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terça-feira, 23 de junho de 2026

Obsessão


 Não confundir este filme de terror de 2026 com “The Paperboy”, filme de Lee Daniels, com Nicole Kidman, que no Brasil foi distribuído com esse mesmo título nacional.

Dirigido por Curry Barker, um youtuber norte-americano conhecido por um canal de esquetes de comédia, “Obsessão” é um título que soma-se à safra de surpreendentes e excelentes filmes de terror que o cinema norte-americano (em especial, o cinema independente) tem entregado nos últimos anos. Sua compreensão do macabro embutido nos expedientes narrativos do gênero, bem como a precisão em conceber esses conceitos por meio de um prisma de comentário sócio-comportamental, é algo sensacional.

Em princípio, “Obsessão” parte de um pretexto que, inserido em outros gêneros (como romance ou comédia romântica), seria absolutamente inofensivo: Um amor não correspondido.

É o amor que o pra lá de tímido Bear (Michael Johnston) sente a cerca de sete anos pela amiga Nikki (a excelente Inde Navarrette) sem, no entanto, jamais ser capaz de verbalizar. A cena que abre o filme, por sinal, já estabelece todas as notáveis dinâmicas do roteiro – e expõe o talento do diretor Barker: Bear está a ensaiar sua vã tentativa de declarar-se para Nikki, em frente à outra amiga, Sarah (Megan Lawless), ignorante de que é ela, por sua vez, quem tem interesse nele. A ouvi-lo com ares de confidente, está Ian (Cooper Tomlinson, parceiro de Barker em seu canal no Youtube), que também tem lá sua parcela de interesse em Nikki, embora isso não o impeça de ser amigo de Bear. Todos esses quatro personagens – Nikki, Bear, Sarah e Ian – trabalham numa mesma loja de aparelhos musicais. E todos se reúnem no mesmo local para o happy hour, quando, mais uma vez, Bear fracassa em revelar seus sentimentos à Nikki.

Entretanto, numa visita a uma lojinha de produtos exotéricos, ele encontra um certo idem chamado One Wish Willow – consiste de um graveto de salgueiro que pode realizar magicamente o pedido de um usuário que o quebrar ao meio, num feitiço que lembra o mesmo procedimento mostrado no primoroso “A Hora do Mal”.

Sem muito acreditar nessa propaganda, Bear compra o artefato mesmo assim, deseja que Nikki o ame mais que qualquer outra pessoa no mundo, e o quebra. A partir daí uma mudança se opera em Nikki – ainda mais perceptível e impressionante graças ao competente trabalho da atriz. Ela passa a demonstrar um amor avassalador e irreprimível por Bear. Logo, eles estão juntos, morando na mesma casa, dormindo na mesma cama, mas o conto de fadas de Bear não dura muito: Numa continuidade distorcida de seu desejo, o amor de Nikki se torna cada vez mais obcecado – ela não suporta mais suas ausências, ou que ele dê um mínimo de atenção para outras pessoas, e quando estão junto de outros conhecidos, ela simplesmente não consegue parar de fazer juras de amor inconvenientes e fora de hora.

Mais do que expor uma faceta tóxica do amor abusivo que só faz aumentar, o diretor Curry Barker usa dessas circunstâncias para criar cenas que não apenas ilustram as consequências extremas de um pedido atendido em sua totalidade, como também mostra sutilmente a crueldade inerente de uma vontade unilateral – a verdadeira Nikki, aquela que se manifesta em pequenos gestos na atuação quase psicótica de Inde Navarrette, ou cuja voz ouvimos numa cena específica, triste e apavorante, não quer aquela situação, o que faz de Bear, com todas as suas boas intenções amorosas, todo o seu  jeito acanhado, hesitante e tímido, o verdadeiro vilão da história.

Essa observação executada dentro da premissa de terror vem adornada, em muitos momentos, com um senso de humor aguçado e perverso (uma das especialidades do diretor), e sequências primordiais que oscilam entre o constrangedor, o palpitante e o assustador, mas ele não deixa de galgar os acontecimentos em direção a uma série de desenlaces que elevam brutalmente o teor de barbárie à que “Obsessão” é capaz de chegar, tendo em vista que vimos todo o enredo começar com um singelo amor não correspondido.

O filme de Curry Barker não poupa nada nem ninguém em seu arremate sangrento, violento e impiedoso das consequências terríveis que podem surgir de um desejo egoísta cujos anseios não levam em conta o livre arbítrio das pessoas ao redor.

sábado, 20 de junho de 2026

Risqué - A Vingança


 Desde os primeiros segundos se percebe algo de desavergonhado no filme que o diretor Tony Dean Smith está entregando com ares de quem quer fazer uma obra com status cult. Risqué é o nome da boate de strip-tease que aglomera praticamente todos os personagens da produção – e na qual a trama irá se ambientar em sua quase totalidade. No início, logo depois de créditos iniciais cafonas e um tanto suspeitos, vemos a protagonista Jess (a charmosa Leah Gibson) adentrando o lugar trajada com lingeries (!) e armada de uma escopeta (!!) – para então, retrocedermos alguns dias no tempo e elucidarmos, pouco e pouco, a história que a levou até aquele momento, que descobriremos mais tarde tratar-se do clímax da trama.

Para Jess, o trabalho de dançarina de stripper, que já não era nenhuma maravilha, começa a apresentar aborrecimentos incontornáveis: Além de suportar os clientes libidinosos (que, no geral, não costumam respeitar a regra de não tocá-las) e de aguentar a importunação do asqueroso Big Boy Billy (Andi Jashy), segurança do lugar, metido a besta por simplesmente ser primo do dono, Jess tem que ouvir do gerente local (Tomi May) que, aos quarenta anos, já não tem mais a idade das demais garotas, e que, portanto, deve se aposentar.

Quando acaba despedida, Jess mergulha nas neuroses e angústias de praxe que culminam, claro, em bebedeiras nos bares locais. Mas, é quando ela encontra Mike (David Newman), até então, o sempre ignorado e despercebido barman do Risqué. Mike tem um plano, e quer Jess como sua parceira na empreitada: No período em que esteve na prisão, ele conheceu dois entregadores que trabalharam levando e trazendo dinheiro de fontes ilícitas (leia-se, tráfico de drogas) no Risqué. Para Mike, eles contaram detalhadamente o procedimento com o qual levavam mochilas cheias de dinheiros (em torno de milhões!) e guardavam num cofre localizado embaixo da cadeira do escritório do cara com quem negociavam.

Após sair da cadeia, Mike passou alguns meses como barman no Risqué, tempo suficiente para confirmar todas as circunstâncias que seus colegas de cárcere tinham relatado. O plano dele é invadir do escritório do Risqué na noite de uma apresentação para os clientes inspirada em “De Olhos Bem Fechados”, quando todas as strippers estarão usando máscaras – e, portanto, não poderão ser identificadas – e roubar todo o dinheiro contido no cofre secreto. Para tanto, Mike precisa da ajuda de Jess e de outras strippers de confiança do lugar. Jess recruta suas quatro melhores amigas, Shelby (Eloise Lovell Anderson), uma quase evangélica um pouco sem noção (!), Carmem (Silvia Orduna), a latina do grupo, injuriada por sustentar o namorado com quem mora e que não deixa o sofá e o jogo de videogame por nada, Kiko (Julia Strowski), uma oriental cujo sotaque a faz soar, muitas vezes, incompreensível, e Bianka (Rex Adams), imigrante húngara com fama de ter assassinado tranquilamente alguns homens que a importunaram (!!).

O filme avança em meio aos usuais preparativos para o grande golpe como qualquer outra produção que se preze do gênero – e até com ininterruptas referências cinematográficas à “Golpe de Mestre”, “Onze Homens e Um Segredo” e tantos outros – mas, o diretor Tony Dean Smith, malandro, aproveita todas as chances possíveis, para despir o numeroso elenco feminino em cena, entregando sequências que oscilam entre o cômico, o vulgar e o erótico – fazendo, nesse sentido, lembrar o despudorado Paul Verhoeven e seu “Showgirls”.

