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domingo, 31 de dezembro de 2023

Tempo de Matar


 Em meados de 1996, o diretor Joel Schumacher, por incrível que possa parecer, se encontrava em destaque em Hollywood. Responsável por isso foi a dobradinha de filmes que ele lançou no período, sendo um deles a sua primeira incursão no universo do Homem-Morcego a substituir Tim Burton, “Batman Eternamente” (que embora tenha conquistado o descontentamento da crítica teve boa bilheteria, fracasso foi, de fato, o filme seguinte, “Batman & Robin”), e o outro, este mezzo suspense, mezzo filme de tribunal, “Tempo de Matar”, adaptado da obra de John Grisham (autor que estava em alta naqueles tempos tendo diversas produções adaptadas de seus livros).

É possível notar, através desse exemplo, que o fracasso, às vezes, ensina muito mais que o sucesso: Embora nunca tenha sido um grande diretor, foi depois desta produção relativamente aclamada que Schumacher perpetrou sua mais infame bizarrice cinematográfica, entretanto, foi logo depois do vexame incalculável de “Batman & Robin” que ele teve o bom senso de conduzir a carreira por meio de realizações menores, nas quais o controle do diretor era mais garantido, e o resultado qualitativo, mais certo de ser obtido. Mas, “Tempo de Matar” vale assim esse alarde que, à época, suscitou? Nem tanto.

No sempre segregado e sempre em polvorosa, Mississipi, no sul dos EUA, uma garotinha da comunidade negra é agredida e estuprada por dois rapazes brancos racistas que vão imediatamente à julgamento, sob a quase certeza de absolvição diante das impunes legislações sulistas. No entanto, o indignado pai da criança, Carl Lee Hailey (Samuel L. Jackson), se antecipa à qualquer sentença e metralha os dois criminosos dentro do tribunal, fazendo justiça com as próprias mãos.

É Carl Lee quem agora está no banco dos réus, prestes a ser condenado por homicídio. Sua defesa é assumida pelo jovem e idealista advogado Jake Brigance (Matthew McConaughey, no papel que o revelou à Hollywood após várias participações menores em produções pequenas) que não faz ideia –mas, fará! –de todas as imbricações e desdobramentos que acarretará sua decisão de defender um acusado negro numa comunidade como a do Condado de Canton.

Com a cidade em iminência de virar um barril de pólvora –de um lado os manifestantes negros exigindo veementemente absolvição, de outro, os asseclas da Ku Klux Klan, restaurada no lugar pelos esforços do vingativo irmão de um dos assassinados, vivido por Khiefer Sutherland –Brigance deve enfrentar, nos tribunais, a voracidade inescrupulosa do procurador Rufus Buckley (Kevin Spacey), a desvantajosa antipatia do Juiz Omar Noose (Patrick McGoohan, de “Coração Valente”) e a real ameaça que toda essa circunstância representa a ele e à sua família. Para auxiliá-lo, Brigance conta com o apoio do mentor Lucien Wilbanks (Donald Sutherland), do amigo e parceiro em advocacia Harry Rex Vonner (o histriônico Oliver Platt) e com a inteligência aguçada da jovem estudante Ellen Roark (Sandra Bullock, mais coadjuvante do que protagonista, embora tenha o nome em primeiro nos créditos).

É certamente uma trama urgida com a eficiência e a competência de quem compreendia esse gênero como ninguém –e provavelmente, ela deve funcionar melhor no livro original –ainda assim, apesar de seus bons momentos, o filme é pedante, dirigido com pieguice. Ficam patentes o descontrole de Schumacher para com emoções que deveriam ser mais contidas e a incapacidade dele em extrair atuações bem calibradas de seu elenco vasto e estelar: Em geral, bons atores, Sandra Bullock e Matthew McConaughey se contentam em ter suas belezas evidenciadas e seus egos massageados; quem salva a pátria, no fim das contas, é o sempre ótimo Samuel L. Jackson –grande ator, sua carreira merecia muito mais do que a única indicação ao Oscar (Melhor Coadjuvante por “Pulp Fiction”) que até hoje ele recebeu.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

