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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Éden


 O diretor Ron Howard já experimentou a consagração com “Uma Mente Brilhante”, e o largo sucesso com “Código Da Vinci”, contudo, de uns anos pra cá, seu cinema tornou-se claudicante, oscilando entre uma técnica apurada, um profissionalismo nítido e um vazio de iniciativa, de inspiração que engessava seus trabalhos.

Embora seja uma obra relativamente interessante e pertinente (ainda mais inserida no panorama genérico atual do cinema norte-americano), “Éden” padece de alguns desses lapsos.

Baseado num fato real transcorrido no início do Século XX, “Éden” constrói uma narrativa a partir de indícios muitas vezes contraditórios em relação aos acontecimentos retratados. Na ânsia de concretizar os fatos sem assumir pontos de vistas unilaterais, o roteiro de Noah Pink, a partir de conceitos elaborados por ele e pelo diretor Ron Howard, oferece uma cadeia de acontecimentos que terminam não priorizando a postura, nem a índole de ninguém, o resultado é um filme onde pessoas torpes são ocasionalmente confrontadas com outras ainda piores, numa exposição algo involuntária da inerente maldade humana.

Após a Primeira Guerra Mundial, o médico e filósofo Friedrich Ritter (Jude Law) parte para a Ilha Floreana na distante região dos Galápagos, junto da colega Dore Strauch (Vanessa Kirby) a fim de se afastar da humanidade e de criar, ali, um conceito inédito de meio de vida, rompendo com as defasadas considerações sociais, e muito amparado no niilismo espartano de Friedrich Nietzsche. Todavia, uma fagulha de vaidade e de necessidade de ser enaltecido ainda queima dentro do Dr. Ritter, por isso, de tempos em tempos, nas visitas de algum navio errantes por aquelas águas longínquas, ele aproveita para enviar ao mundo exterior suas cartas, nas quais deposita sua retórica sobre essa nova forma alternativa de existência, que ele enxerga como um manifesto contra a tendência auto-destrutiva dos governos mundiais.

Com o tempo, suas cartas –publicadas em jornais e revistas da época –se tornam uma espécie de sensação, e o Dr. Ritter, um lenda em seu exotismo. Até que, no inverno de 1932, o exemplo de Ritter leva Heinz Wittmer (Daniel Brühl), sua esposa Margret (Sydney Sweeney) e seu filho (Jonathan Tittel), à Ilha de Floreana, a fim de partilhar dessa mesma vivência, esse rompimento com os grilhões de conveniência social.

O filho de Heinz sofre de tuberculose, então intratável, com péssimas perspectivas pela medicina da época, e a jovem esposa, Margret, está, ainda sem saber, grávida. Ao chegarem em Floreana, o Dr, Ritter e Dore, arredios, os recebem com inesperado desdém –a contundente utopia que eles planejavam ali não vinha atrelada à traquejo social, e nem tampouco era pensada para envolver outros além deles próprios.

Instalados, de início, numa das cavernas da região (!), Heinz e Margret vão se adaptando à duras penas, construindo uma casa e erguendo um lugar onde almejam, de fato, viver –esses percalços surgem registrados nas cartas que Marget, então com 23 anos, escreve e envia, de tempos em tempos para a mãe.

No entanto, algum tempo depois, chega em Floreana outra comitiva, aquela que, desta vez, realmente irá virar tudo de pernas pro ar: Os subalternos, criados e meros bajuladores da Baronesa Eloise Von Wagner de Bousquet (Ana De Armas, ligeiramente histriônica no retrato de uma das mais odiosas vilãs do cinema recente). Afirmando estar lá na ilha para a construção de um hotel exclusivo para turistas muito ricos, a Baronesa se instala, com seu séquito –entre os quais, o amante e capacho Lorenz (Felix Kammerer, de “Nada de Novo No Front”) e outro amante (!) e guarda-costas Phillipson (Toby Wallace) –numa interseção entre as moradas de Ritter e Dore, e de Heinz e Margret. Ela cria divergências –abre as correspondências de Ritter e tenta colocar a culpa em Heinz –protagoniza excessos e age com displicência –quando a comida que levou (e que consomem desordenadamente) acaba, envia seus lacaios para roubar de Heinz e Margret.

Não demora muito para que esse paraíso (que de paradisíaco, desde o começo, nunca teve nada!) se torne um inferno com os conflitos de ordem íntima criados por ela –na realidade, a própria Baronesa é, em si, um embuste: Uma golpista que singrou a Europa manipulando homens ricos com sua beleza, ela tenta sua última cartada ali, em Floreana, na tentativa de se estabelecer no que pode ser um empreendimento imobiliário legítimo, valendo-se de todos aqueles que sua lábia e sua capacidade de sedução arregimentarem em favor de seus interesses.

O que acontece, todavia, é um caldeirão de tensões que, eventualmente, irá explodir.

