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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Godzilla II - O Rei dos Monstros


 Último capítulo que faltava ser assistido do assim chamado ‘Monsterverse’ –eu e minha mania de assistir filmes sequenciados fora de ordem... –este “Godzilla II” se ambienta após “Godzilla” (do qual é continuação direta) e “Kong-AIlha da Caveira”, e pouco antes de “GodzillaVs Kong”.

O universo compartilhado de filmes estrelados por monstros gigantes icônicos do cinema terminou funcionando com mais eficiência do que o Universo da DC, no qual os Estúdios da Warner depositavam muito mais expectativa. Grande parte disso se deve, ironicamente, pelo pouco caso que o próprio estúdio fez dessa série de filmes –o que proporcionou liberdade criativa aos realizadores.

Certamente, a simplicidade da fórmula também ajudou muito: Amparadas assumidamente na pirotecnia, nenhuma dessas produções ocultava o fato de que os personagens humanos serviam como um tênue e tímido suporte às sequências de destruição promovidas pelos embates dos monstros. A trama aqui soa como uma obrigação burocrática. Um pretexto que os próprios realizadores reconhecem como sendo enfadonho e necessário; e, para tanto, transformam tais passagens em momentos básicos, fugazes e simplórios. Nem mesmo a presença de um elenco estelar ameniza esse descaso.

Os protagonistas humanos de “Godzilla II” são a garota Maddison (Millie Bobby Brown, da série “Stranger Things”), seus pais, a Dra. Emma Russell (a maravilhosa Vera Farmiga) e o Dr. Mark Russell (Kyle Chandler, de “Super 8”) e os cientistas ao redor deles, movidos por ocasionais e conflitantes motivações, interpretados por Charles Dance, Ken Watanabe, Sally Hawkins e Zhang ZiYi. São os nomes mais proeminentes que cobrem o núcleo humano e se encarregam dos diálogos só para que os produtores possam argumentar que seu filme tem sim uma história, contudo, a razão de ser de “Godzilla II” são mesmo os monstros gigantescos –denominados Titans –materializados em cena graças aos efeitos visuais de última geração.

Na comparação com os demais filmes do ‘Monsterverse’, “Godzilla II” traz a reunião mais numerosa de monstros em cena: Além do personagem principal, Godzilla –cujo surgimento no filme de 2014 despertou o interesse de diversos cientistas mundiais, inclusive aqueles a frente do Programa Monarch –aparecem também os míticos Mothra (uma mariposa gigantesca, tal como Godzilla, oriunda dos mesmos filmes japoneses dos estúdios Toho), Rodan (um pterodáctilo gigante constituído de fogo), Ghidorah (o grande vilão, uma espécie de dragão de três cabeças) e muitos outros.

Isso por conta de uma constatação megalomaníaca (e, no fim das contas, um tanto idiota) de alguns cientistas de que a raça humana é uma infecção no planeta, e os monstros representam glóbulos brancos criados pela natureza para combater esse “vírus”. Assim sendo, os monstros –ou Titans –seriam uma correção natural para as catástrofes climáticas acarretadas pela superpopulação mundial. Entretanto, o volume exorbitante de Titans que acabam despertando excede de tal forma o previsto que, liderados pelo mortífero Ghidorah, podem fazer com que a humanidade entre em extinção.

Como é inevitável, esse argumento coloca o poderoso Godzilla, uma vez mais, como a última esperança para que os seres humanos sejam salvos.

Haviam pequenos e pertinentes detalhes em cada um dos filmes realizados dentro do ‘Monsterverse’, a maioria deles, reflexos do manejo eventualmente inspirados de seus diretores: No primeiro “Godzilla”, a percepção de espetáculo a um só tempo intimista e épico de Gareth Edwards conferia-lhe diferenciação; em “Kong” o diretor Jordan Vogt-Roberts oferece um senso singular de cinema, enfatizando sua paixão por um sem-número de produções dos anos 1970 (onde a trama era ambientada); e no posterior “Godzilla Vs Kong” (para muitos, o melhor exemplar de todos), o diretor Adam Wingard uniu com propriedade e esperteza todas essas e outras facetas mais para construir um espetáculo feito de todos os elementos funcionais dos filmes anteriores. Aqui, neste segundo “Godzilla”, a narrativa perspicaz de ritmo e clímax do diretor Michael Dougherty (também ele vindo das fileiras do gênero terror como muitos dos outros) até compreende os inúmeros pontos positivos da produção e corre para valorizá-los, no entanto, a grandiosidade dos embates não chega a oferecer algo novo, os efeitos visuais não contribuem com qualquer sentimento de ineditismo ao que os filmes anteriores já trouxeram, e sua trama –que ousa apenas no detalhe de reunir o maior coletivo de monstros gigantes até então –se estende em debates e considerações verborrágicos que apenas preenchem tempo de filme.