O Céu de Outubro

Um ótimo esteta, o diretor Joe Johnston sempre provou que foi –é dele a premiada direção de arte de “Os Caçadores da Arca Perdida”, além de ter dirigido “Querida, Encolhi As Crianças”, “Rocketeer” e “Jumanji”, excelentes exemplos de filmes visualmente elaborados –faltava, no entanto, sedimentar sua eficácia quanto ao drama humano.
E a história real de Homer Hickam veio bem a calhar.
Um adolescente no fim dos anos 1950, morador da cidadezinha de Coalwood, província mineradora do estado da Virgínia, Homer (vivido com competência surpreendente pelo jovem Jake Gyllenhaal, antes mesmo da revelação em “Donnie Darko”) é um dos muitos norte-americanos surpreendidos pela notícia de que os russos colocaram um satélite no espaço, o “Sputnik”.
Basta identificar seu pontinho luminoso no céu noturno, e Homer já sabe o que quer da vida: Ele quer ser um dos engenheiros que colaboraram na Corrida Espacial, e projetar foguetes em Cabo Canaveral.
No entanto, na mentalidade de seu pai, John (Chris Cooper), tal feito é um sonho impossível; bem mais provável e acessível é trabalhar ganhando a vida como mineiro, herdando assim o ofício do qual se ocupa todo homem nascido e crescido em Coalwood.
Aliado à dois amigos Roy Lee (William Lee Scott, de “Pearl Harbor” e “Gattaca-A Experiência Genética”) e O’Dell (Chad Lindberg, de “Velozes e Furiosos” e “Doce Vingança”), ambos destinados à ocupação proletariada das minas como ele, Homer resolve que este não será o seu destino. Ele faz amizade com o inteligente nerd desprezado da escola Quentin (Chris Owen, de “American Pie”) e com ele termina integrando o quarteto de ‘fogueteiros’ que desenvolvem, a partir de planejamentos matemáticos calculados na raça por eles mesmos, formas de criar foguetes e fazê-los voar para o céu.
Os garotos insistem na tarefa usando erro e tentativa: Seus primeiros foguetes explodem como bombas de fogos de artifício. Eles aprendem a resistência necessária ao aço da confecção do projétil (e que esse aço não é nada barato), descobrem regras científicas de aerodinâmica e aprendem uma série de equações matemáticas por conta própria.
Suas tentativas sistemáticas de lançar foguetes atraem a atenção da cidade inteira que passa a fazer dos lançamentos um evento onde todos se reúnem para assistir.
Como na melhor tradição dos dramas sobre juventude em choque contra o patriarcado, o diretor Johnston leva seu protagonista a colidir com as pressões do meio familiar: Seu pai ressente-se do filho não escolher a mina como herança para sua vida adulta.
Não só ele: O diretor da escola (Chris Ellis, de “A Ilha”, “Armageddon” e “Meu Primo Vinny”) não vê com bons olhos os alunos sonhando com algo que não seja o usual –esses e outros obstáculos vão sendo superados por Homer com o encorajamento de sua professora, Srta. Riley (Laura Dern) que sugere aos ‘fogueteiros’ uma inscrição na feira de ciências; se conseguirem ganhar, eles poderão concorrer ao primeiro prêmio na Feira de Ciências Nacional de Indianápolis, através da qual poderão conseguir bolsas de estudo para as grandes faculdades do país, e com isso, passagem direta para a realização de suas ambições.
Ao encarar um projeto corajosamente voltado para a manejo de emoções  e respaldado no rendimento da atuação do elenco –na contramão das orientações técnicas que definiram seus filmes anteriores –Joe Johnston entregou um trabalho emotivo e significativo de sua capacidade como contador de histórias; seu estilo continua lá –no esmero técnico focado na reconstituição de época, por exemplo, e na observação apaixonada de valores norte-americanos, essenciais à sua narrativa, com uma referência à famoso foto dos soldados em Iwo Jima, central à duologia de guerra de Clint Eastwood (afinal, Johhston dirigiu “Capitão América”!) e num novo ângulo por meio do qual a Corrida Espacial é vista, distinto de “Os Eleitos” –no entanto, aqui a afiada conjugação do diretor, de um cinema à moda antiga aliado à tecnologia de ponta para moldá-lo, serve a uma trama real e autêntica, sem retoques que escondam, ou substituam, as emoções humanas com as quais o público invariavelmente vem a se conectar.
E é belíssimo o resultado de tal atrevimento.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Adoráveis Mulheres