Um filme amargo que opõe a sobrevivência à convivência (como se fossem fatores opostos) e que parece refletir sobre o quanto as celeumas humanas, como a ganância e a cobiça, são incapazes de serem evitadas pelo homem, por mais que ele queira, “Éden” se ressente justamente dessa sua contundente postura moral –não há personagens íntegros ou incorruptíveis aos quais a narrativa possa se ancorar, e dessa forma assim ambígua eles são interpretados pelo (ótimo) elenco: Jude Law ostenta, carrancudo, uma desilusão que só o empurra cada vez mais para o antagonismo e a violência, afastando-o da paz e da transcendência inicialmente pretendida; Vanessa Kirby vive uma mulher de um discurso altivo acerca de suas escolhas, mas cujo olhar entrega a insatisfação que é incapaz de admitir; Daniel Brühl na segunda colaboração com Ron Howard (a primeira foi o excelente “Rush”) se mostra preciso no registro minimalista de seu personagem; e Sydney Sweeney, talvez, a grande surpresa do filme, oblitera as impressões de símbolo sexual que, em geral, a perseguem para entregar aqui uma interpretação introspectiva orientada por uma metamorfose sutil e, ao fim do filme, desconcertante.

segunda-feira, 14 de março de 2022

EDTV


 Comparado com o brilhante “O Show de Truman” à época de seu lançamento no fim da década de 1990 –e, de fato, guardando algumas semelhanças em seu ponto de partida –“EDTV” acaba se afastando um pouco de seu elogiado similar pela opção, redundante e mercadológica, de abraçar o conceito de comédia romântica a partir de sua segunda metade, e nele se acomodar.

Contudo, é um trabalho bastante simpático e fácil de se aproveitar, despido de pretensões artísticas e cinematográficas mais pedantes que passaram a ser um dos elementos mais criticados nas obras que o diretor Ron Howard passou a entregar na década seguinte, quando já gozava da aclamação obtida por seu projeto posterior, “Uma Mente Brilhante”.

EDTV” é em teoria uma sátira a moda dos reallity shows que dominaram a televisão algum tempo depois. Todavia, qualquer pretensão de acidez se esvai no excesso de boas intenções da narrativa –no fundo, no fundo, o que “EDTV” quer ser mesmo é um romance.

Seu protagonista, Ed (Matthew McConaughey) é um jovem de vinte e poucos anos que topou uma idéia maluca: ser filmado 24 horas por dia em sua rotina, seu relacionamento com a família e seus encontros com os amigos.

Por algum tempo, os tubarões da rede televisiva –exemplificados no personagem deliciosamente cretino do também diretor Rob Reiner –não têm nada em mãos senão um programa onde se sucedem besteiras banais com o protagonista cortando as unhas dos pés e jogando conversa fora com seus amigos; sem falar das intervenções ególatras de seu irmão (Woody Harrelson, hilário).

No entanto, antes que o breve interesse do público se saturasse, Ed acaba por se apaixonar pela namorada (Jenna Elfman) do próprio irmão exatamente durante o programa, o que –para azar dele e sorte da emissora –eleva os índices de audiências e as complicações da vida do rapaz.

“EDTV” vai do retrato gracioso de um programa improvável ao seu viés mais corrosivo, passando pelo relevo sentimental de uma comédia romântica sem necessariamente encontrar ali a sutileza da reflexão.

Apesar do desperdício da oportunidade, não se pode condená-lo por isso: Que mal há num filme querer tão somente agradar seu público?

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Apollo 13

Lançado em 1995, “Apollo 13”, de Ron Howard, dialoga diretamente com “Os Eleitos”, de Philip Kaufman, de 1983, e “O Primeiro Homem”, de Damien Chazelle, de 2018; embora sejam filmes de diferentes diretores (e, portanto, de diferentes estilos e propostas) e lançados em época consideravelmente afastadas de tempo, todos fornecem uma contribuição de esclarecimento ao público para notáveis episódios da emocionante Corrida Espacial Norte-Americana.
Dentre eles, pela natureza improvável e cheia de percalços em seus acontecimentos, “Apollo 13” é o mais notável: Em 1969, durante o Programa Discovery, a 13ª missão do projeto Apollo, destinado à lua, dá errado, ameaçando a vida de seus três astronautas tripulantes, Jim Lovell (Tom Hanks, em seu primeiro projeto após os Oscars consecutivos de Melhor Ator por “Philadelphia” e “Forrest Gump-O Contador de Histórias”), Fred Haise (Bill Paxton) e Jack Swigert (Kevin Bacon).
Imediatamente, a Nasa e seus técnicos passam a organizar uma missão de improviso para trazê-los da órbita da Terra até a segurança do solo, sem fazer idéia da integridade do funcionamento da nave, ou mesmo da extensão dos danos ocorridos nos aparelhos.
Nesta sensacional variação de filme catástrofe –o que torna “Apollo 13” uma espécie de precursor dos ótimos “Gravidade” e “Perdido Em Marte” –o diretor Ron Howard (então, mais conhecido por comédias descompromissadas como “Splash” com o próprio Tom Hanks) constrói uma belíssima narrativa, prodigiosa na capacidade de capturar o envolvimento do público mesmo diante de detalhes técnicos tão complexos quanto imprescindíveis à trama, ao revelar um fato histórico real que entrou para a história da Nasa como o seu "mais brilhante fracasso".
Muito bem representado por seu elenco (coadjuvantes particularmente brilhantes são Ed Harris, Kathleen Quinlan e Gary Sinise) e amparado por um trabalho técnico exemplar, o filme de Howard se vale, sobretudo, de um roteiro minimalista e equilibrado de William Broyles Jr. e Al Reinert (a partir do livro “Lost Moon”, do próprio Jim Lovell e de Jeffrey Kluger) no qual são balanceados com a mesma intensidade os dramas vivenciados pelas famílias dos astronautas em perigo –que funcionam como uma eficaz representação do público –as tensões sucessivas, repletas de desafios técnicos e questões logísticas experimentadas pelos engenheiros do centro de comando, e o temor impronunciável dos próprios astronautas diretamente envolvidos na calamidade, lutando contra o tempo e contra as probabilidades numa nave agonizante em gravidade zero na tentativa de retornar para casa.
Um resgate cinematográfico de valores muito norte-americanos, amparado numa grande história cujas circunstâncias absolutamente singulares não abrem margem para o cinismo.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Han Solo - Uma História Star Wars