Nunca aquela máxima de que a história apenas justifica a ação foi tão bem ilustrada quanto em “Godzilla II-O Rei dos Monstros”.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Três Gerações, Um Destino

Uma das mais fulgurantes estrelas da China desde sua revelação radiante em “O Tigre e O Dragão”, a atriz Zhang ZiYi ganha aqui um projeto adequado até demais ao seu estrelato: Um drama pretensamente emotivo que abraça três gerações de mulheres em Xangai, no qual ela interpreta todas as protagonistas, saltando de uma personagem para a outra a medida que as tramas se sucedem com a devida passagem do tempo.
Não somente ela: A outrora belíssima Joan Chen (de “O Último Imperador”) também o faz interpretando sua mãe.
Assim começamos na década de 1930, quando a primeira personagem de Zhang ZiYi, a sonhadora Mo, vive à turras com sua mãe (Joan) exageradamente implicante devido às orientações de uma educação que, com os novos tempos, começava a ficar antiquada.
E nem tampouco Mo era o tipo de garota que se adequava no papel de jovem submissa: Ela vai atrás de seu sonho de virar atriz, o que não tarda a conseguir, em parte por sua beleza delicada –enaltecida constantemente pelos enquadramentos, e pelos efeitos de cabelo e maquiagem.
Prestes a conquistar o sucesso, porém, Mo sofre um golpe inesperado do destino: Ao mesmo tempo em que engravida do produtor que lhe abriu as portas (e que logo deu um desfalque no estúdio fugindo com o dinheiro), ela testemunha as primeiras e violentas revoluções da China (provavelmente a Guerra Sino-Japonesa), tornando inexistente a fama que obteve.
E embora esse pano de fundo histórico seja sempre mantido no filme, ele nunca é aprofundado (jamais são definidos datas e acontecimentos com exatidão, por exemplo), deixando a indigesta impressão que a trama se ambienta neles mais por modismo folhetinesco do que por um objetivo narrativo válido de fato.
Mo dá à luz a uma menina que passa a chamar de Lilli após voltar a morar, sem muitas alternativas, com a mãe.
Os anos se passam e, cerca de duas décadas depois, é Joan Chen quem interpreta Mo e Zhang ZiYi quem agora vive Lilli.
No fim dos anos 1950 , início dos anos 60, a juventude de Xangai testemunha a força ideológica do governo vermelho de Mao –e vem a ser numa dessas reuniões partidárias que Lilli conhece Zou Jie (Lu Yi), rapaz por quem vem a se apaixonar.
Diferente de Mo, porém, Lilli é uma jovem rigorosa, de disposição severa –é bastante interessante, portanto, observar Zhang ZiYi e Joan Chen alternarem essas personalidades em suas atuações.
Ainda que se amem, Lilli e Zou não podem ter filhos. Eles decidem, com isso, adotar uma criança o que os leva a se tornarem pais da pequena Flor.
Entretanto, a medida que cresce a relação genuinamente paternal entre Zou e Flor começa a despertar certa neurose em Lilli, o que a leva a confrontar Zou com recriminações infundadas, dizendo que irá denunciá-lo ao partido.
E, na Xangai de então, tal alegação é alarmante o suficiente para que ele, apavorado, cometa o suicídio. Lilli, mais tarde, devorada pela culpa, desaparece no mundo.
Treze anos depois, agora no fim da década de 1970, Flor está por volta de seus vinte e tantos anos (e vivida, de novo, por Zhang ZiYi), criada com carinho pela avó Mo (ainda Joan Chen) quando conhece Xia Du (Liu Ye), um jovem universitário que irá cursar longe dela, colocando à prova o seu amor.
A despeito dessa pretensão quase épica em abranger não somente a vida das três gerações de mulheres, como também aparentemente, os acontecimentos mais importantes da China (cujos desdobramentos mais minuciosos e controversos foram completamente deletados da narrativa num ato discutível e indulgente), “Três Gerações, Um Destino” termina sendo apenas um veículo visualmente espalhafatoso para a talentosa e bela Zhang ZiYi, falho até mesmo nesse intento: Tanto ela quando Joan Chen (atrizes comprovadamente capazes) estão tenebrosamente mal dirigidas por Hou Yong, embaladas numa paleta visual excessivamente limpa e irreal para um filme de abordagem histórica, e numa narrativa tão transparente em seus recursos novelescos que chega realmente a lembrar um folhetim mexicano ou uma novela global.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