Na cerimônia do Oscar 2020, “Adoráveis Mulheres” fez uma bela campanha levando o Oscar de Melhor Figurino; e na categoria principal, lá estava ele também disputando o prêmio dentre suas seis (e merecidíssimas) indicações.
Inspirado no clássico romance de Louisa May Alcott, o filme escrito e dirigido por Greta Gerwig é a oitava (!) adaptação cinematográfica do livro para cinema –a mais recente havia sido lançada em 1994, pela diretora Gillian Armstrong, com Winona Ryder –e Greta, seja no roteiro, seja na direção, constrói seu filme plenamente conciente de que cada expectador que assistir sua obra já deve ter visto pelo menos uma das versões anteriores: Ela modifica a trama e suas circunstâncias, senão na essência, ao menos no formato, alterando a ordem cronológica, recriando cenas, remodelando o convencionalismo da narrativa e, no seu audacioso final, acrescentando um elemento ambíguo de metalinguagem.
Tudo isso, confere um frescor à “Adoráveis Mulheres” que certamente poucos presumiram que ele viesse a ter: Depois que a (ótima) atriz Greta Gerwig decidiu arriscar-se atrás das câmeras dirigindo o brilhante “Lady Bird”, obtendo espetacular êxito de público e crítica, o seu projeto seguinte –a adaptação do famoso romance de Alcott –parecia um passo ambicioso, o tipo de trabalho no qual um artista se arrisca a um épico tropeço após um fenomenal acerto.
É maravilhoso ver o quanto os pessimistas se enganaram: “Adoráveis Mulheres” de Greta salta com graça e sofisticação à frente de todas as demais versões (até mesmo as clássicas!) como a melhor, mais emotiva e arrebatadora transposição de Alcott feita para as telas.
Em grande parte, graças à sensibilidade de Greta Gerwig que compreende as alegrias e angústias de suas numerosas personagens, a emoção estrutural embutida em cada arco dramático da narrativa e, talvez –na qualidade, ela própria, de roteirista –as predisposições emocionais da própria Louisa May Alcott.
Provavelmente a mais completa atriz de sua geração, a jovem Saoirse Ronan interpreta a heroína Jo March; e na cena que abre o filme –Jo, aspirante à escritora, submetendo seus manuscritos à insensibilidade de um editor antiquado e inepto –já deixa claro alguns dos tópicos inesperados, acerca do empuxo criativo que espelha a protagonista e sua autora, dos quais ela quer tratar.
Jo vive à duras penas na Nova York dos anos 1860. Mora numa pensão. Tenta vender os contos literários que produz e encontrar um lugar ao sol como escritora. Mas, a vida para uma mulher de planos independentes em meados do Século XIX não é fácil.
Alternadamente à essa aspereza da realidade –registrada na belíssima fotografia em tons azuis –o filme regressa sete anos no tempo, mostrando quando Jo e suas irmãs viviam junto de sua mãe (Laura Dern), na humilde, porém, amorosa casa da família, tentando suportar a ausência do pai (Bob Odenkirk) que foi lutar na Guerra Civil –nesse período de tempo, por sua vez, as imagens surgem em tom amarelo pastel.
Cada uma das irmãs March tinha uma personalidade distinta: Além de Jo, havia a artista Amy (Florence Pugh, dando fascínio insuspeito a uma personagem normalmente irritante); a boa moça Meg (Emma Watson); e a adoecida Beth (Eliza Scanlen).
E cada uma experimenta também diferentes aspectos nos dois pólos de tempo, separados por sete anos, dos quais a narrativa se incumbe: Amy, antes à sombra de Jo, com quem vivia às turras, agora está na Europa com a rabugenta Tia March (Meryl Streep), e enquanto tenta fisgar um marido rico, se descobre atraída pelo amigo da família Laurie (o ótimo Timothée Chamalet), outrora apaixonado por Jo; Meg, cujo temperamento equilibrava as inconstâncias de humores das outras irmãs se vê, depois, em um casamento cheio de amor, mas assolado pelas provações da pobreza; e, por fim, Beth tem um novo surto de escarlatina (um outro já havia acometido anos antes), o que obriga Jo à deixar Nova York e voltar para o município de Concord, no estado de Massachussets, para cuidar dela –bem quando Jo, tão desprendida para os assuntos românticos, começava a descobrir, no imigrante Friedrich (Louis Garrell), um possível interesse amoroso.
Indo e vindo no tempo –formato inédito dado à trama –o filme de Greta Gerwig reestrutura com inteligência sua tão famosa história estabelecendo rimas poéticas entre o antes e o depois, sublinhando novas emoções àquelas já conhecidas e dando à tudo um ar renovado e vibrante: se “Lady Bird” foi uma prova de seu talento, “Adoráveis Mulheres” é a comprovação de uma competência inquestionável (tamanho é seu brilhantismo que sequer Meryl Streep, habituada a roubar cenas, consegue fazê-lo, tal é o nível altíssimo mantido por todo o elenco); a diretora consegue obter o mesmo efeito do livro no qual nos descobrimos profundamente afeiçoados às suas personagens depois de um tempo.
Sua grande contribuição à essa obra magnífica talvez seja mesmo o final, um interessante jogo de narrativa dúbia e ambiguidade ficcional, onde Greta Gerwig discute as razões mercadológicas de um final feliz –ou romanticamente satisfatório –no que diz respeito à sua protagonista.
Podem até haverem novas versões de “Adoráveis Mulheres” em algum momento no futuro; mas, será um tremendo desafio superar o primor e as emoções irreprimíveis dessa daqui.