De um modo geral, “Han Solo” foi vítima de uma escolha ingrata em sua data de lançamento (logo após o fenômeno “Vingadores-Guerra Infinita” e com poucos dias de diferença do igualmente fenomenal “Deadpool 2”!) e de uma campanha de marketing bastante relapsa em relação aos bons trabalhos feitos com títulos anteriores da mesma saga; some-se a isso um excesso de expectativa (normal em qualquer obra oriunda dessa franquia) e eis que ele arcou com o ingrato título de Produção Mais Fraca Desde A Retomada de Star Wars Pela Disney.
De longe, o mais problemático de seus projetos, “Han Solo” passou por uma tumultuada troca de diretores (sai os escolhidos iniciais, Phil Lord e Chris Miller, da animação “Uma Aventura Lego”, e entra no lugar o veterano Ron Howard), uma sucessão de refilmagens e várias incertezas com relação ao seu astro, Alden Ehrenreich que herdou a complicada tarefa de substituir o quase insubstituível Harrison Ford no papel do contrabandista Han Solo ainda jovem, no início de uma jornada (finalmente contada neste filme) que terminaria o colocando ao lado de Luke Skywalker e Léia Organa contra as forças do Império Galáctico.
Desconsiderando todos esses aspectos e focando unicamente no filme do qual esse esforço resultou, é possível afirmar sem equívocos que “Han Solo” é uma obra completamente injustiçada.
Divertido, impulsionado por um ritmo que jamais se acomoda e satisfatórios na maioria de seus aspectos, ele acompanha com notável desembaraço a trajetória de seu protagonista Han (Ehrenreich, que não compromete o resultado e encabeça o filme com serenidade) inicialmente um jovem suburbano num planeta nos confins do universo que sonha partir para as estrelas ao lado da amada Qi’ra (a deliciosa Emilia Clarke). Um contratempo de última hora os separa e Han (que ganha a alcunha 'Solo' de um oficial de imigração) vai parar em outro planeta onde submete-se a um insano treinamento para oficial do Império Galáctico e acaba encontrando aquele que virá a ser seu grande amigo e aliado, Chewbacca (incorporado por Joonas Suotamo e não pelo veterano Peter Mayhew como nos filmes clássicos).
A partir desse encontro e de uma descoberta quase acidental de uma parceria certeira para escapar das enrascadas, Han Solo e Chewie unem-se ao duvidoso time de assaltantes espaciais de Beckett (Woody Harrelson) que embora lhes sirva de mentor, deixa bem claro não ser nada confiável.
As referências aos antigos faroestes vislumbradas por George Lucas nos filmes originais aparecem na cena de roubo de uma espécie de trem espacial, onde uma série de atropelas acontecem e os personagens acabam levados à presença do grande vilão do filme personificado por Paul Bettany (o Visão de “Guerra Infinita”), e inesperadamente à um reencontro entre Han e Qi’ra.
Ao longo desse percurso e a partir dele, o roteiro escrito por Lawrence Kasdan molda o que é quase uma trama de origem enquanto vai preenchendo lacunas a respeito de inúmeros elementos que integram as peculiaridades do personagem Han Solo; sendo o mais ostensivo deles, a aparição do ótimo Donald Glover no papel bem administrado de Lando Calrissian (marcante o suficiente para não passar despercebido, equilibrado o bastante para não se destacar mais que os protagonistas) e a introdução da icônica nave Millenium Falcon e as razões devidamente esboçadas para fazer com que Han Solo passasse a pilotá-la.
Comparar “Han Solo” com o derivado anterior da saga –o assombroso e brilhante “Rogue One” –é injusto por inúmeras razões (e sob qualquer prisma isso acaba desfavorável à “Han Solo”), mas ainda assim é um filme que entrega diversão, escapismo e efeitos visuais magníficos do início ao fim; a proposta, afinal, que sempre tornou todos os filmes “Star Wars” tão sedutores ao público.
E uma de suas últimas cenas reserva ainda a aparição de um dos mais festejados (e sub-aproveitados) vilões que a franquia já teve –se essa cena representa somente um ‘fan-service’ vazio ou terá futuramente repercussões é difícil dizer.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

