sexta-feira, 22 de maio de 2026

Belle Epoque


 “Sedução” é o genérico título nacional dado à esta produção espanhola dirigida por Fernando Trueba, vencedora do Oscar 1994 de Melhor Filme Estrangeiro embora o filme tenha sido realizado e lançado em 1992, os percalços vagarosos do circuito comercial da época o levaram a vencer o prêmio somente dois anos depois. O título original remete à uma espécie de nostalgia, e talvez esse seja o caminho mais lúcido para explicar o clima de descontração associado a uma certa liberdade de pensamento que contamina os desdobramentos romântica e sexualmente um tanto improváveis da trajetória do protagonista Fernando (um alter-ego, talvez?) interpretado com inesperada simpatia por Jorge Sanz.

É inverno de 1931 e, na Espanha de Franco, a Guerra Civil corre solta quando um jovem soldado decide-se por desertar –numa cena que já define o tom inusitadamente tragicômico do filme, o jovem Fernando é flagrado, em sua deserção, por dois oficiais da polícia, sogro e genro. Os dois, porém, discordam da ideologia da situação: O sogro quer soltar Fernando, ciente de que a guerra, com seu desfecho iminente, não precisa interferir no destino daquele pobre coitado; já o genro quer porque quer seguir a Lei à risca ameaçando atirar em Fernando e no próprio sogro se for contrariado! Os ânimos se acirram e, sentindo-se desafiado, o genro atira no peito do sogro (!), matando-o ali mesmo, somente para, no instante seguinte, seu arrependimento leva-lo a suicidar-se (!!!). Todavia, a trama de fato se inicia na cena subsequente, quando Fernando pede pouso num prostíbulo onde conhece o ocasional frequentador, o Sr. Manolo (Fernando Fernán Gómez, de “Tudo Sobre Minha Mãe”), que não apenas simpatiza com ele por suas posições políticas (Fernando é a favor que seja instaurada a República) como também se prontifica a livrá-lo das algemas que, desde a malograda cena inicial, ele não conseguiu tirar.

Fernando acaba pernoitando por algumas noites na casa do solitário Sr. Manolo e com ele constrói uma profunda amizade, mas logo o momento de pegar o trem para Madri se aproxima e, segundo o próprio Sr.  Manolo, ele mesmo não irá ficar sozinho por muito tempo: Virão, também de Madri, todas as suas quatro filhas para visita-lo.

Na estação, no dia em que partiria, Fernando recebe, ao lado do Sr. Manolo, suas filhas e fica absorto com a beleza acachapante delas são elas, a mais insinuante Rocio (a sensualíssima Maribel Verdú), a mais velha Clara (Miriam Díaz Aroca), então viúva do marido, a bela ainda que ligeiramente andrógina Violeta (Ariadna Gil, de “A Dançarina e O Ladrão”) e a caçula Luz (uma bem jovem Penelope Cruz, antes de tornar-se uma estrela).

Atraído pela formosura e pela atmosfera de alegria que todas elas conseguem trazer ao lugar, Fernando retorna à casa do Sr. Manolo afirmando que perdera o trem, e por lá fica alguns dias, ao longo dos quais, por incrível que pareça, conseguirá estabelecer um vínculo afetivo com cada uma delas!

Fernando Trueba conduz essa espécie de variação romântica e cômica de “O Estranho Que Nós Amamos” incrementando-a de certa lascívia espanhola: Cobiçada pelo riquinho e inconstante Juanito (Gabino Diego), Rocio é a primeira que se engraça com Fernando; depois dela, o jovem ex-soldado consegue despertar, apenas brevemente, o interesse carnal de Violeta durante uma festa à fantasia tão somente porque esta se veste de soldado e ele de camareira (!) –a inversão de valores que ambos promovem durante a cena da dança de tango é divertida já, Clara se joga nos braços dele num momento de imediato saudosismo dos carinhos do marido (no exato instante em que passavam pelo rio em que ele se afogou!); tudo isso tendo Luz, talvez, a única das irmãs genuinamente apaixonada por ele, como indignada testemunha.

À esses desdobramentos de ordem afetiva, Trueba confere uma leveza temperada por sarcasmo europeu que acompanham também as observações políticas e religiosas embutidas nos diálogos que se seguem.

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