terça-feira, 18 de agosto de 2026

A Pantera Nua


 Em 1979 houve uma gradual abertura no cinema popular brasileiro – a chamada pornochanchada levava filas de expectadores aos cinemas, contudo, a rígida censura do regime militar de então controlava com mão de ferro a realização nesses filmes, sobretudo, no que tange àquilo que eles tinham de maior apelo popular: Cenas de nudez e sexo.

No fim da década de 1970, entretanto, por inúmeras razões de ordem política e social, as restrições começaram a se flexibilizar e o reflexo disso foi o surgimento de filmes mais despojados, com uma ênfase ainda maior nos elementos que faziam a alegria de seu público. E claro que, com o tempo (década de 1980 adentro), essa permissividade deu espaço a produções que flertavam cada vez mais com uma escatologia que invadia o terreno da pornografia, mas, por um tempo, houveram produções que encontraram um equilíbrio tido como ideal. É perfeitamente provável que “A Pantera Nua”, de Luiz Miranda Corrêa, seja um desses casos.

Produzido pela atriz principal Rosanna Ghessa (de “Palácio dos Anjos”), “A Pantera Nua” já começa com seus créditos transcorrendo durante um ensaio sensual de Norma, a personagem dela, mostrando grande desinibição ao ser fotografada sem roupas!

Na sequência, vemos um senhor engravatado (o humorista Amândio Silva Filho), personagem que descobriremos mais a frente, tratar-se do pai de Norma. Num dia aparentemente banal em seu escritório, ele encontra seus colegas em polvorosa, e logo descobre o porquê: Todos têm em mãos uma revista masculina na qual Norma estampa as páginas completamente nua!

O pai da moça tem um chilique – na verdade, o personagem passará o filme todo tendo chiliques! – mas, a filha, despachada, não está nem aí. Ela quer encontrar um meio de adentrar a alta sociedade (intenção pela qual ela tem na própria mãe, vivida por Agnes Fontoura, uma forte apoiadora) e essa é uma das formas.

Não demora muito para uma oportunidade mais expressiva aparecer: O playboy Marcelinho, cujo pai (Rodolfo Arena, de “A Mulher Que Inventou O Amor”), dono da fortuna da família, se exaspera com a mal disfarçada inclinação homossexual do filho (!), quer porque quer vê-lo se casando com uma mulher enquanto ainda é vivo – a saúde do velho é debilitada, ainda que não o impeça de aprontar das suas com a enfermeira (!) – e, com isso, dá-lhe um ultimato: Ou arruma uma esposa ou nada de herança!

É claro que a saída de Marcelinho é um casamento de fachada, que ele logo arranja com a disponível Norma, uma vez que os dois têm, como amiga em comum, a dona da boutique (Neuza Amaral) que empresta os vestidos para Norma comparecer às badaladas festas da Sociedade Carioca.

Entre festas, passeios à praia e viagens de fim de semana, o arranjo se mantêm frágil pela pouca disposição dos envolvidos em esconder o óbvio: Marcelinho tem no presunçoso Roberto um amigo ‘muito especial’; enquanto que Norma, nas festas na mansão da família dele, não faz a menor questão de disfarçar os flertes com, pelo menos, dois dos amigos do noivo – o autodeclarado filho de fazendeiro Lincoln (Roberto Pirillo) e o criador de cavalos e conquistador compulsivo Chiquinho (Marcos Wainberg).

Em sua desinibição, Norma flerta (e, por vezes, chega aos finalmentes!) com os dois, mas, é Lincoln quem mais desperta seu interesse.

Eventualmente o iminente casamento de aparências planejado com Marcelinho chega ao fim: O pai dele termina por falecer e, após um período avaliando o inventário (quando os personagens usufruem de mais algumas oportunidades de farra, desta vez, indo visitar o Paraguai!), Marcelinho herda sem problemas sua fortuna, partindo para a Europa com Roberto.

Resta à Norma, portanto, a chance de subir na vida com Lincoln, no entanto, assim como ela, ele também se revela um golpista: A senhora com quem ele era sempre visto em festas, Verônica (Heloísa Helena), que inicialmente pensava-se ser sua tia, e depois ele diz ser sua mãe (!), é na realidade, sua amante (!?) para quem ele era praticamente um gigolô  que ela sustentava. Ironicamente, Lincoln acreditava que poderia dar o golpe do baú casando-se com Norma, que ele achava ser também de família rica.

Ambos são desmascarados numa ocasião bastante inusitada (e de coincidências forçadas em demasia) quando a boutique onde Norma se encontra acaba assaltada, e Lincoln surpreende Verônica com outro jovem amante que o põe pra correr porta afora – e sem as roupas.

A própria Norma, sequestrada pelos assaltantes, também é levada por eles sem roupas (!) e largada no meio da rua. Ambos acabam se encontrando na delegacia e, após as inevitáveis brigas e recriminações, acabam ficando juntos.

“A Pantera Nua” padece de uma direção absolutamente rudimentar e amadora da parte de Luiz de Miranda Corrêa, cuja execução de cenas soa até experimental tão evidente fica sua pouca compreensão da narrativa (basta compará-lo com outras obras, algumas brasileiras mesmo, que saíram naquele mesmo ano para verificar o quanto é datado) e é terrivelmente relapso no fato de que sua  prioridade é mais incorporar todos os traquejos das pornochanchadas de então e menos ser um filme competente e coerente de fato. Não há, assim sendo, razão para avaliar a amoralidade gritante nas atitudes e motivações de seus personagens (até porque são construídos com uma superficialidade flagrante) e nem comentar o retrato caricatural da juventude de classe média alta carioca perpetrado aqui (despido completamente se sentido ou de propósito).

O que permanece válido é a presença exuberante de sua atriz e produtora Rosanna Ghessa, nem tanto uma intérprete competente com suas caras e bocas, mas, transbordando beleza, sensualidade e uma desinibição absurda para as cenas de nudez que a obra entrega em profusão.

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