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quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Perfume - A História de Um Assassino


 Para o diretor Tom Tykwer –assim como para qualquer diretor que se revela ao mundo com um filme prontamente excepcional –foi uma tarefa muito difícil igualar o impacto e a repercussão causados por seu criativo e palpitante “Corra, Lola, Corra”. Dentre toda a sua empenhada filmografia, o filme que mais chegou perto de se equiparar ao brilhantismo daquele trabalho foi certamente “Perfume-A História de Um Assassino”, que o tempo converteu num clássico incompreendido. Um cult-movie.

Como o hábil esteta que é, a exemplo de diversos realizadores de seu mesmo período (a transição dos anos 1990 para os anos 2000), Tykwer emprega a narrativa cinematográfica a serviço da concepção de uma experiência sensorial. O crítico, escritor e filósofo Gilles Deleuze escreveu que o cinema na primeira metade do Século XX era baseado na pantomina do cinema mudo e, portanto, sua dicotomia envolvia a imagem em movimento, já na segunda metade do século, até pelo menos meados da década de 1990 (período do falecimento de Deleuze, 1995), ele escreveu que o cinema havia ganhado uma nova percepção originada de novas tendências, novas tecnologias e da transformação dos comportamentos, ele chamou tal fenômeno de a imagem-tempo. Tivesse Deleuze vivido para acompanhar a evolução do cinema nas décadas seguintes, ele provavelmente apontaria as produções, boa parte delas, a partir dali, de imagem-sensação. Esta é, acima de tudo, a proposta deste filme de Tom Tykwer.

Se “Corra, Lola, Corra” já simulava uma experiência sensorial um tanto quanto inédita naquele cinema de então (1999) com sua narrativa incessante, sua linguagem emprestada dos videogames e seus truques visuais que aproximavam o expectador do frenesi sentido pela protagonista, “Perfume” propõe uma ideia similar voltada, entretanto, ao sentido do olfato: São os cheiros, a obsessão que norteia, do início ao fim, a trajetória de Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whishaw), o protagonista de “Perfume”, um jovem parisiense, nascido nas piores condições possíveis que, ao longo da vida, descobre a predisposição singular para perceber todos os odores à sua volta, e passa a fazer daquilo (captar a essência de um odor) um objetivo primordial.

A Paris à qual dá corpo a narrativa de Tykwer é a Paris do Século XVIII, quando noções modernas como higiene não haviam sido descobertas nem mesmo pela aristocracia –logo, a direção de fotografia, à cargo de Martin Fuhrer, se esforça para converter as percepções olfativas de toda a podridão ao redor do protagonista em percepções visuais –a saída era, portanto, refugiar-se do mau cheiro no embuste modista dos perfumes franceses. Para Jean-Baptiste, nascido numa feira de peixes, crescido no desamparo de um orfanato e instruído no trabalho escravo de um curtume, a arte da perfumaria é uma oportunidade para ascender socialmente e, principalmente, buscar pelo seu objetivo. É o produtor de perfumes Giuseppe Baldini (Dustin Hoffman) quem descobre o dom fora do comum de Jean-Baptiste e lhe dá sua grande chance vendo, ao mesmo tempo, sua loja adquirir sucesso, graças ao talento do novo pupilo.

Mas, para Jean-Baptiste produzir perfumes e fazer sucesso não basta. Ele quer encontrar um meio de capturar a essência num invólucro (para que o cheiro jamais se perca, diferente do que houve com a jovem que matou num beco em Paris, seu primeira assassinato) e para isso, conta-lhe Giuseppe, a única forma é indo para a província de Grasse, onde mestres da perfumaria ensinam a fina arte de preparar uma rara essência que reproduz os aromas mais improváveis e imperceptíveis da natureza.

