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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Twin Peaks - O Retorno


 Depois de muito tempo, em 2017, os fatores favoráveis se alinharam para que os criadores David Lynch e Mark Frost enfim dessem continuidade aos eventos misteriosos e intrigantes que encerraram a segunda temporada de “Twin Peaks” –isso tudo, para aproveitar o gancho no qual a personagem Laura Palmer (vivida por Sheryl Lee) diz ao Ag. Dale Cooper (Kyle MacLachlan) que o verá “dali há 25 anos”.

Entre esses 25 anos –tanto dentro da série como aqui, no mundo real –o criador e diretor David Lynch mudou: Se nas duas primeiras temporadas de “Twin Peaks”, ainda no início dos anos 1990 (nas quais ele dirigiu um total de seis episódios), Lynch ainda flertava com encenações imponderáveis e introduzia um surrealismo um pouco mais predisposto a se harmonizar com o formato televisivo convencional exigido pelos produtores, em 2017, Lynch já era um autor pra lá de aclamado, e ao conceber obras desafiadoras e fascinantes como a trinca “A Estrada Perdida”, “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos” (todos eles, posteriores a “Twin Peaks”), era claro para qualquer financiador que um projeto de David Lynch não iria se render a conformismo nenhum.

E foi nessas circunstâncias que o canal Showtime viabilizou esta retomada de “Twin Peaks” que –diferente das duas temporadas originais –é integralmente dirigida por David Lynch. E nota-se isso a cada instante. A narrativa de “O Retorno” é fragmentada, nebulosa, estranha e frequentemente desconcertante. Lynch já começa quebrando expectativas levando a continuação da trama –que retoma o estranho final da segunda temporada a se fragmentar em, pelo menos, quatro ou cinco diferentes núcleos em locais distintos; e eles, à princípio, não remetem, de imediato, à cidadezinha de Twin Peaks, propriamente dita.

Descobrimos que o Ag. Cooper passou todos esses anos preso dentro do black lodge e que, em seu lugar, um doppelgänger maligno, um Bad Cooper, andou aprontando das suas –esse Bad Cooper é, também ele, vivido por Kyle MacLachlan, e trata-se do corpo de Cooper possuído pela perversa entidade Bob (Frank Silva), no fim das contas, o real assassino de Laura Palmer.

Em Nova York, testemunhamos um experimento no qual um jovem deve ficar horas observando (e filmando com um arsenal de câmeras) uma caixa de vidro aparentemente vazia –ele logo recebe a companhia da personagem da bela Madeleine Zima (da série “Californication”, também da Showtime) que inclusive aparece nua! Essa situação –surreal, como muitas saídas da mente de Lynch –será vital para a introdução do núcleo dos agentes do FBI na história: O chefe de departamento Gordon Cole (o próprio David Lynch), o Ag. Rosenfield (o saudoso Miguel Ferrer), e a novata, ainda que centrada e dedicada Tammy Preston (a cantora Chrysta Bell). Eles investigam casos pra lá de estranhos oriundos de um certo Arquivo Rosa Azul (entre os quais, uma chacina recente que houve com aquela caixa de vidro) que reacende um antigo caso, envolvendo o ex-agente Phillip Jeffries (o falecido David Bowie num personagem que apareceu no filme “Os Últimos Dias de Laura Palmer”), os leva até o encalço do Bad Cooper, e à pedir ajuda à ex-agente Diane (Laura Dern), a personagem para quem Cooper gravava as fitas nas temporadas originais –e que até então nunca tinha aparecido.

No black lodge (uma dimensão sobrenatural na qual transitam alguns dos mais enigmáticos personagens de toda a série), Cooper recebe a ajuda de Mike (Al Strobel), o guru de um braço só, para finalmente, depois de tanto tempo, voltar para a realidade, todavia, isso se dá por meio de caminhos tortuosos e pela quebra de qualquer expectativa que o público poderia elaborar: Cooper manifesta-se no lugar de um sósia, um cidadão de classe média baixa morador de Las Vegas chamado Dougie Jones –e na ocasião, em companhia da lindíssima Jade (Nafessa Williams). Dougie é casado com Janey-E (Naomi Watts) e trabalha como vendedor de seguros. Uma vez no corpo de Dougie Jones, Cooper fica preso numa persona balbuciante, monossilábica e lesada, ainda que, a partir daí, agraciada com uma sorte espantosa –mesmo que só repita as últimas palavras que ouviu da pessoa com quem fala, Dougie vai conquistando espaço e prestígio em sua empresa, felicidade e satisfação dentro de seu matrimônio, e até mesmo a afeição de dois irmãos mafiosos de bom coração (Robert Knepper e Jim Belushi) –esse personagem, o do idiota que sem querer ludibria os outros à sua volta convencendo-os de recursos e qualidades que não necessariamente tem remete a um filme que parece ser de muito apreço à David Lynch, o clássico “Muito Além do Jardim”, com Peter Sellers.

Noutra cidade, um homicídio tenebroso (uma mulher é morta por decapitação, no entanto, sua cabeça é encontra junto à outro corpo, de um dos personagens da série original) coloca, como principal suspeito aos olhos da polícia, o pacato diretor escolar vivido por Matthew Lillard (de “Pânico”), ao que tudo indica, mais um ato do Bad Cooper.