Lá pelas tantas, surge uma complicação: Da forma mais aleatória e mais non-sense possível – estavam todas a treinar tiro ao alvo numa floresta... – Shelby acaba alvejando Mike sem querer com um tiro, e ele morre (!?!). Sem o seu mentor no golpe, as garotas resolvem dar continuidade ao plano mesmo assim, contudo, tanto Kiko quanto Bianka, comunicaram seus próprios conhecidos (a Yakuza e a Máfia Russa, respectivamente) para tentar burlar as comparsas e sair na vantagem.

“Risqué” é um filme que parece almejar um certo estilo de cinema como aquele muito reverenciado por Quentin Tarantino, e que urgiu realizações desiguais, tais como “Vingador Tóxico”, “Faster, Pussycat, Kill! Kill!” ou “Os Irmãos Cara-de-Pau”, um cinema de imediato reconhecimento visual, peculiar, mirabolante em suas inverossimilhanças e nem um pouco levado à sério – neste caso, com a imagem de strippers armadas até os dentes em mente – o objetivo só não termina totalmente alcançado devido ao insistente mau gosto do diretor que impõe um ritmo irregular,  concebe cenas inteiras de teor esdrúxulo (ainda que haja um bom desempenho da direção de fotografia), e não consegue extrair do elenco interpretações mais bem alinhadas à sua proposta – acabam se sobressaindo os atores a atrizes que, quando muito, tem um pouco mais de carisma.

Ele quis fazer um cult-movie, ignorando o fato de que não existe uma fórmula para fazer isso – cults nascem exatamente de circunstâncias incomuns nas quais contrariam qualquer fórmula.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

A Grande Inundação


 Como em muitas produções advindas da Coréia do Sul, o filme de Kim Byung-woo, produzido pela Netflix, é uma miscelânea de gêneros que soa, num primeiro momento, incomum pela ausência de compatibilidade entre esses conceitos, como consequência disso, o roteiro passeia por guinadas imprevisíveis que flertam com o absurdo e muitos de seus momentos exigem certa boa vontade do expectador para melhor serem apreciados e, digamos, digeridos. No entanto, em termos de acabamento narrativo e no âmbito técnico de modo geral o filme mostra-se sempre notável.

O início intimista flagra a jovem Gu An-na (Kim Da-mi), junto de seu filho pequeno Ja-in (Kwon Eun-seong) dentro do apartamento onde moram, no terceiro andar de um edifício residencial da Coréia. Uma chuva torrencial cai sem parar lá fora e Ja-in, como toda criança, está irrequieto. Em algum momento, An-na irá se dar conta da água que começa a chegar no chão de seu apartamento. No terceiro andar!

Uma inundação sem precedentes aflige o local de moradia dos personagens e, na esteira da tentativa muita humana de contornar o problema, o filme irá trazer revelações acerca de quem eles são, e algumas surpresas também: An-na, que é uma requisitada cientista especializada na área de inteligência artificial, tem uma espécie de guarda-costas, Son Hee-jo (Park Hae-soo, da série “Round 6” também da Netflix), designado para tirá-la do prédio em segurança. Tal prédio, abarrotada de pessoas desesperadas para fugir do avanço implacável das águas, não tarda a entrar em colapso, inclusive por conta de sucessivas ondas monstruosas que pioram ainda mais a situação.

É Son Hee-jo quem trará uma revelação ainda mais bombástica: Segundo o Serviço Secreto (para quem aparentemente trabalha), um asteroide colidiu horas antes com a Antártida e provocou um derretimento súbito das calotas polares, a reação em cadeia não somente levou àquela inundação de gigantescas proporções, mas provocou uma série de fenômenos que logo haverão de extinguir a raça humana da face do planeta!

Daí sua missão: Algumas poucas mentes brilhantes (como a da Dra. An-na) devem ser salvas a fim de garantir que, com suas habilidades, eles sejam capacidades de produzir uma nova geração de seres conscientes e pensantes. E, na missão de Son Hee-jo, não estão considerados os demais seres humanos aflitos que eles encontram em seu caminho (eles devem subir os andares do prédio até a cobertura quando um helicóptero virá resgatá-los), nem tampouco o pequeno Ja-in que, como toda criança, tem uma habilidade desigual para sistematicamente desaparecer das vistas toda a vez que sua mãe se distrai!

Todos esses elementos em combinação já seriam o bastante para tornar este filme algo bastante inusitado, mas o plot twist contido em algum momento de seu segundo terço é algo imprevisível (e se você, leitor, é aquele expectador que não tolera spoilers, sugiro não ler mais a partir daqui!).

Num momento em que o filme dirigido por Kim Byung-woo já sugere um desfecho (um tanto quanto cedo demais para sua duração de duas horas), eis que uma guinada leva os protagonistas de volta à cena do começo: Tal e qual “Corra Lola Corra” ou “Feitiço do Tempo”, a partir daí, tanto An-na quando o pequeno Ja-in, retornarão sucessivas vezes para o início daquele mesmo fatídico dia, para contemplar diferentes tentativas de chegarem vivos e juntos ao topo do prédio e serem levados pelo helicóptero. Nesse interim, não apenas situações irão se repetir com diferentes desfechos a depender da diferença na atitude por eles tomada, mas revelações surpreendentes também ocorrerão (tais como a inesperada importância de Ja-in junto ao enredo) a ponto de “A Grande Inundação” facilmente deixar de ser um mero filme-catástrofe para adentrar irreversivelmente o terreno mirabolante da ficção científica.

É provável que esta produção não alcance o brilhantismo inquestionável de algumas obras-primas sul-coreanas na manutenção de um argumento munido de surpresas sistemáticas (como “Old Boy” ou “Parasita”, infinitamente mais bem resolvidos), mas ainda assim, diante da facilidade com que  direção e roteiro poderiam ter se perdido ao longo desta proposta arrojada, o resultado final até que cumpre muito bem seu papel de surpreender, entreter e envolver.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Dia D


 Em 1977, o diretor Steven Spielberg lançou o filme “Contatos Imediatos do 3º Grau”, uma obra que sob muitos aspectos define sua carreira – as inquietações acerca da existência de vida extraterrestre são tópicos que Spielberg jamais foi capaz de deixar de lado, levando à produções como "E.T. O Extraterrestre” e outras que indiretamente abordavam tal tema. O ponto fora da curva pode ser considerado “Guerra dos Mundos”, no qual Spielberg faz nada mais que um pastiche cinematograficamente requintado de “Independence Day” – isso porque Spielberg sempre enxergou de uma maneira esperançosa a possibilidade de co-existência entre humanos e alienígenas.

Agora, do alto de uma carreira de 50 anos, Spielberg volta a focar suas lentes sobre o tema, numa obra que resgata toda a dúvida insolúvel e o interesse instigante que o levaram até “Contatos Imediatos...” – este “Dia D” é, em si, uma obra que traz Spielberg se reencontrando consigo mesmo, revendo tópicos que sempre lhe foram tão caros ao seu cinema, à luz de uma imponderável modernidade, resvalando em teorias da conspiração que soariam alarmantes nas mãos de outros realizadores, e provando, uma vez mais, o cineasta sem par que ele é.

A trama – concebida pelo roteirista David Koepp, a partir de um argumento do próprio Spielberg – se inicia audaz, sem tempo para tomar o fôlego: Daniel Kellner (o carismático Josh O’Connor, de “Rivais”) já está em fuga. Ao que parece ele roubou arquivos importantes de uma agência ultrasecreta governamental (isso e outra coisa, ainda mais importante e inconcebível!). Tal agência, denominada Wardex, sequestrou sua namorada Jane (Eve Hewson, filha de Bono Vox, o vocalista do “U2”) e agora exigem uma troca ocorrida nas dependências de um ring de luta livre lotado – e é nessas circunstâncias, com todo o intrincado enredo já em curso, que o filme começa.

Paralelo à trajetória de fuga de Daniel e Eve – na qual tentam à todo custo escapar da Wardex, controlada com mão de ferro pelo implacável Noah Scanlon (Colin Firth, sempre fantástico) – vemos também a história de Margaret Fairchild (Emily Blunt, magnífica), garota do tempo de uma emissora de TV em Kansas City que, certo dia, sem a menor explicação, começa a falar numa língua extraterrestre em pleno noticiário matutino, ao vivo!