O Código Da Vinci


Um escritor especializado em tramas pseudo-culturais de leitura para aeroporto, Dan Brown conseguiu –com suas obras estreladas pelo personagem Robert Langdom –um sucesso literário tão estrondoso que, era lógico, não tardaria a ser transferido para cinema.
É lógico também era o fato de que a primeira adaptação seria do livro que obteve todo esse sucesso, “O Código Da Vinci” que, na série de livros, é na verdade o segundo.
Ainda no calor da consagração de seu “Uma Mente Brilhante”, o diretor Ron Howard deixou de lado a encrenca que seria sua refilmagem do “Cachê”, de Michael Haneke, para abraçar este projeto bem mais ameno, fácil e comercial.
Foi Tom Hanks (com quem Howard havia feito “Splash-Uma Sereia Em Minha Vida” e “Apollo 13”) quem saiu-se melhor na disputa pelo papel principal, e de fato, como Robert Langdom ele acaba sendo um dos aspectos mais satisfatórios num filme onde pouca coisa satisfaz.
Langdom, numa atuação centrada ainda que pouco audaciosa de Hanks (cujos detalhes interpretativos foram menos reparados por público e crítica do que seu corte de cabelo mullet!) é um renomado simbologista em visita à França para uma conferência em Paris.
Chamado à cena de um crime ocorrido no Museu do Louvre, diante da própria Monalisa, Langdom deve usar de seus conhecimentos para extrair algum indício que elucide tal mistério: O detetive de polícia encarregado Fache (Jean Reno, uma escolha que não poderia ser mais adequada) acredita que existe uma mensagem plantada pela própria vítima no lugar, embora a princípio ele acredite que o próprio Langdom seja o assassino.
Durante a investigação do caso e conseqüente fuga das autoridades que o vêem como suspeito –em meio à qual sua única aliada é a jovem criptóloga Sophie Neveu (Audrey Tautou, de “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”, cuja compleição miúda e jeito tímido não combinam nem um pouco com a energia e o vigor da personagem do livro) –Langdom vai descobrindo segredos estarrecedores, todos levando até sociedades secretas vinculadas ao Vaticano, que dedicaram séculos e séculos de assassinatos e conspirações para ocultar um segredo capaz de desestabilizar toda a Igreja Católica.
O grande problema deste filme de Ron Howard não está, nem de longe, na reafirmação deliberada de que esta é uma obra de propósitos comerciais; está justamente na incapacidade de alcançar tais objetivos –se estava longe de ser um trabalho memorável no sentido da qualidade literária, “O Código Da Vinci”, o livro, era uma sucessão envolvente de momentos vertiginosos de suspense e perseguição; o filme de Howard, por outro lado, negligencia a maior parte desses momentos elaborados no livro, condensando-os numa narrativa sem maiores esforços para capturar a interesse do expectador.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Splash - Uma Sereia Em Minha Vida

Um misto de fantasia e comédia romântica dos mais satisfatórios já lançados nos anos 1980, “Splash” beneficia-se muito da adequação inconteste de seu elenco às características dos personagens: Daryl Hannah, no auge da beleza, cai como uma luva no papel da apaixonante sereia que dá uma colher de chá a um reles humano da superfície e por ele se apaixona. E como ‘reles humano’, Tom Hanks empolga, agrada e conduz o filme de forma impecável –não é a toa que ele foi sempre considerado o ator norte-americano mais perfeito para interpretar um ‘cara normal’.
Com a impecável química ostentada por esse fabuloso par central, o filme já tem metade de seu caminho andado, mas a trama ainda é hábil e certeira e o diretor Ron Howard sabe dosar a comédia, o romance e a movimentação com perfeição.
Numa nebulosa memória de infância (mostrada no início, em preto & branco), Allen Bauer tem a recordação de uma interação breve, ainda que afetiva, com uma menininha nas águas do mar. A menininha vinha a ser uma sereia que, anos depois, quando ele volta àqueles litorais para uma averiguação, já adulto (e devidamente interpretado pelo simpático Tom Hanks), o reencontra quando ele quase se afoga em alto-mar.
Contudo, agora a sereia –convertida naturalmente nas formas do mulherão Daryl Hannah –também crescida, tem iniciativa o suficiente para ir atrás dele, em plena Nova York onde mora.
Quando seu corpo seca ela adquire magicamente a forma terrena de mulher com duas pernas (embora quando ele é molhado volte a ser, sem seu controle, uma sereia) e, nessa condição, vai atrás dele, sem sequer saber falar a linguagem da superfície –e vez disso, tem uma poderosa voz estridente de sereia que espatifa todos os televisores de uma loja (!).
Logo, Allen a encontra e vagamente se recorda dela –a quem dá o nome de Maddison –passando a hospedá-la em seu apartamento e a lhe mostrar as maravilhas do mundo da superfície, ainda que completamente ignorante do fato dela ser uma sereia; e funciona muito bem a narrativa deste filme oitentista no sentido de distrair o público do fato de que o protagonista abriga uma completa estranha (ainda que deslumbrante) em sua casa, sem maiores informações a respeito dela.
Alguma tensão –entretanto, das mais inofensivas e pasteurizadas –é introduzida com a inserção paralela de um cientista (vivido por Eugene Levy, mais conhecido como o ator-assinatura da série “American Pie”) empenhado em capturar a sereia. Tão gaiata é sua participação que ele funciona como alívio cômico de modo muito mais eficiente que o alívio cômico de fato, o falecido ator John Candy, no papel de irmão de Allen.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O Tiro Que Não Saiu Pela Culatra