Jean-Baptiste ruma para lá, decidido à extrair o odor feminino e condensá-lo numa essência preciosa e poderosa como nenhuma outra. E é assim que ele passa a procurar por mulheres que se prestem a deixá-lo besuntá-las com banha de porco, material que, ele aprende, pode capturar qualquer aroma. Como a primeira delas, uma prostituta, se recusa a colaborar, Jean-Baptiste a mata –com suas cobaias mortas, o procedimento se torna mais fácil (!) –dando origem, assim, à trilha de mortes que assombra a pequena Grasse.

As mulheres –sejam elas prostitutas, freiras, empregadas ou damas da sociedade –desaparecem para surgirem, logo depois, mortas, nuas e intactas (!), alarmando do povoado do lugar. O sensato Lorde Antoine Richis (o grande e saudoso Alan Rickman), pai da jovem Laura (Rachel Hurd-Wood, de “Peter Pan”), uma das presas em potencial de Jean-Baptiste, alerta as autoridades para necessidade de compreender o modus operandi do assassino, o que não impede novas mortes de se sucederem e, ao fim, a da própria Laura. Eventualmente, Jean-Baptiste acaba descoberto, preso e condenado à execução por tortura.

Longe de ser uma obra realista –embora até então, houvesse relativa plausibilidade no que vinha sendo contado –o filme de Tykwer assume ares apoteóticos no trecho final, quando seu melancólico serial-killer chega no instante de sua sentença, em praça pública, e vale-se dos poderes do perfume que concebeu às custas da morte de tantas jovens: Ele hipnotiza toda a multidão, levando-os ao delírio, nomeando-o um anjo inocente e, na sequência, perpetrando uma orgia à céu-aberto (!), na cena mais assombrosa de todo o filme.

Incategorizável e adaptado do romance “Das Parfum-die Geschichte eines Mörders”, de Patrick Süskind, tido por infilmável, “Perfume-A História de Um Assassino” não é necessariamente um suspense (pois, a despeito da trajetória de psicopata que relata, suas impressões de filme de arte se libertam dos grilhões de gênero), não é um drama (pois, não há em Jean-Baptiste muita humanidade para que o expectador venha a nutrir alguma emoção, não obstante a boa atuação de Ben Whishaw, e os outros personagens, Lorde Antoine e Laura, não ganham devido tempo de cena ou respaldo da narrativa) e também não é um filme de época (pois sua reconstituição é deveras arrojada demais, fantasiosa demais e peculiar demais para isso), é sim um grande trabalho de um grande diretor, voltado para as inconstâncias do ser humano, sua obsessão inapelável por elementos prosaicos e, ao fim, o quanto todas essas superficialidades o empurram para o vazio: No desfecho, tendo chego ao seu objetivo e diante da oportunidade literal de conquistar o mundo, nada mais resta à Jean-Baptiste senão encerrar deliberadamente seu destino, deixando-se devorar (!) por plebeus hipnotizados na mesma feira de peixes onde veio ao mundo.