O caso chama a atenção da Wardex que, tal e qual o fazem com Daniel, almejam agora encontrar e capturar Margaret à todo custo, enquanto um certo Dr. Hugo Wakefield (o ótimo Colman Domingo) procura estar um passo à frente de Scanlon e sua tentacular agência, a fim de driblá-los e fazer aquilo que eles tentam evitar há décadas: Revelar ao público toda a verdade.

Assim como em “Contatos Imediatos...” – cujo plot, de um ponto em diante, centralizava sua atenção no encontro iminente entre os protagonistas Roy e Jillian – em “Dia D” somos conduzidos por Spielberg na expectativa de testemunhar Daniel e Margaret se encontrarem, e descobrir o que, a partir daí, acontecerá.

Não restam dúvidas de que há muito de Spielberg em “Dia D” – não apenas o foco central no tema dos extraterrestres e da incomensurável mudança que a sua revelação causaria no mundo e nos rumos da Humanidade perpassa toda sua filmografia, como também as pertinentes referências à Segunda Guerra Mundial (o próprio título em alusão ao Dia D, na Normandia; a iminência da Terceira Guerra Mundial servindo como um pano de fundo político aos acontecimentos), a gênese de todos os mais profundos questionamentos encontrada nas memórias de infância (como é o caso dos dois protagonistas), e a própria insistência na intervenção irredutível de uma influente figura paterna (que aqui são duas, o autoritário ainda que munido de supostas boas intenções Scanlon, de Colin Firth, e o manipulador, ainda que bondoso, Wakefield, de Colman Domingo, dois atores que, diga-se, sob a direção de Spielberg, brilham como nunca).

No panorama do cinema comercial mundial, “Dia D” é uma realização distinta e exótica como só um diretor de predicados hiperlativos como Steven Spielberg seria capaz de elaborar: É inteligente, complexo, desafiador, fala da correlação entre a crença em vida extraterrestre e a transformação subsequente de paradigmas religiosos, leva a ficção científica  a um patamar que pouquíssimos filmes sobre o tema alienígenas foram capazes de chegar e tudo isso numa produção suntuosa, tecnicamente refinada com todos os aparatos que só o melhor de Hollywood pode proporcionar e mesmo tocando em temas como o acobertamento do governo acerca de assuntos delicados, surge audaciosamente em meio à blockbusters no período mais disputado do ano nos cinemas.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

A Empregada


 Usualmente um realizador de comédias (são dele o remake feminista “As Caça-Fantasmas”, “Missão Madrinha de Casamento” e “As Bem-Armadas” entre outros) Paul Feig se esforça aqui em busca de uma guinada comercial em sua carreira ao abraçar um projeto orientado pelo refinado gênero do suspense. Contudo, já em seus primeiros momentos, “The Housemaid” entrega uma série de lapsos que apontam o desconforto de seu diretor, como um descuidado (em alguns momentos até descabido!) desenho de som, e uma montagem indecisa que demora além do tempo habitual para encontrar o ritmo correto, acelerando demais a narrativa em alguns momentos e dilatando desnecessariamente certas passagens em outros.

Best-seller da escritora Freida McFadden, “The Housemail” era uma bem-sucedida série literária (agora, sinalizando o surgimento de uma bem-sucedida série cinematográfica) cujo enredo, se não era um primor de acabamento e dramaturgia, mostrava-se certeiro e envolvente no manejo dos plot-twists que se seguiam com revelações pontuais sobre seus interessantes personagens.

A protagonista é Millie Calloway, vivida pela belíssima Sydney Sweeney –e, no status de estrela em ascensão que evoca, Sydney surge como uma escolha apropriada e pontual, nem tanto por suas capacidades interpretativas (que ora satisfazem, ora deixam a desejar) mas, sim, pelo magnetismo imediato, pela instantânea empatia que ela, uma vez dentro da personagem, consegue despertar no público. E isso será muito importante como veremos a frente.

Millie precisa obter um emprego. Recém-saída da prisão (a despeito de ser jovem), ele precisa de um lugar para morar (até então, dorme dentro de seu carro em estacionamentos), de um emprego que sossegue a vigilância dos oficiais da condicional sobre seus passos e de dinheiro para se manter. Tudo isso parece vir num mesmo pacote quando ela presta uma entrevista de emprego à ricaça Nina Winchester (Amanda Seyried, menos carismática do que Sydney, mas bem mais competente como atriz, numa personagem desafiadora e cheia de camadas). Acontece que Nina está grávida (seu marido, afirma ela, ainda não sabe) e ela precisa imediatamente de uma empregada para dar conta de sua filha mais velha de 11 anos, Cecelia (Indiana Elle) e das atividades domésticas da mansão luxuosa onde moram.

Como empregada particular, Millie poderá morar dentro da casa, num quarto localizado no sótão e, embora haja certa suspeita no fato de Millie possuir credenciais demais para candidatar-se a uma vaga de empregada, Nina a quer o quanto antes.

Uma vez trabalhando para o casal –que, além de Nina inclui certamente também seu marido, Andrew (Brandon Sklenar, de “Drop-Ameaça Anônima”) –Millie vai descobrindo que o emprego, que aparentava ser um paraíso durante a entrevista, não é tão maravilhoso assim: Bipolar, Nina confronta Millie com situações complicadas, tentando incriminá-la de erros que não cometeu e tecendo uma ardilosa a aparentemente inexplicada teia de intrigas e acusações que só não comprometem ainda mais a situação de Millie graças à intervenção de Andrew.

Por conta dessa circunstância, pouco a pouco, Millie e Andrew vão estabelecendo uma proximidade que, diante da cada vez mais real possibilidade de um adultério assim consumado, pode desembocar em alguma tragédia. Contudo, na narrativa urgida pela escritora Freida McFadden, nada é o que parece ser. E é exatamente aí (nas informações omitidas ao expectador) que “The Housemaid” guarda seus trunfos.

Toda essa explicação à seguir, conterá spoilers (!): Nina não é o que parece ser, uma vez que, ao contrário da megera intratável que se mostrava durante todos os dois primeiros terços de filme, ela era na realidade uma vítima da situação, presa num casamento abusivo e tóxico, e portanto, desesperada para encontrar um meio de fuga. E tal meio, terminou sendo Millie.

Com efeito, Andrew também não é o príncipe encantado que parecia ser, revelando-se o vilão sádico, psicótico e abusador de fato.

Contudo, outra grande manobra da premissa de Freida McFadden é que a própria Millie, toda doce, desprotegida e indefesa, também não é o que  parece ser: As razões para ela ter sido presa (e encontrar-se, agora, em liberdade condicional) não reveladas antes, são elementos diretamente influentes no desfecho e no porque, agora, foi o perverso Andrew quem meteu-se com a pessoa errada –e é por isso que a escalação de Sydney Sweeney ajuda muito o filme nesse sentido: Uma vez que só saberemos de toda a verdade sobre Millie no momento quase clímax de sua reviravolta, tudo o que sabemos sobre ela é vago, ainda que seja essa a protagonista. No entanto, com Sydney Sweeney interpretando-a, Millie conquista o público já nos primeiros minutos. Mesmo que não saibamos quem ela é, ou o que ela fez, o encanto natural de Sydney faz todo o trabalho nos levando a torcer pela heroína que descobrimos, ao fim, ser bem diferente de quem supúnhamos ser.

“The Housemaid” pode ter falhas homéricas na direção, pode ter um roteiro equivocado e impreciso (as mudanças na adaptação particularmente reforçam o tom exagerado do filme), mas foi um acerto muito feliz na escalação de suas duas protagonistas: Enquanto Sydney é uma ótima presença emprestando magnetismo e simpatia genuínos à Millie; Amanda reforça a grande atriz que é interpretando uma personagem que também está interpretando na maior parte do tempo (e de forma deliberadamente histriônica ainda!) só revelando suas intenções mais humanas quando o filme já estiver em seu ápice.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

1975 - O Ano do Colapso


 Narrado por Jodie Foster, este documentário produzido pela Netflix e dirigido por Morgan Nevile observa os acontecimentos de ordem social, política e existencial que cercaram os EUA naquele ano específico colocando em pauta os reflexos dessas mudanças nos filmes lançados em cinema na época, e até algumas séries que passaram na TV.

