filme de Dennis Villeneuve do qual é continuação, embora, no final das contas, este acabe sendo um filme bastante diferente.
Agora sem a personagem de Emily Blunt –uma espécie de bússola moral no filme –o roteiro também de Taylor Sheridan se concentra nos personagens um tanto ambíguos de Josh Brolin e Benicio Del Toro, permitindo ao filme um mergulho sem ressalvas nos meandros mais sórdidos da politicagem que norteia as decisões a pairar nas operações militares da fronteira EUA/México. Este certamente era um dos propósitos do filme anterior e, se era também aqui, ele se dilui um pouco na intenção de moldar, antes de tudo, um grande filme de ação.
O agente federal Matt Graver (Josh Brolin) tem como missão incumbida diretamente pelo novo ministro de defesa norte-americano (Matthew Modine) deter os ataques terrorista –com o emprego de homens-bomba e tudo –que veem se deflagrando na fronteira, a exemplo das ocorrências mais relacionadas ao Oriente Médio.
A solução de Graver espelha em muito a política usada pelos EUA lá: Incitar uma guerra entre os cartéis para que não haja hegemonia e nem união. Graver conta então com seu homem de confiança, Alejandro (Benicio Del Toro) que, desde que obteve parte de sua vingança no filme anterior tornou-se uma espécie de agente infiltrado, para sequestrar a filha do líder traficante Carlos Eyes, a jovem Isabela (Isabela Moner), e plantar indícios de que fora o cartel rival.
Entretanto, contratempos acontecem: Eles encenam o resgate dela de um cativeiro e quando tentam negociar sua devolução acabam atacados por policiais mexicanos corruptos, o quê acrescenta caos e imprevisibilidade ao plano.
Isabela se perde no deserto, enquanto Alejandro assume a tarefa de encontra-lo e tentar devolvê-la ao lar (ou ao lugar onde estiver mais segura). Nesse interim, a representante do governo dentro da malfadada missão (Catherine Keener) exige uma queima de arquivo, desejosa de apagar a relação do governo com uma missão tão controversa que encerrou-se catastroficamente –e isso significa colocar Graver diante do dilema de neutralizar Alejandro em definitivo.
Paralelamente a esses percalços cada vez mais aflitivos, a narrativa acompanha a vagarosa inclusão de um jovem latino de classe baixa no mundo do tráfico; caminho este que será cruzado com o de Alejandro e Isabela nos palpitantes quarenta minutos finais de filme.
Em meio à crítica nada disfarçada da postura prepotente do governo dos EUA em relação aos imigrantes, o filme realiza uma bela execução técnica de suas sequências de ação e suspense construindo, neste segundo filme, uma estrutura narrativa que demanda um terceiro episódio, sinalizado de maneira explícita em seu final aberto e algo inconcluso.
A despeito de suas imperfeições é uma produção que se eleva muito acima da média do gênero.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

O Mundo de Jack & Rose


Só mesmo o fato de ser casado com a diretora Rebecca Miller para justificar a presença de um ator como Daniel Day-Lewis num projeto equivocado e redundante como este.
Rebecca, que também é filha do dramaturgo Arthur Miller, também dirigiu a igualmente insossa comédia romântica “O Plano de Maggie”, de 2016. Comparando os dois trabalhos –de natureza e pretensões bem diferentes –pode-se perceber que ela tem certo interesse em relacionamentos que as circunstâncias tornam pouco usuais.
É sobre isso, essencialmente que trata este filme aqui (e se era a intenção falar de alguma outra coisa, isso se perdeu na realização).
Jack (Daniel Day-Lewis) mora com a filha Rose (Camilla Belle) numa ilha em algum ponto da Costa Oeste dos EUA. O ano é 1986, e logo notamos que Jack é o que restou de uma comunidade alternativa surgida a partir dos preceitos da contracultura dos anos 1960.
Eles vivem isolados, exceto com ocasionais intervenções de um empreendedor que constrói um conjunto de casas pré-fabricadas no limite de sua propriedade –e que Jack trata de enxotar com tiros de espingarda!
A filha Rose não tem qualquer conexão com o mundo, mas Jack sabe que, com a chegada de sua adolescência, ela precisa ter contato com outras pessoas, sobretudo, depois que a saúde de Jack começa a deteriorar em vista de seu estado físico –Jack não tem mais muito tempo.
Com isso em mente, ele convida Kathleen (Catherine Keener), sua namorada, para morar com eles. Ela leva a tiracolo os filhos, o sensível e hesitante Rodney (Ryan McDonald) e o desleixado Thaddius (Paul Dano, que fez “Sangue Negro” com Day-Lewis).
A reação de Rose à presença súbita desses estranhos em sua casa é tudo menos harmoniosa.
Ao tentar falar sobre inúmeras facetas do comportamento humano –e ostentar sensibilidade em cada uma delas –o filme de Rebecca se perde na incapacidade de ilustrar ao expectador qual é seu cerne de fato.
Não chega a ser surpresa que a sua sustentação para os lapsos que assola o filme seja a formidável presença de Day-Lewis (bem ladeado por Camilla Belle e por Catherine Keener), um grande ator que, como aqui, ocasionalmente acontece de dedicar mais empenho e afinco do que o filme merece.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Onde Vivem Os Monstros

