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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Éden


 O diretor Ron Howard já experimentou a consagração com “Uma Mente Brilhante”, e o largo sucesso com “Código Da Vinci”, contudo, de uns anos pra cá, seu cinema tornou-se claudicante, oscilando entre uma técnica apurada, um profissionalismo nítido e um vazio de iniciativa, de inspiração que engessava seus trabalhos.

Embora seja uma obra relativamente interessante e pertinente (ainda mais inserida no panorama genérico atual do cinema norte-americano), “Éden” padece de alguns desses lapsos.

Baseado num fato real transcorrido no início do Século XX, “Éden” constrói uma narrativa a partir de indícios muitas vezes contraditórios em relação aos acontecimentos retratados. Na ânsia de concretizar os fatos sem assumir pontos de vistas unilaterais, o roteiro de Noah Pink, a partir de conceitos elaborados por ele e pelo diretor Ron Howard, oferece uma cadeia de acontecimentos que terminam não priorizando a postura, nem a índole de ninguém, o resultado é um filme onde pessoas torpes são ocasionalmente confrontadas com outras ainda piores, numa exposição algo involuntária da inerente maldade humana.

Após a Primeira Guerra Mundial, o médico e filósofo Friedrich Ritter (Jude Law) parte para a Ilha Floreana na distante região dos Galápagos, junto da colega Dore Strauch (Vanessa Kirby) a fim de se afastar da humanidade e de criar, ali, um conceito inédito de meio de vida, rompendo com as defasadas considerações sociais, e muito amparado no niilismo espartano de Friedrich Nietzsche. Todavia, uma fagulha de vaidade e de necessidade de ser enaltecido ainda queima dentro do Dr. Ritter, por isso, de tempos em tempos, nas visitas de algum navio errantes por aquelas águas longínquas, ele aproveita para enviar ao mundo exterior suas cartas, nas quais deposita sua retórica sobre essa nova forma alternativa de existência, que ele enxerga como um manifesto contra a tendência auto-destrutiva dos governos mundiais.

Com o tempo, suas cartas –publicadas em jornais e revistas da época –se tornam uma espécie de sensação, e o Dr. Ritter, um lenda em seu exotismo. Até que, no inverno de 1932, o exemplo de Ritter leva Heinz Wittmer (Daniel Brühl), sua esposa Margret (Sydney Sweeney) e seu filho (Jonathan Tittel), à Ilha de Floreana, a fim de partilhar dessa mesma vivência, esse rompimento com os grilhões de conveniência social.

O filho de Heinz sofre de tuberculose, então intratável, com péssimas perspectivas pela medicina da época, e a jovem esposa, Margret, está, ainda sem saber, grávida. Ao chegarem em Floreana, o Dr, Ritter e Dore, arredios, os recebem com inesperado desdém –a contundente utopia que eles planejavam ali não vinha atrelada à traquejo social, e nem tampouco era pensada para envolver outros além deles próprios.

Instalados, de início, numa das cavernas da região (!), Heinz e Margret vão se adaptando à duras penas, construindo uma casa e erguendo um lugar onde almejam, de fato, viver –esses percalços surgem registrados nas cartas que Marget, então com 23 anos, escreve e envia, de tempos em tempos para a mãe.

No entanto, algum tempo depois, chega em Floreana outra comitiva, aquela que, desta vez, realmente irá virar tudo de pernas pro ar: Os subalternos, criados e meros bajuladores da Baronesa Eloise Von Wagner de Bousquet (Ana De Armas, ligeiramente histriônica no retrato de uma das mais odiosas vilãs do cinema recente). Afirmando estar lá na ilha para a construção de um hotel exclusivo para turistas muito ricos, a Baronesa se instala, com seu séquito –entre os quais, o amante e capacho Lorenz (Felix Kammerer, de “Nada de Novo No Front”) e outro amante (!) e guarda-costas Phillipson (Toby Wallace) –numa interseção entre as moradas de Ritter e Dore, e de Heinz e Margret. Ela cria divergências –abre as correspondências de Ritter e tenta colocar a culpa em Heinz –protagoniza excessos e age com displicência –quando a comida que levou (e que consomem desordenadamente) acaba, envia seus lacaios para roubar de Heinz e Margret.