sábado, 30 de maio de 2020

Um Lindo Dia na Vizinhança

Em 1998, o jornalista Tom Junod foi incumbido de traçar um perfil de uma dentre várias personalidades tidas como heróis americanos para uma matéria na revista onde trabalhava. Ao invés das 400 palavras requisitadas por sua editora-chefe, porém, Junod teceu um artigo de 10 mil palavras no qual relatava o impacto que tal personalidade teve em sua vida.
O artigo virou matéria de capa, e a personalidade em questão era o ícone televisivo Fred Rogers, apresentador do longevo programa infantil “Mister Roger’s Neighborhood”.
A história de como se deu essa entrevista e a relação entre entrevistador e entrevistado é o eixo central deste “Um Lindo Dia na Vizinhança” no qual o extraordinariamente terno Fred Rogers é vivido pelo único ator que faria jus a sua personificação: Tom Hanks, também um ícone do bom-mocismo e das boas maneiras.
O nome do protagonista foi convertido para Lloyd Vogel, mas ele continua sendo um jornalista –e interpretado pelo bom ator Matthew Rhys, de “The Post-A Guerra Secreta”, de Steven Spielberg, também ao lado de Tom Hanks.
Assolado pela recente paternidade e, sobretudo, pelo retorno conflituoso de seu pai, Jerry (Chris Cooper) à sua vida –os dois não se falavam à quase quinze anos –Vogel é, acima de tudo, um repórter analítico, ferrenho e niilista, disposto a perseguir até o fim a dura realidade por trás dos fatos e das pessoas.
Quando lhe é dada a tarefa de compor um perfil do imaculado Mister Rogers, ele de pronto se propõe a descobrir o ser humano real que se esconde por trás daquelas atitudes serenas e sorridentes –uma pessoa normal, deduz ele, não pode ser assim o tempo todo.
Entretanto, Fred Rogers se revela um tópico mais complicado do que ele esperava: Com seu jeito de falar polido e pausado, seu comportamento absolutamente ímpar e cordial, Rogers não parecia, longe das câmeras, alguém que interpretava um personagem, mas a própria figura reconhecível da TV de fato. As tentativas de Vogel em fazer aflorar alguma verdade indiscreta em seus comentários ou surtir alguma reação mais áspera de seu interlocutor só enfatizam o respeito e a tranquilidade com que Rogers lidava com tudo e com todos.
Mais que isso: Deixava claro a compreensão circunspecta que esse ser humano muito especial tinha da necessidade existencial de apreciar e valorizar cada momento de vida, bem como a resoluta determinação quase pastoral em passar essa compreensão adiante.
Na inversão que parece ser o grande cerne de seu filme, a diretora Marielle Heller vai mostrando pouco a pouco a maneira com que sutilmente Rogers manipula as intenções de seu amargo entrevistador, fazendo com que seja ele quem exponha seus sentimentos e suas carências –possibilitando a Vogel encontrar assim uma redenção para seu problemático drama familiar.
Uma cena de “Um Lindo Dia na Vizinhança” é particularmente notável: Nela, Rogers e Vogel, sentados numa lanchonete conversam sobre as amenidades e os aborrecimentos. Rogers, então, propõem ao quase sempre injuriado Vogel que aproveite, ali mesmo, um minuto de silêncio de seu tempo para recordar de todas as pessoas cujo amor moldou o ser humano que ele é. E o filme, de fato, leva a cena toda a parar, a silenciar, para que esse momento passe.
O close no rosto de Tom Hanks leva o ator a olhar para a própria câmera –ou seja, para nós mesmos! –transformando esse momento em algo muito mais pessoal e subjetivo.
Certamente, não haveria de ser fácil, nem para Tom Hanks, nem para ninguém, incorporar com perfeição o carisma amoroso e a retidão moral e sentimental à toda prova que o verdadeiro Fred Rogers conseguia passar –e, embora chegue a reproduzir com minúcia estudada os trejeitos de Rogers em suas apresentações televisivas (que ganham uma espécie de sentido narrativo junto à trama), Hanks não escapa de uma afetação alienada, uma redundância de estranheza como se ao incorporar um palestrante, ele absorvesse maneirismos do expectador estupefato.
Ainda assim, é uma interpretação cheia de méritos, central a um filme sensível e feito para emocionar, e a Academia indicou Hanks ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por isso.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Syriana - A Indústria do Petróleo