Embora em sua aparência “Onde Vivem Os Monstros” dê a impressão de ser destinado às crianças, o diretor Spike Jonze moldou na verdade um filme profundamente poético e sombrio sobre os inescapáveis detalhes lúgubres da infância.
Essa percepção já surge imediatamente quando acompanhamos a melancólica rotina do jovem Max (o pequeno e notável Max Records), de oito anos, um garotinho que por vezes se ressente de sua condição de criança incapaz e ignorada, na casa, onde mora com a irmã mais velha e a mãe divorciada e atarefada (Catherine Keener, meio que revelada pelo próprio Spike Jonze em “Quero Ser John Malkovich).
Como toda criança carente de atenção, Max se enfeza e se entristece por motivos que, aos olhos desavisados, parecem birra de criança. Após um desentendimento com a mãe, ele ensaia uma fuga, noite adentro ainda trajando a roupa de lobo que tanto gosta. O filme de Jonze assume então um ar lúdico que deixa indistinguível o que pode ser um sonho do que pode ser realidade –um dos detalhes fascinantes do filme –e vemos Max tomar um barco e, rumar oceano afora. Ele chega então numa ilha habitada por monstros grandalhões e falantes, que, de início querem devorá-lo –e que nada mais são senão reflexos de pulsões emocionais do próprio Max (o menino, portanto, na iminência de ser devorado pelas próprias emoções às quais não tem controle).
Contudo, os monstros ostentam uma ingenuidade e uma inocência em contrapondo à crueldade e ferocidade que desejam expressar, e talvez por conta disso, Max os sobrepuja com a promessa de que é um rei e que sua presença lhes trará felicidade. Assim, na condição de "rei dos monstros", Max fica seus dias junto deles onde partilha de suas inseguranças e peculiaridades muito humanas.
Os monstros brigam, discordam, questionam uns aos outros, às vezes, com uma imaturidade que simula as próprias relações humanas.
Por um tempo, aquela convivência supre, para Max, as experiências que ele tinha em casa –não mais negligenciado, ou subestimado, ou deixado de lado, ele se satisfaz com o fato de possuir um papel de relevância entre aquelas criaturas. Mas, como o diretor Jonze trata de avaliar em todos os seus filmes, as dinâmicas sempre sofrem, acima de tudo, com a saturação proporcionada pelo passar do tempo: Como o computador de “Ela”, como os gêmeos vividos por Nicolas Cage em “Adaptação” e como o homem no corpo de John Malkovich em “Quero Ser John Malkovich”, o pequeno Max percebe, quando a situação ganha os contornos do tédio e da rotina, que a condição que vive é, em última instância, insatisfatória em relação à vida que tinha. E então decide partir, deixando para trás uma ilha de monstros implorando para que fique.
Certamente, a concepção do pouco usual Spike Jonze para uma fantasia infantil é desafiadora para as convenções, soando melancólica a reflexiva em excesso. É algo até natural, portanto, que esta produção incomum e profundamente pessoal não tenha encontrado seu público.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Mesmo Se Nada Der Certo