Não demora muito para que esse paraíso (que de paradisíaco, desde o começo, nunca teve nada!) se torne um inferno com os conflitos de ordem íntima criados por ela –na realidade, a própria Baronesa é, em si, um embuste: Uma golpista que singrou a Europa manipulando homens ricos com sua beleza, ela tenta sua última cartada ali, em Floreana, na tentativa de se estabelecer no que pode ser um empreendimento imobiliário legítimo, valendo-se de todos aqueles que sua lábia e sua capacidade de sedução arregimentarem em favor de seus interesses.

O que acontece, todavia, é um caldeirão de tensões que, eventualmente, irá explodir.

Um filme amargo que opõe a sobrevivência à convivência (como se fossem fatores opostos) e que parece refletir sobre o quanto as celeumas humanas, como a ganância e a cobiça, são incapazes de serem evitadas pelo homem, por mais que ele queira, “Éden” se ressente justamente dessa sua contundente postura moral –não há personagens íntegros ou incorruptíveis aos quais a narrativa possa se ancorar, e dessa forma assim ambígua eles são interpretados pelo (ótimo) elenco: Jude Law ostenta, carrancudo, uma desilusão que só o empurra cada vez mais para o antagonismo e a violência, afastando-o da paz e da transcendência inicialmente pretendida; Vanessa Kirby vive uma mulher de um discurso altivo acerca de suas escolhas, mas cujo olhar entrega a insatisfação que é incapaz de admitir; Daniel Brühl na segunda colaboração com Ron Howard (a primeira foi o excelente “Rush”) se mostra preciso no registro minimalista de seu personagem; e Sydney Sweeney, talvez, a grande surpresa do filme, oblitera as impressões de símbolo sexual que, em geral, a perseguem para entregar aqui uma interpretação introspectiva orientada por uma metamorfose sutil e, ao fim do filme, desconcertante.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Nada de Novo No Front


 Homônimo ao clássico de 1930 (que à propósito ganhou o Oscar de Melhor Filme, e que em alguns lugares ganha o título de “Sem Novidades No Front”), o alemão “Im Westen Nichts Neues”, produzido pela Netflix, venceu 4 Oscars na cerimônia de 2023. Embora tal gesto tenha coroado seu primor técnico, evidente desde as primeiras tomadas, ele não basta para enfatizar a qualidade assombrosa deste formidável trabalho.

Através de breves e sucintas intercalações –que haverão de definir a narrativa do início ao fim e saltar com habilidade de um núcleo de personagens à outro –somos inicialmente introduzidos na imediata rotina de um soldado alemão anônimo, colhido no conflito caótico da Primeira Guerra Mundial, em meados de 1917. Contudo, a narrativa não acompanha necessariamente aquele jovem soldado (ao que tudo indica, morto já nesse prólogo), ela acompanha, sim, para efeitos de reflexão, o uniforme que ele usava; e que, impessoalmente, é tirado de seu cadáver, refeito, costurado e limpo, para que outro recruta voluntário, um tempo depois, venha a usá-lo novamente em campo de batalha. Os oficiais sabem disso –como fica claro durante o alistamento do protagonista, vivido por Felix Kammerer, o usuário seguinte desse uniforme –mas, pouco se importam; apenas removem a etiqueta com o nome do ocupante anterior, e dão uma desculpa esfarrapada ao recruta. É com essa inteligência e esse senso notável de observação que o filme do diretor Edward Berger vai prestar-se a acompanhar toda a jornada bélica do jovem Paul Bäumer (personagem de Kammerer) desde seu ingresso nas forças armadas alemãs (rapazes então insuflados pelo patriotismo e pela avidez de defender a pátria mãe em discursos bem colocados por políticos e mentores), seu convívio com os novos amigos na linha de frente (todos eles, jovens ingênuos e entusiasmados que deixaram suas famílias a fim de provar sua ombridade perante outrem), o aprendizado dos pequenos códigos militares (como exaurir o mínimo da paciência dos impacientes superiores e as pequenas malandragens necessárias a uma certa sobrevivência) e, por fim, a descoberta do horror inapelável nas trincheiras, onde a morte das formas mais hediondos e contundentes parece aguardar por cada um.