Os personagens de Twin Peaks, mais precisamente, começam a aparecer aos poucos revelando em alguns casos suas circunstâncias presentes, depois de todo o tempo decorrido: O xerife adjunto Hawk (Michael Horse) recebe uma orientação da clarividente Sra. do Tronco (Catherine E. Coulson) sobre uma pista (páginas perdidas do diário de Laura Palmer) que reacende a investigação e a procura pelo desaparecido Ag. Cooper, o que envolve o xerife Frank Truman (Robert Forster), irmão do Harry Truman (Michael Ontkean), xerife nas outras temporadas e o novo xerife adjunto Bobby (Dana Ashbrook), agora mais bem aproveitado pelo roteiro. Na medida do possível, o máximo de personagens são retomados, o núcleo da lanchonete e cafeteria onde trabalham Shelly (Madchen Amick) e Norma (Peggy Lipton); a situação enigmática (e sem respostas claras) de Audrey (Sherilyn Fenn) que, após um período de coma depois do fim da segunda temporada teve um filho psicopata, Richard (Eamon Farren), e o bar The Roadhouse, ponto de encontro onde vemos James Hurley (James Marshall) e outros, e onde muitos dos episódios (num total de 18) se encerram ao som espetacular de grandes convidados como Nine Inch Nails, Eddie Vedder e Rebekah Del Rio, contudo, a personagem Donna, de Lara Flynn Boyle, sequer é mencionada.

Pode-se afirmar, entretanto, que isso é somente arranhar a superfície: Além dessas e outras tramas e sub-tramas, “O Retorno” apresenta uma sucessão vertiginosa e vasta de outros personagens (alguns relevantes, outros bastante breves) onde se vê um elenco estupendo, certamente atraído pelo prestígio sem igual de David Lynch: Além de todos os já citados temos Harry Dean Stanton, Balthazar Getty, Ernie Hudson, Richard Chamberlain, Tim Roth, Jennifer Jason Leight, Ashley Jude, Ben Chaplin, Tom Sizemore, Amanda Seyfried, Caleb Landry Jones, Monica Bellucci, Michael Cera, Xolo Maridueña, David Dastmalchian, John Savage e muitos outros.

Todos representam pontas soltas que, embora até se interliguem ao longo dos episódios que se seguem, têm menos a intenção de elucidar os mistérios insolúveis que se levantam, e mais o objetivo de sedimentar o caminho percorrido como sendo uma experiência de sonho –e nisso, David Lynch é um craque sem igual. Mestre das atmosferas obscuras e do surreal empregado como fonte primitiva das mais diversas sensações humanas, Lynch nos leva do humor negro ao terror irracional, do investigativo ao experimental, do drama ao melodrama e de volta ao incategorizável, numa viagem apreensiva e fascinante que não encontra par, em toda a década, na realização audio-visual televisiva do mundo todo.

Só é um lamento constatar que –diante da perda de David Lynch, que nos deixou em 15 de janeiro de 2025 –a continuidade de “Twin Peaks” (que, pra variar, também se encerra aqui num plot misterioso prometendo possibilidades instigantes) seja algo que infelizmente não irá mais acontecer. Um filme de dezoito horas de duração, brilhantemente confuso e fascinante, construído com genialidade, e primoroso em cada um de seus inexplicáveis e eventualmente perturbadores momentos, terá que nos servir de consolo.

sábado, 21 de setembro de 2024

Os Fantasmas Ainda Se Divertem


 Existem complicações inerentes ao fato de se tentar realizar uma continuação de um cult-movie: Primeiro, porque muito provavelmente, as razões que o tornaram cult vão além da mera competência técnica e artística, sendo mais uma conjunção de fatores favoráveis e incomuns; segundo, porque muitas vezes, tal produção pertence à um tempo (anos 1980, no caso) e à um contexto que não se pode reproduzir espontaneamente; e terceiro, porque cult-movies costumam ser encontrados por seu público de uma forma que dificilmente acaba se repetindo.

Embora pertinentes, essas questões se tornam menores diante deste brilhante “Os Fantasmas Ainda Se Divertem”, e tudo isso graças ao nome de Tim Burton atrás das câmeras –ele, que jamais abriu mão de seu estilo ao longo de quase quarenta anos de carreira, entendeu que somente preservando os mesmos elementos que em 1988 fizeram a originalidade palpitante do divertidíssimo “Os Fantasmas Se Divertem” seria possível conceber uma continuação digna e sólida.

E –vejam só! –ele de fato conseguiu: O novo “Beetlejuice” começa mostrando a rotina da personagem de Winona Ryder, Lydia Deetz, que no filme original era uma adolescente: Agora, atriz e personagem estão na idade madura, Lydia possui um programa de TV que, de maneira sensacionalista, explora as capacidades sensitivas que ele descobriu no primeiro filme. Sua filha, Astrid (Jenna Ortega) tem a mesma idade que Lydia tinha na época do filme anterior, no entanto, diferente da mãe, ela faz lá seus esforços para se adaptar –o que leva mãe e filha a terem seus eventuais conflitos, principalmente, porque Astrid não acredita nos dons sobrenaturais da mãe (se ela pode comunicar-se com os mortos, conclui a jovem, então por que nunca conseguiu estabelecer contato com o falecido pai de Astrid?) e disso se ressente. Um acontecimento inesperado acaba por reunir as três gerações de mulheres da Família Deetz –Astrid, a filha, Lydia, a mãe, e Delia (Catherine O’Hara) a madrasta de Lydia –na mesma casa do filme original: Charles, pai de Lydia e marido de Delia, morreu de forma um tanto caricata num acidente de avião (mostrado em animação stop-motion) e seu funeral se sucede na mesma casa, na cidadezinha de Winter River, em que os eventos anteriores ocorreram. O roteiro até que engenhoso de Miles Millar e Alfred Gough consegue assim justificar uma espécie de ausência do personagem outrora vivido por Jeffrey Jones (de “Curtindo A Vida Adoidado”) sem precisar descartá-lo pela força das circunstâncias (em 2002, ele foi judicialmente incriminado de pornografia infantil).