quinta-feira, 16 de março de 2023

007 - Sem Tempo Para Morrer


 Na última vez em que vimos o James Bond de Daniel Graig, em “007 Contra Spectre”, sua trajetória sinalizava uma espécie de desfecho para o personagem: A despeito disso jamais ter acontecido em qualquer outra versão, seja cinematográfica, seja literária, e mesmo que contra todas as probabilidades e até contra, digamos, o perfil do personagem, James Bond encontrava sua alma gêmea nas formas da forçadamente cativante Madeleine Swann (Lea Seydoux), abandonava o MI6 e partia em direção a um improvável final feliz de uma vida em família. Nesta nova produção, com intenções ainda mais contundentes de ser o capítulo derradeiro da Fase Daniel Craig, aquela pasmaceira familiar é descartada já no prólogo, uma longa cena de ação e perseguição na Itália (onde estaria o túmulo de Vesper, a bondgirl nº 1, morta em “Cassino Royale”), na qual Bond termina sentindo na pele os dissabores de se confiar demais e ser traído –ele deixa Madeleine (que julga tê-lo traído) numa estação de trem e garante à ela que nunca mais saberá dele. Entram os créditos iniciais, característicos e sensacionais desde o primeiro filme, com Sean Connery, e então “Sem Tempo Para Morrer” começa de verdade, com seu roteiro correndo contra o prejuízo e criando expedientes hábeis (uns muito bem bolados, outros nem tanto) para tentar trazer James Bond de volta ao seu status quo do qual algumas escolhas equivocadas do filme anterior ameaçaram removê-lo. Assim, passam-se cinco anos (!) e Bond, não mais um agente a serviço secreto de Vossa Majestade, é recrutado não pelo MI6, mas por seu grande amigo Felix Leiter (Jeffrey Wright), da CIA, que pede a Bond um favor: Recapturar um cientista russo sem escrúpulos, criador de um vírus a pedido do próprio MI6, que foi tirado de um laboratório secreto por um grupo obscuro que aparentemente é a Spectre.

A inusitada missão leva Bond à Cuba, na qual tem por ajudante a entusiasmada e divertida Paloma (a maravilhosa Ana de Armas, estabelecendo com Graig uma parceria um pouco diferente da que fizeram em “Entre Facas e Segredos”), talvez, a mais interessante e vívida personagem de todo o filme. Uma pena ela aparecer por tão pouco tempo...

O roteiro de “Sem Tempo Para Morrer” –assinado pelo diretor Cary Joji Fukunaga, Phoebe Waller-Bridge, Scott Z. Burns, Neal Purvis e Robert Wade, os dois últimos, roteiristas que, entre uma e outra colaboração, seguiram firme na franquia 007 desde os tempos de Pierce Brosnan, ou seja, conhecem (ou deveriam conhecer) toda a mitologia do personagem de cabo a rabo –lança mão de subterfúgios bastante sofisticados e expedientes objetivos de filmes de espionagem para desvencilhar-se da irrelevância e fazer-se surpreendente numa época em que expectadores não se surpreendem nem com reviravoltas-surpresas no melhor estilo M. Night Shyamalan. Não só isso, a produção também encara o desafio –inerente à todo filme de James Bond desde o fim dos anos 1980 –de fazer um personagem nascido das circunstâncias da Guerra Fria soar pertinente na atualidade, além de procurar se impor como uma válida obra cinematográfica tendo como objeto de comparação o fabuloso “007-Operação Skyfall”, com grande unanimidade tido como o melhor filme de Bond feito até hoje, e buscando fugir da proximidade qualitativa de obras que envergonharam a série, como “007 Contra O Foguete da Morte”.

São muitos, portanto, os desafios com os quais o diretor Cary Joji Fukunaga (da primeira temporada da série “True Detective”) se defronta aqui, e embora a crítica tenha sido muito rabugenta com seu trabalho (em certos quesitos até com alguma razão), ele consegue entregar um entretenimento válido, distante da sensação de desperdício que infelizmente contaminou “007 Contra Spectre”, ainda que longe de igualar a qualidade dos títulos mais honoráveis. Mesmo assim, “Sem Tempo Para Morrer” segue envolvente, eletrizante e reconhecível como um genuíno filme de 007.

Curioso, entretanto, é quando descobrimos, ao lado do próprio James Bond, que ele não é mais 007 (?!); seu codinome foi transferido, quando deixou o MI6, para outra agente, interpretada por Lashana Lynch (de “Capitã Marvel”). Contudo, será ao lado dela que Bond terá de trabalhar quando descobrir que, ao contrário do que acreditava, os planos malignos em gestação não são da Spectre (cujo líder, Blofeld, vivido por Christoph Waltz, está em uma prisão de segurança máxima), e sim de outro vilão megalomaníaco (vivido, por sua vez, por Rami Malek, recém-saído do Oscar de Melhor Ator por “Bohemian Rapsody”) dotado de planos intrincados que reintroduzem Madeleine Swann (personagem melhor desenvolvida aqui que no filme anterior) de volta à vida de Bond.