Como em “Traffic” –o filme pelo qual venceu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado –a estréia como diretor de Stephen Gaghan, “Syriana”, é uma trama que amplifica seu tema central por meio de três linhas narrativas fragmentadas que se ramificam e se complementam ao longo do filme.
De um lado, temos o agente da CIA Bob Barnes (George Clooney, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, mas certamente o personagem principal do filme) cuja experiência em lidar com os meandros complexos das negociações armamentistas travadas entre células terroristas conquistou o milagre de mantê-lo vivo esses anos todos; ironicamente, sua derrocada parece vir de dentro da própria CIA quando seus superiores começam a mover um plano para torná-lo bode expiatório numa circunstância que tornou-se desfavorável.
De outro lado, acompanhamos o conselheiro financeiro norte-americano Bryan Woodman (Matt Damon), residente em Genebra, que após uma tragédia familiar consegue uma inesperada proximidade com um príncipe saudita disposto e usar de sua fortuna para melhorar as condições de vida no Oriente Médio.
A terceira trama segue o advogado Bennett Holiday (Jeffrey Wright) representante menor de uma indústria norte-americana de extração petrolífera –e cuja influência tentacular de seus diretores atinge as condições sócio-políticas dos moradores do Irã –sobre quem paira a responsabilidade de viabilizar uma autorização de extração de petróleo cercada por complicações legais que, não raro, esbarram em infrações consideráveis à lei.
Como era de se esperar neste trabalho, Gaghan honra seu passado de roteirista e executa magnificamente bem as amarras de seus núcleos dando solidez à uma trama fácil de se perder, mas ele ainda acrescenta uma direção austera e convicta (herança, talvez, de seu convívio com Steve Sodenbergh) com a qual consegue tornar minimamente palatável esta incisiva (e dada sua postura, surpreendente) crítica às extensões nocivas exercidas pelo governo norte-americano nas mazelas dos países do Oriente Médio.
Seu trabalho une a contundência e a certeza de realismo de um documentário à predisposição dramática e flexibilidade narrativa de uma ficção –o melhor de dois mundos.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Onde Vivem Os Monstros

Embora em sua aparência “Onde Vivem Os Monstros” dê a impressão de ser destinado às crianças, o diretor Spike Jonze moldou na verdade um filme profundamente poético e sombrio sobre os inescapáveis detalhes lúgubres da infância.
Essa percepção já surge imediatamente quando acompanhamos a melancólica rotina do jovem Max (o pequeno e notável Max Records), de oito anos, um garotinho que por vezes se ressente de sua condição de criança incapaz e ignorada, na casa, onde mora com a irmã mais velha e a mãe divorciada e atarefada (Catherine Keener, meio que revelada pelo próprio Spike Jonze em “Quero Ser John Malkovich).
Como toda criança carente de atenção, Max se enfeza e se entristece por motivos que, aos olhos desavisados, parecem birra de criança. Após um desentendimento com a mãe, ele ensaia uma fuga, noite adentro ainda trajando a roupa de lobo que tanto gosta. O filme de Jonze assume então um ar lúdico que deixa indistinguível o que pode ser um sonho do que pode ser realidade –um dos detalhes fascinantes do filme –e vemos Max tomar um barco e, rumar oceano afora. Ele chega então numa ilha habitada por monstros grandalhões e falantes, que, de início querem devorá-lo –e que nada mais são senão reflexos de pulsões emocionais do próprio Max (o menino, portanto, na iminência de ser devorado pelas próprias emoções às quais não tem controle).
Contudo, os monstros ostentam uma ingenuidade e uma inocência em contrapondo à crueldade e ferocidade que desejam expressar, e talvez por conta disso, Max os sobrepuja com a promessa de que é um rei e que sua presença lhes trará felicidade. Assim, na condição de "rei dos monstros", Max fica seus dias junto deles onde partilha de suas inseguranças e peculiaridades muito humanas.
Os monstros brigam, discordam, questionam uns aos outros, às vezes, com uma imaturidade que simula as próprias relações humanas.
Por um tempo, aquela convivência supre, para Max, as experiências que ele tinha em casa –não mais negligenciado, ou subestimado, ou deixado de lado, ele se satisfaz com o fato de possuir um papel de relevância entre aquelas criaturas. Mas, como o diretor Jonze trata de avaliar em todos os seus filmes, as dinâmicas sempre sofrem, acima de tudo, com a saturação proporcionada pelo passar do tempo: Como o computador de “Ela”, como os gêmeos vividos por Nicolas Cage em “Adaptação” e como o homem no corpo de John Malkovich em “Quero Ser John Malkovich”, o pequeno Max percebe, quando a situação ganha os contornos do tédio e da rotina, que a condição que vive é, em última instância, insatisfatória em relação à vida que tinha. E então decide partir, deixando para trás uma ilha de monstros implorando para que fique.
Certamente, a concepção do pouco usual Spike Jonze para uma fantasia infantil é desafiadora para as convenções, soando melancólica a reflexiva em excesso. É algo até natural, portanto, que esta produção incomum e profundamente pessoal não tenha encontrado seu público.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A Tempestade