Aqui e ali, o filme de Berger abandona esse registro ocasional das rotinas militares para focar nas manobras mais políticas e estrategistas (ainda que breves) de personagens posicionados em hierarquias mais elevadas, como o oficial Matthias Erzberger, interpretado por Daniel Brühl, ávido por negociar um cessar-fogo com a França e por um fim à carnificina que mata tantos jovens alemães.

Anti-militarista, como a totalidade esmagadora de todos os filmes de guerra feitos a partir da metade do Século XX (e como também o era o inovador clássico de 1930), “Im Westen Nichts Neues” recria com audácia minimalista, beleza aterradora e perfeição assustadora as sequências de batalha deflagradas nas trincheiras, jogando por terra conceitos prévios como o heroísmo em combate (ele só dura até nos conscientizarmos, numa cena atordoante, que o oponente é, também ele, um ser humano) ou a figura romântica do combatente supino (seus personagens são, em vez disso, pessoas normais, trituradas pela guerra, convertidas em paródias psicologicamente inutilizadas de si mesmas).

É com uma ironia trágica e uma tensão indelével que o filme acompanha a tensa e ultrajante negociação do amistício –na qual, o roteiro não se furta de colocar os franceses como arrogantes, indiferentes e intolerantes senhores da guerra, responsáveis pelas manobras políticas que conduziram dali à Segunda Guerra Mundial, anos depois –paralelo ao desenrolar e ao afunilar das tensões e ameaças experimentadas pelos protagonistas nas linhas de frente; como costuma ocorrer, o decreto de paz chega tarde demais, até lá, o protagonista e seus companheiros já vivenciaram toda sorte de exaspero que a guerra poderia lhes reservar.

“Im Westen Nichts Neues” só não atinge as impressões rarefeitas e antológicas da obra-prima “Vá e Veja”, de Elem Klimov, porque o filme de Edward Berger, mesmo que em sua crueza, ainda busca fazer concessões mais comerciais, ainda assim, este arrojado “Resgate do Soldado Ryan” da Alemanha se posiciona honrosamente como um dos grandes tratados do cinema bélico desta última década.

domingo, 30 de abril de 2023

Falcão e O Soldado Invernal


 Legado –esse parece ser o principal tópico em torno do qual giram os enredos da Fase 4 do Universo Marvel Cinematográfico, desde o final da “Saga do Infinito” cuja trama trouxe, à reboque, seus cerca de vinte primeiros filmes. Embora suas ambições narrativas tenham se estendido também para as séries do TV (das quais esta é um dos exemplares), a intenção de conectividade em suas histórias permanece mais forte do que nunca, bem como a intenção de manter uma similaridade na qualidade cinematográfica de seus produtos. Entretanto, com os heróis principais dizendo adeus (seja pela chegada no desfecho de suas trajetórias, seja pelo fim do contrato de seus intérpretes, seja, na maioria dos casos, por conta das duas razões), a Marvel em geral, e a Fase 4 em particular acabaram abordando justamente a questão do legado, a passagem de bastão de um personagem, já veterano, para outro, em início de jornada.

Esta minissérie, “Falcão e O Soldado Invernal”, vem a falar sobre os dilemas de Sam Wilson (Anthonie Mackie), mais conhecido como Falcão, depois que ele recebeu do agora aposentado Steve Rogers, o Capitão América em pessoa (que é bastante mencionado, mas, nunca aparece de fato), o seu poderoso e simbólico escudo, o que o torna, consequentemente, o novo Capitão América. No entanto, como a série tratará de mostrar ao longo de seus nove episódios, herdar tal legado não é uma tarefa simples, ainda mais para alguém como Sam que, diferente do quase ariano Steve Rogers, é um homem negro, ciente do descaso e das injustiças que seus pares sofreram (e, por vezes, continuam a sofrer) ao longo de toda a história dos EUA.

