terça-feira, 15 de setembro de 2026

Grunt!


 Realizado na Itália em 1983, esta comédia completamente obscura ganhou algum reconhecimento entre certos nichos cinéfilos – sobretudo, aquele pessoal que garimpa os filmes mais estranhos possíveis – depois que surgiu numa cena específica em “Troll 2” – uma produção B de terror italiana, não confundir com a animação da Dreamworks. Na cena em questão, alguns personagens assistem ao filme, no exato momento em que vemos um gorila (?!) tocar um ovo eletrificado (?!!) para então converter-se numa espécie de foguete com um jato saindo do meio de suas nádegas (?!!!). Conferindo a película inteira dá pra afirmar: O filme como um todo é definido por esse tipo de non-sense.

Eu assisti “Grunt!” há muito tempo atrás, ainda numa fita de VHS, durante o período áureo das videolocadoras. De lá para cá, ele foi mais um dos inúmeros filmes que ameaçaram se perder no esquecimento, uma vez que – devido à sua obscuridade e sua frequente mediocridade artística – ele sequer migrou para outras mídias (embora, certamente, deva haver alguma versão dele em DVD em algum lugar...).

Dirigido e estrelado pelo comediante Andy Luotto, “Grunt!” não tem, por assim dizer, uma trama específica para ser explicada – ele pertence a uma série de comédias italianas nesses moldes a envolver homens das cavernas e que integraram, com o passar do tempo e com a produção sistemática de muitos e muitos filmes fuleiros, uma legião de filmes de baixo orçamento feitos à toque de caixa para entupirem alguma prateleira de locadora nos anos 1980. Desse filão normalmente grosseiro, um dos exemplares mais conhecidos é “Quando As Mulheres Tinham Rabo”, com a musa Senta Berger.

No papel de Nuk (os personagens trazem nomes peculiares como Nuk, Atar, Kurg ou Pok, evidenciados nos créditos iniciais), Andy Luotto compõe um grupo de grotescos homens pré-históricos que nada mais têm o que fazer ao longo de seus dias, exceto dar bordoadas nas cabeças uns dos outros, enquanto se alimentam de frutas vermelhas nas árvores.

Durante esse dia-a-dia banal e destrambelhado, algumas descobertas acontecem: Um deles, ao bater um galho de árvore que lhe caiu sobre a cabeça contra uma pedra, inadvertidamente, cria o primeiro bumerangue (!), contudo, descobre ser incapaz de se livrar do utensílio – toda a vez que o arremessa pra longe, ele volta, tornando a bater em sua cabeça (!). Já outro dos homens das cavernas, este bastante afeminado e adepto de cheirar flores e usar fraldas (!?!), descobre um pó branco que surge das flores após esmaga-las – ele fez isso para matar uma abelha que lhe picou o nariz! O tal pó branco – adivinhe! – provoca alguns delírios e devaneios impagáveis. E é durante um desses que surge o estranho gorila a rondar essa estranha tribo.

Em dado momento, surge uma tribo que parece um pouco mais evoluída – são indivíduos que trajam o que parecem ser roupas feitas de pele de zebra (!). Os homens dessa nova tribo os ensinam hábitos mais caprichosos como a procedimento (hilário) para retirar a barba.

Na sequência, eles se defrontam com uma nova tribo, desta vez, composta por mulheres (o que parece expor com mais nitidez a disposição do filme para satirizar o épico antropológico “A Guerra do Fogo”). Algumas dessas mulheres até demonstram intenção para escolher parceiros entre aqueles homens pra lá de desengonçados (até mesmo para homens das cavernas!), isso, claro, entre aqueles que se interessam por mulheres – alguns deles preferem ficar com sua homossexualismo recém-descoberto como o personagem de fraldas (!?).

Lá pelas tantas, uma tempestade elétrica acaba impregnando um ovo com eletricidade – ou algo assim... francamente, é inútil tentar entender – e a tribo acaba tendo em mãos um artefato com poderes mágicos inusitados; alguns que o tocam sofrem súbita transformação (como o gorila, a cena vista em “Troll 2”) e outros não sofrem efeito nenhum. De qualquer forma, o ovo e seu esquisito poder se tornam objeto de disputa entre as tribos, uma vez que logo surgem rivais tentando pegar o ovo para si.

O fato de “Grunt!” ser um filme italiano é, em si, uma informação irrisória: Ele poderia pertencer a qualquer outro idioma que não faria qualquer diferença – salvo uma piada aqui ou ali, os personagens se comunicam por grunhidos, gritos e onomatopeias que substituem gaiatamente a necessidade de comunicação. Por isso mesmo, seu humor bastante pastelão busca muita inspiração nas gags visuais do cinema mudo e, em especial, na pantomina imprevisível e abilolada dos desenhos animados, como no efeito sonoro que distingue o estado dos queixos de diferentes tribos quando passam-lhe a mão (um, barbudo e áspero; outro, liso e aparado).

É, por isso mesmo, uma produção dotada de um humor infantil, ocasionalmente irritante para expectadores adultos que a adentrarem com um pouco mais de exigência. Esse tipo de produção, profusa na Itália dos anos 1980 – como inúmeros outros subgêneros, tais quais o giallo, o faroeste spaghetti ou a comédia erótica anos antes – foi de certa forma homenageado numa produção francesa de 2004, “RRRrrrr!-Na Idade da Pedra”, que contava até mesmo com Gerard Depardieu no elenco!

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