sexta-feira, 19 de junho de 2026

A Grande Inundação


 Como em muitas produções advindas da Coréia do Sul, o filme de Kim Byung-woo, produzido pela Netflix, é uma miscelânea de gêneros que soa, num primeiro momento, incomum pela ausência de compatibilidade entre esses conceitos, como consequência disso, o roteiro passeia por guinadas imprevisíveis que flertam com o absurdo e muitos de seus momentos exigem certa boa vontade do expectador para melhor serem apreciados e, digamos, digeridos. No entanto, em termos de acabamento narrativo e no âmbito técnico de modo geral o filme mostra-se sempre notável.

O início intimista flagra a jovem Gu An-na (Kim Da-mi), junto de seu filho pequeno Ja-in (Kwon Eun-seong) dentro do apartamento onde moram, no terceiro andar de um edifício residencial da Coréia. Uma chuva torrencial cai sem parar lá fora e Ja-in, como toda criança, está irrequieto. Em algum momento, An-na irá se dar conta da água que começa a chegar no chão de seu apartamento. No terceiro andar!

Uma inundação sem precedentes aflige o local de moradia dos personagens e, na esteira da tentativa muita humana de contornar o problema, o filme irá trazer revelações acerca de quem eles são, e algumas surpresas também: An-na, que é uma requisitada cientista especializada na área de inteligência artificial, tem uma espécie de guarda-costas, Son Hee-jo (Park Hae-soo, da série “Round 6” também da Netflix), designado para tirá-la do prédio em segurança. Tal prédio, abarrotada de pessoas desesperadas para fugir do avanço implacável das águas, não tarda a entrar em colapso, inclusive por conta de sucessivas ondas monstruosas que pioram ainda mais a situação.

É Son Hee-jo quem trará uma revelação ainda mais bombástica: Segundo o Serviço Secreto (para quem aparentemente trabalha), um asteroide colidiu horas antes com a Antártida e provocou um derretimento súbito das calotas polares, a reação em cadeia não somente levou àquela inundação de gigantescas proporções, mas provocou uma série de fenômenos que logo haverão de extinguir a raça humana da face do planeta!

Daí sua missão: Algumas poucas mentes brilhantes (como a da Dra. An-na) devem ser salvas a fim de garantir que, com suas habilidades, eles sejam capacidades de produzir uma nova geração de seres conscientes e pensantes. E, na missão de Son Hee-jo, não estão considerados os demais seres humanos aflitos que eles encontram em seu caminho (eles devem subir os andares do prédio até a cobertura quando um helicóptero virá resgatá-los), nem tampouco o pequeno Ja-in que, como toda criança, tem uma habilidade desigual para sistematicamente desaparecer das vistas toda a vez que sua mãe se distrai!

Todos esses elementos em combinação já seriam o bastante para tornar este filme algo bastante inusitado, mas o plot twist contido em algum momento de seu segundo terço é algo imprevisível (e se você, leitor, é aquele expectador que não tolera spoilers, sugiro não ler mais a partir daqui!).

Num momento em que o filme dirigido por Kim Byung-woo já sugere um desfecho (um tanto quanto cedo demais para sua duração de duas horas), eis que uma guinada leva os protagonistas de volta à cena do começo: Tal e qual “Corra Lola Corra” ou “Feitiço do Tempo”, a partir daí, tanto An-na quando o pequeno Ja-in, retornarão sucessivas vezes para o início daquele mesmo fatídico dia, para contemplar diferentes tentativas de chegarem vivos e juntos ao topo do prédio e serem levados pelo helicóptero. Nesse interim, não apenas situações irão se repetir com diferentes desfechos a depender da diferença na atitude por eles tomada, mas revelações surpreendentes também ocorrerão (tais como a inesperada importância de Ja-in junto ao enredo) a ponto de “A Grande Inundação” facilmente deixar de ser um mero filme-catástrofe para adentrar irreversivelmente o terreno mirabolante da ficção científica.

É provável que esta produção não alcance o brilhantismo inquestionável de algumas obras-primas sul-coreanas na manutenção de um argumento munido de surpresas sistemáticas (como “Old Boy” ou “Parasita”, infinitamente mais bem resolvidos), mas ainda assim, diante da facilidade com que  direção e roteiro poderiam ter se perdido ao longo desta proposta arrojada, o resultado final até que cumpre muito bem seu papel de surpreender, entreter e envolver.

Nenhum comentário:

Postar um comentário