A verdade é que 1975 foi um ano no qual convergiram diversos tópicos que a América vinha enfrentando e que, naqueles anos, mudaram radicalmente a sociedade; nunca transformações de valores e de comportamentos se sucederam num período tão curto de tempo – e isso tudo refletiu-se num período de turbulência, onde o povo norte-americano se viu tão perdido quanto desiludido.

E, à sua maneira, tudo isso se refletiu no cinema.

Se havia um ator que parecia encapsular a efervescência desses novos tempos, esse ator era Jack Nicholson. Revelado anos antes em “Sem Destino” – um dos tantos filmes que contribuiu para uma nova visão dos EUA – Nicholson, logo alçado à condição de astro, se encontrava presente em três obras ressonantes para o público e a crítica: O inconformista “A Última Missão” (cujas características representavam bem a postura questionadora da Nova Hollywood de então), o fenomenal “Chinatown” (que, embora fosse um neo-noir passado nos anos 1950, ostentava uma melancolia emblemática na qual as plateias identificavam as tramas arrojadas de então, onde a justiça não era capaz de prevalecer sobre certas facetas da vilania) e o brilhante “Um  Estranho No Ninho” (uma audaz produção que mostrava um abusador confinado num manicômio e encontrando todo o tipo de aborrecimento ao tentar colidir com as regras vigentes; por sinal, o filme premiado com o Oscar no início do ano seguinte).

Os EUA estavam ainda a processar os traumas do Escândalo de Watergate e da Guerra do Vietnam. Do primeiro, surgiu o magnífico “Todos Os Homens do Presidente”, de Alan J. Pakula, no qual os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein (Robert Redford e Dustin Hoffman) desmascaravam as tramoias do presidente Richard Nixon – as paranoias e o medo de confiar em demasia nas instituições haviam contaminado o cidadão norte-americano e isso era mostrado em filmes como “Três Dias do Condor”, de Sydney Pollack (também com participação de Redford) e no formidável “A Conversação”, de Francis Ford Coppola.

Já o trauma do Vietman ainda demoraria para começar a render produções de cinema: O primeiro filme sobre o Vietnam, “Os Boinas-Verdes”, de 1968, com John Wayne, havia sido execrado pela opinião pública por sua iludida e irreal postura pró-governo. No entanto, falava-se sobre o Vietnam (ainda que alegoricamente) em obras como “M.A.S.H.”, a série de TV baseada no filme de 1970 (cujo roteiro disfarçava com uma nada convincente ambientação na Guerra da Coréia), e no pungente “Taxi Driver”, de Martin Scorsese (nele, Travis Birckle, um ex-combatente do Vietnam, é um indivíduo cujas neuroses se acumulam e culminam na violenta busca por redenção simbolizada na personagem de uma ainda jovem Jodie Foster e na catarse sangrenta que termina sendo sua cena final).

O presidente norte-americano que ocupou o lugar deixado por Nixon, Gerard Ford, não revelou-se alguém capaz de corresponder aos anseios norte-americanos, abrindo assim as portas para a ascensão da campanha do republicano Ronald Reagan, que não surtiu efeito imediato nas eleições do ano seguinte, mas resultou em sua candidatura nos anos 1980.

Muitos ideais atingiram um ápice de desilusão crônica: A luta pelos direitos civis que, pelo menos na cultura pop levou aos filmes da blaxploitation e ao estrelado do indomável comediante Richard Pryor, encontrava seus extertores em comentários carregados de certo cinismo na série de TV “Família Às Avessas” –logo depois, a mesma TV começou a investir na nostalgia com a série “Dias Felizes”, uma prática que dentro em breve, chegaria ao cinema. Este, ainda buscava a relevância das novas configurações sociais e familiares, como é o caso de “Alice Não Mora Mais Aqui”, um emblemático estudo da situação da mulher naqueles novos tempos, dirigido também por Martin Scorsese, que do alto de seus oitenta e poucos anos aparece prestando seus depoimentos.

Até mesmo a ficção científica trazia um registro futurista visando comentar o presente: O estranho suspense “Mulheres Perfeitas” que logo dá espaço para um pesadelo tecnológico onde as mulheres eram substituídas por seres automatizados.

Houve em 1975, a audácia narrativa de “Nashville” (um mergulho numa América fragmentada e perdida), a onda dos filmes-catástrofes “Inferno Na Torre” e “O Destino do Poseidon” (reflexos de um pavor recorrente onde o americano médio não sentia-se mais seguro), o magistral e contundente “Rede de Intrigas” (uma observação demolidora e honesta de toda a indignação do público) e o pulsante “Um Dia de Cão” (sobre um sequestro num assalto à banco que expunha as inversões de valores acarretadas por insatisfação política e causas sociais falidas).

Mas, como foi dito, tudo estava para mudar. Em 1976, os cinemas receberiam o filme “Rocky-Um Lutador”, uma obra comercial na contramão de toda aquela crítica social traduzida em desilusão que, em vez disso, oferecia uma catarse ao público (ao qual Scorsese e outros críticos se opunham com veemência) e ainda naquele período o cinema veria um sucesso sem precedentes na forma do seminal “Tubarão” de Steven Spielberg, a obra inaugural do fenômeno que depois passou a ser conhecido como blockbuster, e que teria, em 1977, sua pedra fundamental com a estréia avassaladora de “Star Wars”.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Sonhos de Trem


 Quando começamos a achar que não se faz mais cinema assim (dotado de uma percepção artística toda lenta, introspectiva, melancólica), vem a própria Netflix (a mais popular dentre todas as plataformas de streaming) e lança “Sonhos de Trem” –ou “Train Dreams” no original –adaptação de um livro escrito por Denis Johnson em 2011, e carregado com ecos do cinema de Terence Malick (“Cinzas No Paraíso”, “Além da Linha Vermelha”, “Árvore da Vida”), contemplativo, abstrato, muito mais inclinado à reflexão do que à ação.

 "Sonhos de Trem" é a história de Robert Grainier (Joel Edgerton, irrepreensível) e, desde o início, o narrador (voz do ator Will Patton) nos informa que Grainier viveu até os 80 anos.

Filhos de pais que jamais chegou a conhecer, ele chega em Bonners Ferry, estado de Idaho, ainda criança e, desde cedo, desenvolve uma personalidade calada, introvertida, sempre dedicado ao cotidiano braçal das ocupações daquele fim do Século XIX início do Século XX.

Adulto, Grainier passa a trabalhar como lenhador, derrubando árvores por todo o país, muitas vezes para a construção de estradas de ferro, situação que o deixa sempre próximo do universo ferroviário norte-americano, e em contato com outros madeireiros, operários braçais que vem e vão ao longo dos anos, também eles com suas peculiares histórias.

Desse segmento, aqueles que se sobressaem na narrativa certamente são o chinês (Alfred Hsing, de “Jogador Nº1”) abruptamente descartados dos serviços junto a ferrovia por ser um imigrante ilegal (uma visão que passa a atormentar Grainier o resto da vida); o homem religioso e falastrão (Paul Schneider, de “A Garota Ideal”) inesperadamente morto por a tiros por um homem negro em busca de uma vingança pessoal; e o operário veterano vivido por William H. Macy, um curioso contador de histórias que se torna seu amigo e que parte de forma trágica.

Há também uma expressiva participação, já na segunda metade da atriz Kerry Condon (de “Banshees de Inisherin” e “F1”).

O cerne de sua trama, contudo, é a relação com Gladys (Felicity Jones), jovem por quem ele se apaixona, com quem casa e, logo depois, decide construir uma cabana na floresta à beira de um rio. Os anos não tardam a passar. Eles têm uma filha, a pequena Kate, e para sustentar sua família, Grainier passa a trabalhar temporadas inteiras bem longe do lar, cortando madeira nos mais diferentes recôncavos do país.

