Em 1979 houve uma gradual abertura no cinema popular brasileiro – a chamada pornochanchada levava filas de expectadores aos cinemas, contudo, a rígida censura do regime militar de então controlava com mão de ferro a realização nesses filmes, sobretudo, no que tange àquilo que eles tinham de maior apelo popular: Cenas de nudez e sexo.
No fim da década de 1970, entretanto, por
inúmeras razões de ordem política e social, as restrições começaram a se
flexibilizar e o reflexo disso foi o surgimento de filmes mais despojados, com
uma ênfase ainda maior nos elementos que faziam a alegria de seu público. E
claro que, com o tempo (década de 1980 adentro), essa permissividade deu espaço
a produções que flertavam cada vez mais com uma escatologia que invadia o
terreno da pornografia, mas, por um tempo, houveram produções que encontraram
um equilíbrio tido como ideal. É perfeitamente provável que “A Pantera Nua”, de
Luiz Miranda Corrêa, seja um desses casos.
Produzido pela atriz principal Rosanna Ghessa (de
“Palácio dos Anjos”), “A Pantera Nua” já começa com seus créditos transcorrendo
durante um ensaio sensual de Norma, a personagem dela, mostrando grande
desinibição ao ser fotografada sem roupas!
Na sequência, vemos um senhor engravatado (o
humorista Amândio Silva Filho), personagem que descobriremos mais a frente,
tratar-se do pai de Norma. Num dia aparentemente banal em seu escritório, ele
encontra seus colegas em polvorosa, e logo descobre o porquê: Todos têm em mãos
uma revista masculina na qual Norma estampa as páginas completamente nua!
O pai da moça tem um chilique – na verdade, o
personagem passará o filme todo tendo chiliques! – mas, a filha, despachada,
não está nem aí. Ela quer encontrar um meio de adentrar a alta sociedade
(intenção pela qual ela tem na própria mãe, vivida por Agnes Fontoura, uma
forte apoiadora) e essa é uma das formas.
Não demora muito para uma oportunidade mais
expressiva aparecer: O playboy Marcelinho, cujo pai (Rodolfo Arena, de “A
Mulher Que Inventou O Amor”), dono da fortuna da família, se exaspera com a mal
disfarçada inclinação homossexual do filho (!), quer porque quer vê-lo se
casando com uma mulher enquanto ainda é vivo – a saúde do velho é debilitada,
ainda que não o impeça de aprontar das suas com a enfermeira (!) – e, com isso,
dá-lhe um ultimato: Ou arruma uma esposa ou nada de herança!
É claro que a saída de Marcelinho é um
casamento de fachada, que ele logo arranja com a disponível Norma, uma vez que
os dois têm, como amiga em comum, a dona da boutique (Neuza Amaral) que
empresta os vestidos para Norma comparecer às badaladas festas da Sociedade
Carioca.
Entre festas, passeios à praia e viagens de fim
de semana, o arranjo se mantêm frágil pela pouca disposição dos envolvidos em
esconder o óbvio: Marcelinho tem no presunçoso Roberto um amigo ‘muito
especial’; enquanto que Norma, nas festas na mansão da família dele, não faz a
menor questão de disfarçar os flertes com, pelo menos, dois dos amigos do noivo
– o autodeclarado filho de fazendeiro Lincoln (Roberto Pirillo) e o criador de
cavalos e conquistador compulsivo Chiquinho (Marcos Wainberg).
Em sua desinibição, Norma flerta (e, por vezes,
chega aos finalmentes!) com os dois, mas, é Lincoln quem mais desperta seu
interesse.
Eventualmente o iminente casamento de aparências
planejado com Marcelinho chega ao fim: O pai dele termina por falecer e, após
um período avaliando o inventário (quando os personagens usufruem de mais
algumas oportunidades de farra, desta vez, indo visitar o Paraguai!),
Marcelinho herda sem problemas sua fortuna, partindo para a Europa com Roberto.
Resta à Norma, portanto, a chance de subir na
vida com Lincoln, no entanto, assim como ela, ele também se revela um golpista:
A senhora com quem ele era sempre visto em festas, Verônica (Heloísa Helena), que
inicialmente pensava-se ser sua tia, e depois ele diz ser sua mãe (!), é na
realidade, sua amante (!?) para quem ele era praticamente um gigolô que ela sustentava. Ironicamente, Lincoln
acreditava que poderia dar o golpe do baú casando-se com Norma, que ele achava
ser também de família rica.
Ambos são desmascarados numa ocasião bastante
inusitada (e de coincidências forçadas em demasia) quando a boutique onde Norma
se encontra acaba assaltada, e Lincoln surpreende Verônica com outro jovem
amante que o põe pra correr porta afora – e sem as roupas.
A própria Norma, sequestrada pelos assaltantes,
também é levada por eles sem roupas (!) e largada no meio da rua. Ambos acabam
se encontrando na delegacia e, após as inevitáveis brigas e recriminações,
acabam ficando juntos.
“A Pantera Nua” padece de uma direção
absolutamente rudimentar e amadora da parte de Luiz de Miranda Corrêa, cuja
execução de cenas soa até experimental tão evidente fica sua pouca compreensão
da narrativa (basta compará-lo com outras obras, algumas brasileiras mesmo, que
saíram naquele mesmo ano para verificar o quanto é datado) e é terrivelmente
relapso no fato de que sua prioridade é
mais incorporar todos os traquejos das pornochanchadas de então e menos ser um
filme competente e coerente de fato. Não há, assim sendo, razão para avaliar a
amoralidade gritante nas atitudes e motivações de seus personagens (até porque
são construídos com uma superficialidade flagrante) e nem comentar o retrato
caricatural da juventude de classe média alta carioca perpetrado aqui (despido
completamente se sentido ou de propósito).

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