Ao abranger um tema de incontornável seriedade, a série sabiamente evoca ritmo, espírito e atmosfera de “Capitão América-OSoldado Invernal”, dirigido por Anthony e Joe Russo, um dos longa-metragens responsáveis por tornar o Capitão América um dos maiores heróis do estúdio. Como naquele estupendo trabalho, aqui, o roteiro lembra por vezes o de um thriller de espionagem, inclusive com o surgimento de um grupo dissidente de supostos terroristas, os Apátridas, lutando por uma ideologia que, na teoria, parece fazer um certo sentido: Unir todo o mundo num povo só, abolindo todas as fronteiras. Na prática, porém, os objetivos desse grupo armado esbarram nas complicações do mundo real, reagindo a elas com violência e terror. Sam Wilson e James ‘Bucky’ Buchanam Barnes (Sebastian Stan), outrora o Soldado Invernal, tentando se redimir de seu passado como assassino controlado pela Hidra, se unem para tentar deter os Apátridas quando descobrem que os membros do grupo têm, de alguma forma, o soro do Supersoldado, o que lhes possibilita força e velocidade assombrosas. Há, porém, um problema: Sentindo-se incapaz de corresponder à herança como Capitão América, Sam entrega o escudo ao governo dos EUA que nomeia um combatente condecorado, o soldado John Walker (Wyatt Russell, filho de Kurt Russell e Goldie Hawn), como novo Capitão, um homem que, à medida que as missões começam a cobrar-lhe sacrifícios maiores, se revela instável.

Dirigida (por Kari Skogland) e escrita (por vários, com predominância do criador, Malcolm Spellman) com insuspeita habilidade, a minissérie avança sabendo habilmente centralizar Sam e seu notável protagonismo, no objetivo de evidenciar ao público o quão certeira é sua escolha como novo Capitão América –algo, diga-se, seguido à risca do que se passou nos quadrinhos. Quando conhecessem a líder dos Apátridas, Karli Morgenthau (Erin Kellyman, de “Han Solo”), os heróis descobrem que ela não é a vilã translúcida e unilateral que outrora enfrentariam sem pestanejar –o mundo atual não tem mais conflitos ‘preto no branco’ como nos tempos da Segunda Guerra Mundial, e alguns inimigos da paz têm justificativas carregadas de significado e mérito em seus atos. Na busca por respostas, Sam e Bucky tiram de sua prisão o tentacular e manipulador Barão Zemo (Daniel Brühl, reaproveitando brilhantemente seu personagem de “Capitão América-Guerra Civil”) que os acaba levando até a ilha de Madripoor (um sensacional cenário vindo direto dos quadrinhos da Marvel e que já sugere, em algum momento, a proximidade dos “X-Men”) onde reencontram a renegada Sharon Carter (Emily Vancamp), personagem que traz algumas reviravoltas inesperadas. É Sam quem deve se provar o ponto de equilíbrio entre muitos desses personagens superpoderosos em rota de colisão, até porque sua própria escolha como Capitão América é, em si, uma mensagem de igualdade e justiça para todos –e para isso, ele deve encontrar a verdade sobre o próprio legado conhecendo Isayah Bradley (Carl Lumbly, da série “Alias-Codinome:Perigo”) e sua amarga história como primeiro supersoldado negro.

Tensa, austera, magnificamente frenética e politicamente relevante, mesmo que para efeitos de mera analogia, “Falcão e Soldado Invernal” se aproveita maravilhosamente de seu formato minissérie, para além do tempo restrito de um longa-metragem, estabelecendo ao longo de seus episódios uma trama rica e detalhada sobre as consequências pessoais e plurais de uma passagem impactante de bastão, colocando em pauta questões atuais como o desamparo governamental de refugiados, as discriminações de cor e a integridade do cidadão.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Adeus, Lênin!


