sexta-feira, 22 de maio de 2026

Wicked - Parte 2


 O Mal é um ponto de vista.

A primeira parte de “Wicked” era um filme brilhante: Ao trazer para a luz as origens não conhecidas da Bruxa Má do Oeste, Elphaba, e da Bruxa Boa, Glinda, o diretor Jon M. Chu compôs um musical arrojado, ainda mais surpreendente por oferecer um novo enfoque para uma personagem sempre vista como vilã (Elphaba) e, por meio dessa observação, trazer à tona questões um tanto profundas sobre empatia, pertencimento e manipulação midiática.

Dividido em duas partes (com a segunda tendo ganhado a ribalta um ano após a estréia da primeira), “Wicked”, agora, finalmente está completo e pode ser conferido na íntegra pelo público. O grande problema dessa segunda parte, no entanto, termina sendo a expectativa gerada justamente pela inesperada qualidade estratosférica revelada pelo filme anterior; que chegou na cerimônia do Oscar 2025 com nada menos do que 10 indicações!

Embora ainda ostente excelência técnica em todos os quesitos, esta “Parte 2” não consegue trazer de volta toda aquela magia da primeira parte –talvez, o encanto tenha um pouco se esgotado; talvez, a novidade do primeiro filme seja um adendo que não se percebe mais tanto aqui; ou talvez, nós, enquanto expectadores, sejamos difíceis de satisfazer mesmo...

Depois dos bombásticos acontecimentos do final do filme anterior, quando Elphaba é decretada inimiga pública Nº 1 em Oz e Glinda, por sua vez, se torna o rosto da propaganda através da qual os governantes (o Mágico e Madame Morrible) querem vender tranquilidade aos moradores, nós reencontramos todos os personagens após algum tempo.

O Mágico de Oz (Jeff Goldblum), que de mágico não tem nada, promoveu a construção da Estrada de Tijolos Amarelos, destinada a conectar todos os recôncavos do reino, contudo, tal empreendimento é realizado às custas de um cruel e inclemente trabalho escravo dos animais e Elphaba (Cynthia Erivo), ferrenha opositora a esses maus tratos, tem atacado sistematicamente os locais de atividade. Para a calculista Madame Morrible (Michelle Yeoh) ela é um grande problema a ser solucionado: Afinal, diferente da maioria no reino, Elphaba é genuinamente dotada de magia –outros, como o mágico e a própria Glinda, devem fingir ante a população, lançando mão de truques de ilusionismo (como aquele no qual Glinda projeta uma bolha e sai flutuando por aí).

A oportunidade para neutralizar Elphaba, logo é providenciada: Madame Morrible conjura um tornado que traz, de algum lugar muito distante, uma casa dentro da qual uma menina perdida, chamada Dorothy, chega na Aldeia dos Munchkins, soterrando a própria irmã de Elphaba, Nessarose (Marissa Bode) que àquelas alturas já vinha ganhando poderosas tintas de vilania.

Assim sendo, diferente da “Parte 1”, que se apresentava como um prequel do clássico “O Mágico de Oz”, esta “Parte 2” não só chega no ponto em que a trama do filme de 1939 se inicia, como também a adentra, dando-lhe uma perspectiva completamente nova ao entregar cenas que “ficaram faltando” e ainda se estender para além de seu já famoso desfecho. Pena que essa costura não soe nem um pouco harmoniosa: Àqueles que tiverem a memória fresca de “O Mágico de Oz” vão verificar nítidas algumas mudanças pontuais no roteiro (como o encontro protelado de Elphaba e Dorothy; a índole tão distinta do Espantalho; e as motivações do Homem de Lata; além de sequências no clássico em que realmente vemos Glinda valer-se de magia quando, aqui, ela não possui nenhuma).

Não deixa de ser surpreendente (e até indicativo de certa coragem) vermos que alguns personagens da “Parte 1” eram figuras icônicas do clássico, como os próprios Espantalho e Homem de Lata, o que dá às suas sub-tramas um viés quase trágico.

Entretanto, é às suas protagonistas que está reservado o verdadeiro esmero do roteiro e da direção: A amizade entre Elphaba e Glinda que, ao longo do filme anterior e deste aqui, luta para superar o antagonismo e os papéis opositores (nada condizentes com a realidade) que o destino lhe resguarda, sobretudo, no caso de Elphaba, cujas boas intenções e a própria retidão ao não se corromper a colocam como a grande vilã no unilateral enredo vivenciado por Dorothy.

Afinal, o Mal é um ponto de vista.

Nenhum comentário:

Postar um comentário