sábado, 12 de setembro de 2026

Os Olhos de Tammy Faye


 A carreira da atriz Jessica Chastain sempre foi pontuada de brilhantes atuações, de uma presença sempre notável em grandes filmes. É curioso, portanto, que o único Oscar de Melhor Atriz conquistado por ela até então tenha vindo por um filme, digamos, menor, bem mais tímido e menos exuberante que outras obras extraordinárias que ela protagonizou. E olha que não foram poucas! Isso (dela vencer o prêmio de Melhor Atriz) ocorreu no Oscar 2022 – sim, aquele mesmo do infame tapa de Will Smith na cara de Chris Rock... – e as concorrentes de Jessica na disputa eram Olivia Colman (por “A Filha Perdida”), Nicole Kidman (por “Apresentando Os Ricardos”), Penelope Cruz (por “Mães Paralelas”) e Kristen Stewart (por “Spencer”). O Oscar de Jessica Chastain veio, portanto, graças à uma conjugação imprevista de fatores favoráveis como uma série de concorrentes sem qualquer favoritismo (os cinemas ainda se adaptavam ao pós-pandemia e não houve a quantia usual de lançamentos) e uma circunstância profissional na qual já estava até demorando para a Academia, enfim, conceder o prêmio à ela. O Oscar tem, afinal, dessas coisas...

É por isso que observamos o fato inusitado de que, numa filmografia brilhante repleta de obras como “A Árvore da Vida” ou “A Hora Mais Escura”, foi justamente por um filme de orientações um pouco mais medíocres como “Os Olhos de Tammy Faye” que Jessica terminou ganhando seu primeiro Oscar.

O filme acompanha Tammy Faye (Jessica) desde a juventude quando, ainda criança (vivida por Chandler Head), deixou-se arrebatar pelo processo quase transcendental da pregação religiosa. Crescida, lá por meados dos anos 1960, ela procurou especializar-se na verve com a qual líderes religiosos simplesmente hipnotizavam a plateia e, num curso eventual, conheceu o carismático Jim Bakker (o ótimo Andrew Garfield), alguém em quem Tammy enxergou a mesma empolgação ebuliente para disseminar a palavra de Deus, e ainda usar dessa exposição para obter uma mal-disfarçada massagem de ego.

Tammy e Jim compreendiam instintivamente que a devoção ao Divino era um caminho circunstancialmente inverso à da doutrina franciscana: Nada de abnegação, nada de pobreza. Se Deus os amava, então, era mais que natural que eles usufruíssem da riqueza obtida, por sua vez, em sua pregação ao próprio Deus.

A medida que foram se especializando em sua oratória – e formando com isso uma dupla imbatível – os dois (logo, casados e com uma filha pequena) passaram a valer-se, já nos anos 1970, do meio da TV para atingir o máximo de fiéis possíveis. Havia uma dinâmica muito funcional entre os dois; ao mesmo tempo em que consolidavam um matrimônio à toa prova (um indicativo da força da família e dos bons costumes), Tammy e Jim alternavam suas apresentações televisivas com uma habilidade descontraída e espontânea dela para usar marionetes e cantar, enquanto que ele incorporava o apresentador patriarcal, quase messiânico.

O sucesso e o lucro, obtidos com doações requisitadas ao vivo via ligação telefônica, foram tão grandes que em pouco tempo eles tinham uma emissora própria com suas pregações voltadas exclusivamente para a televisão, e arregimentando legiões de devotos.

A chegada dos anos 1980 trouxe um esfacelamento nessa relação que eles faziam parecer tão harmoniosa.

O interesse desmesurado de Jim por mais e mais ganhos, logo, deu origem a projetos faraônicos, ao mesmo tempo em que o casamento com Tammy (então, grávida do segundo filho) começava a apresentar sinais de desgaste – entre eles, uma certa negligência da parte de Jim (que, no fundo, se ressentia dos momentos em que Tammy, com relativa facilidade, brilhava mais que ele) e uma tendência homossexual que ele buscava ocultar de todos e até de si mesmo (o próprio filme evita tocar o mínimo  possível nessa questão). Entretanto, muitos dos lapsos de Jim veem à tona quando surgem denúncias pesadas envolvendo estelionato e fraude, o que ameaça manchar o nome da própria congregação evangélica nos EUA.

Dirigido por Michael Showalter (do romance “Uma Ideia de Você”), o filme conta, sim, com uma dupla central em estado de graça (não apenas Jessica Chastain brilha com seu repertório exuberante de técnicas interpretativas numa personagem multifacetada que além de tudo canta ao longo de todo o filme, como Andrew Garfield se revela um parceiro de cena precioso para ela) e com uma produção feita com capricho cênico do início ao fim (o filme também venceu o Oscar de Melhor Maquiagem e Cabelo, entre outras coisas, devido à inacreditável transformação do maxilar de Jessica para torna-la ainda mais parecida com a Tammy Faye da vida real), no entanto, as qualidades do filme caem drasticamente quando ele se concentra em outros pontos como o roteiro (que omite inúmeras passagens mais importantes, romantiza claramente diversos pontos do enredo, e deixa de lado personagens importantes como os filhos do casal que, na vida adulta, seguiram os passos profissionais dos pais) e a própria direção (que acompanha tudo sem maiores arroubos de genialidade ou inspiração).

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