Depois de muito tempo, em 2017, os fatores favoráveis se alinharam para que os criadores David Lynch e Mark Frost enfim dessem continuidade aos eventos misteriosos e intrigantes que encerraram a segunda temporada de “Twin Peaks” –isso tudo, para aproveitar o gancho no qual a personagem Laura Palmer (vivida por Sheryl Lee) diz ao Ag. Dale Cooper (Kyle MacLachlan) que o verá “dali há 25 anos”.
Entre esses 25 anos –tanto dentro da série como
aqui, no mundo real –o criador e diretor David Lynch mudou: Se nas duas
primeiras temporadas de “Twin Peaks”, ainda no início dos anos 1990 (nas quais
ele dirigiu um total de seis episódios), Lynch ainda flertava com encenações
imponderáveis e introduzia um surrealismo um pouco mais predisposto a se
harmonizar com o formato televisivo convencional exigido pelos produtores, em
2017, Lynch já era um autor pra lá de aclamado, e ao conceber obras
desafiadoras e fascinantes como a trinca “A Estrada Perdida”, “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos” (todos eles, posteriores a “Twin Peaks”), era
claro para qualquer financiador que um projeto de David Lynch não iria se
render a conformismo nenhum.
E foi nessas circunstâncias que o canal
Showtime viabilizou esta retomada de “Twin Peaks” que –diferente das duas
temporadas originais –é integralmente dirigida por David Lynch. E nota-se isso
a cada instante. A narrativa de “O Retorno” é fragmentada, nebulosa, estranha e
frequentemente desconcertante. Lynch já começa quebrando expectativas levando a
continuação da trama –que retoma o estranho final da segunda temporada –a se fragmentar em, pelo menos, quatro ou cinco
diferentes núcleos em locais distintos; e eles, à princípio, não remetem, de
imediato, à cidadezinha de Twin Peaks, propriamente dita.
Descobrimos que o Ag. Cooper passou todos esses
anos preso dentro do black lodge e
que, em seu lugar, um doppelgänger maligno, um Bad Cooper, andou aprontando das suas –esse Bad Cooper é, também ele, vivido por Kyle MacLachlan, e trata-se do
corpo de Cooper possuído pela perversa entidade Bob (Frank Silva), no fim das
contas, o real assassino de Laura Palmer.
Em Nova York, testemunhamos um experimento no
qual um jovem deve ficar horas observando (e filmando com um arsenal de
câmeras) uma caixa de vidro aparentemente vazia –ele logo recebe a companhia da
personagem da bela Madeleine Zima (da série “Californication”, também da
Showtime) que inclusive aparece nua! Essa situação –surreal, como muitas saídas
da mente de Lynch –será vital para a introdução do núcleo dos agentes do FBI na
história: O chefe de departamento Gordon Cole (o próprio David Lynch), o Ag.
Rosenfield (o saudoso Miguel Ferrer), e a novata, ainda que centrada e dedicada
Tammy Preston (a cantora Chrysta Bell). Eles investigam casos pra lá de
estranhos oriundos de um certo Arquivo Rosa Azul (entre os quais, uma chacina
recente que houve com aquela caixa de vidro) que reacende um antigo caso,
envolvendo o ex-agente Phillip Jeffries (o falecido David Bowie num personagem
que apareceu no filme “Os Últimos Dias de Laura Palmer”), os leva até o encalço
do Bad Cooper, e à pedir ajuda à
ex-agente Diane (Laura Dern), a personagem para quem Cooper gravava as fitas
nas temporadas originais –e que até então nunca tinha aparecido.