Assim como “O Casal Osterman”, de Sam Peckinpah, e “A Tocha de Zen”, de King Hu, este "Parenthood" é um daqueles casos de títulos nacionais equivocados que não dão a menor idéia do que será de fato a produção em si. Pior: Seu título sugere uma comédia rasgada e pastelão –impressão potencializada pela presença de Steve Martin –que o filme, no fim das contas, não é. O quê deve ter frustrado muitos expectadores mal informados que lhe foram conferir.
O trabalho do diretor Ron Howard (ainda nos anos 1980, antes da consagração com “Apollo 13” e “Uma Mente Brilhante”), contudo, é cheio de sutileza e inteligência, daquelas raras comédias agridoces que apelam à maturidade do público.
A começar pela estrutura do roteiro que compartilha a trama entre diversos personagens, todos membros de uma mesma família, os Buckman.
O protagonista, Gil (Steve Martin, admiravelmente contido), guarda um leve ressentimento da educação algo rude recebida de seu pai (o sensacional Jason Robards), e almeja uma proximidade de seus três filhos pequenos muito maior do que a que ele teve. Tudo, entretanto, atrapalha. Sejam as exigências profissionais, sejam as próprias crianças e seus eventuais problemas escolares e de adequação, o que leva Gil e sua esposa Karen (a cativante Mary Steenburgen) a questionar seus desempenhos como pais.
Do lado da irmã de Gil, Helen (Dianne Wiest, ótima) as coisas não estão muito mais simples: Divorciada, ela se vê perplexa –e, na maioria das vezes, sem saber o quê fazer –com o comportamento do filho pré-adolescente Garry (Joaquim Phoenix, ainda bem jovem, aqui assinando ainda como Leaf Phoenix) e as atitudes rebeldes da filha Julie (Martha Plimpton) que cismou de se envolver com um rapaz desajustado, Tod (Keanu Reeves, na fase “Bill & Ted”).
Já a irmã mais jovem, Susan (a bela Harley Kozak) tem um casamento cada vez mais asséptico com o metódico Nathan (Rick Moranis, apático), uma vez que ele se dedica menos ao relacionamento com a esposa e mais à educação pouco usual da filha pequena dos dois.
O próprio patriarca interpretado por Jason Robards tem lá seus problemas: O caçula Larry (Tom Hulce, de “Amadeus”) retornou para o seio da família e trouxe a tira-colo um filho pequeno que todos desconheciam –e que logo sobra para os avôs cuidarem –assim como diversas dívidas irresponsáveis obtidas em jogatina.
É um panorama feito com carinho das famílias norte-americanas, sempre às voltas com circunstâncias que caminham em direção à disfunção, nesse sentido, ele lembra uma pouco a obra-prima chinesa “As Coisas Simples da Vida”, de Edward Yang.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Willow - Na Terra da Magia