The Cloverfield Paradox

Terceiro exemplar de produções intrigantes ambientados no que parece ser um mesmo universo –e cujos outros dois títulos que o compõem são “Cloverfield-Monstro” e “Rua Cloverfield, 10” –este novo “The Cloverfield Paradox” concebido e anunciado como sendo uma obra de cinema, tal qual os outros dois, mas terminou sendo negociado para a plataforma de stremming do Netflix, sem sequer chegar às telas de cinema.
Talvez não tenha sido o melhor negocio para o produtor J.J. Abrahams que viu este filme ser considerado pelo publico como o mais fraco dos três, embora essa seja uma afirmação bastante injusta: Os expectadores perderam a oportunidade que conferir o filme no esplendor da tela grande e os produtores –impelidos pela inspiração de lançar seu trabalho com ineditismo –perderam a chance de calcular o desempenho que seu projeto teria nas bilheterias; que foram bastante satisfatórias no caso dos outros dois.
Transcorrendo, ao que tudo indica, paralelamente aos eventos do primeiro filme, está a história de uma equipe de uma Estação Espacial Internacional orbitando o planeta Terra às voltas com uma experiência de suma importância para o panorama sócio-político mundial: O teste de um acelerador de partículas que pode prover energia sustentável para todo o planeta.
A compor o grupo envolvido em tal empreitada está a protagonista, a inglesa Ava (Gugu Mbatha-Raw, de “Nos Bastidores da Fama” e “Belle”), o comandante da missão e representante americano Kiel (David Oyelowo, de “Selma”), o alemão Schmidt (Daniel Bruhl, de “Capitão América-Guerra Civil” e “Adeus, Lênin”), a chinesa Tam (Zhang Zi Yi, estrela de “O Tigre e O Dragão”, “O Clã das Adagas Voadoras” e “Memórias de Uma Gueixa”), o irlandês Mundy (Chris O’ Dowd, de “Missão Madrinha de Casamento”), o brasileiro Acosta, apelidado Monk (John Ortiz, de “Velozes e Furiosos 4” e “OLado Bom da Vida”) e o russo Volki (Aksel Hennie, de “Perdido Em Marte”).
São eles quem realizam a pioneira experiência ao acionar o acelerador de partículas, entretanto –confirmando os temores comentados numa entrevista por um tal de Mark Stambler (Donal Logue), autor de uma teoria chamada “Paradoxo de Cloverfield” –o que eles desencadeiam ao testar a energia acarreta conseqüências imprevisíveis: A estação espacial simplesmente some da orbita da Terra sendo teleportada para outro ponto do universo (!).
Mais: Aos poucos, a equipe descobre que a mudança pode não ter sido somente em termos espaciais. Ao encontrar uma nova (e para eles completamente desconhecida!) integrante de sua própria equipe, a engenheira Jensen (Elizabeth Debicki, de “Guardiões da Galáxia Vol. 2” e “O Agente da U.N.C.L.E.”), materializada dentro de um dos painéis (!) –com alguns fios condutores atravessando dolorosamente seu corpo (!) –eles começam a concluir que podem ter sido transportados para uma espécie de realidade alternativa (!), e que ao fazer isso, afetaram o bem-estar de seu mundo.
O filme se concentra nos desdobramentos ocorridos no espaço intercalando-os com breves relances de algo catastrófico ocorrendo na Terra (e que certamente corresponde aos acontecimentos do primeiro “Cloverfield”) testemunhados pelo perplexo Michael (Roger Davies), marido de Ava.
O trabalho que o diretor Julius Onah realiza aqui, embora inferior ao ótimo e enxuto resultado de Dan Trachteberg em “Rua Cloverfield, 10”, é eficaz, fluido e visualmente interessante, lembrando um pouco o recente “Vida”, de Daniel Spinoza, e aproveitando inúmeros aspectos e elementos da premissa do obscuro e hoje muito desconhecido “Projeto Philadelphia”, dos anos 1980.
Tudo isso faz deste trabalho, acima de tudo, um exemplo do tino comercial e da percepção de espetáculo e narrativa de seu produtor, J.J. Abrahams, que reaproveita conceitos de outros filmes para remodelar uma produção destinada ao publico atual, cumprindo seu papel de jogar ainda mais ingredientes na receita um tanto curiosa e cada vez mais desconcertante desse seu intrigante universo “Cloverfield” –dele já existem, pelo menos, dois novos filmes confirmados!