É fácil enxergar os elementos de “Sem Tempo Para Morrer” que desagradaram os puristas – a representatividade (um fator sempre redundante e secundário em encarnações anteriores do personagem) é poderosamente exercida no roteiro com a adição de uma mulher negra que detêm, durante boa parte do tempo, o título de 007 que antes pertencia ao herói, além das lembranças constantes da presumida irrelevância de James Bond, seja como um truculento agente de campo numa época dominada por tecnologia, sejam suas atitudes rotuladas machistas, e tudo isso sem contar a manobra final que certamente deixou descontente a maioria esmagadora de sua legião de fãs. Ainda assim, há que se notar também as qualidades do filme: A Fase Daniel Craig como um todo –e alguns de seus exemplares com mais evidência –foi a primeira a aproveitar integralmente todo o potencial cinematográfico que se poderia atingir nas obras de James Bond, não obstante o brilho nostálgico e a pulsante inovação da Fase Sean Connery, o divertimento irrestrito, ainda que ocasionalmente tolo, da Fase Roger Moore, a seriedade genérica da Fase TimothyDalton e o sopro de renovação técnica e artística da Fase Pierce Brosnan. Aqui, Cary Joji Fukunaga reitera muito do que funcionou antes, para potencializar o grande intérprete que Bond encontrou em Daniel Craig (embora sempre tenha sido notória a relação ‘amor e ódio’ que o ator sempre alimentou pelo personagem), cercando-o de formidáveis reafirmações da mitologia à qual pertenceu. É uma despedida digna, exuberante e adequada, imperfeita nas suas escolhas, razoável em relação à época a que pertence, enunciando certamente um recomeço no futuro, com outro ator, outra abordagem, e outra tentativa de se equiparar a tudo que veio antes.

Talvez o maior desafio seja encontrar um ator que se imponha no papel com a eficiência instintiva que Daniel Craig soube depositar em toda sua bela, ainda que oscilante, trajetória de cinco filmes.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Não Estou Lá