Seus retornos para casa são poéticos e carregados de felicidade, mas a falta de dinheiro sempre o obriga a voltar. E é justamente num desses retornos que ele é surpreendido por um terrível incêndio acometido na floresta onde moram, fazendo com que Gladys e Kate fiquem desaparecidas.

Seus 80 anos de vida não são definidos por acontecimentos extraordinários, muito pelo contrário, Robert Grainier não poderia ser um indivíduo mais comum. Ainda assim, essa trajetória de vida assim registrada não deixa de acompanhar de perto as notáveis transformações testemunhadas por esse mesmo homem comum durante os EUA da primeira metade do Século XX: “Train Dreams” vai até a segunda metade dos anos 1960, acompanhando nesse processo a modernização do sistema de transporte ferroviário norte-americano (mostrado sem qualquer viés didático) e chegando inclusive a trazer as notícias sobre a ida do Homem ao espaço.

Lançado originalmente no Festival de Sundance de 2025, onde o trabalho do diretor Clint Bentley e a atuação de Edgerton saíram aclamados pelos críticos, “Train Dreams” é uma obra cuja narrativa definida pela contemplação mantém sempre em foco a relação do Homem com a Natureza, não à toa, suas imagens deslumbrantes desde a primeira cena são o ponto forte: A direção de fotografia, concebida na janela de aspecto 1,46:1, é assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso (de “Tungstênio” e ‘Rodantes”).

Não espere sair feliz e saltitante do filme: É um trabalho que foca em agruras íntimas, em tristezas inapeláveis de uma vida árdua, fadada a não encontrar quaisquer outras alternativas para que árdua deixe de ser. Expectadores adeptos de narrativas comerciais certamente vão se ressentir dessa lentidão e dessa desesperança, no entanto, em muitos momentos a realização de Bentley revela-se uma obra sublime.

sábado, 6 de junho de 2026

Bugonia


 Sem jamais abandonar um estilo idiossincrático de moldar obras desiguais, desconfortáveis, quase sempre perturbadoras (característica que fez chamar a atenção para si no cinema de sua Grécia-natal), o diretor Yorgos Lanthimos conseguiu conquistar a colaboração de improváveis aliados (como a estrela Emma Stone, aqui na quarta parceria com o diretor) e uma parcela do público e da crítica que sempre parecem entusiasmados com mais um novo atrevimento do mesmo realizador de “A Favorita”.

Etimologicamente falando, o título de “Bugonia” surgiu das expressões gregas, Boures (boi) e Góné (geração), significando a geração, o surgimento de insetos como moscas ou abelhas a partir de uma carcaça de boi em decomposição.

“Bugonia”, em princípio, parece se debruçar sobre um absurdo sem precedentes: Os primos Teddy Gatz (o ótimo Jesse Plemmons) e Don (o ator autista Aidan Delbis) são a própria personificação de norte-americanos alienados; creem em teorias da conspiração e tem recursos e disponibilidade para pôr algumas de suas sandices em prática. Teddy passa seu tempo livre cuidando de abelhas como apicultor (atenção a este detalhe!) e também trabalha como operário numa empresa do conglomerado farmacêutico Auxolith. Ele acredita piamente que a CEO, Michele Fuller (Emma Stone), é uma alienígena enviada à Terra com um plano contundente para capitanear uma invasão gradual e insidiosa.

Seu plano é, portanto, sequestra-la, com o auxílio de Don, (e sua convicção para isso é tanta que chegam a ingerir um castrador químico para que não sejam afetados pela presença feminina da refém!) e durante o cárcere extrair dela (nem que seja sob tortura!) os meios para teleportar-se à sua nave-mãe (!), onde haverão de encontrar um meio de sabotar a invasão alienígena (!!). O enredo, em sua descrição, parece pertencer à uma comédia de ficção científica ou algo minimamente próximo disso, entretanto, a direção de Yorgos Lanthimos o transforma em algo completamente diferente.

Refilmado e reimaginado a partir do filme sul-coreano “Save The Planet Green” (ou “Jigureul Jikyeora!”, no idioma original), lançado em 2003 (este, sim, uma comédia de ficção científica de fato, infinitamente menos sombrio e pessimista que este daqui), “Bugonia” reflete sobre os indivíduos de índole escorregadia e de convicções questionáveis que surgem a partir de sociedades cujos valores entram numa espécie de apatia. Logo, é uma habilmente disfarçada reflexão sobre as arestas não aparadas dessa América de Trump que Lanthimos nos entrega.

Os realizadores de “Save The Planet Green” (jamais lançado aqui no Brasil, infelizmente) afirmaram que tiveram a ideia do enredo básico ao assistirem o filme “Louca Obsessão”, o que os deixou insatisfeitos devido à falta de profundidade explorada na personagem da sequestradora; em “Save The Planet Green”, eles tomaram a decisão de conceber um roteiro sob o ponto de vista torpe do próprio sequestrador. Isso, aliado à uma notícia da internet (onde uma teoria da conspiração cogitava a possibilidade do astro Leonardo Dicaprio ser um alienígena!) rendeu a ideia que, por fim, se tornou “Save The Planet Green”.

No entanto, se naquele filme, os realizadores sul-coreanos fizeram uma alucinada comédia de humor negro, aqui, em “Bugonia”, o diretor Lanthimos tece uma obra de conotações mais desafiadoras: Ele justapõe personagens brilhantemente bem escritos (a CEO implacável ainda que paradoxalmente indefesa de Emma Stone e o sequestrador ignorante de Jesse Plemmons potencialmente perigoso justamente por sua ignorância) num duelo de convicções e num constante e mutável jogo de negociação entre verdade, determinação e duplicidade.

O desfecho de “Bugonia”, com seu desconcertante plot twist reforça a observação impiedosa que Yorgos Lanthimos sempre fez da condição humana: Se, como na crença da Antiguidade, a raça humana emergiu das carcaças de outra espécie assim neutralizada (os dinossauros), através do fenômeno da Bugonia, de novo isso torna a acontecer, agora, com a raça humana, moribunda em seus conceitos falhos e no fato de que plantou as sementes para a própria auto-destruição, originando talvez uma nova forma de vida, dando continuidade ao ciclo.

Ainda que altamente irônico e cruel, esse talvez seja o mais perto de algum otimismo que o diretor Yorgos Lanthimos seja capaz de chegar.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Mestres do Universo


 A concepção do desenho animado “He-Man e Os Mestres do Universo” já é uma história bastante difundida na cultura pop – a de que a Mattel (empresa fabricante de “Barbie”) recusou a proposta (que mais tarde se provou milionária) de um certo George Lucas para fazer uma linha de brinquedos baseada em seu filme “Star Wars”. Com o sucesso da concorrência, a Mattel correu atrás do prejuízo tentando lançar sua própria linha de brinquedos infanto-juvenis baseado numa obra de fantasia. A ideia de fazer isso com “Conan” (personagem que vinha fazendo sucesso com o filme live-action de 1982) não vingou porque o personagem era desde a gênese deveras violento para crianças pequenas, contudo, executivos notaram que bastava mudar a cor do cabelo do personagem principal (alterado do preto para o loiro, causando um ligeiro estranhamento em contraste com a pele bronzeada) e havia toda uma linha inédita e original de brinquedos.

Sem uma obra prévia de introduzisse o conceito para as crianças consumidoras do brinquedo, a Mattel produziu breves histórias em quadrinhos que acompanhavam os bonecos a fim de lhes proporcionar um background, no entanto, logo seguiu-se a ideia de produzir toda uma série de animação (a cargo da produtora Filmation) que se encarregasse de mostrar ao público-alvo toda a mitologia concebida a partir dos bonecos – uma prática que, dado o estrondoso sucesso, tornou-se regra mercadológica nos anos 1980.

A fim de contornar as críticas – que apontavam o desenho como uma mera propaganda de marketing estendida, visando apenas divulgar um produto – os produtores acrescentaram, ao fim de cada episódio de “He-Man e Os Mestres do Universo”, uma breve mensagem moral.

E o resto, para você que tem por volta de seus 40 e tantos anos, é História.