sábado, 10 de junho de 2017

Herói

O monarca de uma dinastia secular da China recebe em seus reservados aposentos um certo "guerreiro sem nome" (Jet Li) que afirma ter ele próprio eliminado um casal de arrojados espadachins opositores do império, por cuja cabeça uma grande recompensa é oferecida.
Assim inicia-se uma das mais arrojadas sagas sobre honra, verdades, mentiras e o papel dúbio da realidade travestida de ficção (e da ficção travestida de realidade) que o cinema chinês já concebeu.
A história folclórica sobre o guerreiro que confrontou a astúcia do imperador Qin (Chen Daoming) com suas histórias cheias de lacunas a serem preenchidas já havia ganho as telas em outras ocasiões –inclusive no épico “O Imperador e O Assassino”, com Gong Li –mas, sua materialização mais surpreendente, em termos cinematográficos, é neste filme que representa, para o diretor Zhang Ymou, um ponto de virada na carreira: Seguindo os passos de Ang Lee, que experimentou aclamação mundial ao empregar sua experiência em drama num épico de artes marciais, com "O Tigre e O Dragão”.
Vislumbrando o mesmo caminho, Ymou que vinha de dois magníficos trabalhos de tintas intimistas e neo-realistas, “O Caminho Para Casa” e “Nenhum A Menos”, tratou de moldar sua própria visão pessoal de wuxia (como “O Tigre e O Dragão” era a visão pessoal de wuxia de Ang Lee), beneficiando-se inclusive do imensurável êxito daquela produção.
Um bom exemplo é que o astro Jet Li, inicialmente convidado por Ang Lee para seu filme recusou a proposta, mas depois do sucesso acachapante, aceitou de pronto o segundo convite para um filme destes mesmos moldes que lhe apareceu; e que veio a ser justamente para interpretar o “guerreiro sem nome” no filme de Ymou.
É ele quem senta-se na presença do imperador para narrar sua proeza, tendo eliminado os ferrenhos opositores à coroa, o casal Espada Quebrada e Neve Voadora (Tony Leung e Maggie Cheung, o mesmo casal protagonista de “Amor À Flor da Pele “, de Won Kar Wai, o quê evidencia o altíssimo luxo nas escolhas feitas por Zhang Ymou).
Contudo, enquanto acompanha o relato, o próprio rei, esperto, detecta contradições, o quê faz com que novas narrativas acabem se descortinando.
O “guerreiro sem nome” muda seu relato a medida que decide revelar os acontecimentos tal e qual teriam, de fato, acontecido, e o filme de Ymou assim se converte numa esplêndida variação do clássico “Rashomon”, do mestre Akira Kurosawa. Com o adendo do uso magnífico da cor: Conforme os relatos de “sem nome” se sucedem, e diferentes versões do mesmo acontecimento são narradas, as cores da encenação vão se alternando, indicativas do sentimento subliminar predominante –a austeridade do azul; a paixão e inconseqüência do vermelho; a consciência e a responsabilidade do verde; a serenidade do branco.
Ao fim, personagens e expectadores descobrem então que “Herói” é menos uma história sobre guerreiros e seus embates e mais sobre as armadilhas ambíguas da narrativa e, acima de tudo, sobre a prioridade maior e conciliadora da unificação.
Ang Lee certamente elevou vertiginosamente o nível dos filmes de artes marciais com "O Tigre e O Dragão" e, ao lograr feito parecido, Zhang Ymou pode não ter obtido, com este filme, uma obra-prima de igual excelência (pouco depois ele próprio obteve tal consagração com "Clã das Adagas Voadoras"), mas pelo menos orquestrou este épico político e romântico, notável por sua beleza visual e sua narrativa multifacetada a transformar, com seu estilo festivo e exuberante, as imbricações da ideologia em um acontecimento.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Memórias de Uma Gueixa