Consciente da desigual singularidade que seu biografado, o cantor e compositor Bob Dylan, experimenta na cena artística, o diretor Todd Haynes (também ele dono de um desigual pendor artístico) cria uma quase anti-biografia, num estilo solto e atrevido que, em seu inconformismo, sua ousadia e sua originalidade consegue evocar exatamente o espírito de Bob Dylan, e sua capacidade de não se deixar apreender ou rotular; existem pois seis personagens principais diferentes (!), interpretados por seis atores diferentes (um deles, inclusive, é uma mulher!).
E todos de alguma maneira são Bob Dylan.
E nenhum deles realmente é.
Em sua infância, ele é Woody Guthrie, vivido pelo pequeno Marcus Carl Franklin. Woody Guthrie é, na realidade, o nome homônimo também do cantor que Dylan venerava quando muito novo. Numa manobra que torna a confusão de identidades proposta pela narrativa ainda mais contundente, o pequeno Woody vai visitar o Woody Guthrie, verdadeiro e famoso, no hospital.
Um pouco mais velho, Ben Wishaw (o Q de “007 Operação Skyfall”) interpreta Arthur Rimbaud, homônimo, por sua vez, do poeta francês que serviu de fonte constante às citações de Dylan. Suas profecias e frases dissertativas sobre o mundo, a vida e o ser humano pontuam inúmeras passagens protagonizadas pelos outros ‘Dylans’.
Na metade da década de 1960, época da consolidação como astro emergente da música, mais precisamente em 1965, encontramos talvez a melhor dentre todas as personificações: O irrequieto Jude Quinn, vivido com detalhado brilhantismo por Cate Blanchett –que, por esta atuação concorreu ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2008 –e, por incrível que possa parecer, a composição que mais se aproxima do Bob Dylan como ele é mundialmente conhecido: Um astro aclamado por seu dom musical singular, frequentemente inadequado ao próprio sucesso, cujo (mau) comportamento lhe arruma desafetos entre a imprensa e os puristas da música folk (gênero que, em sua genialidade, ele insistia em desconstruir).
Um ano depois, 1966, encontramos outro personagem que talvez seja uma peça nesse quebra-cabeça chamado Bob Dylan: Trata-se de Billy (Richard Gere), um homem absolutamente comum –e plenamente disposto a SER comum –a morar de forma humilde e reclusa em um afastado vilarejo.
Em 1966, Dylan sofreu um acidente de moto após o qual desapareceu durante tempo; Billy é a personificação desse ímpeto de reclusão de Dylan, uma tentativa dos realizadores compreenderem o que ele fez durante aquele tempo e, mais importante, o que se passava então em sua cabeça.
Já nos anos 1970, ele está de volta à música folk, desta vez como Jack Rollins (Christian Bale), um músico de sucesso que não tarda a enxergar, no alcance quase transcendental da música sobre as massas, um poder que chega às raias do religioso –e, disposto a ir até o fim nessa analogia, abraça essa similaridade convertendo-se, ele próprio, num líder religioso; como, aliás do ocorreu com Bob Dylan realmente numa reconhecida fase de sua vida.
Por fim, encontramos o ator Robbie Clark (o saudoso Heath Ledger, num dos últimos projetos antes de seu falecimento) escalado, por sua vez, a interpretar Jack Rollins em um filme. Robbie Clark, a espelhar tormentos do próprio Dylan, é assombrado por esse personagem exuberante, influente e carismático que esperam dele –uma atribulação que o persegue, como a uma maldição, em sua vida pessoal. Há um vislumbre, por sinal, de seu relacionamento com a carinhosa Claire (Charlotte Gainsbourg), mãe de seu filho, inspirada, por sua vez, em Sara Lownds, a primeira esposa de Dylan.
Se não é (e nem deseja ser) uma biografia no sentido convencional do termo, o trabalho de Todd Haynes faz uma investigação íntima cheia de propriedade na forma com que assume a complexidade de seu biografado fragmentando-o em distintas pessoas e personalidades, a explorar assim suas fases contrastantes de vida, as cores radicais que separam o público do privado, e o sentimento de ambiguidade inerente à arte e ao artista.
Um filme difícil certamente, mas tão enigmático quanto sedutor em sua bela originalidade.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Brilho de Uma Paixão


Ecos de "Razão e Sensibilidade" reverberam neste trabalho austero, ainda demasiado denso da diretora de “Um Anjo Em Minha Mesa” (cuja protagonista, Kerry Fox, aparece aqui como a mãe da personagem principal) e "O Piano", expondo aqui, como em todos os seus filmes, a condição árdua da mulher numa sociedade que lhe é rude.
1808. Na Inglaterra, a jovem diletante e estilista Funy Prawne (a versátil Abbie Cornish, de “Sucker Punch”) é apresentada ao poeta e escritor norte-americano John Keats (Ben Wishaw, do ‘Q’ de “007-Operação Skyfall”).
Ele, pobre e vivendo quase que de favor com outro escritor não tão talentoso, mas muito admirador de seu estilo. Ela, como toda moça de família da época, sujeita a um casamento de conveniência com o primeiro rapaz de dote que aparecer.
Contra todas as formalidades do período, os dois se apaixonam, e sua relação, ainda que fugaz leva a uma das fases mais produtivas de Keats.
Menos uma obra biográfica (Keats tem peso menor na narrativa do que Funy) e mais um conto sobre o tormento amoroso num ambiente opressor, o filme se apropria da verve poética de Keats para dar corpo ao seu romance e contundência aos conceitos feministas que a diretora Jane Campion aponta em sua obra.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A Tempestade