Mas, é claro que, uma vez que toda essa trupe reaparece em Winter River, a estrela principal haveria de dar as caras também: Beetlejuice, a assombração de aluguel, vivido de maneira impagável por Michael Keaton, volta mais uma vez para tumultuar a rotina dos Deetz. Ou não... quando Astrid se mete numa encrenca de proporções literalmente sobrenaturais, Lydia não tem outra escolha senão chamar aquele que ela tentava evitar à todo o custo desde que chegaram –ela pede ajuda ao próprio Beetlejuice que, obviamente, tem lá o seu preço a cobrar: Com uma ex-esposa maligna e sugadora de almas à solta, Delores (interpretada pela italiana Monica Bellucci, atual namorada de Burton) responsável inclusive pela morte de Beetlejuice uns seiscentos anos atrás (!), ele precisa forjar com Lydia o mesmo pacto do primeiro filme, no qual, ao casar-se com ela, ele poderia voltar ao mundo dos vivos. No encalço de Beetlejuice, de Delores e de todo esse pessoal, está ainda Wolf Jackson (Willem Dafoe, hilário) um ator morto, tão convicto do personagem que morreu interpretando que, mesmo no além, ainda age como um detetive –e é obedecido por subalternos como se fosse um!

Tim Burton está, portanto, afiadíssimo em “Os Fantasmas Ainda Se Divertem”, levando todos esses personagens, e muitos outros mais à interagir incessantemente numa trama de idas e vindas vertiginosas, possivelmente, a melhor mescla de comédia pastelão e homenagem macabra ao terror que Burton conseguiu urgir nas últimas décadas.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

As Idades do Amor


 Na tradição italiana de filmes em formato episódico, este trabalho do diretor Giovanni Veronesi apresenta três histórias, interligadas por irônicos momentos a conectar seus protagonistas, por um mesmo e onipresente personagem –um cupido disfarçado de motorista de táxi, interpretado pelo jovem Emanuele Propizio –e pelo tema recorrente da paixão, um ingrediente, também ele, de sabor inconfundivelmente italiano.

Assim, ao longo das três narrativas –engendradas de forma um tanto pedante pela frouxa condução –visitamos três diferentes fases da vida na qual o amor encontra caminhos inesperados para se expressar. Na primeira deles, “Juventude”, acompanhamos o casal Roberto (Riccardo Scamarcio, de “John Wick-Um Novo Dia Para Matar”) e Sara (Valeria Solarino), na flor da idade e prestes a se casar.

Roberto está apaixonado por Sara, entretanto, suas convicções sofrem um forte abalo quando parte para uma cidadezinha excêntrica na Toscana a fim de convencer proprietários a deixar um terreno reclamado por sua empresa, e lá conhece a impulsiva cantora Micol (Laura Chiatti, de “Um Lugar Qualquer”), uma espécie de musa do local, com quem todos os homens, novos e velhos, sonham ir para a cama.

Aos poucos, as circunstâncias vão aproximando Roberto de Micol e, tomado por desejo, ele vai protelando sua partida da cidadezinha que antes só lhe infernizava.

A ambivalência moral que precisava ostentar no âmbito profissional –onde representa um corporação disposta a expulsar camponeses do lugar onde moraram a vida toda –começa a interferir em sua decisão de se manter fiel à própria noiva, levando-o ao adultério e até a cogitar uma vida ao lado de Micol. Pelo menos, até o destino surpreendê-lo...

Na segunda parte, “Maturidade”, um tanto quanto mais divertida e sarcástica –a ponto até de afastar-se do conceito de romantismo inicialmente sugerido e mergulhar numa comédia mais rasgada –encontramos um vaidoso âncora de telejornal de meia-idade, Fabio (o hilário e irrequieto Carlo Verdone, de “A Grande Beleza”) que encontra, numa festa, uma mulher aparentemente fascinante, a psiquiatra Eliana Rame (Donatella Finocchiaro), que de começo já lhe derruba dentro da piscina local (!).

Uma carona aqui, um telefonema e um convite para um café ali, e Fabio já está no apartamento dela, traindo a esposa com quem o casamento caiu num certo marasmo. Mas, Fabio mal sabe a encrenca em que se meteu: Ao parar, acidentalmente numa delegacia, ele descobre que o nome real dela é Gaia (Eliana Rame é sua psiquiatra!) e que ela sobre de transtorno bipolar (!).

Agora, a mulher sedutora que inicialmente convenceu-o a mudar de atitude, num gatilho para alguma crise de meia-idade –ele chegou até a abolir os apliques de cabelo para apresentar, orgulhoso, as reportagens com sua careca natural! –converteu-se num pesadelo: Ela o persegue, obcecada em ter um filho seu, e para isso, vira sua vida do avesso!

Além de ser o melhor episódio, a terceira e última parte, “Mais Além”, beneficia-se do carisma do grande Robert De Niro e da espetacular Monica Bellucci: Ele vive Adrian, um americano que mudou-se para Roma (falando italiano fluentemente) e que, após uma viuvez e um transplante do coração, passou a encarar a vida com certa desilusão.

As tentativas do amigo Augusto (Michele Placido) em conseguir arranjo com as vizinhas são recebidas por ele com niilismo. Isso pelo menos, até Augusto ser visitado pela filha, Viola (Monica), vinda de Paris onde tinha ido morar.

Fascinado pela beleza dela, Adrian acaba descobrindo seus problemas; Viola trabalhava de stripper e deve dinheiro à agiotas, o que leva seu pai, indignado, a expulsá-la de casa. É Adrian quem a acolhe em seu apartamento, às escondidas de Augusto e, às vésperas do Dia da Marselha, a paixão termina por envolvê-los, mesmo que Adrian, naquele ponto da vida, já não tivesse maiores expectativas quanto a um envolvimento profundo com uma mulher.