Toda essa volta é para contextualizar as circunstâncias inusitadas por meio das quais surgiu uma das obras mais emblemáticas para quem foi criança nos anos 1980, e que culminou no filme “Mestre do Universo” lançado agora em 2026.

Não foi a primeira adaptação cinematográfica, é bom dizer: Lançado em 1987, pela produtora picareta Cannon Films, “Mestres do Universo” trazia Dolph Lundgreen escalado como He-Man numa trama cujo baixo-orçamento não permitia fidelidade absoluta ao desenho animado (uma mescla exultante entre fantasia e ficção científica) e que acabava adotando como ambientação um subúrbio qualquer de Nova York (!). Apesar dos lapsos imensos de produção, esse filme, hoje, é lembrado com carinho como uma espécie de ‘prazer culposo’.

Mas, vamos falar do filme de 2026.

Nele, o planeta Etérnia – lar dos personagens e palco dos embates entre o Bem e o Mal – surge materializado por efeitos especiais de ponta. O reino governado pelo rei Randor (James Purefoy) e pela rainha Marlena (Charlotte Riley, de “No Coração do Mar”) que, diga-se, veio da Terra, é detentor do lendário Castelo de Greyskull, cujos poderes encontram-se depositados na Espada do Poder, a ser empunhada, segundo a sábia Feiticeira (Morena Baccarin) por seu vindouro campeão. Todavia, surgem as forças do Mal manifestadas no perverso Esqueleto (Jared Leto) que ataca o reino, aprisiona o rei e a rainha, e ainda oprime todo o povo, almejando tomar para si os poderes de Greyskull. Isso só não acontece porque o príncipe Adam, ainda uma criança, sob a orientação da Feiticeira, é enviado junto da espada para o planeta Terra, outrora lar de sua mãe.

Mas, Adam acaba perdendo a espada (sua conexão com o mundo de Etérnia), levando cerca de quinze anos para reencontrá-la – e então, após esse salto temporal, já vemos Adam vivido por Nicholas Galitzine (de “Uma Ideia de Você”), o novo intérprete do personagem.

Embora essa primeira parte forneça uma apresentação simbólica e tenha uma função narrativa de origem para dar o pontapé inicial no enredo, muitos fãs torceram o nariz para essa ambientação na Terra, recordando das escolhas um tanto equivocadas do filme de 1987 (ainda que isso também abra espaço para uma divertida participação especial do próprio Dolph Lundgreen em pessoa). Contudo, o trecho da Terra é rápido, elíptico até (atropela até algumas informações importantes que podia ter fornecido do tempo em que Adam ficou por aqui) e, quando menos se espera, o expectador já foi devidamente arremessado de volta à Etérnia: Ao finalmente reencontrar sua espada, Adam consegue trazer seus aliados para a Terra – na verdade, é Teela (a maravilhosa brasileira Camila Mendes), sua amiga de infância, quem vem lhe resgatar – e seus adversários também – ele é perseguido pelo bestial Homem-Fera!

Em Etérnia, Adam – que ainda está a se adaptar aos poderes assim descobertos da espada – reencontra os guerreiros dos quais se recordava na infância – personagens característicos e clássicos da animação como o pai de Teela, Mentor (o sempre sensacional Idris Elba), Fisto (Jóhannes Haukur, de “Atômica”), Aríete (Jon Xue Zhang), Mekaneck (James Wilkinson) e Roboto (voz de Kristen Wiig) – que formam agora, uma resistência contra as forças do Esqueleto. Não demora muito para Adam finalmente descobrir os meios que a Espada do Poder tem para convertê-lo no poderoso He-Man (esse nome só é revelado no desfecho) e fazer dele o tão aguardado Campeão de Etérnia, a fim de livrar o povo do Esqueleto.

Desde exibições-testes preliminares já havia surgido o comentário sobre a imensa semelhança deste projeto com “Thor-Ragnarok” – e a similaridade, de fato, não parece ser por acaso, ela parece ser proposital: Desde o colorido característico e nada sombrio dos efeitos visuais, figurinos e direção de arte, passando pela trilha sonora que, entre outras coisas, traz o guitarrista Brian May (do “Queen”!), até o próprio roteiro que não economiza em referências e na famosa e apetecível fórmula de muita ação e aventura mesclada ao humor inofensivo e ocasional (ainda que algumas piadas revelem um duplo sentido), tudo nesta produção evoca o filme de Taika Waititi em particular, e o estilo da Marvel Studios em geral.

A direção de Travis Knight (de “Bumblebee”) se baseia integralmente na animação clássica da década de 1980 (com algumas poucas menções às reinvenções que o próprio desenho sofreu ao longo dos anos) e investe de ponta a ponta em nostalgia, buscando uma modernização por meio da identificação e humanidade dos personagens, trazendo elementos motivacionais em voga como empatia e sinergia (não à toa, o herói na Terra trabalhava no setor de Recursos Humanos!). Até mesmo o vilão Esqueleto é representativo de uma maldade translúcida, sem preocupações com um aprofundamento que lhe desvirtue uma certa galhofa inerente ao personagem.

Em resumo, “Mestres do Universo” é uma obra recheada de boas intenções, personagens pra lá de carismáticos e uma mitologia tão atraente quanto mirabolante (ainda que, com isso, pese a mão em alguns momentos de drama ou de comédia), seu sucesso comercial – notadamente almejado no estilo um pouco pedante que evoca – pode abrir as portas para toda uma nova franquia nas telas de cinema (com desdobramentos sugeridos, inclusive, numa de suas três cenas pós-créditos). Um trabalho feito com coração, mas, não sem um mal disfarçado planejamento mercadológico, aliás, exatamente como o desenho animado que lhe deu origem.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Dinheiro Suspeito


 Melhores amigos na vida real, os astros Matt Damon e Ben Affleck já dividiram a cena diversas vezes em filmes como o premiado “Gênio Indomável” (praticamente a estréia dos dois) ou o bizarro “Dogma”, de Kevin Smith. Em “Dinheiro Suspeito” – ou “The Rip”, o título original – eles voltam a fazê-lo desta vez do alto de uma carreira já consagrada e com anos de experiência nas costas – o que confere a ambos bagagem suficiente para interpretar magistralmente os dois protagonistas.

Dirigido brilhantemente por Joe Carnahan (realizador extremamente talentoso para com o gênero policial tendo assinando o magnífico “Narc”), “Dinheiro Suspeito” reflete um cinema que, em grande medida, já não é mais feito – uma obra sólida, enxuta, sem firulas, sobre personagens sem firulas existindo no limiar de extremos da Lei, da violência e da criminalidade, lembra muito (como quase todo o cinema de Carnahan) as produções cheias de energia, ênfase e personalidade realizadas nos anos 1970.

“Dinheiro Suspeito” já começa sem qualquer receio de expor o expectador à diálogos carregados de densidade: Sob a atmosfera já pesada de um escritório da polícia, o Tenente Dane Dumars (Matt Damon, ótimo) tece uma conversa com seu superior. A Capitã Jackie Velez (Lina Esco, de “London”), responsável pela investigação aos desdobramentos de um cartel de drogas em Miami, acabou de ser morta num violento e misterioso atentado. A suspeita recai sobre seus próprios colegas – a corregedoria acredita que foram policiais corruptos, na folha de pagamento dos traficantes, que perpetraram o atentado, e para tanto, agentes federais, representados entre outros pelo implacável Del Byrne (Scott Adkins), mobilizam uma bateria indigesta de interrogatórios a todos os membros da Unidade de Narcóticos do Departamento de Polícia de Miami, inclusive J.D. Byrne (Ben Affleck, surpreendente), seu próprio irmão!

A suspeita paira no ar.

Para Dane, J.D. e os agentes Numa Baptiste (Teyana Taylor, de “Uma Batalha Após A Outra”), Lolo Salazar (Catalina Sandino  Moreno, de “Maria Cheia de Graça”) e Mike Ro (Steve Yeun), os demais integrantes da força-tarefa, a Cap. Velez (que, à propósito, estava envolvida com J.D.) esbarrou numa descoberta bombástica – e que talvez seja a confirmação do que até então era uma lenda urbana: Paióis de dinheiro mantidos por cardéis que armazenam quantias tão assombrosas de dinheiro do tráfico que qualquer policial, honesto ou não, se sentiria compelido a pegar um pouco para si.