Os realizadores europeus, em geral, têm enorme desenvoltura para unir o riso ao comentário político. Não são incomuns suas comédias passearem graciosamente pela sátira ideológica e ainda manter sua leveza –ao contrário dos americanos que preferem abordar esses temas quase sempre com seriedade e até algum fatalismo.
“Adeus, Lênin!”, por exemplo, é construído com uma ironia saborosa aliada ao carisma natural de seus personagens e ao absurdo paradoxalmente possível de sua premissa.
O jovem Alex (o sempre simpático Daniel Bruhl) nasceu na Alemanha dos anos 1960 sob a rigidez ideológica que predominava no lado oriental do Muro de Berlim onde morava com a mãe e a irmã.
Deixados pelo pai (que saiu de casa e não mais voltou numa história muito mal-contada), eles testemunharam sua mãe, nas décadas seguintes, se tornar uma ferrenha defensora do Partido Socialista.
Até que, após um enfarte ao ver Alex ser preso durante uma passeata de protesto, ela entra em coma (!). Era então o final da década de 1980 e, num período de tempo pouco menor que um ano, uma grande mudança ocorre na Alemanha, com a queda do Muro de Berlim e a abertura para todas as influências possíveis do capitalismo: Alex, para se ter idéia, vai trabalhar instalando antenas parabólicas e sua irmã vira atendente do Burger King (!).
Mas, e sua mãe?
Ela desperta meses depois, sob a alegação dos médicos de que sua saúde extremamente frágil não poderia suportar uma emoção muito forte.
Preocupado com a possivelmente fulminante reação dela ao descobrir que a Alemanha a qual dedicou sua vida já não existe mais, Alex engendra um plano intrincado: Levá-la para casa, a fim de convencê-la de que a Alemanha Socialista ainda existe e que o lado oriental do muro ainda se encontra intacto.
Para tanto, Alex se vale de um sem-fim de estratagemas: Precisa achar vidros rotulados, latas e embalagens de produtos da Alemanha Socialista –e que, portanto, desapareceram completamente do mercado –e enchê-los de iguarias frescas para sua mãe achar que ainda existem; edita vídeos com a ajuda de um amigo metido a cineasta, e com ele elabora noticiários fictícios da RDA, onde afirma –na maior cara de pau! –que a Coca-Cola é um produto socialista (!), a fim de justificar um imenso outdoor que surgiu bem de frente à janela dela (!!).
Entre o gracioso e o agridoce, o filme também registra os inevitáveis lampejos de drama que essa situação gera –afinal, o filme do diretor Wolfgang Becker, até para que sua trama faça algum sentido e tenha alguma graça dentro do contexto que criou, se pretende realista.
Nesse sentido é louvável os rumos tomados pelo roteiro no seu último terço, rumos estes que podem causar estranheza aos expectadores mais condicionados à comédias americanas, cujos desenlaces passam da austeridade que este aqui demonstra.
Em meio à esta ode extremamente simpática à família, ainda podemos observar e apreciar a presença no elenco da linda Chulpan Khamatova (de “Luna Papa”).