William Shakespeare não era necessariamente uma novidade na filmografia de Julie Taymor (de “Across The Universe”) –muito antes ela havia se aventurado numa versão musical e lisérgica de “Titus”, com Anthony Hopkins –isso explica, talvez, o fato dela ter abordado a junção de ambições, revanches, traições e magia que compõem a trama passada numa ilha mediterrânea com um revisionismo tal que –sinal dos tempos –mudou o sexo de seu protagonista.
Se antes o personagem principal Prospero era homem (e chegou a ser interpretado por John Gielgud e Peter Fonda em outras versões), agora é convertido numa mulher, Prospera (que ganha assim a excelência de Helen Mirren).
Outrora a Duquesa de Milão, Prospera foi exilada numa ilha do mediterrâneo devido às maquinações conspiratórias de seu irmão, Antonio (Chris Cooper) e de outros membros da corte de Nápoles, como o próprio rei (David Strathairn) e seu irmão invejoso (Alan Cumming).
Ao mover sua vingança munida de forças sobrenaturais, Prospera se revela então um reflexo do próprio Shakespeare: Abandonada na ilha, junto de seus livros e da própria filha, Miranda (Felicity Jones, linda), ela desenvolve poderes com os quais controla o destino dos incautos viajantes –tal e qual o próprio escritor o faz com os personagens à disposição de sua trama.
Auxiliada pelo subserviente espírito Ariel (Ben Wisham), Prospera conjura uma tempestade com a qual consegue fazer naufragar na ilha um navio trazendo todos os seus antagonistas –e deles faz gato-sapato.
Como em “Titus”, a diretora Taymor imprime um senso visual colorido e surreal à trama, remetendo a uma artificialidade dos palcos de teatro potencializada com efeitos especiais de última geração e trucagens de câmera que buscam romper com qualquer predisposição tediosa do enredo. Nesse sentido, Julie Taymor, apesar de uma ou outra opção estética de gosto discutível, revela um entendimento de Shakespeare muito mais apurado do que, por exemplo, o jovem diretor Justin Kurzel e sua equivocada versão de “MacBeth”: Ela compreende que, vertidas para cinema, as tragédias de Shakespeare devem agregar em seu material as ferramentas que o cinema tem –o esplendor visual, a montagem inquieta e instigante, os atores capazes de hipnotizar a câmera (aqui não apenas estão as maravilhosas Helen Mirren e Felicity Jones, como também os incontroláveis Alfred Molina e Russel Brand).
Além disso, existem também as cenas de Ariel convertido aqui num ser etéreo e abstrato, na boca do qual Taymor deposita versos declamados em versões musicadas, e o monstruoso Caliban (Djimon Houson, de “A Ilha” e “Gladiador”) envolto numa maquiagem pesada e desconcertante.
Ainda que mais amena e não tão propensa ao experimentalismo e à transgressão, a versão de Julie Taymor bebe um pouco da fonte de Peter Greenaway e sua versão ultra-estilizada, “A Última Tempestade”, em suas singulares peripécias visuais e sua profusão de cores e imagens exuberantes a emoldurar o trabalho de um elenco empenhado e apaixonado.
Ótimo cinema a ser usufruído, entretanto, por públicos específicos.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2003

Em meio à vitória de “Chicago” e a tentativa da Academia em resgatar o brilho do gênero musical, a grande surpresa foi o enorme reconhecimento à Roman Polanski e seu “O Pianista”, agraciado com três dos mais importantes prêmios da noite (Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator para Adrien Brody e Melhor Diretor –que tão cedo, Polanski não irá buscar...).
Houve certa surpresa na vitória de Catherine Zeta-Jones como Melhor Atriz Coadjuvante, assim como o espanhol “Fale Com Ela”, conquistando o prêmio de Melhor Roteiro Original.
Eu particularmente adorei ver Hayao Myiazaki levar o Oscar de Melhor Longa de Animação por seu maravilhoso “A Viagem deChihiro”.