Agradável na maior parte do tempo –o que se comprova visto que suas mais de duas horas passam sem maiores sofrimentos –“As Idades do Amor” é beneficiado pelo detalhe, talvez involuntário, de que não só suas histórias estão dispostas em ordem crescente de qualidade, como também as razões que as fazem interessantes parecem mais acidentes felizes do que competência de fato da parte dos realizadores: A primeira diverte na mesma medida que injuria, mas é bem curta; a segunda se torna engraçada graças aos esforços do grande ator Carlo Verdone e sua perplexidade cada vez mais incontida; e a terceira seria só mais uma trama enfadonha de romance entre indivíduos de diferentes idades, não fossem as presenças luminosas de De Niro e Monica. E isso basta para torná-la envolvente do início ao fim.

Para constar, este “As Idades do Amor” lançado em 2011 é, na verdade, o terceiro de uma série de filmes realizados pelo diretor Giovanni Veronesi; os anteriores foram “Manuale D’Amore”, de 2005, e “Manuale D’Amore 2-Capitoli Successivi”, de 2007, que também abarcam vários episódios (quatro cada um) girando em torno de enredos românticos, e muitos repetem parte do elenco deste filme (Monica Bellucci, inclusive, participa do segundo). Dentre os três, somente“As Idades do Amor” –ou “Manuale D’Amore 3” –e o primeiro, “Manual do Amor”, foram lançados no Brasil.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

O Ritual da Pedra


O diretor Jean-Christophe Grange parece ambicionar, antes de mais nada, uma mistura atrativa de filme de arte e suspense comercial com esta intrigante história onde reúne Monica Bellucci (uma atriz belíssima e capaz de assídua presença em projetos europeus desiguais) numa trama sobre nebulosas práticas executadas em meio à uma obscura tradição mongol.
Laura Siprien (Bellucci) é a mãe adotiva de um garotinho mongol, Liu-Son. Aos sete anos de idade, ele passa a manifestar eventos estranhos ao redor de si: Surge em seu peito uma estranha marca e ele passa a ter pesadelos (e visões com animais) que estranhamente compartilha com Laura.
Numa dessas visões, um acidente automobilístico acontece, e Liu-Son é hospitalizado. Quando novos acontecimentos, um bocado alarmantes começam e se suceder (mortes sucessivas de pessoas ligadas a ele e ao seu passado), Laura decide investigar ao lado de um relutante agente do consulado russo (Moritz Bleibtreu, de “Corra, Lola Corra”) por meio do qual a criança foi adotada, o que aos poucos conduz ela à descoberta de uma conspiração realizada a partir de ancestrais crenças asiáticas –e na qual Liu-Son ocupa papel central.
Se a sinopse elabora com clareza os acontecimentos do filme não é isso que acontece durante a experiência de assistí-lo em seus dois primeiros terços: O diretor Grange se esbalda além da conta em enumerar pistas falsas e desviar a atenção do expectador para inúmeros elementos que nunca são aquilo que parecem ser.
Ele abusa da elegância numa narrativa cadenciada e flerta constantemente com a lentidão e a inconclusão até por fim começar a entregar as informações válidas de fato quando o filme já avançou para lá de sua metade. Isso prejudica profundamente o envolvimento com a trama e com o drama de seus personagens, embora Monica Bellucci segure o filme com extraordinária desenvoltura.
Ao fim, no entanto, a construção cuidadosa de seus suspense termina soando pretensiosa. Quando o filme revela enfim seus objetivos e finalidades, não se trata de nada que não vimos em outros lugares e em outras realizações.
Até arremata a obra com alguma dignidade, mas todo o restante do filme foi tão dedicado à uma sugestão de que os desenlaces seriam algo tão distinto que, quando vemos acontecer, parece até banal e corriqueiro –erro grave para um filme que se constrói em cima de tal mote.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A Paixão de Cristo

O pátio noturno que se revela na primeira cena é tenebroso, quase pertencente a um filme de terror. E a narrativa parcimoniosa, serena, porém firme do diretor Mel Gibson, já desde esse princípio consegue se mostrar amedrontadora, sobretudo, talvez aos expectadores que sabem de antemão o quê lhes aguarda.
Jesus Cristo Nazareno tem medo. Interpretado com bastante propriedade e compromisso por Jim Cazievel (de “Além da Linha Vermelha”), o messias é mostrado, como não poderia deixar de ser, em suas facetas humanas mais suscetíveis aos flagelos terrenos –ao longo do filme ele experimentará, além do medo, o abandono, o repudio, a desesperança, o desespero, a desorientação e a dor em suas inúmeras e insuportáveis expressões, além de diversas outras sensações tão mundanas quanto atrozes, antes de, por fim, deixar esta vida.
“Paixão de Cristo” se impõe assim como um exercício de estilo e, por que não, de brilhantismo do diretor Mel Gibson, onde ele logrou empregar toda sua obsessão artística por uma reconstituição fiel aos fatos históricos que tanto se mostraram interessantes em sua pequena mais brilhante filmografia, que vai desde os detalhes mais sutis até os mais evidentes, o quê determinou diretamente a excelência artística do resultado final, bem como a reação de assombro perplexidade com a qual o público o respondeu.
Falado todo em hebraico, o filme acompanha assim as 12 últimas horas de vida de Jesus Cristo na terra. A traição de Judas (Luca Lionello) e sua conseqüente prisão pelos soldados romanos. O julgamento movido por Caifás (Mattia Sbragia) e os outros sacerdotes. A sentença decretada por Poncio Pilatos (Hristo Shopov). O interminável martírio até a crucificação. Tudo acompanhado de perto por seus seguidores e pelo testemunho perplexo e impotente de sua aflita mãe, Maria (Maia Morgenstern, fabulosa), e da ex-prostituta devota e recuperada, Maria Madalena (Monica Bellucci). Encerrando, enfim, com a morte na cruz mostrada com assustador realismo.
Muitos foram os que criticaram a maneira gráfica com que Gibson expôs o calvário –tão reconstituído em tantos outros filmes, todos infinitamente mais amenos do que este –assim como a ligeira sugestão de anti-semitismo da narrativa (personagens como Judas, Poncio Pilatos ou mesmo Barrabás ganham interpretações ambíguas e humanizadas, enquanto Caifás e os sacerdotes do templo são retratados com desprezível vilania), e muitos foram também aqueles que o louvaram como uma grande obra –o quê ele de fato é.
Gibson promove uma recriação árdua, minimalista e até mesmo apaixonada das percepções, texturas e elementos da época rigidamente como teria sido (o que converge no assombro das cenas ultra sangrentas e ultra violentas que deram muito o que falar), de forma ainda mais dedicada e artisticamente perseverante do que ele fez no ganhador do Oscar, “Coração Valente” –neste sentido, “Paixão de Cristo” se irmana, de fato, com outro grande filme realizado por Gibson logo depois, “Apocalypto”.
O mestre Martin Scorsese pode até ter feito um trabalho ainda mais amplo e admirável em seu esplêndido “A Última Tentação de Cristo”, mas Mel Gibson certamente urgiu um filme que é um testemunho à tenacidade, ao talento e à força estética de si próprio como um artista que, após uma consagrada carreira como ator, revelou-se um diretor de estilo forte e contundente.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