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

The Cloverfield Paradox

Terceiro exemplar de produções intrigantes ambientados no que parece ser um mesmo universo –e cujos outros dois títulos que o compõem são “Cloverfield-Monstro” e “Rua Cloverfield, 10” –este novo “The Cloverfield Paradox” concebido e anunciado como sendo uma obra de cinema, tal qual os outros dois, mas terminou sendo negociado para a plataforma de stremming do Netflix, sem sequer chegar às telas de cinema.
Talvez não tenha sido o melhor negocio para o produtor J.J. Abrahams que viu este filme ser considerado pelo publico como o mais fraco dos três, embora essa seja uma afirmação bastante injusta: Os expectadores perderam a oportunidade que conferir o filme no esplendor da tela grande e os produtores –impelidos pela inspiração de lançar seu trabalho com ineditismo –perderam a chance de calcular o desempenho que seu projeto teria nas bilheterias; que foram bastante satisfatórias no caso dos outros dois.
Transcorrendo, ao que tudo indica, paralelamente aos eventos do primeiro filme, está a história de uma equipe de uma Estação Espacial Internacional orbitando o planeta Terra às voltas com uma experiência de suma importância para o panorama sócio-político mundial: O teste de um acelerador de partículas que pode prover energia sustentável para todo o planeta.
A compor o grupo envolvido em tal empreitada está a protagonista, a inglesa Ava (Gugu Mbatha-Raw, de “Nos Bastidores da Fama” e “Belle”), o comandante da missão e representante americano Kiel (David Oyelowo, de “Selma”), o alemão Schmidt (Daniel Bruhl, de “Capitão América-Guerra Civil” e “Adeus, Lênin”), a chinesa Tam (Zhang Zi Yi, estrela de “O Tigre e O Dragão”, “O Clã das Adagas Voadoras” e “Memórias de Uma Gueixa”), o irlandês Mundy (Chris O’ Dowd, de “Missão Madrinha de Casamento”), o brasileiro Acosta, apelidado Monk (John Ortiz, de “Velozes e Furiosos 4” e “OLado Bom da Vida”) e o russo Volki (Aksel Hennie, de “Perdido Em Marte”).
São eles quem realizam a pioneira experiência ao acionar o acelerador de partículas, entretanto –confirmando os temores comentados numa entrevista por um tal de Mark Stambler (Donal Logue), autor de uma teoria chamada “Paradoxo de Cloverfield” –o que eles desencadeiam ao testar a energia acarreta conseqüências imprevisíveis: A estação espacial simplesmente some da orbita da Terra sendo teleportada para outro ponto do universo (!).
Mais: Aos poucos, a equipe descobre que a mudança pode não ter sido somente em termos espaciais. Ao encontrar uma nova (e para eles completamente desconhecida!) integrante de sua própria equipe, a engenheira Jensen (Elizabeth Debicki, de “Guardiões da Galáxia Vol. 2” e “O Agente da U.N.C.L.E.”), materializada dentro de um dos painéis (!) –com alguns fios condutores atravessando dolorosamente seu corpo (!) –eles começam a concluir que podem ter sido transportados para uma espécie de realidade alternativa (!), e que ao fazer isso, afetaram o bem-estar de seu mundo.
O filme se concentra nos desdobramentos ocorridos no espaço intercalando-os com breves relances de algo catastrófico ocorrendo na Terra (e que certamente corresponde aos acontecimentos do primeiro “Cloverfield”) testemunhados pelo perplexo Michael (Roger Davies), marido de Ava.
O trabalho que o diretor Julius Onah realiza aqui, embora inferior ao ótimo e enxuto resultado de Dan Trachteberg em “Rua Cloverfield, 10”, é eficaz, fluido e visualmente interessante, lembrando um pouco o recente “Vida”, de Daniel Spinoza, e aproveitando inúmeros aspectos e elementos da premissa do obscuro e hoje muito desconhecido “Projeto Philadelphia”, dos anos 1980.
Tudo isso faz deste trabalho, acima de tudo, um exemplo do tino comercial e da percepção de espetáculo e narrativa de seu produtor, J.J. Abrahams, que reaproveita conceitos de outros filmes para remodelar uma produção destinada ao publico atual, cumprindo seu papel de jogar ainda mais ingredientes na receita um tanto curiosa e cada vez mais desconcertante desse seu intrigante universo “Cloverfield” –dele já existem, pelo menos, dois novos filmes confirmados!

