quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Redemoinho


 Dirigido por um ainda iniciante Denis Villeneuve (este é tão somente seu segundo longa-metragem), e vencedor do prêmio Fipreci da Mostra Panorama do Festival de Berlim do ano 2000, "Maelström" se irmana a uma tendência muito em voga no cinema canadense daquele período – a virada dos anos 1990 para a década de 2000 – na qual eram justapostos, em narrativas existencialistas, poéticas e, por vezes, desafiadoras, as angústias pessoais, as frustrações íntimas e uma certa desilusão afetiva, moral e social que acometia personagens pertencentes àquela geração, que então contava entre seus vinte e trinta e poucos anos. Filmes como os de Denys Arcand (“O Declíniodo Império Americano”, “Amor e Restos Humanos”) ou os de Atom Egoyam (“O Doce Amanhã”, “Exotica”) versavam em torno dessas peculiares inquietações.

"Maelström" é mais um desses exemplos, trazendo no cerne de sua premissa uma protagonista às voltas com as consequências esmagadoras das expectativas alheias a pesar sobre si.

Ele se inicia de forma já desconcertante ao apresentar ao expectador seu inusitado narrador, um atum (voz de Pierre Lebeau) prestes a ser fatiado em um açougue. Essa é a forma com que Villeneuve nos introduz na história de Bibiane Champagne (a encantadora Marie-Josée Croze, de “O Escafandro e A Borboleta”), uma jovem moradora de Quebec que, do alto de seus vinte e cinco anos, possui uma rede de lojas de roupas herdada por ela e por seu irmão, Philippe (Bobby Beshro). Contudo, se a situação financeira e profissional de Bibiane não é das melhores (as lojas estão na iminência de falirem devido à sua relapsa administração) a situação pessoal é ainda pior (ela ainda tenta processar os efeitos traumáticos de um aborto recente e, com isso, abusa de substâncias ilícitas).

Numa certa noite tomada de chuva, Bibiane depois de beber, sem querer atropela alguém com seu carro – um homem que atravessava a rua – e, apavorada, foge do local, para descobrir, somente no dia seguinte que sua ‘vítima’, um peixeiro norueguês, morreu.

Tomada de angústia ela chega até mesmo a tentar o suicídio arremessando seu carro nas águas de um rio, no entanto, sobrevive. Partindo do princípio de que o fato de ter sobrevivido é um sinal, Bibiane decide mudar sua vida, e então, conhece Evian (Jean-Nicolas Verreault), por quem acaba se apaixonando e que em muito ajuda ela a se aceitar. Entretanto, ela descobre que Evian é filho do homem que ela atropelou.

Dono de alguns lances de realismo fantástico na sua condução narrativa – com elementos que me remeteram à “Arizona Dream”, de Emir Kusturica – "Maelström" antecipa com primazia e brilhantismo o estilo cinematográfico notável que Villeneuve empregaria em filmes de maior repercussão como “Incêndios” (pelo qual foi indicado ao Oscar 2001 de Melhor Filme Estrangeiro, perdendo para “O Tigre e O Dragão”) e os posteriores e famosíssimos “A Chegada”, “Blade Runner 2049”, “Duna-Parte 1” e “Duna-Parte 2”.

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