O Apartamento

Engenhoso o roteiro deste drama francês que vai ficando mais envolvente à medida que vai deixando de ser a enfadonha trama de tormento romântico de sua primeira metade para converter-se em algo diferente quando novas revelações e novos personagens dão rumo inesperado à história.
Vincent Cassel e sua esposa na vida real, a estonteante Monica Bellucci formam um casal também em cena. Ele é Max. Ela, Lisa. Ele fica obcecado por ela (e quem não ficaria?), mas com o tempo a conquista.
Porém, em algum momento e de alguma forma que não fica clara –não pelo menos até que essa informação seja necessária –Lisa o deixa. Tudo isso é revelado por flashbacks, pois o presente no qual encontramos Max é bem outro: Ele é agora um executivo, tem importância profissional e um relacionamento aparentemente estável.
Mas, a relação com Lisa não foi superada.
Ele a revê num café, onde se dá uma breve reunião de negócios. Ela fala a alguém num telefone e ao sair, sem enxergar Max, deixa para trás a chave de um apartamento.
A partir desse fio condutor, Max vai atrás da única pista que lhe parece real para encontrar Lisa e descobrir o porquê do sumiço abrupto dela de sua vida.
As coisas, porém, não serão nada simples: A introdução de um terceiro vértice que transformará este em um triângulo amoroso (a personagem de Alice vivida por Romane Bohringer, que nem fomos capazes de perceber, mas já estava lá desde o começo do filme!) dará um novo enfoque a tudo o que se passou, ao mesmo tempo em que aproxima este filme de certos elementos oriundos do cinema de Hithccock –em especial, o psicopata (ou algo muito próximo de uma psicopatia) ao qual é atribuída certa simpatia da narrativa, não obstante o fato de elaborar estratagemas para manipular pessoas e prejudicar outras vidas ou, no caso, outro relacionamento.
Se a explicação parece nebulosa é por que é imperativo salvaguardar certas informações a fim de preservar algumas surpresas muito bem-vindas que surgem quando menos esperamos neste interessante trabalho do diretor Gilles Mimouni –muito mais válido por seu roteiro inventivo e curioso do que pela habilidade da direção.
Cheio de exageros estéticos e opções narrativas discutíveis, típicos das afetações dos anos 1990, é um filme que, ainda assim, encontra um meio de se tornar interessante.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Drácula de Bram Stoker

“Eu Atravessei oceanos de tempo para encontrar você!”
Vlad Dracul (Gary Oldman, sucinto e exuberante em cena), nobre romeno e guerreiro dos Cárpatos do Século XV volta de sangrentas campanhas pela Europa Medieval após anos de ausência de seu lar. Diante do equívoco de que ele havia morrido, sua amada Elizabetha (então personificada pela jovem Winona Ryder) suicidara-se. Indignado com a crueldade do destino, Dracul renega Deus e seus desígnios, tornando-se assim uma criatura sobrenatural, um vampiro. Um paria à condição humana e, por isso mesmo, imortal. Condenado a viver para sempre da escuridão da noite e da necessidade pulsante e irracional de sangue. Os séculos transcorrem até a era vitoriana quando o Conde Dracul, que oscila entre a forma cadavérica de um velho centenário, um ser bestial meio humano meio morcego, e um homem sobrenaturalmente jovem, reencontra aquela que ele acredita ser a reencarnação de Elizabetha, na forma de Myna (mais uma vez Winona Ryder, particularmente linda), a então noiva de seu jovem corretor de imóveis, Jonathan Harker (Keanu Reeves, mais perdido que cego em tiroteio).
Incapaz de expressar seus anseios senão pela crueldade de um predador, Dracul –ou Drácula –sitia Jonathan em seu longínquo castelo, onde ele se torna refém das três “noivas do vampiro” (entre elas, uma Monica Bellucci jovem e em inicio de carreira), enquanto parte para a Inglaterra onde converte Lucy (Sadie Frost), a melhor amiga de Mina, numa criatura da noite, e enreda a própria Mina num jogo perigoso de sedução sobrenatural.
Entretanto, em seu caminho surge um estudioso das criaturas da noite conhecidas como “nosferatu”, o culto e astuto Professor Gabriel Van Helsing (Anthony Hopkins, recém-saído de “O Silêncio dos Inocentes” dando um registro desigual e maníaco a um personagem antes tratado com heroísmo).
Rebuscado, esplendoroso, estilizado.
Um roteiro (de James Hart) inteiramente debruçado sobre os meandros emocionais dilacerantes do romance de Bram Stoker –e, por isso mesmo, quase convertido numa trágica história de amor de megalomaníacas conseqüências sobrenaturais. Concebido como cinema do mais alto nível, esta adaptação de Francis Ford Coppola abre mão de ser um filme de terror para ser uma obra única.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Irreversível