No black
lodge (uma dimensão sobrenatural na qual transitam alguns dos mais
enigmáticos personagens de toda a série), Cooper recebe a ajuda de Mike (Al
Strobel), o guru de um braço só, para finalmente, depois de tanto tempo, voltar
para a realidade, todavia, isso se dá por meio de caminhos tortuosos e pela
quebra de qualquer expectativa que o público poderia elaborar: Cooper
manifesta-se no lugar de um sósia, um cidadão de classe média baixa morador de
Las Vegas chamado Dougie Jones –e na ocasião, em companhia da lindíssima Jade
(Nafessa Williams). Dougie é casado com Janey-E (Naomi Watts) e trabalha como
vendedor de seguros. Uma vez no corpo de Dougie Jones, Cooper fica preso numa persona balbuciante, monossilábica e
lesada, ainda que, a partir daí, agraciada com uma sorte espantosa –mesmo que
só repita as últimas palavras que ouviu da pessoa com quem fala, Dougie vai
conquistando espaço e prestígio em sua empresa, felicidade e satisfação dentro
de seu matrimônio, e até mesmo a afeição de dois irmãos mafiosos de bom coração
(Robert Knepper e Jim Belushi) –esse personagem, o do idiota que sem querer
ludibria os outros à sua volta convencendo-os de recursos e qualidades que não
necessariamente tem remete a um filme que parece ser de muito apreço à David
Lynch, o clássico “Muito Além do Jardim”, com Peter Sellers.
Noutra cidade, um homicídio tenebroso (uma
mulher é morta por decapitação, no entanto, sua cabeça é encontra junto à outro
corpo, de um dos personagens da série original) coloca, como principal suspeito
aos olhos da polícia, o pacato diretor escolar vivido por Matthew Lillard (de
“Pânico”), ao que tudo indica, mais um ato do Bad Cooper.
Os personagens de Twin Peaks, mais precisamente,
começam a aparecer aos poucos revelando em alguns casos suas circunstâncias
presentes, depois de todo o tempo decorrido: O xerife adjunto Hawk (Michael
Horse) recebe uma orientação da clarividente Sra. do Tronco (Catherine E.
Coulson) sobre uma pista (páginas perdidas do diário de Laura Palmer) que
reacende a investigação e a procura pelo desaparecido Ag. Cooper, o que envolve
o xerife Frank Truman (Robert Forster), irmão do Harry Truman (Michael
Ontkean), xerife nas outras temporadas e o novo xerife adjunto Bobby (Dana
Ashbrook), agora mais bem aproveitado pelo roteiro. Na medida do possível, o
máximo de personagens são retomados, o núcleo da lanchonete e cafeteria onde
trabalham Shelly (Madchen Amick) e Norma (Peggy Lipton); a situação enigmática
(e sem respostas claras) de Audrey (Sherilyn Fenn) que, após um período de coma
depois do fim da segunda temporada teve um filho psicopata, Richard (Eamon
Farren), e o bar The Roadhouse, ponto de encontro onde vemos James Hurley
(James Marshall) e outros, e onde muitos dos episódios (num total de 18) se
encerram ao som espetacular de grandes convidados como Nine Inch Nails, Eddie
Vedder e Rebekah Del Rio, contudo, a personagem Donna, de Lara Flynn Boyle,
sequer é mencionada.
Pode-se afirmar, entretanto, que isso é somente
arranhar a superfície: Além dessas e outras tramas e sub-tramas, “O Retorno”
apresenta uma sucessão vertiginosa e vasta de outros personagens (alguns
relevantes, outros bastante breves) onde se vê um elenco estupendo, certamente
atraído pelo prestígio sem igual de David Lynch: Além de todos os já citados
temos Harry Dean Stanton, Balthazar Getty, Ernie Hudson, Richard Chamberlain,
Tim Roth, Jennifer Jason Leight, Ashley Jude, Ben Chaplin, Tom Sizemore, Amanda
Seyfried, Caleb Landry Jones, Monica Bellucci, Michael Cera, Xolo Maridueña,
David Dastmalchian, John Savage e muitos outros.
Todos representam pontas soltas que, embora até
se interliguem ao longo dos episódios que se seguem, têm menos a intenção de
elucidar os mistérios insolúveis que se levantam, e mais o objetivo de
sedimentar o caminho percorrido como sendo uma experiência de sonho –e nisso,
David Lynch é um craque sem igual. Mestre das atmosferas obscuras e do surreal
empregado como fonte primitiva das mais diversas sensações humanas, Lynch nos
leva do humor negro ao terror irracional, do investigativo ao experimental, do
drama ao melodrama e de volta ao incategorizável, numa viagem apreensiva e
fascinante que não encontra par, em toda a década, na realização audio-visual
televisiva do mundo todo.

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