Como em muitas produções advindas da Coréia do Sul, o filme de Kim Byung-woo, produzido pela Netflix, é uma miscelânea de gêneros que soa, num primeiro momento, incomum pela ausência de compatibilidade entre esses conceitos, como consequência disso, o roteiro passeia por guinadas imprevisíveis que flertam com o absurdo e muitos de seus momentos exigem certa boa vontade do expectador para melhor serem apreciados e, digamos, digeridos. No entanto, em termos de acabamento narrativo e no âmbito técnico de modo geral o filme mostra-se sempre notável.
O início intimista flagra a jovem Gu An-na (Kim
Da-mi), junto de seu filho pequeno Ja-in (Kwon Eun-seong) dentro do apartamento
onde moram, no terceiro andar de um edifício residencial da Coréia. Uma chuva
torrencial cai sem parar lá fora e Ja-in, como toda criança, está irrequieto.
Em algum momento, An-na irá se dar conta da água que começa a chegar no chão de
seu apartamento. No terceiro andar!
Uma inundação sem precedentes aflige o local de
moradia dos personagens e, na esteira da tentativa muita humana de contornar o
problema, o filme irá trazer revelações acerca de quem eles são, e algumas
surpresas também: An-na, que é uma requisitada cientista especializada na área
de inteligência artificial, tem uma espécie de guarda-costas, Son Hee-jo
(Park Hae-soo, da série “Round 6” também da Netflix), designado para tirá-la do
prédio em segurança. Tal prédio, abarrotada de pessoas desesperadas para fugir
do avanço implacável das águas, não tarda a entrar em colapso, inclusive por
conta de sucessivas ondas monstruosas que pioram ainda mais a situação.
É Son Hee-jo quem trará uma revelação ainda
mais bombástica: Segundo o Serviço Secreto (para quem aparentemente trabalha),
um asteroide colidiu horas antes com a Antártida e provocou um derretimento
súbito das calotas polares, a reação em cadeia não somente levou àquela
inundação de gigantescas proporções, mas provocou uma série de fenômenos que
logo haverão de extinguir a raça humana da face do planeta!
Daí sua missão: Algumas poucas mentes
brilhantes (como a da Dra. An-na) devem ser salvas a fim de garantir que, com
suas habilidades, eles sejam capacidades de produzir uma nova geração de seres
conscientes e pensantes. E, na missão de Son Hee-jo, não estão considerados os
demais seres humanos aflitos que eles encontram em seu caminho (eles devem
subir os andares do prédio até a cobertura quando um helicóptero virá
resgatá-los), nem tampouco o pequeno Ja-in que, como toda criança, tem uma
habilidade desigual para sistematicamente desaparecer das vistas toda a vez que
sua mãe se distrai!
Todos esses elementos em combinação já seriam o
bastante para tornar este filme algo bastante inusitado, mas o plot twist contido em algum momento de
seu segundo terço é algo imprevisível (e se você, leitor, é aquele expectador
que não tolera spoilers, sugiro não
ler mais a partir daqui!).
Num momento em que o filme dirigido por Kim
Byung-woo já sugere um desfecho (um tanto quanto cedo demais para sua duração
de duas horas), eis que uma guinada leva os protagonistas de volta à cena do
começo: Tal e qual “Corra Lola Corra” ou “Feitiço do Tempo”, a partir daí,
tanto An-na quando o pequeno Ja-in, retornarão sucessivas vezes para o início
daquele mesmo fatídico dia, para contemplar diferentes tentativas de chegarem
vivos e juntos ao topo do prédio e serem levados pelo helicóptero. Nesse
interim, não apenas situações irão se repetir com diferentes desfechos a
depender da diferença na atitude por eles tomada, mas revelações surpreendentes
também ocorrerão (tais como a inesperada importância de Ja-in junto ao enredo)
a ponto de “A Grande Inundação” facilmente deixar de ser um mero
filme-catástrofe para adentrar irreversivelmente o terreno mirabolante da
ficção científica.

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