William Shakespeare não era necessariamente uma novidade na filmografia de Julie Taymor (de “Across The Universe”) –muito antes ela havia se aventurado numa versão musical e lisérgica de “Titus”, com Anthony Hopkins –isso explica, talvez, o fato dela ter abordado a junção de ambições, revanches, traições e magia que compõem a trama passada numa ilha mediterrânea com um revisionismo tal que –sinal dos tempos –mudou o sexo de seu protagonista.
Se antes o personagem principal Prospero era homem (e chegou a ser interpretado por John Gielgud e Peter Fonda em outras versões), agora é convertido numa mulher, Prospera (que ganha assim a excelência de Helen Mirren).
Outrora a Duquesa de Milão, Prospera foi exilada numa ilha do mediterrâneo devido às maquinações conspiratórias de seu irmão, Antonio (Chris Cooper) e de outros membros da corte de Nápoles, como o próprio rei (David Strathairn) e seu irmão invejoso (Alan Cumming).
Ao mover sua vingança munida de forças sobrenaturais, Prospera se revela então um reflexo do próprio Shakespeare: Abandonada na ilha, junto de seus livros e da própria filha, Miranda (Felicity Jones, linda), ela desenvolve poderes com os quais controla o destino dos incautos viajantes –tal e qual o próprio escritor o faz com os personagens à disposição de sua trama.
Auxiliada pelo subserviente espírito Ariel (Ben Wisham), Prospera conjura uma tempestade com a qual consegue fazer naufragar na ilha um navio trazendo todos os seus antagonistas –e deles faz gato-sapato.
Como em “Titus”, a diretora Taymor imprime um senso visual colorido e surreal à trama, remetendo a uma artificialidade dos palcos de teatro potencializada com efeitos especiais de última geração e trucagens de câmera que buscam romper com qualquer predisposição tediosa do enredo. Nesse sentido, Julie Taymor, apesar de uma ou outra opção estética de gosto discutível, revela um entendimento de Shakespeare muito mais apurado do que, por exemplo, o jovem diretor Justin Kurzel e sua equivocada versão de “MacBeth”: Ela compreende que, vertidas para cinema, as tragédias de Shakespeare devem agregar em seu material as ferramentas que o cinema tem –o esplendor visual, a montagem inquieta e instigante, os atores capazes de hipnotizar a câmera (aqui não apenas estão as maravilhosas Helen Mirren e Felicity Jones, como também os incontroláveis Alfred Molina e Russel Brand).
Além disso, existem também as cenas de Ariel convertido aqui num ser etéreo e abstrato, na boca do qual Taymor deposita versos declamados em versões musicadas, e o monstruoso Caliban (Djimon Houson, de “A Ilha” e “Gladiador”) envolto numa maquiagem pesada e desconcertante.
Ainda que mais amena e não tão propensa ao experimentalismo e à transgressão, a versão de Julie Taymor bebe um pouco da fonte de Peter Greenaway e sua versão ultra-estilizada, “A Última Tempestade”, em suas singulares peripécias visuais e sua profusão de cores e imagens exuberantes a emoldurar o trabalho de um elenco empenhado e apaixonado.
Ótimo cinema a ser usufruído, entretanto, por públicos específicos.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