Não é nenhum segredo que “Star Wars-Episódio 4 Uma Nova Esperança” (o filme inicial da saga, de fato) deve muitos de seus ganchos narrativos à “O Senhor dos Anéis”.
A obra de Tolkien tornou a servir de inspiração (desta vez, ainda mais explícita) para outra produção de George Lucas, já nos anos 1980, agora dirigida por Ron Howard.
“Willow”, contudo, não teve a mesma repercussão de público e crítica que a fenomenal saga intergaláctica de George Lucas, jamais indo além deste único filme, embora sua trama fosse pontuada por elementos que pediam narrativamente por continuações. Foi uma pena por um lado: Tratava-se de uma rara chance do ótimo Warwick Davis (que vestiu a carapaça do Ewok Wicket em “O Retorno de Jedi”) demonstrar seu talento e protagonismo. E por outro, não: “Willow”, em sua concepção era um épico de fantasia preguiçoso, sem considerações criativas que o fizessem alçar vôo por conta própria, para além das influências óbvias que o esmagavam, Isto é, “Star Wars” e “O Senhor dos Anéis” (por mais que, naquela época, os livros ainda estivessem longe de virar filme).
Como tudo o que tinha o aval de George Lucas, “Willow” contava com efeitos especiais de ponta para sua época –incluindo uma cena inovadora que mostrava uma feiticeira convertendo-se em diversas espécimes animais num único take gerado por uma tecnologia digital ainda embrionária.
Wareick Davis interpreta (e muito bem) Willow Ufgood, um jovem membro do povo anão –chamados de Nelwin –que vive numa aldeia de anões (parecida até demais com o Condado dos Hobbits!), e sonha em aprender magia. A oportunidade para seguir tal caminho surge de forma tortuosa: Willow se torna o inesperado guardião de um bebê do povo Daikini –os humanos –predestinado, no melhor estilo “Os Dez Mandamentos”, a se tornar a princesa boa que trará paz ao reino onde todos vivem –e no qual as muitas raças de seres distintos (além dos Nelwin e dos Daikini, fadas, feiticeiros, gnomos e gigantes) mantêm uma frágil trégua.
Atrás da criança, e ansiosa para matá-la, está a terrível vilã rainha Bavmorda (Jean Marsh) e, entre os poucos aliados com os quais o pequeno Willow pode contar para sua proteção estão o rebelde Mad Martigan (Val Kilmer interpretando uma mescla mal ajambrada entre Han Solo e Aragorn), a própria filha da vilã Sorsha (Joanne Whalley, que casou-se com Kilmer durante as filmagens), dois duendes e a feiticeira Raziel (Patrícia Hayes).
Dotado de um gancho final absolutamente explícito para uma continuação que jamais veio, “Willow-Na Terra da Magia” não foi apenas um filme de tímida bilheteria: Ele sequer conseguiu se firmar, com o passar do tempo, em meio às obras lembradas com afeto pela geração que o assistiu nos anos 1980 –e, para obter tal posição, convenhamos, nem era preciso ser tão espetacular assim...
Esquemático, não raro abarrotado de clichês e desprovido de maiores predicados que fossem além de seus vistosos efeitos visuais, “Willow” fracassou em tentar estabelecer o que parecia ser uma nova franquia de George Lucas; um indicativo das limitações criativas de Lucas, que não ficaram tão evidentes assim na festejada “trilogia clássica” de “Star Wars” (talvez, por ele ter contado com diversos colaboradores talentosos naqueles tempos), mas que compareceram com prejudicial conseqüência na hoje criticada “trilogia prólogo” do mesmo “Star Wars”.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Rush - No Limite da Emoção

Os anos 1970 foram, de fato, um outro tempo: O nível de periculosidade a que se expunham os pilotos de Fórmula I e seus carros de condições precárias era algo absurdo e inconcebível para os dias de hoje –em contraponto, era também de se admirar o quão intrépidos, audazes e não raro, loucos pelo perigo eram os pilotos daqueles tempos.
É por meio desse prisma –o do espanto provocado pela comparação entre a comodidade de hoje e a audácia de ontem –que se sustenta muito do charme da narrativa que Ron Howard emprega em “Rush-No Limite da Emoção”.
Tão vibrante e tecnicamente fabuloso quanto “Apollo 13”, tão pertinente e dramaticamente relevante quanto “Uma Mente Brilhante” e tão dotado de senso de espetáculo e de esmero artístico quanto “Coccon”, “Um Sonho Distante” ou “O Código Da Vinci”, esta recriação astuta, eletrizante e inspirada do Grande Prêmio de Fórmula I de 1976 é, provavelmente, o melhor trabalho do diretor Ron Howard, em meio à uma carreira prolífica e diversa.
Naquele ano, todas as atenções encontravam-se voltadas para a rivalidade entre dois pilotos; o galanteador, mulherengo e playboy James Hunt (Chris Hemsworth) –visto desde sempre como uma forte promessa nas pistas –e o pouco social, metódico e arredio Nikki Lauda (Daniel Bruhl) –campeão de outras temporadas que apesar da fama de antipático, revelou-se um brilhante piloto e preparador de carros.
Determinados, um a superar o outro, esses dois pilotos de personalidades tão opostas quanto seus estilos de corrida, irão disputar ponto a ponto a liderança do campeonato, num duelo que encontrou para a história da Fórmula I –e com lances narrativos rigorosamente extraídos da realidade, porém tão inacreditáveis, tão carregados de reviravoltas dramáticas e de dramaticidade plena (incluindo o espetacular acidente sofrido por Nikki Lauda durante uma das corridas, onde teve noventa por cento do corpo queimado) que chega a ser espantoso não só o fato de tudo ter sido verdade, como também o de Hollywood ter demorado tanto tempo para transformar tudo em um filme.
Além dessa recriação sensacional de um dos mais espetaculares momentos do automobilismo, este filme, dirigido com perfeição por Ron Howard, tem ainda o mérito inequívoco de revelar grandes talentos em Daniel Bruhl e Chris Hemsworth (numa composição competente indo muito além da perfeita caracterização do super-herói “Thor”).