Após sua meteórica consagração (quando o musical “Chicago”, sua estréia no cinema, levou o Oscar de Melhor Filme em 2002), o diretor Rob Marshall viu sua estrela subir a ponto de herdar um projeto, antes acarinhado pelo próprio Steven Spielberg (que terminou assumindo a função de produtor): A Adaptação do best-seller “Memórias de Uma Gueixa”.
Curiosamente, um dos grandes méritos deste filme, a sua trilha sonora, é justamente de um grande colaborador de Spielberg, o veterano John Williams.
Considerada uma obra literária de difícil adaptação, o livro ganhou de Marshall uma encenação certamente primorosa, cuja concepção pictória resulta impressionante (não à toa, os três Oscars conquistados –fotografia, figurino e direção de arte –dizem respeito aos seus quesitos visuais).
Mas, não são raras as vezes em que Rob Marshall parece se esquecer que todo esse requinte é uma mera moldura para aquilo que, de fato, deveria funcionar: A dramaturgia.
Conseqüentemente, sua direção escorrega em inúmeros momentos, deixando entrever uma falta de profundidade brutal no tratamento para com a história e os personagens.
Isso tudo torna até redundante o fato de que a escalação de atrizes chinesas (a protagonista Zhang Zi Yi, a maravilhosa Gong Li e a conhecida Michelle Yeoh) para papéis japoneses chegou a gerar uma tola polêmica.
Nos anos 1920, garota japonesa filha de pescadores (a sempre competente Zhang Zi Yi) é levada para a cidade grande onde deve aprender a ser uma gueixa, e dominar a arte de fascinar os homens. Sua ambição é particularmente motivada pela disputa com outra gueixa, já famosa e estabelecida (Gong Li, quase sempre roubando as cenas em que aparece), e pela paixão secreta que nutre por um aristocrata (o ótimo Ken Watanabe).
Essa condução da história soa involuntariamente fantasiosa, aparentando ser não a intenção da direção, mas uma conseqüência da incompreensão de muitas das facetas do filme.
Não somente a adaptação em si é realizada de forma rasteira (para se ter uma idéia, o personagem de Watanabe, ou seja, o interesse romântico da protagonista durante as décadas em que a trama se passa, jamais ganha sequer um nome pelo qual ser chamado, sendo sempre referido como “Presidente”...), como também –o quê é ainda mais lamentável –o filme peca pela forma superficial com que aborda aspectos do livro e da cultura japonesa, especialmente no retrato que faz das gueixas, beirando uma relação com a prostituição.
O drama se dispersa assim, em constantes lampejos de imprecisão.
Em sua imponência cinematográfica, o trabalho de Rob Marshall encontra sua força mesmo no arrojado cuidado visual que vai desde o requinte dos figurinos e cenários (o set de filmagem construído para simular a orgânica e complexa estrutura da favela onde a protagonista vive é um trabalho cenográfico de maior amplitude do que o set de “Gladiador”) até o esplêndido tratamento de cores executado pela direção de fotografia.
Um belíssimo quadro no qual o objeto retratado importa menos ao artista do que as tintas que ele empregou.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O Grande Mestre