“Saímos do inferno, para descobrir que horas antes havia ali o paraíso.” Li essa frase em uma antiga revista de cinema na época do lançamento de “Irreversível”, e só muito tempo depois me dei conta do quanto ela resume com perfeição a obra de Gaspar Noé.
É necessário preparar o espírito para se encarar “Irreversível”. Como em muitos de seus trabalhos, Noé confronta o expectador com a exposição das mazelas mais brutais que o mundo cão é capaz de deflagrar. Aqui, são dois momentos particulares e incapazes de serem esquecidos: O assassinato atroz, com golpes de um extintor de incêndio direto na cabeça, de um homem, logo nos quinze minutos iniciais; e. sobretudo, o estupro da personagem de Monica Bellucci ocorrido pouco depois, cujo flagelo e a agonia que despertam parecem intermináveis.
Na verdade, a trama de “Irreversível” começa ao contrário, a exemplo de “Amnésia” de Christopher Nolan. Quando começa, o registro tortuoso da câmera (e que espelha o estado de espírito dos personagens) captura a história já no seu final. São dois homens à procura de alguém e em busca de vingança. Não sabemos ainda porque.
Pouco a pouco percebemos: Cada longo (e magnífico) plano-sequência é anterior ao que acabamos de ver, fazendo com que a história vá retrocedendo, e assim, explicando-nos, gradativamente a razão daqueles momentos infernais do início.
Gaspar Noé reflete assim que a felicidade (observada nos instantes finais do filme) é tão mais aterradora quando se tem uma noção plena da tragédia que virá depois dela.
Como todos os seus trabalhos, uma obra absolutamente contra-indicada a pessoas que se sensibilizam com facilidade.

sábado, 21 de maio de 2016

O Pacto dos Lobos

O grande Cult movie francês da década de 2000, a despeito de muitas obras realmente sensacionais que surgiram por lá naquela época, foi mesmo “O Pacto dos Lobos”.
Até então, mais conhecido como realizador de filmes de terror (inclusive em experiências nos EUA, onde fez um episódio da coletânea de terror B “Necronomicon”, adaptado de H.P. Lovecraft) e de filmes de ação, cujo o mais expressivo foi “O Combate-Lágrimas do Guerreiro” com Mark Dacascos, o diretor Christophe Gans deu uma bela surtada ao encarar um projeto extremamente desigual que misturava um sem número de ecléticas influências (artes marciais, ambientação vitoriana; montagem de videoclip; monstros ;e a colossal nudez da italiana Monica Bellucci), para contar uma história baseada, até certo ponto, em relatos tidos como verdadeiros, mas intrinsecamente lendários.
1764. A França do Século retrasado é assolada pelas lendas que correm a respeito de um animal monstruoso que ataca os camponeses de Gevaudan, um vilarejo ao Norte, despertando as superstições do povo e gerando um preocupante clamor popular que chega a incomodar a coroa.
Preocupado com todo o folclore alarmista que a história vai ganhando, o Rei envia um pesquisador aventureiro (Samuel Le Bihan) e seu companheiro índio (Mark Dacascos, em mais uma colaboração com Gans) para a região incumbidos de solucionar a situação. Mas a dupla esbarra em mistérios que remontam a natureza maldosa de sociedades secretas criadas na região e que se estendem até a política e o poder religioso, e que estão diretamente ligados à origem do monstro.
Entre muitos dos personagens que lá eles encontram estão a jovem e angelical aristocrata Mariane (Emilie Dequenne), o pé no saco François (Vincent Cassel) e a prostituta Sylvia (Monica Bellucci, uma das coisas mais memoráveis do filme).
Talvez, a premissa de “Pacto dos Lobos” até lembrasse, um pouco, muitos filmes hollywoodianos produzidos em solo americano, mas o tratamento e o modo com que o diretor Gans enxergava a história era totalmente incomum. Ele conseguiu que o produtor Samuel Hadida (associado à Richard Granpierre) bancassem a produção, viabilizando todos os seus delírios que, num estúdio americano, jamais encontrariam sinal verde.
Contudo, o que distingue “Pacto...” de tantos filmes sobre monstros, sobre artes marciais, ou sobre qualquer coisa com a qual o filme se pareça, é realmente a forma com que Gans aborda tudo. Suas referências são ainda mais audaciosas do que no já promissor “O Combate-Lágrimas do Guerreiro” (no qual ele parecia incorporar um John Woo ainda mais lírico e operístico), e vão desde “Tubarão” de Steven Spielberg (usado, sobretudo, na cena do primeiro ataque do monstro), passando por “Matrix” (as coreografias em câmera lenta), e até mesmo “O Nome da Rosa” (a natureza incomum do filme e de sua investigação).
O resultado é tão singular que chega a despertar uma certa estranheza no expectador, mas Gans conduz seu filme como um trabalho comercial, num ritmo frenético que deve ter deixado Luc Besson orgulhoso. É verdade que sua narrativa padece pelo excesso; a trama não somente contem ramificações excessivas e, em dado momento, intrincadas, como também o filme abusa de sua extensa duração. Mas existe tanta paixão na execução de “Pacto dos Lobos” que seus erros acabam sendo parte daquilo que o torna único. Seus defeitos são tão fundamentais às características que o definem quanto suas virtudes.