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O Zoológico de Varsóvia

Diretora do sensível “Encantadora de Baleias” e do contundente “Terra Fria”, a neozelandesa Niki Caro conta aqui mais uma extraordinária história real transcorrida na Segunda Guerra Mundial.
É em meio ao verão de 1939 que começam a se suceder as mudanças que deflagrarão uma guinada na vida de Jan (Johan Heldenbergh, de "Alabama Monroe" e "A Excêntrica Família de Antonia") e Antonina Zabinski (Jessica Chastain, apaixonante), zelador do zoológico de Varsóvia e sua dedicada esposa. Se antes sua rotina consistia do cuidado com os animais e das boas-vindas aos visitantes no zoológico que administravam, com a chegada da guerra –e das opressoras forças alemãs à Polônia –seu zoológico é primeiro devastado por bombardeios e depois convertido numa fazenda de porcos a fim de gerar carne para alimentar as tropas nazistas.
Antonina e seu marido valem-se então dessas circunstâncias para salvar o maior número de pessoas possível: Durante o dia, ao coletar comida em meio ao lixo do gueto, Jan carregada em seu caminhão punhados de judeus fugitivos e suas famílias que, à noite, se escondem nos subterrâneos desocupados do zoológico, somando a cada dia mais e mais sobreviventes que, com o passar dos anos, chegam à casa das centenas.
Tudo perigosamente executado debaixo do nariz da vigilância nazista personificada no displicente e errático Herr Heck (Daniel Bruhl), outrora também um zoólogo convertido em oficial nazista.
Mesmo que reticente na abordagem dos horrores mais extremos presentes na história que conta, a diretora Caro –apesar da maneira sugestiva e econômica com a qual registra momentos históricos essenciais à sua trama, como o massacre do Gueto de Varsóvia – com freqüência vê seu singelo trabalho enfrentar a difícil e inevitável comparação com o excepcional “A Lista da Schindler”, de Steven Spielberg, que narra fatos ocorridos praticamente no mesmo período de tempo, e em torno dos mesmos lugares (e ainda, com semelhanças bastante flagrantes).
Sorte de Caro, entretanto, poder contar com uma presença como a de Jessica Chastain que, neste papel, tem a oportunidade de abusar de seu aspecto genuíno de estrela da Velha Hollywood: Somada à sua beleza e seu talento, ela tem uma aura que remete não às atrizes modernosas de hoje, mas ao charme clássico das divas de antigamente, e essa característica é plenamente valorizada em seus figurinos, em seu cabelo e maquiagem e na maneira com que a câmera continuamente se enamora por ela, deixando os demais personagens em segundo plano. Há também um viés interessante em sua atuação que enfatiza a maneira com que a personagem se ancora emocionalmente mais aos animais e menos aos seres humanos, sempre mostrados como volúveis, falhos, relutantes e beligerantes.
Essa convergência de elementos impõe um estilo ameno à produção, quase de um entretenimento familiar, ainda que preserve cenas que visam o choque.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Rush - No Limite da Emoção

Os anos 1970 foram, de fato, um outro tempo: O nível de periculosidade a que se expunham os pilotos de Fórmula I e seus carros de condições precárias era algo absurdo e inconcebível para os dias de hoje –em contraponto, era também de se admirar o quão intrépidos, audazes e não raro, loucos pelo perigo eram os pilotos daqueles tempos.
É por meio desse prisma –o do espanto provocado pela comparação entre a comodidade de hoje e a audácia de ontem –que se sustenta muito do charme da narrativa que Ron Howard emprega em “Rush-No Limite da Emoção”.
Tão vibrante e tecnicamente fabuloso quanto “Apollo 13”, tão pertinente e dramaticamente relevante quanto “Uma Mente Brilhante” e tão dotado de senso de espetáculo e de esmero artístico quanto “Coccon”, “Um Sonho Distante” ou “O Código Da Vinci”, esta recriação astuta, eletrizante e inspirada do Grande Prêmio de Fórmula I de 1976 é, provavelmente, o melhor trabalho do diretor Ron Howard, em meio à uma carreira prolífica e diversa.
Naquele ano, todas as atenções encontravam-se voltadas para a rivalidade entre dois pilotos; o galanteador, mulherengo e playboy James Hunt (Chris Hemsworth) –visto desde sempre como uma forte promessa nas pistas –e o pouco social, metódico e arredio Nikki Lauda (Daniel Bruhl) –campeão de outras temporadas que apesar da fama de antipático, revelou-se um brilhante piloto e preparador de carros.
Determinados, um a superar o outro, esses dois pilotos de personalidades tão opostas quanto seus estilos de corrida, irão disputar ponto a ponto a liderança do campeonato, num duelo que encontrou para a história da Fórmula I –e com lances narrativos rigorosamente extraídos da realidade, porém tão inacreditáveis, tão carregados de reviravoltas dramáticas e de dramaticidade plena (incluindo o espetacular acidente sofrido por Nikki Lauda durante uma das corridas, onde teve noventa por cento do corpo queimado) que chega a ser espantoso não só o fato de tudo ter sido verdade, como também o de Hollywood ter demorado tanto tempo para transformar tudo em um filme.
Além dessa recriação sensacional de um dos mais espetaculares momentos do automobilismo, este filme, dirigido com perfeição por Ron Howard, tem ainda o mérito inequívoco de revelar grandes talentos em Daniel Bruhl e Chris Hemsworth (numa composição competente indo muito além da perfeita caracterização do super-herói “Thor”).