domingo, 16 de abril de 2017

Uma Mente Brilhante

"Você é minha razão de existir. Você é todas as minhas razões."
Embora brilhante, John Nash (Russell Crowe, em estado de graça) não conseguia se adaptar nem mesmo ao ambiente intelectual e culto da rigorosa academia à qual estudava.
Seu único amigo parecia mesmo ser o prestativo e descontraído Charles (Paul Bettany).
Apenas de uma coisa Nash era absolutamente convicto: A do quão genial ele era, e de que, em algum momento, tal genialidade o conduziria também à grandeza.
Até lá, ele dividiu-se, depois de formado, entre a vida matrimonial com sua bela esposa Alicia (a maravilhosa Jennifer Connelly), as ocasionais e cada vez mais dispersas aparições de Charles, e um trabalho ultra-secreto para o governo, na forma do ameaçador agente Parcher (Ed Harris).
Mas, havia algo de errado.
E isso pode alterar toda a percepção da realidade que Nash (e o expectador) possuía até então –a partir da extraordinária história de John Nash, um gênio da matemática cujo grave problema de esquizofrenia passou despercebido boa parte da sua vida, inclusive da própria esposa, o diretor Ron Howard constrói seu melhor e mais maduro trabalho, amparado num roteiro magnificamente bem organizado e estruturado por Akiva Goldsman.
Quando quase sucumbiu a doença, Nash decidiu contra todos os conselhos e probabilidades médicas evitar os pesados medicamentos que poderiam destroçar sua mente, para em vez disso simplesmente encontrar uma maneira de aprender a conviver com a doença.
Conseguiu viver e se recuperar para ganhar o prêmio nobel de economia em 1994.
Essa surpreendente história real (e transposta para as telas de cinema de modo a realmente preservar-se surpreendente) é o temo deste filme que, em 2001, surpreendeu público e crítica ao ganhar o Oscar de Melhor Filme, superando o favorito "Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel".
Qual produção é, de fato, merecedora do prêmio (e, para tanto, marcante na história do cinema) é passível de discussão, mas não a qualidade do trabalho de Ron Howard que entregou um filme pontuado por aspecto notáveis e momentos comoventes.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Inferno

O escritor Dan Brown criou uma fórmula, e dela se valeu para construir seus sucessos. Uma trama de suspense, tão rocambolesca que flerta com o inverossímil. Um repertório bastante interessante e francamente admirável de elementos históricos pesquisados a fundo e tão entranhados na trama mirabolante que fica difícil discernir o que é invenção fictícia do autor e o que é fato espantoso.
E seu protagonista: O cuidadosamente descuidado especialista em simbologia (e especialista em atrair para si os mais inacreditáveis apuros!) professor Robert Langdom –interpretado, em todos os três filmes até aqui, com tranqüilidade até excessiva por Tom Hanks.
A história de “Inferno” (na ordem de livros estrelados por Lagdom, diferente dos filmes, este já é o quarto), a fim de oferecer um ligeiro diferencial na trama –nas quais basicamente, Langdom é sempre recrutado para usar seus dons privilegiados de decifrador de símbolos para achar pistas ocultas nas mais diversas obras da antiguidade –começa quando Langdom concorda em um hospital, com um ferimento na cabeça e a memória toda embaralhada.
Suas roupas estão ensangüentadas e, embora se recorde de estar nos EUA, ele se encontra em Florença, na Itália.
A única pessoa que parece oferecer-lhe auxílio é a jovem médica que o atendeu, Dra. Sienna Brooks (a linda Felicity Jones, de “Rogue One”, tão no piloto automático quanto Tom Hanks) e, tal e qual todas as jovens bonitas dos outros filmes, ela passará quase toda a duração deste correndo alucinadamente ao lado do personagem de Hanks.
Como de praxe, há personagens ainda nebulosos e de intenções misteriosas no encalço de Langdom (são eles, o talentoso francês Omar Sy, de “Intocáveis”, a dinamarquesa  Sidse Babett Knudsen, e o indiano Irrfan Khan, talvez a melhor presença do elenco).
Como é mais de praxe ainda, ele logo estará decifrando uma série de enigmas cuja solução faz repousar sobre seus ombros –e dele fazer, afinal, o herói da história –a responsabilidade de salvar assim, milhares de vidas.
Regendo todos esses elementos que, somados e intensificados gradativamente ao longo dos cento e vinte e dois minutos de filme viram quase um samba do crioulo doido (!), está o oscilante diretor Ron Howard, um veterano que ora faz trabalhos de insuspeita maestria (caso de “Apollo 13”, com o próprio Hanks, “Uma Mente Brilhante”, “Frost/Nixon” ou “Rush-No Limite da Emoção”), ora realiza produções nas quais perde a mão, exagerando em vários quesitos (caso de “No Coração do Mar”, “O Código Da Vinci” e todas as suas seqüências até este daqui).
Howard adapta com relativa fidelidade a obra de Dan Brown, mas esquece de preservar o elemento que a faz antológica: Não é soma de todas as melindrosas peças de seu intrincado quebra-cabeça (cujo excesso de detalhes, já no terço final do filme começa a cansar e a irritar o expectador), mas na verdade o clima de deliciosa furtividade que ele obtém desta e daquela cena, sucessivamente, por meio das quais a trama vai avançando. Em prol de encapsular o máximo possível do livro, Howard sacrifica esses pequenos momentos inspirados e termina com um todo formulaico, apressado e esquizofrênico.
Alfred Hitchcock, em suas brilhantes obras de antigamente, soube fazer muito, muito melhor.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