Engessados pela burocracia do sistema, abalados pelos detalhes nebulosos da investigação da Cap. Velez – detalhes estes que, em grande parte, parecem ter morrido com ela – e subitamente inseguros em depositar confiança absoluta uns nos outros, J.D., Numa, Lolo e Mike resolvem seguir Dane numa apreensão de dinheiro sugerida pelo que talvez seja uma dica anônima.

Com a noite a cair sobre Miami, eles chegam a um bairro residencial de Hialeah onde mora Desi (Sasha Calle, de “Flash”), uma jovem que alega inocência e afirma tão somente estar ocupando a casa de foi de sua falecida avó. Os policiais adentram o recinto e, numa busca, descobrem um paiol com a alarmante quantia de 200 milhões de dólares (uma das maiores apreensões de dinheiro já feitas!) – quando a dica anônima sugeria meros 150 mil!

Instala-se um clima de preocupação: Um valor tão grande não pode passar despercebido aos traficantes, ou mesmo aos policiais corruptos que os ajudam – o grupo de Dane, portanto, corre perigo. É questão de tempo até que inimigos fortemente armados caiam sobre eles. No entanto, segundo a Lei, eles não podem deixar o local sem ante fazer a contagem – e, de novo, ainda pesa a questão de que talvez não possam confiar uns nos outros.

Não existem distrações redundantes nem desvios melindrosos no filme de Joe Carnahan, o que ele constrói com habilidade espantosa é um trabalho básico, tenso, decorrido numa única noite e ambientado quase que totalmente num único lugar (ainda que seu refinamento cinematográfico evite qualquer impressão teatral). Seus atores estão em ponto de bala (não me lembro quando foi a última vez que vi Ben Affleck tão bem), seu roteiro (assinado por ele próprio e por Michael McGrale) além de engenhoso e meticuloso, aborda aspectos distintos da atividade policial e gerencia elementos que desembocam em revelações surpreendentes na parte final, e sua direção extremamente segura e absorvente equilibra com rara primazia as sequências explosivas de ação (ainda que, no clímax, ele exagere um pouco nesse quesito), a tensão gradual e crescente e a manutenção louvável de um enredo sempre em desenvolvimento, trazendo até o fim novas informações ao público.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Spider-Noir - 1ª Temporada


 Os diretores Phil Lord e Christopher Miller, de “Homem-Aranha No Aranhaverso”, na qualidade de produtores (e, portanto, plenos de controle sobre o material final) escancaram, nesta arrojada série da Amazon Prime e produzida pela Sony Pictures, o seu irreprimível apreço pelo subgênero do film noir.

Concebendo um novo personagem a partir da variante detetivesca e monocromática do Homem-Aranha que havia dado as caras em “Aranhaverso” – e que lá era, inclusive, dublada por Nicolas Cage – Lord e Miller dão origem à um novo personagem; e que difere, por sinal, até mesmo da fonte original dos quadrinhos.

Nesta série, elaborada num vistoso e atmosférico preto & branco – mas, liberada também numa versão em cores – o próprio Nicolas Cage (como não poderia deixar de ser!) comparece em carne e osso para dar vida ao personagem que antes ele dublou, o assim chamado Homem-Aranha Noir.

Cage é Ben Reilly, um detetive particular na Nova York da década de 1930 – com todas as mazelas sociais de gangsterismo, Grande Depressão e Lei Seca que o noir tão bem soube explorar – que, cinco anos antes, havia sido o herói Spider (ele abandonou a vida de vigilante após ter sido incapaz de salvar a mulher que amava). Tendo pendurado as chuteiras, Reilly agora é um detetive desiludido, ocasionalmente alcóolatra e dedicado aos casos extraconjugais de praxe, que mal pagam seu sustento e o salário da secretária Janet (Karen Rodriguez).

Até o dia em que uma série de casos coincidentemente interligados começam a revelar para Reilly uma curiosa conspiração ocorrendo em meio às sombras do submundo nova-iorquino: Um marido pouco confiável pede que Reilly recolha provas do adultério de sua alegada esposa, a cantora Kat Hardy (a sedutora Li Jun Li, de “Pecadores”) cujos encontros fortuitos são com ninguém menos do que o prefeito da cidade; o ex-combatente desaparecido inexplicavelmente adotado de poderes (relacionados ao fogo, no caso) que incendeia a mansão do chefão Cabelo de Prata (Brendan Gleeson); mais tarde, a própria Kat Hardy requisita os serviços de Reilly para encontrar outro desaparecido, seu amante e guarda-costas, Flint Marko (Jack Huston, da refilmagem de “Ben-Hur”) – em comum entre ele e o desaparecido anterior é que não apenas ambos tinham poderes (os de Marko, relacionados à areia, o que o torna uma perfeita versão noir do Homem-Areia dos quadrinhos do Aranha) como também serviram no mesmo batalhão; como se não bastasse, o Cabelo de Prata em pessoa surge querendo contratar Reilly, desta vez, para descobrir qual é a identidade do traidor que está planejando sua morte – de cujo plano, inclusive, faz parte o incêndio em sua mansão.

Seguindo com paixão e afinco cada um dos tópicos do Film Noir episódio após episódio, a série tem o bom senso de permitir que suas escolhas felizes ditem o rumo de sua realização: Nicolas Cage, pra variar, está sensacional na sua mescla empenhada do habitual caos interior com um pastiche cheio de propriedade de Humphrey Bogart (ainda que o caimento do clássico chapéu de detetive, em Cage, esteja a léguas de ficar tão bem como era em Bogart), a produção compreende os predicados do subgênero de manipulam e faz disso um dos achados da narrativa, na ênfase em sua reconstituição de época, e no preciosismo de seus figurinos, e o roteiro organiza e dispõe um novelo de tramas misteriosas, motivações nebulosas, segredos, mentiras e femme fatales, como num bom film noir para conduzir o saboroso suspense de seu  enredo.

domingo, 31 de maio de 2026

Meninas Malvadas


 Alguns cinéfilos com um pouco mais de idade certamente testemunharam o fenômeno por meio do qual filmes contemporâneos acabam se tornando clássicos; filmes lançados sem muita certeza de seu desempenho comercial ou crítico terminam virando, com o passar do tempo, referências dentro de seu gênero. Lançado em 2004 (época da qual me recordo perfeitamente), “Meninas Malvadas” –ou “Mean Girls” –dirigido por Mark Waters, é um desses casos, e a comprovação disso vem do fato de que, em 2019, ele ganhou  um remake musical na Broadway (assim como, por exemplo, “O Fantasma da Ópera”) e, vinte anos depois, em 2024, foi lançado em cinema, desta vez dirigido por Samantha Jayne e Arturo Perez Jr.

Assim, a narrativa (concebida pela roteirista Tina Fey a partir do livro de estudo comportamental “Queen Bees and Wannabes”, de Rosalind Wiseman) traz a mesma história pontuada por números musicais que tecem um comentário estilizado dos acontecimentos –agora devidamente adaptada aos novos tempos, com temas atuais como sororidade, o cancelamento social, o bullying (seja o digital ou social), o vício em mídias digitais, a diversidade, a inclusão e a independência feminina. Desnecessário dizer que muitos dos atores já presentes na versão dos palcos repetem seus personagens aqui neste filme.

É o caso de Reneé Rapp que vive a antagonista Regina George –vivida, no filme de 2004 pela sensacional Rachel McAdams. Entretanto, tudo começa mesmo com Cady Heron (Angourice Rice, de “Dois Caras Legais”, num registro bem distinto de Lindsay Lohan). Moradora do Quênia junto de sua família, Cady –que foi educada em casa –precisa se mudar para a cidade de Illinois com seus pais e, pela primeira vez, frequentar um colégio público.

Entretanto, se as matérias escolares não oferecem qualquer empecilho (Cady é uma jovem inteligente), a questão da interação social é: Inicialmente, Cady demora a conseguir fazer amigos. Aos poucos, porém, ela faz amizade com os ligeiramente desajustados Janis (Auli’i Cravalho, que dublou a protagonista da animação “Moana”) e Damian (Jaquel Spivey), e descobre, por meio deles, que há uma espécie de hierarquia muito delicada e complicada estabelecida no lugar pelas próprias garotas.