MELHOR FILME
"Chicago"

MELHOR DIREÇÃO
"O Pianista", Roman Polanski

MELHOR ATRIZ
Nicole Kidman, "As Horas"

MELHOR ATOR
Adrien Brody, "O Pianista"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Catherine Zeta-Jones, "Chicago"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Chris Cooper, "Adaptação"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Estrada Para A Perdição"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Tiros Em Columbine"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Twin Towers"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Lugar Nenhum Na África" (Alemanha)

MELHOR SOM
"Chicago"

MELHORES EFEITOS VISUAIS

MELHOR MAQUIAGEM
"Frida"

MELHOR FIGURINO
"Chicago"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"O Senhor dos Anéis-As Duas Torres"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Chicago"

MELHOR TRILHA SONORA
“Frida"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Lose Yourself", de "8 Mile-Rua das Ilusões"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Fale Com Ela"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Pianista"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"A Viagem de Chihiro"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"The Chubbchubbs!"

MELHOR MONTAGEM
"Chicago"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Der er em Yndig Mand”

sábado, 20 de maio de 2017

O Espetacular Homem-Aranha 2 - A Ameaça de Electro

Por algum tempo, acreditava-se que a reformulação do Homem-Aranha havia dado certo.
O diretor Marc Webb, ao substituir Sam Raimi beneficiou-se de alguns elementos até bastante alheios às suas opções como realizador, como por exemplo, o fato de dar ao novo filme aspectos mais fiéis aos quadrinhos (sendo, talvez o mais notável a questão envolvendo os lançadores de teia), e a tecnologia 3D, difundida pelo êxito de “Avatar” e muito em voga na predileção do público, à qual esta produção beneficiou-se de uma oportuna agenda de filmagens para lançar mão.
Esses fatores garantiram uma certa recepção positiva da parte da crítica e do público e, embora houvessem aspectos ainda não digeridos no filme anterior (como o inapropriado tom sombrio adotado e a importância, em última instância redundante, dada aos mistérios que cercavam a morte dos pais de Peter Parker), Webb ganhou a chance para fazer uma continuação onde poderiam ser confirmados seus acertos ou evidenciados em definitivo os seus erros.
Bem mais confortável na persona de Homem Aranha que assumiu após os eventos do filme anterior, o recém-formado Peter Parker (Andrew Garfield, deixando que sua declarada paixão pelo personagem interfira em sua atuação fazendo-o histriônico) tem de lidar com seu romance com a jovem Gwen Stacy (a adorável Emma Stone), que além de tornar-se mais sério, enfrenta o dilema de uma vindoura viagem para a Inglaterra.
Em meio a isso, seu amigo de infância, Harry Osborn (Dane Dehaan, uma boa escolha, apesar de tudo), reaparece assim como surge também uma nova ameaça, representada pelo perigoso Electro (Jamie Foxx, na pior atuação de sua carreira).
As inúmeras tramas paralelas do filme ameaçavam o tempo todo se atropelar –incluindo aí um arco memorável dos quadrinhos que faria a alegria dos fãs mais antigos do Homem Aranha.
O diretor Mark Webb fez um trabalho razoável, confiando especialmente na segurança e descontração de seu elenco, onde certamente destaca-se a química palpável do casal Andrew Garfield e Emma Stone; sua ênfase recaiu sobre as minúcias narrativas, destacando alguns aspectos íntimos e valendo-se de certa seriedade para, mais uma vez, desvencilhar-se das comparações com a trilogia anterior de Sam Raimi.
Mas, algo em seu filme definitivamente não conseguiu funcionar –talvez, sejam seus excessos refletidos no controle intrusivo exercido pelo estúdio no resultado final: Tantas foram as escolhas melindrosas acumuladas aqui que o filme carece de um cerne, deixando transparecer exatamente o quê uma produção pode se tornar quando ela fica à mercê de um comitê e sem um bom senso sólido e criativo.
Embora tenha lá seus méritos, o segundo filme de Marc Webb com o escalador de paredes é, acima de tudo, definido por seus equívocos, o quê acarretou péssimas críticas e insatisfatórias bilheterias e levou o estúdio da Sony a interromper os planos dessa franquia –a trama elaborada pelo roteiro tinha uma clara estrutura de trilogia –e a firmar com a Marvel Stúdios uma parceria até então sem precedentes: Eles emprestaram o personagem do Homem-Aranha (agora interpretado por Tom Holland, de “O Impossível”, um jovem e talentoso ator que consegue reunir características tanto de Tobey Maguire, quanto de Andrew Garfield), para que a Marvel primeiro o incluísse no menu de personagens presentes em “Capitão América-Guerra Civil”, e depois para que a própria Marvel, com toda sua comprovada habilidade, concebesse um filme-solo do herói, desta vez, ambientado no Universo Marvel Cinematográfico, e (espera-se) absolutamente fiel a todos os elementos do personagem que foram, por ventura, desvirtuados nessas outras produções.
Seu título?
“Homem-Aranha De Volta Ao Lar”

