domingo, 13 de setembro de 2026

O Reflexo do Mal


 Primeiro trabalho do diretor e roteirista Phillip Ridley, este “The Reflecting Skin” tem inúmeros elementos e características em comum com seu filme seguinte, o igualmente estranho e cul, porém, não tão bem resolvido “Paixões Na Floresta”. Ambos falam sobre obsessão, sobre os desenganos aos quais nossas crenças limitantes podem nos levar, e trazem personagens isolados, quase alienados, ameaçadores em seu fanatismo pessoal.

Nascido e crescido em Idaho, numa comunidade rural norte-americana – o chamado White trash, retratado em produções distintas como “Inverno da Alma” ou “Eu, Tonya” – o garotinho Seth Dove (Jeremy Cooper) passa os dias a aprontar com seus amigos, Eben (Codie Lucas Wilbee) e Kim (Evan Hall) em meados dos anos 1950. Seu irmão mais velho, Cameron (Viggo Mortensen), partiu para lutar no Pacífico, deixando uma atmosfera de incerteza entre seus pais, a neurótica Ruth (Sheila Moore) e o taciturno Luke (Duncan Fraser, de “O Predador”), proprietários de um pequeno e decadente posto de gasolina.

Além deles, há um grupo de rapazes pouco confiáveis que rondam a bordo de um Cadillac preto pelas redondezas – bem... há mais alguém: A viúva Sra. Dolphin Blue (Lindsay Duncan, de “Sob O Sol da Toscana” e “Birdman”) que, no breve contato que tem com o pequeno e influenciável Seth, desperta nele a suspeita de que poderia ser ela uma vampira! – pouco antes, Seth acompanhou a leitura de um romance pulp sobre vampiros com seu pai que o impressionou (até mesmo a vampira desenhada na capa lhe remeteu à viúva Dolphin!).

Ao longo dos dias, eventos sombrios somente reforçam as suspeitas do garoto: Seu amiguinho Eben desaparece para então ser encontrado morto numa cisterna próxima, e uma sensação de perigo parece pairar sobre todos.

Mesmo os comportamentos um tanto excêntricos de Dolphin não ajudam muito – ela se mostra uma mulher atormentada pelo incompreensível suicídio do marido ocorrido um dia após terem se casado (!), além disso, Seth e Kim a flagram se tocando quando invadem sua casa para espiar (!) – uma vez mais o tema da sexualidade fortemente reprimida que Ridley voltou a empregar em “Paixões Na Floresta”.

Com o suicídio do pai (que ateou fogo em si mesmo após ser acusado pela polícia local pela morte do jovem Eben), Cameron volta para casa carregando severos traumas da guerra e trazendo memórias particularmente perturbadoras envolvendo bombardeios atômicos.

Para aflição de Seth, Cameron passa a se envolver com Dophin – e mesmo os efeitos de deterioração por radiação no corpo do irmão mais velho, o pequeno Seth atribui ao vampirismo de Dolphin, o que leva o garoto a uma atitude irreversível já no desfecho do filme.

Fatalista, original e impactante, “The Reflecting Skin” venceu o prêmio de Melhor Atriz para Lindsey Duncan e de Melhor Direção de Fotografia (para Dick Pope) no Festival Internacional de Cinema de Sitges, na Catalunha, além de três prêmios no Festival de Cinema de Locarno. Visualmente, esta obra marcante de Ridley junta em um mesmo enredo temas como misoginia, homofobia, etarismo e abuso sexual, remetendo ao estilo muito específico do terror gótico sulista com suas imagens áridas, amplas e sinistras em conjugação com uma atmosfera de sufocante desolação reforçada pela trilha sonora de Nick Bicât.

Nenhum comentário:

Postar um comentário