Após a bem-sucedida mescla de cinema, música e improvisação chamada “Apenas Uma Vez”, o diretor John Carney ganhou aval para uma produção mais elaborada com direito à astros do primeiro time de Hollywood: Além dos protagonistas, Mark Ruffalo e Keira Knightley, há James Corden, Catherine Keener, a talentosa Hailee Steinfield (a menina de “Bravura Indômita”) e ilustres pontas de Adam Levine e Cee Lo Green.
Todavia, o que John Carney fez, em melodia e intenção, foi algo muito parecido com seu trabalho anterior beneficiado desta vez de valores consistentes de produção o quê tira dele, para o bem ou para o mal, aquela crueza que “Apenas Uma Vez” tinha.
Dan já teve melhores dias como produtor musical, mas agora amarga a decadência profissional, a relação pouco amigável com a esposa (Catherine Keener) e o afastamento da filha (Hailee Steinfield), tudo isso levando-o ao cume do alcoolismo –e, de início, falta alguma exatidão na atuação improvisada de Mark Ruffalo, que vai melhorando pouco a pouco e se firmando no papel ao longo do filme. É um ponto de virada então quando ele se encontra com Gretta (Keira Knightley, buscando escolhas interessantes que a afastem dos papéis de mocinha do início de sua carreira), e nela descobre um daqueles talentos singulares e brutos que marcam a indústria musical.
Esse encontro, enunciado numa série de flashbacks, já dá uma idéia da sofisticação que o orçamento mais generoso propiciou ao diretor, assim como na belíssima cena em que Keira canta só em um barzinho e, na ótica do personagem Dan, é vista cercada por instrumentos de acompanhamento que tocam sozinhos.
Dan e Gretta –que também tem lá seu drama, tendo sido largada em Nova York pelo namorado (Adam Levine), e agora se vê meio sem rumo –decidem produzir um álbum de forma independente, sem gravadora ou estúdio de som, o quê significa gravar as músicas nas ruas com toda a cacofonia da cidade e os incidentes eventuais interferindo no resultado.
É mais uma vez, portanto, uma ode de John Carney à arte dos cantores de rua como havia sido em “Apenas Uma Vez”, e como ele tornou a fazer depois deste filme em “Sing Street”, todas obras onde ele usa a música como um intermediário no fluxo de emoções complicadas (como o amor) entre pessoas igualmente complicadas: Aqui, como em seus outros trabalhos, Dan e Gretta se entendem, se ajudam e se compreendem, e na inevitabilidade da lida com sentimentos à flor da pele que a música inspira, vêem então o amor florescer. Ainda assim, Carney, como em seu filme anterior, opta por não mergulhar nesse oceano: Em seus filmes o romance apenas imbrica timidamente por frestas diminutas que as escolhas narrativas do diretor (Dan é casado; Gretta tem lá suas pendências com o namorado; e a idade de ambos não é muito compatível) não permitem aflorar plena e escancaradamente –é uma opção que ele faz, mas é uma pena desperdiçar casal de química tão nítida e encantadora como Mark Ruffalo e Keira Knightley.

“Mesmo Se Nada Der Certo” é mais hollywoodiano, mais melindroso, mas Carney é feliz em usar os recursos que dispõe a mais para elaborar um belo filme.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

