quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Lindas e Letais


 O filme da diretora Vicky Jewson nada mais parece do que uma grande brincadeira a espelhar certa redundância comercial que contaminou o cinema comercial nos últimos anos: “Lindas e Letais” propõe uma ideia simples –tão simples, na realidade, que chega a ser quase um vislumbre –um grupo de bailarinas, devidamente paramentadas com trajes delicados de bailarinas, que se defronta (e vence!) um bando de violentos e truculentos gangsteres húngaros.

O enredo que é desenvolvido, portanto (com roteiro assinado por Kate Freund), termina sendo uma grande justificativa (ora inspirada, ora estapafúrdia) para que o público seja levado até a concretização visual desse vislumbre, adornado com muito sangue e violência como é do gosto todo particular do público ao qual este filme parece se dirigir: Aquele público que, vez ou outra, consegue converter uma produção num sucesso cult ao perceber nele características incomuns e diferenciadas de outros filmes.

A trama começa com a cinco bailarinas que haverão de protagonizar toda essa sandice levada à sério, são elas Bones (Maddie Ziegler, de “Amor Sublime Amor”, mas não confundir com a protagonista, Rachel Zegler!), que como o nome sugere é osso-duro-de-roer (!); Princess (Lana Condor, de “X-Men Apocalypse”), a típica patricinha filhinha de papai (ou, no caso, de mamãe!); a evangélica Grace (Avantika, de “Meninas Malvadas”); e as irmãs Zoe (Iris Apatow, de “Bem-Vindo Aos 40”) e Chloe, esta, surda-muda (e vivida por Millicent Simmonds, de “Um Lugar Silencioso”). Formando um quinteto auspicioso, elas são treinadas pela Sra. Davenport (Lydia Leonard), enviadas à Hungria e colocadas por ela num ônibus que as leva para uma importantíssima apresentação em Budapeste. Contudo, o tal ônibus atravessa uma floresta e, lá pelas tantas, enguiça.

Prestes a anoitecer, perdidas no meio do nada (e, em pouco tempo, debaixo de chuva) as garotas percorrem a estrada vazia até encontrarem o único casarão a vista ao longo de quilômetros –trata-se de uma espécie de bar/boate, além de recorrente ponto de encontro para mafiosos húngaros, daquela categoria perigosa e inconsequente que o cinema costuma, vez ou outra, registrar. O local é administrado por Devora Kasimer (Uma Thurman, tornando explícita a referência já bastante óbvia que o filme faz à “Kill Bill”) que já havia sido, outrora, uma bailarina, entretanto, engana-se quem achar, num primeiro momento, que esse detalhe servirá para Devora se compadecer das desamparadas meninas: Implacável, Devora conduz um negócio que segue sob o olhar nada lisonjeiro da máfia húngara e sua prioridade é conter os ímpetos violentos de Pasha Marcovic (Tamás Szabó Sipos), filho mimado e incorrigível de Lothar Marcovic (Michael Culkin, de “O Quinto Elemento”), o mais temido gangster local.

Quando Pasha mata a Sra. Davenport com um tiro na cabeça (!) – ela refutou uma tentativa grosseira de assédio da parte dele – a primeira atitude de Devora é trancar todas as portas e saídas do lugar, impedindo a fuga de testemunhas do homicídios; leia-se, as inocentes bailarinas que estavam junto de sua professora.

Contudo, as meninas logo se dão conta do perigo e logo, também, providenciam sua retaliação: Elas dão-se conta de que podem, sim, confrontar em pé de igualdade aqueles gangsteres fora de forma, e que, devido ao árduo treinamento de balé, possuem juntas uma predisposição física e uma capacidade para superar a dor muito maior que seus prepotentes adversários. Em uma cena específica, as cinco bailarinas executam a dança de “Suíte Quebra-Nozes” enquanto exterminam os mafiosos valendo-se de armas brancas em seus braços e sapatilhas!

Mescla ensandecida entre “Cisne Negro” e “Free Fire”, este “Lindas e Letais” – ou “Pretty Lethal” – não tenta ser o que não é (ou seja, um filme sério com trama e personagens levadas a sério...), em vez disso, é realizado com um empenho na construção de uma narrativa fulgurante, vibrante e vertiginosa, com uma nada sutil mensagem de empoderamento, e um convite ao público em abraça-la com o mínimo de seriedade e pretensão.

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