A carreira da atriz Jessica Chastain sempre foi pontuada de brilhantes atuações, de uma presença sempre notável em grandes filmes. É curioso, portanto, que o único Oscar de Melhor Atriz conquistado por ela até então tenha vindo por um filme, digamos, menor, bem mais tímido e menos exuberante que outras obras extraordinárias que ela protagonizou. E olha que não foram poucas! Isso (dela vencer o prêmio de Melhor Atriz) ocorreu no Oscar 2022 – sim, aquele mesmo do infame tapa de Will Smith na cara de Chris Rock... – e as concorrentes de Jessica na disputa eram Olivia Colman (por “A Filha Perdida”), Nicole Kidman (por “Apresentando Os Ricardos”), Penelope Cruz (por “Mães Paralelas”) e Kristen Stewart (por “Spencer”). O Oscar de Jessica Chastain veio, portanto, graças à uma conjugação imprevista de fatores favoráveis como uma série de concorrentes sem qualquer favoritismo (os cinemas ainda se adaptavam ao pós-pandemia e não houve a quantia usual de lançamentos) e uma circunstância profissional na qual já estava até demorando para a Academia, enfim, conceder o prêmio à ela. O Oscar tem, afinal, dessas coisas...
É por isso que observamos o fato inusitado de
que, numa filmografia brilhante repleta de obras como “A Árvore da Vida” ou “A Hora Mais Escura”, foi justamente por um filme de orientações um pouco mais
medíocres como “Os Olhos de Tammy Faye” que Jessica terminou ganhando seu
primeiro Oscar.
O filme acompanha Tammy Faye (Jessica) desde a
juventude quando, ainda criança (vivida por Chandler Head), deixou-se arrebatar
pelo processo quase transcendental da pregação religiosa. Crescida, lá por
meados dos anos 1960, ela procurou especializar-se na verve com a qual líderes
religiosos simplesmente hipnotizavam a plateia e, num curso eventual, conheceu
o carismático Jim Bakker (o ótimo Andrew Garfield), alguém em quem Tammy
enxergou a mesma empolgação ebuliente para disseminar a palavra de Deus, e
ainda usar dessa exposição para obter uma mal-disfarçada massagem de ego.
Tammy e Jim compreendiam instintivamente que a
devoção ao Divino era um caminho circunstancialmente inverso à da doutrina
franciscana: Nada de abnegação, nada de pobreza. Se Deus os amava, então, era
mais que natural que eles usufruíssem da riqueza obtida, por sua vez, em sua
pregação ao próprio Deus.
A medida que foram se especializando em sua
oratória – e formando com isso uma dupla imbatível – os dois (logo, casados e
com uma filha pequena) passaram a valer-se, já nos anos 1970, do meio da TV
para atingir o máximo de fiéis possíveis. Havia uma dinâmica muito funcional
entre os dois; ao mesmo tempo em que consolidavam um matrimônio à toa prova (um
indicativo da força da família e dos bons costumes), Tammy e Jim alternavam
suas apresentações televisivas com uma habilidade descontraída e espontânea dela
para usar marionetes e cantar, enquanto que ele incorporava o apresentador patriarcal,
quase messiânico.
O sucesso e o lucro, obtidos com doações
requisitadas ao vivo via ligação telefônica, foram tão grandes que em pouco
tempo eles tinham uma emissora própria com suas pregações voltadas
exclusivamente para a televisão, e arregimentando legiões de devotos.
A chegada dos anos 1980 trouxe um esfacelamento
nessa relação que eles faziam parecer tão harmoniosa.
O interesse desmesurado de Jim por mais e mais
ganhos, logo, deu origem a projetos faraônicos, ao mesmo tempo em que o
casamento com Tammy (então, grávida do segundo filho) começava a apresentar
sinais de desgaste – entre eles, uma certa negligência da parte de Jim (que, no
fundo, se ressentia dos momentos em que Tammy, com relativa facilidade, brilhava
mais que ele) e uma tendência homossexual que ele buscava ocultar de todos e
até de si mesmo (o próprio filme evita tocar o mínimo possível nessa questão). Entretanto, muitos
dos lapsos de Jim veem à tona quando surgem denúncias pesadas envolvendo
estelionato e fraude, o que ameaça manchar o nome da própria congregação evangélica
nos EUA.

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