S1mone

Alçado à categoria de gênio depois da grande surpresa causada por seu roteiro em “O Show de Truman” (embora muito da excelência daquele resultado se deva também à direção de Peter Weir), o escritor Andrew Nicoll resolveu partir, ele próprio, para trás das câmeras, tornando ainda mais pessoais as transições de suas histórias como as imaginou para a tela.
A primeira e amplamente interessante experiência nesse sentido foi o injustamente pouco conhecido “Gattaca”.
A segunda, quando as fragilidades como realizador de Nicoll se revelaram bem mais nítidas, foi este “S1mone”. E olha que Nicoll ainda conta aqui com a habitual maestria de Al Pacino.
Ele interpreta Viktor Taransky, veterano produtor de cinema de Hollywood que, à beira de um ataque de nervos e indignado com os constantes chiliques de seus astros e estrelas, recebe o que, à princípio, ele considera uma dádiva: um arquivo com um programa no qual ele é capaz de criar por computação gráfica uma atriz perfeita (a quem dá o nome de S1mone), linda, totalmente convincente como ser humano, e obediente a todas as suas ordens. Ele insere S1mone (vivida com artificialidade excessiva por Rachel Roberts) nos filmes que pretendia fazer –e que estavam sendo arruinados pelas complicações das atrizes humanas –dizendo a todos tratar se de alguém de verdade, e que, num compromisso excêntrico com sua arte deseja desempenhar suas cenas à parte para que sejam inseridas no filme posteriormente.
O imbróglio dá certo, sem que ninguém desconfie da falta de veracidade de sua atriz digital.
Entretanto, S1mone torna-se uma grande estrela, atraindo a atenção e curiosidade de milhões, inclusive pessoas da própria indústria. Manter essa farsa logo, torna-se uma tarefa cada vez mais difícil.
Se “O Show de Truman” e “Gattaca” mostravam a preocupação de Nicoll com a manipulação da vida num viés ao estilo ‘Phillip K. Dick’, em “S1mone”, ele parece interessado em mostrar quão ineficiente é nossa capacidade de distinção entre o autêntico e o fabricado, numa narrativa que força uma ausência de calor humano em muitas ocasiões –um recurso que funcionou às mil maravilhas em “Gattaca”, onde um futuro estéril era representado, mas que neste filme aqui, onde Nicoll inclusive manifesta pretensões nunca devidamente concretizadas de fazer comédia, soa mesmo como uma direção limitada e inexperiente, incapaz de suscitar em sua narrativa mais do que um único tipo de atmosfera.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Corra!

Embora possa não parecer, os últimos anos trouxeram uma desigual e qualitativa leva de filmes de terror.
“Corra!” é um deles. A um só tempo uma distorção medonha, apavorante e eletrizante da premissa de “Adivinhe Quem Vem Para Jantar?”, um sutil exercício de humor e um dos mais imaginativos, funcionais e hábeis filmes de terror dos últimos anos, este trabalho do diretor Jordan Peele é uma parábola moderna e vibrante sobre o racismo.
Essa é uma questão presente em cada segundo deste filme: Chris (o expressivo Daniel Kaluuya) é negro e naturalmente se vê receoso diante da primeira visita à casa dos pais de sua namorada branca (Allison Williams, da série televisiva “Girls”).
Ao chegar lá, ele se depara com a discriminação enrustida em pequenos atos que, aos poucos vão se convertendo numa suspeita ainda mais sinistra: A de que algo está terrivelmente errado.
Os pais, Dean e Missy (Bradley Whtiford e Catherine Keener), se comportam como o mais artificial modelo de casal neo-liberal –e na atuação minimalista dos atores, atenta às mínimas nuances, essa postura soa inicialmente cômica, depois intrigante, para em seguida ficar francamente amedrontadora. Não há nada muito melhor à se falar do irmão da jovem, o beligerante Jeremy (Caleb Landry Jones, em quem personagens propensos ao surto, como este, caem muito bem) e nem tampouco, os convidados, outros membros da família que surgem para passar o fim de semana juntos –todos acrescentam, sem querer, peças novas a um quebra-cabeças que a paranóia de Chris começa pouco a pouco a elaborar, e que trás a ele questões cada vez mais perturbadoras: Afinal, qual é a razão daquilo? Por que os empregados –negros –da casa se comportam de maneira tão dissimulada? As habilidades de hipnose da matriarca, Missy, teriam sido utilizadas neles? Ou no próprio Chris?
A direção de Jordan Peele exerce competência ao manipular com destreza elementos de um gênero que ocasionalmente parece saturado e batido, mas que em mãos competentes como as dele produzem uma obra plenamente original, gratificante, sufocante e espetacularmente funcional na alegoria muito atual que busca trabalhar.
Em sua compreensão intrínseca da discriminação (e da maneira volátil com que brancos e negros enxergam uns aos outros) o filme “Corra!”, na humildade com que relata uma mirabolante e divertida história de terror, se mostra muito mais autêntico e sincero em sua exposição das facetas do racismo do que muitos dramas pretensamente sérios e eloqüentes.