O cinema chinês possui dois atores chamados Tony Leung.
Um deles, é Tony Leung Ka Fai, de filmes como “Eleição-O Submundo do Poder”, de Johnnie To, e “O Trem de Zhou Yo”, com Gong Li.
O outro, é Tony Leung Chiu Wai, mais famoso e bem  mais talentoso, de obras como “Amor À Flor da Pele”, de Wong Kar-Wai, “Herói”, de Zhang Ymou e este “O Grande Mestre”, também de Kar-Wai.
Aliás, foi o próprio Kar-Wai quem promoveu o encontro dos dois num mesmo elenco, em seu rebuscado épico de artes marciais "Cinzas do Passado".
É o segundo Tony Leung quem interpreta, com sua habitual maestria e brilho, o lendário mestre das artes marciais Ip Man, treinador do próprio Bruce Lee, e que serviu de inspiração para inúmeros filmes sobre sua vida. Kar-Wai se mune desse magnífico protagonista, ladeado de um elenco igualmente sensacional (que iclui também a estrela Zhang Zi Yi, que fez par com Leung em “2046-Os Segredos do Amor”), e conta com o arrojo do coreógrafo de lutas Yuen Wo Ping (o homem por trás das proezas de “O Tigre e O Dragão”, de Ang Lee, “Matrix”, dos Irmãos Wachowski, e “Herói”, de Zhang Ymou), para dar sua própria e absolutamente pessoal versão dessa figura tão famosa na China.
Se fôssemos comparar os grandes cineastas atuais da China com, por exemplo, os notáveis jovens cineastas que promoveram uma mudança no cinema norte-americano na década de 1970, Ang Lee, provavelmente, seria Steven Spielberg, enquanto Zhang Ymou seria Francis Ford Coppola. Já, Wong Kar-Wai seria Brian De Palma –um artesão competente, mestre na narrativa, cuja própria vaidade se reflete em seus trabalhos fazendo muitas vezes o estilo se sobrepor à essência.
Ele continua o mesmo em “O Grande Mestre” e essa irredutível postura formal compõe cenas de um deslumbre quase opressor em seu minimalismo de detalhes. Ainda que as cenas de lutas estejam lá, encenadas com uma precisão que pode surpreender expectadores acostumados apenas aos filmes de ação americanos, o roteiro se debruça sobre infinitas e complexas minúcias sociais e politicas do período, como será perceptível mais à frente.
Em meados dos anos 1930, a perícia do prominente Ip Man (Leung) chama a atenção de muitos mestres marciais da província de Fonshan, no sul da China, que insistem a ser ele o representante do sul numa espécie de duelo amistoso contra um mestre do norte.
Após esse embate de natureza afavelmente política, o nome de Ip Man se torna famoso, e ele, alvo do inesperado interesse da jovem Gong Er (Zhang Zi Yi), única filha do mestre que o desafiou.
Mais tarde, eclode a Segunda Guerra Mundial, e a China se vê aos poucos dominada pelos japoneses, na década de 1940 e 50, o quê fragmenta gradativamente a narrativa: Ip Man é quase deixado de lado, quando Kar-Wai se aprofunda nos dilemas e conflitos de Gong Er, e sua longeva disputa com o discípulo que traiu seu pai; e na trama paralela de um agente dissidente chinês conhecido como ‘Navalha’, obrigado a se refugiar em Hong Kong.
Wong Kar-Wai faz dessa forma um belo, porém exaustivo compêndio da história da China e dos rumos tortuosos tomados, durante aquele período, por suas mais importantes escolas de artes marciais. Perto do fim fica bastante clara a enorme influência que a obra-prima de Sergio Leone, “Era Uma Vez Na América”, teve sobre este trabalho: São inúmeras cenas de forte natureza referencial –algumas inclusive no uso da trilha sonora que lembra muito a partitura de Ennio Morriconne –as escolhas visuais, as opções estéticas perceptíveis na cenografia, e a própria decisão de torna esta uma abordagem mais ampla que vai muito além de seu protagonista. Tudo isso lembra bastante o épico de Leone.
Um esforço cinematográfico estóico, no qual Kar-Wai buscou um meio de unir essa referência à um dos grandes filmes do cinema, o seu próprio olhar, sempre passional e dilacerante, sobre as escolhas da vida de seus personagens, e a intenção de honrar uma das grandes figuras míticas de seu país.

sábado, 19 de novembro de 2016

2046 - Os Segredos do Amor

Quem conhece a filmografia do talentoso Wong Kar-Wai sabe que ele se dedicou, em inúmeros trabalhos a tentar ilustrar as muitas e dolorosas facetas do amor, esse sentimento que ora define, ora transfigura o ser humano.
O amor foi o tema de Kar-Wai em um de seus melhores trabalhos, “Amor À Flor da Pele” (do qual este “2046” pode ser considerado uma continuação). O amor, aliás, surge como impulso até mesmo na biografia de Ypman, “O Grande Mestre”, um trabalho que, em teoria, levaria Kar-Wai a abordar outros assuntos, por razões práticas.
Mas, falemos então desta obra aqui: O sempre magnífico Tony Leung interpreta um escritor (sim, o mesmo de “Amor À Flor da Pele”), cuja frustração amorosa –certamente, a ocorrida no filme anterior –o leva a refugiar-se num hotel barato, onde ele  busca o quarto de número 2046 (e, também isso é um fato que podemos conferir acontecendo naquele filme!), que lhe inspira lembranças agridoces: Foi lá que hospedou-se uma mulher que ele conheceu. O quarto, contudo, se encontra indisponível (a tal mulher cometeu, dentro dele, suicídio), e ele tem de contentar-se em ocupar o quarto vizinho, o 2047.
Uma vez instalado lá, outras mulheres parecem orbitar sua vida e movimentar sua condição amorosa, enquanto busca escrever seu livro, também ele de nome 2046 (!).
Logo, surge a mulher interpretada por Gong Li (a mesma personagem usada por Kar-Wai em seu curta-metragem “The Hand”, que compunha a coletânea “Eros”), jogadora profissional e perita em esconder as emoções. Fascinado por ela, ele tenta em vão uma aproximação, mas tudo o que faz é disfarçar casualidade de amor
Outra mulher vem a ser a nova inquilina do 2046, interpretada por Zhang ZiYi, com quem ele logo estabelece uma afinidade física sob a condição de que mantenha-se um desligamento emocional. Mas ambos acabarão por quebrar essa promessa.
Juntos, eles disfarçam o amor de casualidade.
Assim, o filme de Kar-Wai vai avançando, de maneira episódica, talvez a única forma de harmonizar todos os elementos que ele almejou mesclar aqui: “2046” nasceu de uma série de projetos que ele foi incapaz de concluir, ora por falta de financiamento, ora por uma súbita interferência criativa (seja ela externa ou interna). Ele queria fazer uma espécie de continuação de “Amor À Flor da Pele” –o quê este filme de certa maneira é, embora deixe essa característica logo de lado e nem mesmo tenha um encaixe cronológico satisfatório com aquele trabalho –assim como também uma ficção científica carregada de referências e de suas habituais inquietações; e essa faceta surge pouco depois que a personagem de Zhag ZiYi sai de cena, e a narrativa se concentra no livro que, afinal de contas, ele estava escrevendo naquele quarto de hotel.
No livro, 2046 é um ano, para o qual um trem futurista, capaz de se locomover não no espaço, mas no tempo, é transportado. Dentro dele, uma andróide sintética desperta para emoções que, supunha-se, eram exclusivamente humanas, enquanto dois jovens revolucionários buscam fugir de sua sina, numa trama tão confusa quanto fragmentada, fruto certamente da interrupção do projeto e seu reaproveitamento enigmático feito por Kar-Wai.
Indo e vindo entre linhas narrativas que se confundem, se fundem e se estilhaçam, o diretor concebe um trabalho fragmentado, no qual as emoções dilacerantes que compõem o grande cerne de sua obra representam o único fator constante.
“2046” se encerra deixando o expectador só e reflexivo, mas com uma experiência sensorial de tal forma dolorosa e fascinante que realmente deve se aproximar da noção muito particular que Wong Kar-Wai faz do amor.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Inimigos do Império