E parece ser apropriado que essa miscelânea de influências audazes renda um filme francês.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Matrix Reloaded e Revolutions

Se fosse parar utilizar uma palavra para definir cada um dos filmes da trilogia “Matrix”, elas seriam ‘espanto’, para o primeiro e revolucionário filme, ‘expectativa’ para o segundo, “Matrix Reloaded”, lançado em maio de 2003, e ‘decepção’ para o terceiro e último, “Matrix Revolutions”, lançado aproximadamente seis meses depois, numa estratégia um pouco parecida com o lançamento de “De Volta Para O Futuro 2 e 3”, em 1990, e os clássicos franceses “Jean de Florete” e “A Vingança de Manon”, em 1986.
Na sequência de sua luta, e de toda a humanidade, contra a opressão das máquinas, Neo se defronta com novos personagens e novos acontecimentos, que o levam, junto de Morpheu e sua amada Trinity a um plano definitivo para encerrar a guerra e libertar a humanidade presa ao mundo virtual.
Um ataque à cidade subterrânea de Zion (a última cidade humana povoada da Terra) é descoberto, dando aos humanos opositores das máquinas um prazo apertados para sobrepujá-las. Isso agrega urgência ao plano tão acarinhado de Morpheu, que inclui a libertação de uma entidade conhecida como O Chaveiro, e o uso de suas capacidades para penetrar no núcleo de consciência da Matrix, onde os poderes espantosos de Neo (explorados neste segundo filme em sequências assombrosas) poderão libertar todos os humanos prisioneiros daquele sistema.
Todos esses desdobramentos levam Neo a se encontrar com o Arquiteto, o idealizador supremo da Matrix, que trás consigo desconcertantes revelações.
Aguardadíssima pelo público, devido ao forte status Cult que o primeiro filme logo conquistou, esta continuação de "Matrix" terminou por se mostrar um impressionante espetáculo visual com pelo menos duas cenas (a perseguição de carro e a luta contra 200 agentes) capazes de deixar qualquer um boquiaberto.
Os diretores (Andy e Larry Wachowsky) mostravam um domínio técnico tão arrojado quanto o que demonstraram no filme original, chegando até a fazer com que “Reloaded” tirasse um certo proveito de ser justamente o ‘filme do meio’: Como a trama já não tinha um início, e sabia-se de antemão que não teria um desfecho, eles trabalharam com a expectativa do público, criando uma história que levantava ainda mais dúvidas e enigmas a respeito da Matrix, e trazendo novos personagens, como Merovingian (Lambert Wilson), Persephone (interpretada pela sempre deslumbrante italiana Monica Bellucci), o próprio Chaveiro (Randall Duk Kim), e por fim o Arquiteto (Helmut Bakaitis), que só acrescentavam mais mistério ao desenlace, reservado para o terceiro filme graças ao gancho aflitivo deixado na última cena.
O quê reservou à “Matrix Revolutions” a mais ingrata das tarefas: Responder a questões que não necessariamente teriam respostas plausíveis (e se você assistiu a meia hora final de “Reloaded”, sabe exatamente do quê eu estou falando), e dar um respaldo, desta vez sem subterfúgios, para todas as altíssimas expectativas levantadas, o quê, se pensarmos melhor, era desde sempre, algo impossível.
Dessa maneira, quando “Revolutions” se inicia, a guerra definitiva contra as máquinas já se aproxima. E isso leva Neo a encarar seu destino dentro da Matrix, e seu maior inimigo, o Agente Smith, após ser resgatado por Morpheu e Trinity de um limbo ao qual foi jogado no final nebuloso de “Reloaded”.
Após todas as pontas soltas e perguntas sem respostas deixadas pelo filme anterior, esperava-se demais deste terceiro e derradeiro filme.
O que talvez explique por que ele é um pouco decepcionante.
A despeito da excelência da parte técnica, bastante explorada nos filmes anteriores, a história não soube esclarecer de modo satisfatório tantas dúvidas deixadas no ar (Qual o propósito de personagens como Merovingian e Persephone? Que relação têm a Oráculo e o Arquiteto? Como e por quê os poderes de Neo acabaram se manifestando na realidade? De onde surgiu o ‘escolhido’, já que o Arquiteto deu a entender que ele era parte da Matrix?), respondendo-as de uma maneira rasa, quase deixando-as de lado, e focando bastante na ação ininterrupta que domina muito da metade final do filme, e que parecia muito mais bem-feito e inovador nos episódios anteriores.

Num ano em que o cinema contou com um filmaço de qualidade sem precedentes como “O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei”, as duas esperadas continuações de “Matrix” amargaram a frustração de não se equiparar ao filme original.