No Coração do Mar

É notável perceber a evolução de Ron Howard como diretor ao longo de sua carreira.
No início, em seus primeiros filmes nos anos 1970 e 1980, ele não parecia ser levado muito à sério, certamente por ser o típico ator que arriscava sentar na cadeira de diretor. Isso se reflete em filmes bastante comerciais, despretensiosos e leves como "Splash-Uma Sereia Em Minha Vida", "Fábrica de Loucuras" ou o épico romântico "Um Sonho Distante".
Contudo, desde dessa época é perceptível um tino muito afiado dos elementos que, no final das contas, fazem um bom filme.
Howard sempre teve um indelével instinto para filmar.
Nos anos 1990, seus trabalhos já exigiam um pouco mais de respeito por parte de público e crítica, sobretudo "Apollo 13" cuja esmerada reconstituição aliada à um aparato técnico espetacular rendeu um produto que concorreu à oito prêmios no Oscar de 1995 (o de Melhor Filme, só para constar, ele perdeu para "Coração Valente"). A partir daí, era como se Ron Howard tivesse sido enfim abalizado como cineasta: Ele fez, entre outros projetos, o bom "Ransom-O Preço de Um Resgate", ganhou o Oscar em 2001 por "Uma Mente Brilhante", encarregou-se do blockbuster "O Código Da Vinci", voltou ao Oscar em 2008 com o thriller político "Frost/Nixon".
É bem provável que seu melhor trabalho seja o mais recente "Rush-No Limite da Emoção", que reconstitui a obcecada e inacreditável rivalidade entre James Hunt e Nikki Lauda no GP de 1976.
No novo "No Coração do Mar", Howard reúne-se mais uma vez com o ator daquele filme (o sempre esforçado Chris Hemsworth) para relatar, em tons poderosamente épicos, o acontecimento real que levou à criação do livro "Moby Dick".
Tudo começa com o escritor Hellmann Melville em pessoa (interpretado por Ben Whishan, o Q dos filmes de 007 com Daniel Craig) à procura de um certo senhor que, ele crê, irá lhe relatar a história que poderá render material para o seu mais extraordinário trabalho: Um livro sobre a obsessão de um capitão de navio baleeiro em busca de uma descomunal baleia branca.
De início arredio, o velho (a última testemunha dos eventos, interpretado pelo grande Brendan Gleeson na idade adulta e pelo ótimo Tom Holland, quando jovem) revela a ele passo a passo a história que envolve as personalidades conflitantes de dois homens, o capitão Pollard e seu primeiro-imediato Chase (Hemsworth, uma boa presença), e como essa dinâmica entre os dois terminou conduzindo tripulação e embarcação pelos confins dos mares do Oceano Pacífico,onde cruzaram com uma baleia branca monstruosa, e enfrentaram percalços que marcaram a vida de todos os que sobreviveram.
Não é o melhor trabalho de Ron Howard nem por um decreto; não possui o equilíbrio de "Uma Mente Brilhante", nem a objetividade pulsante de "Rush", na verdade, sua narrativa muitas vezes peca pelo peso da tensão imposta em muitos momentos, tornando-o desgastante e longo.
Mas é nitidamente uma obra que pede por um diretor no absoluto controle de seu ofício, e isso, Howard o faz com evidente primor: A fotografia, com imodesto emprego do recurso 3D, funciona que é uma beleza, o elenco de um modo geral tem uma competência uníssona, e a julgar pela dificuldade que sempre se alardeia ser o fato de filmar em alto-mar, o resultado detalhado e rico que se vê na tela, seja em ritmo e continuidade, merece ser chamado de obra de arte.
"No Coração do Mar" pode não agradar tanto aqueles expectadores que se ressentem de um trabalho menos denso e dramático (como a grande maioria dos lançamentos que se espera para as férias de fim de ano), mas não deixa de ser um espetáculo de realização.