terça-feira, 28 de junho de 2016

O Tigre e O Dragão

O wuxia é um sub-gênero de filmes chineses que envolvem artes marciais muitas vezes ambientados num período histórico ancestral, neles os atores realizam cenas de lutas coreografadas que desafiam a lei da gravidade.
Ang Lee sempre foi um diretor de filmes dramáticos, de orientação quase neo-realista, voltados para a importância de uma boa interpretação.
Parecia improvável a união de um diretor tão austero e voltado para os meandros íntimos dos personagens e de suas histórias como Ang Lee, com um gênero tão popularesco quanto o wuxia.
Essa improbabilidade respondeu como uma das maiores e mais saborosas surpresas no ano 2000, quando foi lançado “O Tigre e O Dragão”. Esse projeto deu a Ang Lee a oportunidade de voltar à infância e realizar um wuxia, o tipo de filme que adorava quando moleque.
O resultado desse reencontro com o próprio passado cinéfilo é um épico apaixonado, onde cada cena é tratada como uma pintura, um cuidado todo especial, onde é mais possível e perceptível ver o quanto o cinema é algo mágico.
É por meio dessa magia que Lee nos transporta para a China Antiga, onde o nobre e habilidoso guerreiro Li Mu Bai (o magnífico Chow Yun Fat) deseja repousar após uma exaustiva vida de lutas.
Para tanto, ele confia à sua companheira Shu Lin (Michelle Yeoh), por quem secretamente é apaixonado, sua lendária espada Destino Verde, capaz de tornar imbatível qualquer guerreiro que a empunhar, para que seja entregue a um velho amigo.
E por aí se vê, então, que “O Tigre e O Dragão” já não está tão longe da filmografia de Ang Lee como incialmente se imaginava: Lá estão os personagens, plenos da necessidade de viver, tolhidos pelas circunstâncias geradas pelo tempo e local ao qual pertencem.
Lá está também o gatilho emocional que dá margem para a quebra dessa tradição e para a chance de realizar seus sonhos, ao mesmo tempo em que entrelaça todos numa única e dinâmica narrativa, como veremos mais à frente, já que, um pouco mais tarde, a espada Destino Verde é roubada pela jovem Jen Long (a linda e expressiva Zhag ZiYi, uma das melhores coisas do filme), bela e contestadora princesa, cuja má influência de Raposa Verde (velha inimiga de Li Mu Bai) a transforma numa espécie de pária.
Dessa forma, temos assim uma transfiguração dos filmes de artes marciais (ou do conceito que tínhamos do que seriam filmes de artes marciais) onde os personagens fortes e interessantes (a despeito das verdadeiramente sensacionais cenas de ação, materializadas por meio da vasta experiência do coreógrafo Yuen Wo Ping) são o que de fato impulsiona a narrativa deste filmaço, onde Ang Lee leva glamour e profundidade dramática nunca antes vistas no gênero.

Foi graças à esta inspirada incursão de Ang Lee (um cineasta respeitado e prestigiado) que outros diretores chineses, normalmente adeptos de narrativas mais densas e humanas, aventuraram-se pelas artes marciais produzindo, nas décadas que se seguiriam, obras inesquecíveis como “Herói”, “O Clã das Adagas Voadoras” (ambos de Zhang Ymou), e “O Grande Mestre” (de Won Kar Wai).

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