E quem ocupa o topo dessa cadeia social como a realeza do lugar são as plastic girls, o grupo das patricinhas da escola composto pela poderosa, popular (e perigosa...) Regina George, e suas, digamos, asseclas, Karen (Avantika Vandanapu, no papel que antes foi de Amanda Seyfried) e Gretchen (Bebe Wood, personagem outrora vivida por Lacey Chabert). Em meio à isso, Cady se apaixona por Aaron (Christopher Briney), um estudante de sua classe de matemática, e que vem a ser ex-namorado da própria Regina George, contudo, é a própria Cady quem acaba fazendo amizade com as plastic girls, integrando o grupo e, pouco a pouco, se tornando uma delas.

Uma obra simpática, agradável e com um elenco bem acertado (salvo Ashley Park e Jon Hamm, ligeiramente deslocados do tom), e uma ponta muito especial de Lindsay Lohan –é claro que na comparação, este “Mean Girls”, de 2024, não se equipara, na comédia demolidora e na crítica ferina, ao ótimo filme de 2004, justamente pela questão do politicamente correto que não engessava as obras de humor de antigamente como faz com as atuais (isso aquelas que ainda chegam a ser realizadas!). No mais, acredito que para todos os públicos em geral, é impossível que essa mistura de drama juvenil e comédia, conflitos adolescentes femininos e intrigas estudantis, ainda mais adornadas com descontraídos números musicais, não faça lembrar a conhecidíssima série “Glee” composta de praticamente esses mesmos expedientes e essa mesma ambientação.

sábado, 30 de maio de 2026

Avatar - Fogo e Cinzas


 Se há um filme atrelado à expectativas, esse filme é “Avatar”. Não há como se preparar para assisti-lo sem esperar por uma experiência visual sem precedentes. Esse é, pois, o fantasma que assombra as suas continuações. A primeira delas, “O Caminho da Água”, lançada catorze anos depois do filme original, revelou-se uma obra um pouco menos ambiciosa, no sentido de que se debruçava sobre uma trama mais voltada aos seus protagonistas, Jake Sully e Neittiry, e aos filhos de tiveram nesse interim, e menos ao mundo vasto, imaginativo e alienígena que os cercam. O senso de proporções épicas e míticas volta, porém, a dar o tom neste terceiro filme, “Fogo e Cinzas”, num esforço genuíno e nítido para ir além do segundo filme – e, se possível, do festejado primeiro filme também.

É curioso que James Cameron, o criador, parece consciente de que são justamente os personagens novos, criados a partir de “O Caminho da Água”, bem como as inusitadas dinâmicas entre eles, que trazem um sopro de ar fresco à trama, uma vez que ela se atreve a repetir alguns tópicos do filme original.

Após os acontecimentos do filme anterior (que, diferente do filme de 2009, se sucedem simultaneamente neste daqui, sem saltos temporais), Lo’ak, o filho de Jake e Neittiry, ainda se sente culpado pela morte do irmão, enquanto Jake e Neittiry vivenciam o luto, cada um ao seu jeito: Jake reúne armamento obcecadamente, preparando-se para as hostilidades por vir; Neittiry se refugia na oração e na fé.

O lugar onde estão instalados –lar do Clã Metkayina, os Na’Vi aquáticos –está por receber comerciantes vindos das grandes florestas –e para lá destinados a voltar. É quando Jake decide enviar com eles Spider (Jack Champion), o humano que ele e Neittiry criaram como filho. Spider é, na verdade, filho biológico de Miles Quaritch (Stephen Lang), grande vilão da história (ainda que os conceitos de vilão comecem, aqui, a serem pouco a pouco revistos), e como Spider depende de máscaras de oxigênio para não sufocar com o ar do planeta Pandora, a decisão visa deixa-lo em segurança.

A família (Jake, Neittiry, Lo’ak e as filhas Kiri –na verdade, nascida do corpo Na’Vi da Dra. Augustine, do primeiro filme –e Tuk) toda o acompanha nessa espécie de despedida. São atacados (pelo próprio pessoal de Quaritch), e muitos perdem-se nas florestas de Pandora. Descrevendo, parece uma sucessão vertiginosa de acontecimentos, mas, a narrativa de “Fogo e Cinzas” evoca um tom de contemplação por meio do qual, por um tempo considerável de filme, não registramos necessariamente nenhum acontecimento –ainda que a habilidade de James Cameron na direção mantenha o andamento sempre impecável –não à toa “Fogo e Cinzas” é o mais longo dentre todos os três filmes produzidos até então.

À beira da morte quando seu oxigênio por fim se esvai, Spider é salvo quando Eywa, a divindade que habita Pandora, resolve salvá-lo modificando seu sistema nervoso, tornando-o o único humano capaz de respirar a atmosfera de lá.

Contudo, agora o Povo do Céu –como os nativos de Pandora apelidaram os insensíveis invasores humanos –quer encontrar Spider de qualquer forma: Eles compreendem que ele tem a chave para que a Humanidade possa, de uma vez por todas, se estabelecer em Pandora para extrair suas riquezas naturais. A missão de Quaritch, portanto, além da vingança contra Jake Sully esboçada no filme anterior, é também encontrar e capturar seu próprio filho.

No escopo épico (para além dos filmes anteriores) que almeja para sua obra, Cameron não se restringe somente à esse conflito: Ele também explora (tornando este o grande diferencial de “Fogo e Cinzas”) uma outra beligerante e agressiva tribo de Na’Vi em Pandora, o Povo das Cinzas, cuja cultura repele a predominante adoração à Eywa, para abraçar um culto ao fogo e à destruição que ele é capaz de promover. Sua líder é a psicótica Varang (Oona Chaplin) que, num acordo fechado com Quaritch, acaba munindo seus guerreiros com armas pesadas na intenção de sobrepujar todos os outros Na’Vi.

O outro conflito de “Fogo e Cinzas” que ganha força na metade final (e serve, de modo geral, para amarrar as pontas soltas do enredo) é a tentativa dos humanos em empreender um último ataque aos Tulkun (as gigantescas e inteligentes baleias alienígenas que sofrem dos humanos a mesma crueldade insana que as baleias reais aqui na Terra) o que pode levar à extinção da espécie –essa batalha grandiloquente ocupa todo o longo clímax final, justapondo os Na’Vi da floresta e dos mares num combate contra os exércitos dos humanos e do Povo das Cinzas (um confronto que espelha bastante a batalha final do primeiro “Avatar”), e num nível mais íntimo, temos também cada um dos personagens protagonistas, e suas peculiaridades, sendo trabalhadas ao longo do acontecimento: Lo’ak e sua complicada relação com o pai; Neittiry e sua tentativa de equilibrar a natureza de guerreira e de mãe; Spider dividido entre sua humanidade (que o relaciona aos próprios inimigos que enfrenta, incluindo o pai) e a lealdade ao povo Na’Vi; Kiri e a descoberta de suas origens e de uma conexão ainda mais profunda com Eywa.

Aliás, o aspecto espiritual é um fator da mitologia de “Avatar” que surge muito melhor explorado aqui (embora, de novo, muitas dessas ideias terminem levando à cenas de ação que correm o risco de soarem repetitivas em relação aos filmes anteriores) o que sinaliza caminhos um bocado interessantes a serem explorados nas continuações.

Desnecessário dizer que visualmente “Fogo e Cinzas” é um espetáculo atordoante (por mais incrível que possa parecer, James Cameron continua bem sucedido em superar a si mesmo, filme a filme, em termos visuais e técnicos), sobretudo, àqueles que forem conferir seu primoroso aparato em 3D, e só isso já vale, em si, toda a experiência de assistir ao filme nos cinemas, a sua trama, entretanto, carece de polimento e ostenta consideráveis lapsos de imperfeição apesar dos visíveis esforços. Mas, bem... essa já era uma característica presente desde o primeiro “Avatar” –e nunca resultou numa preocupação maior da parte de James Cameron.