No Coração do Mar

É notável perceber a evolução de Ron Howard como diretor ao longo de sua carreira.
No início, em seus primeiros filmes nos anos 1970 e 1980, ele não parecia ser levado muito à sério, certamente por ser o típico ator que arriscava sentar na cadeira de diretor. Isso se reflete em filmes bastante comerciais, despretensiosos e leves como "Splash-Uma Sereia Em Minha Vida", "Fábrica de Loucuras" ou o épico romântico "Um Sonho Distante".
Contudo, desde dessa época é perceptível um tino muito afiado dos elementos que, no final das contas, fazem um bom filme.
Howard sempre teve um indelével instinto para filmar.
Nos anos 1990, seus trabalhos já exigiam um pouco mais de respeito por parte de público e crítica, sobretudo "Apollo 13" cuja esmerada reconstituição aliada à um aparato técnico espetacular rendeu um produto que concorreu à oito prêmios no Oscar de 1995 (o de Melhor Filme, só para constar, ele perdeu para "Coração Valente"). A partir daí, era como se Ron Howard tivesse sido enfim abalizado como cineasta: Ele fez, entre outros projetos, o bom "Ransom-O Preço de Um Resgate", ganhou o Oscar em 2001 por "Uma Mente Brilhante", encarregou-se do blockbuster "O Código Da Vinci", voltou ao Oscar em 2008 com o thriller político "Frost/Nixon".
É bem provável que seu melhor trabalho seja o mais recente "Rush-No Limite da Emoção", que reconstitui a obcecada e inacreditável rivalidade entre James Hunt e Nikki Lauda no GP de 1976.
No novo "No Coração do Mar", Howard reúne-se mais uma vez com o ator daquele filme (o sempre esforçado Chris Hemsworth) para relatar, em tons poderosamente épicos, o acontecimento real que levou à criação do livro "Moby Dick".
Tudo começa com o escritor Hellmann Melville em pessoa (interpretado por Ben Whishan, o Q dos filmes de 007 com Daniel Craig) à procura de um certo senhor que, ele crê, irá lhe relatar a história que poderá render material para o seu mais extraordinário trabalho: Um livro sobre a obsessão de um capitão de navio baleeiro em busca de uma descomunal baleia branca.
De início arredio, o velho (a última testemunha dos eventos, interpretado pelo grande Brendan Gleeson na idade adulta e pelo ótimo Tom Holland, quando jovem) revela a ele passo a passo a história que envolve as personalidades conflitantes de dois homens, o capitão Pollard e seu primeiro-imediato Chase (Hemsworth, uma boa presença), e como essa dinâmica entre os dois terminou conduzindo tripulação e embarcação pelos confins dos mares do Oceano Pacífico,onde cruzaram com uma baleia branca monstruosa, e enfrentaram percalços que marcaram a vida de todos os que sobreviveram.
Não é o melhor trabalho de Ron Howard nem por um decreto; não possui o equilíbrio de "Uma Mente Brilhante", nem a objetividade pulsante de "Rush", na verdade, sua narrativa muitas vezes peca pelo peso da tensão imposta em muitos momentos, tornando-o desgastante e longo.
Mas é nitidamente uma obra que pede por um diretor no absoluto controle de seu ofício, e isso, Howard o faz com evidente primor: A fotografia, com imodesto emprego do recurso 3D, funciona que é uma beleza, o elenco de um modo geral tem uma competência uníssona, e a julgar pela dificuldade que sempre se alardeia ser o fato de filmar em alto-mar, o resultado detalhado e rico que se vê na tela, seja em ritmo e continuidade, merece ser chamado de obra de arte.
"No Coração do Mar" pode não agradar tanto aqueles expectadores que se ressentem de um trabalho menos denso e dramático (como a grande maioria dos lançamentos que se espera para as férias de fim de ano), mas não deixa de ser um espetáculo de realização.