domingo, 15 de maio de 2016

Malena

É de um fetiche indescritível acompanhar a câmera de Giuseppe Tornatore enquanto passeia pelas curvas de Monica Bellucci ao longo de todo o filme. Ele consegue a proeza de nos fazer sentir como se fossemos um dos jovens pubescentes que a admiram embasbacados.
1941. Ás vésperas da II Guerra Mundial, Renato, menino de uma cidade italiana do Mediterrâneo vê seus hormônios se descontrolarem com a simples visão da bela Malena, a mulher mais linda da região, cobiçada por todos os homens e invejada por todas as mulheres. Por ser muito pequeno ele mal pode intervir em todas as injustiças que pouco a pouco vão acontecendo com ela, e permanece assim como um expectador silencioso e apaixonado.
 “Malena” é sobre perder-se na descoberta dos desejos, e Monica Bellucci, como a perfeita ilustração desses desejos é o grande achado do filme. Sem ela, muito do espanto que Tornatore registra não encontraria respaldo. Tudo o mais converge para a sua aparição. Seja a belíssima fotografia de Lajos Koltai, seja a trilha sonora inebriante de Ennio Morricone (ambos os quesitos, inclusive, indicados ao Oscar).
Com este belíssimo trabalho, Tornatore encontra um meio de falar sobre o início da adolescência transfigurado pela nostalgia, a exemplo de seu "Cinema Paradiso".
Entretanto, embora seja adaptação de uma história de Luciano Vicenzoni, a verdadeira fonte para “Malena” parece estar mesmo em “Amarcord” de Fellini, um compêndio de reminiscências que exploram as mais variadas emoções da vida. Se com “Cinema Paradiso”, Tornatore potencializou a breve cena dos garotos dentro do cinema num filme inteiro, desta vez, ele utiliza o episódio sobre Gradisca (o amor juvenil, inegociável e platônico do jovem protagonista) para dimensionalizar as texturas, emoções e percepções do material deste seu filme. O diferencial aqui, sem sombra de dúvidas, é a pra lá de estonteante Monica Bellucci, de uma beleza estarrecedora e uma tristeza cativante no papel-título.

Cada momento em que ela aparece nua (e graças ao bom Deus, eles são muitos!) é de um deleite sem tamanho.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Por Amor Ou Por Dinheiro

O diretor Bertrand Blier já teve momentos muito melhores, como por exemplo o divertido e transgressivo “Corações Loucos” que ele realizou nos anos 1970, com um ainda jovem Gerard Depardieu (vai ver, foi por isso que ele reaparece colaborando com ele aqui, por consideração...).
“Por Amor Ou Por Dinheiro” ainda guarda resquícios de um realizador interessado na sondagem inesperada das relações disfuncionais que surgem a partir do encontro de personagens de natureza insólita. Mas falta à Blier a desenvoltura que sobra nos diretores mais jovens para compor com convicção a trama que ele elabora com cuidado no início, mas que parece perder-se em inquietações que a tornam surreal do meio para o fim.
Tudo começa, quando um funcionário público francês (Bernard Campan), ao ganhar na loteria, engata um romance meio conturbado com uma garota de programa (a italiana Monica Bellucci), fato que muda drasticamente a forma como ele é visto por seus colegas, e paralelamente a forma como ela própria enxerga a si mesma. Mas manter tal namorada não é tarefa das mais fáceis, sobretudo quando ela vem com uma bagagem de problemas e de personagens perigosos em seu encalço.
Para a comédia de costumes que é, o filme exagera um pouco na densidade de sua narrativa, conduzindo tudo a um final estranho e pouco elucidativo. Bernard Campan é um protagonista apagado, e o grande Gerard Depardieu (aqui, literalmente grande!) pouco pode fazer no curto tempo em que aparece.
 Mas a morena Monica Bellucci vale cada cena!

domingo, 15 de novembro de 2015

007 Contra Spectre

Demorou um pouco, desde as minhas postagens da Maratona James Bond para finalmente conseguir assistir o último filme. Nesse meio tempo, não faltou gente dizendo que o filme era frustrante, que "Skyfall" era muito melhor e tal, de modo que minha expectativa estava bastante baixa.
Uma das críticas que mais ouvi foi que a produção ignorou o público e fez um filme para os fãs de Bond. Pois então, acho que isso me qualifica como fã de James Bond, pois gostei bastante do filme.
Que "007-Operação Skyfall" é um filme melhor, não chega a ser uma surpresa: O filme é nada menos do que a melhor aventura de toda a franquia 007, e manter (ou mesmo igualar) aquele nível altíssimo a que o diretor Sam Mendes conseguiu chegar era quase uma impossibilidade.
Em "007 Contra Spectre", contudo, é dos mais louváveis, o seu esforço em tentar.
A história (que desde o início é profundamente referencial em relação aos demais filmes de Daniel Craig) tem início com uma mensagem secreta recebida por Bond, que o coloca em rota de colisão com uma organização secreta -a Spectre -que teve envolvimento em todos os acontecimentos dos filmes anteriores, e que tem uma ligação com Bond muito mais profunda e pessoal.
Curioso notar que uma atriz bastante famosa como a italiana Monica Bellucci aparece numa quase ponta, muito rapidamente, ainda que seja essencial para a história.
Consequentemente, rostos conhecidos reaparecem. Exemplos: os vilões Le Chiffre, e Silva são muito mencionados ao longo da trama, assim como as falecidas M e Vesper Lynd.
Um dos mais importantes a reaparecer é o Sr. White (se bem que me parece que ele morre em "Quantun Of Solace" mas, enfim...) que acaba levando James até sua filha, Madeleine Swann (a pra lá de linda Léa Seydoux, de "Azul É A Cor Mais Quente"), por quem Bond, que nãp é nada bobo, logo se interessa.
Mas a grande questão do filme é o chefe da tal Spectre, interpretado por Christoph Waltz, e que, se você assistiu a todos os trailers que saíram, até já deve saber quem é.
Talvez seja esse o problema de "Spectre": Aliada à expectativa provocada pela excelência do filme anterior, a campanha de marketing não foi das mais inspiradas.
Isso não muda o fato de Sam Mendes ter criado uma aventura genial, plenamente digna do icônico personagem que representa, dona de algumas das mais belas cenas de ação do ano e carregada de imensas qualidades como cinema: Grande diretor, Sam Mendes faz lembrar, por exemplo, Michelangelo Antonioni e seu "Profissão Repórter" na cena em que Bond e Madeleine esperam por um rolls royce numa estação no deserto.