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Beleza Americana

Sam Mendes era um renomado diretor de teatro britânico antes de aventurar-se, pela primeira vez, no cinema. Sua escolha para estrear na grande tela foi um roteiro incisivo de Alan Ball (mais tarde, o aclamado criador da série “A Sete Palmos”), envolto numa extraordinária névoa atemporal que buscava emular certos elementos do cinema de Douglas Sirk: Um exemplar dos dramas de costume americanos que insistem em desfraldar as podridões escondidas sob a fachada de tranqüilidade da classe média.
Essas pulsões inevitáveis de neurose surgem num subúrbio norte-americano quando um homem de classe média começa a relembrar o ano anterior à sua morte.
Na narração em off (recheada de uma pungente ironia), Lester Brunham (Kevin Spacey, brilhante), recorda em detalhes a relação incontornavelmente distante com a mulher (Annete Bening), a hostilidade da filha (Thora Birch), a inusitada amizade com um adolescente fornecedor de maconha apaixonado por sua filha (Wes Bentley),e sobretudo, a aparição da insinuante ninfeta Angela (Mena Suvari), cujo desejo por ela o levou a decisões que radicalizaram seu modo de vida.
Todos esses serão elementos fundamentais no desenlace trágico de sua história.
È curioso notarmos que “Beleza Americana” foi agraciado com o Oscar de Melhor Filme no ano 2000, quando ele tratava-se, justamente, de uma visão algo impiedosa e crítica de minúcias corrompidas e corrosivas da própria sociedade norte-americana –prova de que os críticos e membros da Academia se deixaram fascinar por outros elementos do filme que não sua postura inquisitiva.

Não é à toa: Realizado com extrema competência (a fotografia de Conrad L. Hall, premiada com os Oscar, é um detalhe à parte conferindo um viés analítico e antropológico à criteriosa encenação de Mendes), trás uma soberba atuação de Kevin Spacey –também ele premiado com um Oscar, o de Melhor Ator.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A Identidade Bourne

 
 Visto hoje (com a consagração da série consumada e com a pecha de ‘divisor de águas do gênero de ação’ repousando sobre seus exemplares), não dá para perceber o quanto foram audaciosas as escolhas do diretor Doug Liman para “A Identidade Bourne”.
   Sob a luz de um presente no qual temos a consciência de toda sua importância, esta série “Bourne”, sobretudo este filme inaugural, ganha, como tudo o mais, um novo viés.
   A direção de Doug Liman (o grande Paul Greenglass só seria incluído no filme seguinte) caminha numa linha tênue entre o cinema comercial que deseja honrar e o audaz lampejo criativo e autoral que o incita a romper com os paradigmas. Um desses rompimentos (e este é só um dos elementos que a névoa da consagração muitas vezes não permite que enxerguemos) é a escolha de Matt Damon para seu protagonista, não muito longe de sua aclamação (e revelação!) junto ao Oscar, em “Gênio Indomável”.
  No papel do homem misterioso que pescadores europeus recolhem do mar, baleado e sem memória, Matt Damon não apenas desafia o expectador a encontrar o propósito de sua presença –de inusitada envergadura dramática –nesse personagem moldado para a ação, mas também expõe, de pronto, qualidades que, nele, provocarão sucessivas interjeições de surpresa.
   Seu protagonista não sabe quem é nem como ou por quê foi parar ali, mas ao aportar em terra é a sua prioridade descobrir. Aos poucos ele percebe que possui habilidades extraordinárias para lutar e matar (ilustradas com brilho em seqüências de inquestionável propriedade concebidas por Liman), e que seu cérebro, quase que por instinto, sabe o que fazer nos momentos de perigo.
   Com a ajuda de uma jovem (a alemã Franka Potente) que cai de gaiato na confusão dessa trama de espionagem (e que inadvertidamente será seu improvável par romântico), ele descobre que tem um nome, Jason Bourne, e que existem dezenas de agentes mortais, oriundos de um certo Projeto Treadstone, ao seu encalço por alguma nebulosa razão (um deles interpretado por um ainda desconhecido Clive Owen), mas isso não basta: Ele quer recuperar toda sua memória perdida e descobrir afinal de contas quem é.