domingo, 15 de novembro de 2015

007 Contra Spectre

Demorou um pouco, desde as minhas postagens da Maratona James Bond para finalmente conseguir assistir o último filme. Nesse meio tempo, não faltou gente dizendo que o filme era frustrante, que "Skyfall" era muito melhor e tal, de modo que minha expectativa estava bastante baixa.
Uma das críticas que mais ouvi foi que a produção ignorou o público e fez um filme para os fãs de Bond. Pois então, acho que isso me qualifica como fã de James Bond, pois gostei bastante do filme.
Que "007-Operação Skyfall" é um filme melhor, não chega a ser uma surpresa: O filme é nada menos do que a melhor aventura de toda a franquia 007, e manter (ou mesmo igualar) aquele nível altíssimo a que o diretor Sam Mendes conseguiu chegar era quase uma impossibilidade.
Em "007 Contra Spectre", contudo, é dos mais louváveis, o seu esforço em tentar.
A história (que desde o início é profundamente referencial em relação aos demais filmes de Daniel Craig) tem início com uma mensagem secreta recebida por Bond, que o coloca em rota de colisão com uma organização secreta -a Spectre -que teve envolvimento em todos os acontecimentos dos filmes anteriores, e que tem uma ligação com Bond muito mais profunda e pessoal.
Curioso notar que uma atriz bastante famosa como a italiana Monica Bellucci aparece numa quase ponta, muito rapidamente, ainda que seja essencial para a história.
Consequentemente, rostos conhecidos reaparecem. Exemplos: os vilões Le Chiffre, e Silva são muito mencionados ao longo da trama, assim como as falecidas M e Vesper Lynd.
Um dos mais importantes a reaparecer é o Sr. White (se bem que me parece que ele morre em "Quantun Of Solace" mas, enfim...) que acaba levando James até sua filha, Madeleine Swann (a pra lá de linda Léa Seydoux, de "Azul É A Cor Mais Quente"), por quem Bond, que nãp é nada bobo, logo se interessa.
Mas a grande questão do filme é o chefe da tal Spectre, interpretado por Christoph Waltz, e que, se você assistiu a todos os trailers que saíram, até já deve saber quem é.
Talvez seja esse o problema de "Spectre": Aliada à expectativa provocada pela excelência do filme anterior, a campanha de marketing não foi das mais inspiradas.
Isso não muda o fato de Sam Mendes ter criado uma aventura genial, plenamente digna do icônico personagem que representa, dona de algumas das mais belas cenas de ação do ano e carregada de imensas qualidades como cinema: Grande diretor, Sam Mendes faz lembrar, por exemplo, Michelangelo Antonioni e seu "Profissão Repórter" na cena em que Bond e Madeleine esperam por um rolls royce numa estação no deserto.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

007 Operação Skyfall

O início deste primordial "Operação Skyfall' registra uma missão fracassada (além de já colocar, nítidas na mesa, a paixão e a adoração do diretor Sam Mendes pelas características mais intrinsecas que fizeram o ícone de James Bond).
Ao tentar neutralizar um espião inimigo, Bond acaba se prejudicando com o erro humano de seus colegas agentes de campo (e, de uma certa maneira com a impessoalidade e a indiferença cruel de sua chefe no Serviço Secreto, M, magnificamente interpretada por Judi Dench), o que lhe deixou dolorosas seqüelas.
No entanto, após um atentado terrorista até então inconcebível, o agente britânico é chamado de volta à ativa para rastrear um ex-agente que vem dando muito trabalho ao MI-6 em geral, e à sua chefe M em particular.
Uma vez que esse ex-agente, Silva (o formidável Javier Barden), é motivado pela vingança por ter sido deixado de lado pelo Serviço Secreto no passado, a relação entre ele e Bond (que percebe estar numa situação muito semelhante à que Silva também esteve) torna-se estranhamente ambígua. 
Terceiro filme de Daniel Craig no papel (antecedido pelo brilhante "Cassino Royale" e pelo mediano "Quantum Of Solace") e o primeiro dirigido pelo ganhador do Oscar, Sam Mendes (de “Beleza Americana”), o mesmo que realizou o novo “007 Contra Spectre”. 
A despeito dos ótimos filmes estrelados por Sean Connery, e de alguns bons exemplares com Roger Moore, este é o melhor já realizado na franquia 007. O diretor Sam Mendes retoma questões envolvendo a origem de Bond (assim como paradigmas que definiram a própria série) com uma perspicácia eletrizante para com a história e as cenas de ação.