Menos conhecido aqui no Ocidente do que outros de seus pares (leia-se, Ang Lee, Zhang Ymou e Chen Kaige), o diretor Feng Xaogang permaneceu bem mais adepto das tramas rocambolescas do que das acrobacias que desafiam a gravidade e as seqüências de luta que impregnaram muitas das realizações de seus conterrâneos depois que “O Tigre e O Dragão”, de Lee, virou um fenômeno. Tal postura valeu a ele a alcunha de ‘Woody Allen chinês’.
Essa é precisamente a percepção com a qual se apreende a narrativa deste trabalho seu, lançado em 2006.
Ambientado na china imperial, “Inimigos do Império” mostra as maquinações que rondam a jovem Wan (Zhang ZiYi), esposa do velho imperador que, a despeito de sua astúcia e ambição, cultiva ela própria as sementes de sua destruição ao nutrir um amor secreto pelo enteado (Daniel Wu), o que leva a uma série de conflitos e intrigas palacianas que afetam toda a nação, logo após a morte de seu marido: No lugar do herdeiro de fato, quem sobe ao trono, inesperadamente, é o irmão do falecido, obrigando-a a desposar não o rapaz que ama, mas o homem que quer matá-lo.
Não é apenas altruísmo que norteia essas atitudes de Wan –ela também o faz pela privilegiada posição de imperatriz, o quê denota nesta personagem (e reflete-se, por sua vez, nos demais coajuvantes) a habilidade pertinente com que Xaogang constrói o caráter ambíguo dos participantes de seu jogo de poder.
Tudo caminha para a cerimônia de um banquete na qual todos os planos e tramóias terão um desfecho, como, aliás, sugere seu título em inglês: “The Banquet”.
Feng Xaogang entrega assim um trabalho suntuoso e cerimonioso, com relativamente poucas cenas de artes marciais, que ressalta, sobretudo, a presença da estrela chinesa Zhang Zi Yi, belíssima mulher e boa atriz. Mas o resultado não tem o brilhantismo de "O Clã das Adagas Voadoras", nem a excelência artística de "O Tigre e O Dragão".

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O Clã das Adagas Voadoras

Na esteira de Ang Lee, que dirigiu “O Tigre e O Dragão”, um épico de artes marciais, e obteve aclamação mundial por isso, outros diretores, outrora ligados à projetos mais autorais, também fizeram suas próprias incursões no gênero wuxia.
Zhang Ymou, realizador de uma seqüência esplêndida de grandes filmes com a atriz Gong Li entre as décadas de 1980 e 1990, foi um dos que experimentou essa transição com o arrojado “Herói”.
Ele tomou gosto pela coisa, inclusive porque (tão talentoso quanto Ang Lee) também conquistou larga aprovação de público e crítica, e realizou logo depois este ainda melhor “O Clã das Adagas Voadoras”.
Na China milenar, dividida por milícias que detinham o poder e o controle dos estados, dois policiais elaboram um plano para ludibriar uma jovem e aparentemente inocente cega (Zhang ZiYi, sempre apaixonante), e fazer com que ela os conduza até o refúgio do lendário clã das adagas voadoras. Mas não faltarão surpresas e reviravoltas no decorrer desse plano.

O brilhante épico de artes marciais moldado por Ymou mostra-se particularmente feliz na junção dos inúmeros gêneros que a história comporta: Vai da aventura ao drama, da ação ao romance, sempre pontuado por uma composição inspirada de cenas, onde cada frame não apenas exprime uma deslumbrante beleza plástica, mas exala inventividade cênica e, não raro, poesia visual. Muito disso se deve à visão artística do diretor Zhang Yimou (tarimbado em projetos de diversas orientações e envergaduras dramáticas) para a elaboração de seqüências de irretocável deslumbre e nas coreografias de lutas que desafiam a lei da gravidade.

terça-feira, 28 de junho de 2016

O Tigre e O Dragão

O wuxia é um sub-gênero de filmes chineses que envolvem artes marciais muitas vezes ambientados num período histórico ancestral, neles os atores realizam cenas de lutas coreografadas que desafiam a lei da gravidade.
Ang Lee sempre foi um diretor de filmes dramáticos, de orientação quase neo-realista, voltados para a importância de uma boa interpretação.
Parecia improvável a união de um diretor tão austero e voltado para os meandros íntimos dos personagens e de suas histórias como Ang Lee, com um gênero tão popularesco quanto o wuxia.
Essa improbabilidade respondeu como uma das maiores e mais saborosas surpresas no ano 2000, quando foi lançado “O Tigre e O Dragão”. Esse projeto deu a Ang Lee a oportunidade de voltar à infância e realizar um wuxia, o tipo de filme que adorava quando moleque.
O resultado desse reencontro com o próprio passado cinéfilo é um épico apaixonado, onde cada cena é tratada como uma pintura, um cuidado todo especial, onde é mais possível e perceptível ver o quanto o cinema é algo mágico.
É por meio dessa magia que Lee nos transporta para a China Antiga, onde o nobre e habilidoso guerreiro Li Mu Bai (o magnífico Chow Yun Fat) deseja repousar após uma exaustiva vida de lutas.
Para tanto, ele confia à sua companheira Shu Lin (Michelle Yeoh), por quem secretamente é apaixonado, sua lendária espada Destino Verde, capaz de tornar imbatível qualquer guerreiro que a empunhar, para que seja entregue a um velho amigo.
E por aí se vê, então, que “O Tigre e O Dragão” já não está tão longe da filmografia de Ang Lee como incialmente se imaginava: Lá estão os personagens, plenos da necessidade de viver, tolhidos pelas circunstâncias geradas pelo tempo e local ao qual pertencem.
Lá está também o gatilho emocional que dá margem para a quebra dessa tradição e para a chance de realizar seus sonhos, ao mesmo tempo em que entrelaça todos numa única e dinâmica narrativa, como veremos mais à frente, já que, um pouco mais tarde, a espada Destino Verde é roubada pela jovem Jen Long (a linda e expressiva Zhag ZiYi, uma das melhores coisas do filme), bela e contestadora princesa, cuja má influência de Raposa Verde (velha inimiga de Li Mu Bai) a transforma numa espécie de pária.
Dessa forma, temos assim uma transfiguração dos filmes de artes marciais (ou do conceito que tínhamos do que seriam filmes de artes marciais) onde os personagens fortes e interessantes (a despeito das verdadeiramente sensacionais cenas de ação, materializadas por meio da vasta experiência do coreógrafo Yuen Wo Ping) são o que de fato impulsiona a narrativa deste filmaço, onde Ang Lee leva glamour e profundidade dramática nunca antes vistas no gênero.

Foi graças à esta inspirada incursão de Ang Lee (um cineasta respeitado e prestigiado) que outros diretores chineses, normalmente adeptos de narrativas mais densas e humanas, aventuraram-se pelas artes marciais produzindo, nas décadas que se seguiriam, obras inesquecíveis como “Herói”, “O Clã das Adagas Voadoras” (ambos de Zhang Ymou), e “O Grande Mestre” (de Won Kar Wai).